É pra se comer bastante esta idéia de combinar gastronomia, cultura e história unidas num lugar acessível. Principalmente numa época onde as pessoas se entopem de gorduras trans e não alimentam a alma.
Sabendo que o homem não nasce da fome, mas do apetite. Te convido a conjugar o verbo comer em todas as suas possibilidades.
Um brinde a você por estar aqui! Bon apetit!!!
Eu não escondo pra
ninguém que sou formiga! Mas sou uma formiga com classe. Assim sendo, eu estava na ânsia pra comer um
bom doce, e me pus a rastrear na memória algo que eu ainda não tivesse
preparado.
A resposta pra minha
busca nem precisou me cansar a mente. Porque naquele momento eu estava ouvindo
uma das músicas que mais gosto: How can I go on, na clássica interpretação em
que Freddie Mercury & Montserrat Caballé cantaram na abertura das
Olímpiadas de Barcelona, 1992. Pronto, já tinha daí o doce que eu faria. Como?
Sempre fui encantado
pelo canto lírico – até já tinha cantando um pouco dele na época em que fiquei
4 anos em um coral da minha cidade - bons tempos... E para mim, depois de Maria
Callas, Montserrat Caballé é a maior diva dessa área. Sempre ouvi muita coisa
cantada por ela - interpretações singulares, como a da música citada
anteriormente. O fato é que, no Brasil, muita gente também curte o trabalho
dessa soprano espanhola, principalmente no sul.
E o pessoal do sul,
curtem tanto que fizeram um doce para homenagear a Montserrat Caballé. Em 1998
essa grande diva lírica veio ao Brasil para algumas apresentações, numa dessas,
em Pelotas, em 28 de março 1998, depois de sua apresentação num espaço público
daquela cidade, Montserrat Caballé foi recepcionada na residência da Família
Assumpção Gertrum – Villa Judith – onde lhe foi oferecido um jantar. Depois do
jantar, doces finos de Pelotas foram presenteados à Montserrat Caballé, e um
foi criado especialmente para ela, e lhe deram o nome de Montserrat – uma
mistura de gemas, açúcar leite condensado e nozes. Os presentes no evento
disseram que a cantora ficou imensamente lisonjeada com o carinho – e passaria
a ser eternizada também através da fina doçaria pelotense.
A fama dos doces
pelotenses já correu o Brasil todo, quiçá já os conhecem internacionalmente.
São tão importantes que neste momento já consta em andamento no Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, a salvaguarda deste
patrimônio imaterial, através do Inventário Nacional de Referências Culturais –
visando documentar a tradição dos doces finos e a tradição dos doces coloniais,
para fins de registro como patrimônio imaterial brasileiro. O INRC-Região
Doceira de Pelotas e Pelotas Antiga encontra-se em fase de registro no Livro
dos Lugares, estando sendo elaborado um documentário sobre os resultados da
pesquisa.
Devo aqui congratular
a atitude da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura Municipal de Pelotas
por ter se preocupado com a salvaguarda do patrimônio imaterial, neste caso de
origem gastronômica, quando resolveu inscrever o projeto voltado ao inventário
dos doces de Pelotas, pensando em preservar a arte doceira pelotense.
Parabenizar ainda, ao pesquisadores do Laboratório de Ensino e Pesquisa em
Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que se
dedicaram com suas contribuições acadêmica e tiveram a missão de executar o
projeto, aplicando a metodologia do IPHAN, no escopo de registrar e identificar
a arte doceira.
Enquanto o documentário
não sai, o jeito é preparar Monteserrast’s para me enfartar. Espero que vocês
façam o mesmo.
Montserrat
30 gemas peneiradas
400g de açúcar
2 colheres (sopa) de manteiga
1 lata de leite condensado
250g de nozes moídas
Preparo: Para a massa de
ovos, passe as gemas por uma peneira e junte o açúcar e a margarina. Leve ao
fogo, mexendo até desgrudar do fundo da panela. Coloque em um prato untado com
margarina e deixe esfriar. Para a massa de nozes, em uma panela coloque as
nozes e o leite condensado e leve ao fogo, mexendo até desgrudar da panela.
Passe para um prato untado com manteiga e deixe esfriar.Com a massa de ovos,
faça docinhos no formato de croquetes. Reserve.Com a massa de nozes, faça umas
trancinhas ou rolinhos de 10cm cada. Enrole cada trancinha, dando 2 voltas em
cada docinho de ovos. Passe os docinhos em açúcar cristal.
Sabe aqueles dias em
que você amanhece desejando ser da realeza, pra se esbanjar com os melhores
pratos, os mais deliciosos quitutes e sobremesas monumentais? Pois bem, hoje é
um dia desses pra mim. E toda vez que isso acontece, eu queria que existisse uma
Babette aqui em casa (Vai me dizer que você não sabe quem é a Babette, a famosa
Babette da festa?! Se você sabe de quem eu estou falando melhor dar uma
conferida sobre ela nesta postagem que eu fiz (clique aqui para ler). Mas pra você que adora um resumo [risos]) lá vai:
Quem viu o filme A
Festa de Babette já conhece a história. Numa sombria cidadezinha da Jutland,
nos confins da Dinamarca, onde todos vivem em torno da religião, a vida parece
andar lentamente. Babette (Stéphane Audran), que perdeu filho e marido na
Comuna de Paris, se refugia ali, na casa de duas bondosas e religiosas
senhoras, recatadas solteironas, filhas do falecido pastor do vilarejo. Chef de
um famoso restaurante parisiense, o Café Anglais, Babette trabalha sem
remuneração em seu exílio. Ali ela vive por quatorze anos, até que um dia fica
sabendo que ganhara na loteria a pequena fortuna de 10 mil francos. Ela pede
permissão para preparar um jantar para doze pessoas em comemoração ao centésimo
aniversário do pastor. O auge da história é o espetacular banquete oferecido a
um grupo de moradores e a um general, que representa a vida em Paris. A
princípio, os convidados ficam assustados, temendo ferir alguma lei divina ao
aceitar um requintado jantar francês, idêntico ao que Babette preparava no Café
Anglais. Só o general percebe a sofisticação do cardápio e o esmero de Babette.
O cardápio começa com a sopa de tartaruga com quenelles de vitela, acompanhada
do vinho Clos de Vougeot de 1845 e continua com a deliciosa codorniz en
sarcophage. A festa gastronômica de Babette tem o blinis demidof, servido com o
champagne Veuve Clicquot de 1860 e vinho amontilado. À medida que as pessoas
experimentam as delícias que Babette preparou não só o paladar se modifica,
mas, aos poucos, a sisudez permanente dos comensais vai se tornando, através da
degustação, num prazer imenso pela vida. Desabrocha em todos uma alegria jamais
vista naquele cantinho gelado do planeta. A sobremesa baba ao rhum faz com que
antigos rivais confraternizem e a sensualidade rola solta por toda a
inesquecível noite da "Festa de Babette". A maestria com que é
preparado o jantar e o requinte com que é servido compõe um ritual de
descoberta do prazer que desinibe o espírito. O vinho não só é degustado,
identificado pelo general Lorenzo, que no filme funciona como ponte entre as
duas culturas. A Festa de Babette é o desabrochar da alma, na descoberta do
prazer sem culpa.
A festa de Babette é
para mim é um dos melhores filmes sobre gastronomia que já foi feito até o presente momento. E
foi pensando nele que eu fui atrás de uma história com algumas semelhanças,
onde um jantar esplendoroso pudesse ser preparado. E eu encontrei.
Eu sempre tenho uma
mania de ficar imaginando o que o povo tem comido em situações importantes da
história – e vez por outra eu sempre acabo encontrando. Então, pensando na
Babette, convido-lhes a passear comigo pelo Café Anglais de Paris, nos seus
áureos tempos.
O Café Anglais nos seus áureos tempos
Foto do Café Anglais pouco antes de sua desativação.
Atual La Tour D'Argent
La Tour D'Argent - atualmente
O Café Anglais,
criado em 1802, na esquina da Rua Grammont e Boulevard des Italiens, inicialmente
preparava seus serviços que poderia ser entendido como “des déjeuners à la
fourchette (do café da manhã com um garfo )". Inicialmente teve sua
clientela composta por cocheiros e servos de atrizes em voga da época. Em 1822,
seu novo proprietário, Paul Roebuck, o transformou num um restaurante elegante,
famoso por seus assados e grelhados.
Foi com a chegada de
Adolphe Dugléré (1805-1884) que o Café Anglais adquiriu uma reputação elevada
para a gastronomia e tornou-se frequentado pelo mundo das finanças e por todos
os ricos de Paris – e do mundo.
A casa foi demolida
em 1913, mas a sua adega e les boiseries
du Grand Seize, sala privada onde se encontraram os líderes mundiais, foram
resgatadas por André Terrail, proprietário do La Tour d'Argent, que havia se
casado com a filha do último proprietário.
Durante a Exposição
Universal de 1867, o Café Anglais, teve todas as suas noites com vagas
esgotadas. Adolphe Dugléré, um estudante do famoso Careme, oficiava o comando
dos fogões.
Guillaume I, o rei da
Prússia frequentava e apreciava bastante o Café Anglais, especialmente por sua potage Germiny e certa vez convidou para
um jantar reservado Alexander II, o czar de toda a Rússia - além de seu filho,
o tsarevitch (que mais tarde se tornou o czar Alexander III); e o príncipe Otto
von Bismarck, todo visitando Paris para a Exposição Universal. Este jantar foi chamado: Jantar dos Três
Imperadores.
Guilherme I
Alexander II
Alexander III
A noite de 7 de junho
de 1867 prometia ser maravilhosa. Os painéis de mogno e nogueira do Café
Anglais reluziam, decorados com espelhos recobertos com folhas de ouro, sofás e
namoradeiras cobertas com veludo vermelho esperavam os convidados para que
começasse o cerimonial á mesa. Para a ocasião, o imperador pediu que o chef
Dugléré preparasse um menu que, seus convidados deveriam lembrar como
inesquecível. E o resultado foi sublime.
Por mútuo acordo, a adega mestre Claudius
Burdel foi o responsável para harmonizar
os pratos com os melhores vinhos do mundo. Imagine os vinhos, um madeira de
retorno da Índia (vinhos fortificados foram embarcados em barcos para fazer a
sua rota de viagem para a Índia, e ao mesmo tempo permitir-lhes melhorar sua
idade), um xérès de 1821, um château Yquem 1847, um champagne Roederer, um
Chambertin 1846, um Margaux 1847, um Château Latour do mesmo ano do anterior, e
finalmente Château Lafite 1848. Esta seleção exclusiva de vinhos permitiu
Claudius Burdel tornar-se, após a refeição, o comprador oficial de vinho das
três principais cortes da Europa.
Durante as oito horas
que tiveram a música de câmara daquele século preenchia a refeição e os
charutos preenchiam os intervalos de espera.
Uma surpresa enorme ocorreu ali, por cerca de uma hora da manhã, o czar
Alexandre II reclamou Burnel se ele não poderia provar o foie gras. Um homem sábio que era, Burnel respondeu: "Senhor,
não é habitual na cozinha francesa, servir foie gras em junho". E
Alexander II teve que se contentar com o comentário. (No entanto, em outubro daquele ano, o czar
recebeu um presente de três terrines de foie
gras feito para ele pelo Chefe do Café Anglais, Adolphe Dugléré.
Exclusivamente feito à base de fígado de ganso, esta receita única foi
ricamente temperada com a trufa negra de Perigord. Sendo marinado no Porto com
especiarias, o foie gras depois foi
cozido por várias horas. Transformando-se numa textura delicada com um aroma
cheio de complexidade. A receita desse foie
gras é mantida até hoje. E no Tour D’Argente recomenda-se que seja servido com
brioche com manteiga salgada e acompanhado por duas geleias ou por um Porto ou
Sauternes (imagem dessa maravilha abaixo).
O czar, um ávido
amante do Champagne Roederer, fez um acordo com esta casa de vinhos e solicitou que seus enólogos projetassem uma
garrafa de champanhe especial que lhe permitisse ter uma visão cristalina da
magnificência deixada pelas bolhas da bebida – sem contar que ele desejava uma
garrafa de fundo plano, que lhe permitisse ver bem o conteúdo. O medo de ser
envenenado devia ser grande. Mas seu desejo foi atendido e ele sempre bebia
daquele champanhe com garrafa especial.
O banquete consistia
de 16 pratos harmonizados com oito vinhos servidos ao longo de oito horas. O
custo da refeição foi de 400 francos por pessoa (mais de € 9.000 nos valores de
2013).
O Menu
Potages
Potage impératrice - consiste em um caldo de frango engrossado
com tapioca e finalizado com gema de ovo e creme, para que arredonda escalfados
de frango, crista e rins de galo e ervilhas ainda foram adicionados.
Potage Fontanges - um purê de
ervilhas frescas diluídas com consommé com a adição de um chiffonade de azeda
(Rumex acetosa) e raminhos de cerefólio (conhecido também como Chervil
[Anthriscus cerefolium]).
Relevés
Soufflé à la reine - é um suflê de
frango com trufas
Filets de sole à la
vénitienne
– Filés de sole(tipo de peixe) com um molho de vinho branco, vinagre de
estragão, cebolinha e cerefólio, montado com manteiga e terminou com cerefólio
picado e estragão.
Escalope de turbot au
gratin
-
Selle de mouton purée
Bretonne
- carne de dorso do borrego com puré de
favas e molho de Bretão
Entrées
Poulet à la
portugaise
- rango inteiro assado com uma cobertura de pasta de composta por tomate,
pimentão vermelho, alho, Oregano, páprica, pimenta caiena, açúcar mascavo, suco
de limão, vinho branco, caldo de galinha e azeite de oliva, servido com tomate
recheado com arroz.
Pâté chaud de cailles – codornas assadas
com massa Chaud
Homard à la
parisienne
- Lagosta à la parisienne, lagosta
cozida no próprio caldo, servida com uma guarnição de tomate recheado com de
vegetais da macedônia , vestida com uma mistura de maionese e aspic e decorado
com trufa cortada.
Digérer
Sorbets au champagne – sorvete ao
champanhe
Rôts
Canetons à la
rouennaise
- um prato de patinho assado recheado. As pernas e o peito são removidos, as
pernas são grelhados e o peito são cortados em fatias finas e dispostas ao
redor do recheio. A carcaça restante é prensada em uma prensa de aves para
extrair todos os sucos e é adicionado a um molho Rouennaise, que é derramado
sobre o pato fatiado. (Este prato é hoje a especialidade da casa em La Tour
d'Argent.
Ortolans sur canapés – ortolans assadas
servidas com torradas 9hoje estas aves são protegidas por lei para evitar sua
matança)
Entremets
Aubergines à
l'espagnole
- Beringelas à l'espagnole é um prato de cascas de beringela recheada com
berinjela picada, tomate e presunto, gratinada com gruyère.
Asperges en branches -
Cassolette princesse - (aka Cassolette Argenteuil),
A cassolette com uma borda de batatas duchesse e aspargo preenchida de molho de
creme.
Dessert
Bombe glacée – bomba glaceada
servida com sorvete.
Fruit
VINS
Madère retour de
l'Inde 1810
Xérès 1821
Châteaux d'Yquem 1847
Chambertin 1846
Châteaux Margaux 1847
Château Latour 1847
Châteaux Lafite 1848
Champagne Roederer
frappé
O chef australiano
Shannon Bennett tentou recriar o banquete em 2002. Levou seis meses para
planejar e exigiu algumas alterações devido aos ingredientes-chave e os vinhos
não estão mais disponíveis. Mesmo usando os ingredientes mais próximos
equivalentes modernos e vinhos, o custo da refeição foi de US $ 7.500 por
pessoa. A Australian Broadcasting Corporation transmitir o documentário Três
Imperadores Jantar sobre o banquete original e a recriação moderna, em 2003.
Shannon Bennett
Mas aí, seria
tudo muito ruim se essa história
acabasse por aqui. Então, pra você se sentir no jantar, ou pelo menos, num
pedacinho dele, escolhi um dos pratos pra postar a receita. E antes que você
pense que as coisas são difíceis de achar, já aviso, não são. Espere um momento
especial e prepara esta maravilha.
Homard
à la parisienne
Para o
cozimento da lagosta
3 litros de agua
50 cl de vinho branco
1 cenoura
1 cebola
1 ramo de salsa
1 bouquet garni
Sal e pimenta a gosto
2 lagostas de bom tamanho
Para a
montagem
2 lagostas cozidas, partidas ao meio (com conchas
duplas) e as garras retiradas
4 cenouras cozidas, cortadas
4 onças ervilhas cozidas
4 onças vagem cozida no vapor, cortada
1 batata grande cozida, cortada em cubos
1/2 colher de chá de sal
1/2 colher de chá de pimenta do reino
4 colheres de sopa de maionese
2 colheres de sopa de creme de leite
4 tomates, fatiado
2 ovos cozidos, cortados
Azeitonas pra decorar
Folhas de sua preferência
Preparo: Para cozinhar a lagosta: Prepare a água do
cozimento numa panela funda com os 3 litros de água, o vinho branco, a cenoura
e a cebola em fatias e a salsa picada; Adicione o bouquet garni, o sal e a pimenta.
Deixe a mistura ferver por trinta minutos. Mergulhe as lagosta inteiras no líquido
fervente e deixe cozinhando por 25
minutos. Depois isso retire as lagostas,
despreze o caldo (ou invente algo pra fazer com ele, como um risoto, por
exemplo). Para as lagostas ao meio e a carne retirada cuidadosamente e cortada
em medalhões de um centímetro. As garras também devem ser retiradas para a decoração
do prato. Com a carne já fatiada, lave as cascas da lagosta partidas ao meio e
seque-as cuidadosamente com toalhas de papel de cozinha. Reserve. Coloque a
carne de lagosta em uma tigela de tamanho médio e adicione as cenouras, as ervilhas,
a vagem, a batata, o sal, a pimenta, a maionese e o creme de leite. Misture
delicadamente. Recheie as conchas com a mistura e organize no prato que será
servido. Decore com tomates, ovos, azeitonas, as garras da lagosta e algumas folhas verdes – e com o que mais lhe vier a cabeça. Sirva em seguida.
Sei que alguns
confrades podem estar se perguntando o que tem acontecido comigo para
justificar as poucas publicações no blog recentemente. De fato, muita coisa
aconteceu, mas o que importa é que, entre um obstáculo e outro, estou aqui
novamente trazendo mais uma delícia gastronômica.
Desta vez para dar
uma sugestão encantadora para aqueles que estão procurando algo atraente e
delicioso para homenagear sua mamãe no dia dela, neste feriado de maio que se
aproxima. De antemão, acredito que vai ter gente reclamando da receita, porque
hoje em dia as pessoas querem se deleitar com algo diferente mas, não querem
ter trabalho.
E mesmo com a
praticidade globalizada do mundo que envolve as padarias e confeitarias de
hoje, raramente se encontra algo que realmente impressione o paladar – é tudo a
mesma coisa, com o mesmo gosto... E eu acho inteiramente prazeroso uma aventura
na cozinha, enquanto as pessoas fogem dela, como o diabo foge da cruz, e lotam
as padarias de encomendas – e isso, no fim das contas, faz com que a grande
maioria coma aquele velho “bolo de padaria”. ( Não estou aqui reclamando das
padarias/confeitarias, acho até que isso é uma solução rápida e prática para os
que não se preparam pra certas ocasiões. O problema é que com esta facilitação
as pessoas não estão dispostas a fazer um prato com todo o carinho que a época
merece...)
Por este motivo hoje
eu vim dar uma de minhas contribuições para aqueles aventureiros audaciosos, de
uma forma ou de outra, já estão querendo impressionar com uma surpresinha culinária.
E para tanto fui me inspirar num costume de um império que me deslumbra até
hoje.
A minha ligação com o
Império Austro-Húngaro é quase inexplicável. Admiro muitas coisas daquele
tempo; personagens ilustres que me remetem a histórias incríveis; os clássicos
cafés de Viena; uma cultura cheia de música, banhada pelo Danúbio, elegante e
requintada que espalhou pelo mundo, dentre as realezas, muitos de seus nobres –
inclusive pelo Brasil.
Eu poderia ficar
horas divagando essa minha admiração, sobretudo por Viena, Áustria, mas quero
ser sucinto, tentando achar um vetor que possa simplificar toda esta admiração.
E eu encontrei o que procurava em hábito daquele povo que perdura até os dias
atuais.
Dentre os muitos
costumes austro-húngaros relatados por muitos historiadores, um deles me
encanta muitíssimo, por motivo obvio: eu sou formiga! (Vocês que me acompanham
já sabem bem disso)... Mas como eu ia dizendo, eu repito, dentre os costumes
austro-húngaros existe um (talvez o meu
preferido) que trata da importância de
oferecer doces às visitas, como um gesto carinhoso de boas-vindas e “Volte
sempre”.
O que me deixa mais
excitado é que a confeitaria austro-húngara é considerada como uma das mais
refinadas do mundo. Tanto que muito dos doces franceses são construídos em cima
de técnicas e de receitas austríacas. E existem muitas referencias históricas
ao Império dos Habsburgos que estão associadas à tradição da confeiteira – como
a criação da Dobostorte, que foi primeiramente ofertada ao imperador Francisco José
I e à imperatriz Elisabete (“Sissi”), e que depois viajou por toda a Europa e
hoje é motivo de festa na Hungria – ela faz meus olhos brilharem como diamantes
e minha barriguinha agradece.
Sissi, Imperatriz.
Dobosh ou Dobos Torte
foi introduzido pela primeira vez na Exposição Geral Nacional de Budapeste, em
1885, e o imperador Franz Joseph I e sua Imperatriz Elisabeth foram os
primeiros a se deliciarem com seu gosto. A torta logo se tornou popular em toda
a Europa, porque era diferente de todas as outras. Era simples e elegante e com
multicamadas. Um outro segredo era o seu recheio, feito com base num creme de
manteiga com chocolate que era pouco conhecido naquela época – àquele tempo os
recheios de bolos e as coberturas eram feitos geralmente com creme de
pasteleiro ou chantilly. O creme de manteiga e chocolate e a massa do bolo
foram ambos inventados por Jozsef C. Dobos.
O criador - József C. Dobos (1847–1924)
A criatura - Dobostorte (versão mdoerna)
Dobos viajou pela
Europa e introduziu a torta por onde quer que fosse. Por um longo tempo ele
manteve a receita confidencial, até 1906 quando se aposentou e deu a receita
original para o Budapest Confectioners' and Gingerbread Makers', Chamber of
Industry (Conselho de fabricantes de Gingerbread e Confeiteiros de Budapeste,
na câmara da indústria de Budapeste), com a recomendação de que qualquer membro
daquela associação estaria livre para usá-lo. Dobos Torte é conhecido em todo o
mundo e há mais de uma centena de variações da receita. É uma torta comumente
encontrada em hotéis de luxo, restaurantes e confeitarias luxuosas pelo mundo. (Outra famosa sobremesa húngara criada na mesma época é o Rigo Jancsi, com características
particulares, já publiquei sobre ele Clique aqui para ler.
A receita original para Dobos Torta
Dobos cake at Gerbeaud Confectionery Budapest, Hungary. Photo by Bruce Tuten
Ao confeiteiro e
escritor erudito József C. Dobos (1847-1924) – credita-se a invenção do
primeiro bolo com creme de manteiga (1885) onde durante uma exposição em
Budapeste. Seu objetivo principal na criação d Dobostorte era projetar um bolo
que poderia ter uma vida útil mais longa do que os bolos normais, naqueles
tempos, refrigeração ou quaisquer técnicas de arrefecimento eram em sua maioria
estrangeiras e ainda caras- ou raras; Assim, o caramelo, que é uma parte
integrante do bolo, foi introduzido na receita com o único propósito de impedir
que o alimento secasse.
A receita
original de József C. Dobos está escrita em húngaro e segue abaixo:
„1 db. 22 cm átmérőjű
tortához kell 6 db piskótalap. Receptje: 6 tojássárgáját jól kikeverünk 3 lat
(5 dkg) porcukorral, 6 db tojásfehérjét felverünk habnak, jó keményre, 3 lat (5
dkg) porcukorral, utána összekeverjük a kikevert sárgáját, 6 lat (10 dkg)
liszttel és 2 lat (3 és fél dkg) olvasztott vajjal. Egy tortához szükséges krém
összeállítása: 4 db egész tojás, 12 lat porcukor (20 dkg) 14 lat (23 és fél
dkg) teavaj, 2 lat szilárd kakaómassza (3 és fél dkg), 1 lat vaniliáscukor (1,7
dkg) 2 lat kakaóvaj (3 és fél dkg), 1 tábla csokoládé (20 dkg). A fenti 4
tojást, 12 lat porcukrot gázon felverünk és ha meleg, addig keverjük a gázról
levéve, amíg ki nem hűl. 14 lat vajat jól kikeverünk, 1 lat vaniliáscukrot
teszünk bele, 2 lat olvasztott kakaóval és 2 lat olvasztott kakaóvajjal
összekeverjük, a 12 lat felmelegített puha állapotában levő táblacsokoládét is.
Ezután a hideg tojásos masszával összeöntjük és jó átkeverés után 5 lapot
összetöltünk, a hatodikat áthúzzuk dobos cukorral és 20 részre vágjuk ” – Dobos C. József: A Dobostorta receptje
A dobostorte foi umas
das sobremesas da moda no século XIX. Sabe- se que o Sr. Dobos aprendeu o
oficio de confeiteiro com o pai, dono de uma famosa loja em Budapeste,
especializada em alimentos gourmet (empreendimento que , por sinal, ganhou a
confiança dos clientes luxuosos com seus cuidados no transporte de alimentos. A
loja rotineiramente se caracterizava pela variedade de produtos finos, como ter
por exemplo mais de 60 tipo de queijos importados, assim como vinhos
estrangeiros, pães, etc. O perfil elevado do empreendimento, continuou quando Dobos
herdou o mesmo do pai, muitas vezes o levou à exposições internacionais de
alimentos, de modo que ele se tornou, por sua vez, o que nós consideramos hoje
em dia como um chef celebridade/ empresário de alimentos.
Numa dessas
exposições, com uma criação inovadora, Dobos resolveu dar seu próprio nome para
batizar uma torta elegante, onde um creme de manteiga com chocolate fez toda a
diferença - num momento em que a maioria dos bolos recebia glacês de chantilty
ou cremes cozidos, ou ainda uma mistura de cremes.
Sabe-se ainda que
Dobos trouxe a receita do creme de manteiga com ele a partir de uma de suas
muitas viagens exploratórias - neste caso, uma viagem pela França - e, pouco
depois introduziu o bolo na Exposição Geral Nacional de Budapeste, em 1885, como
dos produtos diletos de sua loja. Devido a toda essa publicidade (por isso se
tornou um favorito do Imperador e Imperatriz da Áustria-Hungria), pessoas em
cidades de toda a Europa começaram a pedir a torta, mas se recusou a Dobos
licenciar a receita.
Café Gerbeaud em Budapeste, um dos melhores melhroes confeitarias e casas de café da Europa.
Em vez disso. Dobos
desenvolveu um recipiente especial para que ela pudesse ser seguramente
transportada, e "o bolo com a receita secreta" logo começou a
aparecer em todas as grandes capitais europeias.
Na verdade, na
verdade Dobos excursionou com o bolo, pessoalmente, introduzindo-o em cidade
após cidade, até o momento em que resolveu doar a recita e fazer com que ela se
espalhasse ainda mais pelo mundo.
A torta em si é
simples de fazer. Trata-se de seis camadas de massa individualmente assadas (há
alguma controvérsia sobre isso, mas a receita original, em Budapeste, diz que
se deve usar cinco camadas finas de massa, e que estas nunca devem ser cortadas
de único bolo); o creme de manteiga com chocolate deve ser feito com o melhor
chocolate; e uma camada de caramelo cristalizado que cobre a torta deve estar
impecável.
Com isso, deixo aqui
o desafio de vocês, caros amigos, se aventurarem nesta empreitada para fazer
esta torta. Sei que existem por ai algumas versões comerciais dela, mas não é a
mesma coisa. Então boa sorte e bom trabalho para aqueles que resolverem se
aventurar, e me mandei fotos dos seus experimentos.
Dobostorte
Ingredientes:
Massa:
Manteiga para untar
6 ovos, separar gemas das claras
2/3 xícara de açúcar de baunilha *
1 xícara de farinha de trigo peneirada
Creme
de manteiga e chocolate:
180 gramas de chocolate meio amargo
3 colheres de sopa de café forte
1 xícara de manteiga
1 xícara de confeiteiro abaunilhado
3 ovos
Esmalte
de caramelo
1 xícara de açúcar granulado
Preparo: * BAUNILHA AÇÚCAR -
Açúcar granulado de baunilha ou açúcar de confeiteiro baunilha 'deve ser usado
como indicado. Ele dá um sabor muito mais delicado do que o açúcar, por ter
extrato de baunilha, já a encontra-se pronto em supermercados. Mas se você não
tem açúcar de baunilha à mão, inclua no açúcar algumas gotas de extrato de
baunilha. Bolo: Prepare seis
assadeiras de 22cm de diâmetro e 9 polegadas de altura (aquelas formas
baixinhas, tipo de pizza) para assar a massa: corte 6 círculos de papel manteiga
e unte-os com manteiga na parte inferior de cada um. Reserve. Pré-aqueça o
forno a 400 graus. Bata as claras em neve com uma pitada de sal até espumar;
continue batendo até obter picos firmes. Reserve. Usando uma batedeira, bata as
gemas e o açúcar juntos até virar uma espuma clarinha e espessa. Em seguida
misture a farinha que deve ter sido peneirada e bata até crescer de volume. Com
isso feito desligue a batedeira e com uma colher misture as claras com cuidado
até a massa ficar leve e uniforme. Divida a massa igualmente nas seis formas
anteriormente preparada e leve ao forno para assar durante 10 a 12 minutos ou
até que o bolo comesse a mudar de cor. Depois de assados desenforme
cuidadosamente, retire o papel manteigas e reserve. Creme para o Recheio e cobertura: batas os ovos com o açúcar em
banho-maria até ficar bem quente, cuidado pra não virar omelete. Em seguida
coloque a mistura na batedeira e bata até virar uma espuma leve. Derreta o
chocolate com o café e a manteiga em banho-maria, reserve. Quando a mistura de
ovos e açúcar estiver espessas junte o chocolate derretido e bata mais até
virar um creme leve e macio. Mantenha-o na geladeira até a hora de usar. Montagem: intercale uma camada de massa
com o recheio do crme de manteiga e chocolate até completar as seis
camadas. Cubra a torta com o restante do
recheio. E reserve. Esmalte: Corte
um circulo de papel manteiga do tamanho da forma em que assou as massa, passei
manteiga num dos lados e reserve. Derreta o açúcar até ponto de bala, desligue
o fogo e derrame a calda ainda quente sobre o circulo de papel amanteigado,
espalhe com uma espátula e deixe esfriar (caso queira pode cobri diretamente o
bolo fazendo sua ultima camada só com o esmalte). Ainda morno, Com uma faca
oleada ou manteiga, rapidamente cortar a camada de caramelo em triângulos (dá
uns 12 ou 16) antes de o caramelo endurecer. Com eles secos, retire do papel e
decore a torta.
Sabe que eu estou,
realmente, gostando desta visibilidade que o Papa Francisco I tem ganhado na
mídia atualmente. Isso permite meu pensamento divagar nas ideias mais absurdas
para uma postagem.
Uma dessas ideias
absurda surgiu pensando nos escândalos sobre pode e homossexualidade no
Vaticano. Essa história toda de homossexualidade n o Vaticano, é antiga. Tão
antiga quanto a homossexualidade dos imperadores romanos. Mas a hipocrisia das
pessoas não as permite admitir o fato - que existe no mundo desde os mais
remotos tempos e que, inicialmente, era tido como uma virtude (daqueles que
tinham o amor verdadeiro).
Isso me levou a tratar
aqui, hoje, sobre um personagem imperial da história romana que misturava, ao
mesmo tempo, poder, homossexualidade e paixão pela gastronomia exótica: o
imperador Heliogábalo.
Busto de Heliogábalo - Museu Capitolino
Antes, porém, de falar sobre este imperador, vamos dar
um passeio pelos grandes excessos gastronômicos da história.
Banquete -mosaico romano
Sabemos que os
romanos possuíam um termo para designar suas suntuosas reuniões gastronômicas –
eles as chamavam de convivium. Aos
romanos (olha eles aí de novo!) deve-se ainda a associação de banquete com
todos os excessos, a começar pelos gastronômicos. Na Roma Antiga a gula era
considerada normal, pois os romanos festeiros como eram, participavam às vezes
de mais de uma festa por dia. Caso não se comesse a fartar-se seria considerada
uma ofensa para o anfitrião. Assim, existia nas residências até mesmo a figura
do vomitódromo: um lugar destinado ao vômito dos convivas que, para não ofender
o anfitrião comiam, provocavam o vômito e comiam novamente. Isso era o usual
naquela época.
Mas, mesmo os romanos
com suas faustosas reuniões gastronômicas, vem da Mesopotâmia o maior banquete de
todos os tempos. Preparado pelo soberano Asurbanipal II, que ocupou o trono
entre 883 a.C. a 859 a.C. seu banquete durou dez dias e teve 69.574 convidados –
como conta o historiador inglês Roy C. Strong em seu livro Feast, A History of Grand Eating, publicado no Brasil com o título
Banquete - Uma História Ilustrada Culinária dos Costumes e da Fartura à Mesa
(Jorge Zahar Editora, Rio de Janeiro, 2002).
A pretexto de
comemorar a reformulação urbanística da antiga cidade de Kalah (no território
do atual Iraque) e com a construção de seu novo palácio, Asurbanipal II ofertou
aos convivas 10 mil peixes, 2 mil bois, 1.400 cabritos, mil carneiros e por aí
afora, sem negligenciar a sede alheia. Foram 10 mil jarras de cerveja e igual
quantidade de vinho. Talvez tenha faltado bebida, insuflando reclamações
comezinhas. Fato é que, apesar dos esforços de Asurbanipal II, os romanos
levaram a fama de maiores promotores de ceias ritualísticas, embora tenham
assimilado a ideia dos gregos e estes dos egípcios.
Não há como negar que
os césares e seus sucedâneos promoveram alguns dos mais extravagantes banquetes
da história, sempre repletos de muita comida, da embriaguez do vinho, repletos
de luxuria - para relaxar os entraves do superego. No romance Satyricon,
Petrônio (27-66 d.C.) relata um jantar com acrobatas, atores declamando em
grego e meninotes intrépidos, lavando os pés dos convivas. Luxúria? Pois a
realidade ganhava da ficção.
O imperador Vitélio
(15-69 d.C.), glutão compulsivo e devasso em tempo integral, chegou a devorar
1.200 ostras, ainda no hors d'ouvre.
Ele banqueteava-se três
ou quatro vezes por dia, ou seja, de manha, ao meio dia, de tarde e â noite - a
última refeição era principalmente uma bebedeira -, e sobrevivia a este ordálio
tomando eméticos com frequência. O pior é que costumava convidar para esses
banquetes nas casas de varias pessoas diferentes no mesmo dia, e eles nunca
custavam a seus vários anfitriões menos q quatro mil peças de ouro casa. A
festa mais famosa da série lhe foi oferecida pelo irmão, quando ele entrou em
Roma; diz-se que foram servidos dois mil peixes maravilhosos e sete mil pássaros
selvagens. No entanto, mesmo isto dificilmente se comparava em matéria de luxo
a um único prato imenso que Vitélio dedicou à deusa Minerva e que chamou de
"Escudo de Minerva, a protetora da cidade". A receita incluía fígado
de lúcio, miolo de pavão, língua de flamingo e vesícula de lampreia; e os ingredientes,
reunidos de todos os cantos do Império, das fronteiras de Pártia aos estreitos
da Espanha, foram levados a Roma por capitães das trirremes. (STRONG,2002, p.
38-39)
Tigelino, comandante
da guarda pretoriana, certa vez organizou um jantar para Nero (verão de 64)
encenado no meio de um lago artificial onde os convidados reclinavam-se sobre
tapetes e almofadas numa grande jangada rebocada por barcas enfeitadas de ouro
e marfim e tripula por exoleti (‘meninos
alegres’) escolhidos deliberadamente por suas habilidades lascivas. Não
bastasse esta extravagancia, ele mandou povoar o bosque q cercava o lago com
pássaros e animais exóticos, e na beira d'agua havia pavilhões e bordeis.
Nero, em 54, num
banquete para comemorar seus 17 anos, tentou gracejar com Britânico, filho
natural do imperador Tibério, pedindo-lhe que cantasse para as pessoas
reunidas. Britânico, atendeu ao pedido escolhendo uma canção que falava de sua
própria expulsão da casa do pai e do trono. Na festa seguinte Nero envenenou-o
à mesa.
Provavelmente a
reunião gastronômica mais estranha do império romano foi o banquete oferecido
pelo imperador Dominicano, que escolheu
para isso o tema inferno.
Pediu-se as
convidados que não se fizessem acompanhar pelo habitual escravo. ao lado de
cada comensal havia uma pedra tumular como o nome do convidado. O banquete era
iluminado por lâmpadas votivas, do tipo que se pendurava nos túmulos, e a
comida, toda preta se assemelhava aos pratos sacrificiais oferecidos aos manes
dos mortos e escoltados para casa por escravos desconhecidos: o que os fez
suspeitar que haviam sido escolhidos para se tornarem as novas vitimas da sede
de sangue do imperador. em vez disso, no entanto, foram chamados de volta para
um segundo banquete, ao término do qual receberam presentes caros. (STRONG,
2002.p. 39-40)
Heliogábalo (204-222 d.C.) era outro
exagerado. O imperador romano pós-Cristo Sexto Vário Avito Bassiano (em latim Sextus Varius Avitus Bassianus), mas ao
tornar-se imperador, adotou o nome de Marco Aurélio Antonino (em latim Marcus Aurelius Antoninus)., conhecido
como Heliogábalo (204-222) {Apenas recebeu o cognome de Heliogábalo após a sua
morte. Durante a sua juventude, serviu como sacerdote do deus El-Gabal (em latim Elagabalus) na cidade natal da família de sua mãe, Emesa.
Áureo romano representando Heliogábalo. A parte de trás diz Sanct Deo Soli Elagabal (Para o Santo Deus Sol Elagabal), e mostra uma quadriga dourada a carregar a pedra sagrada do templo de Emesa.
Foi um tirano na
linha de Nero (37-68) e Calígula (12-41), e cometeu inúmeras extravagâncias à
mesa. Em um dos muitos banquetes que promoveu, serviu aos seus seiscentos
convidados: ervilhas misturadas com grãos de ouro, lentilhas com pedras
preciosas, feijões enfeitados com âmbar e peixe com pérolas. Em outro, dizem
ter criado um prato com seiscentas cabeças de avestruz.
Heliogábalo apreciava
lírios, narcisos, rosas e violetas. Muitas vezes, de madrugada, após um régio
banquete, uma chuva de pétalas de rosas e violetas caía sobre seus convidados.
Alguns, já bêbados, morriam asfixiados. Deliciava-se com pétalas de violetas
tostadas com rodelas de laranja e limão. Costumava mandar encher as banheiras
públicas com água de rosas e, em seu palácio, algumas salas eram decoradas com
tapetes de flores. Ao mesmo tempo em que distribuía absinthiatum, a famosa “fada verde” dos dias de hoje, ao povo,
alimentava seus cães e leões com faisões, pavões e com fígados de ganso. Isto
mesmo, foie gras.
Em seus banquetes,
podiam-se esperar por pratos exóticos, vinho aos borbotões e o corolário de
intermináveis bacanais, nos quais o imperador preferia a companhia dos
mancebos. Nestas reuniões sabe-se que serviam-se pés de camelo, cristas de galo
e línguas de rouxinóis. Certa feita, Heliogabalo fez chegar aos convivas um
prato com mais de mil línguas de flamingos.
As Rosas de Heliogábalo
Heliogábalo costumava
promover festas em que durante a madrugada uma chuva de pétalas de rosas e
violetas caía sobre os convidados. Alguns, já bêbados, morriam asfixiados. Mas
isso era uma extravagância do imperador. Este episódio ficou imortalizado na
obra As Rosas de Heliogábalo (em inglês The
Roses of Heliogabalus), pintura de Sir Lawrence Alma-Tadema (1836–1912), um
artista holandês que viveu na Inglaterra. O quadro data de 1888, e atualmente
faz parte de uma coleção privada.
As Rosas de Heliogábalo (1888), pelo acadêmico Anglo-Holandês Sir Lawrence Alma-Tadema.
A obra foi baseada
num episódio inventado retirado da Historia
Augusta, onde o imperador romano Heliogábalo (204-222) é retratado
assistindo a uma tentativa de sufocar seus convidados com uma enorme quantidade
de pétalas de rosa que caiam de um teto falso durante um jantar. No primeiro
plano da pintura, o destaque são os convidados reclinados, cobertos com
pétalas. Ao fundo, Heliogábalo é visível com um manto e uma coroa de ouro,
junto com sua mãe Julia Soemia. Atrás deles, há um tocador de flauta (tíbia) e
uma estátua de Dionísio.
Sabe-se que Heliogábalo,
ainda mandava encher as banheiras públicas com água de rosas. Em seu palácio,
algumas salas eram decoradas com tapetes de flores. Além das rosas, o imperador
apreciava violetas e em sua cozinha preparava-se um manjar muito especial:
pétalas de violetas tostadas com rodelas de laranja e limão. Foi Heliogábalo o
inventor dos almofadões perfumados sobre os quais se deitavam seus convidados.
Mas nem sempre ele os tratava com tanta gentileza.
Mais sobre heliogábalo
Heliogábalo nasceu em
203 d.C como Vário Avito Bassiano na família de Sexto Vário Marcelo e de Júlia
Soémia Bassiana. O seu pai era inicialmente um membro da classe equestre, mas
foi mais tarde elevado ao cargo de senador. A sua avó Julia Mesa era a viúva do
Cônsul Júlio Avito, a irmã de Júlia Domna, e a cunhada do Imperador Septímio
Severo. Júlia Soémia era uma prima do Imperador Caracala. Outros parentes incluíam
a sua tia Júlia Avita Mamea e tio Marco Júlio Gessio Marciano e o filho deles,
Alexandre Severo. A família de Heliogábalo tinha direitos hereditários ao
sacerdócio do deus sol El-Gabal, sendo Heliogábalo o alto sacerdote em Emesa
(atual Homs) na Síria.
A divindade El-Gabal
foi inicialmente venerado em Emesa. O nome é latinizado da forma síria Ilāh
hag-Gabal, El refere-se à divindade suprema Semítica, enquanto que Gabal
significa montanha (comparar com o Hebraico גבל gevul e Árabe جبل jebel), o que
resulta em Deus da Montanha é a manifestação divina de Emesa. O culto ao deus
propagou-se a outras partes do Império Romano no século II, como por exemplo,
uma consagração foi encontrada na distante Woerden (Países Baixos). O deus foi
mais tarde importado e assimilado com o deus romano do Sol, conhecido como Sol
Indiges em tempos republicanos, e mais tarde Sol Invictus durante os séculos II
e III. Na Grécia, o nome do deus sol era Helios, e consequentemente, adotou-se
Heliogábalo.
Heliogábalo, Sumo Sacerdote do Sol (1866), pelo decadente Inglês Simeon Solomon, a uma certa altura um amigo próximo de Algernon Charles Swinburne.
Posteriormente,
diversos historiadores acreditam hostilmente que Heliogábalo mostrou
desrespeito às tradições religiosas romanas e tabus sexuais. Heliogábalo
substituiu o tradicional deus Júpiter no Panteão Romano pelo deus El-Gabal, e
forçou membros importantes do governo de Roma a participarem em rituais que
celebravam esta divindade, liderados por ele próprio. Casou-se cinco vezes,
levando favores dos bajuladores masculinos que se pensava popularmente terem
intenções de serem seus amantes, e diz-se que se prostituía no palácio
imperial. Seu comportamento o distanciou da guarda pretoriana, do Senado e dos
cidadãos.
Entre crescente
oposição, Heliogábalo, com apenas 18 anos, foi assassinado e substituído pelo
seu primo Alexandre Severo no dia11 de março de 222, numa conspiração feita
pela sua avó, Júlia Mesa, e membros da guarda pretoriana.
Denário romano representando Heliogábalo. A parte de trás diz Fides Exercitus, ou A fidelidade do exército, mostrando a deusa romana Fides entre dois estandartes romanos. Muitas moedas cunhadas durante o reino de Heliog+abalo têm as inscrições Fides Exercitus ou Fides Militum, demonstrando a importância da lealdade do exército como a base do poder imperial.
Heliogábalo criou uma
reputação entre os seus contemporâneos como um excêntrico, decadente, e zelota,
o que foi provavelmente exagerado pelos seus sucessores e rivais políticos.
Esta propaganda espalhou-se e, os historiadores no início da era moderna sujeitaram-o
como um dos imperadores romanos com a pior reputação. Edward Gibbon, por
exemplo, escreveu que Heliogábalo "abandonou a si mesmo para ter prazeres
grosseiros e ser descontroladamente furioso." De acordo com B.G. Niebuhr,
"o nome Heliogábalo está gravado na História acima de todos os
outros" por causa de sua "vida inefavelmente repugnante". Os
mais recentes historiadores têm tentado separar os fatos reais da ficção,
preservando com maior cautela a visão deste personagem e seu reinado.
A orientação sexual e
identidade de gênero de Heliogábalo são fonte de muito debate. Heliogábalo
casou-se e divorciou-se de cinco mulheres, três das quais são conhecidas. A sua
primeira esposa foi Júlia Cornélia Paula, a segunda foi a Vestal Júlia Aquila
Severa, mas num ano, ele abandonou-a e casou com Annia Faustina, uma
descendente de Marco Aurélio e viúva de um homem recentemente executado por
Heliogábalo. Ele voltou para sua segunda esposa Severa no fim do ano. De acordo
com Dião Cássio, a sua relação mais estável foi com o cocheiro de biga da sua
quadriga, um cocheiro louro da Cária chamado Hierocles, a quem Heliogábalo se
referia como o seu marido.
Denário romano representando Aquila Severa, a segunda esposa de Heliogábalo. O casamento causou um ultrágio público porque Aquila era uma Vestal, obrigada por lei romano a ser celibata por 30 anos.
A História Augusta
diz que ele também se casou com um homem chamado Aurélio Zótico, um atleta de
Esmirna, numa cerimônia pública em Roma. Dião Cássio diz que Heliogábalo
pintava os olhos, depilava o seu cabelo e usava perucas antes de se prostituir
em tavernas e bordéis, e até no palácio imperial:
Finalmente, ele
reservou um quarto no palácio e lá cometeu as suas indecências, sempre nu à
porta do quarto, como fazem as prostitutas, e abanando a cortina pendurada em
anéis de ouro, enquanto numa voz doce e comovente se oferecia aos que passavam.
Havia, obviamente, homens que tinham sido especialmente instruídos para
desempenhar o seu papel. Para, assim como em outras questões também econômicas,
ele tinha numerosos agentes que procuravam por aqueles que mais o agradavam
para participar de suas vilezas. Ele poderia ter coletado o dinheiro de sua
clientela e dado a si mesmo os seus ganhos; também poderia ter disputado com
seus colegas essa indecente ocupação, argumentando que possuía mais amantes e
mais dinheiro.
Herodiano comentou
que Heliogábalo mimava a sua beleza natural ao usar demasiada maquilhagem. Foi
descrito como sendo "encantado ao ser chamado a amante, a esposa, a
rainha de Hierocles" e diz-se que ofereceu metade grandes somas de
dinheiro ao médico que lhe pudesse dar genitais femininos. Subsequentemente,
Heliogábalo tem sido frequentemente caracterizado por historiadores modernos
como um transgênero, provavelmente transsexual, apesar de talvez não ser
adequado aplicar termos tão culturalmente específicos a alguém que viveu há
quase dois mil anos.
Em 221, as
excentricidades de Heliogábalo, particularmente a sua relação com Hierocles,
enfurecia cada vez mais os soldados da guarda pretoriana. Quando sua avó Júlia
Mesa se apercebeu que o apoio popular ao imperador estava a enfraquecer
rapidamente, ela decidiu que ele e a sua mãe, cujos tinham encorajados as práticas
religiosas dele, tinham de ser substituídos.
Como alternativas,
ela virou-se para a sua outra filha Júlia Avita Mamea e o filho desta, Severo
Alexandre, com treze anos. Convencendo Heliogábalo a nomear o seu primo como
herdeiro, a Alexandre foi dado o título de César e partilhou o consulado com o
imperador nesse ano. Contudo, Heliogábalo reconsiderou isto quando começou a
suspeitar que a Guarda Pretoriana favorecia o seu primo acima de si. Depois de
falhados os vários atentados à vida de Alexandre, Heliogábalo despiu o seu
primo dos seus títulos, revogou o seu título de cônsul e circulou a notícia de
que Alexandre estava perto da morte para ver a reacção dos pretorianos. Um motim
foi o resultado, e a guarda exigiu ver Heliogábalo e Alexandre no acampamento
pretoriano.
O imperador obedeceu
e no dia 11 de março de 222, apresentou o seu primo, com a sua mãe Júlia
Soémia. Ao chegarem ao campo pretoriano, os soldados aclamaram Alexandre,
ignorando Heliogábalo, que ordenou a prisão e execução de todos os que tinham
tomado parte neste desrespeito contra ele. Em reposta, os pretorianos atacaram
Heliogábalo e a sua mãe:
Ele tentou fugir, e
teria escapado ao ser colocado numa arca, se não tivesse sido descoberto e
assassinado, na idade de 18 anos. A sua mãe, que o abraçou e se agarrou a ele
fortemente, pereceu com ele; as suas cabeças foram cortadas e os seus corpos,
depois de serem despidos, foram primeiro arrastados pela cidade, e depois o
corpo da mãe foi deixado num lugar qualquer, enquanto o dele foi atirado no
rio.
A seguir à sua morte,
muitas pessoas associadas à Heliogábalo foram mortas ou depostas, incluindo
Hierocles e Comazão. Os seus editos religiosos foram revocados e a pedra de El-Gabal
foi devolvida a Emesa. Mulheres foram banidas de atenderem reuniões no Senado,
e damnatio memoriae—apagar uma pessoa
de todos os recordes públicos— foi decretada para ele.
Agora, depois de
tanto história, eu proponho uma extravagancia que tal oferecer uma pequena reunião
gastronômica para quatro amigos mais chegados, e preparar um menu “extravagante”?
Posso ir além, e sugerir um prato delicioso que eu aprendi a preparar com o
chef Claude Troisgro, a partir do sue programa "Que Marravilha!".
Risoto
de abóbora e bacalhau com folha de ouro
Porção
para 4 pessoas
Para
a abóbora
400g de abóbora Bahia cortada em fatias sem
sementes
2 colheres de azeite
Sal
Pimenta do reino (no moinho)
Para
o bacalhau
800g de bacalhau imperial
300 ml de água
1 cabeça de alho
Tomilho
Alecrim
Para
o risoto
1 colher de azeite
50g de cebola picada
Pimenta dedo-de-moça
450g de arroz arbóreo
100 ml de vinho branco seco
16 conchas de água do cozimento do bacalhau
Sal
Pimenta do reino no moinho
Para
a finalização
Salsa picada
Azeite extravirgem
Folhas de ouro
220g de palmito pupunha fresco cortado em
cubos
200g de requeijão cremoso
100g de parmesão ralado
Modo de
preparo da abóbora: Tempere
as duas fatias de abóbora com sal, pimenta e azeite. Enrole-as em papel
alumínio. Asse por 40 minutos em forno a 180ºC. Quando o tempo acabar, amasse
com um garfo, mas sem fazer purê. Modo
de preparo do bacalhau: Três dias antes de preparar a receita, dessalgue o
bacalhau, trocando a água de tempos em tempos. Encha uma panela com água e leve
ao fogo. Quando ferver, corte a cabeça de alho ao meio, sem descascar, e jogue
na água junto com o tomilho e o alecrim. Deixe ferver um pouco. Desligue o fogo
e logo em seguida coloque as postas de bacalhau na panela. Tampe e deixe ele lá
durante 20 minutos. Depois, retire o bacalhau da água, deixe esfriar e desfie o
peixe. Modo de preparo do risoto:
Despeje azeite em uma panela e ponha a
pimenta dedo-de-moça e a cebola. Mexa bem. Coloque o arroz e refogue por mais 2
minutos. Acrescente o vinho branco e deixe reduzir. Acrescente 4 conchas da
água do bacalhau e reduza até secar, sem parar de mexer. Faça isso por cerca de
15 minutos. Despeje o risoto em uma travessa de vidro e deixe-o esfriar um
pouco. Finalização: Ponha o risoto
em uma panela. Acrescente mais algumas conchas da água de bacalhau até chegar
ao ponto desejado (al dente cremoso). Mexa sempre. Adicione a abóbora amassada,
o requeijão, o parmesão, o palmito, o bacalhau e a salsinha picada. Mexa e
sirva. A consistência do arroz deve ficar cremosa. Decore com folhas de ouro
comestíveis.