sábado, 13 de agosto de 2011

Fata Morgana (Morgana das Fadas)

Na minha vida a busca pela exploração constante dos meus sentidos é obrigatória! Fico contente quando posso me surpreender com as reações que meus sentidos são capazes de gerar – tenho uma sensibilidade muito aguçada, o que por si só já facilita muita coisa.
Pois bem, gosto do belo, da boa música, da boa comida, da boa bebida. Dou-me as boas conversas, as boas leituras. E numa destas leituras descobri uma maravilha líquida que já passei a degustar explorando todo o glamour do nome que ostenta: Fata Morgana (Drink).
E para dividir com vocês a receita que recentemente aprendi desta bebida surpreendente, resolvi escrever este post e dedicá-lo aos estudiosos e curiosos da cultura celta, que como eu, têm interesse pela lendária figura de Morgana (ou como é conhecida por seus vários nomes: Morgan Le Fay, Morgana das Fadas ou Fata Morgana), figura polêmica, astuta, mágica e cheia de histórias interessantíssimas...
Morgan le Fay, by Anthony Frederick Sandys(1829–1904), 1864 (Birmingham Art Gallery)
Morgana representa na lenda arturiana, a figura da magia (uma Deusa Tríplice da morte, da ressurreição e do nascimento, incorporando uma jovem e bela donzela, uma vigorosa mãe criadora ou uma bruxa portadora da morte), e faz seu debut literário No início do século XII, no poema de Godofredo de Monntouth intitulado "Vita Merlini", como feiticeira benigna – ele ainda descreveu a ilha da Felicidade, onde viviam as nove irmãs. A mais jovem Morgue (Morgana), conhecia todas as qualidades medicinais das ervas, dominava a arte de alterar as figuras e tinha o poder de se elevar no ar como um pássaro. Foi ela quem recolheu o rei Artur após a sua derrota, curou-o de suas feridas, retendo-o até o dia em que retornou à Bretanha para libertá-la. Layamon, autor de um poema narrativo inglês é o primeiro a descrever como a mulher levou Artur pelas águas e não simplesmente recebendo-o na sua chegada.

 Mas sob a pressão religiosa, os autores a convertem em uma irmã bastarda do rei, ambígua, freqüentemente maliciosa, tutelada por Merlim, perturbadora e fonte de problemas.
Nenhum personagem feminino foi tão confusamente descrito e distorcido como Morgana. A tradição cristã a apresenta como uma bruxa perversa que seduz seu irmão mais novo, Artur, e dele concebe o filho. Entretanto, nesta época, em outras tribos celtas, como em muitas outras culturas, o sangue real não se misturava e era muito comum casarem irmãos, sem que isso acarretasse o estigma do incesto. Morgana e Artur tiveram um filho fruto de um Matrimônio Sagrado entre a Deusa (Morgana encarna como Sacerdotisa) e o futuro rei.
O "Matrimônio Sagrado" era um ritual, no qual a vida sexual da mulher era dedicada à própria Deusa através de um ato de prostituição executado no templo. Essas práticas parecem, sob o ponto de vista da nossa experiência puritana, meramente licenciosas. Mas não podemos ignorar que elas faziam parte de uma religião, ou seja, eram um meio de adaptação ao reino interior ou espiritual.
Beltane - O Matrimônio Sagrado
Práticas religiosas são baseadas em uma necessidade psicológica. A necessidade interior ou espiritual era aqui projetada no mundo concreto e encontrada através de um ato simbólico Se os rituais de prostituição sagrada fossem examinados sob essa luz, torna-se evidente que todas as mulheres devessem, uma vez na vida, dar-se não a um homem em particular, mas à Deusa, a seu próprio instinto, ao princípio Eros que nela existia. Para a mulher, o significado da experiência devia residir na sua submissão ao instinto, não importando que forma a experiência lhe acontecesse. Depois de passar por essa iniciação, os elementos de desejo e de posse ficam para trás, transmutados através da apreciação de que sua sexualidade e instinto são expressões de força de vida divina cuja experiência no plano humano. 
O "matrimônio sagrado" envolve o mistério da transformação do físico para o espiritual, e vice-versa. Cada pessoa conecta-se com o universo como se fosse célula única no organismo do campo planetário da consciência. A partir da união do humano com o divino, a "Criança Divina" nasce. A "Criança Divina" é a vida nova, vida com nova compreensão, vida portadora de visão iluminante para o mundo.
Um sinal de popularidade dessa lenda, na Itália, encontra-se na locução jata Morgana (fada Morgana), que passou a designar a miragem que mostra imagens invertidas de objetos invisíveis. Quando os raios luminosos se refratam e refletem em camadas atmosféricas curvas e irregulares, a miragem produz imagens deformadas em todas as direções, fragmentadas e repetidas, às vezes mais próximas, às vezes mais afastadas uma das outras. Essa forma de miragem é, provavelmente, a origem de numerosas lendas referentes a monstros marinhos de dimensões e formas bizarras, bem como dos navios fantasmas que às vezes parecem surgir nos horizontes dos mares. 
Exemplo de miragem fatamorgana
Alguns supostos aparecimentos milagrosos de santos têm sido atribuídos à ocorrência desse tipo de miragem, capaz de sugerir formas alongadas muito análogas às de um homem ou mulher vestidos com uma longa túnica. Isso ocorreu, recentemente, no Rio Grande do Sul. Dois exemplos notáveis dessas miragens atribuídas à fada Morgana são as imagens fantásticas que atraíam o povo às margens do mar em Nápoles e em Régio, na costa da Sicília. Um outro exemplo célebre, observado há séculos no estreito de Messina, é a miragem na qual as casas do lado oposto parecem transformadas em castelos, palácios, torres etc, numa das mais feéricas imagens já vistas.

MAS QUEM ERA MORGANA?

Como muitos indivíduos legendários e românticos, há versões conflitantes sobre quem foi Morgana. O historiador e cronista do século XII, Geoffroi de Monmouth, escreveu que "sua beleza era muito maior do que a de suas nove irmãs. Seu nome é Morgana e ela aprendeu a usar todas as plantas para curar as doenças do corpo. Ela também conhece a arte de mudar de forma, de voar pelo ar...ela ensinou astrologia às irmãs."
Relatos antigos contam-nos que ela era uma Velha Deusa da Sabedoria, a Senhora e Rainha de Avalon, a Alta Sacerdotisa da Antiga Religião Celta. Aprendeu magia e astronomia com Merlim. Alguns achavam que ela era uma "fada arrogante", pois era símbolo de rebeldia feminina contra a autoridade masculina. Quando zangada, era difícil agradar ou aplacar Morgana; outras vezes, podia ser doce, gentil a afável. Também era descrita como "a mulher mais quente e sensual de toda a Grã-Bretanha."
Morgana era um enigma aos seus adversários políticos e religiosos. Os escrivões cristãos transformaram-na em demônio, talvez devido ao seu papel como sacerdotisa de uma Antiga Religião, que eles estavam tentando desacreditar nas suas investidas para cristianizar a estrutura de poder da Grã-Bretanha. Ela, entretanto, defendeu valentemente a fé das Fadas e as práticas dos druidas, achando entre os camponeses simples seus mais fiéis seguidores. Ela negou as acusações de prostituição dos monges e missionários cristãos.
É Morgana, que depois da batalha final, ampara o irmão ferido de morte e o cuida com o zelo de uma mãe e consoladora espiritual.
O cristianismo menospreza o poder e o conhecimento de Morgana, do mesmo modo com que impediu a mulher à ascender ao sacerdócio, anulando completamente o seu poder pessoal.

Morgana é a fada mais bela das que habitam Avalon. Não existem fundamentos suficientes para se acreditar que Avalon seja o lugar que a cultura celta atribuí como residência dos mortos. O que se sabe é que quando Artur é transportado sobre as águas em companhia das mulheres com destino a Avalon, se perde no horizonte do mito imemorial. Este é o pano de fundo sobre o qual se desenvolvem as diferentes lendas relativas à partida e imortalidade de Artur, que supostamente continua vivo dentro de uma caverna ou em uma ilha. Estas mulheres que acolheram Artur pertencem ao mundo das fadas, que provavelmente foi antes um mundo de deusas.
Segundo Robert Graves e Kathy Jones, a Morg-Ana "surgiu da união das estrelas com o ventre de Ana". Muitas vezes foi equiparada as Deusas Morrigan e Macha, que presidiam as artes da guerra. Entretanto, como fada controlava o destino e conhecia as pessoas.  Famosa por seus poderes de cura, seu conhecimento de plantas medicinais e sua visão profética, era uma xamã capaz de alterara a sua forma, tomando o aspecto de diferentes animais para utilizar seu poder.
Em "L'Histoire de Merlin", temos uma descrição bastante detalhada de Morgana, indicando seu verdadeiro caráter e também os estreitos vínculos que estabelece com a Deusa Mãe primitiva:  

"Era a irmã do rei Arthur. Era muito alegre e jovial, e cantava de forma muito agradável; seu rosto era moreno, mas bem metida em carnes, nem demasiadamente gorda nem demasiadamente magra, de belas mãos, de ombros perfeitos, a pele mais suave que a seda, de maneiras afáveis, alta esguia de corpo, em resumo, sedutora até o milagre; a mulher mais cálida e mais luxuriosa de toda a Grã Bretanha. Merlim havia lhe ensinado astronomia e muitas outras coisas, e havia se aplicado ao máximo, de maneira que havia se convertido em uma boa sacerdotisa, que mais tarde recebeu o nome de Morgana a Fada, em virtude das maravilhas que realizou. Se explicava com uma doçura e uma suavidade deliciosas, e era melhor e mais atrativa que tudo no mundo, embora tivesse sangue frio. Porém quando queria alguém, era difícil acalmá-la..."

Esse é decididamente o retrato da Deusa Mãe primitiva, com toda sua ambigüidade, as vezes boa, outras nem tanto, "cálida e luxuriosa", como a Grande Deusa oriental e, "virgem", pois não se submete à autoridade masculina. Observemos também que Merlim ensinou-lhe magia do mesmo modo com que fez com Viviana, a Dama do Lago. Outras versões da história do Merlim, versões hoje perdidas, porém cujo rastro encontramos na célebre obra do século XV devido a Thomas Malory, "La muerte de Arturo", vasta compilação dos relatos da Távola Redonda, outras versões levam a pensar que Merlim foi amante de Morgana antes de sê-lo de Viviana.

Morgana fala...

Em vida, chamaram-me de muitas coisas: irmã, amante, sacerdotisa, maga, rainha. O mundo das fadas afasta-se cada vez mais daquele em que cristo predomina. Nada tenho contra o Cristo, apenas contra os seus sacerdotes, que chama a Grande Deusa de demônio e negam o seu poder no mundo. Alegam que, no máximo, esse seu poder foi o de Satã. Ou vestem-na com o manto azul da Senhora de Nazaré – que realmente foi poderosa, ao seu modo –, que, dizem, foi sempre virgem. Mas o que pode uma virgem saber das mágoas e labutas da humanidade?
E agora que este mundo está mudado e Arthur – meu irmão, meu amante, rei que foi e rei que será – está morto (o povo diz que ele dorme) na ilha sagrada de Avalon, é preciso contar as coisas antes que os sacerdotes do Cristo Branco espalhem por toda parte os seus santos e lendas.
Pois, como disse, o próprio mundo mudou.
Houve tempo em que um viajante se tivesse disposição e conhecesse apenas uns poucos segredos, poderia levar sua barca para fora, penetrar no mar do Verão e chegar não ao Glastonbury dos monges, mas à ilha sagrada de Avalon: isso porque, em tal época, os portões entre os mundos vagavam nas brumas, e estavam abertos, um após o outro, ao capricho e desejo dos viajantes. Esse é o grande segredo, conhecido de todos os homens cultos de nossa época: pelo pensamento criamos o mundo que nos cerca, novo a cada dia.
E agora os padres, acreditando que isso interfere no poder do seu Deus, que criou o mundo de uma vez por todas, para ser imutável, fecharam os portões (que nunca foram portões, exceto na mente dos homens), e os caminhos só levam à ilha dos padres, que eles protegeram com o som dos sinos de suas igrejas, afastando todos os pensamentos de um outro mundo que viva nas trevas. Na verdade, dizem eles, se aquele mundo algum dia existiu, era propriedade de Satã, e a porta do inferno, se não o próprio inferno. Não sei o que o Deus deles pode ter criado ou não. Apesar das historias contadas, nunca soube muito sobre seus padres e jamais usei o negro de uma de suas monjas-escravas. Se os cortesãos de Arthur em Camelot fizeram de mim este juízo, quando fui lá (pois sempre usei as roupas negras da Grande Mãe em seu disfarce de maga), não os desiludi.
E na verdade, ao final do reinado de Arthur, teria sido perigoso agir assim, e inclinei a cabeça à conveniência, como nunca teria feito a minha grande Senhora, Viviane, Senhora do Lago, que depois de mim foi a maior amiga de Arthur, para se transformar mais tarde em sua maior inimiga, também depois de mim.
A luta, porém, terminou. Pude finalmente saudar Arthur, em sua agonia, não como meu inimigo e o inimigo de minha Deusa, mas apenas como meu irmão, e como um homem que ia morrer e precisava da ajuda da mãe, para a qual todos os homens finalmente se voltam. Até mesmo os sacerdotes sabem disso, com sua Maria sempre-virgem em seu manto azul, pois ela, na hora da morte, também se transforma na Mãe do Mundo.
E assim, Arthur jazia enfim com a cabeça em meu colo, vendo-me não como irmã, amante ou inimiga, mas apenas como maga, sacerdotisa, Senhora do Lago; descansou, portanto no peito da Grande Mãe, de onde nasceu, e para quem, como todos os homens, tem a finalidade de voltar. E talvez – enquanto eu guiava a barca que o levava, desta vez não para a ilha dos padres, mas para a verdadeira ilha sagrada no mundo das trevas que fica além do nosso, para a ilha de Avalon, aonde, agora, poucos, além de mim, poderiam ir – ele estivesse arrependido da inimizade surgida entre nós.(...)
A verdade tem muitas faces e assemelha-se à velha estrada que conduz a Avalon: o lugar para onde o caminho nos levará depende da nossa própria vontade e de nossos pensamentos, e, talvez, no fim, chegaremos ou à sagrada ilha da eternidade, ou aos padres, com seus sinos, sua morte, seu Satã e Inferno e danação...Mas talvez eu seja injusta com eles. Até mesmo a Senhora do Lago, que odiava a batina do padre tanto quanto teria odiado a serpente venenosa, e com boas razões, censurou-me certa vez por falar mal do deus deles.
“Todos os deuses são um deus”, disse ela, então como já dissera muitas vezes antes, e como eu repeti para as minhas noviças inúmeras vezes, e como toda sacerdotisa, depois de mim, há de dizer novamente, “e todas as deusas são uma deusa, e há apenas um iniciador. E cada homem a sua verdade, e Deus com ela”.
Assim, talvez a verdade se situe em algum ponto entre o caminho para Glastonbury, a ilha dos padres, e o caminho de Avalon, perdido para sempre nas brumas do mar do Verão.
Mas esta é a minha verdade; eu, que sou Morgana, conto-vos estas coisas, Morgana que em tempos mais recentes foi chamada Morgana, a Fada.

Marion Zimmer Bradley, in As Brumas de Avalon
  
Fata Morgana

Ingredientes:
1/2 kg de sorvete de baunilha ou creme, + ou - amolecido.
Suco de 1 limão
1 clara
Casca ralada de 1 limão
2 colheres (chá) de açúcar refinado
1/2 garrafa de champanhe

Preparo: Bata o sorvete ate ficar cremoso. Junte o suco e a casca de limão e mexa bem. Bata a clara com o açúcar refinado em neve firme e misture cuidadosamente com o sorvete. Leve ao congelador de um dia para o outro. Coloque a champanhe em quatro cálices grandes, ate 3/4. Coloque uma bola de sorvete em cada cálice. Sirva em seguida.



quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A Festa de Babette: gastronomia para aguçar além dos sentidos


Já faz algum tempo que venho listando filmes que tenham a culinária e a gastronomia como elemento gancho por onde se contam histórias de personagens e, a partir do contexto, permitir que o espectador possa compreender elos e os enfoques diferentes pelos quais os diretores se embrenha para contar sua história.

Hoje, mais uma vez, me peguei revendo uma obra das mais sofisticadas que já pude ver, “A festa de Babette” (Le festin de Babette), do dinamarquês Gabriel Axel, filme baseado na obra homônima da escritora, também dinamarquesa, Karen Blixen. E lhes digo, definitivamente vale a pena assistir esse filme pelo simples fato de que ele vai te levar para além das expectativas. Obviamente a sensibilidade de cada um vai dar o tom nas sensações, mas seja quais elas forem, vale muito a pena.


Uma das edições do livro com o título original em dinamarquês - Babettes Gæstebud .
Talvez alguém possa estar se perguntando como eu ouso afirmar uma coisa destas. E eu lhes darei alguns exemplos pra justificar essa minha ousadia:
Na primeira vez em que me dispus a assistir ao filme, já havia me deparado com muitas boas referências a ele; algumas duras demais, ao ponto de alguns críticos serem simplistas ao afirma que era um filme sobre comensalidade e que os adoradores de cinema poderiam ver nas cenas de “A Festa de Babette” a comida no seu sentido lato (com toda a representação ritualística da cozinha, dos ingredientes como dádivas da terra, com referências ao deleite; revelando o caráter da hospitalidade e as interações com comida como fonte para o sagrado.

 Porém, ele é mais que tudo isso. É transcendental. O filme divaga pela exploração de todos os sentidos, usando a presença do “sutil” para evocar a sensibilidade necessária em cada cena que, com a ajuda da trilha sonora certeira desperta desejos ocultos, sensações, prazeres...


Assim sendo, não seria difícil entender porque o filme ganhou o Oscar em 1987. Mas eu devo aqui me deter a alusão ao sagrado que me pegou de jeito.
Eu, particularmente, sempre gostei de simbolismo. Talvez pelo fato de eu ter estudado mitologia por uns bons anos e sempre recorria a estudar elementos simbólicos para melhor compreender seu aparecimento nas alegorias míticas.
E, em A Festa de Babette, é nítida a presença do simbolismo cristão. Passo, então, a listar algumas observações a esse respeito, não estou dizendo que elas orientam a ideia fundamental do autor, nem do diretor do filme, são antes simbolismos extraídos a partir do que aparece nas cenas e do que elas acabaram significando para mim naquele momento quando eu assistia ao filme, vejamos:
·         Há, claramente, um paralelo entre a imagem de Babette e a do Cristo: Babette é pobre, chegou misteriosamente a uma pequena comunidade, trabalha como criada e, no final, presenteia a todos com um lauto banquete;
·         O auto-sacrifício por amor é outra ligação nessa comparação, já que ele está presente nos dois casos (Babette/Cristo), como fio condutor da história;
·         O banquete em memória do pastor é uma alusão clara à 'Última Ceia' e, por extensão, à liturgia cristã;
·         À mesa sentaram-se doze pessoas – uma clara alusão aos doze apóstolos;
·         Cailles au Sarcofage ('Codorna no Sarcófago'), foi o prato principal servido por Babette. Codorna significando 'maná' (alimento espiritual de origem divina que consola a alma); e Sarcófago, palavra vinda do latim, 'sarcophagus', significa 'aquele que come carne'. Assim, o prato principal é uma insinuação direta às palavras do Cristo: 'Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem come deste pão, viverá para sempre. E o pão que eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha vida' (João 6, 51)".
De certo que todos os pratos feitos por Babette precisam ser cuidadosamente analisados para expandir essa discussão e despertar nossa consciência e nossos sentidos.

Por isso fiz o registro do menu servido por Babette, que era composto por:



·         Potage à la tortue géante


·         Blinis Demidoff au caviar servido com champanhe Veuve Clicquot de 1860



·     Caille en Sarcophage avec Sauce Perigourdine (codorna em folhada com foie gras e molho de trufas) servido com Clos de Vougeot Pinot Noir 1845.





·         La Salade (Salada de endívia com chicória belga e nozes em vinagrete)


·         Les fromages (com queijo azul e frutas exóticas: mamão, figo, uvas, abacaxi e romã)


·     Gâteau aux raisins et rhum avec des figues mûrs, ou o que popularmente se conhece como “Savarin au Rhum avec des Figues et Fruits Glacées (savarin embebido em rum com figos e cerejas cristalizadas) e champanhe.


·         Café com conhaque Louis XIII de Rémy Martin





Essa sobremesa, em particular, é uma coisa que já preparei e pretendo falar sobre ela depois. Mas, antes de concluir esta postagem, eu ainda gostaria de ressaltar outro simbolismo notado no filme, que aponta a ligação da cozinheira com a feitiçaria. 
Em certo ponto do filme todos os convidados do banquete se reúnem acreditando que Babette seja uma bruxa, e passam a cogitar que ela trará a desgraça para aquela comunidade, e que aquelas comidas sedutoras serão usadas para este fim.



Não vou me furtar em dizer que eu também acho que há uma ligação da cozinha com a feitiçaria, de que quem cozinha tem um quê de feiticeiro (a). Porque quem cozinha acaba elaborando uma delicada alquimia para enfeitiçar não só o paladar de quem irá comer, mas também deve embriagar os outros sentidos, para aguçá-los.


Babette sabia disso e fazia isso com maestria. Ela sabia perfeitamente do alcance transformador da comida. Ela sabia que mesmo depois de comer coisas maravilhosas, cuidadosamente executadas com amor e técnica, aqueles comensais não permaneceriam os mesmos... E feitiçaria de fato ocorreu, na cozinha: acessou o quarto elementos (terra, fogo, água e ar) na cozinha, usou ingredientes exóticos (tartaruga, fois gras [fígado de ganso], caviar [ovas de esturjão], trufas negras, dentre outros), se permitiu usar as melhores bebidas, talvez uma oferenda a Baco, quem sabe... mas com elementos estranhos para aquele povo, a feiticeira da cozinha preparou poções mágicas sedutoras que encantou a todos.

Bom, eu não tenho dez mil francos para repetir o banquete de Babette. Mas, pelo menos, ficar sem a receita do prato principal, nós não vamos (risos).

Cailles en Sarcophage
[Para oito pessoas]
500 g. de massa folhada.
1 gema batida com duas colheres de sopa de água
8 codornas desossadas (exceto pernas e asas)
6 colheres de sopa de conhaque
60 g. de trufas pretas picadas
240 g. de fois gras fresco
5 colheres de sopa de manteiga sem sal
3 échalotes picadas
1 xícara de chá de vinho branco seco
4 xícaras de chá de caldo de carne
2 colheres de chá de trigo dissolvidas em um pouco de vinho branco
8 cogumelos de Paris grandes (somente os chapéus)
1 colher de chá de óleo de amendoim
Sal e pimenta-do-reino moída na hora
Farinha de trigo para polvilhar

Preparo: MASSA: Estenda a massa em superfície lisa. Corte oito retângulos de 10 cm de largura por 13 cm de comprimento. Faça alguns furos com a ponta de um garfo e pincele com a mistura de gema e água. Asse a massa no forno pré-aquecido, por 15 minutos, até que esteja dourada. Quando estiverem frios, corte e retire um pedaço da parte central, de cada retângulo, com o auxílio de uma faca, formando “ninhos”, para receber as codornas. CODORNAS (caille): Lave e seque as codornas. Tempere com sal, pimenta e duas colheres de cognac. Junte metade das trufas picadas. Divida o fois gras em oito porções iguais e distribua nas cavidades. Feche cada codorna com linha. Em uma panela de fundo grosso, aqueça uma colher de sopa de manteiga. Acrescente os ossos que foram retirados e toste-os ligeiramente. Coloque as échalotes e refogue sem parar de mexer. Misture 2 colheres de cognac e raspe o fundo da panela. Acrescente o vinho, o caldo e deixe ferver lentamente por 30 minutos, até reduzir pela metade. Coe o caldo e devolva para a panela. Despeje a mistura de trigo, e mexa até o caldo engrossar. Incorpore as trufas restantes e tempere com sal e pimenta. Reserve. Refogue os cogumelos em duas colheres de manteiga. Reserve. Aqueça a manteiga restante com o óleo e doure as codornas, virando-as de todos os lados, leve-as depois ao forno por 10 minutos. Coloque o cognac restante na frigideira que dourou as codornas e raspe-a. Junte essa mistura ao caldo com as trufas. Retire as codornas do forno e retire as linhas. MONTAGEM: Coloque as massas numa assadeira e deposite uma codorna em cada “ninho” de massa. Reaqueça no forno, por 5 minutos. Transfira, cuidadosamente, para os pratos. Arrume os cogumelos em volta. Derrame o molho quente sobre as codornas e os cogumelos. Sirva imediatamente.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Brevidades...


Significado de Brevidade
s.f. Qualidade do que é breve, do que tem pouca duração. Culinária. Pequeno bolo feito de polvilho e ovos

A maior parte das pessoas se queixa do tempo que a natureza lhes dá na terra.  Daí o litígio (de nenhuma forma apropriado a um homem sábio) que Aristóteles teve com a Natureza: “aos animais, ela concedeu tanto tempo de vida, que eles sobrevivem por cinco ou dez gerações; ao homem, nascido para tantos e tão grandes feitos, está estabelecido um limite (3) muito mais próximo.” E eu lhes digo: não é que o nosso tempo seja curto, é que perdemos muito tempo com coisas e pessoas que não deveríamos...
Felizes são as borboletas que mesmo frágeis de vida curta...
nunca deixam de voar. fonte: 
http://jhdocemel.blogspot.com
E o que seria de mim se as pessoas soubessem o que eu realmente ando pensando – e sei – sobre elas?
Imaginem só: Você conseguir fazer raio x das pessoas, vendo-as como bichos selvagens de todos os tipos, canibais por sentimentos alucinados e psicóticos, sendo alimentados por silicone, rações humanas e gorduras trans – na maioria, almas vazias e carentes de cultura, espiritualidade, até mesmo de sentimentos e valores, querendo mudar de cor e de vida; mas que ainda ficam esperando a estrela cadente cair para implorar que alguém surja e lhe roube o coração – como se isso resolvesse os problemas do mundo!
De que adianta um coração roubado?
De que adianta ganhar um coração roubado e ter que aturar uma alma borrada, maculada como companhia?
Essas pessoas sabem de si, mas porque fingem não saberem?
Charme? Loucura?
É assustador o poder da observação... Por mais breve que ela seja.

Cada detalhe, cada movimento, cada espaço, cada reação... um conjunto de energia vibrando tentando se ocupar de uma vida... uma sepultura já criada deste o nascimento... um destino com livre arbítrio defeituoso...
Como não sabem o que sei, não me podem aferir minhas conjecturas, minhas palavras medidas e meus gestos pensados. Mas continuo ácido na língua e nas atitudes porque Falta ousadia nas pessoas.
Onde foram parar as boas atitudes? Cadê a elegância no trato? Ainda existe quem se comova com o cheiro da chuva ou com o aroma de terra molhada?
Perdoem-me por eu não poder falar mais. Mas não os perdôo por não se quererem mostrar.
As pessoas estão perdendo o encanto, ficando sem brilho, fazendo-se opacas na medida em que eu as vou conhecendo, mais e mais.
Tudo bem que pessoas, quando passam por nossas vidas, possam ser breves. Mas ser breve não significa não ser intenso...
Dito isto, deixo um poema o qual tenho muito apreço na esperança de que sirva como reflexão... e a receita de uma brevidade de rapadura (risos, sacaram a analogia?)

Me Encante – Pablo Neruda

Me encante da maneira que você quiser, como você souber.
Me encante, para que eu possa me dar...
Me encante nos mínimos detalhes.
Saiba me sorrir: aquele sorriso malicioso,
Gostoso, inocente e carente.
Me encante com suas mãos,
Gesticule quando for preciso.
Me toque, quero correr esse risco.
Me acarinhe se quiser...
Vou fingir que não entendo,
Que nem queria esse momento.
Me encante com seus olhos...
Me olhe profundo, mas só por um segundo.
Depois desvie o seu olhar.
Como se o meu olhar,
Não tivesse conseguido te encantar...
E então, volte a me fitar.
Tão profundamente, que eu fique perdido.
Sem saber o que falar...
Me encante com suas palavras...
Me fale dos seus sonhos, dos seus prazeres.
Me conte segredos, sem medos,
E depois me diga o quanto te encantei.

Me encante com serenidade...
Mas não se esqueça também,
Que tem que ser com simplicidade,
Não pode haver maldade.
Me encante com uma certa calma,
Sem pressa. Tente entender a minha alma.
Me encante como você fez com o seu primeiro namorado...
Sem subterfúgios, sem cálculos, sem dúvidas, com certeza.
Me encante na calada da madrugada,
Na luz do sol ou embaixo da chuva....
Me encante sem dizer nada, ou até dizendo tudo.
Sorrindo ou chorando. Triste ou alegre...
Mas, me encante de verdade, com vontade...
Que depois, eu te confesso que me apaixonei,
E prometo te encantar por todos os dias...
Pelo resto das nossas vidas!!!

Brevidade de rapadura

650 g de rapadura raspada
10 ovos
1 colher (sopa) de bicarbonato
3 colheres (sopa) de óleo
1 colher (sopa, cheia) de cravo moído e canela em pó misturados
1 pitada de sal
900 g de polvilho doce

Preparo: Bater, no liquidificador, os ovos e a rapadura. Despejar a mistura em uma vasilha e juntar o óleo, o polvilho, o bicarbonato, o cravo com a canela e o sal. Bater na batedeira até obter uma massa firme. Untar a fôrma e despejar a mistura. Levar para assar por cerca de 30 minutos em forno pré-aquecido. Rende quatro brevidades.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O Alfajor é árabe!!!

Ainda lembro-me de quem recebi os últimos alfajores que comi este ano: em penúltimo lugar, o alfajor artesanal requintado na decoração – presente da Baronesa do Cratinho de Açúcar (Célia Augusta); e em último, os alfajores Havanna que ganhei de minha prima Bárbara – todos vindos da Argentina, adquiridos em viagens.

Não resisto a estas maravilhas por dois motivos: amo chocolate e doce de leite – e o alfajor tem isso tudo junto! E os Havanma, em particular, são os meus preferidos.
Hoje deu vontade de comer um e fui às lojas americanas, pois lá tem uma marca bem genérica de alfajores, mas que no caso do desejo ajuda a saciar a vontade de comer o doce.
Alfajor vendido nas Lojas Americanas
Pensando nesta predileção por alfajores resolvi ir buscar mais informações sobre sua origem para acabar com uma dúvida que eu sempre tive: eu já tinha ouvido alguém falar que o alfajor não é argentino – que ele seria uma apropriação gastronômica feita pelos hermanos. E veja só o que descobri com as pesquisas:
Aqui na América do Sul muita gente cita três países como sendo o berço de origem dos alfajores: Argentina, Uruguai e Peru. Mas, pasmem, acabei descobrindo que a história do alfajor está muito além destas terras. E é preciso cruzar o atlântico e chegar até as terras árabes para então lá encontrar o  verdadeiro torrão natal dos alfajores.
SIM, O ALFAJOR TEM ORIGEM NA COZINHA ÀRABE.
Por lá, seu verdadeiro nome é “al hasú” termo que significa recheado, Foi com a presença dos árabes na Espanha no ano de 711 que o alfajor tornou-se mais conhecido no ocidente, tendo em 1896 ganhado o formato redondo que se conhece atualmente.
Assim o Alfajor aprendeu a falar castelhano (por volta de 711), quando a Espanha foi dominada pelos visigodos, cujo último rei, Rodrigo, foi derrotado pelos árabes. Posteriormente, a influência árabe durante séculos marcou o desenvolvimento da cultura espanhola, que, entre outras coisas, aprovou o doce típico (ainda hoje existe em Medina Sidonia, na província da Andaluzia, um grupo de produtores que preserva alfajores com a receita secreta original antiga, transmitida de pai para filho por meio de primogenitura). Nos séculos posteriores, e da conquista espanhola de novos portos, a divulgação de receitas antigas tomou próprio curso onde cada família guardava sua receita como se guardasse uma jóia .
A pobreza e o desemprego no campo foram os responsáveis pela imigração espanhola na América do sul. Começaram a chegar na década de 1880. Imigraram em grande número para o Brasil e outros países da sul América até 1950, período em que entraram cerca de 900.000 espanhóis na América do Sul e eram principalmente oriundos da Galícia e Andaluzia.
Era desconhecido em nosso continente o significado da palavra alfajor até o início do século XIX. O Alfajor é uma tradição espanhola de Córdoba onde nos conventos e casas religiosas do século XVIII, eram preparados por mãos hábeis, entre outras iguarias, um ofício feito de dois bolos quadrados, unidos por caramelo, coberto por um glacê de açúcar comprimido chamado tableta. O pioneiro dos alfajores argentinos foi, em 1869, D. Augusto Chammás (químico francês que chegou em 1840) que inaugurou uma pequena indústria familiar dedicada à confecção de doces e outros confeitos.

Na Argentina o alfajor é um produto de primeira necessidade, onde virou produto nacional, os mais conhecidos sem dúvida são os Havanna (A mais famosa delas, Havanna, data de 1948 e possui mais de cento e oitenta lojas no país.), Abuela Goye (o segundo melhor no meu conceito),Balcarce, Tofi, Águila, Cad​bury. 
E não seria justo eu  falar de alfajores e te fazer atravesar o atlântico ou mesmo cruzar a America do sul para comer um bom alfajor, não é?! Então, deixo abaixo uma receitinha fácil de fazer e que resolve muito  bem a fome pro alfajores.

Alfajor
Ingredientes
Massa:
250 g de manteiga
1 xícara (chá) de açúcar (160 g)
3 gemas
2 ½ xícaras (chá) de amido de milho (250 g)
1 ½ xícaras (chá) de farinha de trigo (180 g)
½ xícara (chá) de Cacau em Pó (36 g)
1 colher (chá) de bicarbonato de sódio
1 colher (chá) de fermento em pó
1 colher (café) de aroma de baunilha
1 colher (sopa) de conhaque
raspas de 1 limão

Recheio:
400 g de doce de leite pastoso
1 colher (sopa) de conhaque
Cobertura:
750 g de Cobertura de Chocolate picado

Modo de Fazer: Prepare a massa: bata a manteiga e o açúcar e, sem parar de bater, acrescente as gemas uma a uma, até obter um creme esbranquiçado e leve. Acrescente então o amido de milho, a farinha, o cacau, o bicarbonato, o fermento, o aroma de baunilha, o conhaque e as raspas de limão. Misture até formar uma massa homogênea, cubra com filme plástico e leve à geladeira por cerca de 10 minutos. Polvilhe uma superfície limpa e seca com farinha de trigo e abra a massa com a ajuda de um rolo até ficar com uma espessura de 3 mm, como massa de biscoito. Corte a massa em quadradinhos de 2,5 cm. Acomode-os em uma assadeira untada e enfarinhada. Preaqueça o forno a 180ºC e asse por cerca de 15 minutos ou até começar a dourar. Retire do forno e com a ajuda de uma espátula, coloque os quadrados sobre uma grelha para esfriar.  Para o recheio, reduza o doce de leite: coloque-o em uma panela e leve em fogo médio mexendo sempre, para não grudar, por 5 minutos ou até que o doce esteja bem firme. Junte o conhaque e mexa bem. Espalhe o recheio sobre a massa fria e, em seguida, feche-a, formando uma espécie de "sanduíche". Cobertura: derreta o chocolate em banho-maria ou no microondas, na potência média por cerca de 4 minutos, mexendo na metade do tempo. Transfira para outro refratário limpo e seco, coloque este sobre uma travessa com água fria. Mexa continuamente, resfriando-o por igual. Você saberá o ponto certo para banhar quando colocar uma porção de chocolate sob os lábios e sentir que ele está "frio". Com o auxílio de um garfo, mergulhe cada alfajor no chocolate temperado, escorra os excessos e leve à geladeira por 5 a 10 minutos, o suficiente para secar.