quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A Festa de Babette: gastronomia para aguçar além dos sentidos


Já faz algum tempo que venho listando filmes que tenham a culinária e a gastronomia como elemento gancho por onde se contam histórias de personagens e, a partir do contexto, permitir que o espectador possa compreender elos e os enfoques diferentes pelos quais os diretores se embrenha para contar sua história.

Hoje, mais uma vez, me peguei revendo uma obra das mais sofisticadas que já pude ver, “A festa de Babette” (Le festin de Babette), do dinamarquês Gabriel Axel, filme baseado na obra homônima da escritora, também dinamarquesa, Karen Blixen. E lhes digo, definitivamente vale a pena assistir esse filme pelo simples fato de que ele vai te levar para além das expectativas. Obviamente a sensibilidade de cada um vai dar o tom nas sensações, mas seja quais elas forem, vale muito a pena.


Uma das edições do livro com o título original em dinamarquês - Babettes Gæstebud .
Talvez alguém possa estar se perguntando como eu ouso afirmar uma coisa destas. E eu lhes darei alguns exemplos pra justificar essa minha ousadia:
Na primeira vez em que me dispus a assistir ao filme, já havia me deparado com muitas boas referências a ele; algumas duras demais, ao ponto de alguns críticos serem simplistas ao afirma que era um filme sobre comensalidade e que os adoradores de cinema poderiam ver nas cenas de “A Festa de Babette” a comida no seu sentido lato (com toda a representação ritualística da cozinha, dos ingredientes como dádivas da terra, com referências ao deleite; revelando o caráter da hospitalidade e as interações com comida como fonte para o sagrado.

 Porém, ele é mais que tudo isso. É transcendental. O filme divaga pela exploração de todos os sentidos, usando a presença do “sutil” para evocar a sensibilidade necessária em cada cena que, com a ajuda da trilha sonora certeira desperta desejos ocultos, sensações, prazeres...


Assim sendo, não seria difícil entender porque o filme ganhou o Oscar em 1987. Mas eu devo aqui me deter a alusão ao sagrado que me pegou de jeito.
Eu, particularmente, sempre gostei de simbolismo. Talvez pelo fato de eu ter estudado mitologia por uns bons anos e sempre recorria a estudar elementos simbólicos para melhor compreender seu aparecimento nas alegorias míticas.
E, em A Festa de Babette, é nítida a presença do simbolismo cristão. Passo, então, a listar algumas observações a esse respeito, não estou dizendo que elas orientam a ideia fundamental do autor, nem do diretor do filme, são antes simbolismos extraídos a partir do que aparece nas cenas e do que elas acabaram significando para mim naquele momento quando eu assistia ao filme, vejamos:
·         Há, claramente, um paralelo entre a imagem de Babette e a do Cristo: Babette é pobre, chegou misteriosamente a uma pequena comunidade, trabalha como criada e, no final, presenteia a todos com um lauto banquete;
·         O auto-sacrifício por amor é outra ligação nessa comparação, já que ele está presente nos dois casos (Babette/Cristo), como fio condutor da história;
·         O banquete em memória do pastor é uma alusão clara à 'Última Ceia' e, por extensão, à liturgia cristã;
·         À mesa sentaram-se doze pessoas – uma clara alusão aos doze apóstolos;
·         Cailles au Sarcofage ('Codorna no Sarcófago'), foi o prato principal servido por Babette. Codorna significando 'maná' (alimento espiritual de origem divina que consola a alma); e Sarcófago, palavra vinda do latim, 'sarcophagus', significa 'aquele que come carne'. Assim, o prato principal é uma insinuação direta às palavras do Cristo: 'Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem come deste pão, viverá para sempre. E o pão que eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha vida' (João 6, 51)".
De certo que todos os pratos feitos por Babette precisam ser cuidadosamente analisados para expandir essa discussão e despertar nossa consciência e nossos sentidos.

Por isso fiz o registro do menu servido por Babette, que era composto por:



·         Potage à la tortue géante


·         Blinis Demidoff au caviar servido com champanhe Veuve Clicquot de 1860



·     Caille en Sarcophage avec Sauce Perigourdine (codorna em folhada com foie gras e molho de trufas) servido com Clos de Vougeot Pinot Noir 1845.





·         La Salade (Salada de endívia com chicória belga e nozes em vinagrete)


·         Les fromages (com queijo azul e frutas exóticas: mamão, figo, uvas, abacaxi e romã)


·     Gâteau aux raisins et rhum avec des figues mûrs, ou o que popularmente se conhece como “Savarin au Rhum avec des Figues et Fruits Glacées (savarin embebido em rum com figos e cerejas cristalizadas) e champanhe.


·         Café com conhaque Louis XIII de Rémy Martin





Essa sobremesa, em particular, é uma coisa que já preparei e pretendo falar sobre ela depois. Mas, antes de concluir esta postagem, eu ainda gostaria de ressaltar outro simbolismo notado no filme, que aponta a ligação da cozinheira com a feitiçaria. 
Em certo ponto do filme todos os convidados do banquete se reúnem acreditando que Babette seja uma bruxa, e passam a cogitar que ela trará a desgraça para aquela comunidade, e que aquelas comidas sedutoras serão usadas para este fim.



Não vou me furtar em dizer que eu também acho que há uma ligação da cozinha com a feitiçaria, de que quem cozinha tem um quê de feiticeiro (a). Porque quem cozinha acaba elaborando uma delicada alquimia para enfeitiçar não só o paladar de quem irá comer, mas também deve embriagar os outros sentidos, para aguçá-los.


Babette sabia disso e fazia isso com maestria. Ela sabia perfeitamente do alcance transformador da comida. Ela sabia que mesmo depois de comer coisas maravilhosas, cuidadosamente executadas com amor e técnica, aqueles comensais não permaneceriam os mesmos... E feitiçaria de fato ocorreu, na cozinha: acessou o quarto elementos (terra, fogo, água e ar) na cozinha, usou ingredientes exóticos (tartaruga, fois gras [fígado de ganso], caviar [ovas de esturjão], trufas negras, dentre outros), se permitiu usar as melhores bebidas, talvez uma oferenda a Baco, quem sabe... mas com elementos estranhos para aquele povo, a feiticeira da cozinha preparou poções mágicas sedutoras que encantou a todos.

Bom, eu não tenho dez mil francos para repetir o banquete de Babette. Mas, pelo menos, ficar sem a receita do prato principal, nós não vamos (risos).

Cailles en Sarcophage
[Para oito pessoas]
500 g. de massa folhada.
1 gema batida com duas colheres de sopa de água
8 codornas desossadas (exceto pernas e asas)
6 colheres de sopa de conhaque
60 g. de trufas pretas picadas
240 g. de fois gras fresco
5 colheres de sopa de manteiga sem sal
3 échalotes picadas
1 xícara de chá de vinho branco seco
4 xícaras de chá de caldo de carne
2 colheres de chá de trigo dissolvidas em um pouco de vinho branco
8 cogumelos de Paris grandes (somente os chapéus)
1 colher de chá de óleo de amendoim
Sal e pimenta-do-reino moída na hora
Farinha de trigo para polvilhar

Preparo: MASSA: Estenda a massa em superfície lisa. Corte oito retângulos de 10 cm de largura por 13 cm de comprimento. Faça alguns furos com a ponta de um garfo e pincele com a mistura de gema e água. Asse a massa no forno pré-aquecido, por 15 minutos, até que esteja dourada. Quando estiverem frios, corte e retire um pedaço da parte central, de cada retângulo, com o auxílio de uma faca, formando “ninhos”, para receber as codornas. CODORNAS (caille): Lave e seque as codornas. Tempere com sal, pimenta e duas colheres de cognac. Junte metade das trufas picadas. Divida o fois gras em oito porções iguais e distribua nas cavidades. Feche cada codorna com linha. Em uma panela de fundo grosso, aqueça uma colher de sopa de manteiga. Acrescente os ossos que foram retirados e toste-os ligeiramente. Coloque as échalotes e refogue sem parar de mexer. Misture 2 colheres de cognac e raspe o fundo da panela. Acrescente o vinho, o caldo e deixe ferver lentamente por 30 minutos, até reduzir pela metade. Coe o caldo e devolva para a panela. Despeje a mistura de trigo, e mexa até o caldo engrossar. Incorpore as trufas restantes e tempere com sal e pimenta. Reserve. Refogue os cogumelos em duas colheres de manteiga. Reserve. Aqueça a manteiga restante com o óleo e doure as codornas, virando-as de todos os lados, leve-as depois ao forno por 10 minutos. Coloque o cognac restante na frigideira que dourou as codornas e raspe-a. Junte essa mistura ao caldo com as trufas. Retire as codornas do forno e retire as linhas. MONTAGEM: Coloque as massas numa assadeira e deposite uma codorna em cada “ninho” de massa. Reaqueça no forno, por 5 minutos. Transfira, cuidadosamente, para os pratos. Arrume os cogumelos em volta. Derrame o molho quente sobre as codornas e os cogumelos. Sirva imediatamente.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Brevidades...


Significado de Brevidade
s.f. Qualidade do que é breve, do que tem pouca duração. Culinária. Pequeno bolo feito de polvilho e ovos

A maior parte das pessoas se queixa do tempo que a natureza lhes dá na terra.  Daí o litígio (de nenhuma forma apropriado a um homem sábio) que Aristóteles teve com a Natureza: “aos animais, ela concedeu tanto tempo de vida, que eles sobrevivem por cinco ou dez gerações; ao homem, nascido para tantos e tão grandes feitos, está estabelecido um limite (3) muito mais próximo.” E eu lhes digo: não é que o nosso tempo seja curto, é que perdemos muito tempo com coisas e pessoas que não deveríamos...
Felizes são as borboletas que mesmo frágeis de vida curta...
nunca deixam de voar. fonte: 
http://jhdocemel.blogspot.com
E o que seria de mim se as pessoas soubessem o que eu realmente ando pensando – e sei – sobre elas?
Imaginem só: Você conseguir fazer raio x das pessoas, vendo-as como bichos selvagens de todos os tipos, canibais por sentimentos alucinados e psicóticos, sendo alimentados por silicone, rações humanas e gorduras trans – na maioria, almas vazias e carentes de cultura, espiritualidade, até mesmo de sentimentos e valores, querendo mudar de cor e de vida; mas que ainda ficam esperando a estrela cadente cair para implorar que alguém surja e lhe roube o coração – como se isso resolvesse os problemas do mundo!
De que adianta um coração roubado?
De que adianta ganhar um coração roubado e ter que aturar uma alma borrada, maculada como companhia?
Essas pessoas sabem de si, mas porque fingem não saberem?
Charme? Loucura?
É assustador o poder da observação... Por mais breve que ela seja.

Cada detalhe, cada movimento, cada espaço, cada reação... um conjunto de energia vibrando tentando se ocupar de uma vida... uma sepultura já criada deste o nascimento... um destino com livre arbítrio defeituoso...
Como não sabem o que sei, não me podem aferir minhas conjecturas, minhas palavras medidas e meus gestos pensados. Mas continuo ácido na língua e nas atitudes porque Falta ousadia nas pessoas.
Onde foram parar as boas atitudes? Cadê a elegância no trato? Ainda existe quem se comova com o cheiro da chuva ou com o aroma de terra molhada?
Perdoem-me por eu não poder falar mais. Mas não os perdôo por não se quererem mostrar.
As pessoas estão perdendo o encanto, ficando sem brilho, fazendo-se opacas na medida em que eu as vou conhecendo, mais e mais.
Tudo bem que pessoas, quando passam por nossas vidas, possam ser breves. Mas ser breve não significa não ser intenso...
Dito isto, deixo um poema o qual tenho muito apreço na esperança de que sirva como reflexão... e a receita de uma brevidade de rapadura (risos, sacaram a analogia?)

Me Encante – Pablo Neruda

Me encante da maneira que você quiser, como você souber.
Me encante, para que eu possa me dar...
Me encante nos mínimos detalhes.
Saiba me sorrir: aquele sorriso malicioso,
Gostoso, inocente e carente.
Me encante com suas mãos,
Gesticule quando for preciso.
Me toque, quero correr esse risco.
Me acarinhe se quiser...
Vou fingir que não entendo,
Que nem queria esse momento.
Me encante com seus olhos...
Me olhe profundo, mas só por um segundo.
Depois desvie o seu olhar.
Como se o meu olhar,
Não tivesse conseguido te encantar...
E então, volte a me fitar.
Tão profundamente, que eu fique perdido.
Sem saber o que falar...
Me encante com suas palavras...
Me fale dos seus sonhos, dos seus prazeres.
Me conte segredos, sem medos,
E depois me diga o quanto te encantei.

Me encante com serenidade...
Mas não se esqueça também,
Que tem que ser com simplicidade,
Não pode haver maldade.
Me encante com uma certa calma,
Sem pressa. Tente entender a minha alma.
Me encante como você fez com o seu primeiro namorado...
Sem subterfúgios, sem cálculos, sem dúvidas, com certeza.
Me encante na calada da madrugada,
Na luz do sol ou embaixo da chuva....
Me encante sem dizer nada, ou até dizendo tudo.
Sorrindo ou chorando. Triste ou alegre...
Mas, me encante de verdade, com vontade...
Que depois, eu te confesso que me apaixonei,
E prometo te encantar por todos os dias...
Pelo resto das nossas vidas!!!

Brevidade de rapadura

650 g de rapadura raspada
10 ovos
1 colher (sopa) de bicarbonato
3 colheres (sopa) de óleo
1 colher (sopa, cheia) de cravo moído e canela em pó misturados
1 pitada de sal
900 g de polvilho doce

Preparo: Bater, no liquidificador, os ovos e a rapadura. Despejar a mistura em uma vasilha e juntar o óleo, o polvilho, o bicarbonato, o cravo com a canela e o sal. Bater na batedeira até obter uma massa firme. Untar a fôrma e despejar a mistura. Levar para assar por cerca de 30 minutos em forno pré-aquecido. Rende quatro brevidades.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O Alfajor é árabe!!!

Ainda lembro-me de quem recebi os últimos alfajores que comi este ano: em penúltimo lugar, o alfajor artesanal requintado na decoração – presente da Baronesa do Cratinho de Açúcar (Célia Augusta); e em último, os alfajores Havanna que ganhei de minha prima Bárbara – todos vindos da Argentina, adquiridos em viagens.

Não resisto a estas maravilhas por dois motivos: amo chocolate e doce de leite – e o alfajor tem isso tudo junto! E os Havanma, em particular, são os meus preferidos.
Hoje deu vontade de comer um e fui às lojas americanas, pois lá tem uma marca bem genérica de alfajores, mas que no caso do desejo ajuda a saciar a vontade de comer o doce.
Alfajor vendido nas Lojas Americanas
Pensando nesta predileção por alfajores resolvi ir buscar mais informações sobre sua origem para acabar com uma dúvida que eu sempre tive: eu já tinha ouvido alguém falar que o alfajor não é argentino – que ele seria uma apropriação gastronômica feita pelos hermanos. E veja só o que descobri com as pesquisas:
Aqui na América do Sul muita gente cita três países como sendo o berço de origem dos alfajores: Argentina, Uruguai e Peru. Mas, pasmem, acabei descobrindo que a história do alfajor está muito além destas terras. E é preciso cruzar o atlântico e chegar até as terras árabes para então lá encontrar o  verdadeiro torrão natal dos alfajores.
SIM, O ALFAJOR TEM ORIGEM NA COZINHA ÀRABE.
Por lá, seu verdadeiro nome é “al hasú” termo que significa recheado, Foi com a presença dos árabes na Espanha no ano de 711 que o alfajor tornou-se mais conhecido no ocidente, tendo em 1896 ganhado o formato redondo que se conhece atualmente.
Assim o Alfajor aprendeu a falar castelhano (por volta de 711), quando a Espanha foi dominada pelos visigodos, cujo último rei, Rodrigo, foi derrotado pelos árabes. Posteriormente, a influência árabe durante séculos marcou o desenvolvimento da cultura espanhola, que, entre outras coisas, aprovou o doce típico (ainda hoje existe em Medina Sidonia, na província da Andaluzia, um grupo de produtores que preserva alfajores com a receita secreta original antiga, transmitida de pai para filho por meio de primogenitura). Nos séculos posteriores, e da conquista espanhola de novos portos, a divulgação de receitas antigas tomou próprio curso onde cada família guardava sua receita como se guardasse uma jóia .
A pobreza e o desemprego no campo foram os responsáveis pela imigração espanhola na América do sul. Começaram a chegar na década de 1880. Imigraram em grande número para o Brasil e outros países da sul América até 1950, período em que entraram cerca de 900.000 espanhóis na América do Sul e eram principalmente oriundos da Galícia e Andaluzia.
Era desconhecido em nosso continente o significado da palavra alfajor até o início do século XIX. O Alfajor é uma tradição espanhola de Córdoba onde nos conventos e casas religiosas do século XVIII, eram preparados por mãos hábeis, entre outras iguarias, um ofício feito de dois bolos quadrados, unidos por caramelo, coberto por um glacê de açúcar comprimido chamado tableta. O pioneiro dos alfajores argentinos foi, em 1869, D. Augusto Chammás (químico francês que chegou em 1840) que inaugurou uma pequena indústria familiar dedicada à confecção de doces e outros confeitos.

Na Argentina o alfajor é um produto de primeira necessidade, onde virou produto nacional, os mais conhecidos sem dúvida são os Havanna (A mais famosa delas, Havanna, data de 1948 e possui mais de cento e oitenta lojas no país.), Abuela Goye (o segundo melhor no meu conceito),Balcarce, Tofi, Águila, Cad​bury. 
E não seria justo eu  falar de alfajores e te fazer atravesar o atlântico ou mesmo cruzar a America do sul para comer um bom alfajor, não é?! Então, deixo abaixo uma receitinha fácil de fazer e que resolve muito  bem a fome pro alfajores.

Alfajor
Ingredientes
Massa:
250 g de manteiga
1 xícara (chá) de açúcar (160 g)
3 gemas
2 ½ xícaras (chá) de amido de milho (250 g)
1 ½ xícaras (chá) de farinha de trigo (180 g)
½ xícara (chá) de Cacau em Pó (36 g)
1 colher (chá) de bicarbonato de sódio
1 colher (chá) de fermento em pó
1 colher (café) de aroma de baunilha
1 colher (sopa) de conhaque
raspas de 1 limão

Recheio:
400 g de doce de leite pastoso
1 colher (sopa) de conhaque
Cobertura:
750 g de Cobertura de Chocolate picado

Modo de Fazer: Prepare a massa: bata a manteiga e o açúcar e, sem parar de bater, acrescente as gemas uma a uma, até obter um creme esbranquiçado e leve. Acrescente então o amido de milho, a farinha, o cacau, o bicarbonato, o fermento, o aroma de baunilha, o conhaque e as raspas de limão. Misture até formar uma massa homogênea, cubra com filme plástico e leve à geladeira por cerca de 10 minutos. Polvilhe uma superfície limpa e seca com farinha de trigo e abra a massa com a ajuda de um rolo até ficar com uma espessura de 3 mm, como massa de biscoito. Corte a massa em quadradinhos de 2,5 cm. Acomode-os em uma assadeira untada e enfarinhada. Preaqueça o forno a 180ºC e asse por cerca de 15 minutos ou até começar a dourar. Retire do forno e com a ajuda de uma espátula, coloque os quadrados sobre uma grelha para esfriar.  Para o recheio, reduza o doce de leite: coloque-o em uma panela e leve em fogo médio mexendo sempre, para não grudar, por 5 minutos ou até que o doce esteja bem firme. Junte o conhaque e mexa bem. Espalhe o recheio sobre a massa fria e, em seguida, feche-a, formando uma espécie de "sanduíche". Cobertura: derreta o chocolate em banho-maria ou no microondas, na potência média por cerca de 4 minutos, mexendo na metade do tempo. Transfira para outro refratário limpo e seco, coloque este sobre uma travessa com água fria. Mexa continuamente, resfriando-o por igual. Você saberá o ponto certo para banhar quando colocar uma porção de chocolate sob os lábios e sentir que ele está "frio". Com o auxílio de um garfo, mergulhe cada alfajor no chocolate temperado, escorra os excessos e leve à geladeira por 5 a 10 minutos, o suficiente para secar. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

II Mesa Ao Vivo Fortaleza

        Definitivamente o  ceará é terra de gastronomia!
Basta pegar um avião e desembarcar em qualquer estado brasileiro para você vai encontrar um cearense administrando forno e fogão nos restaurantes mais badalados. Porém falta ainda visibilidade para estes profissionais no próprio Estado – ou pelo menos faltava.
Ontem tive oportunidade de ir, pela segunda vez, a um evento gastronômico encantador, o Mesa Ao Vivo – que tem, dentre outras funções, enaltecer a qualidade e criatividade da mesa e dos profissionais cearenses.

Com o sucesso da primeira edição do evento, no ano passado, o Ceará se posicionou como “fonte de matéria-prima e mão de obra qualificada” para a gastronomia, e realizou ontem o coquetel de abertura da segunda edição do Mesa Ao Vivo Fortaleza, que acontece de 2 a 4 de agosto no Senac-CE. Como mote de inspiração para esta realização tem-se: “Mar, Serra e Sertão: as Raízes da Cozinha Cearense”.
O evento, além de valorizar a gastronomia cearense recebe importantes chefs do mundo gastronômico, como Alex Atala; o francês Pascal Valero, do restaurante Kaá; e o casal Jefferson e Janaína Rueda, do bar Dona Onça.  Nesse time ainda estão Eudes Assis, do Seu Sebastião, de Maresias, no litoral paulista, e Flávia Quaresma, chef do Rio de Janeiro. Entre os representantes da cozinha cearense estão o alemão Bernard Twardy, do Beach Park; Élcio Nagano, do Soho; Mattu Macedo, do Centro de Formação Gastronômica Mattu Macedo; Marie Anne Bauer, do Âncora; e Lúcio Figueiredo, do Vonjilô.
Para auxiliar os chefes do SENAC, os alunos do cursod e gastronomia.
E como não poderia deixar de ser, atendendo ao convite de Baronesa do Cratinho de Açúcar (Célia Augusta), este Barão que vos escreve esteve presente no evento se deliciando não apenas com boa ambientação, boa comida e bebida, mas também com boas companhias, como a da estimada Profa. Dra. Keila Mota e Vladia Gomes. Para mais informações sobre o evento acesse  http://aovivo.prazeresdamesa.com.br/fortaleza/ .
Baronesa do Crato de Açúcar, barão de Gourmandise e Keila Mota

E como boa "formiga" que sou, cabe aqui fazer uma resalva para mostrar o "xodó" do evento: um bolo maravilhoso, construido no formato de almofada para renda de bilrro. Fez-se fila para fotografar a delícia açucarada, repleta de detalhes impressionantes pela simplicidade e perfeição.
Bolo Almofada de Bilrro


E falando em coquetel, depois de algumas taças de espumante e vinho, depois de degustars doces e salgados, não seria justo eu apenas postar comentário sobre o evento e não citar nenhuma informação adicional. Então, trato aqui  de termo ‘coquetel clássico’ – pelo simples fato de eu o ter ouvido enquanto  circulava pelo evento.
Na definição formal, o termo coquetel clássico é utilizado para definir um drink que surgiu depois da publicação de Jerry Thomas, em1887, Bar Tender’s Guide, e antes da “Prohibition” nos Estados Unidos em 1934. O que é diferente dos coquetéis tradicionais que surgiram antes de 1887 ou dos modernos depois da “Prohibition” e antes de 1990. Ficou confuso isso, não?
Então vou colocar nos meu conceito: para este barão, clássico é um coquetel que se tornou conhecido no mundo inteiro por ser excelente - “um clássico” que não pode faltar nos bons eventos. Que possui linguagem universal sendo então reconhecido pelo nome em qualquer bar e restaurante do planeta. Normalmente os clássicos entraram para a IBA (International bartenders Association), o órgão que reconhece o coquetel como oficial. Os mesmo estão devidamente estratificados na foto abaixo (clique nela para ampliar e anotar as medidas perfeitas para cada drink).

Com as inovações da coquetelaria atual, com seus drinks moleculares e  misturas pra lá de inusitadas, eu ainda credito na credibilidade e personalidade de um drink clássico – Afinal, o drink clássico não se tornou clássico à toa. Então não tem  por que ignorá-lo?
Eu, ultimamente estou na febre pelo Angel’s Kiss. Experimente você também e depois me escreva contando se ele não é mesmo uma maravilha!!!

Angel’s Kiss Drink


Copo: shooter
Montagem: colocar em camadas segundo a
ordem abaixo. 
¼ de creme de chocolate branco
¼ de sloe gin
¼ de brandy
¼ de creme de leite


quinta-feira, 28 de julho de 2011

O Livro de Horas do Duque de Berry e a Sopa Dourada das Freiras de Santa Clara

Eu estava relendo um artigo que escrevi sobra a doçaria conventual portuguesa e a vontade de comer estas maravilhas só aumenta em mim. Talvez por que cada doce, além de delicioso, traz um nome que se agrega a religião e tem uma história interessante pra contar. E história é comigo mesmo.
Foi seguindo o pensamento religioso da doçaria conventual que hoje resolvi trazer comentários sobre os livros de horas. Você já  ouviu  falar neste tipo de livro?

A Virgem e o Menino, iluminura do manuscrito “Livro de Horas de Milão-Turim”, da escola de Jan Van Eyck, datado de 1445
No tempo em que a Idade Média já estava quase chegando ao fim o clero sentia necessidade de elaborar um livro, acessível aos leigos, que contivesse os preceitos e as orações usadas pelos clérigos. De acordo com este modelo litúrgico desenvolveu-se lentamente, durante o século XIV, um livro de devoções privado, o famoso Livros de Horas.
A variação do formato e a abundância de ilustração dos Livros de Horas não interferiu no seu idêntico esquema de concepção. Começam com um calendário elaborado exclusivamente em função das festas religiosas. Depois são escritas numerosas orações, salmos na sua maioria e que seguem o ritmo diário — as matinas, laudas, prima, tércia, sexta e nôa, as vésperas e as completas. Foi com o Livro de Horas, a iluminura alcançou uma grande perfeição e um esplendor nunca antes igualado.
Pág. 495, VOL 25, livro das horas do duque de Berry - O jardim do Éden
Les très riches heures du duc de Berry

Um dos mais conhecidos e belos Livros de Horas foram executados, por encomenda do duque de Berry, pelos irmãos Limbourg.
Conhecido como O Príncipe dos Bibliófilos, João de Valois, Duque de Berry (1340-1416), filho, irmão e tio de Reis de França, não deixou boas lembranças como político e governante. Mas era um profundo apreciador das artes e possuía imensa fortuna para satisfazer os seus caprichos.

Iluminura do Duque de Berry em Les très riches heures du duc de Berry
Colecionador apaixonado de obras de arte e animais exóticos (colecionava castelos, rubis, avestruzes...) reservava o melhor de seu entusiasmo para os Livros, principalmente os iluminados, que comprava ou mandava copiar e ornamentar, ele próprio orientava todas as fases do trabalho, já que dominava os segredos do ofício e era homem de gosto apurado.
Reunindo ao seu redor os artistas mais conceituados da época, conseguiu formar as mais belas coleções particulares de manuscritos de todos os tempos, que incluía nada menos que 15 Livros de Horas, 14 Bíblias, 16 saltérios, 18 breviários e 6 missais.

Os Iluminadores
As Riquíssimas Horas foram pintadas pelos três irmãos Limbourg — Paul, Hermann e Jean, artistas flamengos contratados pelo duque de Berry por volta de 1405.
Os Limbourg utilizaram uma grande variedade de cores obtidas através de minerais, plantas ou produtos químicos, misturados com uma cola especial que ligava a tinta. Entre as cores fora do comum que utilizaram estão o verde íris e o azul ultramarino, feito de lápis-lazúli triturado. Esta cor era usada para representar os azuis brilhantes.
Os detalhes extremamente precisos são característicos do estilo dos Limbourg, que exigia lupas e pincéis finíssimos.
O livro de horas feitos pelos irmãos Limbourg (Les Très Riches Heures du duc de Berry) encontra-se hoje na França, no Musée Condé, no Castelo de Chantilly. Enquanto você não vai lá para conferir, veja algumas das principais iluminuras do livro.
Janeiro
Fevereiro
Março
Abril
Maio
Junho
Julho
Agosto
Setembro
Outubro
Novembro
Dezembro
Sopa Dourada das Freiras de Santa Clara

Receita manuscrita por uma freira de Santa Clara de Vila do Conde (Portugal), tal como está redigida:
"Para Kilo e meio de assucar 24 gemmas de ovos, com um quarto de amendoa doce, meio kilo de chila, 50 grammas de cidrão e 300 grammas de pão de ló, que deve ser partido ás fatias finas. Vai o assucar ao alume para o por em ponto de espadana, deitando-se-lhe algumas gottas de água de flor de laranjeira.
Achando-se o assucar n’esse meio ponto retira-se do lume e molham-se nelle as fatais de pão de ló, que se põem a escorrer nem peneira ou n’um prato. O assucar volta ao lume para chegar ao ponto de espadana, deitando-se o cidrão muito cortado aos bocadinhos e bem assim a chila. Deixa-se ferver um pouco.
Tira-se então do lume para arrefecer um quasi nada. Depois vai-se deitando deta calda aos poucos nas gemmas de ovos, que devem estar bem batidas. Tem de se mexer sempre, sem parar, porque se o não fizerem, coalha. Deixa-se engrossar até fazer rugas e deita-se depois no prato ou travessa que tem as fatias, que devem ficar bem cobertas. Compõem-se com um ferro e deita-se-lhe canela."