Tem aqueles dias que você
procura algo simples de fazer, mas com cara de sofisticado. Nessas horas a
única coisa que me vem à cabeça são as crepes da Suzette – que dá Suzette não têm
nada (vocês vão entender ao longo do texto).
Eu me lembro que a
primeira vez que eu fiz esta receita, não gostei muito porque só a tinha feito
com laranjas. Tempos depois vi que a adição de um suquinho de tangerinas faz
toda a diferença – sugiro que experimente com e sem tangerina, e me falam,
depois.
A história do
surgimento dessas crepes metidas a besta é controversa e tem um quê da
realeza...
No longo período em
que foi príncipe de Gales, Eduardo VII (1841-1910, ele tinha quase 60 anos
quando subiu ao trono) sempre si divertiu à vontade. Mesmo depois de ser coroado
rei da Grã-Bretanha, Irlanda e imperador da Índia.
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| Eduardo VII |
Da juventude à
maturidade, passava temporadas na França, país que admirava, sobretudo em
Paris, frequentando restaurantes, teatros, hipódromos e consolidando a sua fama
de playboy que era desaprovada pela mãe, a severa rainha Vitória I. Bastante
popular no seu país e no exterior, ainda se notabilizou pelo mecenato e paixão
pelas viagens.
Mecenato é um termo
que indica o incentivo e patrocínio de artistas e literatos, e mais amplamente,
de atividades artísticas e culturais. O termo deriva do nome de Caio Cílnio
Mecenas (68–8 a.C.), um influente conselheiro do imperador Augusto que formou
um círculo de intelectuais e poetas, sustentando sua produção artística.
Eduardo VII logo tornou-se
um dos personagens da Belle Époque, o período de glamour e deslumbramento
vivido pela Europa entre o final do século XIX e o início da 1ª Guerra Mundial,
com epicentro na capital francesa. Na vida amorosa, conquistou mulheres de
todos os tipos: da norte-americana Jennie Jerome, mãe do futuro
primeiro-ministro Winston Churchill, à atriz dramática parisiense Sarah
Bernhardt, estrela de A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho; da
britânica Alice Keppel, bisavó de Camilla Parker Bowles, a duquesa da
Cornualha, segunda esposa do príncipe Charles, atual príncipe de Gales e
herdeiro do trono britânico, à cortesã espanhola La Belle Otéro, que ele
encontrava no Maxim’s, um dos restaurantes grã-finos de Paris, concorrido ponto
de paquera. Também gostava de ir aos cafés Hardy, Paillard e Voisin.
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| La Belle Otéro |
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| Alice Keppel |
Eduardo VII dedicou-se
tanto à boa mesa que sua barriga dilatou e, ao procurar torná-la menos
desconfortável depois das comilanças, ditou moda. Todo o homem que conhece os
preceitos do bem vestir usa sempre desabotoado o último dos três botões do
paletó. Eduardo VII começou a fazer isso após os banquetes, desapertando a
pança. Gordos e magros até hoje o imitam - e sem o mesmo motivo.
Alguns pratos da
cozinha da Belle Époque aludem ao príncipe e rei comilão. A enciclopédia
Larousse Gastronomique (Larousse-Bordas, Paris, 1996) dedica-lhe um verbete.
Fala no turbot (rodovalho) à príncipe de Gales, na barbue (peixe da família do
linguado), no frango e nos ovos à Eduardo VII.
O simpático soberano
só não batizou a receita mais famosa que lhe ofereceram: as crêpes suzette. A panqueca
amanteigada, doce, perfumada com suco de laranja ou tangerina, licores
Cointreau e Grand Marnier, às vezes Curaçao, e flambada com conhaque diante do
cliente do restaurante, teria surgido por acaso.
O chef francês Henri
Charpentier (1880-1961), que mudou para os Estados Unidos, no posto de
cozinheiro do magnata do petróleo John Rockefeller, assegurou na autobiografia
Life à la Henri (Simon & Schuster, Inc., Nova York, 1934) ser o inventor.
Em janeiro de 1896, estaria preparando a sobremesa em um réchaud, no Le Café de
Paris, em Monte Carlo, atendendo ao pedido do então príncipe de Gales - e o
molho pegou fogo acidentalmente. Sem perder a compostura, teria dobrado duas
vezes as crepes e as servido assim ao cliente, que aprovou o resultado.
"Como se chama o que me deu?", indagou o príncipe de Gales. "Foi
um doce inventado agora", respondeu Charpentier. "Eu o denominaria crepes
princesa." Então, o futuro rei, apontando galantemente para sua
acompanhante da noite, uma bela jovem vendedora de violetas, haveria
completado: "Não, senhor, terão o nome dela, Suzette." ias depois, o
príncipe recebeu um presente da França: um anel de brilhantes, um chapéu Panamá
e um bengala – os quais o príncipe sempre usava.
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| Charpentier |
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| Chapéu e bengala eram moda entre os homens saquela época |
A Larousse
Gastronômica já duvidou da versão porque, na época, Charpentier contava apenas
15 ou 16 anos e não tinha idade, nem experiência, para servir um cliente tão
ilustre. Entretanto, as últimas edições da enciclopédia deixaram de registrar a
dúvida.
Auguste Escoffier, o
chef que sistematizou a cozinha francesa, na obra-prima Le Guide Culinaire, de
1903, menciona a receita, porém não faz menção à autoria. O escritor e
jornalista parisiense León Daudet, no livro Paris Vécu, de 1929, onde evoca a
vida na capital francesa através dos restaurantes e cozinheiros, afirma que as
crêpes suzette eram especialidade do Restaurant Marie, de Paris, no final do
século XIX. As principais diferenças seriam levar presunto e curtir
ligeiramente no brandy.
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| Eduardo VII e Alexandra da Dinamarca |
O fato é que Eduardo
VII adorava crêpes, até porque apreciava as sobremesas. Galanteou algumas
mulheres oferecendo, além de sedução, doces. Dividiu a predileção com algumas
delas, inclusive com Alice Keppel, a bisavó de Camilla Parker Bowels, sua mais
duradoura relação amorosa e uma das poucas pessoas da intimidade capaz de
controlar suas alterações de humor - a rainha consorte Alexandra da Dinamarca
sabia dos casos extraconjugais do marido e, para manter a estrutura ou paz
familiar, resignou-se a tolerá-los. No leito de morte, ele solicitou a presença
da amante, por meio de um bilhete. Alexandra da Dinamarca deixou que o encontro
acontecesse. Além de namorador incontrolável, Eduardo VII foi um grande bom de garfo.
Crepes
Suzette
2/3 xícara de farinha de trigo
1/4 colher de chá de sal
2 colheres de sopa de açúcar
2 ovos, ligeiramente batidos
1 xícara de leite
4 colheres de sopa de água
2 colheres de sopa de água de flor de
laranjeira ou licor de laranja (opcional)
2 colheres de sopa de manteiga sem sal,
derretida e uma porção extra para fritar
Para a
calda de laranja
6 colheres de sopa de manteiga sem sal
4 colheres de sopa de açúcar
suco e casca ralada de 1 laranja ou tangerina
grande
suco e casca ralada de 1 limão grande
2/3 xícara de suco de laranja
4 colheres de sopa de licor de laranja, e uma
porção extra para flambar (opcional)
brandy para flambar (opcional)
pedaços de laranja para decorar
Preparo: Peneire a farinha, o
sal e o açúcar em uma tigela. Faça um vão no centro e ponha os ovos batidos.
Bata os ovos com um fuet incorporando a farinha aos poucos. Acrescente o leite
e a água para fazer uma mistura mais homogênea. Adicione a água de flor de
laranjeira, ou licor de laranja, depois peneire a mistura em um jarro de caldas
e condimentos e deixe à parte por 20-30 minutos. Se a mistura engrossar,
adicione um pouco de leite ou água para ficar fina (pode ser feito no liquidificador,
misture tudo e bata. Depois reserve a mistura pelo mesmo tempo). Esquente uma
panela de crepe (ou aquela sua frigideira amiga) em fogo médio. Adicione a
manteiga derretida na mistura de crepe. Passe um pouco de manteiga derretida na
panela quente e despeje cerca de 2-3 cols. de sopa da mistura. Incline e gire a
panela para cobrir o fundo com uma camada fina da mistura. Cozinhe por cerca de
1 minuto até a parte de cima dourar. Com uma espátula, levante a borda para ver
a cor, depois vire o crepe e cozinhe por mais 20-30 segundos, para assentar.
Coloque em um prato. Continue cozinhando os crepes, mexendo a mistura algumas
vezes e passando manteiga na panela quando for necessário. Para a calda: Derreta a manteiga para fazer a calda e em seguida
adicione o açúcar, a casca e o suco de laranja e de limão, o suco de laranja
adicional e o licor de laranja. Coloque uma crepe na panela com o lado tostado
para baixo, e mexa levemente para cobrir com a calda. Dobre ao meio duas vezes
para formar um triângulo e coloque para o lado da panela. Continue esquentando
e dobrando os crepes até que todos estejam quentes e cobertos com a calda. Para
flambar os crepes, esquente 2-3 colheres de sopa de licor de laranja e brandy
em uma caçarola pequena em fogo médio. Retire do fogo e inflame o líquido com
cuidado com um fósforo e em seguida despeje sobre os crepes. Espalhe as fatias
de laranja por cima e sirva na hora.













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