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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Aurore Sauce: um típico molho do período Elizabetano

Hoje resolvi começar a fuçar as receitas antigas, e decidi começar a fazer postagens sobre elas colocando marcadores novos no blog desta confraria, mediante a individualidade dos períodos nos quais as receitas foram encontradas. Hoje, começarei falando de uma receita elisabetana muito conhecida pelas cozinhas do mundo: o  molho aurora (aurore sauce)
O período Elizabetano (1558-1603) (alguns o podem chamar de Elisabetano ou Isabelino. Eu escolhi o nome de acordo com a escrita original do nome da monarca) para a comida é fascinante por uma amplitude de causas. Na época, a Grã-Bretanha foi lentamente forjando  um império e seus navios (embora a Marinha Britânica fosse pequena em comparação com a dos espanhóis) quase que dobraram o comércio global. Novas fruta e especiarias estavam chegando de Londres e as grandes casas estavam competindo umas com as outras para preparar e servir as refeições mais extravagantes. Em alguns aspectos, o palato Elizabetano é extremamente moderno e a única grande diferença entre o Elizabetano e nós é uso extremo de açúcar (que estava se tornando uma mercadoria comum fornecida pelas Canárias).

Elizabeth I
Novos alimentos, como o tomate, batata e do peru estavam a ser introduzidos a partir do Novo Mundo, juntamente com pimentas vermelhas, pimenta caiena, páprica, colorau e outros tipos de pimenta. Neste momento, o comércio de especiarias também foi muito importante. Na verdade, as especiarias orientais constituíram um dos elementos mais rentáveis e dinâmicos no comércio europeu e o lucro obtido com as novas especiarias (assim como a busca por ouro e prata) incentivou as explorações de marinheiros Elizabetanos, como Raleigh e Drake.
Apesar de culinária medieval  ter se utilizado das especiarias orientais a variedade e diversidade do que estava disponível aumentou dramaticamente durante período Elizabetano. Estas especiarias ainda eram extremamente caras, no entanto, a sua utilização e aceitação tornou-se uma questão de prestígio social. Quanto mais especiarias uma cozinha usasse maior a riqueza e status social de quem a desfrutasse.

Assinatura de Elizabeth I
Apesar de eu ter chamado de "receitas elisabetanas”, uma descrição mais precisa seria "Jacobetanas" como o período do livro de receitas a partir do qual estas receitas são tomadas abrangem os anos de 1558-1625 (os reinados de Elizabeth I e James I).
Em termos de culinária, este é um período verdadeiramente fascinante, porque é o momento em que os primeiros livros de receitas verdadeiros são publicados, quando culinária moderna, como conhecemos hoje. Claro, havia livros de receitas anteriores a Idade Medieval , mas estes eram invariavelmente publicações judiciais, escrito por um escriba que observou o chef em sua cozinha, em vez do chef escrever seu próprio trabalho. 
A diferença da idade Jacobetana é que, enquanto nós ainda temos as "receitas judiciais» também temos livros de receita escritos e publicados por particulares. Os antecedentes diretos de livros de receitas modernas. Para todas as receitas que serão, publicadas com o marcador Receitas Elizabetanas terei o cuidado de incluir proporções encontradas nas receitas originaisl, a partir de uma redação moderna que vai permitir que você possa preparar o prato em sua própria cozinha. Muitas das receitas que serão colocadas  nesta categoria Elizabetana será extraído de pesquisas a partir de uma obra de 1545, de Hugh Plat conhecidos como Delightes for ladies,

Aurore (Aurora) 

Aurore sauce  é uma receita tradicional britânica  para um molho clássico elisabetano  feito com bechamel  e purê de tomates.
Provavelmente a mitologia está por trás do nome do molho Aurora, devido  ao  ápice do renascimento na Inglaterra. Mas sabe=se que os tomates, ingrediente fundamental para o molho era uma novidade no período elisabetano – era justamente o tomate que dá a coloração do  molho, que pode variar de rosa claro aos escuro. Essa coloração no entanto seria uma alusão a deusa grego-romana Aurora ou Eos, deusa do amanhecer, que pinta o céus com seus dedos rosa.


Eos (em grego, Ἠώς – Êôs, 'aurora') era a deusa grega que personificava o amanhecer. Filha de Hipérion e Téa, era irmã da deusa Selene, a lua e de Hélios, o sol. Normalmente citada como de longos cabelos louros e unhas tingidas de rosa ou como a deusa de dedos cor-de-rosa, e braços dourados, coroada com uma tiara, com grandes asas brancas de pássaro, como a descreve Homero. Com uma carruagem púrpurea puxada por dois cavalos alados, Lampo e Faetonte, com arreios multicolores. Agil e graciosa, munida de asas nos ombros e pés. Na Ilíada de Homero, sua roupa amarela está bordada e tecida  com flores.
 Quinto de Esmirna, a representa com um exuberante coração sobre os resplandecentes cavalos que puxam seu carro, entre as Horas, estes de brilhante pelos, subindo o céu e soltando chispas de fogo, soltas pelas patas.  Essa caracterização expressa seu caráter de jovem caprichosa e despreocupada, que vive amores intensos e efêmeros
Eos tem, como principal função, abrir as portas do céu para a carruagem de Hélio, o deus do Sol, sendo assim a deusa do amanhecer (Quando a carruagem de Hélio está saindo, e o Sol está nascendo) e do entardecer, mais especificamente, o pôr do Sol (Quando a carruagem de Hélio está voltando, e o Sol está se pondo). Responsável também pelo brilho do Sol e das tonalidades do Céu, Eos é a deusa que desperta as pessoas e criaturas dos mais profundos sonhos e derrama orvalho nas folhas, sendo mais conhecida por ser a deusa especialmente do amanhecer.


Conhecida também por seus amores, dos quais o  primeiro deste foi o filho de Poseidon, o gigante Órion, por ela raptado e levado a ilha de Delos. Tendo o filho  de Poseidon tentado violentar Artemis, esta enviou contra ele um escorpião, que picou seu calcanhar, causando morte instantânea. Pelo serviço prestado a Artemis o escorpião virou constelação.
São inúmeras as paixões de Eos, sendo a mais conhecida com Titono, irmão mais velho de Príamo, rei de Tróia. Ao apaixonar-se por ele, teve medo de o perder, o raptou e levou para a Etiópia.
A deusa amava-o tanto que pediu para que lhe concedessem a imortalidade, mas esqueceu-se da juventude eterna, e dessa forma o amado da atrapalhada deusa transformou-se num velho decrépito, sem nunca, no entanto, morrer. Ela o encerrou num quarto escuro.  Eos decidiu, então pedir para que Zeus o transformasse numa cigarra. Com Títono teve dois filhos : Emátion e Mêmnon.
 Memnon tornou-se rei etíope. Durante a guerra de Tróia, levou um exército para defesa de Tróia e foi morto por Aquiles em retaliação pela morte de Antíloco. A morte de Memnon ecoa a morte de Heitor, outro defensor de Tróia que Aquiles também matou em vingança pelo companheiro caído. As lágrimas de Eos pela morte do filho ainda são vistas no orvalho da manhã.

Eos levando seu  filho Memnóm - Museu do Louvre
Céfalo, filho de Mercúrio e Herse, também foi vítima do amor implacável de Eos. Ele estava já casado com a princesa Prócris, terna e amorosa e sempre fiel a seu marido. Insaciável como sempre, Eos pouco se importa para o sofrimento de Prócris e rapta Céfalo enquanto caçava nas proximidades do monte Imeto.
Mas apesar de todos os esforços da deusa, o jovem continua apaixonado por sua esposa. Apesar de muitos esquemas ardilosos da deusa, Céfalo e Prócris se reconciliam. Céfalo volta a caçar, mas sua esposa, receando a deusa rival, o segue. Pensando se tratar de um animal, ele a mata e ao ver o que havia feito, se joga ao mar. Comovido, Zeus os transforma em estrelas.

As suas paixões funestas atribuem-se ao fato de que teve amores com Ares, algo que deixou Afrodite muito enciumada, fazendo com que lançasse uma maldição sobre Eos, para que ela se apaixonasse apenas por homens mortais.

Aurore Sauce
Ingredientes:
2 colheres de sopa de manteiga
2 colheres de sopa de farinha de trigo
50 ml de leite frio
150ml de leite quente
Sal e  pimenta branca a gosto
noz-moscada ralada a gosto
4 tomates frescos, escaldados, descascados e sem sementes

Preparo: para o béchamel: Derreta a manteiga no fundo de uma panela em fogo médio, adicione a farinha e mexa até que o roux resultante esteja bem  misturado. Mexa com um batedor e acrescente o leite frio (começando com líquido frio dá um molho mais cremosidade). Uma vez que este tem aquecido lentamente despeje o leite quente, mexendo o tempo todo. Continue mexendo até que o molho apenas começe a ferver, em seguida, adicionar os temperos , continue mexendo por cerca de cinco minutos para se certificar de que a farinha cozinhe bem. Amassar os tomates e até o ponto de purê e misturar com o molho béchamel para obter molho Aurore.

Pão de couve-flor com molho Aurora
 Ingredientes:
1 couve-flor 1 kg
4 ovos
sal e pimenta
Manteiga untar
molho branco (feito com 25 g de manteiga, 1 colher de sopa de farinha, 1/4 litro de leite, sal, pimenta)
1 molho de tomate pequeno pode ser já preparado
100 g de queijo ralado

Preparo: Lave a couve-flor destaca dando os buques. Mergulhe-os alguns minutos com água e vinagre e deixe cozinhar cerca de 25 minutos em água fervente com sal. Escorra e amasse com um garfo. Bata os ovos ccomo se para fazer omelete com sal e pimenta, adicione-os à couve-flor. Despeje a mistura, pressionando bem em uma forma de bolo inglês bastante untada com  manteiga. Coloque-o em banho maria e asse em forno moderado 45 minutos. Prepare o molho bechamel com os ingredientes listados. Em seguida, adicione o molho de tomate. Junte o queijo ralado e misture bem. Quando estiver pronto para servir, desenforme o pão de couve-flor pão em um prato e cubra com o  molho.
Observação: presunto cozido é um ótimo acompanhamento para esta entrada. 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O Folar de Páscoa

  
A páscoa já está aí... Ontem fui em um shopping, aqui perto de casa, e me apavorei com a multidão enlouquecida na compra pelos ovos de chocolate, das Lojas Americanas. Já no Supermercado, outro inferno, a aglomeração era para comprar bebidas, pescados e afins e mais chocolates – porque o brasileiro deixa sempre tudo pra última hora? Enfim, foi no supermercado, vendo uma senhora comprando um monte de pães de coco – elemento tradicional da páscoa aqui no Ceará, que pode ser conferido neste blog (clique aqui) que eu  tive a ideia para o post de hoje.
Já apresentei texto sobre a origem da páscoa (clique aqui), já falei sobre o luxo das famosas joias de páscoa – os ovos Fabergé (clique aqui), já esclareci o simbolismo da Colomba pascal (clique aqui) e agora venho falar de outro pão/bolo pascal – o folar.


A Páscoa é em Portugal, assim como no Brasil, é uma época que se caracteriza com a entrega de presentes cheios de simbolismo, sobretudo de natureza alimentar. O Folar, por exemplo, é um desses típicos presentes da páscoa portuguesa.  Era o presente que os padrinhos e madrinhas davam aos seus afilhados na Páscoa para quebrar o período de jejum. O Folar era também a recolha que os padres faziam nas casas dos seus paroquianos durante a visita pascal no Domingo de Páscoa. O Folar assumia-se assim como um elogio à fartura. Sem esquecer, naturalmente, que se trata de uma espécie de pão, elemento básico e estruturante da nossa alimentação.
A maioria dos dicionaristas coloca a origem da palavra «folar» no latim «floralis».  A quem sugira o étimo germânico «flado», que significa «bolo de mel»; e ainda, a quem assinara-lhe como de origem francesa «poularde». Definem o folar como sendo um bolo em forma de pinta pousada sobre um ovo, ou com um ovo em cima. Hoje são raros os casos dos folares que incluem a galinha. . O pão, que também é conhecido como bolo, simboliza o ninho, e os ovos a geração de uma nova vida, fertilidade (tal como os coelhos ) Deseja-se felicidade e prosperidade a alguém, quando se lhe oferece um folar.


Nas aldeias portuguesas o folar é um produto de padaria, bastante rústico. Nas cidades é um produto de pastelaria, com alguns melhoradores de sabor, cor, textura e de apresentação, como a gelatina e afins para o brilho, com algumas exceções. Os ovos que o cobrem são cozidos com casca de cebola para ficarem acastanhados.
E toda comida tradicional tem sempre uma boa história pra abrilhantar mais a cozinha, no momento do preparo. É a história, por trás das comidas, muitas vezes, o motivo real para o seu preparo – o simbolismo conta muito neste momento. Então, vejamos o que conta a lenda do  folar.

A Lenda do Folar da Páscoa

Esta é uma das várias lendas que a tradição guarda ciosamente sobre o folar da Páscoa. É simples como a alma do povo, pois do povo ela vem. Diz-se que é muito antiga. Todavia, não se sabe ao certo a data em que começou a circular de boca em boca.
 Numa aldeia que a tradição não menciona, uma linda rapariga, pobre mas bela, tinha uma única ambição na vida: casar cedo. Diz a lenda que ela fiava sentada à porta de casa e orava no seu íntimo a oração que já vinha de avós para mães e de mães para filhas. Era assim a oração:

Minha roquinha esfiada,
Meu fusinho por encher,
Minha sogra enterrada,
Meu marido por nascer.
Minha Santa Catarina,
Com devoção e carinho
Tomai-vos minha madrinha,
Arranjai-me um maridinho.

Embora a não entendesse bem, parecia-lhe que recitando esta fórmula antiga, que já havia casado sua mãe e sua avó, e as mães e as avós das moças da sua idade, ela seria igualmente atendida. Contudo, acrescentava sempre uma palavrinha sua, não fosse a Santa entender mal o seu desejo. E terminava, pois, dizendo:
— Santa Catarina! Bem sabeis que me quero casar, com um moço que seja belo, e forte, e trabalhador, para que não fique na miséria...

Santa Catarina
Ora bem. Tantas vezes e tão fervorosamente rezou, que Santa Catarina houve por bem fazer-lhe a vontade. E de tal modo que, de um dia para o outro, a jovem aldeã viu-se requestada por dois em vez de um pretendente! Um fidalgo lavrador, rico, educado, forte e belo, mas já passando dos trinta anos, e um jovem trabalhador da terra, belo e forte também, mas sem outra fortuna além dos seus braços, sempre prontos para o trabalho.
Marianinha não sabia como decidir-se, hesitava sobre qual dos dois devia optar. Ambos lhe agradavam. Um representava a riqueza, a segurança, a tranquilidade… O outro, a juventude plena, o gosto de viver à custa do heróico labutar do dia-a-dia…
Ambos lhe pediam uma resolução rápida. E ambos sabiam que o outro era a causa da indecisão da jovem. De modo que se viu forçada a recorrer de novo a Santa Catarina.
Ajoelhada diante da imagem da Santa sua madrinha, Marianinha falou-lhe assim:
— Ó minha Santa Catarina, ajudai-me a escolher! Ambos me querem… ambos são bons para mim… ambos me agradam… Qual deles devo preferir? Gosto da figura do Amaro, da sua juventude, do seu ar impetuoso e trabalhador… Mas também gosto do senhor fidalgo… das palavras bonitas que me diz… do seu ar pomposo e da riqueza que tem…
E escondendo o rosto nas mãos:
— Oh, minha Santa Catarina, sinto-me envergonhada e confusa!... Mas a verdade é que não sei escolher! Ajudai-me vós!
Estava ainda de joelhos quando bateram levemente à porta. Marianinha levantou-se apressada e foi abrir. Era Amaro, o jovem e possante Amaro, de olhos negros e tez morena. Sorria-lhe. Um sorriso aberto, tentador.
Marianinha estremeceu. Seria por esse que deveria optar? Mas o fidalgo era tão rico… tão delicado… tão imponente!...
Amaro despertou-a desse devaneio.
— Escuta, Marianinha. Penso que é tempo de tomares uma decisão. Ou bem que me amas… ou bem que amas o outro. Dos dois não podes gostar, acredita! Por isso, previno-te de que preciso de uma resposta tua até à Páscoa. Se até lá não me deres o sim, tomarei isso como prova de que não te interesso e ir-me-ei embora desta terra.
Ela arriscou:
— Para onde?
Ele encolheu os ombros.
— Que poderá isso importar-te? Se eu partir, é porque não me quiseste para marido.
Ela desviou o seu olhar do olhar profundo de Amaro.
— Não quero que te exponhas a perigos por minha causa!
— Seguirei apenas o meu destino!
Marianinha suspirou:
— Bem gostaria de saber qual será o meu!...
— Tu podes decidir. Porque não o fazes?
— Não sei... Tenho de pensar...
— Pensar em quê? Amas o fidalgo?
— Não sei...
— Gostas da sua riqueza?
Ela apressou-se a acrescentar.
— E das palavras bonitas que me diz!
— Dizer-te que te amo, não achas bonito?
— Acho, sim! Mas ele… ele diz isso de outra maneira!
— Cuidado, Marianinha! A voz do coração é só uma!
— Ele também gosta de mim...
— Talvez. Mas o caso não é nosso: é teu. Tu é que tens de escolher um de nós, e só um. A não ser que não ames nenhum!
Ela voltou a encará-lo.
— Não, não é isso!... Eu amo-os aos dois...
— Mentes, Marianinha! Não se amam dois ao mesmo tempo, já te disse! Por isso vê bem! Vou dar-te um prazo menos longo: quinze dias. No Dia de Ramos virei ter contigo. Até lá deixar-te-ei à vontade. Adeus!
Voltou costas bruscamente, o jovem Amaro. Marianinha sentiu-se entristecer. Ele ia zangado. Decerto que ia zangado. E se partisse? E se não mais voltasse? Encheram-se-lhe os olhos de lágrimas. Mas já a figura elegante do fidalgo se aproximava. Ela tentou disfarçar. Ele sorriu-lhe com brandura, dizendo:
— Salve, Mariana, a flor mais bela que vi sobre a Terra! Meus olhos são felizes só porque te contemplam!
Ela olhava-o enleada, sem saber que responder. Foi ele ainda quem falou:
— Que tens? Pareces atrapalhada...
Marianinha confessou:
— Na verdade, estou. Dizeis coisas tão bonitas… que mal as entendo!
Ele envolveu-a num olhar terno.
— Mariana, se decidires casar comigo, hei-de ensinar-te tudo o que sei!
— A mim?
— Claro! E que achas estranho nisso?
— Ora! Não sei… se poderei aprender!
— Aprenderás, sim! O que é preciso é saber que me queres...
Ela ficou ainda mais atrapalhada.
— Bem... O Amaro...
Ele interrompeu-a:
— Já sei. Vinha ter contigo e ouvi as suas últimas palavras. Quer uma resposta no Domingo de Ramos, não é assim?
— É, sim, senhor. Mas não sei...
— Tens de saber! No Domingo de Ramos também virei aqui. Estou certo de que saberás escolher! Eu represento o amor, a riqueza, o teu bem-estar e o da tua família. Amo-te, e não deixarei que esse amor me seja arrebatado. No entanto... se a tua escolha está já feita...
Ela apressou-se a exclamar:
— Oh, não, ainda não decidi!
— Tens a certeza?
Marianinha fitou-o. Os olhos azuis do fidalgo olharam-na bem fundo. Ela esquivou-se a essa investigação, pedindo, interiormente, à Santa sua madrinha que a ajudasse. E o fidalgo despediu-se cortês, embora com uma sombra escura no seu olhar claro.
Uma semana passou. Toda a aldeia comentava já o caso. A velha Balbina viera, de propósito, bater à porta de Marianinha para a informar:
— Sabes? Isto vai ser bonito!...
— Então que há?
— Olha! Ontem à tarde o Amaro e o fidalgo encontraram-se cara a cara.
— E depois?
— Depois... sei lá!... Falaram... discutiram. Ia sendo o fim do mundo!
— Ó minha Santa Madrinha!
— E não sabes o melhor. Ambos afirmam que tu já decidiste. Ambos se julgam escolhidos!
— Sim? Mas eu...
— Mas tu não escolheste. Isso sabemos nós! Se já tivesses escolhido, não berravam eles tanto. Mas vai ser bonito, vai!... Olha que o Amaro jurou matar o fidalgo, se te desviasse dele com as suas falinhas mansas e a sua fortuna!
Mariana tremia.
— Mas... que hei-de fazer?
— Ora! Decidires-te!
— Mas como?... como?...
Marianinha cobriu o rosto com as mãos. Chorava. A velha Balbina meneou a cabeça e comentou enquanto se afastava:
— Está doida, esta rapariga! Nem sequer já sabe de quem gosta!
E o Domingo de Ramos chegou. Toda a gente da terra esperava ansiosamente esse dia. Marianinha velara toda a noite, orando. Estava pálida, enervada, fechada num mutismo assustador.
As horas da manhã passaram. Marianinha não saiu de casa. De súbito, a velha Balbina voltou a bater-lhe à porta, mas desta vez muito aflita.
— Marianinha! Vem depressa que eles matam-se! Encontraram-se no caminho… à beira do barranco… ambos vinham para cá...
Marianinha abriu os olhos, aterrada.
— Onde estão eles?
— Junto ao rio! Não sei como aquilo começou... Está lá muita gente... mas ninguém os aparta!
Chorando alto, Marianinha afirmou:
— Vou lá eu!
— Mas não te demores, mulher! Um deles cairá morto!
Aterrada, Marianinha saiu correndo. O rio ficava perto. Ofegante, chorando convulsivamente, ela estacou ante a luta feroz em que os seus dois pretendentes pareciam empenhados. Mal conseguiu gritar:
— Parem! Parem! Não se matem, pelo amor de Deus!
Mas para aqueles homens dir-se-ia que nada mais existia à sua volta do que cada um deles. Marianinha pôs as mãos:
— Santa Catarina! Valei-me!
De súbito, deu por si a correr para o barranco, gritando:
— Amaro! Amaro!
A este grito, os dois homens pararam de lutar, Amaro correu para Marianinha, abraçando-a. O fidalgo recompôs o vestuário, e sem uma palavra voltou para o seu solar. O povo olhava-os sem nada dizer. Ficaram assim alguns segundos. Depois, todos correram em bando a abraçar o jovem casal.
Véspera de Páscoa. Marianinha e Amaro tinham combinado para breve o casamento. Todavia, a rapariga não andava feliz. Do fidalgo ninguém mais vira a sombra. Mas dizia-se à boca pequena que no dia do casamento ele havia de aparecer para matar o Amaro. Era como uma nuvem negra a toldar o sol dessa alegria nascente!
Atormentada, Marianinha não se deitou nessa noite. Chorava e rezava. Pedia perdão de ter sido a causadora dessa inquietante situação. Fora a ambição que a toldara. Mas agora via claro. E queria que tudo acabasse em bem. Pedia então, entre soluços:
— Ó minha Santa Catarina! Vós, que estais tão perto de Deus, falai-Lhe por mim e pedi-Lhe que me perdoe e me dê uma prova desse perdão!
Foi então ao que se diz — que ela viu a imagem sorrir-lhe...
Marianinha tomou alento. Manhã cedo saiu para o campo. Apanhou flores e colocou-as no altar de Deus. Chegada a casa estacou, surpreendida.


Sobre a mesa das refeições estava um grande bolo com ovos inteiros dentro e rodeado de flores. Flores iguaizinhas às que ela levara ao altar. Julgando ter sido oferta de Amaro, correu a casa dele. Mas encontrou-o no caminho. Também ele ia a casa da noiva. Tinha encontrado, na sua mesa, sem saber quem o levara, um bolo semelhante ao de Marianinha. Resolveram ir para casa da jovem. E comentaram:
— Quem poderia ter sido?
Marianinha não respondeu. Mas sorriu. Amaro indagou:
— Porque sorris?
Ela olhou a imagem de Santa Catarina e explicou:
— Sabes... Eu ontem orei muito… chorei muito... E pedi a Deus, por intermédio da Santa minha madrinha, que me desse um sinal...
— Que sinal?
— Um sinal de que estou perdoada... e de que tudo irá correr bem...
— E pensas que foi Deus que nos ofereceu o bolo?
— Não. Penso... que foi o fidalgo!
— O fidalgo? E porquê ele?
— Porque Deus quis que ele nos deixasse em paz, e me perdoasse a escolha que fiz...
Amaro concordou:
— Talvez... Só ele teria dinheiro para tão rico presente. Um bolo com ovos inteiros… e flores... Confesso que nunca vi! Onde teria ele ido buscar esta ideia?
Marianinha agarrou uma das mãos do noivo:
— Amaro! E se fôssemos agradecer-lhe?
— Achas que sim?
— Acho! É Deus que assim o quer!
— Então, vamos!
E saíram. Mas no caminho encontraram o fidalgo que lhes sorriu. Amaro apressou-se a falar-lhe:
— Senhor fidalgo, quero agradecer-vos a vossa lembrança. O que lá vai, lá vai… e isso prova a vossa grandeza de alma!
O fidalgo pareceu surpreendido.
— Amaro, eu é que tenho de agradecer a vossa lembrança. Nunca vi em toda a minha vida tão lindo bolo com flores!
O jovem casal entreolhou-se. As lágrimas afloraram aos olhos de Marianinha, que exclamou emocionada:
— Deus é grande! Deus é bom!
Apertaram-se as mãos. Separaram-se amigos. Mas só Marianinha sabia ao certo quem oferecera aqueles bolos com ovos e flores, verdadeiro presente do Céu.
Na aldeia, a nova espalhou-se. A alegria foi geral. Chamaram ao bolo — folore. Com o rodar dos tempos, o folore veio a mudar-se em folar. E aí está como o povo explica a origem dos folares da Páscoa, cuja tradição mantém tão carinhosamente, como testemunho de boa e desinteressada amizade.

Fonte: MARQUES, Gentil. Lendas de Portugal. Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , .Volume IV, pp. 103-108


Com esta história, termino esta postagem, deixando a receita do folar. Que a páscoa lhes traga maravilhas pra suas vidas!

Folar de Páscoa

Para a massa:
250ml de leite morno
2 colheres (chá) de fermento biológico seco
1 ovo
110g de açúcar
570g de farinha
1 colher (café) de erva-doce em pó
1 colher (café) de canela em pó
100g de manteiga ou margarina amolecida
Para decorar:
ovos cozidos em casca de cebola
1 ovo (pincelar)

Preparo: Cozer os ovos em água com cascas castanhas e secas de cebola e sal. Escorrer e reservar. Na tigela colocar a margarina amolecida, o açúcar, o ovo e bater. Acrescentar a canela e a erva-doce, o fermento e o leite morno. Bater com a colher de pau ou na batedeira com a pinha. Juntar a farinha com a colher de pau ou na batedeira com os ganchos da massa. Deixar levedar, tapado com um pano e cobertor, sensivelmente 1h30 ou até duplicar de volume. Depois, separar  um pedaço de massa equivalente a uma tangerina, para a decoração.Dividir a massa, para dois folares, ou tomá-la toda, para um só folar, e na pedra enfarinhada moldar uma bola com a massa do folar, enrolando os lados para baixo e para dentro, tornando a superfície lisa. Enfarinhar um tabuleiro forrado com papel vegetal ou tapete de silicone e moldar o folar. Com a mão fazer no centro as covas para os ovos. Colocar os ovos fazendo pressão para que se enterrem. Dividir a massa, que foi separada para decoração, em número igual ao dos ovos usados e fazer rolinhos em cada porção. Dividir cada rolo a meio e fazer uma cruz em cima de cada ovo. Com o dedo empurrar as extremidades dos rolos, como se estivéssemos a fazer um furo na massa. Pincelar com o ovo batido e deixar descansar 15min. enquanto o forno aquece. Levar ao forno pré-aquecido, a 180ºC durante 30-35min. Retirar e deixar arrefecer.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Mito Isabelino: O milagre dos pães que se transformaram em rosas

          Eu sou um fominha por pão – sempre fui. E hoje, enquanto eu preparava meu desjejum percebi que deixei passar em branco uma data importante: o dia do padeiro (8 de julho). O que não devia ter acontecido, já que, para mim, eu esta profissão tem um significado maior do que a simples feitura de pães e afins; tendo presença registrada através da história principalmente no âmbito religioso – onde o pão se tornou o símbolo da vida, alimento do corpo e da alma – representando o próprio corpo do Cristo.
E não é difícil entender porque as pessoas, no mundo todo, gostam de pães. Afinal, é um alimento que surgiu séculos a.C. (quando ainda era feito com o fruto do carvalho triturado, lavado com água fervente para perder o amargor e posto a secar ao sol) e foi se sofisticando (à farinha foram adicionados outros ingredientes: mel, azeite de oliva, mosto e ovos, formando uma espécie de bolo que teria sido o antepassado do pão atual. Os egípcios foram os primeiros povos que utilizaram fornos para assar pães. É também atribuído a eles o acréscimo de um líquido fermentado à massa para deixá-la mais macia e leve) para atrair cada vez mais apreciadores.
O Brasil conheceu o pão apenas no século XIX, de acordo com as leituras dos livros de Gilberto Freyre. Antes disso, nas terras brasileiras se se consumia o beiju. Até que surgiu uma atividade panificadora no Brasil, iniciada com a presença os  imigrantes italianos.
Para elucidar minha total admiração pelos pães e por seus feitores, trago a história de um milagre envolvendo pães: A Rainha Santa Isabel de Aragão e o milagre dos pães que viraram rosas.
Rainha Santa Isabel de Portugal
A história nos conta que Portugal passava por uma grande penúria e a fome atingiu até os mais ricos. O rei era D. Diniz, que por sua vez era casado com D. Isabel. Senhora de grande bondade e virtudes. Desesperada com o sofrimento de seu povo; empenhou suas jóias, sem que o marido soubesse, e mandou vir trigo para abastecer o celeiro real e dessa forma poderia distribuir pão aos pobres como era de costume.
Certo dia enquanto estava distribuindo esses pães o rei chegou inesperadamente e ela escondeu os pães em seu avental temendo a reação do marido. D. Diniz percebeu que havia alguma coisa errada e perguntou: - Isabel, o que escondestes em teu avental?
Ela ergueu seu pensamento a Deus e respondeu sem pensar: - São rosas. Meu senhor! O rei desconfiadíssimo disse que queria sentir o perfume dessas flores que estranhamente haviam desabrochado em janeiro.
Isabel sem ter o que fazer soltou o avental, e para espanto de todos, caíram as rosas mais lindas e perfumadas. Postaram-se de joelhos gritando, milagre!
Esta história sobre a Rainha Santa Isabel é sem dúvida a mais conhecia. No entanto, este milagre também foi originalmente atribuído à sua tia-avó Santa Isabel a Hungria. Provavelmente por corrupção da lenda original, e pelo facto de as duas rainhas possuírem o mesmo nome e fama de santas, a história passou também a ser atribuída a Isabel de Aragão.
A época exacta do aparecimento desta lenda na tradição portuguesa não está determinada. mas circularia oralmente pelo país nas últimas décadas do século XIV. Porém, o mais antigo registo conhecido é um retábulo quatrocentista conservado no Museu Nacional de Arte da Catalunha, e sugere que ao  inves de pães, a santa levava moedas para os pobres.
Retábulo da Rainha Santa Meados do século XVI
Coimbra, MNMC
Este pequeno retábulo, considerado o primeiro ex-voto português, foi encomendado por um professor universitário, como forma de agradecer o auxílio da Rainha Santa na cura da paralisia de que padecia uma sua sobrinha, freira da comunidade monástica de Celas. Nele se representa Santa Isabel com as rosas e o milagre propriamente dito, bem como a sua ação de amparo aos mais desprotegidos. Em plano de fundo, descobre-se uma vista geral de Coimbra renascentista, com destaque para o Paço Real e o Mosteiro de Santa Clara.
O primeiro registo escrito do milagre das rosas encontra-se na Crónica dos Frades Menores. No entanto, a tradição popular gerou inúmeras variantes: moedas de ouro que se transformam em rosas ou rosas que se transformam em ouro; e a actualmente mais conhecida, do pão em flores.

Rainha santa moedas no regaço para dar aos pobres(...) Encontrando-a el-Rei lhe perguntou o que levava,(...) ela disse, levo aqui rosas. E rosas viu el-Rei não sendo tempo delas. (Crónica dos Frades Menores, Frei Marcos de Lisboa, 1562)
 Isabel faleceu, tocada pela peste, em estremoz, a 4 de julho e 1336, tendo deixado expresso em seu testamento o desejo de ser sepultada no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, onde em 1995 foi iniciada uma escavação arqueológica, após ter estado por 400 anos parcialmente submerso pelo rio Mondego.
Segundo uma historia hagiográfica (ramo da historia a igreja católica), sendo a viagem demorada, havia o receio de o cadáver entrar em decomposição acelerada pelo calor que se fazia, e conta-se que a meio da viagem debaixo de um calor abrasador o ataúde começou a abrir fendas, pelas quais elas escorria um líquido, que todos supuseram provir da decomposição cadavérica. Qual não foi, porém a surpresa quando notaram que em vez do mau cheiro esperado, saía um aroma suavíssimo do ataúde.
A rainha é sepultada em Coimbra, no Convento de Santa Clara-a-Velha, conforme vontade expressa em testamento, repousando inicialmente num belíssimo túmulo de pedra esculpido no séc. XIV por Mestre Pêro para, mais tarde, já no século XVII, ser trasladada para novo túmulo em prata, exposto na capela-mor do novo Mosteiro de Santa Clara.
Túmulo da Rainha Santa Isabel por Mestre Pêro

Túmulo da Rainha Santa Isabel 1614
Coimbra, Mosteiro de Santa Clara-a-Nova
          Após a sua canonização ser oficializada pela Igreja de Roma, os restos mortais da Rainha Santa foram trasladados para uma nova morada final. O novo túmulo em prata foi mandado fazer em 1614 pelo Bispo-Conde de Coimbra, D. Afonso de Castelo Branco. Hoje, o monumento funerário encontra-se próximo do retábulo-mor da nova Igreja de Santa Clara de Coimbra, na companhia da venerada imagem da Rainha Santa, executada por Teixeira Lopes em 1896.
A sua figura de Rainha Santa ficou indissociavelmente ligada ao auxílio e fundação de mosteiros e à protecção dos mais desfavorecidos, sendo por isso querida em vida e venerada como santa, logo após a sua morte. Oficialmente, a consagração dá-se com a beatificação, a 15 de Abril de 1516, por Leão X, vindo a ser canonizada por Urbano VIII, em 25 de Maio de 1625.
Atualmente, inúmeras escolas e igrejas ostentam o seu nome em sua homenagem. É ainda padroeira da cidade de Coimbra, cujo feriado municipal coincide com o dia da sua memória (4 de julho).
Pão de liquidificador
Bata no liquidificador:
1 ovo
2 tabletes de fermento p/ pão
1 colher (sopa) de açúcar
1/2 colher (sopa) de sal
1 copo (dos de requeijão) de água morna
½ copo (dos de requeijão) de óleo 

Passe a mistura para uma tigela grande e acrescente cerca de 500g de farinha de trigo aos poucos até desgrudar das mãos. Cubra a massa com um pano e deixe crescer por 1 hora em local seco e sem vento (dentro do forno é uma boa pedida). Passado o tempo de descanso enrole os pães e deixe crescer novamente por 20 minutos. Leve ao forno pré-aquecido em 180º até a casca estar dourada.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A Colomba Pascal: As Pombas de Pavia (Itália)

Estes dias cheguei ao supermercado e me deparei com uma cena engraçadíssima:
Era cedinho, eu ia compra o pão para o café. E uma senhora estava parada diante da gôndola das colombas pascais e  olhava pra outra mulher, que lhe acompanhava, e dizia: “menina, o povo anda louco, já estão vendendo estes bolos de natal”. A outra mulher me vendo passar, riu da situação, puxou a senhorinha e saíram.

Eu tentei conter meu riso pra não passar por mal educado... Mas foi difícil. Rsrsrsrsrs. Eu poderia analisar aquela cena das formas mais variadas e criativas.
Porém preferi não julgar o acontecido e só trabalhar em cima da Colomba. Afinal, é tempo de elas serem vendidas aos montes.
Em italiano, a palavra colomba significa “pomba”. Mas, na Páscoa, esse significado se torna simbolismo. Na época que celebra a ressurreição de Cristo, o pão/bolo em formato de pomba, a colomba pascal, representa o Espírito Santo e a paz.
Seu sabor é suave e seu preparo é delicado. Sua receita contém mais manteiga e ovose pode receber cobertura de glacê, amêndoas ou ainda chocolate aromatizado, apresentando decorações requintadas.
A forma de pomba era utilizada muito freqüentemente nos antigos sacrários onde se reservava a Eucaristia. O símbolo eucarístico se converteu logo no pão doce que costuma ser compartilhado, em alguns países europeus - especialmente na Itália - no café da manhã de Páscoa e da "Pasquetta", a segunda-feira de Páscoa.

Segundo a Bíblia foi uma pomba com um ramo de oliveira no bico, que voltou para Noé após o dilúvio para testemunhar a reconciliação entre Deus e o seu povo. Um sinal forte tão intimamente ligado ao significado que a Páscoa tem dentro da cultura dos países cristãos.
Nos tempos medievais, quando as invasões bárbaras e, especificamente, as lideradas pelo Rei Alboino vieram para a Itália com seus soldados para conquistar a cidade de Pavia, a conquista foi dura e acabou sendo muito longa.
Rei Alboino - Tela o assassinado do Rei dos Lombardos
A conquista do lugar durou até três décadas, durante as quais os bárbaros foram expulsos da cidade. Depois de três anos, às portas de Pavia o Rei Alboino conseguiu romper os portões daquela cidade na véspera da Páscoa, em 572.
Na noite anterior ao rompimentos dos portões de Paiva, um velho padeiro chamado Luiggi sonhou  que Alboino invadiu sua cidade gerando muito sangue pelas ruas . Ao amanhecer  Luiggi fez a seguinte oração :


- Divino Espírito Santo, me dê uma luz, para que esta desgraça não aconteça!
De repente uma pomba pousou na sua janela e disse:
- Faça um doce em forma de pomba e ofereça ao rei.
Luggi obedeceu a esta visão. Desta maneira, no domingo de Páscoa, o padeiro preparou o quitute e foi oferecer ao rei.
O Rei estava tomado por um forte desejo de vingança, estava decido por queimar a cidade inteira e exterminar os cidadãos. Mas primeiro ele decidiu aceitar os presentes que as pessoas lhe davam para poupar suas vidas. E isto lhe seria o seu “cavalo de Tróia”.
Os presentes consistiam em doze meninas de rara beleza que, tradicionalmente, teriam de entreter as noites do soberano.
Diz a lenda que, enquanto o rei refletia sobre o destino dos habitantes apareceu diante dele um humilde artesão que lhe entregou mais um presente: um pão/bolo na forma de uma pomba, como um tributo e um gesto de paz. O doce ficou tão gostoso e tão bom que acabou empurrando o rei a mudar sua opinião sobre o destino dos habitantes de Pavia.
O padeiro  vendo que o Rei gostou do  bolo, pediu que ele prometesse poupar os habitantes daquela em honra –as pombas – símbolo  do  espírito santo. O rei  se deliciando, levou aquilo na brincadeira e prometeu o que o padeiro queria.


Cidade de Pavia - Itália
No entanto, visto que, quando o monarca pediu então pra que trouxessem ate sua presença os outros presentes, as 12 moças. Diante do monarca ele as inquiriu sobre o seus nomes e cada uma das meninas que lhe tinham trazido de Pavia lhe disseram que se chamavam  “Colomba”.
“Diz-se que o rei Alboino apesar de ter sido ‘enganado” optou por salvar os cidadãos e não matá-los depois deste episodio.

Outra lenda não menos famosa para o formado doce trata do ocorrido na Batalha de Legnano, em 1176, que foi vencida pela Liga do Comuns da Lombardia contra Frederico Barba-Roxa, imperador da Alemanha. Diz a lenda que a conquista da batalha foi celebrada com estes bolos na forma de pombas. E que a idéia deste formato se deu pelo fato de que algumas aves desta espécie atingiram com coco a cabeça de alguns dos vencedores enquanto eles descansavam antes da batalha, e a interpretação disso foi que eles seriam vitoriosos. Reza a lenda que a pessoa que comer a Colomba Pascal,  no domingo de Páscoa ,  terá paz o ano inteiro.
E pra que não falte Colomba no domingo de páscoa, deixo duas receitas de sobremesa e uma, de colomba salgada, feita com bacalhau, que é uma loucuraaaaaaaaaaaaa.

COLOMBA PASCAL

Massa
500g de farinha de trigo
100g de manteiga
100g de açúcar
5 gemas
40g de mel
1 colher de café de sal
40g de leite em pó
20g de fermento biológico
½ copo de água gelada
Essência de panetone ou de laranja
Recheio
130g de uvas-passas
180g de frutas cristalizadas
Cobertura
5 claras de ovos
250g de farinha de castanha de caju
200g de açúcar de confeiteiro
Coloque o fermento em um pequeno recipiente e esfarele com as mãos. Adicione ao fermente duas colheres de farinha, quatro colheres de água e misture. Reserve essa pequena massa por 20 minutos, até que ela cresça. É essa massa que vai fazer com que a colomba fique macia e cresça. Na foto, confira a massa antes e depois de crescer. Em uma superfície de pedra ou bacia, junte a farinha de trigo, a massa de fermento (chamada de esponjinha, pelo aspecto de esponja), margarina, açúcar, sal, ovos, leite em pó e mel. Pessoas que já têm habilidade com o preparo de pães podem optar por fazer a colomba com as mãos. Ainda assim, a recomendação é usar uma batedeira, de preferência planetária. Bata a massa e vá acrescentando, enquanto bate, lentamente, a água. Cuidado para não colocar muita água e perder o ponto da massa. Neste momento, também devem ser acrescentadas duas colheres de sopa de essência de panetone ou de laranja. Quem está preparando a massa com as mãos, pode fazer a mistura dentro de uma bacia. Não se esqueça de sovar a massa por cerca de 20 minutos. A massa deve ser batida, com o acréscimo de pequenas quantidades de água, até chegar ao ponto de véu, ou seja, até que possa ser esticada, sem se romper, mas com aspecto de transparência. Ao chegar ao ponto da massa, acrescente as uvas-passas e as frutas cristalizadas e apenas mexa a mistura. Use óleo para desgrudar a massa da batedeira e coloque-a sobre uma superfície de pedra. Em uma superfície de pedra, boleie a massa e divida-a em partes, de acordo com o tamanho de colombas que pretende fazer. Separe formas de papel para colocar a massa. A massa designada para cada colomba deve ser cortada ao meio, e uma das metades deve ser dividida mais uma vez. Das três partes, uma maior e duas menores, sairá o formato de pomba. Já na forma, deixa a massa descansar de 30 a 50 minutos, para crescer. Lembre-se que no calor a massa cresce mais rápido. Enquanto a massa cresce, prepare a cobertura. Coloque em um recipiente a farinha de caju e metade do açúcar de confeiteiro. Em seguida, acrescente as claras, e misture. Coloque a cobertura sobre as colombas. Antes de levá-las ao forno, jogue castanha de caju ou nozes, e peneire a outra metade do açúcar de confeiteiro sobre a colomba. Leva a massa ao forno pré-aquecido, aos 180ºC, por 30 minutos.

COLOMBA TRUFADA

300 g de Cobertura de Chocolate Meio Amargo  picada
1 lata de creme de leite (300 g)
1 xícara (chá) de nozes picadas (150 g)
1 colomba pascal (com cerca de 750 g)
50 g de Cobertura de Chocolate Branco picada

Derreta a cobertura de chocolate meio amargo com o creme de leite no microondas em potência média por 2 minutos, mexendo na metade do tempo. Misture ½ xícara (chá) de nozes e reserve.  Retire a fôrma de papel da colomba e corte esta em três camadas. Coloque a base da colomba (primeira camada) na travessa em que será servida e cubra com 1/3 da ganache. Repita esse processo mais uma vez e finalize com a última camada de colomba. Espalhe a ganache restante nas laterais da colomba, formando uma fina camada e coloque por cima as nozes restantes. Leve à geladeira por 30 minutos a fim de que o recheio fique levemente firme. Derreta e tempere a cobertura de chocolate branco. Coloque em um cone de papel manteiga e faça riscos sobre a superfície da colomba. Deixe em geladeira até o momento de servir.

COLOMBA DE BACALHAU

1 copo iogurte natural
2 colheres (sopa) azeite
1 xícara (chá) vinho tinto seco
1 xícara (chá) água
1 colher (sopa) açúcar
1 colher (café) sal
2 envelopes fermento biológico seco instantâneo (22g)
½ kg farinha de trigo
FAROFA
2 colheres (sopa) farinha de trigo
2 colheres (sopa) farinha de rosca
2 colheres (sopa) parmesão ralado
50g manteiga gelada em cubinhos
RECHEIO
3 colheres (sopa) azeite
½ kg bacalhau em lascas demolhado
1 xícara (chá) azeitonas pretas sem caroço
1 xícara (chá) tomate seco picado
Comece pelo recheio: aqueça o azeite e doure o bacalhau. Desligue a panela, acrescente o restante dos ingredientes do recheio, misture e deixe na panela até esfriar. Para a massa coloque em uma vasilha o iogurte, o azeite, o vinho, a água, o açúcar, o sal, o fermento e misture. Acrescente, aos poucos, a farinha com um garfo até que não consiga mais. Então utilize as mãos e sove a massa até que acabe a farinha e esteja uma massa homogênea e lisa. Deixe descansar por 20 minutos coberta com um pano. Enquanto isso faça a farofa: coloque todos os em uma vasilha, misture bem com as mãos e reserve. Abra a massa com as mãos, coloque o recheio por cima, feche a massa e misture muito bem, de tal modo que o recheio se espalhe por toda a massa. Divida em duas, coloque cada uma nas formas descartáveis de colomba e polvilhe a farofa sobre elas. Deixe fermentar por mais 30 minutos e leve ao forno quente (200º) por aproximadamente 50 minutos ou até que esteja bem dourada. Tire do forno, fatie e sirva quente ou fria.