quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Momo - porque é fevereiro...

Eis que já estamos em fevereiro... e o tempo  vai  passando cada vez mais rapidamente – ou, isso é só impressão minha?
Fevereiro no Brasil é mês de folia. O carnaval, geralmente, toma conta dos brasileiros neste mês... dizem que o carnaval é um expressão cultural, cheia de folclores, que no fim das contas só traz à alegria
Eu, particularmente, não gosto de carnaval. Quando era criança, minha avó materna fazia fantasias para meu irmão e eu, e íamos com a nossa empregada a um clube privado onde se realizava os bailes de carnaval para crianças. Eu achava engraçado, mas não me realizava com aquilo... na adolescência tive a oportunidade de conhecer cidades onde o carnaval é um grande evento, mas também nunca me empolguei.


Hoje em dia percebo que o sentido pagão do carnaval me atrai muito mais do que a própria festa. E vem justamente de um símbolo carnavalesco o mote para a postagem de hoje. Irei fala de Momo – alguém aí sabe a que me refiro?
Garanto que, muitos de vocês, devem ter respondido: do rei Momo (risos).
Mas antes de eu me explicar e falar de Momo, eu gostaria de fazer uma observação, que considero importante:
Eu considero carnaval como uma espécie de febre, que deixa o povo meio louco... Já tive  muitas provas para esta minha hipótese; já vi muita  gente fazendo  loucuras por que era carnaval, ou mesmo nas vésperas deste evento. 

Calendrier Magique (1896): An Art Nouveau Calendar of Black Magic - For Siegfried Bing written by Austin de Croze and drawn by Manuel Orazi
O que eu não sabia, naquela época, é que de algum modo tudo fazia um sentido. E quando eu descobri o motivo, eu ri alto... vejam por que:
Fevereiro é o segundo mês do ano, pelo calendário gregoriano. Geralmente tem a duração de 28 dias, a não ser em anos bissextos, em que é adicionado um dia a este mês.  Já existiram três dias 30 de Fevereiro na história.

O calendário gregoriano, implantado em 1582, não foi prontamente seguido por todos os países. Em Novembro de 1699, quando a Suécia (em cujo reino se incluía na época a Finlândia) planejou mudar do calendário Juliano para o gregoriano, havia uma diferença de 11 dias entre eles. O planejado seria omitir o dia extra dos anos bissextos entre 1700 e 1740, incluindo-os*. Assim a mudança seria gradual, mas não foi seguida após seu primeiro ano de implantação. Desta forma, 1700 não foi bissexto na Suécia, mas 1704 e 1708 sim, contrariando o plano. Com isto, o calendário sueco ficou um dia à frente do calendário Juliano, mas ainda dez atrás do gregoriano. Assim, em 1711 os suecos resolveram abandonar o sistema, já que o calendário por eles adotado não tinha correspondentes em qualquer outro país, criando uma enorme confusão. Portanto 1712 foi bissexto e ainda incluiu um dia a mais, o 30 de Fevereiro para voltar em sincronia com o calendário Juliano. A mudança sueca para o calendário gregoriano foi finalmente realizada em 1753, com a exclusão de 11 dias, onde 17 de Fevereiro daquele ano foi seguido por 1° de Março.
(*) dependendo da fonte utilizada a regra é outra: entre 1700 e 1711 omitir-se-ia 1 dia por ano. Mas só foi seguido em 1700. A correção em 1712 seria a mesma para voltar ao calendário Juliano. homenagem ao Imperador Júlio César.

Em 1929, a União Soviética introduziu um calendário revolucionário no qual todos os meses tinham 30 dias e os outros 5 ou 6 dias eram feriados não pertencentes a meses. Em 1930 e 1931, houve portanto um 30 de fevereiro, mas em 1932 os meses voltaram ao sistema tradicional.

O nome fevereiro vem do latim Februarius, inspirado em Februus, deus da morte e da purificação na mitologia etrusca. Februarius significa "Mês da purificação" em latim, parece ser uma palavra de origem sabina e o último mês do calendário romano anterior a 450 A. C. relacionado com a palavra "febre".


Februus foi adorado também pelo Etruscos, onde poderia se ter tornado Febris, deus de malária. Em sua honra, existiam as festividades de Februalia. Estes realizavam-se no tempo mais ou menos idêntico como Lupercalia, em  honra de Fauno. Por causa desta coincidência, os dois deuses foram pensados frequentemente como sendo a mesma entidade. Que fique claro que não são.
Depois deste breve divagar sobre história e mitologia, dá para compreender melhor o sentido de “febre” que possui o carnaval, sobretudo no Brasil – digo isso, porque em nenhum lugar do mundo o carnaval é tão “febril”.
Para completar a febre do carnaval, existe uma figura muito popular nestas festas, e que representa toda a soberania do evento: O Rei Momo.
Acredito que a maioria de vocês, que estão lendo este texto, já vira este personagem. Logo não creio que seja preciso descrevê-lo. Mas tenho quase que certeza absoluta, que o que vocês não sabem é que a origem deste monarca vem de muitos anos antes do nosso carnaval ser isso que ele é hoje, quando  Momo ainda era um deus (acho engraçado, que eu sempre trago a mitologia à tona, porque ela consegue explicar muitas coisas que continuamos fazendo até hoje). Você não leu errado, Momo era um deus.
Na mitologia Greco-romana, Momo (em grego Μωμος, Mômos, "burla", "crítica" ou "zombaria" e em latim Momus) era a personificação do sarcasmo, das burlas e de grande ironia. Era um dos filhos que a deusa Nix, personificação da noite, teve sem um pai (de acordo com Hesíodo, Teogonia, 211ff), ou com Érebo (como conta Cícero, em seu De Natura Deorum, 3.17). 
A representação de Momo é semelhante ao bufão.
A representação de Momo era geralmente de um homem com cara de sarcasmo, usando um gorro com guizos e segurando em uma mão uma máscara e na outra um boneco (que simbolizava a loucura). Era constantemente representado no cortejo de Baco, sempre ao lado de Sileno e Comos, o deus das farras e da dissolução. Conta-se que Momo vivia gargalhando e tirando sarro dos outros deuses, e que este teria sido o principal motivo para ele ter sido expulso do Olimpo, a morada dos deuses.
Um dos episódios mitológicos que envolvem Momo é recordado por                           Luciano de Samosata (no diálogo ampliado Hermotimus), que diz que Momo foi convidado para avaliar a criação de três deuses, num concurso: Atena, Poseidon e Hefesto. Criticou Atena por ter criado a casa, pois devia ter rodas de ferro em sua base, para que o dono pudesse levá-la assim que viajasse. Zombou do deus do mar por ter criado o Touro com os olhos sob os chifre, quando esses deviam estar no meio, para que ele pudesse ver suas vítimas. Por fim criticou o ferreiro dos deuses por ter fabricado Pandora sem uma porta em seus peitos para que se pudesse ver o que ela mantinha oculto em seu coração. Não bastando isso, ironizou Afrodite, ainda que tudo quanto pudesse dizer dela era que não passava de uma tagarela e que usava sandálias que rangiam no piso do Olimpo. Por fim, teve a audácia de fazer comentários jocosos sobre a infidelidade de Zeus para com Hera. (Filóstrato, Epístolas). Devido a tais fatos, Momo foi exilado do Olimpo, a morada dos deuses, e tornou-se o rei dos loucos, na terra.
Porém, mais tarde, estando Zeus preocupado com o fato de que a Terra oscilava com o peso que a humanidade fazia, permitiu o retorno de Momo ao convívio do Olimpo desde que o ajudasse a descobrir um remédio para tal problema. De forma descontraída e irônica ele sugeriu que Zeus criasse uma mulher, muito bonita, pela quais muitas nações guerreassem e assim se destruíssem. Zeus levou-o a sério e assim nasceu Helena, que levou os gregos à guerra de Tróia.


Sabe-se que antes da era cristã, gregos e romanos incorporaram essa figura mitológica a algumas de suas comemorações, principalmente as que envolviam sexo e bebida. Na Grécia, registros históricos dão conta que os primeiros reis Momos de que se tem notícia desfilavam em festas de orgia por volta dos séculos V ou VI a.C. Geralmente, o escolhido era alguém gordinho e extrovertido - provavelmente vem daí a inspiração para a folia brasileira. Já nas bacanais romanas, os participantes selecionavam um Rei Momo entre os soldados mais belos do exército.
A cerimônia de coroação de Momo como rei vem do tempo da Roma antiga. Para os romanos, Momo era obeso e isso significava fartura e extravagância. Por isso, elegiam o mais belo soldado da tropa romana para ser coroado rei. Como rei Momo, o escolhido podia brincar, comer, beber e fazer o que tivesse vontade durante seu curto reinado. Terminada a festança, ele era levado ao altar do deus Saturno para ser sacrificado. Depois de morto, era velado e enterrado com todas as honrarias de “um chefe de estado”. Se “rei morto, rei posto”, a cada ano era eleito um novo rei Momo.
No século XIX surgia Momo, com aspecto de bufão, sob a forma de um personagem alegre e folião, que substituiu o antigo Rei. Por sua vez, este concedia licença que autorizava a desordem carnavalesca, com bombos, pratos e maracás, parodiando o cerimonial solene do Palácio.
Já no começo do século XX, ficou decidido passar o Rei para carne e osso, sendo consenso que deveria ser alguém alegre, bonachão, bem falante, com cara de glutão, personalidade zombeteira e querida pelo povo, sendo considerado daí o dono do Carnaval.
De acordo com Haroldo Costa, a primeira representação do rei Momo no Brasil data de 1910 e foi encarnada pelo palhaço negro, artista Benjamim de Oliveira (natural de Pará de Minas), na opereta “Cupido no oriente”, de autoria de Benjamim de Oliveira e David Carlos, levada à cena no Circo Spinelli, no Rio de Janeiro. 


No desenrolar da peça, Cupido (Eros), deus alado do amor, filho de Vênus, surge no palácio de um sultão e contracena com odaliscas, fidalgos, conselheiros e também com deuses e deusas da mitologia: Momo, Júpiter, Vênus, Saturno, Mercúrio, Baco, Plutão, Eolo, Vulcano, Esculápio, etc. Há registros de que essa peça tenha ficado em cartaz no período de 1910 a 1912. (Costa, Haroldo. 100 anos de carnaval no Brasil. São Paulo: Irmãos Vitale, 2000)
No Brasil, a tradição de eleger um Rei Momo durante o Carnaval apareceu primeiro no Rio de Janeiro, em 1933. Naquele ano, a coroa foi entregue ao jornalista Morais Cardoso, que ocupou o trono até morrer, em 1948. A novidade fez sucesso e hoje várias cidades brasileiras também escolhem seu Momo.

Uma curiosidade positiva do concurso para Rei Momo do Rio de Janeiro: desde 2004, o concurso carioca trouxe uma novidade: para não estimular a obesidade, o prefeito César Maia liberou a exigência de peso mínimo para os candidatos ao posto. Tanto que o vencedor da eleição, o carioca Wagner Monteiro, tem apenas 85 quilos. O concurso agora privilegia outros critérios, como a capacidade de comunicação do candidato, sua irreverência e uma pitada de samba no pé.


No seu reinado, o Rei Momo recebe a chave da cidade, que simbolicamente governa durante o Carnaval. Mas porque no  carnaval?
Na antiguidade as grandes festas em homenagem era responsabilidade do poder público. Com a supremacia do cristianismo a partir do século IV de nossa era, várias tradições pagãs foram combatidas. No entanto, a adesão em massa de não-convertidos ao cristianismo, dificultou a repressão completa. A Igreja foi forçada a consentir com a prática de certos costumes pagãos, muitos dos quais, cristianizados para evitar maiores transtornos.
O carnaval acabou sendo permitido, o que serviu como “válvula de escape” diante das exigências impostas aos medievos no período da Quaresma. Assim, com a influência do cristianismo, as festas pagãs, como o carnaval, deixaram de ser promovidas pelos poderes públicos. Quando, na Idade Média, sob a tolerância da Igreja, voltaram com outro nome: carnevale (vocábulo italiano que significa "adeus à carne). Foi a maneira encontrada para aproveitar o máximo dos últimos momentos antes do jejum de 40 dias da Quaresma quando nenhuma manifestação de alegria era permitida.
Na Idade Média, o carnaval passou a ser chamado de “Festa dos Loucos”, pois o folião perdia completamente sua identidade cristã e se apegava aos costumes pagãos. Na “Festa dos Loucos”, tudo passava a ser permitido.
No Brasil da atualidade o carnaval, já virou uma instituição da cultura brasileira – chegou a virar um produto de atração turística para o mundo, e sua conotação, é muitas vezes ligada aos moldes antigos, quando era sinônimo também  para uma festa cheia de bebedeira,  sensualidade, promiscuidade, sem limites.
Mas no meio de tanta história, de tanta festa, surge um Momo diferente. O que faz parte da gastronomia, também antigo e cheio de aromas que relembram tempos ancestrais. Refiro-me ao Momo da culinária nepalesa.


A culinária Nepalesa é uma mistura com influencias indianas e chinesa. E por estar situado junto ao Himalaia, acaba , ainda criando suas particularidades gastronômicas (como o pouco uso de carne).
Mas a culinária no Nepal tem dois carros chefe: “Dal Bhat” e “Momo”.
Momo é um tipo um dumpling de massa de arroz, com recheio de vegetais, queijo ou frango e pode ser um dumpling ensopado ou frito. Nada mais são do que mini pasteizinhos que vem regado com um molho apimentado, que pode ser ou não, a base de curry.

Kathmandu, capital do Nepal
Momo ( Chinês simplificado : 馍馍 ; chinês tradicional : 馍馍 ; pinyin : momo; tibetano : མོག་མོག་, Wylie : mog mog; Nepali : : ;) é um tipo de bolinho de massa nativo do Tibet e Nepal , e também populares nas regiões limítrofes do Butão, Nepal e os estados dos Himalaias da Índia (especialmente Sikkim). É semelhante ao buuz, da Mongólia, e ao  jiaozi dos chineses .
No Nepal os momos (ou momo-cha) são um petisco popular. O prato foi trazido para o Nepal pelos comerciantes da comunidade Newar de Kathmandu, que negociam suas mercadorias desde muito tempo. Pode-se encontrar muitos recheios diferentes, tanto a base de carne de búfalo, queijos e os vegetarianos.

Os momos mais tradicionais podem vir recheados com a carne de Yak.
Nos últimos anos, a popularidade de momo tem aumentado muito  - você provavelmente não vai encontrar ninguém em Kathmandu que não gosta de momo ou pelo menos que não tenha ouvido falar sobre eles. Hoje em dia, com a globalização, você pode facilmente encontrar momos com peru, frango, carne de cabra, ou vegetais misturados. Mas a prevalência de Momo vegetariano é uma prova da tradição. (Uma boa, e prática, maneira de fazer Momo é usando  a massa para Wonton Wrappers, cuja receita segue também abaixo)
Agora só resta você experimentar este diferente tipo de Momo no carnaval. Vai que, de repente, vira mais um hábito de carnaval.

Momo – uma receita básica e bem original
Para a massa
630 gramas de farinha de trigo
Água o quanto baste (cerca de 150 ml) para que a massa possa ser sovada.
Preparo da massa
Acrescentar água á farinha aos poucos até atinjar uma consistência em que a massa possa ser sovada.Essa massa deve ser sovada por uns 15 a 20 minutos! Cobri-la com um filme plástico e deixar descansar!

Para o recheio(existe uma variedade imensa)
500 gramas de carne moída de porco
metade de um repolho médio cortado em tiras fininhas
uma colher pequena de alho ralado
uma colher pequena de gengibre ralado
metade de uma cebola ralada
1 tomate pequeno picadinho e retirado o excesso de água com um papel toalha
2 colheres e meia grande de sal
1 colher grande de coriander em pó (coentro)
1 colher grande de cumim em pó (cominho)
duas pitadas de turmerick
2 colheres grandes de óleo
Misturar todos os ingredientes muito bem!!

Montagem: Pegar pequenas porções da massa e abrir com um rolo em forma circular deixando a periferia mais fina do que a parte central (para que o recheio possa ser colocado). Polvilhar a mesa de trabalho com farinha para facilitar o trabalho.  Colocar o recheio em cada porção aberta e fechar o momo utilizando os dedos indicador e polegar da mão direita como se estivesse puxando as beiradas da massa para cima e torcendo as pontas para fechar o momo.  O importante é fechar bem o momo . 


Cozinhar na panela à vapor untando -a com óleo para que os momos não grudem .  Tempo de cozimento vai depender do tamanho .Cerca de 10 a 15 minutos.  E está pronto!! Deve ser comido ainda quente e com molho.
Molho
Cozinhar numa panela:
1 colher grande de gengibre picado
4 dentes de alho bem picados
2 tomates pequenos bem picados
2 colheres chá de sal
2 pitadas de turmerick
2 colheres grandes de pimenta vermelha em pó
2 colher grande de óleo
250 ml de água

Momos tibetanos (Vegetariano)
Para a Massa:
Água (suficiente para dar liga a massa, sem empapar ou seco demais)
Farinha branca:500g
Sal: segundo o gosto
Bicarbonato de Sódio: 1 colher de chá
Para o Recheio
Seitan: 500g
Aipo: um ramo
Folhas de coentro: um ramo
Cebolas: 3 médias
Alho: 3
Gengibre: 1 colher de chá

Preparo: Corte o seitan, a cebola, o alho, o gengibre, o aipo, o coentro. Corte muito fino de modo a obter um recheio. Misture o Bicarbonato o sal com a farinha. Faça uma massa e depois pequenas bolas, que achata sendo mais finas nos bordos e mais grossas no centro. Ponha uma colher do recheio no centro e dobre. Ponha a cozer a vapor durante 15 minutos. Coma quente com um molho picante ou outro ao seu gosto. 



Wonton Wrappers
Ingredientes:
1 ovo
¾ de colher de chá de sal
2 xícaras de farinha de trigo
1/3  para ½  de xícara de água, conforme necessário
Farinha  extra se necessário
Preparação: Bata levemente o ovo com o sal. Adicione a água. Peneire a farinha em uma tigela grande. Faça um buraco no meio e adicione a mistura de ovos e água. Misture com a farinha. (Adicione mais água do que a receita pede se a massa estiver muito seca). Formar a massa em uma bola e sove por aproximadamente 5 minutos, ou até formar uma massa lisa, maleável. Cubra e deixe descansar por 30 minutos. Coloque a massa sobre uma superfície polvilhada com farinha. Abra com um rolo deixando a massa bem fina, e corte em quadrados de mais ou menos 4cm quadrados. Depois coloque um saco plástico e leve para a geladeira ou freezer até que esteja pronto para uso.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Um Jambalaya para homenagear Anne Rice

Hoje o dia começou meio nublado... Deu vontade de ouvir uma música (Mulher sem razão), que não é nova aos meus ouvidos, mas que agora estava sendo cantada pelo Ney (Matogrosso), no seu novo trabalho. Foi com ela que amanheci, foi com ela que entrei na net hoje. E estava ouvindo ela quando li o primeiro e-mail do dia... Uma surpresa, uma boa surpresa:

Cópia do email recebido
Era isso, exatamente isso, o que continha o escrito do e-mail... Conteúdo simples, mas que me trouxe felicidade...
Jamais imaginei receber correspondência, exclusivamente dedicado a minha pessoa, vindo de uma autora que tanto gosto, com quem passei bons momentos na companhia de seus personagens, devorando cada linha como se fosse parte da minha própria vida.
O mais legal é a forma como esse e-mail chegou.
Dois dias atrás eu estava impaciente, resolvi procurar algo para ler... Mas eu já tinha lido e relido todos os livros que tenho em casa... Foi quando eu peguei A rainha dos Condenados, motivado pela capa vermelha – cor que tanto aprecio. Comecei a releitura a partir dos capítulos mais empolgantes daquela história... Minutos depois, interrompi a leitura e vim para o computador, acessei meu facebook, e a primeira postagem que li foi uma outra surpresa bacana: 

Cópia dos post com o devido comentário sobre o nome do personagem e do livro
Resumidamente, para os que não compreendem bem o inglês, o texto dizia que o próximo livro de Anne Rice seria lançado em fevereiro próximo, seria chamado de The Wolf Gift, e o personagem principal do livro teria o meu nome: REUBEN – tá, certo que meu nome ainda tem um S no fim, mas pow, não deixa de ser meu nome (risos) eu queria que fosse, e isso me bastou pra entrar na página da autora, no facebook, e escrever algumas linhas, com meu inglês enferrujado, o resultado vocês já sabem. Eu amei.



Daí fiquei pensando numa receita que me remetesse àquelas leituras todas, sobre os vampiros deslumbrantes da senhora Rice. A idéia me veio rápido: pensei no analogismo de Rice – que inglês significa arroz, e logo cheguei, automaticamente, ao  Jambalaya - uma receita prática, fácil, gostosa e que , com certeza me transporta para a New Orleans que serviu de cenário para algumas boas partes das aventuras de Lestat e Louis.


Jambalaya
Louis (Brad Pitt) e Lestat (Tom Cruise), na versão para o cinema de  Entrevista com o Vampiro
Jambalaya é uma espécie de paelha típica de Nova Orleans, talvez exemplo da contribuição que a cultura espanhola acrescentou à cultura negra de Louisiana, em que os principais ingredientes são - além do típico arroz – carnes  variadas, camarões, lagostins e muita pimenta: pimenta-do reino moída, curry e cayena também moída.
A cozinha cajun-creole tem a marca da história da região pela presença de diferentes povos e culturas. Seus pratos mais representativos são o gumbo (ensopado com quiabo e camarões) e o jambalaya, que pode ser feito na versão creole (com tomate), ou red jambalaya, e no estilo cajun (sem tomate), ou brown jambalaya.
Em 1682, os creole, exploradores franceses, instalaram-se em New Orleans. No século XVIII, os espanhóis assumiram o controle da região e dos acadians - habitantes de origem francesa, vindos da Nova Escócia - que eram chamados de cajuns pelos índios. Vieram, então, os italianos da Sicília, negros e mulatos refugiados do então Haiti e alemães. (abaixo algumas fotos do bairro francês de New Orleans na atualidade)









A cozinha cajun é conceituada como "robusta", utiliza molhos mais escuros e gordura animal. A creole, é uma culinária mais refinada, à base de cremes, manteiga e tomate. As duas possuem características de cozimento longo e utilizam os temperos: cebola, salsão, pimentão, cebolinha e salsinha. [fonte:  História Viva, nº 13, p. 11. Editora Duetto. São Paulo (2004).]
O  jambalaya creole origina do Bairro Francês de Nova Orleans. Foi uma tentativa do espanhol para fazer paella no Novo Mundo, onde não existia açafrão prontamente disponível devido a custos de importação. O tomate então se tornou o substituto do açafrão – para dar cor. Com o passar do tempo, tornou-se forte a influência francesa em Nova Orleans, e especiarias vindas do Caribe transformou essa paella do Novo Mundo em um prato único. Na moderna Louisiana, o prato tem evoluído ao longo de uma variedade de linhas diferentes. Creole Jambalaya, ou vermelho jambalaya como é chamado pelos Cajuns, é encontrado primeiramente e em torno de Nova Orleans, onde é conhecida simplesmente como "Jambalaya". O jambalaya creole inclui tomate, enquanto o Cajun jambalaya não.
Jambalaya Cajun é de origem rural da Louisiana, terra de pântano, de baixa altitude, onde nutre lagostas, camarões, ostras, jacaré, pato, tartaruga, javali, veado, etc. Qualquer variedade ou a combinação de carnes, incluindo frango ou peru pode ser usado para fazer jambalaya. Cajun jambalaya é conhecido como "Brown jambalaya 'na área de Nova Orleans, para Cajuns é simplesmente conhecido como" Jambalaya.


Cajun Jambalaya - sem tomate.
Creole Jambalaya - com tomate.
A primeira aparição na imprensa de qualquer variante do 'jambalaya "a palavra em outro idioma ocorreu em Leis amours de Vanus; vo, Lou paysan oou Théâtre, por Fortuné (Fortunat) Chailan, publicado pela primeira vez em provençal, em 1837.
A primeira aparição da palavra escrita em Inglês ocorre na ediçãod e  maio de 1849 edição de maio da American Agriculturalist, página 161, onde Solon Robinson se refere a uma para 'Hopping Johnny (jambalaya). Jambalaya não aparecem em um livro de receitas até 1878, Quando o The Gulf City Cook Book, escrito pelas senhoras da igreja metodista de St. Francis Street,  foi impresso em  South Mobile, Alabama. Ele contém uma receita para "JAM BOLAYA".

O Jambalaya  teve um breve salto em popularidade durante os anos 1920 e 1930 por causa de sua receita flexível. O prato era pouco mais do que o arroz e legumes a população poderia pagar, assim a receita cresceu dentre as populações mais humildes.
Durante o terceiro mandato do presidente Franklin D. Roosevelt, o prato causou uma briga entre o presidente e amigos da família presidencial, os Richardsons da Virgínia, porque a família enviou um prato para Franklin D. Roosevelt, e o homem teve que recusá-lo, citando que ele era alérgico a lagosta
Em 1968, o governador da Louisiana John J. McKeithen proclamou Gonzales, na Louisiana, a capital do Mundo do Jambalaya. Anualmente, na Primavera, o Jambalaya Festival  é realizado. em Gonzales.(Saiba mais clicando aqui)

Foto do Festival - ver link acima
O Dicionário de Inglês Oxford indica que "jambalaya 'vem de' jambalaia a palavra provençal, o que significa uma mistura louca, e também o que significa um pilau (pilaf) de arroz. Esta opinião é corroborada pelo fato de que a primeira aparição impressa da palavra é em um poema provençal publicado em 1837.

Existem muitos mitos sobre a origem do nome "jambalaya. Um dos mais conhecidos diz que a palavra deriva da combinação de presunto 'jambon’ a francesa que significa, o artigo francês" à la ", uma contração de' la manière à de" sentido "no estilo de", e "ya" , significado para arroz que os negors locais deram para o arroz.
Exploradores europeus haviam importado arroz da Ásia e da África. Os africanos escravizados já tinha um nome indígena para a cultura do arroz; eles chamam de 'ya'. Como os europeus aprenderam o termo 'ya' para o arroz, tornou-se incluído no nome do prato. No entanto, esta teoria é amplamente desacreditada. Até porque o  presunto (jambon)  não é o elemento de assinatura do prato, então não há razão que o justificasse no  nome. Além disso, não há nenhuma língua Africana conhecida  em que "ya" significa "arroz".
O Dicionário americano de comida e bebida (The Dictionary of American Food and Drink) oferece este criativo conto criativo da carochinha sobre a origem da palavra: Tarde da noite, um cavalheiro viajante parou  numa dessas pousadas de New Orleans que tinha pouca comida restante da refeição da noite. O viajante instruiu o cozinheiro ",Jean, balayez !, no dialeto local"  - que significa no  nosso português algo como. Jean, coloca tudo junto!" . O convidado então  batizou o prato cheio de miscelânea como "Jean balayez".

Jambalaya Creole

Aqueça um fio de óleo numa panela média, doure 1/3 de uma cebola grande picada. Junte as carcaças de 1 quilo de camarões médios e 1 folha de louro. Deixe mudar de cor, acrescente 1.250 l de água. Deixe ferver e conte 20 minutos. Peneire e reserve.
Aqueça um pouco de óleo numa panela, doure 500 g de linguiça picante em rodelas finas. Acrescente a cebola restante, 1 dente de alho picadinho, 1 pimentão verde em cubos pequenos, 1 colher (sopa) de tomilho. Deixe perfumar, acrescente 12 tomates maduros em cubos pequenos, sem pele e sem sementes, 1/2 colher (chá) de pimenta caiena, 1/2 colher (chá) de pimenta calabresa e os camarões. Espere mudar de cor, adicione 2 xícaras (chá) de arroz branco, lavado e escorrido, o caldo do camarão, sal e cozinhe por mais 20 minutos, até que o arroz esteja macio, mas solto. Desligue o fogo, junte 1 xícara (chá) de salsinha picada, aguarde 5 minutos e sirva.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A Génoise e Monet

                             Hoje acordei querendo observar as Ninféias...


Afinal é sempre delicioso observar obras de arte, quanto mais quando se trata das obras do pintor impressionista do século XIX, Claude Monet. Sei bem que, assim como eu, muita gente adora ficar observando os quadros feitos a partir dos famosos jardins da casa de Monet (Ah, as ninféia...). Mas recentemente descobri que além de ser um extraordinário pintor, Monet apreciava uma boa comida e se preocupava muito com a qualidade dos produtos que lhe eram servidos – e isso me fez gostar ainda mais dele (risos), mesmo sabendo que Monet não se dedicava á pratica da culinária, mas adorei saber que ele “ficava de ótimo humor diante da perspectiva de uma boa refeição”. Era um expert em saber plantar e colher os melhores ingredientes. Como eu descobri isso?
A resposta é fácil de explicar, adorável de ver e deliciosa para os olhos e para o paladar. Trata-se de um livro, À Mesa com Monet, com texto de Claire Joyes (traduzido por Ana Maria Sarda e Maria Cecília d’Egmont) e fotografias de Jean-Bernard Naudin. 


O escrito conta narrativas gastronômicas de Monet, recheado de comida e fotografias. A obra descreve detalhadamente o período de  1883, quando Claude Monet e sua segunda  mulher, Alice Hoschédé, se instalam definitivamente em Giverny, com os oito filhos. O pintor dedica-se então a transformar uma antiga casa em um ambiente harmonioso como a atmosfera de seus quadros e dá inicio também ao plantio do famoso jardim de sua casa – no entre meio passa a oferecer almoços memoráveis a seus amigos famosos, como Renoir, Cézanne e Clemenceau.

Monet e Alice
Com a descoberta de cadernos de receitas de Alice e Monet, a historiadora de arte Claire Joyes pode reproduzir minuciosamente o estilo de viver e de receber do artista. No decorrer da leitura observa-se a prioridade de Monet em  colher os alimentos numa horta onde ele plantava diferentes sementes vindas de diversos partes do mundo. Monet não cozinhava, mas gostava que seus pratos fossem preparados com maestria.
A obra deixa clara a apreciação do pintor pelos alimentos frescos, pelas caças, pelos doces… e indica que, praticamente tudo o que era consumido por ele e sua esposa eram produzidos por eles. A casa servia com cenário para venda de sua arte e encontros com amigos – todos sempre eram recebidos com comidas para indicar as boas vindas do casal.
Eu, que amo gastronomia, fiquei bastante satisfeito com a primazia nos detalhes relatados no livro, sobretudo no  capítulo, Monet e Alice, onde se percebe a importância dos encontros gastronômicos (refeições diárias, os piqueniques, os almoços festivos, encontros com amigos, etc.) na vida  do pintor. As imagens do livro passeiam pela cozinha de Monet, mostrando desde a preocupação com a ornamentação do  ambiente, passando pela escolha da louça até  chegar no cuidado que  envolvia todo o processo de se  alimentar 9escolha de ingredientes,  manuseio, preparo. Isso deixa claro a busca do casal pela qualidade da boa comida.
A sofisticação presente na comida do casal devia-se ao fato de Alice ter bastante conhecimento e refinamento sobre a  alta cozinha francesa. E ela  sabendo as preferências e as  manias de Monet não tinha como errar para agradar ao paladar do amado.
Dentre as  receitas apreciadas por Monet, está um  bolo  muito famoso (e fácil de fazer) que , na realidade, será o  mote para o post de hoje: estou a falar da GÉNOISE.

A génoise é um bolo oriundo da região de Gênova, no norte de Itália. No entanto, foram os franceses que fizeram a divulgação da receita pelo mundo e que, devido à sua origem, lhe chamaram bolo genovês, ou seja genoise (em Francês).
Génoise é um dos vários tipos de pão de ló. De acordo com os historiadores de alimentos, este bolo foi inventado no início do século XIX.  Há também outra confecção culinária conhecida também por sua denominação geográfica. O bolo de Gênova, por exemplo. Entrando a Génoise e o Bolo de Gênova são um pouco semelhante em ingredientes.
Presumivelmente, estas receitas são conectadas com a cidade italiana de mesmo nome. Esta cidade italiana teve grande importância na história do desenvolvimento econômico italiano devido ao seu porto comercial que serviu como um dos vários cruzamentos para a importação / exportação de alimentos dos países árabes em toda a Europa. Dentre os produtos exportados/importados incluíam ingredientes geralmente encontrados na geneoise: amêndoas, passas, frutas cítricas e especiarias.
Atual Porto de Genova
A posição de Gênova no Mediterrâneo era tamanha que existe até um  provérbio medieval para adjetivar os habitantes da cidade: “genuensis ergo mercator” -  um genovês, portanto, um comerciante.
No século XI, os árabes começaram a perder sua posição para os normandos na Sicília. O declínio da supremacia árabe significou a ascensão do outros poderes como o de Gênova. Mas, no final século XIV, Gênova estava em perigo de cair para a dominação estrangeira e ir à decadência. Os genoveses empreendedores querendo evitar evitado esse destino, passaram a explorar novas maneiras para assegurar um futuro próspero.
Interesses comeriais os levaram ao  norte da Europa, com seus conhecimentos em construção de estradas de montanha, e assim encontrou Gênova mais uma entrada no lucrativo comércio marítimo, e pelo século XV Gênova foi a principal cidade financeira do mundo. Gênova desempenhou um papel no início como um intermediário entre Sevilha e Novo Mundo e forjou uma aliança com Espanha em 1528.
O fio de Ariadne ao longo da história Gênova é a preocupação com uma fonte de alimento confiável ... O Genoises (genoveses) foram seus próprios clientes principais de alimentos, e os luxos do Oriente - o que os tornou ricos - foram reexportados com lucro elevadas. Gênova negociava com quem poderia fornecer comida.
Como fazer Genoise especiais
Genoise. Um bolo de esponja que leva o nome da cidade de Génova. mas não deve ser confundido com o bolo de Genova, que é realmente um tipo de bolo claro com frutas. A Genoise é feita de ovos e açúcar levado ao fogo até engrossar, em seguida, resfriado e combinada com a farinha e a manteiga derretida. Pode ser enriquecido com o farinha de amêndoas e frutas cristalizadas , podendo ser aromatizado com licor, a casca de frutas cítricas e baunilha. Este tipo de bolo esponja pode ser simplesmente polvilhado com açúcar de confeiteiro e comido puro, ou ser recheado com geléia, creme, manteiga ou glacê.  Também é usada para fazer rolos suíços e Madeleines francesas1. " 

[Receita de 1869]
Genoise2
Coloque em uma bacia:
1 / 2 libra de manteiga
1 / 2 libra de açúcar peneirado
1 pitada de sal,
a casca ralada de um limão,
4 ovos;
Misture o todo, com uma colher de pau; Derreta meia libra de manteiga; derramá-lo na pasta de ovos já  bem batida com açúcar e misture bem; untar uma  forma simples; colocar a massa nela, e asse por três quartos de hora; verificar se o bolo está pronto, inserindo a lâmina de uma faca pequena, - se ela sair úmida, o bolo não está pronto, e deverá ser deixado no forno mais alguns minutos;Tire o bolo forma do molde, deixe esfriar; e serva. "

 [Receita de 1875]
Bolo genovês3
Derreta meia libra de manteiga, deixando-a ficar perto do fogo. Misture bem metade de um limite de farinha, meia libra de açúcar, uma pitada de sal, e a casca finamente picada de um limão. transformá-los em uma pasta com um copo de vinho, quatro ovos, bem batido, e a manteiga clarificada. Bata por alguns minutos com uma colher de pau. Despeje a mistura em uma forma  untada com bastante manteiga, e asse em forno moderado. Quando o bolo está suficientemente cozido (isso pode ser verificado empurrando um espeto nela, e se ele sai seco e limpo, é feito o suficiente), retire-o e cubra-a com açúcar e amêndoas descascadas. Tempo, três quartos de hora a cozer. "

 [Receita de 1875]
Bolo de Génova4
Misture um quarto de quilo de passas, um quarto de quilo de cítricos cristalizado, laranja e limão juntos - todos sendo finamente picados - como a canela em pó muito como vai ficar em uma parte dos três vinténs, seis colheres de mesa de açúcar úmido, meio quilo de farinha, e a casca finamente picada de um limão fresco. Bata estes ingredientes por alguns minutos, com meia libra de manteiga clarificada, quatro ovos bem batidos, e duas colheres de mesa de conhaque. coloque a mistura em uma forma rasa bastante untada com manteiga rasa e asse cerca de três quartos de hora. Misture a clara do ovo com uma colher de mesa de xerez. Pincele o topo do bolo com este melado e coloque amêndoas picadas na superfície.Colocá-la no forno mais alguns minutos para dourar as amêndoas levemente. "

Genoise – Pain de Gênes
125 g de manteiga à temperatura ambiente
300 g de açúcar
5 ovos
275 g de amêndoas moídas
2 colheres de sopa de kirsch
100 g de farinha de trigo
Amêndoas fatiadas para decorar

Unte com manteiga uma forma rasa de 20cm de diâmetro. Ligue o forno em temperatura média. Ponha a manteiga em uma tigela, acrescente o açúcar e bata até obter uma massa cremosa. Adicione os ovos um a um, batendo bem depois de cada adição. Misture as amêndoas e o kirsch. Acrescente a farinha e bata bem. Despeje a massa na forma untade e polvilhada e coberta com amêndoas fatiadas e asse durante 40 minutos ou até dourar.
Fontes: 
1.    Oxford Companion to Food, Alan Davidson [Oxford University Press:Oxford] 1999 (p. 334)
2.    Royal Cookery Book, Jules Gouffe, translated from the French and adapted for English use by Alphonse Gouffe [Sampson Low, Son, and Marson:London] 1869 (p. 203)
3.    e 4. Cassell's Dictionary of Cookery with Numerous Illustrations [Cassell, Petter, Galpin & Co.:London] 1975 (p. 247) 
A Mediterranean Feast, Clifford A. Wright [William Morrow:New York] 1999 (p. 348)
Larousse Gastronomique, completely revised and updated [Clarkston Potter:New York] 2001 (p. 55)

sábado, 14 de janeiro de 2012

Os Tártaros

A última postagem trazia uma deliciosa receita com chocolate batizada com um nome diabólico. E para dar continuidade ao simbolismo sempre presente no mundo – e na gastronomia -, hoje iremos tratar sobre os tártaros.
A primeira vez que eu li esta palavra (ainda no século passado [risos]), eu me lembro, que me debrucei sobre os livros empoeirados, velhos e pesados da biblioteca pública para tentar descobrir mais sobre o que significava o tal Tártaro mitológico. 
Depois daquele episódio descobrir que existiam mais tártaros na vida... E que alguns deles poderiam ser deliciosos - outros, nem tanto. Vejamos:


O Tártaro Mitológico
É personificado por um dos deuses primordiais, nascidos a partir do Caos (apesar de alguns autores o considerarem irmão de Caos). Também é conhecido por ser a pior das regiões infernais. Suas relações com Gaia geraram as mais terríveis bestas da mitologia grega, entre elas o poderoso Tifão.

Mapa do Tártaro em Hades
   
Tifão ou Tifeu (em grego antigo Τυφωευς, Τυφων, Τυφαων, Τυφως, transl. Typhôeus, Typhôn, Typhaôn, Typhôs), é um deus da mitologia a quem imputavam os gregos a paternidade dos ventos ferozes e violentos e a seca. Era filho de Gaia e de Tártaro.

Tifão
 No sincretismo com o mito egípcio de Osíris, Tifão era identificado com o gigante Seb, responsável pela seca do Nilo e deus da morte, e que por inveja da fecundidade daquele o matara, sendo vingado por seu filho Anúbis (identificado com Apolo).Junto à esposa Equidna foi pai de vários dos monstros que povoam as aventuras de heróis e deuses, como o Leão de Neméia, combatido por Hércules, a Hidra de Lerna ou a Esfinge, na fusão com os mitos nilóticos, dos cães Ortros e Cérbero. Hesíodo descreve-o assim: "As vigorosas mãos desse gigante trabalhavam sem descanso, e os seus pés eram infatigáveis; sobre os ombros, erguiam-se as cem cabeças de um medonho dragão, e de cada uma se projetava uma língua negra; dos olhos das monstruosas cabeças jorrava uma chama brilhante; espantosas de ver, proferiam mil sons inexplicáveis e, por vezes, tão agudos que os próprios deuses não conseguiam ouvi-los; ora o poderoso mugido de um touro selvagem, ora o rugido de um leão feroz ; muitas vezes — ó prodígio! — o ladrar de um cão, ou os clamores penetrantes de que ressoavam as altas montanhas. Gaia, a Terra, para vingar a derrota de seus filhos pelos crônidas na Titanomaquia, uniu-se a Tártaro e gerando Tifão, identificado como a personificação do terremoto. Morava numa gruta, cuja atmosfera envenenava com vapores tóxicos. Era tão grande que sua cabeça tocava os astros celestes e suas mãos iam do Oriente ao Ocidente. Suas asas abertas podia tapar o Sol, dos seus ombros saiam Dragões, 50 de cada ombro no total 100. Ele era tão horrendo que todos o rejeitavam, até seus irmãos, os titãs. De sua boca cuspia fogo em torrentes, e lançava rochas incandescentes aos céus

Tifão, o “Filho” da Amargura de Hera

Na visão dos gregos antigos, a sociedade é patriarcal. O homem pode conceber grandes obras sem a mulher, inclusive a concepção. Mas a mulher só produziria seres deformados e obras espúrias sem a participação do homem.

Tifão é o deus da seca, mas não se pode nem um pouco compará-lo com um deus, ele é uma criatura extremamente cruel e poderosa, tão poderosa que todos os deuses fugiram ao vê-lo. Tifon é filho de Gaia e Tártaro, mas ele não nasceu de Gaia, Gaia ao perceber que estava grávida aproveitou e transformou seu ainda não nascido filho em uma semente e deu a Hera. Entenda como isso ocorreu.

Hera
Quando Atena nasceu, todo o Olimpo falava da sua beleza e da sua sabedoria. Todas as reverências foram dadas a Zeus por ter concebido tão formosa e guerreira filha. Ao ver Atena, Hera, a ciumenta mulher de Zeus, a rainha do Olimpo, encheu-se de cólera e amargura. Não suportava a idéia do marido ter concebido tão bela filha sem a sua participação. Enfurecida, Hera não quis receber Atena diante de si. Desde o nascimento da filha, que Zeus tornara-se um pai zeloso, cheio de empáfia por sua obra. Hera sentiu-se diminuída diante dos deuses. O único filho que dera a Zeus tinha sido o feio e coxo  Hefestos, deus dos vulcões. Ao dar à luz a filho tão feio e com deficiência na perna, ficou tão furiosa que o atirara ao mar. Depois daquele fruto indesejado, Zeus aparecia diante dela sendo pai de uma deusa belíssima, concebida somente por ele.
Hera não suportava tanta humilhação. Desejou conceber um filho sem a participação do marido. Queria ela ser mãe de um belo deus. Tanto rogou a Gaia, a mãe Terra, e às forças da terra, que conseguiu o seu propósito. Após inúmeras súplicas, Hera viu o seu ventre crescer. Também ela iria sozinha, gerar um filho, sem a presença do marido. Para punir e humilhar ainda mais o senhor do Olimpo, Hera não permitiu que o marido a procurasse durante a gravidez. Preferiu retirar-se para os templos onde era adorada e onde os humanos rendiam-lhe homenagens e sacrifícios.
Finalmente chegou o dia tão esperado. Hera começou a sentir as dores do parto. Estava ansiosa para ver o fruto da sua concepção solitária. Quando nasceu o filho da sua solidão e amargura, Hera decepcionou-se, ele não trazia a forma de um deus e nem a de um mortal. Era um terrível monstro em forma de serpente que cuspia fogo. Deu-lhe o nome de Tifão. Impossibilitada de livrar-se do filho, Hera voltou ao Olimpo a trazer nos braços tão vergonhosa produção. Tifão criou problemas com todos os deuses do Olimpo, fazendo intrigas entre eles. Importunados por tão incômoda presença, as divindades enviaram Tifão para Delfos, para ao lado da serpente Pitão, tomar conta do oráculo. Mais tarde Apolo matou Pitão e atirou Tifão no fundo do mar, onde ficou prisioneiro para sempre. Todas às vezes que o filho de Hera esbraveja mal humorado nas profundezas do mar, entra em erupção os vulcões Etna e Vesúvio, assombrando toda a Itália.

Luta contra o Olimpo 
A fim de dar cabo à vingança materna, Tifão começou a escalar o Monte Olimpo provocando a fuga dos seus moradores todos; os deuses se metamorfosearam em animais e fugiram para o Egito (razão pela qual, segundo os gregos, esse povo dava aos seus deuses configurações zoomórficas). Apolo tornou-se um falcão] (Hórus), Hermes um íbis (Thoth), Ares um peixe (Onúris), Ártemis uma gata (Neith ou Bastet), Dioniso um bode (Osíris ou Arsafes), Héracles um cervo, Hefesto um boi (Ptah) e Leto um musaranho (Wadjet). Apenas Atena teve coragem de permanecer na forma humana. Do Egito Zeus veio a se refugiar no Monte Cássio, na Síria, local em que enfrentou o gigantesco inimigo. Dali atingia Tifão com seus raios mas este consegue derrubá-lo e, com uma harpe, cortou-lhe os músculos dos membros e deles fazendo um pacote que guardou numa pele de urso. Os raios e os membros amputados foram confiados a Delfim - um dragão - no antro córciro, na Cilícia. No ataque Tifão invocara todos os dragões que, tantos eram, escureceram o dia. Tendo perdido seus raios Zeus propusera a Cadmo que, disfarçando-se em pastor, fizesse uma choupana e, com o som de sua flauta, atraísse o monstro. Nonos assim registra o episódio: "Canta, disse-lhe ele, Cadmo; tornarás a dar aos céus a primitiva serenidade. Tifão arrebatou-me o raio; só me resta a égide; mas de que pode valer-me contra as poderosas chamas dos raios? Sê pastor por um dia e sirva a tua flauta para devolver o império ao eterno pastor do mundo. Os teus serviços não ficarão sem prêmio; serás o reparador da harmonia do universo e a bela Harmonia, filha de Marte e de Vênus, será tua esposa."Atraído pela música, Tifão se aproxima; Cadmo (noutros mitos teria sido Hermes) finge estar assustado com os raios e o monstro, para acalmá-lo, deixa os relâmpagos numa caverna onde Zeus, fazendo baixar uma nuvem para não ser percebido, recupera suas armas e músculos. De posse novamente de seus poderes, Zeus força Tifão a fugir para o monte Nisa onde as Parcas dão-lhe de comer, pois estava esfomeado, frutos que lhe diminuem a força. Ainda em fuga chega à Trácia onde pelo tanto do sangue derramado deu nome ao monte Hemos. Ainda perseguido, vai Tifão para a Sicília e depois Itália onde Zeus, concentrando todas as forças, fulmina todas as cabeças do monstro que cai sobre a terra com estrondo, morto.

Zeus atirando seus raios em Tifon
Vários monstros tiveram atribuída a paternidade a Tifão e sua esposa Equidna, a única que podia suportar a sua terrível aparência, já que outras Titanides e deusas primordiais o rejeitavam. São seus filhos: Ortros, cão de guarda do rebanho de Gerião, morto por Hércules; Leão da Neméia, também morto por Hércules, foi transformado em constelação; Hidra de Lerna, em cujo sangue Hércules embebeu suas setas para que seus ferimentos fossem incuráveis, após derrotá-la com ajuda de Iolau; Cérbero, guardião da entrada ao Hades; Quimera e o Dragão da Cólquida.

Equidna

Assim como Gaia era a personificação da Terra e Urano a personificação do Céu, Tártaro era a personificação do Mundo Inferior. Nele estavam as cavernas e grutas mais profundas e os cantos mais terríveis do reino de Hades, o mundo dos mortos, para onde todos os inimigos do Olimpo eram enviados e onde eram castigados por seus crimes. Lá os Titãs foram aprisionados por Zeus (Júpiter), Hades (Plutão) e Poseidon (Netuno) após a Titanomaquia.
Na Ilíada, de Homero, representa-se este mitológico Tártaro como prisão subterrânea 'tão abaixo do Hades quanto a terra é do céu'. Segundo a mitologia, nele eram aprisionados somente os deuses inferiores, Cronos e outros titãs, enquanto que os seres humanos, eram lançados no submundo, chamado de Hades. O poeta grego Hesíodo garantiu que uma bigorna de bronze cairia do céu durante nove dias até alcançar a terra, e que cairia outros nove dias até atingir o Tártaro. Sendo um lugar tão profundo no chão, estava coberto por três camadas de noites, que se seguiam a um muro feito de bronze a cercar este distante subterrâneo.
Era um poço úmido, frio e desgraçadamente imerso na mais tenebrosa escuridão.

O mundo primordial, segundo a mitologia grega
Enquanto, segundo a mitologia grega, o Submundo (Érebo, reino de Hades) era o lugar para onde iam os mortos, o Tártaro tinha vários moradores. Quando Cronos era o deus que governava o mundo, prendeu os Ciclopes no Tártaro. Zeus os libertou, para que o ajudassem na sua luta contra os titãs - que acabaram sendo derrotados pelos deuses do Olimpo, e aprisionados neste desolador tugúrio. Ficaram vigiados por 3 enormes gigantes chamados Hecatônquiros.
Os hecatônquiros (em grego Έκατόνχειρες Hekatonkheires, "os de cem mãos"), também conhecidos por Centimanos (do latim Centimani), eram três gigantes da mitologia grega, irmãos dos 12 Titãs e dos 3 Ciclopes, filhos de Urano e Gaia: Briareu ("forte"), Coto ("filho de Cotito") e Giges ("o membrudo"). Possuíam cem mãos (em algumas histórias, possuíam também, 50 cabeças).
Segundo Hesíodo, as gerações de Urano e Gaia foram, em ordem, os titãs, os cíclopes e os hecatônquiros, que foram odiados por seu pai, e os escondeu na Terra assim que cada um deles nasceu. Segundo Pseudo-Apolodoro, os hecatônquiros foram os primeiros filhos de Urano e Gaia, e, logo após os hecatônquiros, nasceram os ciclopes, que foram aprisionados no Tártaro por Urano.
Gaia sofreu com o aprisionamento dos hecatônquiros, e pediu a seus filhos que punissem Urano;apenas Cronos teve coragem de responder à sua mãe.Gaia entregou uma foice a Cronos, e faz o plano;quando Urano estava se deitando com Gaia, Cronos atacou, e castrou Urano.



Poderosos, ajudaram Zeus a derrotar os Titãs no episódio que ficou conhecido como Titanomaquia. Coto, Briareu e Giges lançaram trezentas pedras, e suplantaram o ataque dos Titãs, enterrando-os em baixo da terra, e amarrando-os com correntes. Após a vitória de Zeus, os titãs foram encerrados no Tártaro. 




Depois de derrotar os Titãs, os hecatônquiros se estabeleceram em palácios no rio Oceanus, ficaram como guardiões das portas do Tártaro, onde Zeus havia aprisionado os Titãs.  Mais tarde, quando Zeus derrotou o monstro Tifão, filho de Tártaro com Gaia, também o lançou neste mesmo poço de água.

Depois deste aprofundamento sobre o tártaro mitológico, no decorrer dos anos fui me deparado com os outros tártaros:
·         O Tártaro Dental – Entre a gengiva e o dente existe um espaço, sulco gengival, (vamos compará-lo à cutícula de unha), que em condições normais atinge até 3mm de profundidade. Após as refeições, os restos alimentares (placa bacteriana), penetram nesses espaços e após 72 hrs, endurecem , formando o tártaro, este é duro e áspero, irritando e inflamando a gengiva, provocando sangramento ao leve toque da escova.

·        O Cremor Tártaro - Bitartarato de potássio, também chamado hidrogeno tartarato de potássio tem fórmula KC4H5O6. É um subproduto da fabricação de vinho. Também é conhecido como creme de tártaro. É o sal ácido de potássio do ácido tartárico. Cremor Tártaro é o nome chique para Bitartarato de potássio branco, altamente purificado, vendido nas lojas de alimentos. E, finalmente,



·         O Molho Tártaro – molho á base de maionese e picles usado para acompanhar saladas e peixes. (foto e receita no fim do post)

A palavra tártaro ou tartare se referia ao nome persa da horda dos mongóis de Genghis Khan que assolou a Ásia e a Europa Oriental durante a Idade Média. Os tártaros eram vistos pelos europeus como sendo censuráveis (ou para ser gentil, politicamente incorretos), uma  vez que usavam peles inteiras de animais e muitas vezes comiam suas refeições cruas. Aliás, os tártaros levaram  a culpa por quase tudo que for cru, acre ou grosseiro.
Provavelmente por este mesmo motivo que uma de nossas delícias semibárbaras recebeu o nome de steak tartare: carne crua moída ou picada, misturada com cebola crua picada, gema de ovo crua, sal e pimenta com toque de tabasco, molho inglês, mostarda de Dijon, anchovas e alcaparras.  

Fonte

Alexander S. Murray. Quién es Quién en la Mitología. [S.l.]: ME Editores, Madri, 1997.
René Menard. Mitologia greco-romana, volume I, II e III. [S.l.]: Opus ed. São Paulo, 2ª ed, 1991.

STEAK TARTARE

Ingredientes:
1,5 k de filé mignon limpo
6 gemas de ovo
2 cebolas pequenas, muito bem picadas
2 colheres (sopa) de alcaparras bem picadas
Folhas de manjericão picadas finamente
3 colheres (sopa) de molho inglês
2 colheres (sopa) de ketchup
2 colheres (sopa) de mostarda de Dijon
Salsinha picada para decorar
Sal e pimenta-do-reino moída na hora, a gosto
Preparo: Retire os nervos e pique a carne finamente com a faca. Você pode também comprá-la já moída (somente uma passagem no moedor); Junte todos os ingredientes picados e misture bem; Acrescente as gemas e misture até formar uma pasta; Adicione o molho inglês e vá colocando ketchup, mostarda, pimenta e sal aos poucos, testando sempre até chegar ao ponto desejado do tempero; Decore com salsinha e um fio de azeite; Deixe resfriar na geladeira antes de servir.

MOLHO TÁRTARO

Ingredientes:
1 colher (chá) de cebola ralada
2 colheres(chá) de picles picados (cenoura e pepino)
1 colher (sopa) de azeitonas verdes picadas
1/2 colher (sopa) de alcaparras picadas
1 colher(sopa) salsa e cebolinha picadas
3/4 de xícara (chá) de maionese
1 colher (chá) de limão ou vinagre(opcional)
1 colher(chá) de mostarda

Preparo: Misture todos os ingredientes à maionese e mexa bem, ou passe pelo multiprocessador. Pronto

Obs.: Esta receita é própria para peixes assados e todos os tipos de frutos do mar, principalmente camarões e lagostas. Também com aquelas deliciosas cebolas empanadas ou pão preto. As medidas podem modificar conforme seu gosto ou paladar.