segunda-feira, 9 de julho de 2012

Quem nunca comeu gelado, quando come queima a língua: o sorvete no Brasil.


E para aliviar este calor infernal, que tal um sorvete?
Qual o seu sabor preferido?  Eu gosto de todos os que tenham chocolate (risos). Embora eu também goste dos sorvetes com combinações exóticas, que hoje em dia as pessoas chamam de sorvetes gourmet.



Mas esse danadinho gelado e refrescante é um Matusalém... (Para quem não sabe, Matusalém é geralmente conhecido por ser o personagem mais longevo de toda a Bíblia, tendo vivido por 969 anos, sendo que o ano de sua morte coincidiria com a ocasião do dilúvio, embora isto não seja mencionado expressamente pela Bíblia, sendo apenas um cálculo aritmético considerando que o dilúvio ocorreu quando Noé tinha 600 anos. Matusalém tornou-se um jargão popular no Brasil para designar algo ou alguém muito velho. Daí a expressão "mais velho que Matusalém"). Pesquisas mostram que o sorvete foi inventado há cerca de 3 mil anos pelos chineses! 
No início, o "sorvete" era feito com neve, suco de fruta e mel - uma espécie de raspadinha de gelo. Outras pesquisas apontam o líder Alexandre, o Grande como o introdutor do sorvete na Europa e a sua "receitinha" era um pouco diferente da usada pelos chineses: uma mistura de salada de frutas embebida em mel e resfriada em potes de barro guardados na neve.



Mas foi em 1292 que o sorvete começou a tomar a forma daquele que conhecemos hoje, quando o famoso viajante italiano Marcopolo voltou ao seu País de uma viagem à China cheio de "novidades": o arroz, o macarrão e o sorvete feito com leite. A partir daí, o sorvete começou a ser muito consumido em toda a Itália e até hoje o sorvete italiano é reconhecido como um dos melhores do mundo. Por lá, em qualquer lugar pode-se encontrar uma gelateria, ou seja, uma sorveteria. Em italiano, sorvete se fala gelato. Na Itália, o consumo do sorvete espalhou-se por toda a Europa, até que os ingleses o levaram para os Estados Unidos. Lá, a história dos sorvetes ganhou importantes capítulos...
Nos EUA, país que mais faz e mais consome sorvetes no mundo, dois fatos importantes ocorreram para tornar este alimento ainda mais popular: em 1851, Jacob Fussel abre a primeira fábrica de sorvetes do mundo! Pela primeira vez, os ice creams são produzidos em muita quantidade.


Jacob Fussel
O segundo fato que mudou a história do sorvete foi a invenção da refrigeração mecânica, ou seja, das geladeira. Ainda bem, porque se não fosse essa grande invenção, pessoas que moram em lugares quentes, como os brasileiros, teriam que viajar para longe se quisessem apreciar um sorvetinho!

A Rainha e o  sorvete de Bacuri
Se Einstein queimou a boca, a rainha Elizabeth II refrescou o paladar em terras tupiniquins. Em visita ao Rio em 1968, também cumpriu uma longa lista de eventos oficiais. Pausa só para visitar a Confeitaria Colombo. Ficou encantada com o sorvete de bacuri, fruta exclusiva da Amazônia. “Ela gostou tanto que levou várias latas de polpa da fruta para a Inglaterra”, conta Orlando Duque, o garçom que atendeu a comitiva, hoje aos 72 anos.



Um pouco maior que uma laranja, doce e cheiroso, o bacuri já foi sobremesa dos grandes banquetes oficiais oferecidos pelo Brasil. Era a fruta preferida do Barão do Rio Branco, que acrescentou a compota ao cardápio do Itamaraty. Ele dizia que tinha “gosto de flor”.

Quem nunca comeu gelado, quando come queima a língua
Os primeiros sorvetes desembarcaram no Brasil na década de 1830. Mas não agradaram. Nossos ancestrais achavam que o alimento queimava a língua. Já o primeiro carregamento de gelo chegou quatro anos depois. Um italiano pediu autorização para produzir gelo com uma máquina pneumática. O primeiro requerimento foi negado pelo Império, por dizer sobre o “gosto sensual” do gelado. Só com o texto rescrito a autorização foi concedida.
O governador Diogo de Sousa fez sorvete de chuva em Porto Alegre. Aproveitando as geadas, comuns nos idos de 1812, cristalizou um sumo de frutas cítricas em pleno ar livre.

O sorvete no Brasil
Vem do Rio de Janeiro a notícia do primeiro sorvete vendido no Brasil. Um navio americano chamado Madagascar aportou na cidade em agosto de 1834 com 217 toneladas de gelo. Dois comerciantes cariocas compraram a carga e em 23 de agosto começaram a vender sorvetes de frutas aos cariocas. Naquela época, os sorvetes ainda eram chamados de "gelados" no Brasil.
Para que o gela não derretesse, ele era envolvido em serragem e enterrado em grandes covas. Assim, ele podia ser mantido por 4 a 5 meses!




Antes do sorvete, as mulheres eram proibidas de entrarem em bares, cafés, docerias, confeitarias... Mas quando o sorvete chegou ao nosso País, as mulheres não se conformaram mais com essa convenção e passaram a invadir estes lugares para saborearem os gelados.
Em São Paulo, a primeira notícia de sorvete que se tem registro é de um anúncio no jornal A Província de São Paulo de 04 de janeiro de 1978, que dizia: "Sorvetes - todos os dias às 15 horas, na Rua direita nº 14."


A primeira fábrica de sorvetes do Brasil foi a U.S. Markson do Brasil, fundada em 1941 no Rio de Janeiro.
Como naquela época não havia como conservar o sorvete depois de pronto, as sorveterias anunciavam a hora certa de tomá-lo, causando alvoroço na cidade. Até as mulheres, que então eram proibidas de entrar em bares, cafés e confeitarias, resolveram quebrar o protocolo e fizeram fila para experimentar a novidade.
O sorvete começou a ser distribuído em escala industrial no país em 1941, quando nos galpões alugadas da falida fábrica de sorvetes Gato Preto, no Rio de Janeiro, instalou-se a U.S. Harkson do Brasil, a primeira indústria brasileira de sorvete.  Seu primeiro lançamento em 1942 foi o Eski-bon, seguido pelo Chicabon. Dezoito anos depois, a Harkson mudou o seu nome para Kibon.
 Os anos se passaram e o sorvete caiu mesmo no gosto do brasileiro. Segundo a Associação Brasileira de Indústrias de Sorvete (ABIS), em 2006 tivemos um consumo de 507 milhões de litros. Mas, apesar do aumento do consumo, a taxa em torno de 2,7 litros por pessoa ao ano ainda é baixa, se comparada com outros países de clima frio ou com a Nova Zelândia, campeã da lista. Por lá a média ultrapassa 26 litros por habitante!
Para incentivar o consumo de sorvete o ano todo e não apenas no verão, a ABIS instituiu o dia 23 de setembro como o Dia Nacional de Sorvete. Se você é fã da guloseima, delicie-se, mas com moderação. Afinal, a maioria dos sorvetes contém alto índice de gordura saturada e hidrogenada. Dê preferência aos picolés de fruta ou a outros sorvetes sem gordura, que são muito mais saudáveis.

Curiosidades
·     No interior do Brasil, durante muito tempo, o sorvete foi ignorado. O sertanejo se recusava a tomá-lo por ser frio demais, suspeitando que desequilibrasse o calor interno.
·         O imperador do Brasil D. Pedro II era louco por sorvete de pitanga.
·    Não demorou muito para os sorvetes brasileiros ganharem um toque tropical, misturados a carambola, pitanga, jabuticaba, manga, caju e coco.
·         Até o século XIX, o sorvete era considerado alimento de gente rica. As damas da nobreza chegavam a brigar entre si (puxar o cabelo e sair na unha), porque uma roubava da outra o mestre sorveteiro.
·      O inventor da máquina de sorvetes foi o florentino Procópio Coltelli, que abriu em 1660 a primeira sorveteria de Paris (o Café Procope), ainda hoje o estabelecimento mais antigo da cidade.
·      Diz a lenda que Carlos I, da Inglaterra (marido da neta de Catarina), pagava uma pensão vitalícia a seu sorveteiro exclusivo, com a condição de que ele não revelasse a receita para ninguém. Seus sorvetes, em forma de ovo, tinham a casca de baunilha e a gema de framboesa.
·    Outra lenda famosa é a do imperador Nero de Roma, que, de tão louco pela iguaria, mandava um exército de escravos escalar até o alto das montanhas para colher neve e depois misturá-la com mel e frutas.

Maiores invenções com sorvete

·   Picolé - Foi inventado em 1905 por um menino de 11 anos chamado Frank Epperson, que esqueceu no quintal um copo de refresco com uma colher dentro durante uma noite de inverno. De manhã, ele notou que a bebida e a colher haviam congelado juntas.



·    Casquinha - A casquinha foi inventada por um vendedor de waffles de origem Síria, E. A. Hamwi, que, em 1904, teve a idéia de enrolar waffles em forma de cone. Mas por quê? Simples: o vendedor de sorvetes que dividia o carrinho com Hamwi cansou-se de ver seus copos e pratinhos sendo roubados pelos clientes.



·     Sabores tropicais - Os brasileiros criaram sorvetes e picolés de sabores tropicais como  maracujá, carambola, pitanga, jabuticaba, manga, caju e coco.



·         Sundae e Banana Split - inventados nos Estados Unidos, em 1890.



·         Ice Cream Soda - inventado em 1879, nos Estados Unidos, por Fred Sanders.



Sorvete Carioca ao Creme Andaluz

Em uma panela, junte 1 e meia xícara (chá) de leite, 4 cravos da Índia e 1 pau de canela. Cozinhe até ferver. Retire do fogo, acrescente 1 colher (café) de essência de baunilha, coe e deixe esfriar. Bata na batedeira 4 gemas e meia xícara (chá) de açúcar até obter um creme claro e fofo. Junte o leite frio e 1 embalagem de creme de leite (375g). Distribua o creme em tigelas refratárias, rasas, redondas com cerca de 10 cm de diâmetro. Coloque as tigelinhas numa assadeira em banho-maria e leve para assar em forno médio (180°C) por cerca de 1 hora ou até a superfície do creme ficar firme. Sirva 1 bola de sorvete sobre cada tigelinha de creme morno ou frio. Rendimento: 6 a 8 unidades


Tartelletes de Marzipã Recheadas de Sorvete de Morango regadas com
Calda de Chocolate

Marzipã:  Triture 2 xícaras (chá) de amêndoas cruas sem pele (300g) até obter uma farofa fina. Numa tigela, junte a farofa de amêndoas, ¾ xícara (chá) de açúcar de confeiteiro (110g), 1 clara ligeiramente batida e cerca de 1 colher (chá) de essência de amêndoas. Amasse bem até obter uma massa homogênea. Deixe a massa descansar por 30 minutos. Com o auxílio de um rolo, abra a massa bem fina e forre o fundo e as laterais de forminhas de fundo removível (com cerca de 10cm de diâmetro por 3 cm de altura cada). Leve ao forno médio (180ºC), preaquecido por cerca de 25 minutos ou até a massa ficar dourada. Retire do forno e deixe esfriar. Calda: Numa panela, misture 6 colheres (sopa) de água e meia xícara (chá) de creme de leite fresco. Junte 2 colheres (sopa) de manteiga sem sal (40g), meia xícara (chá) de açúcar e 3 colheres (sopa) de chocolate em pó. Misture bem.   Leve ao fogo brando e cozinhe até obter uma calda homogênea. Recheio: •  Recheie cada tartellete com 1 bola de Sorvete de Morango da Kibon. Regue com a calda quente e sirva em seguida. Rendimento: 8 porções
  
Sopa Doce com Sorvete de Maracujá

2 xícaras (chá) de leite
1 colher (sopa) de maisena
2 colheres (sopa) de açúcar
1 gema
meia colher (chá) de essência de baunilha
sorvete de maracujá;

Preparo:  Em uma panela, junte o leite, a maisena,  as colheres de açúcar e a gema. Misture bem e leve ao fogo brando, mexendo sempre até começar a encorpar. Retire do fogo, junte meia colher (chá) de essência de baunilha e espere esfriar.  Num prato fundo sirva 2 conchas pequenas da sopa e 1 bola de sorvete de Maracujá.

Fonte: REVISTA FOOD INGREDIENTS BRASIL  Nº 15 – 2010, p.50-53. Disponível em http://www.revista-fi.com/materias/159.pdf


terça-feira, 3 de julho de 2012

Os Segredos da Cozinha do Vaticano


Não sei se todo mundo pensa como eu mas, acredito que se você quer conhecer mais da história do  mundo um bom lugar para isso é o Vaticano. Lá, com suas bibliotecas abertas ao público e as “outras”, restritas aos “seletos”, se pode encontrar de tudo – tudo mesmo... É um lugar que pode levar o sujeito da loucura à graça em questão de tempo...
Quem gosta de história e arte tem no Vaticano um prato cheio para se deleitar. Não bastasse o deleite no sentido figurado, o Vaticano também é lugar de gastronomia. E este é o real motivo desta postagem, onde trago a indicação de um livro interessantíssimo: “Os segredos da cozinha do Vaticano” (Editora Planeta). Aproveito pra dedicar este post a uma amiga de longa data, que vem servindo ao Senhor como Freira – esta é para você Irmã Mônica Velozo.


Autora do livro mostrado acima, Eva Celada, chegou a afirmar que a obra foi a mais trabalhosa e complexa que ela já realizou em sua carreira como escritora gastronômica – a primeira dificuldade foi incluir vinte séculos de gastronomia. 
“A ideia surgiu como uma casualidade surpreendente, eu fui “tocada” por uma influência que não me atreveria a qualificar de “celestial”, mas isso nasceu depois de uma bela frase: “ Deus está até nos ensopados” de Santa Teresa de Jesus e que portanto não sei se por essa casualidade ou por “outras razões” fui levando a um bom porto apesar das numerosas dificuldades que tem esse livro”.
 Embora seja verdade que a gastronomia desses séculos foi uma evolução muito característica, também não tem a ver com o que comiam os primeiros Papas, incluídos em plena era patrística, sem Corte, com os do Renascimento, também denominados: “Rei dos Reis”; imaginam então as diferenças nas suas mesas.
Outra grande dificuldade que a autora encontrou para seguir adiante na construção do livro foi sem dúvida, o segredo excessivo com que o Vaticano afronta todo o doméstico que é considerado “de índole privado” até alguns limites realmente curiosos – e não há nada mais útil para um escritor, quando tem que incluir grandes períodos de tempos, que pouco a pouco ele encontre sua historia observando os hábitos domésticos.
Alguém pode se questionar sobre porque a autora não escreveu apenas sobre os tempos mais recentes da gastronomia do vaticano. Pensando talvez que seria mais comercial publicar sobre o que comia João Paulo II quando estava doente, ou quando recebia alguém em seu apartamento privado. Talvez as pessoas tenham curiosidade sobre os sorvetes que tomavam com frequência Benedicto XVI e de onde vinham, sobre como foi seu menu de coroação ou porque o Papa adora uma simples sopa de sêmola que normalmente toma a cada noite.


Porém a curiosidade vai sempre aumentando, e sempre se encontra alguém que quer ir além, que queira saber também que no distante século XIII na Corte de Roma se tomava lagosta trufada e que os deliciosos ovos beneditinos sobre leito de bacalhau era um capricho de Benedicto III, que ele mesmo sugeriu a receita; ou que o marzipã de água de rosas se fazia nas cozinhas vaticanas na Idade Média. Também penso que será de interesse para muitos descobrir que já no princípio do século XX se fazia cozinha “de autoria” no Vaticano e pratos considerados como grandes descobrimentos em nossos dias eram habituais em suas mesas, como as saladas de flores, as massas recheadas de angulas e cobertas com caviar, saborosamente apresentadas.
Há dezenas de curiosidades e surpresas que descobre o livro em relação a Gastronomia. Acontecimentos e sucessos tão reveladores de cada época e os seus protagonistas que escrevem uma História melhor que a Cristandade, mas não por ele menos interessante. Um exemplo: João Paulo II quando assistiu a um jantar em homenagem a sua Coroação, ao ver o menu disse com toda humildade: Não precisava se incomodar, pizza e pasta era suficiente.
É que por acaso o papa não sabia que a cozinha italiana oferece centenas de pratos saborosos a margem destes tão populares? A resposta, é que o Papa não era um grande gastrônomo, quando ia a Roma até ser eleito sumo Pontífice comia somente pizza e pasta, não visitava os restaurantes luxuosos. Ele gostava de comer também a sobremesa, adorava conversar depois de comer, depois que terminava a sobremesa, solicitava que fosse retirado tudo e que ficasse somente o café. Até o final de seus dias foi assim, privadamente ele comia uma simples comida polaca e somente quando vinha algum convidado ele colocava outros pratos que pra ele especialmente não gostava.


Quanto ao segredo do Vaticano, por sorte junto a postura oficial convive uma postura mais flexível que algumas pessoas do Vaticano assumem como produto próprio de mudança dos tempos, graças as quais o trabalho da autora, em ocasiões desanimada, não foi finalmente desesperado durante os meses que passou em Roma, coincidindo por acaso com a mudança de Papa em Abril de 2005. A autora chega até a agradecer à todos aqueles que lhe pediram para não mencionar certos detalhes...
Observa-se no livro que os papas da era clássica se utilizavam de uma culinária abaixo da influência do “Regimen Sanitatis”; os da Idade Média com sua gastronomia distinta, apenas nos cercavam de banquetes impressionantes pela quantidade de alimentos que apresentavam na mesa, quase como símbolo externo de seu status para o próprio consumo até o ponto de que a maior parte do alimento estava destinado aos serviços e as sobras era destinada aos fiéis que esperavam na porta.
O Renascimento encaminha ao florescimento do prazer terrenal, à sofisticação e incluía a ostentação mais preciosa, a comida já supõe um desfrute em si mesma, até o século XIX onde o alimento já sem necessidade de bulas nem limitações se adapta a necessidade do homem, buscando os Papas do século XXI satisfazer a seus convidados e cobrir suas próprias necessidades, mas já visto de uma nova forma: racionalidade e serenidade, porque comer o que deseja, pode significar até comer pouco.
A conhecida expressão “boccato di cardinali”, cujo sentido literal é “bocado do cardeal” continua significando: bocado delicioso, o que come o cardeal - que disso ele entende - é que é saboroso. A razão desta expressão é precisamente para evidenciar que a boa culinária vaticana pertence aos cardeais. Eles são os que melhor comem no Vaticano.
Durante mais de vinte séculos, a cozinha Vaticana foi excelsa e ainda tendo em conta as modas culinárias, no Vaticano se comia o melhor dos melhores. As principais características dessa cozinha que ficou até o momento (baseada principalmente na gastronomia de representação) são o consumo de deliciosas aves, os mais extraordinários peixes (agora alimento habitual dos cardeais e do Papa), mariscos em combinação com outros produtos como arroz e massas, embutidos e aperitivos (absolutamente valorizados em todas as épocas), tortas tanto doces como salgadas, estes últimos apresentados de mil formas, molhos feitos com verduras e que tem sido melhorados e preparados de formas deliciosas e uma grande variedade de salsas que contém na maioria das apresentações. A sorveteria (sorvetes) assim como a doçaria e o tratamento da fruta, são outros dos componentes característicos da cozinha, que hoje poderia denominar como a cozinha mediterrânea mais internacional e saborosa do mundo.
Através de quase trezentas páginas, maravilhosamente ilustradas por cerca de duzentas fotografias e gravuras, nas que já obtemos informação de centenas de pessoas e documentações de dezenas de livros, “Os segredos da cozinha do Vaticano” relata a vida cotidiana dos papas nas diferentes épocas, seu hábitos alimentícios, as peripécias gastronômicas de suas viagens e protocolo das suas comidas, anedotas e curiosidades de seus banquetes, sua intervenção nos assuntos domésticos…
Ali encontra-se cento e sessenta receitas de uso comum nas cozinhas vaticanas ao longo da História e, o mais importante, se constata na influência definitiva do Vaticano na forma de comer, da Cristandade durante séculos até nossos dias, criando hábitos como consumo de peixe, descartando outros como a ingestão de carne diária em favor dos legumes, recomendando o consumo moderado de vinho em detrimento de outras bebidas e favorecimento do consumo de frutas e verduras, por considerar simples e econômicas e também de fácil acesso para todos. Por fim, criando o que hoje conhecemos como DIETA MEDITERRÂNEA.
Vale muito a pena ler – segue abaixo algumas receitinhas made in vaticano, retiradas do livro.


segunda-feira, 2 de julho de 2012

Sacrilégios!!!

Quem acompanha esta Confraria já está cansado de saber da minha paixão pelos doces; do quão formiga sou... E se existem pecados em forma de doce, que realmente testam a gula de cada um, posso garantir que é na doçaria conventual que eles se encontram.

Doces Conventuais

Além de delicados os doces preparados nos conventos e mosteiros surgem carregados de simbologias. Prova disso são os nomes que batizam os doces: papos de anjo, suspiros de Braga, sopa dourada, barriga de freira, pudim abade de prisco, foguetes conventuais, madalenas do convento, doce de viúvas, ais, esquecidos, toucinho do céu, pastel de Belém, bolo do diabo, etc.
Designa-se por doçaria conventual os doces confeccionados nos conventos, caracterizados por serem, na sua maioria, compostos por grandes quantidades de açúcar e gemas de ovos.
A origem da doçaria conventual em Portugal terá origem no século XV. Terá sido neste período que o açúcar entrou na tradição gastronómica dos conventos. O principal adoçante até esta altura era o mel, sendo o açúcar um ingrediente vulgar. Com a colonização da Ilha da Madeira, o açúcar recebe uma atenção especial, sendo cultivada a cana de açúcar.
E pensando  nos “pecados” criados pela doçaria conventual encontrei um doce, preparado em uma feira gastronômica brasileira conhecida como Nordeste Gourmet (clique aqui para ver), a chef Roberta Sudbrack, em sua aula sobre de Cozinha Moderna Brasileira, a presentou sua receita SACRILÉGIO, utilizando o  licuri, produto nativo da região do Piemonte da Diamantina e produzido pela Cooperativa de Produção da Região do Piemonte da Diamantina (Coopes).

Licuri

Palmeira de Licuri
O licurizeiro é uma palmeira de aproximadamente 12 metros de altura. Os cachos são formados por mais de 1.400 frutos cada um. Potencialmente, uma palmeira pode produzir oito cachos de cada vez. São 10.853 coquinhos em média! As amêndoas são muito ricas em ferro, cálcio, cobre, magnésio, zinco, manganês, sais minerais e betacaroteno. (a receita vocês conferem no fim do  texto – como de costume).

Chef Roberta Sudbrack
Só resolvi postar os Sacrilégios, criado pela Chef Roberta Sudbrack para apresentar que o doce realmente inspira sacrilégios na vida real. Isso  mesmo, e vem da Europa o exemplo – ou o  mau exemplo (risos).
Arquidiocese de Sevilla (Espanha) deplorou a publicação de um calendário da empresa alemã de chocolates e biscoito Lambertz que inclui uma fotografia tomada dentro de uma famosa capela sevilhana na que a atriz Paz Vega aparece nua em um genuflexório.


Vejam só: A atriz aparece nua, num genuflexório, dentro da Capela Sevilhana. Não caríssimos, não se trata de uma cópia da capela. A equipe de gravação entrou na capela com todos os seus aparatos técnicos, a atriz entrou na capela, tirou a roupa dentro da capela, fez as fotos pelada dentro da capela e ninguém fez nada!
A firma alemã Lambertz (clique aqui para ver )contratou a conhecida atriz para seu calendário de 2012. Um dos locais escolhidos pelos produtores foi a capela Nossa Senhora da Encarnação, onde obtiveram a permissão da Irmandade da capela sem informar sobre as intenções de que a atriz se despisse. O Arcebispado sevilhano assinala em um comunicado deste 15 de dezembro que a Irmandade de Nossa Senhora da Encarnação autorizou as imagens, “sem conhecimento nem consulta prévia do Arcebispado, como teria sido conveniente”.
O Código de Direito Canônico quando fala do zelo sobre as Igrejas, estabelece que deve-se evitar algo que não esteja em consonância com a santidade do lugar. Ainda que não haja sacrário o zelo pelo templo deve existir. Não é porque não tem sacrário que a Igreja pode virar bagunça. E acontecimento ocorrido ali foi considerado um grande sacrilégio mundo a fora!
Voltando ao assunto da atriz pelada dentro da Capela, o Bispo local emitiu um comunicado dizendo que não fora consultado e que: “São objeto desta proibição aqueles atos contrários à natureza eclesiástica do lugar, como é o caso de concertos de música profana, ou reportagens fotográficas como o que aconteceu”. Ainda usando o Código de direito canônico o bispo afirmou:
O Código de Direito Canônico estabelece ademais que “em um lugar sagrado só pode ser admitido aquilo que favorece o exercício e o fomento do culto, da piedade e da religião, e fica proibido o que não esteja em consonância com a santidade do lugar”.
Fica o recado: A casa de Deus não é casa da Mãe Joana. E se for pra cometer sacrilégio, é melhor fazer os na forma de doce – é de comer rezando. 

Sacrilégio - Para 8 pessoas
4 folhas de massa brick ou Harumake redondo
Chocolate amargo 60%
Licuri
Manteiga derretida
Sal negro
Ingredientes para a calda toffee:
300 ml de creme de leite fresco
100 g de açúcar
3 colheres (sopa) de água

Modo de preparo: Torre licuri em forno pré-aquecido a 140ºc por aproximadamente 4 horas ou até que esteja dourado e crocante. Corte em pequenos pedaços com a faca. Corte a massa brick ou Harumake e pincele manteiga derretida por dentro. Disponha o chocolate amargo e o licuri no centro da massa. Enrole a massa no formato de um cilindro. Passe manteiga por fora e asse em forno pré-aquecido a aproximadamente 180º ou até estar crocante e dourado. *Se estiver utilizando o harumake pincele uma quantidade maior de manteiga por fora para que a massa fique crocante e dourada depois de assada. Calda toffee: Aqueça o creme de leite fresco. Coloque o açúcar e a água em uma panela e leve ao fogo até adquirir cor de caramelo. Acrescente aos poucos o creme de leite e cozinhe em fogo moderado até atingir uma consistência cremosa. Junte o sal negro e reserve. Montagem: Sirva o sacrilégio quente com a calda toffee morna em uma taça de Martini ou xícara de chá.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Até Einstein comia vatapá...


Ponto de Baiano

Ó SALVE OS SANTOS DA BAHIA
Ó SALVE A MESA DE XANGÔ!
JUNTO COM SEU PATUÁ
NÃO HÁ MESA NA BAHIA
QUE NÃO TENHA VATAPÁ!
NÃO HÁ SANTO BEM SEGURO
QUE NÃO TENHA PATUÁ!


Quando eu comi vatapá pela primeira vez? Não sei precisar a data. Eu ainda era criança, mas me recordo o nome da feitora: Fátima do Sarafim – uma amiga de minha Tia Márcia. Lembro-me dos comentários que só a Fátima fazia um bom vatapá.
Acontece é que o vatapá da Fátima era o vatapá à cearense, feito com frango, em seu caldo temperado onde se acrescentava pão dormido amolecido com leite, para dar a liga, e molho das melhores pimentas para dar aquele "esquenta" no céu da boca.
À medida que o tempo foi passado, eu conheci o verdadeiro vatapá baiano, exótico e singular. É como diria Gregório de Matos: “O vatapá é o Brasil em forma de comida”. Ao contrario do que pensa a maioria das pessoas, o vatapá é legitimamente brasileiro. Tem na sua composição o reflexo do povo brasileiro, seus ingredientes apresentam cultivos indígenas e outros trazidos pelos europeus e africanos.
A lista de ingredientes do  vatapá baiano é diversificada: peixes, pão, fubá, farinha de mandioca, azeite de dendê, leite de coco, castanha de caju, amendoim, camarão, coco, gengibre, cebola, pimenta, coentro, etc. Na África o leite de coco não possui o prestígio que usufrui no Brasil. E apenas em Angola, alguns pratos se aproximam do vatapá, o muambo de galinha e o quitande de peixe. No entanto a receita foi evoluindo, ganhou adição de novos componentes e substituiu outros.

O vatapá é um dos recheios do acarajé.
A fama do vatapá vai longe. Dizem os historiadores da vida de Virgulino Lampião, que por superstição, ele não comia vatapá. E que por ordem de Lampião, ninguém do bando podia comer vatapá. Mereceu até receita-canção de Dorival Caymmi: Quem quiser vatapá, ô / Que procure fazer / Primeiro o fubá / Depois o dendê / Procure uma nêga baiana, ô / Que saiba mexer…
Muitos ainda sugerem a origem Yorubá, do vatapá. Mas esta versão foi desmentida por Câmara Cascudo, grande antropólogo e historiador nordestino, que durante uma viagem à África, descobriu que ninguém sequer sabia o que significava essa palavra. E mais, alguns dos alimentos que aqui reconhecemos como africanos, lá são reconhecidos como brasileiros. Assim é com o Vatapá, que o antropólogo afirma ser de origem Tupi. Porém não se encontrou o significado tupi para o vatapá.
Brasil sempre conquista os turistas com alguma particularidade, e nossas iguarias já levaram ilustres personagens ao deleite – quiçá ao pecado da gula. Foi justamente o vatapá a iguaria que agradou um dos maiores gênios da humanidade: Einstein.


Manchete de matéria no O Jornal - 12 de maio de 1925.
Extraída de: MOREIRA, I.C. e VIDEIRA, A.A.P.(Org.) Einstein e o Brasil. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1995.

Einstein comeu, ontem, vatapá com pimenta. A manchete é de O Jornal de 12 de maio de 1925. Albert Einstein estava no Brasil, e em meio a maratonas sem fim de homenagens, passeios e conferências – que ele achava um tanto chatas, diga-se de passagem. Num almoço, resolveram oferecer vatapá ao alemão. Com um aviso: “Cuidado com a pimenta”. Einstein, porém, não mediu a mão com o tempero. Queimou a língua e começou a suar. Educado, disse que apreciou o quitute, enquanto comia salada de folhas para aliviar o calor. Anotou em seu diário de viagem: “Visita ao manicômio, cujo diretor é mulato e uma pessoa especialmente virtuosa. Com ele, almoço brasileiro com muita pimenta”.
E se você ficou com água na boca, querendo  sentir a pimenta do vatapá queimando sua língua também, aqui  deixo duas receitas "simples" de vatapá baiano e uma de vatapá cearense.

Vatapá baiano
01kg-pão cortado em rodelas grossas
02-colheres de sopa de óleo de girassol
01-cebola grande picada
02-dentes de alho amassados
01-pimentão verde picado
01-tomate sem sementes picado
1/2kg-camarões salgados e escaldados para tirar o excesso de sal
sal a gosto (se precisar)
01-maço de cheiro-verde completo picado
01-garrafa média de leite de coco
azeite de dendê e pimenta-murupi a gosto

Preparo Coloque o pão de molho com água suficiente para cobri-lo. Deixe descansar o tempo suficiente somente para amolecer. Esprema bem o pão e amasse-o com as mãos, ou passe-o no liquidificador, ligeiramente. Reserve. Em uma panela grande, coloque o óleo e deixe aquecer. Junte a cebola, o alho e refogue rapidamente. Junte os tomates e os pimentões. Tempere com pimenta e junte cheiro-verde. Mexa bem por alguns minutos. Junte a massa de pão e misture. Acrescente o leite de coco, misturando a cada adição e logo em seguida junte os camarões. Junte o azeite-de-dendê aos poucos. Misture bem . Amasse bem a pimenta-murupi em um pires com uma ou duas colheres de sopa de água e junte somente essa água à panela de vatapá (sem as pimentas). Deixe ferver até que comece a formar uma leve crosta no fundo da panela. Retire e sirva quente.

Vatapá baiano II
1 peixe de 2,5kg cortado em postas
1 cebola grande cortada em rodelas
4 tomates sem casca, em rodelas
5 colheres de coentro picado
4 colheres sopa de azeite de dendê
200g de camarão seco defumado, torrado e descascado
1 xícara de castanha de caju
1 xícara de amendoim torrado e descascado
1 pedaço de 7cm de gengibre
2 pães de fôrma sem casca
2 xícaras de leite de coco
4 xícaras de água
sal e pimenta-do-reino a gosto

Preparo Tempere o peixe com sal e pimenta. Arrume as postas numa panela fazendo camadas alternadas de cebola, tomate e coentro. Molhe com suco de limão. Acrescente o azeite-de-dendê por cima, tampe a panela e leve ao fogo. Cozinhe até que o peixe esteja macio. Retire o peixe dos temperos do caldo. Tire as espinhas e reserve o peixe. Passe os temperos de cozimento do peixe pelo liquidificador junto com o caldo, o camarão seco, a castanha de caju o amendoim e o gengibre. Reserve. Numa vasilha grande, coloque todas as fatias de pão, junte o leite de côco e amasse bem. Acrescente a água e mexa. Junte os temperos moídos e coloque tudo numa panela. Acrescente ½ xícara de azeite-de-dendê e leve ao fogo para cozinhar, mexendo com uma colher de pau. Deixe ferver por 15 minutos, mexendo até obter um creme brilhante. Acrescente os pedaços de peixe reservados e misture. Sirva quente.

Vatapá Cearense
10 pães cariocas/francês secos
1,5 litros de leite de vaca
1 peito de frango (cerca de 600 g)
2 tabletes de caldo de galinha
1 pimentão verde
2 maços de coentro
2 cebolas médias
1/2 (meio) vidro de azeite de dendê
1 lata pequena de milho verde
Pimenta e sal a gosto

Preparo Temos que primeiramente colocar os pães de molho no leite para umedecer; estando úmidos e desmanchando coloque uma das cebolas cortada grosseiramente na mistura de leite com pão e misture bem. Em seguida faça o mesmo com o coentro; Coloque um pouco de sal na mistura. Enquanto o leite e o pão ganham o sabor da cebola com o coentro, coloque o peito para cozinhar em pedaços junto com os 2 tabletes de caldo de galinha; Depois de cozido coloque-os para esfriar e reserve o caldo. Depois de frio desfie-o grosseiramente, porque se ficar muito fino você não consegue sentir o frango na hora de comer; No liquidificador coloque a mistura do pão e bata até ficar bem homogênea, bem misturada, faça isso com toda mistura e reserve. No fogão coloque uma panela de tamanho médio, que você veja que vai caber tudo e sobrar um pouquinho de espaço para que você possa ficar mexendo sem problemas. Na panela coloque o dendê, a outra cebola e o pimentão picadinhos e deixe dourar. Depois de dourada cebola coloque todo peito do frango que já foi desfiado e misture bem, deixe o frango ficar bem da cor de dendê, feito isso coloque o caldo, uns 400 ml que havíamos reservado, no frango e deixe pegar o sabor por uns 10 minutos. Feito isso coloque a mistura de pão que já foi passada no liquidificador e fique mexendo bem para que o pão não grude no fundo da panela, isso por uns 30 minutos, quando você perceber que está cozido o pão fica bem grosso e borbulhando, se você achar que não está grosso como você quer coloque uma colher de farinha de trigo num copo de 180ml de leite e coloque na mistura . Quando estiver bem grosso coloque o milho verde e corrija o sal e misture por mais uns 3 minutos Desligue o fogo e coloque a pimenta, a gosto.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Os pirulitos de Dona Canô e as lembranças de minha infância...


Quando eu era criança, na cidade serrana de Guaraciaba do Norte, ( terra da atual Miss Ceará Milena Ferrer) onde morei boa parte da minha vida, sempre me deparei com guloseimas das mais variadas formas.
Lembro-me bem de tantas coisas gostosas que eu  comia, especialmente daqueles salgadinhos maravilhosos, que meu avô trazia da feira em sacos enormes - Eram simples, uma espécie de mini pastéis sem recheio, mas eu adorava; outra coisa deliciosa que ainda me recordo e me faz salivar até hoje,  e que se duvidar eu ainda consigo até sentir o cheiro no ar, são aqueles inesquecíveis sonhos portugueses (filhós no ferro – já postei a receita Clique aqui para ler) do meu aniversário de 3 anos.

Olha eu aí, usando suspensórios, no meu aniversário de 3 anos - o inicio das minhas memórias gustativas  (eu sempre achei que esta réplica da Monalisa me encarava - risos).
Nas épocas de festividades como festas juninas e a festa da padroeira da cidade – Nossa Senhora dos Prazeres (comemorada de 5 a 15 de agosto)., Guaraciaba parecia desencavar as receitas de família, que eram preparadas com esmero sendo levadas para serem vendidas nas barracas juninas ou nas da festa da padroeira e nos leiloes da igreja. 


Igreja matriz de Nossa Senhora dos Prazeres - Gba. do Norte - CE,
Pensando bem era justamente nestas duas épocas do ano que se poderia encontrar por lá os pirulitos “de papel” – era assim que a gente chamava eles naquela época. Na realidade tratava-se de pirulitos simples feitos de calda de açúcar que poderiam ser temperados com alguma essência e coloridos – para isso, naquela época se usava os sucos em pó, sobretudo o Q-Suco muito famoso na década de oitenta – e eram colocados pra secar em cones de papel oficio com um palito no centro.

Os pirulitos de mel
Vez por outra eu comprava desses pirulitos. E só não comprava  mais porque ele tinha defeitos:
Grudavam nos dentes – e eu ficava louco com isso, enfiava  a mão na boca a toda hora pra puxar o doce;
Por ser feito de açúcar, ganhava a forma de uma bala puxa-puxa ou endurecia e ficava difícil arrancar o papel – as vezes se chupava o pirulito com pedacinhos de papel por que eles teimava em não sair completamente;
E melava fácil – hoje sei o motivo disso, é que quem preparava os pirulitos não usava papel vegetal para fazer os conezinhos, e isso facilitava a meladeira de açúcar derretido.
Hoje quando me recordo daquele tempo dou boas gargalhadas. Dai eu  fuçando uns livros acabei encontrando a recita dos benditos pirulitinhos – que aproveito para passar para vocês com a indicação do livro no qual que a  encontrei sobre a culinária da matriarca dos Vellosos – Dona Canô.


O Sal É Um Dom: Receitas de Mãe Cano por Mabel Velloso,  Editora Nova Fronteira – 127 páginas, 2008
As receitas do recôncavo  baiano por Dona Canô

Nascida Claudionor Vianna Telles Velloso, a Dona Canô, respira esperança e mantém o olhar meigo mais vivo que nunca. Nasceu em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, teve oito filhos, entre eles os famosos Caetano Veloso e Maria Bethânia. Seenhora sempre muito prestigiada pelo povo  baiano, Dona Canô sempre buscou fortificar suas raízes e exaltar o amor por sua terra, seus filhos e sua cultura.

Dona Canô
Foi pensando no exemplo da mãe que Mabel Velloso, uma das filhas, resolveu escrever o livro O Sal é um Dom – receitas de mãe Canô, cujo foco é preservar o legado da matriarca através das memorias gustativas, trazendo ao longo do livro as receitas de um legado culinário-afetivo.
 As páginas revelam a bases de sua cozinha: a fartura – por la sobrar comdia é sinald e desfeita;  carnes bem temperadas - “Nas carnes, sempre, hortelã, folha de louro, cebola, pimenta-do-reino e cominho”, escreve Mabel; os mimos culinários para receber os filhos -   “Caetano, quando chega, come bem devagar, saboreando a moqueca de tainha. A frigideira de maturi é quase sobremesa”; compoteiras sempre cheias de doces de frutas da estação. Sem falar numa invenção simples que adoçou a infância dos filhos e faz a alegria de netos e bisnetos: os pirulitos de mel de Dona Canô.
O Sal É Um Dom mostra  a comida quase como um membro da família Velloso. Nelse encontra patos de festa e para o dia-a-dia. Trazem ainda  as raízes da comida do recôncavo baiano – embora muitos deles possam er encontrados em qualquer outra mesa.
O livro mostra que comida pra ser boa tem que ser gostosa e não difícil. Traz receitas intercaladas com fotos e textos, onde se tira a conclusão que levou ao titulo do escrito:
Certa vez quando Dona Canô foi indagada por causa de uma receita, falou todos os ingredientes até que fora questionada sobre a quantidade de sal no que respondeu com o título do livro – o sal é um dom.  assim sendo, quem vai discordar da sábia senhora que já passou dos cem anos?

Pirulitos de mel - Receita extraída do livro O Sal é um Dom 
Ingredientes
2 xícaras de açúcar
Água que baste para cobrir o açúcar
1 colher de vinagre
1 colher de mel de abelha

Modo de preparo Prepare a calda, colocando a água, o vinagre – para não açucarar – e o mel e deixe ferver até dar ponto de fio. Despeje a calda nos canudinhos de papel manteiga, preparados com antecedência. Se quiser fazer o pirulito com outro sabor, em vez de mel, coloque queijo ralado, ou gengibre, ou calda da fruta que desejar, ou amendoim torrado e moído, ou, ainda, chocolate.

Obs.: Para fazer o canudinho, corte a folha do papel manteiga em quadrados de mais ou menos 10 centímetros, enrolando-os na diagonal. Para os canudos ficarem abertos, esperando a calda, acomode-os numa vasilha com farinha. Despeje a calda nos canudos e, antes de endurecer, coloque os palitos.

sábado, 16 de junho de 2012

Le Marron Glacé: nome francês para um doce italiano.


Caríssimos Confrades tudo bem? Espero que sim.
Estava aqui relendo um material sobre os hábitos alimentares da Família Imperial Brasileira, que foi me enviado pelo arquivo histórico do Museu Imperial, a meu pedido para fundamentar uns artigos científicos que estou escrevendo visando publicações futuras.
Aproveito esta oportunidade para agradecer especialmente à Fátima Argon, que realizou o levantamento preliminar das comidas e bebidas do século XIX, a partir da Família Imperial do Brasil, cuja pesquisa contou com a colaboração de Átila Beppler Meirelles, Fernanda Moutinho de Almeida e Mônica Salem de Zayas. Meus sinceros agradecimentos a vocês.
No conteúdo do  material recebido achei muita coisa interessante e ao longo do tempo  vou dividindo estas curiosidades com vocês.... E começarei isso hoje, revelando uma peculiaridade gastronômica da princesa Isabel... o fascínio da princesa pelos doces.

Trechos extraídos da obra de Guilherme Auler A Princesa e Petrópolis:


Comentários da princesa Isabel sobre a festa de aniversário sua mãe, a Imperatriz Dona Teresa Cristina: [...] “Ontem me diverti muito e também dancei muito. Vou lhes contar o que fiz: primeiro, toquei de quatro mãos com a Mana, dancei a Favorita, a Polca, a valsa lisa e a valsa pulada, o schottish, a varsoviana, duas contra-danças, os lanceiros a galope figurado, tomei sorvete, bebi meia xícara de chá com pão-de-ló [...]

Na quaresma de 1858 ela confidencia: “Hoje fiz uma verdadeira penitência; como não me deram senão peixe de lata, que não gosto nada, não comi senão arroz de manteiga e batatas”.

“Eu lhe mando estes marrons-glacês para Mamãe, posto que Papai não gosta de castanhas”.

No verão de Petrópolis, em 1860: “Acabo de tomar sorvete; desejava que Papai estivesse aqui para tomar conosco”.

No dia 28/03/1860: “Não vão os figos, porque não se puderam achar em Petrópolis”.

Ao longo dos meus estudos o doce sempre se fez muito presente, principalmente, pelo fato do Brasil já ter sido um “Açúcarocracia”. Em função disso o nordeste brasileiro até hoje exibe sua doçaria com orgulho e revela um potencial nato para a fabricação de doces.
Porém é sabido que o povo brasileiro comemora muitas datas especiais com simbologia importada - principalmente vindas da Europa. Não se pode negar este fato, e bata-se olhar para as nossas mesas, que as preparações iram nos denunciar.
Para exemplificar a afirmação anterior, irei falar sobre um dos doces citado nas frases da princesa Isabel, em suas cartas á parentes: o Marrom Glacê.

Marrom Glacê
Este doce, é uma já foi uma sobremesa muito cogitada em outras épocas, por ser cara e rara de se encontrar uma bem feita. Se pudesse lhe comparar seu sabor com algum doce típico brasileiro este seria semelhante ao doce de batata doce. 
Contudo o marrom glace é mais refinado e delicado, preparado a partir das castanhas europeias inteiras. O doce tem nome francês, a escrita original é Marron Glacé, e apesar do nome francês, ele surgiu na Itália.
Acredita-se que o Império Romano já preparava sobremesas semelhantes, onde as castanhas eram cozidas e mergulhadas numa ânfora abundante em mel. Tal doce romano fazia o deleite da bela Amarílis, personagem cantada nas Bucólicas, primeira obra importante do poeta latino Virgílio, entre os séculos 42 e 39 a. C.
Entretanto a receita contemporânea teria surgido em Turim, no fim do século XVI, na corte dos Savoia, antiga e poderosa família feudal do norte do país. A ela pertencia Vittorio Emanuele II, o rei que unificou a Itália em 1861.

Mas se o marrom glacê nasceu em terras italianas por que batizá-lo com um nome francês?  

Em italiano, o doce deveria chamar-se de marrone candito, mas os Savoia julgavam mais elegante falar francês. E assim, o resultado final para batizar o doce, que surgiu por acaso – quando um cozinheiro distraído, que trabalhava para o duque Carlo Emanuele I de Savoia (1562-1630), cozinhou na calda, em vez de água, as castanhas destinadas ao recheio de um javali.
A história nos conta que a cidade italiana deTurim comprava açúcar de Veneza, também ao norte da Itália, e por muito tempo conservou seu monopólio na Europa. Ao ser incorporado pelos confeiteiros da corte de Luís XIV (1651-1715), o marrom glacê adotou a cidadania francesa. 
Posteriormente, a receita foi aperfeiçoada na Ardèche, pequena região do sudeste do país, com fama de produzir as melhores castanhas. Assim a França difundiu o doce no mundo.
A técnica contemporânea de preparo do doce começa com uma rígida seleção das castanhas - somente as maiores, perfeitas e macias - cerca de 20% - se transformarão em doce. Depois de descascadas as castanhas são envolvidas em véu de tule para serem, em seguida, cozidas na água quente por tempo preciso. Posteriormente, eliminam-se as que não resistiram ao calor e quebraram. O passo seguinte consiste em colocar as castanhas numa grelha, onde recebem um banho de xarope de açúcar.  Depois de alguns instantes no forno, o preparo termina.


Os marrons glacês são acondicionados individualmente em papel alumínio e colocados em embalagem de papelão ou vidro. Uma variação do doce é apresentá-lo macerado em calda, licor, rum ou cerveja. Existe também o creme de marrons (geleia com açúcar), o purê de castanhas (o mesmo produto, sem açúcar) e a conserva de castanhas em pedaços.
Não existe relação entre o marrom glacê e o doce homônimo brasileiro, à base de batata-doce, xarope de glicose, espessante e acidulante. Pode até ser bom e ter qualidade. Mas é marrom glacê tão falso quanto uma nota de três reais.

As castanhas europeias (portuguesas)

Castanheira
A castanha é o fruto de uma árvore de origem asiática, do gênero Castanea. Foi levada para a Líbia e dali se alastrou pela bacia do Mediterrâneo. Hoje, encontra-se do norte da África à Dinamarca, dos Estados Unidos ao Brasil. Alcança de 20 a 30 metros de altura e passa a dar frutos aos 25 anos. No início, cada pé fornece de 15 a 20 quilos anuais de castanhas. Aos 50 anos, a produção sobe para 80 a 110 quilos.


No sul da Itália, perto do Etna, o maior vulcão europeu, existe uma castanheira com 400 anos de idade. Isso lhe confere o status árvore longeva. O fruto se desenvolve no interior de uma carapaça espinhosa, conhecida como ouriço. No outono, amadurece e despenca dos galhos. Não pode ser comido cru. Só quando assado ou cozido revela suas deliciosas características.
Divide-se em dois tipos: a castanha propriamente dita e o marrom. No primeiro, o ouriço acomoda dois ou três frutos. O marrom nasce solitário.
A castanha-do-pará e a castanha de caju têm papéis importantes na economia brasileira. Mas não pertencem ao mesmo gênero. A castanha européia contém elevado teor calórico. Rica em proteínas vitaminas A, B e C, dotada de sais minerais, magnésio, enxofre e cloro, ajudou populações inteiras de camponeses franceses e italianos do passado a enfrentar a fome no inverno.

Marrom Glacê de Castanha (simples)
Ingredientes:
40 unidades de castanha portuguesa grandes
quanto baste de açúcar

Preparo: Escolha 40 castanhas bem grandes e robustas. Tire as cascas grossas e retire as peles, deitando-as em água fervendo e deixando amolecer. Trabalhe sem deixar a água esfriar. Feito isso, coloque as castanhas, duas a duas, em quadrados de filó, e amarre com linhas, como trouxinhas. Então, pese as trouxinhas e, com o mesmo peso, pese a quantidade de açúcar. Deite as castanhas num tacho cubra com bastante água morna e deixe cozinhar até ficarem bem tenras, que cedam ao apertar com os dedos. Do açúcar, faça uma calda em ponto de pasta, com uma fava de baunilha. Escorra as castanhas e deite-as bem quentes na calda também quente, leve-a a tomar ponto de novo e guarde. No dia seguinte, repita a operação, juntando 1/2 kg de açúcar e guarde. No terceiro dia, leve o tacho ao fogo, apure mais o ponto e retire as castanhas para uma peneira. Junte as partidas, a fim de colocá-las com a calda. Leve de novo a calda ao fogo, tome ponto de açúcar e enrole-os em papel alumínio. No dia seguinte o açúcar se funde e elas ficam no ponto.

Marron Glacê com whisky
Ingredientes:
1 ½ kg de castanhas portuguesas
500 g de açúcar
250 ml de água
1 colher de sopa de whisky
1 colher (chá) de essência de baunilha
Prepare: Coloque as castanhas para cozinhar na panela de pressão; Após a panela pegar pressão, deixe cozinhar por mais 30 minutos; Depois de cozidas, descasque as castanhas e passe-as pela peneira ou pelo multiprocessador e reserve; Em uma panela, coloque a água, o açúcar, o whisky e a baunilha; Leve ao fogo e quando a calda estiver bem dissolvida, acrescente a massa da castanha, sem parar de mexer para não empelotar; Quando estiver desgrudando do fundo da panela, tire do fogo; Coloque em uma vasilha para esfriar e sirva.

Marron-Glacê de Batata Doce
Ingredientes
1 1/2 kg de batata doce
1 kg de açúcar
200 ml de água de coco fresca
2 colheres (sopa) cheias de cacau em pó
2 colheres (sopa) de óleo
1 colher (chá) de essência de baunilha
100 g de coco ralado
Coco ralado ou açúcar para enfeitar
Preparo: Cozinhe as batatas descascadas com 1 colher de açúcar até que fiquem macias, mas não totalmente cozidas. Escorra bem a água e passe no espremedor de batatas. Coloque numa panela a massa da batata doce, adicionando o restante dos ingredientes. Cozinhe em fogo brando, mexendo sempre com colher de pau até soltar do fundo da panela. Deve ficar bem firme. Com uma colher de sobremesa, pegue pequenas porções de massa e enrole na palma das mãos untadas, dando a forma que desejar. Ou, se preferir enforme no formato que desejar. Passe no açúcar ou no coco e deixe secar. Deixe pernoitar na geladeira antes de servir.