É pra se comer bastante esta idéia de combinar gastronomia, cultura e história unidas num lugar acessível. Principalmente numa época onde as pessoas se entopem de gorduras trans e não alimentam a alma.
Sabendo que o homem não nasce da fome, mas do apetite. Te convido a conjugar o verbo comer em todas as suas possibilidades.
Um brinde a você por estar aqui! Bon apetit!!!
E o que são estas
noites quentes de abril? Não há dúvidas
que o mundo está virando uma estufa! E
Fortaleza deve ser uma das mais quentes.
Este calor infernal
me fez desejar uma bebidinha que já foi hit das lanchonetes, sorveterias e
afins, nos anos 60, 79 - e acabou sendo esquecida nos anos 80: a Vaca Preta (quem se lembra?).
Guloseima gelada,
líquida e de coloração marrom a vaca
preta é preparada à base de sorvete e de refrigerante sabor cola. Geralmente
servida como drink refrescante, podendo inclusive ser utilizada como sobremesa.
O nome da bebida é
uma referência aos seus ingredientes: vaca refere-se a leite (um dos
componentes do sorvete), preta refere-se à coloração escura de todo
refrigerante sabor cola.
A vaca preta era a
bebida predileta da personagem de quadrinhos Luluzinha. Com o sucesso, no
Brasil da década de 60, das histórias da turma do Bolinha (também conhecida
como "turma da Luluzinha"), a bebida rapidamente se tornou tão
conhecida quanto a personagem.
Atualmente, não é
mais comum encontrar vaca preta no
cardápio das lanchonetes e sorveterias, ao contrário do que ocorria no Brasil
das décadas de 60,70 e 80.
De acordo com
CHAMBERLAIN (1983), nos Estados Unidos a bebida mais similar seria o ice cream
soda (ou simplesmente float). No Brasil, um anglófono diria que esta bebida se
trata de um ice-cream-and-cola float.
Nos Estados Unidos a
bebida (refrigerante de cola mais sorvete) é conhecida como "chocolate
cow" ou "brown cow", sendo a Vaca Preta ("black cow")
o resultado da mistura de root beer e sorvete de baunilha.
Confesso que,
particularmente, o nome original não me interessaria muito. O resultado da
mistura é que me “faz um bem!” – como diria o slogan da Coca no seu inicio em
solos brasileiros.
Só para não esquecer:
A Coca-cola, chegou
ao Brasil em 1941, durante a Segunda Guerra. Primeiro em Pernambuco, onde havia
uma base americana. Apenas para servir às forças armadas. Porque o proprietário
da empresa, Ernest Woodruff, em um arroubo patriótico, decidiu que todo soldado
americano deveria poder comprar o refrigerante, em qualquer lugar, pelos mesmos
5 cents que pagavam nas esquinas de suas casas. Pouco importava o custo. E logo
a garrafinha se converteu em símbolo do orgulho americano. Para o bem e para o
mal.
No Recife, a produção
começou na Fabrica de Água Mineral Santa Clara, mas logo se espalhou por todo o
Estado e chegou a Natal - produzidos em mini-unidades, e a partir de kits
importados. A primeira fábrica "de verdade" foi instalada no Rio de
Janeiro - na Rua Conde de Leopoldina, em São Cristóvão. O concentrado e o gás,
que vinham dos Estados Unidos, eram misturados em um enorme tanque de 300
litros, usando colheres de pau feitas com peroba do campo - madeira que não
deixa gosto nem cheiro. Só no primeiro dia foram vendidas 1.843 caixas.
Coke's Float
O primeiro slogan,
por aqui, apenas reproduzia o americano "A pausa que refresca"
(1942). Depois veio aquele que é considerado, até hoje, o melhor de todos:
"Isto faz um bem"(1952) - criação do consagrado romancista J.G. de
Araujo Jorge. Em seguida outros, sempre ligando o produto à sua época. Como
"Tudo vai melhor com Coca-Cola" (1964) - destinado a toda uma geração
que ouvia Elvis Presley e Little Richard em festinhas regadas a Cuba Libre. Ou
"Isso é que é" (1970) - exaltando a natureza. Ou "Coca-Cola é
isso aí" (1982) - com o piano de Tom Jobim tocando "Águas de
março". Até o atual "Cada gota vale a pena". "Se a alma não
é pequena", poderíamos dizer como Pessoa.
Fonte: CHAMBERLAIN,
Bobby J. HARMON, Ronald M. "A Dictionary of Informal Brazilian
Portuguese". Georgetown
University Press, 1983, 728 pp. Parcialmente disponível na internet (clique aqui)
Receita
original de vaca preta
2 bolas de sorvete de creme
250 ml de Coca-Cola
Cobertura de chocolate ou caramelo para decorar
Preparo: No copo do liquidificador,
coloque as bolas de Sorvete e coca, e bata somente até obter uma mistura
homogênea. Espalhe a cobertura em um copo alto e encha com a mistura de
Sorvete. Sirva imediatamente.
A páscoa já está aí... Ontem fui em um shopping, aqui perto de casa, e me apavorei com a multidão enlouquecida na compra pelos ovos de chocolate, das Lojas Americanas. Já no Supermercado, outro inferno, a aglomeração era para comprar bebidas, pescados e afins e mais chocolates – porque o brasileiro deixa sempre tudo pra última hora? Enfim, foi no supermercado, vendo uma senhora comprando um monte de pães de coco – elemento tradicional da páscoa aqui no Ceará, que pode ser conferido neste blog (clique aqui) que eu tive a ideia para o post de hoje.
Já apresentei texto sobre a origem da páscoa (clique aqui), já falei sobre o luxo das famosas joias de páscoa – os ovos Fabergé (clique aqui), já esclareci o simbolismo da Colomba pascal (clique aqui) e agora venho falar de outro pão/bolo pascal – o folar.
A Páscoa é em Portugal, assim como no Brasil, é uma época que se caracteriza com a entrega de presentes cheios de simbolismo, sobretudo de natureza alimentar. O Folar, por exemplo, é um desses típicos presentes da páscoa portuguesa. Era o presente que os padrinhos e madrinhas davam aos seus afilhados na Páscoa para quebrar o período de jejum. O Folar era também a recolha que os padres faziam nas casas dos seus paroquianos durante a visita pascal no Domingo de Páscoa. O Folar assumia-se assim como um elogio à fartura. Sem esquecer, naturalmente, que se trata de uma espécie de pão, elemento básico e estruturante da nossa alimentação.
A maioria dos dicionaristas coloca a origem da palavra «folar» no latim «floralis». A quem sugira o étimo germânico «flado», que significa «bolo de mel»; e ainda, a quem assinara-lhe como de origem francesa «poularde». Definem o folar como sendo um bolo em forma de pinta pousada sobre um ovo, ou com um ovo em cima. Hoje são raros os casos dos folares que incluem a galinha. . O pão, que também é conhecido como bolo, simboliza o ninho, e os ovos a geração de uma nova vida, fertilidade (tal como os coelhos ) Deseja-se felicidade e prosperidade a alguém, quando se lhe oferece um folar.
Nas aldeias portuguesas o folar é um produto de padaria, bastante rústico. Nas cidades é um produto de pastelaria, com alguns melhoradores de sabor, cor, textura e de apresentação, como a gelatina e afins para o brilho, com algumas exceções. Os ovos que o cobrem são cozidos com casca de cebola para ficarem acastanhados.
E toda comida tradicional tem sempre uma boa história pra abrilhantar mais a cozinha, no momento do preparo. É a história, por trás das comidas, muitas vezes, o motivo real para o seu preparo – o simbolismo conta muito neste momento. Então, vejamos o que conta a lenda do folar.
A Lenda do Folar da Páscoa
Esta é uma das várias lendas que a tradição guarda ciosamente sobre o folar da Páscoa. É simples como a alma do povo, pois do povo ela vem. Diz-se que é muito antiga. Todavia, não se sabe ao certo a data em que começou a circular de boca em boca.
Numa aldeia que a tradição não menciona, uma linda rapariga, pobre mas bela, tinha uma única ambição na vida: casar cedo. Diz a lenda que ela fiava sentada à porta de casa e orava no seu íntimo a oração que já vinha de avós para mães e de mães para filhas. Era assim a oração:
Minha roquinha esfiada,
Meu fusinho por encher,
Minha sogra enterrada,
Meu marido por nascer.
Minha Santa Catarina,
Com devoção e carinho
Tomai-vos minha madrinha,
Arranjai-me um maridinho.
Embora a não entendesse bem, parecia-lhe que recitando esta fórmula antiga, que já havia casado sua mãe e sua avó, e as mães e as avós das moças da sua idade, ela seria igualmente atendida. Contudo, acrescentava sempre uma palavrinha sua, não fosse a Santa entender mal o seu desejo. E terminava, pois, dizendo:
— Santa Catarina! Bem sabeis que me quero casar, com um moço que seja belo, e forte, e trabalhador, para que não fique na miséria...
Santa Catarina
Ora bem. Tantas vezes e tão fervorosamente rezou, que Santa Catarina houve por bem fazer-lhe a vontade. E de tal modo que, de um dia para o outro, a jovem aldeã viu-se requestada por dois em vez de um pretendente! Um fidalgo lavrador, rico, educado, forte e belo, mas já passando dos trinta anos, e um jovem trabalhador da terra, belo e forte também, mas sem outra fortuna além dos seus braços, sempre prontos para o trabalho.
Marianinha não sabia como decidir-se, hesitava sobre qual dos dois devia optar. Ambos lhe agradavam. Um representava a riqueza, a segurança, a tranquilidade… O outro, a juventude plena, o gosto de viver à custa do heróico labutar do dia-a-dia…
Ambos lhe pediam uma resolução rápida. E ambos sabiam que o outro era a causa da indecisão da jovem. De modo que se viu forçada a recorrer de novo a Santa Catarina.
Ajoelhada diante da imagem da Santa sua madrinha, Marianinha falou-lhe assim:
— Ó minha Santa Catarina, ajudai-me a escolher! Ambos me querem… ambos são bons para mim… ambos me agradam… Qual deles devo preferir? Gosto da figura do Amaro, da sua juventude, do seu ar impetuoso e trabalhador… Mas também gosto do senhor fidalgo… das palavras bonitas que me diz… do seu ar pomposo e da riqueza que tem…
E escondendo o rosto nas mãos:
— Oh, minha Santa Catarina, sinto-me envergonhada e confusa!... Mas a verdade é que não sei escolher! Ajudai-me vós!
Estava ainda de joelhos quando bateram levemente à porta. Marianinha levantou-se apressada e foi abrir. Era Amaro, o jovem e possante Amaro, de olhos negros e tez morena. Sorria-lhe. Um sorriso aberto, tentador.
Marianinha estremeceu. Seria por esse que deveria optar? Mas o fidalgo era tão rico… tão delicado… tão imponente!...
Amaro despertou-a desse devaneio.
— Escuta, Marianinha. Penso que é tempo de tomares uma decisão. Ou bem que me amas… ou bem que amas o outro. Dos dois não podes gostar, acredita! Por isso, previno-te de que preciso de uma resposta tua até à Páscoa. Se até lá não me deres o sim, tomarei isso como prova de que não te interesso e ir-me-ei embora desta terra.
Ela arriscou:
— Para onde?
Ele encolheu os ombros.
— Que poderá isso importar-te? Se eu partir, é porque não me quiseste para marido.
Ela desviou o seu olhar do olhar profundo de Amaro.
— Não quero que te exponhas a perigos por minha causa!
— Seguirei apenas o meu destino!
Marianinha suspirou:
— Bem gostaria de saber qual será o meu!...
— Tu podes decidir. Porque não o fazes?
— Não sei... Tenho de pensar...
— Pensar em quê? Amas o fidalgo?
— Não sei...
— Gostas da sua riqueza?
Ela apressou-se a acrescentar.
— E das palavras bonitas que me diz!
— Dizer-te que te amo, não achas bonito?
— Acho, sim! Mas ele… ele diz isso de outra maneira!
— Cuidado, Marianinha! A voz do coração é só uma!
— Ele também gosta de mim...
— Talvez. Mas o caso não é nosso: é teu. Tu é que tens de escolher um de nós, e só um. A não ser que não ames nenhum!
Ela voltou a encará-lo.
— Não, não é isso!... Eu amo-os aos dois...
— Mentes, Marianinha! Não se amam dois ao mesmo tempo, já te disse! Por isso vê bem! Vou dar-te um prazo menos longo: quinze dias. No Dia de Ramos virei ter contigo. Até lá deixar-te-ei à vontade. Adeus!
Voltou costas bruscamente, o jovem Amaro. Marianinha sentiu-se entristecer. Ele ia zangado. Decerto que ia zangado. E se partisse? E se não mais voltasse? Encheram-se-lhe os olhos de lágrimas. Mas já a figura elegante do fidalgo se aproximava. Ela tentou disfarçar. Ele sorriu-lhe com brandura, dizendo:
— Salve, Mariana, a flor mais bela que vi sobre a Terra! Meus olhos são felizes só porque te contemplam!
Ela olhava-o enleada, sem saber que responder. Foi ele ainda quem falou:
— Que tens? Pareces atrapalhada...
Marianinha confessou:
— Na verdade, estou. Dizeis coisas tão bonitas… que mal as entendo!
Ele envolveu-a num olhar terno.
— Mariana, se decidires casar comigo, hei-de ensinar-te tudo o que sei!
— A mim?
— Claro! E que achas estranho nisso?
— Ora! Não sei… se poderei aprender!
— Aprenderás, sim! O que é preciso é saber que me queres...
Ela ficou ainda mais atrapalhada.
— Bem... O Amaro...
Ele interrompeu-a:
— Já sei. Vinha ter contigo e ouvi as suas últimas palavras. Quer uma resposta no Domingo de Ramos, não é assim?
— É, sim, senhor. Mas não sei...
— Tens de saber! No Domingo de Ramos também virei aqui. Estou certo de que saberás escolher! Eu represento o amor, a riqueza, o teu bem-estar e o da tua família. Amo-te, e não deixarei que esse amor me seja arrebatado. No entanto... se a tua escolha está já feita...
Ela apressou-se a exclamar:
— Oh, não, ainda não decidi!
— Tens a certeza?
Marianinha fitou-o. Os olhos azuis do fidalgo olharam-na bem fundo. Ela esquivou-se a essa investigação, pedindo, interiormente, à Santa sua madrinha que a ajudasse. E o fidalgo despediu-se cortês, embora com uma sombra escura no seu olhar claro.
Uma semana passou. Toda a aldeia comentava já o caso. A velha Balbina viera, de propósito, bater à porta de Marianinha para a informar:
— Sabes? Isto vai ser bonito!...
— Então que há?
— Olha! Ontem à tarde o Amaro e o fidalgo encontraram-se cara a cara.
— E depois?
— Depois... sei lá!... Falaram... discutiram. Ia sendo o fim do mundo!
— Ó minha Santa Madrinha!
— E não sabes o melhor. Ambos afirmam que tu já decidiste. Ambos se julgam escolhidos!
— Sim? Mas eu...
— Mas tu não escolheste. Isso sabemos nós! Se já tivesses escolhido, não berravam eles tanto. Mas vai ser bonito, vai!... Olha que o Amaro jurou matar o fidalgo, se te desviasse dele com as suas falinhas mansas e a sua fortuna!
Mariana tremia.
— Mas... que hei-de fazer?
— Ora! Decidires-te!
— Mas como?... como?...
Marianinha cobriu o rosto com as mãos. Chorava. A velha Balbina meneou a cabeça e comentou enquanto se afastava:
— Está doida, esta rapariga! Nem sequer já sabe de quem gosta!
E o Domingo de Ramos chegou. Toda a gente da terra esperava ansiosamente esse dia. Marianinha velara toda a noite, orando. Estava pálida, enervada, fechada num mutismo assustador.
As horas da manhã passaram. Marianinha não saiu de casa. De súbito, a velha Balbina voltou a bater-lhe à porta, mas desta vez muito aflita.
— Marianinha! Vem depressa que eles matam-se! Encontraram-se no caminho… à beira do barranco… ambos vinham para cá...
Marianinha abriu os olhos, aterrada.
— Onde estão eles?
— Junto ao rio! Não sei como aquilo começou... Está lá muita gente... mas ninguém os aparta!
Chorando alto, Marianinha afirmou:
— Vou lá eu!
— Mas não te demores, mulher! Um deles cairá morto!
Aterrada, Marianinha saiu correndo. O rio ficava perto. Ofegante, chorando convulsivamente, ela estacou ante a luta feroz em que os seus dois pretendentes pareciam empenhados. Mal conseguiu gritar:
— Parem! Parem! Não se matem, pelo amor de Deus!
Mas para aqueles homens dir-se-ia que nada mais existia à sua volta do que cada um deles. Marianinha pôs as mãos:
— Santa Catarina! Valei-me!
De súbito, deu por si a correr para o barranco, gritando:
— Amaro! Amaro!
A este grito, os dois homens pararam de lutar, Amaro correu para Marianinha, abraçando-a. O fidalgo recompôs o vestuário, e sem uma palavra voltou para o seu solar. O povo olhava-os sem nada dizer. Ficaram assim alguns segundos. Depois, todos correram em bando a abraçar o jovem casal.
Véspera de Páscoa. Marianinha e Amaro tinham combinado para breve o casamento. Todavia, a rapariga não andava feliz. Do fidalgo ninguém mais vira a sombra. Mas dizia-se à boca pequena que no dia do casamento ele havia de aparecer para matar o Amaro. Era como uma nuvem negra a toldar o sol dessa alegria nascente!
Atormentada, Marianinha não se deitou nessa noite. Chorava e rezava. Pedia perdão de ter sido a causadora dessa inquietante situação. Fora a ambição que a toldara. Mas agora via claro. E queria que tudo acabasse em bem. Pedia então, entre soluços:
— Ó minha Santa Catarina! Vós, que estais tão perto de Deus, falai-Lhe por mim e pedi-Lhe que me perdoe e me dê uma prova desse perdão!
Foi então ao que se diz — que ela viu a imagem sorrir-lhe...
Marianinha tomou alento. Manhã cedo saiu para o campo. Apanhou flores e colocou-as no altar de Deus. Chegada a casa estacou, surpreendida.
Sobre a mesa das refeições estava um grande bolo com ovos inteiros dentro e rodeado de flores. Flores iguaizinhas às que ela levara ao altar. Julgando ter sido oferta de Amaro, correu a casa dele. Mas encontrou-o no caminho. Também ele ia a casa da noiva. Tinha encontrado, na sua mesa, sem saber quem o levara, um bolo semelhante ao de Marianinha. Resolveram ir para casa da jovem. E comentaram:
— Quem poderia ter sido?
Marianinha não respondeu. Mas sorriu. Amaro indagou:
— Porque sorris?
Ela olhou a imagem de Santa Catarina e explicou:
— Sabes... Eu ontem orei muito… chorei muito... E pedi a Deus, por intermédio da Santa minha madrinha, que me desse um sinal...
— Que sinal?
— Um sinal de que estou perdoada... e de que tudo irá correr bem...
— E pensas que foi Deus que nos ofereceu o bolo?
— Não. Penso... que foi o fidalgo!
— O fidalgo? E porquê ele?
— Porque Deus quis que ele nos deixasse em paz, e me perdoasse a escolha que fiz...
Amaro concordou:
— Talvez... Só ele teria dinheiro para tão rico presente. Um bolo com ovos inteiros… e flores... Confesso que nunca vi! Onde teria ele ido buscar esta ideia?
Marianinha agarrou uma das mãos do noivo:
— Amaro! E se fôssemos agradecer-lhe?
— Achas que sim?
— Acho! É Deus que assim o quer!
— Então, vamos!
E saíram. Mas no caminho encontraram o fidalgo que lhes sorriu. Amaro apressou-se a falar-lhe:
— Senhor fidalgo, quero agradecer-vos a vossa lembrança. O que lá vai, lá vai… e isso prova a vossa grandeza de alma!
O fidalgo pareceu surpreendido.
— Amaro, eu é que tenho de agradecer a vossa lembrança. Nunca vi em toda a minha vida tão lindo bolo com flores!
O jovem casal entreolhou-se. As lágrimas afloraram aos olhos de Marianinha, que exclamou emocionada:
— Deus é grande! Deus é bom!
Apertaram-se as mãos. Separaram-se amigos. Mas só Marianinha sabia ao certo quem oferecera aqueles bolos com ovos e flores, verdadeiro presente do Céu.
Na aldeia, a nova espalhou-se. A alegria foi geral. Chamaram ao bolo — folore. Com o rodar dos tempos, o folore veio a mudar-se em folar. E aí está como o povo explica a origem dos folares da Páscoa, cuja tradição mantém tão carinhosamente, como testemunho de boa e desinteressada amizade.
Fonte: MARQUES, Gentil. Lendas de Portugal. Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , .Volume IV, pp. 103-108
Com esta história, termino esta postagem, deixando a receita do folar. Que a páscoa lhes traga maravilhas pra suas vidas!
Folar de Páscoa
Para a massa:
250ml de leite morno
2 colheres (chá) de fermento biológico seco
1 ovo
110g de açúcar
570g de farinha
1 colher (café) de erva-doce em pó
1 colher (café) de canela em pó
100g de manteiga ou margarina amolecida
Para decorar:
ovos cozidos em casca de cebola
1 ovo (pincelar)
Preparo: Cozer os ovos em água com cascas castanhas e secas de cebola e sal. Escorrer e reservar. Na tigela colocar a margarina amolecida, o açúcar, o ovo e bater. Acrescentar a canela e a erva-doce, o fermento e o leite morno. Bater com a colher de pau ou na batedeira com a pinha. Juntar a farinha com a colher de pau ou na batedeira com os ganchos da massa. Deixar levedar, tapado com um pano e cobertor, sensivelmente 1h30 ou até duplicar de volume. Depois, separar um pedaço de massa equivalente a uma tangerina, para a decoração.Dividir a massa, para dois folares, ou tomá-la toda, para um só folar, e na pedra enfarinhada moldar uma bola com a massa do folar, enrolando os lados para baixo e para dentro, tornando a superfície lisa. Enfarinhar um tabuleiro forrado com papel vegetal ou tapete de silicone e moldar o folar. Com a mão fazer no centro as covas para os ovos. Colocar os ovos fazendo pressão para que se enterrem. Dividir a massa, que foi separada para decoração, em número igual ao dos ovos usados e fazer rolinhos em cada porção. Dividir cada rolo a meio e fazer uma cruz em cima de cada ovo. Com o dedo empurrar as extremidades dos rolos, como se estivéssemos a fazer um furo na massa. Pincelar com o ovo batido e deixar descansar 15min. enquanto o forno aquece. Levar ao forno pré-aquecido, a 180ºC durante 30-35min. Retirar e deixar arrefecer.
Olá amigos, espero que tudo esteja indo bem com vocês. Andei um pouco sumido... estava lendo, pesquisando, escrevendo artigos, estudando para provas, completamente atarefado... Mas também não deixei de ficar procurando por assuntos interessantes para postar aqui.
Observando meus colegas das aulas de coquetelaria e vinhos e de sala-bar comecei a me atentar quanto a presença do requinte à mesa (os tipos de serviços, as maneiras corretas do servir, o que servido e a beleza de sua apresentação, etc.)... com esta percepção meu cérebro me remeteu, automaticamente, para o mundo antigo, quando os deuses politeístas e os heróis ainda dominavam o mundo. Assim, veio da Grécia clássica o mote para esta postagem que trata sobre as heranças de Ganímedes e Ampelo.
A esta altura vocês já sabem da minha afeição pela mitologia – é que ela sempre conseguiu me explicar coisas que ninguém nunca conseguiu me dizer, E hoje é através da mitologia grega que eu registro como as características de um mito resistiram ao tempo até chegar á nossa mesa.
Apreciar uma boa comida e uma boa bebida é, definitivamente, uma arte. Embora todos sintam a necessidade de comer e beber nem todos o sabem fazer. E por si só, a comida e a bebida podem se tornar obras primas quando cuidadas com o esmero de técnicas e de ingredientes selecionados.
Para exemplificar a frase acima utilizarei o caso do vinho. Uma das bebidas mais antigas do mundo, que tornou-se melhor com o passar dos tempos devido o uso das novas tecnologia e da qualidade das vinhas.
A arte no preparo do vinho pode ser verificada na medida em que os produtores desta bebida perceberam os cuidados que deveriam ter desde o plantio das vinhas, passando pelo preparo do mosto até a fermentação e o engarrafamento – isso, sem falar nas formas corretas de armazenar a bebida. As vinícolas, os produtores de vinhas e os estudiosos do vinho foram além quando: notaram a importância da temperatura adequada para armazenar e servir a bebida; deram importância a forma correta de abrir a garrafa; fez com que a indústria desenvolvessem taças adequadas para servir os variados tipos de vinho; e até, escolher os alimentos para harmonizar com os vinhos .
Com os serviços de restauração e a presença de estudiosos da enologia disseminou-se a elegância do serviço de vinho. E, sabe-se que a abertura de uma garrafa é quase um ritual e não deve ser motivo para descuidos. Principalmente quando se trata de vinhos de qualidade superior – não só porque eles, geralmente, custam caro, mas porque exigem cuidados especiais...
As garrafas dos bons vinhos devem ser desenrolhadas cerca de 30 minutos a 1hora antes do consumo para que se produza uma oxidação benéfica para o seu paladar. O uso do decantador é imprescindível em caso de vinhos envelhecidos, para que os sedimentos da velha bebida não se depositem no fundo das taças, e para que o vinho seja aerado. Convém usar um saca-rolha de rosca ou espiral, munido de uma alavanca, para evitar sacudir o vinho.
Para servir, pede-se que as taças sejam incolores e suficientemente grandes para que se lhes possa imprimir um certo movimento de rotação, indispensável ao desprendimento do aroma, sem o perigo de o vinho sair. Devem de preferência ter pé e ser discretos para não desviarem excessivamente a atenção do vinho que contêm. Nunca devem ser completamente cheios, mas até cerca de dois terços. A altura de que é despejado o vinho no copo também é importante e varia conforme o seu tipo.
Não bastasse tudo isso, a escolha certa de um vinho que acompanha o alimento é decisiva. Uma escolha errada pode fazer um ótimo vinho virar uma porcaria. Na maioria das vezes as pessoas cometam o erro de escolher primeiro o alimento e só depois o vinho. Já os grandes apreciadores fazem o contrário - escolhem primeiro o vinho e só depois o alimento para acompanhá-lo...
É neste exato momento que surge o primeiro item das heranças a qual o texto se refere: o uso do ESCANÇÃO, para desempenhar o delicado papel da escolha e prova do vinho.
O escanção, hoje conhecido como Sommelier, é um profissional especializado, encarregado em conhecer os vinhos e de todos os assuntos relacionados ao serviço deste. Adicionalmente, cuida da compra, armazenamento e rotação de adegas e elabora cartas de vinho em restaurantes.
Na Antiguidade, o escanção era quem vertia o vinho nos copos dos convivas, nos banquetes. A sua origem perde-se na noite dos tempos, mas sabe-se que apenas os reis e outros soberanos tinham direito a esta mordomia. O serviço do escanção seguia a maneira que se descreve a seguir:
A prova do vinho começa algum tempo antes da refeição. É o escanção que aconselha e muitas das vezes escolhe o vinho para acompanhar os alimentos. Para a prova traz pendurado ao pescoço uma tambuladeira em prata, com a borda e o centro relevados à semelhança do fundo da garrafa, com a qual avalia a grossura do vinho, conforme ele corre ou barra o disco. Serve também para verificar a cor do vinho ou para se lhe apreciar o cheiro.
A prova olfativa é a primeira, seguida da prova gustativa. Após estas delicadas etapas feitas com gestos muito particulares e sem ingestão do vinho (é cuspido) o profissional enófilo pronunciará então o seu veredicto em discurso hermético sobre o aroma geral, a tonalidade, o aspecto, a limpidez, a natureza, a persistência... As preocupações sobre a produção do vinho e sua melhoria, citadas no anteriormente, podem parecer preocupações dos tempos modernos, mas na realidade tratam-se da essência das “heranças de Ganímedes”. São elas, além da presença fundamental do escanção: o bem servir; o servir o bem-bom; a etiqueta, beleza. Chega-se a esta conclusão através do que nos conta o mito
Na mitologia grega, Ganímedes era o Escanção dos Deuses, o Copeiro do Olimpo, e todo o ritual que usava na serventia do precioso néctar permaneceu incólume nos seus discípulos. Para homenagear o belo e jovem escanção, Ganímedes, foi transformado por Zeus na constelação de Aquário, o aguadeiro, o que rega o mundo com o seu saber.
Assim diz o mito:
Zeus tinha como animal de estimação uma linda águia. Esta ave, branca é imensa, era a mesma que levara ao deus dos deuses o néctar, durante sua perigosa infância, na ilha de Creta, quando vivia escondido do pai, Saturno, que comia os próprios filhos. Zeus, agora adulto e na condição suprema de deus dos deuses, casara-se com Hera e dela tivera uma filha chamada Hebe. Ela estava encarregada de servir o néctar aos deuses, durante os seus ociosos e felizes encontros.
Ganímedes e a águia, por Rubens
Hebe, considerada a encarnação da juventude, parecia não se incomodar com a humilhante tarefa, e era sempre sorrindo que derramava nas taças dos deuses o néctar que trazia em sua jarra. Mas um dia, Hebe, um tanto descuidada, resvalou em pleno salão do Olimpo e caiu com a jarra. Seu pai, Zeus, desgostou-se com o lamentável desempenho e demitiu-a no ato. A partir daquele instante, a corte celestial não tinha mais quem servisse os deuses, problema que, num lugar onde os problemas eram poucos, revestia-se de relevante importância. — Zeus, querido — disse um dia Hera ao seu esposo. — Se você não quer mais que nossa desastrada filha reassuma suas antigas funções, trate de arrumar alguém para tomar o seu lugar.
Hebe
— Você poderia exercê-las perfeitamente, querida Hera — disse Zeus. Hera nem se deu ao trabalho de responder, simplesmente deu-lhe as costas, seguida de seu pavão de estimação, que parecia também ofendido. Zeus, reclinando-se em seu trono, pensou um pouco. Depois, levantando-se, foi ate a janela espiar a Terra, sua distração principal. Observar os mortais era também um bom calmante, pois ao ver as loucuras e confusões nas quais eles viviam metidos, as apreensões do grande deus diminuíam. No exato instante em que Zeus deitou para baixo o seu olhar, ele caiu sobre um belo rapaz que passeava em meio a várias ovelhas, por um prado ameno e recoberto de fibras. Zeus inflamou-se de amor pelo jovem.
Era Ganimedes, filho do rei da Troada. Apesar de sua alta condição, era pastor, e neste instante guiava o seu rebanho o jovem trazia a cabeça um barrete frígio, tendo jogado displicentemente às costas um pequeno manto. Sua compleição física destacava-se em meio à brancura das ovelhas, o que logo atraiu Zeus. — Ora, vejam... Este belo rapaz dará aqui um ótimo serviçal! — disse o deus dos deuses, alisando as barbas. Assim, sem pensar em mais nada, o rei dos deuses decidiu simplesmente raptá-lo, levando o jovem para morar no Olimpo com os deuses.
Num instante, Zeus fez se transformou em águia, e desceu à Terra para capturar o belo rapaz! A ave estendeu suas imensas asas e arremessou-se ao abismo, como uma flecha recoberta de penas. Enquanto isto, Ganimedes, alheio a tudo, continuava a pastorear o seu rebanho. Como o sol estivesse um tanto forte, o rapaz decidiu sentar-se um pouco sobre uma pedra, a sombra de uma grande árvore. Puxou uma flauta rústica para distrair-se e acalmar as ovelhas.
Mas por entre as nuvens já pairava a imensa águia, atenta. Do alto observava o alvo rebanho, como outra nuvem que estivesse pousada ao chão. Quando percebeu que o inocente jovem estava inteiramente entregue a sua distração, destacou-se das nuvens e arremeteu com suas grandes garras expostas. Ganimedes, erguendo um pouco o olhar, percebeu que uma grande sombra ocultava por instantes a luz do sol. Antes que entendesse direito o que era aquilo, sentiu em seus ombros a pressão dolorida das garras da águia.
O jovem não teve tempo de ver o que o feria. Sentiu apenas que se elevava cada vez mais pelos ares, enquanto observava, atônito, as suas ovelhas diminuírem lá abaixo, até se tornarem somente um pontinho branco no imenso tapete verde do campo. O vento frio arrebatara seu manto ao mesmo tempo em que deixava em selvagem desalinho a sua cabeleira revolta. Mas à medida que subia, o calor do sol esquentava Ganimedes. Quando ficava quente demais, a ave agitava com mais força as suas asas, para aliviá-lo do calor. — O que quer de mim? — gritava o jovem a sua raptora. A águia, entretanto, permanecia em majestoso silêncio, ascendendo cada vez mais com sua presa para além das nuvens. Assim foram subindo, até que Ganimedes, por entre as brumas das regiões superiores, viu surgir afinal o palácio majestoso de Zeus... encantado com a aventura, foi possuindo por Zeus em pleno voo.
Zeus e Ganímedes
Em instantes o jovem, mudo de espanto, foi depositado diante do trono do pai dos deuses. — Meu caro jovem! — disse Zeus, com um ar de boas-vindas. — Saiba que a partir de hoje você passará a fazer parte de minha corte celestial. A esposa de Zeus, que também aguardava o jovem, mostrava-se bastante surpreendida com sua beleza, admitindo que seu marido fizera uma bela escolha. — O que querem de mim? — exclamou Ganimedes, que não sabia se ficava alegre diante dessa noticia ou se a lamentava. Afrodite, a bela deusa do amor, que também estava por ali, adiantou-se: — Permita, Zeus, que eu converse um pouco com ele — disse, entusiasmada. — Estou certa de que nos entenderemos as mil maravilhas.
Zeus assentiu, enquanto Afrodite, envolvendo com seu braço a cintura do jovem, conduziu-o até um recanto afastado nos jardins perfumados do Olimpo. Ganimedes, apesar de assustado com tudo, ficou fascinado com a beleza daquela deusa, que o tornava, assim, em seus braços, com a intimidade de uma velha amiga. — Você teve a honra de ser escolhido dentre os mortais para ser o novo servidor de Zeus e de todos os deuses — disse-lhe Afrodite, fazendo uma pausa na caminhada, com os olhos fitos em Ganimedes. O jovem podia sentir o calor da pele da deusa envolvê-lo como uma veste imaginária.
— A partir de agora você será um de nós, tendo também o dom divino da imortalidade. Agora, meu querido, vamos tratar destas pequenas feridas, caso contrário você não poderá vestir tão cedo o seu novo e elegante traje — completou a deusa. Afrodite levou, então, o seu hóspede para um dos aposentos do palácio de Zeus, onde soube consolá-lo, de maneira bastante eficiente, das suas saudades terrenas. Enquanto isso, Zeus, percebendo que o pai do jovem raptado ficara inconsolável com a perda do filho, decidiu recompensá-lo.
Já era noite estrelada quando o mensageiro de Zeus apresentou-se diante do infeliz rei e da sua esposa. Ambos mostravam-se inconformados com a perda do filho. — Rei poderoso! — disse-lhe Hermes, num tom solene. — Venho aqui, em nome de Zeus, para lhe comunicar que seu filho é agora um deus. — Ganimedes imortal. — exclamou o pobre rei, sem saber o que dizer. Sua esposa, que preferia seu filho humano, mas ao seu lado, perguntou, aflita: — Mas nunca mais veremos nosso amado Ganimedes? — Não, nunca mais — respondeu Mercúrio —, a não ser no céu, onde poderão enxergá-lo em noites claras como esta, sob a forma do zodíaco de Aquário. Em compensação, Zeus lhes manda estes dois magníficos presentes, que acalmarão em seus corações a aflição provocada por essa dolorosa perda. Hermes, com ar triunfal, descobriu, então, diante dos olhos do velho casal, uma magnífica
Depois disto Hermes foi enviado por Zeus a Tós e ofereceu-lhe uma parreira de ouro fabricada por Hefesto e dois cavalos como recompensa parreira de ouro, que esplendeu majestosamente na escuridão da noite. Depois fez surgir uma maravilhosa parelha de cavalos que, lançando-se pelo prado, pôs-se a correr ao redor deles, numa cavalgada mais veloz do que a do próprio vento. O rei e a rainha, no entanto, não viram nenhuma dessas maravilhas: abraçados, tinham os olhos postos no céu, a procura do filho.
Ganímedes torna-se assim no Deus-Herói da tomada de posse régia, protetor dos novos governantes e da sua transição. Para além disso, ele é também um Deus da homossexualidade e era até usado na Antiguidade como justificação para estes sentimentos.
Entre os seus símbolos encontramos o galo, que era usado como presente pelos amantes, um arco de brincar e a lira. Também era representado com um capacete Frígio, um pote de leiteiro, dando de comer ou beber a uma águia e, claro, uma taça da qual verte um líquido.
Escanção, Aquário, Aguadeiro e o Sommelier de hoje são nomes correlatos para o copeiro dos deuses. O zelador da água potável (em mitos mais antigos) se traduz num signo do zodíaco que já nasce com função social.
O Aguadeiro Celeste também é visto como um deus do amor homossexual – transgressor por natureza por romper com a lógica da procriação da espécie – assim como do amor do mais velho ao mais novo. Aquário é a afirmação da pulsão masculina, entre homens, para os homens, por causa dos homens. O feminino não se cria, afinal, Ganimedes liberta Zeus da obrigação da sua função procriadora; o relacionamento sem obrigações, sem contratos. Com Ganimedes, Zeus experimenta outro amor, além da natureza, além do corpo, além da genética, muito além da obrigação de fertilizar o mundo com o gen da divindade.
Aquário é o impulso civilizatório, a fecundação in vitro, a transição política – para o bem estar da comunidade e também a relação do menino com o homem já feito (observada na Grécia Antiga), a quebra da convenção hierárquica, social e familiar que tanto se atribui a Aquário. O Deus do Olimpo na forma de águia, uma ave de rapina, simboliza a visão de longo alcance.
“Houve uma vez em que o rei dos deuses se inflamou de amor/ pelo frígio Ganimedes, e teve a idéia de transformar-se em/uma coisa que outrora tanto lhe parecera mais bela do que ser/ Júpiter: uma ave. Mas, entre todas as aves, não se dignou de/ transformar-se senão naquela capaz de portar os raios, suas armas./ Dito e feito: batendo o ar com falsas penas, raptou da estirpe de Ilo/ o jovenzinho, que até hoje lhe enche os cálices e lhe serve/ o néctar, enfurecendo Juno.” (Ovídio, Metamorfoses, Livro X)
Para complementar esta história, existe um outro mito grego, associado ao serviço do aguadeiro celeste. Trata-se do mito de Ampelo, semelhante ao de Ganímedes, e que também pode ser considerando parte de suas heranças, pois é como se desse continuidade ao seu legado. Vejamos:
.Dionísio se apaixona perdidamente pelo jovem Ampelo. Mas a tragédia ronda e Ampelo e é morto por um touro. Os deuses se estremeceram ante o pranto de Dionísio. Então, eles decidem que o jovem "aquele que havia trazido as lágrimas ao Deus, também traria alegria ao universo"
Dionísio
Quando as uvas nascidas do corpo de Ampelos ficaram maduras, Dionísio separou os primeiros cachos, os apertou com doçura entre as mãos com um gesto que parecia conhecer desde sempre, e contemplou seus dedos manchados de vermelho. Em seguida, os lambeu.
Nem Athena com sua sóbria oliva, nem Deméter com o seu pão, tinham feito algo parecido ... Aquele licor era o que estava faltando na vida, era o que a vida esperava: a embriaguez desvendando mistérios, com toda as suas inspirações gozosas, alegres, um carnaval de sonhos estéreis.
Dionísio, o deus que não conhecia a tristeza, famoso por suas festas, invejado por seus casos amorosos mais famosos e traições e esquecimentos, um dia soube o que era lamentar aos prantos, pois sofreu na carne a dor de um amor perdido.
Fazia muito tempo desde a última vez que os deuses do Olimpo se reuniram em torno da grande mesa de malaquita, para contar suas histórias. Pois estavam sempre tão ocupado com suas “coisas”. Então Zeus, após consulta com a sua divina esposa Hera, convidou a todos para um banquete. Todos ficaram satisfeitos com o convite para o evento, e deixando suas diversões pessoais, foram imediatamente para o Olimpo.
Desta vez, o banquete foi presidido por Dionísio que não ocupou seu lugar habitual ao lado de Apolo. O grande copo de âmbar que cada um tinha, como de costume, em frente ao seu nome gravado em ouro tampouco estava recheado com a costumeira ambrosia. Neles se via um líquido de uma cor que parecia com o púrpura, um pouco mais escuro, que desprendia um odor pungente, penetrante que não tinha nada a ver com lós conhecidos. O mais ousados colocaram, timidamente, o dedo no líquido e provaram o sabor que resultou ser entre ácido e doce.
A estátua de Dionísio e Ampelos é uma escultura de vulto redondo realizada em mármore branco. Encontrou-se no Castro da Muradella, em Mourazos, no concelho de Verín (Galiza, Espanha). Datada no século III d.C., nos nossos dias conserva-se no Museu Arqueológico Provincial de Ourense O grupo escultórico representa duas figuras masculinas nuas. Acredita-se que representa uma cena na que um Dionísio ébrio é assistido pelo sátiro Ampelos (a videira), tema mitológico derivado de modelos helenísticos e muito difundido
A Dionísio - Baco, a figura de maior tamanho, falta-lhe a cabeça e o braço direito desde pouco mais abaixo do ombro. Seu contorno descreve um leve S,[1] transmitindo a sensação de um indolente abandono e que junto com um suave ritmo de linhas, o rascunho dos pectorais e o pequeno avultamento do órgão sexual enchem a figura de sensualidade. Descansa o corpo sobre a perna esquerda, apresentando a direita um pouco adiantada e ligeiramente flexionada, que quadril de acentuada curvatura. Apóia quase sem forças seu braço esquerdo no ombro esquerdo de Ampelos. Ampelos, ao mesmo tempo em que ergue a cabeça em atitude vigilante, cinge por detrás com o seu braço direito a Baco, apoiando sua mão aberta nas suas costas, procurando manter o equilíbrio do deus. Ambas as figuras conseguem a estabilidade apoiando-se num grosso tronco encostado à perna esquerda do deus, sobre o qual o sátiro é sentado em descarada pose. 1- Que lembra a atitude do Apollo Lykeios de Praxíteles.
Enquanto isso, Dionísio, curtindo e fazendo uso de todos os truques que ele conhecia, retardou o momento de explicar o que era aquele líquido novo que enchia as taças.
Seus olhos tinham um brilho estranho e às vezes não se entendia bem que ele estava falando. Todo mundo estava olhando em volta buscando por Ampelo que não aparecia em lugar algum, de modo que os comentários foram aumentando e tornou-se, pouco a pouco, em um tom mais alto.
Dionísio não parecia ter pressa para dar a explicação a qual todo mundo esperava, Zeus ordenou que ele terminasse com suas piadas e que dissesse o que era o que aquilo que estava sendo servido nas taças, alterando os costumes do Olimpo.
Queridas irmãs e irmãos, começou a Dionísio – segurando dissimuladamente à mesa - todos conheceis o amor que sinto por Ampelo. Sabeis que sou incapaz de dar dois passos sem ele. Minha casa nas margens do rio Pantolo, na Lídia, eu fiz especialmente para nós. Em seus jardins plantei todos os tipos de árvores exóticas, crescem ali as mais belas flores que podem ser encontradas. Lá, até mesmo Hera gosta de decorar seus salões com buquês de flores colhidas ali. Nas suas fontes, com milhares de sortidores, veem beber as aves mais bonitas.
Todos os tipos de animais selvagens vivem em completa harmonia, nos meus bosques e ficam mansos como cordeiros como Ampelo lhes chama. Os tigre, os leão, ronronam como os gatos quando meu querido e belo menino os monta como se fossem cavalos.
Também sabeis, porque eu lhes disse nesta sala, que não faz muito tempo eu tive um sonho horrível que me fez afastar durante um tempo dos meus deveres já que eu não conseguia pensar em nada, a não ser no seu significado. Neste sonho horrível, viu um repugnante dragão cornudo que levava em suas costas um terno e belo cabritinho, o qual jogou numas pedras que formam um altar, e ignorando seus balidos, chifrou-o várias vezes atpe mata-lo.
Seguindo o conselho de Atena consultei o Oráculo de Delfos, que me orientou sobre um sério perigo que corria Ampelo. Disse-me, com alguma apreensão para não despertar minha raiva, que um touro iria matar o meu menino bonito, Desde então o proibi de brincar com os esses animais.
Ampelo tinha o costume, como todos os meninos de sua idade, de banhar-se no rio e, em seguida, deita0va-se nu sobre a grama macia para secar ao sol. Ele costumava adormecer embalado pelo canto dos pássaros. Um dia, ao acordar, viu na margem do rio um touro que estava bebendo água. Curioso Ampelo chegou perto do animal que al ver tanta beleza baixou a cabeça e, como se fosse um cordeiro manso, deixou meu lindo menino lhe acariciar. Depois lhe empurrando gentilmente com o focinho, lhe convidou a montar.
Ampelo
Meu querido menino, feliz pela oportunidade que tive de andar em um animal tão magnífico, não se fez de rogado e deu inicio a um passeio pelo prado. Mas quando mais confiante estava, quando a felicidade era maior, im besouro veio a picar o touro que começou a correr rapidamente na tentativa de escapar da criatura que lhe molestava.
Em um dos saltos Ampelo caiu de mal jeito que ele quebrou o pescoço. Os chifres do touro em fúria repetidamente afundaram no corpo do meu terno amado. Quando cheguei ao prado encontrei o corpo inerte do meu bem amado que, ainda conservava a frescura quando ele corria ao meu encontro na floresta. Suas faces não tinham perdido a cor. Seus lábios, tão gulosos, que se mantiveram como a escarlata. Tudo nele era tão lindo que ele eclipsou o sol. Flores brancas que cresciam selvagem no prado, para serem manchada com seu sangue, transformaram-se em amapoulas. As gazelas delicadamente lambiam seu rosto tentando acordá-lo. Os silenos e as e ninfas choravam ao redor. Eu não sabia o que fazer.
Parecia uma eternidade. Morpheus me tomou em seus braços enquanto Eolo fez uma suave brisa para acariciar-me. Desta maneira entrei em um doce sono e tive a seguinte visão: Do corpo Ampelo nasceria uma planta esplendorosa, que daria umas frutas cuja cor lembraria as suas bochechas. Eu pegava um destes frutos, o comia, e sentia ao mesmo tempo uma alegria como eu nunca tive sentido antes. Naquele instante as lágrimas brotaram dos meus olhos.
Imediatamente acordei e no lugar em que anteriormente estava Ampelo agora havia crescido a planta que eu tinha visto em meus sonhos e que chamei videira.
Os Silenos correram atrás das Ninfas, gritando e rindo, levando em suas mãos copos cheios da bebida, este licor, que agora você tem em seus copos, e eu batizei de vinho.
Assim, Dionísio, o deus inconstante, o traiçoeiro, aprendeu a chorar, soube o que era a dor de amor perdido e Ampelo, a mais belo entre os belos, presenteou os mortais )e imortais) com a Vinha e a embriagues.
Depois de todas estas historias não podeia deixar de me fazer de Aguadeiro celeste, e oferecer a nova bebida dos deuses, seguindo os protocolos. Assim, para homenagear estas personagens mitológicas que tanto aprecio, bem como para ajudá-los a valorizar e servir o vinho com a comida adequada, separei alguns pratos e suas harmonizações, as quais estão sugeridas (clique aqui) : E como sugestão de receita, deixo uma que fizemos na aula de bases culinárias.
Vinhos que harmonizam com Saladas
Se houver limão ou aceto balsâmico, melhor para os vinhos brancos bem frescos e acídulos, como Sauvignon da Nova Zelândia, Loire e Bordeaux. Espumantes bem jovens, frescos e leves podem surpreender.
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Para harmonizar vinhos e Frutas Frescas
A textura e o sabor doce e ácido das frutas frescas são perfeitas com Moscatel espumante ou Moscato d’Asti. Evite outros tipos de vinhos doces que possuam mais de 12 graus de álcool.
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Vinho para Espaguete à Carbonara
Prato potente, com ovos, embutidos e especiarias. Melhor com vinho de sabor médio, de taninos moderados e boa acidez, com estágio em madeira, como os italianos da Toscana ou os Côtes du Rhône.
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Harmonização de vinhos com Molho de Tomate
Geralmente ácido, reduzido, com notas vegetais de temperos e ervas frescas, os vinhos precisam ser igualmente ácidos, como o Chianti, Bardolino, Valpolicella, Rosso di Montalcino e Barbera.
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. Vinhos ideais para Salmão, atum e peixes gordos de água doce
Peixe com alto teor de gordura boa e sabor marcante é ideal para tintos e brancos, desde que os tintos sejam leves e os brancos encorpados, como o Chardonnay, Pinot Noir, Valpolicella e o Beaujolais.
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Vinhos para harmonizar com Pizza
De queijo: boa com vinhos tintos leves e de médio corpo e brancos potentes. Portuguesa e de vegetais em geral: ideal com tintos leves ou brancos de médio corpo. Atum e de demais que levam peixes e frutos do mar: melhor o sabor que provém dos brancos leves e rosados. Calabresa e embutidos com requeijão: bons para os vinhos tintos.
E como a vida deve ter trilha sonora... Uma universidade na Escócia fez um estudo com 250 estudantes dando-lhes uma taça de vinho e perguntando a sua opinião sobre o vinho. A pegadinha é que enquanto o vinho era provado, os estudantes também escutavam música ambiente. A conclusão do estudo foi que a apreciação do vinho variava enormemente com o tipo de música tocado, devido a associações cognitivas.
Em resumo, se você quiser gostar do vinho que pretende tomar (independente da qualidade do vinho), toque a música certa. Eles até dão algumas sugestões. Enjoy!
Para tomar Cabernet Sauvignon: All Along The Watchtower (Jimi Hendrix), Honky Tonk Woman (Rolling Stones), Live And Let Die (Paul McCartney and Wings), Won't Get Fooled Again (The Who)
Para Chardonnay: Atomic (Blondie), Rock DJ (Robbie Williams), What's Love Got To Do With It (Tina Turner), Spinning Around (Kylie Minogue)
Syrah: Nessun Dorma (Puccini), Orinoco Flow (Enya), Chariots Of Fire (Vangelis), Canon (Johann Pachelbel)
E para beber Merlot: Sitting On The Dock Of The Bay (Otis Redding), Easy (Lionel Ritchie), Over The Rainbow (Eva Cassidy), Heartbeats (Jose Gonzalez)
TALHARIM A CARBORANA
Base para 10 pessoas
- 1 kilo de talharim fresco
- sal
- 2 litros de água para fervura
- 100 gr de manteiga
- 100 gr de farinha de trigo
- azeite
- 1 litro deleite
- 10 gemas
- 200 gr de bacon picado
- 200 gr queijo parmesão ralado fresco
Modo de preparo: Molho Carbonara: Faça um roux (derreta a manteiga e acrescente a farinha,formando uma pasta). Bata as gemas, quebrando-as, acrescente-as ao leite ainda frio. Paralelamente, frite o bacon picado. Leve o leite para ferver na mistura do roux, mexa sempre, quando ferver e engrossar, acerte o sal e acrescente o bacon e o parmesão. Pasta: leve a água para ferver, quando ferver acrescente um pouco de sal e um filete de óleo,ponha o talharim e deixe cozinha por 8 a 10 minutos, cuidado para não ficar “empapado/mole demais”, deve ficar macio ,porem firme,tipo “al dente” .Escorra a a pasta (NÃO LAVE A PASTA), coloque numa vasilha e misture com o carbonara.