quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

BROWNIES: elfos, bolos... enfim, delicias!

Nos últimos anos muitas receitas advindas de outros continentes ganharam prestigio entre as mesas brasileiras conquistando e sofisticando os paladares. O Brownie, pode se dizer que é uma destas receitas. Este bolo liso carregado no chocolate  é uma receita tipicamente americana e provavelmente tenha este nome devido sua cor marrom escuro.
como a maioria dos alimentos, a origem do brownie está envolta em muitos mitos, embora seja uma entrada relativamente recente no panteão dos alimentos mais consumidos nas doçarias brasileiras.

Muitas versões explicam a origem do brownie, mas, sem dúvida, a mais gostosa é a que relata um descuido De uma dona de casa americana que extrapolou no chocolate e se esqueceu do fermento
Assim, a primeira aparição do Brownie na imprensa data do início do século 20 trazendo histórias lendárias e cheias de variações para o bolo. Porem a história mais aceita foi contada nos livros Betty Crocker's Baking Classics  e John Mariani’s The Encyclopedia of American Food and Drink, que contam que uma dona de casa em Bangor, no Maine, que estava fazendo um bolo de chocolate, mas esqueceu de adicionar fermento em pó. Como o não subiu corretamente e ficou liso, em vez de jogá-lo fora, ela o cortou em quadrados para ser servido. A história é bonitinha mas infelizmente esta teoria se baseia em um livro publicado em 1912 em Bangor, seis anos após a receita do primeiro brownie ser publicado por Fannie Merrit Farmer, em 1906 (e a versão de Bangor era quase idêntica ao da receita de 1906).

O livro de Fannie Merritt Farmer, em 1906, foi entitulado The Boston Cooking School Cook Book. Pelo que  se sabe, uma versão anterior do livro, de 1896, já trazia uma receita de brownie, porém bem diferente mais parecida com um docinho do que com um bolo.
Outra história bastante ouvida mundo a fora sobre a origem do brownie diz que o  bolo surgiu em 1893 durante a Columbian Exposition em Chicago. Porém, essa receita é um pouco diferente dos brownies que conhecemos hoje, pois era feita com uma cobertura a base de damasco. Essa primeira aparição foi criada pelo chef de um dos hotéis da cidade, o Palmer House Hotel, que serve até hoje a receita original com damasco e tudo.

O nome “brownie” foi uma homenagem a um popular personagem de Palmer Cox, publicado em revistas e livros durante o final do século 19 e início do século 20. O Brownie foi um personagem bastante famoso em seu tempo em ilustrações feitas para crianças. O personagem era um elfo que realizava muitas brincadeiras inofensivas. Por volta de 1920, o Brownie já era bem popular nos EUA. Formado por densos quadrados de chocolate com nozes, os bolos se espalharam pelo mundo Como tudo que se populariza, diversas “versões” foram criadas, contendo caramelo, menta, frutas e diversas variedades de nozes e castanhas."

Tipos de Brownie

O brownie clássico consiste em apenas alguns ingredientes: a manteiga, açúcar, chocolate, ovos, farinha. Porém com esta base surgiram algusn tipos de brownies. São eles:


FUNDGE BROWNIES 

(muitos afirmam que este é o  brownie tradicional) tem o mínimo de farinha, de cerca de meio copo e sem fermento. O nome deve-se ao fato de usar manteiga derretida ao em  vez de fazer creme aquele creme mais denso com adição do açucar, dando assim um resultado fudgier.  Usa-se o chocolate amargo  com um copo cheio de açúcar necessário para equilibrar a sua amargura. Ou açúcar granulado ou castanha pode ser utilizada; um substituto para o outro em proporções iguais. Quanto mais profunda a cor do açúcar, porém, o sabor mais pronunciado de melaço. É tudo uma questão de gosto pessoal.

BROWNIES CAKELIKE 

são bolinhos que contêm um pouco mais  de farinha e menos manteiga, bem como um pouco de fermento em pó para torná-los mais suaves e leves.  A manteiga é  batida com o açúcar, como que para um  bolo tradicional e pedem um  pouco de leite para incorporar á mistura. Isso junto faz com que os brownies cakelikes cresçam )

CHEWY BROWNIES 

geralmente tem este nome devido sua textura garantida a partir de dois fatores: um ovo extra (ou mesmo dois) e uma combinação de diferentes tipos de chocolate. De todos os tipos de chocolate, chocolate amargo tem a maior proporção de amido, que criam um brownie com textura mais dura. Do chocolate meio amargo produz-se uma textura mais cremosa. Muitos utilizam os dois juntos e ainda acrescentam algumas colheres de sopa de cacau em pó para arredondar o sabor e engrossar a textura..

BLONDIES BROWNIES 

São bolinhos feito com açúcar mascavo, manteiga e ovos (e geralmente nozes também), mas sem chocolate. Trata-se de um brownie sem chocolate.

A origem dos Brownie by Palmer Cox

O "Brownie"  decorre de uma tradição escocesa antiga:  Eram todos homenzinhos que apareciam a noite para realizar boas obras  ou desfrutar de brincadeiras inofensivas, enquanto as famílias dormiam,, nunca se permitindo ser visto por mortais. Ninguém, exceto aqueles dotados de visão especial, podia ver os Brownies.
Eles eram chamados de "brownies" por causa de sua cor, a que foi dito ser marrom devido a sua exposição constante a todos os tipos de clima, e também porque tinha o cabelo castanho, algo que não era comum no país onde o "Brownie" foi localizado, onde o povo em geral, tinham cabelos vermelhos ou pretos. Eles se vestiam de uma maneira fantástica, e só eram vistos no crepúsculo da noite, nas companhias das fadas.

They were called "Brownies" on account of their color, which was said to be brown owing to their constant exposure to all kinds of weather, and also because they had brown hair, something which was not common in the country where the "Brownie" was located, as the people generally had red or black hair. There are different stories about the origin of the name. One is that during the time the Covenanters in Scotland were persecuted because they were said to teach a false and pernicious doctrine, many of them were forced to conceal themselves in caves and secret places, and food was carried to them by friends. One band of Covenanters was led by a little hunchback named Brown, who being small and active could slip out at night with some of the lads and bring in the provisions left by friends in secret places. They dressed themselves in a fantastic manner, and if seen in the dusk of the evening they would be taken for fairies. Those who knew the truth named Brown and his band the "Brownies." This is very plausible, but we have too high an opinion of the "Brownies" to believe that they took their name from a mortal. We are inclined to believe that the well-deserving hunchback took his name from the "Brownies," instead of the "Brownies" deriving their name from him. Besides the story does not reach back far enough.

The "Brownies" were an ancient and well-organized band long before there was a Covenanter to flee to caves and caverns. Indeed, from what can be gathered from the writings of ancient authors, one is led to believe the "Brownie" idea is a very old one. It is fair to presume that the "Brownies" enjoyed their nightly pranks, or skipped over the dewy heather to aid deserving peasants even before the red-haired Dane crossed the border to be Caledonia's unwelcome guest. Every family seems to have been haunted by a spirit they called "Brownie" which did different sorts of work, and they in return gave him offerings of the various products of the place. The "Brownie" idea was woven into the affairs of everyday life. In fact it seemed to be part of their religion, and a large part at that. When they churned their milk, or brewed, they poured some milk or wort through a hole in a flat, thin stone called "Brownie's stone." In other cases they poured the offerings in the corner of the room, believing that good would surely come to their homes if "the Brownies" were remembered. On out of the way islands, where the people could neither read nor write, and were wholly ignorant of what was going on in other parts of the country, so much so that they looked upon a person that could understand black marks on paper as a supernatural being, the "Brownie" was regarded as their helper.
The poet Milton had doubtless one of these "Brownies" in his mind when he penned the lines in "L'Allegro" to the "lubber fiend," who drudged and sweat  "To earn his cream-bowl duly set."
But, strange to say, he was not as complimentary as the untarnished reputation of the "Brownies" might lead one to expect. In some villages, near their chapel, they had a large flat stone called "Brownie’s stone," upon which the ancient inhabitants offered a cow’s milk every Sunday to secure the good-will of the "Brownies." That the "Brownies were good eaters, and could out-do the cat in their love for cream, is well proven in many places.

Chocolate Mint brownie

brownie
Meia xícara de manteiga
120g de chocolate amargo
1 e meia xícara de açúcar
3 ovos
1 e meia colher de baunilha
Meia colher  de chá de sal

Mint camada
¼ de xicara de manteiga sem sal amolecida
2 e meia de xícara de açúcar de confeiteiro peneirado
1 e meia a 3 colheres de leite
Meia colher de chá de extrato de pimenta ou duas colheres de creme de menta
Corante alimentício verde

Cobertura de chocolate
90g Chocolate meio amargo picado
1 colher de manteiga sem sal

Preparo: Pré-aqueça o forno a 160 graus C  e coloque a cremalheira no centro do forno. Tenha em uma forma de 23 x 23 cm quadrados) previamente toda forrada com papel  alumínio. reserve
Brownies: derreta a manteiga e chocolate em banho-maria. Retire do fogo e misture o açúcar e a baunilha. Adicione os ovos, um de cada vez, batendo bem (com uma colher de pau) após cada adição. Misture a farinha e o sal e bata com uma colher de pau, até obter uma massa lisa e brilhante. Despeje a massa de brownie uniformemente na assadeira preparada. Asse em forno pré-aquecido por cerca de 25 minutos ou até que os brownies começar a puxar dos lados da forma Se Um palito for  espetado no centro do brownies sairá quase limpo. Retire do forno e coloque para esfriar completamente.
Mint camada: com uma batedeira, bata todos os ingredientes até ficarem homogêneos. Adicione algumas gotas de corante alimentar verde se quiser que a cobertura verde. Se achar que a mistura esta muito grossa, adicione um pouco de creme de leite extra. Espalhe a cobertura uniformemente sobre a camada de brownie e coloque na geladeira por cerca de 5-10 minutos ou até ficar firme.
Chocolate glaze: Em uma tigela refratária sobre uma panela de água fervente, derreta o chocolate e a manteiga. Espalhe sobre o recheio de menta e leve à geladeira por cerca de 30 minutos ou até que o chocolate começa a esmalte opaco.
Para servir: Retire o brownie, levantando com as extremidades da folha e transferir para uma placa de corte. Com uma faca afiada, corte em 30 quadrados. É uma boa idéia para limpar a faca entre cortes com um pano úmido.

Brownie tradicional

150gr de margarina
1 xícara de chá de açúcar
3 ovos
1/2 xícara de chá de farinha de trigo
250 gr de chocolate meio amargo picado
150 gr de nozes picadas
Sorvete de creme ou de chocolate e chantilly (para acompanhar)
Preparo:

Aqueça o forno a 180 graus. Bata 2 claras em neve e reserve. Bata a manteiga, as 2 gemas e 1 ovo inteiro até formar um creme claro. Junte a farinha. Derreta o chocolate meio amargo no microondas, em potência baixa, mexendo a cada 30 segundos (ou derreta no banho – maria sem deixar o vapor d’água entrar  no chocolate). Junte o chocolate derretido à massa e continue batendo. Junte as nozes e mexa com a colher. Por último, acrescente as claras em neve e mexa suavemente até incorporar à massa. Forre uma forma retangular média com papel manteiga. Coloque a massa e leve para assar por 40 minutos. Tire do forno corte em quadrados e sirva com sorvete e chantily.



        

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Comida de Santo I : Pra sereia, Yeye oman ejá (Iemanjá)


Odò ìyá!!!

Poderosa força das águas.  
Inaê, Janaína, Sereia do Mar.  
Saravá minha Mãe Iemanjá!  
Leva para as profundezas do teu mar sagrado, 
Odoiá... Todas as minhas desventuras e infortúnios. 
Traz do teu mar todas as forças espirituais para alento de nossas necessidades.  
Paz, esperança, Odofiabá... Saravá, minha Mãe Iemanjá! Odofiabá...


Como Brasileiro que compreende e admira a diversidade das muitas crenças que cá existem,dou-me ao direito de tratar da Rainha do Mar. Yemanjá, cujo nome deriva de Yeye oman ejá, "Mãe cujos filhos são peixes", é o Orixá dos Egbás, uma nação yorubá estabelecida outrora na região onde passa o rio Yemanjá, e obrigada a emigrar para o oeste, por causa da guerra entre nações.
Yemanjá teria sido filha de Olokun, deusa do mar. Seu Axé é constituído por pedras marinhas e conchas, guardadas numa sopeira de porcelana azul. Considerada a mãe dos outros Orixás, tem o aspecto de uma matrona, de seios enormes, símbolo da maternidade fecunda e nutritiva. 
Yemanjá , que é saudada como Odò (rio) ìyá (mãe) pelo povo Egbá, por sua ligação com Olokun, Orixá do MAR (masculino (em Benin) ou feminino (em ifé)), muitas vezes é referida como sendo a rainha do mar em outros países


Iemanjá, rainha do mar, é também conhecida por dona Janaína, Inaê, Princesa de Aiocá e Maria, no paralelismo com a religião católica. Aiocá é o reino das terras misteriosas da felicidade e da liberdade, imagem das terras natais da África, saudades dos dias livres na floresta. Jorge Amado

Na Bahia, ela é sincretizada com Nossa Senhora da Imaculada Conceição, festejada no dia 8 de dezembro. Ela é mais ligada às águas salgadas do mar que às águas doces dos rios, que é domínio de Oxun. 
Curiosamente, é no dia 2 de fevereiro, data da festa de Nossa Senhora das Candeias, sincretizada com Oxun, que se organiza um solene presente para Yemanjá. O que mostra que o sincretismo não é de uma rigidez absoluta.

A festa do dia 2 de fevereiro, uma das mais populares do ano, atrai à praia do Rio Vermelho, uma multidão imensa de fiéis, que vêm trazer presentes para a Rainha do Mar. Flores, perfumes e outros presentes agradáveis à uma mulher bonita, além de pedidos e súplicas, enchem as cestas, que são levadas por embarcações para alto mar, onde são depositadas sobre as ondas.


Os adeptos de Yemanjá usam colares de contas de vidro transparente como o cristal e vestem-se, de preferência, de azul-claro. Sábado é o dia da semana que lhe é consagrado. Yemanjá recebe sacrifícios de carneiros e oferendas de comida à base de milho branco, azeite, sal e cebolas (Ebó).
Ela dança com um leque de metal branco nas mãos e suas danças imitam o movimento das ondas, dobrando e endireitando o corpo. Ela executa um curioso movimento de mãos, levadas alternadamente sobre a testa e a nuca. Saúda-se Yemanjá gritando Odó íya!!

DIA DA SEMANA: Sábado
CORES: cristal, azul claro
SÍMBOLOS: leque (abebé) com sereia, concha
ELEMENTO: água
PLANTAS: colônia, aguapé, lágrima de Nossa Senhora, pístia (erva de Santa Luzia), trapoeraba branca (olhos de Santa Luzia)
ANIMAIS: peixes
METAL: prata
COMIDA: peixe, camarão, canjica, arroz, manjar; mamão
BEBIDA: champanha
SINCRETISMO: Nossa Senhora das Candeias (da Luz)
DOMÍNIO: mar
O QUE FAZ: protege de confusões e promove a harmonia na família. Ajuda a progredir na vida.
QUEM É: a Grande Mãe dÁgua e do lar.
CARACTERÍSTICAS: maternal, protetora, competente, dedicada, mandona, possessiva, intrigante
QUIZÍLIA: poeira, sapo
SAUDAÇÃO: Odó Iyá !
ONDE RECEBE OFERENDAS: na praia
RISCOS DE SAÚDE: problemas no ventre: aparelho urinário, genitais; deficiência circulatória.
PRESENTES PREDILETOS: flores, perfume, colar, espelho, pente etc; suas comidas e bebidas.
 
LENDAS:
 
Quando Obatalá e Odudua se casaram, tiveram dois filhos: Iemanjá (o mar) e Aganju (a terra). Os irmãos se casaram e tiveram um filho, Orungã (o ar). Quando cresceu, Orungã se apaixonou pela mãe. 
Um dia, aproveitando a ausência do pai, tentou violentá-la. Iemanjá conseguiu escapar e fugiu pelos campos. Quando Orungã já a alcançava, ela caiu ao chão e morreu. Então seu corpo começou a crescer até que seus seios se romperam e deles saíram dois grandes rios, que formaram os mares; e do ventre saíram os Orixás que governam as 16 direcões do mundo: Exu, Ogum, Xangô, Iansã, Ossain, Oxossi, Obá, Oxum, Dadá, Olocum, Oloxá, Okô, Okê, Ajê Xalugá, Orum e Oxu.
Iemanjá teve muitos problemas com os filhos: Ossain, o mago, saiu de casa muito jovem e foi viver na mata virgem estudando as plantas. Contra os conselhos da mãe, Oxossi bebeu uma poção dada por Ossain e, enfeitiçado, foi viver com ele no mato. Passado o efeito da poção, ele voltou para casa mas Iemanjá, irritada, expulsou-o. Então Ogum a censurou por tratar mal o irmão. Desesperada por estar em conflito com os três filhos, Iemanjá chorou tanto que se derreteu e formou um rio que correu para o mar.
Yemanjá seria a filha de Olokum, deus (em Benin e em Lagos) ou deusa (em Ifé) do mar. Foi casada pela primeira vez com Orunmyila, senhor das adivinhações, depois com Olofin-Oduduá, Rei de Ifé, com quem teve dez filhos, que se tornaram Orixás. De tanto amamentar seus filhos, seus seios ficaram enormes. Esta foi a origem dos desentendimentos com o marido. Embora ela já o houvesse prevenido, dizendo-lhe que jamais toleraria que ele ridicularizasse os seus seios, uma noite o marido, que havia se embriagado com vinho de palma, não mais podendo controlar suas palavras, fez comentários sobre seus seios voluminosos. Tomada de cólera, Yemanjá fugiu em direção ao oeste, o "escurecer da terra". Olokun lhe havia dado outrora, por medida de precaução, uma garrafa contendo um preparado, pois "não-se-sabe-jamais-o-que-pode-acontecer-amanhã". E assim Yemanjá foi instalar-se à oeste de Abeokutá, alusão à migração dos Egbás. Olofin-Oduduá lançou seu exército à procura de Yemanjá. Esta, cercada, em vez de se deixar prender e ser conduzida de volta a Ifé, quebrou a garrafa, segundo as instruções recebidas. Um rio criou-se na mesma hora, levando-a para Okun, o mar, lugar de residência de Olokun.
Iemanjá foi casada com Okere. Como o marido a maltratava, ela resolveu fugir para a casa do pai Olokum. Okere mandou um exército atrás dela mas, quando estava sendo alcançada, Iemanjá se transformou num rio para correr mais depressa. Mais adiante, Okere a alcançou e pediu que voltasse; como Iemanjá não atendeu, ele se transformou numa montanha, barrando sua passagem. Então Iemanjá pediu ajuda a Xangô; o Orixá do fogo juntou muitas nuvens e, com um raio, provocou uma grande chuva, que encheu o rio; com outro raio, partiu a montanha em duas e Iemanjá pôde correr para o mar.
 
COMIDAS
 
ARROZ DE LEITE

meia xícara de arroz, meia xícara de leite de côco, sal
Cozinhar o arroz em água e sal. Juntar o leite de côco ,bater para azer uma papa e deixar secar bem no fogo. Esfriar numa fôrma de pudim molhada. Pode ser servido como prato salgado ou como doce, regado com mel.

CANJICA DE IEMANJÁ

100 g de milho de canjica, 1 xícara de leite, 1/3 de xícara de açúcar, 1 mamão miúdo, mel
Cozinhar a canjica, deixando secar. Juntar o leite e o açúcar e deixar apurar mais um pouco. Cortar o mamão ao meio, tirar as sementes, encher com canjica e regar com mel.
MANJAR

 2 colheres ( sopa ) de maizena, meia xícara de leite de côco, 1 xícara de leite, 1/4 de xícara de açúcar, raspa de laranja
Dissolver a maizena no leite frio. Juntar os outros ingredientes e levar ao fogo, mexendo até engrossar. Esfriar em fôrma molhada.

MOQUECA DE SIRI

200 g de carne de siri, cebola, tomate, coentro, suco de limão, sal, zeite de dendê, 1/2 xícara de leite de côco, 1 punhado de farinha de mandioca
Refogar os temperos. Juntar o siri e cozinhar. No fim, juntar o leite de côco e apurar o caldo. Tirar a carne e fazer pirão com o caldo.

EJÁ- 250 g de peixe, cebola, coentro, sal, suco de limão, azeite de dendê
Cozinhar o peixe puro. Moer o coentro e a cebola, fazendo uma pasta com o limão e sal. Juntar o peixe e azeite de dendê.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Pomos da Discórdia: das lendas para as mesas

Engraçado como as coisas inexplicavelmente retornam...
Estudei mitologia, de diversos povos, durante dez anos e de repente parei. Talvez por que me apareceram coisas novas pra pesquisar; talvez por que eu precisasse ver os resultados de anos de estudos; talvez eu precisasse repassar o que eu aprendi...
Hoje, porém, me peguei  num questionamento que me levou aos estudos mitológicos mais uma vez. Hoje, divido com vocês um pouco da minha curiosidade e de minhas “teorias”.
Desde as aulas de Ensino Religioso que eu tinha na escola, ou mesmo nas aulas do catecismo, os  “facilitadores” ensinavam erradamente um detalhe importante para a crença cristã: era repassado que quando adão e Eva comeram a maça da arvore proibida o mundo caiu em desgraça.
Eu sempre fui questionador, polemico até, e sempre que eu percebia algo errado e resolvia falar era um deus nos acuda (risos). E embora eu não tivesse a leitura que tenho hoje, ou mesmo a experiência, eu já sabia que o problema não era a pobre maça a causadora da expulsão do paraíso, mas a desobediência. Outro fator era o meu questionamento sobre a real existência da maça naquela história: quem disse que era uma maçã? Alguém provou a procedência desta informação?
É nítido que ao longo dos anos os responsáveis pelo comando da Igreja Católica usaram de poder e força bruta para incutir no povo o que eles quisessem. Além de se utilizar de costumes de velhas religiões e os adequar ao catolicismo para não perder fieis. E eu, hoje, pensando nisso vejo resquícios desta minha afirmativa presente na mitologia, quando ela trata do pomo da discórdia e da arvore dos pomos dourados que era protegida por um dragão.
Será que os pomos que causaram a discórdia na mitologia e no cristianismo vieram da mesma árvore, ou pelo menos  da mesma idéia?
Até nos contos de fada a presença de um pomo traz o enrredo para a clássica cena em Branca de Neve morde uma maçã e cai desacordada.
Mas é na mitologia que a maçã ganha cor de ouro e traz  momentos intrigantes e a  discórdia,construindo assim causos conhecidos pelo mundo todo até os dias atuais. Vejamos:

ATALANTA E HIPOMENE
Atalanta, na mitologia grega era uma das Abantíades, ora ligada aos mitos da Arcádia ora às lendas da Beócia. Sua filiação é controvertida; é tida como filha de Íaso, ou de Mênalo, ou ainda de Esquineu. Como seu pai queria apenas filhos homens, Atalanta foi abandonada no monte Partênio logo após o nascimento, tendo sido alimentada por uma ursa e depois recolhida e criada por caçadores. Tornou-se também caçadora, protegida por Artêmis. Muito ágil, era tão rápida "que poderia competir com os deuses Hermes e Íris" – os deuses mais rápidos. Como uma profecia afirmava que seria amaldiçoada e transformada em um animal ao se casar, Atalanta permaneceu virgem. Para demover os pretendentes, seu pai determinou que ela poderia se casar apenas com quem a vencesse na corrida. Os que fossem derrotados seriam mortos por Atalanta, que os trespassava com uma lança. Muitos jovens já haviam perdido a vida tentando derrtotar Atalanta, quando surgiu um novo pretendendente de nome Hipomene, filho de megareu. Hipomene pediu a ajuda de Afrodite que lhe deu três pomos (maçãs) de ouro, para que este os deixasse cair, um a um, no decorrer da corrida com Atalanta. Quando Atalanta via os pomos no chão, deslumbrada com sua beleza, parava para apanhá-los, fazendo com que Hipomene passasse à sua frente. Desta forma Hipomene venceu a corrida e se casou com Atalanta. Tiverem um filho, Partenopeu, que tomou parte na primeira expedição contra Tebas. Depois de se casar com Atalanta, Hipomene esqueceu de glorificar Afrodite. Como vingança, a deusa induziu o casal a violar um santuário de Zeus ou de Réia (conhecida em Roma como Cibele), onde fizeram amor. Como castigo pelo sacrilégio, Zeus (ou Réia) os transformou em leões para puxarem seu carro.

HÉRCULES NO JARDIM DAS HESPERIDES
Os pomos dourados aparecem mais uma vez na mitologia, sendo o decimo segundo trabalho de Hécules: conseguri os pomos de ouro do jadins da Hespérides.
O Jardim de Hespérides era o pomar de Hera, onde cresciam árvores que davam maçãs douradas da imortalidade (pomos dourados). No local era vigiado pelo dragão Ládon.
Conforme refere hesíodo na sua teogonia, Gaia, a Terra, e Ponto, o mar, tiveram muitos filhos, entre os quais se contavam Fórcis e Ceto. Por sua vez, estes dois deram lugar a uma terrível linhagem: as três Górgonas, Esteno, Euríade e Medusa; as três gréias, criaturas de cabelo grisalho e que partilhavam um único olho; e a temível Equidna, metade mulher, metade serpente. Por último, Ceto "pariu uma terrível serpente que, nos flancos da terra negra, na extremidade do Mundo, guardava as maçãs de ouro". Este era Ládon, e a sua história está associada à das Hespérides.
Essa crença dizem que Ládon, um dragão com um corpo de serpente onde tinha cem cabeças que falavam línguas diferentes, foi um dragão a quem Hera, mulher de Zeus, deu a tarefa de proteger a macieira de frutos de ouro. Esta era um árvore que Gaia lhe tinha dado no dia de casamento com Zeus. Hera plantou essa árvore nos confins ocidentais do Mundo e deu às ninfas do entardecer, as hespérides, filhas de Atlas, a função de a proteger. Estas, por sua vez, aproveitaram-se dos frutos de ouro para seu próprio benefício e a rainha dos deuses teve de procurar um guardião mais fiável, poderoso, e inteligente - Ládon.
A partir desse momento, Ládon tornou-se o guardião da macieira dos frutos de ouro, que mais tarde morreu por um flecha de Hércules que precisava de uma maçã de ouro para completar uma das 12 tarefas do rei euristeu. Este por sua vez, depois de matar o temível dragão, foi ter com Atlas que cedeu a sua tarefa de segurar o mundo aos ombros a Hércules, enquanto ele ia buscar a maçã. Quando regressou, trazia 3 maçãs de ouro, mas recusava-se a voltar para a sua função, o que fez Hércules enganá-lo dizendo que aceitava a exigência de Atlas, mas que queria ir buscar, primeiro, uma almofada para por aos ombros. Assim, Atlas. Atlas voltou a suportar o mundo e Hércules aproveitou para fugir indo para o jardim que o dragão guardava. Lá, para prestar homenagem a Ládon, pegou nos seus restos mortais e atirou-os para o Céu, onde ainda hoje estão, na constelação do dragão.

A GUERRA DE TROIA
A lendária guerra de troia começou numa festa dos deuses do olimpo: éris, a deusa da Discórdia, que naturalmente não tinha sido convidada, resolveu acabar com a alegria reinante e entregou anonimamente aos olímpicos uma linda maçã, toda de ouro, com a inscrição "Para a mais bela".
A confusão já estava armada. As três deusas mais poderosas, Hera, Afrodite e Athena, imediatamente se colocaram a disputar o troféu. Nenhum dos deuses quis se meter a juiz nessa confusão, inclusive o rei do Olimpo, Zeus. Esse, sabiamente, resolveu se livrar do espinhoso fardo e passá-lo à Páris, um mortal que era filho do rei Príamo, de tróia. Na época, Páris trabalhava como pastor e vivia feliz ao lado de uma ninfa adorável chamada Enone. Vivia no campo pois sua mãe, dias antes de seu nascimento, sonhara que estava dando a luz a serpentes flamejantes que se enrolavam entre si, depois pediu aos adivinho para interpretar o sonho e eles disseram que o bebê destruiria Tróia e todo seu território
Assim estavam as coisas até surgirem diante de Páris as 3 divindades em suas formas mais reluzentes e magníficas. Todas tentaram persuadi-lo com oportunidades infinitamente gloriosas. Em troca da maçã de ouro, Atena ofereceu a Páris a chefia de uma histórica e vitoriosa guerra. Já hera ofereceu a ele a glória de ser o Rei absoluto de toda a Europa e Ásia. E Afrodite por sua vez, garantiu a ele o amor da mais bela mulher do mundo.
Páris então, confuso em meio a tantas maravilhas oferecidas a si, concedeu o título a Afrodite. E a deusa, ignorando solenemente a presença de Enone, realizou o desejo do jovem. A deusa sabia exatamente onde se encontrava a mais bela mulher do mundo: era Helena, casada com o rei de esparta, Menelau.
 Auxiliados por Afrodite, Helena e Páris fugiram para Tróia. Assim que soube da traição, Menelau enfurecido foi pedir auxílio ao seu inescrupuloso irmão, o rei agamenon para junto com ele persuadir todos os grandes generais e reis da Grécia numa marcha colossal contra os troianos (inclusive o rei da província de Ítaca, Odisseu, arquiteto do plano com o cavalo de tróia e posteriormente famoso pela odisseia ). Agamenon viu no infortúnio do irmão a oportunidade perfeita para conquistar Tróia, até então conhecida como impenetrável. E foi a partir desse momento que começava a mundialmente conhecida Guerra de troia,No fim Páris cumpriu a missão perdendo a guerra e causando a destruição de Tróia.
E a famosa maçã passou a ser conhecida como "o pomo da discórdia" - que hoje indica qualquer coisa que leve as pessoas a brigar entre si.
De acordo com Sharon Arnot, o termo maçã dourada é frequentemente usado para se referir ao marmelos, um fruto do oriente médio (Quince, the golden apple. Sharon Arnot, sauce Magazine, 26 de abril de 2004).
Mas e o fruto de Adão e Eva seria um pomo de ouro. Seria uma maçã?
De acordo co a bíblia o fruto é chamado de o “fruto da árvore” (arvore do conhecimento do bem e do mal), e nem os frutos nem a arvore tiveram sua espécie identificadas.
A fruta comida por Adão e Eva. Porém, conceitos cristãos mal formulados em suas traduções trazem a maçã como sendo o tal fruto. Alguns pesquisadores acreditam ainda que o Figo, o Trigo ou a Uva tem possibilidades de terem sido o fruto proibido!
Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais. (Gênesis 3 - Versículo 3).
De acordo com o Livro de Gênesis, Adão e Eva foram expulsos do paraíso por comerem “O fruto da árvore que está no meio do jardim”. Nada menciona a MAÇÃ!
Alguns Teólogos acreditam que o fruto proibido seria o Figo da Figueira, por Adão e Eva se vestirem das folhas da figueira. Outros Teólogos acreditam que o fruto proibido faça referência ao trigo ou possivelmente a uvas.
Segundo o ditado popular mundial, o fruto proibido é a maçã! A culpa disso deve-se talvez a Áquila Pôntico, um tradutor do Antigo Testamento, que atribuiu a macieira no Cântico de Salomão, como sendo a árvore frutífera de Gênesis, sendo assim, a maçã como o fruto proibido.

A simbologia da maçã.
As línguas européias e também indo-européias usam uma palavra com a raiz de ap, ab, af ou av para maçãs ou macieira: aballo (céltica), apple (inglês), apfel (germânico), abhal (gaélico irlandês), afal (galês), iablokaa (russo) e jablko (polonês). Com relação a pomme, o termo francês vem do latim pomum, que se referia originalmente a todas as frutas. Em latim as palavras mal e maçã, malum, são escritas da mesma forma, sendo a originárias do grego, mélon.
A fruta possui um sentido ambíguo durante a Idade Média. De um lado foi identificada como aquela que causou o pecado original. Porém, também pode ter um significado positivo, pois desde o século XI a maçã nas mãos do menino Jesus e na de Maria significa uma referência à absolvição do pecado e à vida eterna (LURKER, 1997: 405).
Para os povos germânicos, a maçã também significa a imortalidade, representada pela deusa Idun (a rejuvenescedora). Ela guardava uma maçã numa taça e quando os deuses ficavam velhos mordiam a maçã e encontravam a juventude (GUREVITCH, 1990: 119). Numa ocasião, porém, a deusa e seus pomos de ouro foram raptados por um gigante, o que deu início ao envelhecimento dos deuses do Asgard. Com o resgate de Idun pelo deus Loki, todos readquiriram a juventude (LURKER, 1993: 97).
Idun
Durante o período medieval, outras frutas também foram associadas ao pecado original, como a uva e o figo. A figueira na Grécia era consagrada à Atena e seus frutos sagrados não podiam ser exportados. Em Roma possuía um sentido erótico e era associada a Príapo. Na Bíblia, após comerem o fruto proibido, Adão e Eva descobriram que estavam nus e cobriram-se com folhas de figueira (Gn 3,7).
O figo está relacionado ao fígado, principal órgão dos sentidos para os gregos, sendo a figueira usualmente considerada local de contemplação. Por isso, ao transgredir o decreto dos deuses e fornecer o fogo aos homens, Prometeu foi condenado a ter seu fígado eternamente comido pela águia (animal ligado aos deuses), podendo-se estabelecer um paralelo entre a transgressão de Adão na cultura judaico-cristã e a de Prometeu na greco-romana, pois ambos teriam simbolicamente roubado a sabedoria do mundo divino (FRANCO JR., 1996: 57). O figo também aparecia em representações de bacanais, e o seu interior assemelha-se ao órgão sexual feminino.

Prometeu
 A uva era outra fruta associada à transgressão de Adão e Eva, relacionando-se à fertilidade e ao sacrifício (CIRLOT, 1984: 590). Seu significado está ligado ao sangue e, por isso, à Paixão de Cristo. Para os medievais, a ato de comer era sagrado e indiretamente ao beber o vinho e comer a hóstia comiam Deus, morto para redimi-los do pecado.
A partir do século XIII, a maçã passou a ocupar o principal lugar como fruto proibido. A uva era uma fruta em grande abundância em várias regiões européias e daí a substituição pela maçã por motivos econômicos. Um exemplo da relevância da vinha é sua constante representação nos calendários, associada às atividades agrícolas, estampada nos meses de abril (poda da vinha), setembro (colheita) e outubro (preparação do vinho).
A maçã também ocupa um lugar importante na mitologia celta, representando a imortalidade e servindo de alimento para os mortos. As maçãs são consideradas ainda como símbolo da alma. Por isso, no festival celta de Shamhaim – que deu origem ao Halloween – elas eram enterradas durante a noite para que renascessem na primavera.
Entre as populações de origem céltica, a maçã representa o conhecimento, a revelação e a magia. Existem vários relatos referentes às viagens célticas ao Além, os imrama, nos quais um herói é atraído por uma fada, que lhe entrega um ramo de maçã e o convida para ir para o Outro Mundo, como em A Viagem de Bran, Filho de Febal. Num outro imrama, A Viagem de Maelduin, que trata da busca do herói pelos assassinos de seu pai, ele passa por uma ilha onde encontra uma macieira e dela corta um ramo com três maçãs. Estes frutos são capazes de saciar a sua fome e a de seus companheiros por quarenta dias sem ingestão de qualquer outro alimento (MARKALE, 1979: 246).
Numa outra narrativa céltica, Condle, filho de Conn, herói das cem batalhas também é alimentado por maçãs que nunca diminuem sua quantidade (CHEVALIER & GHEERBRANT, 1995: 573). Na mitologia desses povos, a maçã está ligada a um espaço específico: a Ilha dos Bem-Aventurados, local de abundância e imortalidade. Os gregos já imaginavam essas ilhas com um clima ameno e aprazível, cercadas por árvores frutíferas e fontes para onde os heróis eleitos se dirigiam sem sofrer a morte (LURKER, 1997: 337).
Mais tarde, Isidoro de Sevilha deu maiores descrições destas regiões, ressalvando, no entanto, que não correspondiam ao paraíso terrestre, o qual, de acordo com a concepção cristã, localizava-se em algum lugar da terra no Oriente, sendo inacessível aos humanos. Na Baixa Idade Média, o conceito de Ilha Afortunada de Isidoro fundiu-se com a noção da Ilha Céltica de Avalon (DELUMEAU, 1994: 123).
Ilha das maçãs
Tal como a árvore, a ilha tem o significado de centro e sua forma circular representa a perfeição. Sua localização isolada e de difícil acesso garante que só os escolhidos podem alcançá-la após uma viagem iniciática, na qual passam por outras ilhas e enfrentam perigos até chegar ao seu destino. Existe uma analogia entre a Terra das Fadas, os reinos utópicos, como o País da Cocanha e o Éden bíblico. Todos estes locais são caracterizados pela abundância, fertilidade e inexistência do trabalho humano. Veremos mais tarde algumas diferenças na passagem dos eleitos por estes locais. Avalon, a Ilha das Maçãs (Insula Pomorum) era, de acordo com as descrições da Vita Merlini de Geoffroy de Monmouth (século XII) uma ilha tão abundante que ao invés de grama o chão era coberto por frutos:
La isla de los Frutos, que llaman Afortunada, bien puesto tiene el nombre, que de todo produce por sí sola. Pues no ha menester esta isla de labriegos que aren sus campos: no hay allí ningún cultivo, todo lo da espontáneamente la naturaleza. (...) De todo da su suelo en extrema abundancia, frutos en lugar de grama. (GEOFFREY DE MONMOUTH, 1994: 32)
Como demonstrei, no período medieval a maçã possui um sentido multifacetado. Fruto proibido, levou os homens ao sofrimento e ao conhecimento, que segundo Santo Agostinho, deveria ser obtido através do amor. Para os homens da Igreja, a sapientia era uma prerrogativa deles, na medida em que, por estarem afastados do ato sexual, eram mais puros e totalmente voltados a Deus. Vistos como os intérpretes da palavra sagrada e da verdade, os oratores consideravam que sua proximidade com o mundo divino os autorizava a controlar o resto da sociedade, procurando assim estabelecer normas que garantissem aos vivos a futura entrada no paraíso. Porém, os relatos medievais apresentavam outros tipos de paraíso e outras vias, como as seguidas por Bran, Guingamor ou pelo poeta da Cocanha.
A maçã também possui um significado curioso com relação à figura feminina. De um lado representa o mal e o pecado, através da ingestão do fruto proibido por Eva, que levou os medievos ao desprezo e à desconfiança com relação aos seres deste sexo. As mulheres eram usualmente vistas como mentirosas, tentadas ao adultério e inclinadas à luxúria e ao demônio. A salvadora dessas mulheres seria Maria, a virgem escolhida pelo Criador para gerar um homem perfeito, Jesus, o filho de Deus, que sacrificou-se para redimir os pecados da humanidade. Próxima ao modelo de Maria estava Valides, capaz de, através de sua pureza, indicar a um eleito de Deus, Santo Amaro, o caminho do paraíso terreal.

Uma outra imagem feminina era a das fadas, mulheres que habitavam a Insula Pomorum, e que competiam no plano simbólico com a Igreja com relação ao domínio do sagrado, pois, segundo as narrativas, possuíam a sabedoria, o dom da cura e da imortalidade.
O sentido da maçã como representante da Ilha Paradisíaca levou muitos a sonharem com a terra da abundância, da imortalidade e felicidade, que poderia ser encontrada num mundo paralelo em algum lugar misterioso: uma ilha no meio do oceano, um lugar na floresta. Para o clero, no entanto, só depois da morte e da passagem pelo purgatório, os indivíduos purificados poderiam aspirar à felicidade eterna.
Além de tudo isso, a maçã, fruta de regiões temperadas, tem muito a oferecer em termos de nutrição. Fósforo, ferro e vitaminas do complexo B que ajudam a regular o sistema nervoso, favorecem o crescimento, evitam problemas de pele, do aparelho digestivo e queda dos cabelos. A maçã ainda é fonte de quercetina, uma substância que ajuda a evitar a formação dos coágulos sanguíneos capazes de provocar derrames, sendo recomendado o seu consumo para quem tem problemas de intestino, obesidade, reumatismo e diabetes. O ideal é consumi-la com a casca, mas se for retirá-la, aproveite para, depois de seca, fazer um chá, é um excelente diurético. Não é por nada que um ditado popular diz o seguinte: uma maça por dia afasta o médico.

E pra não desagradar as crenças, aqui deixo umas receitinhas de pomos proibidos .

Marmelo em calda
2 kg de marmelo
2 xícaras de chá de açúcar
1 litro e meio de água

Modo de preparo: Descasque os marmelos, retire as sementes e corte em fatias de 1 cm. Coloque os marmelos numa panela juntamente com o açúcar e a água. Leve ao fogo. Quando as fatias de marmelo estiverem cozidas e macias, retire da panela. Reserve. Deixe a calda no fogo cozinhando até ficar mais grossa. Acrescente as fatias de marmelo, retire do fogo e deixe esfriar. Coloque numa compoteira e sirva.

Maça Assada
6 maças grandes tipo fuji ou verde
3 ovos
1 lata de leite condensado
1 lata de vinho tinto suave
1 xícara de café de rum
1 xícara de açúcar para cozimento das maças
2 xícaras de açúcar para calda

Modo de preparo: Descasque as maças, tirando o miolo (sementes), formando um buraco no meio da maça, com cuidado para não rachar as laterais da maça. Coloque-as em uma panela com as cascas, o vinho, o açúcar e run. Deixe cozinhar até que as maças fiquem cozidas, porém não moles. Faça creme com leite condensado e duas gemas de ovos. Após cozimento, retire as maças e recheie as mesma com creme, feito com leite condensado. Prepare um creme de suspiro e cubra as maças. Após coberto com suspiro , asse no forno, até que o suspiro fique dourado. Deixe esfriar e coloque na geladeira. Com o restante da caldo do vinho, acrescente mais açúcar e reduza até ponto de calda grossa. Deixe esfriar. Montagem do prato: coloque a maça individual em prato de sobremesa e despeje por cima a calda do vinho.

Figos  Ramy
500 gr de açúcar cristal
36 unidade(s) de figo



Modo de preparo:
Lavar os figos e cortar os cabinhos. Arrumar numa panela com os cabos todos para cima, colocar o açúcar por cima dos figos. Tampar e levar ao fogo forte. Quando ferver, abaixe o fogo e deixe cozinhar por aproximadamente 3 a 4 horas.  Desligar o fogo quando o doce estiver como o ramy.  Colocar em compoteira e conservar em geladeira




Fontes
A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 1995.
CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1995.
CIRLOT, Juan Eduardo. Dicionário de Símbolos. São Paulo: Moraes, 1984.
DELUMEAU, Jean. Uma História do Paraíso: O Jardim das Delícias. Lisboa: Terramar, 1994.
FRANCO, Jr., Hilário. A Eva Barbada. São Paulo: EDUSP, 1996.
GEOFFROY DE MONMOUTH. Historia Regum Britanniae (Histoire des Rois de Bretagne). (traduite et comenté par Laurence Mathey-Maille). Paris: Les Belles Lettres, 1994.
GUREVITCH, Aron. As Categorias da Cultura Medieval. Lisboa: Caminho: 1990.
LURKER, Manfred. Dicionário dos Deuses e Demônios. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
______________. Dicionário de Simbologia. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
MARKALE, Jean. L’Epopée Celtique d’ Irlande. Paris: Payot, 1979.