É pra se comer bastante esta idéia de combinar gastronomia, cultura e história unidas num lugar acessível. Principalmente numa época onde as pessoas se entopem de gorduras trans e não alimentam a alma.
Sabendo que o homem não nasce da fome, mas do apetite. Te convido a conjugar o verbo comer em todas as suas possibilidades.
Um brinde a você por estar aqui! Bon apetit!!!
A
rima pode estar desatualizada, mas definitivamente mostra a importância
cultural deste prato. Mas o que exatamente é boxty?
Embora
as batatas e a Irlanda sejam elementos inseparáveis um do outro, nem sempre foi
assim. As batatas foram levadas da
América do Sul para a Europa durante o século XVI, e logo se arraigaram. As
batatas chegaram a figurar de uma fração mínima para uma parte maciça na dieta
irlandesa, particularmente por conta dos pobres do país.
No
início do século XIX, um irlandês adulto médio comia cerca de 6 kg de batatas
por dia. Isso se explica no fato das batatas crescerem na maioria dos tipos de
solo, eles estão disponíveis para todos, e uma grande parte dos pratos icônicos
do país dependem principalmente desse tubérculo ou o tem na composição. Para os
irlandeses, a batata ainda é um alimento básico.
Quanto
ao boxty, nada mais é que uma ‘panqueca’ de batata feita com batata ralada,
farinha, bicarbonato de sódio e soro de leite coalhado.
Boxty
é uma palavra inglesa, mas a maioria dos dicionários mencionam, simplesmente
que sua origem é irlandesa, sem divulgar os detalhes precisos. Mas, observando
um dicionário irlandês-inglês temos a seguinte explicação: o dicionário
referencia ‘bacstaid’ um "pão
feito da polpa crua de batatas; e a ele dá o nome de boxty". Nenhuma
etimologia é dada, mas assumimos que ela está relacionada às palavras bacail, "o ato de assar", bacalaide "a baker" e bacus,
"uma padaria". Como o último é claramente uma versão hibérnica para
casa de pães (padaria), é bem provável que todas essas palavras tenham sua
origem na palavra inglesa bake
(Hibérnia era o nome antigo da Irlanda. Logo hibérnico significa irlandês antigo).Há quem diga que o nome vem do termo irlandês
‘arán bocht tí’, que significa “pão
da casa pobre” – o que pode ser uma boa sugestão quando se compreende o
contexto e o uso da batata na Irlanda.
Boxty
ainda pode ser reconhecido por outros nomes tais como: slims, fadge, potato cake, potato pancakes, farls, and tattie scones in
Scotland, Bacstaí (em Gaélico) poundy ou poundies.
Tradicionalmente
feito com 70% de batata a 30% de outros ingredientes, o boxty é misturado e
depois frito em uma panela como uma panqueca normal. Isso dá ao boxty uma
textura única, em algum lugar entre uma panqueca e um hash brown. Seu análogo mais próximo é provavelmente o rösti suíço.
Boxty
também pode ser cozido como um bolinho de massa ou assado como um pão, mas a
forma frita é de longe a mais comum. Como o interesse na culinária irlandesa
aumenta, muitas interpretações diferentes do prato chegaram ao local, com
caixas agora temperadas com especiarias, recheadas com carne ou usadas como
tortilla em um envoltório.
Boxty
é um prato muito popular no Norte / Oeste da Irlanda, e existem 3 variedades
distintas e muito diferentes de Boxty irlandês tradicional: Pan Boxty, Loaf Boxty e Boiled Boxty,
cada denominação recebe estes termos por conta do seu método de cozimento. "Pan"
ou "Pancake style” Boxty é um prato de batata saborosa tipo uma panqueca
plana. É feito usando batata, farinha e um toque de sal e depois frita em uma
panela bem quente para dourarbem de
ambos os lados, e geralmente é cortado em triângulos antes de servir. Boxty é
sempre melhor servido diretamente de uma panela quente como costumava ser
servido anos atrás.
O
Loaf Boxty é o preparado estilo "pão de forma" que foi assado no
forno. Ele combina os mesmos ingredientes que os outros tipos, mas com
quantidades variadas de cada um e é assado em vez de cozido ou frito. Quando
feito em asa, ele deve ser fatiado até a espessura desejada e frito em uma
panela quente em um pouco de óleo ou margarina até ficar crocante e dourado.
Boiled
Boxty (Boxty Fervido Boxty) é feito em forma de bolinho que foi fervido para
manter a sua forma original. Depois de fervido, pode ser frito em uma panela
quente em um pouco de óleo ou margarina até ficar crocante e dourado – pode vir já recheado, e deve
ser servido imediatamente.
Feito
quase inteiramente de batatas, o boxty era um aspecto central das dietas do
povo irlandês a partir de 1700. Era um prato barato e satisfatório para a
população mais pobre, que dependia completamente das batatas para sobreviver.
Boxty e outros pratos à base de batata, como colcannon (já tratamos dele AQUI)
bolos de maçã com batata e o pão de batata, foram muito populares entre as
classes mais baixas por mais de 100 anos.
No
entanto, muitos irlandeses perderam até mesmo suas batatas em 1847-1849, durante a Grande Fome na Irlanda, que foi causada por uma praga que destruiu a
cultura da batata. Foi um dos piores períodos da história na Irlanda, onde mais
de um milhão de pessoas morreram de fome e outro milhão foram forçados a
emigrar para sobreviver.
Depois
que a batata se tornou disponível novamente na Irlanda, em meados da década de
1850, os pratos de batatas e outros retornaram como a principal dieta
irlandesa. O Boxty ainda pode ser encontrado em cardápios de pubs e
restaurantes na Irlanda.
Estamos
agora na temporada em que o Boxty se destaca. Este prato era tradicionalmente
consumido no Halloween ou no Samhain, como é conhecido em irlandês no dia 31 de
outubro. Provavelmente porque a colheita principal de batatas necessárias para
fazer Boxty é abundante no outono e inverno e foi uma refeição que poderia sustentar
e satisfazer no tempo frio. O Boxty também foi incluído como parte do banquete
de Ano Novo. Com o passar dos anos, o Boxty tornou-se um prato regular para a
família comer em qualquer época do ano.
Irish Boxty
2
xícaras de farinha de trigo
1
colher de chá de fermento
1
colher de chá Kosher ou sal marinho
1
xícara purê de batatas, cozidos em água salgada
1 e
1/2 xícaras de batata crua ralada em ralo grosso
1
xícara de buttermilk (ou mais, se necessário) – pode ser 1 leite com algumas
gotas de limão para talhar
manteiga
para fritar
Preparo: Em uma tigela pequena,
coloque a farinha, o fermento e o sal; deixe de lado. Usando uma tigela grande,
misture o purê de batatas com a batata crua ralada, junte a farinha e misture
bem. Em seguida, adicione lentamente o leite talhado e mexa delicadamente (não
misture demais). A mistura deve ser como uma massa muito firme e espessa.
Aqueça uma frigideira antiaderente ou panela de ferro fundido em fogo
médio-alto, e adicione uma porção de manteiga, pouco antes de colocar um pouco
da massa na panela. Achatar e moldar em uma forma de panqueca redonda e frite
até dourar na parte inferior. Vire e continue a cozinhar até dourar no topo
também. Consequentemente, diminua o calor se eles estiverem dourando muito
rápido (lembre-se que há batatas cruase
que por isso precisa cozinhar). Continue a adicionar um pouco de manteiga e
frite até que toda a massa esteja pronta. Sirva o tradicional irlandês boxty
quente, como desejar, com ou sem coberturas.
Caros
Confrades e Consórores, estimados amigos e amigas leitores, venho agradecer
mais uma vez sua participação e interação com este blog que hoje, exatamente,
completa oito anos de existência. Foram muitos aprendizados, muitas informações
absorvidas e compartilhadas, muitas receitas testadas (umas que deram certo,
outras nem tanto), algumas poucas reclamações, mas sempre tentando resgatar
histórias, receitas e novidades do mundo gastronômico que nos alimenta corpo e
alma. Muito obrigado.
Por
ser um dia especial hoje retomo, mais uma vez o Projeto Sabores da Tradição que
desenvolvo nesta Confraria com entrevistas com personalidades variadas para
discutir temas tão diversificados quanto a cultura gastronômica. Assim, hoje a entrevistada da Confraria
Gastronômica do Barão de Gourmandise vem tratando de um assunto instigante e
muito querido por mim (pessoalmente): à mesa com as rainhas – entrevista com a
historiadora da alimentação portuguesa Guida Cândido.
A
alimentação nos palácios sempre foi motivo de especulação desde os tempos
remotos: era demonstração de luxo, poder, ostentação, exotismo, influência, mas
principalmente dos costumes de épocas que não voltam mais. As monarquias que sobrevivem aos tempos atuais ainda causam frisson quando anunciam
casamentos reais onde o menu de banquetes e o bolo do casamento despertam
bastante curiosidade e são copiados pelos modismos.
Eu,
particularmente, tenho uma preferência por algumas mulheres monarcas em alguns
países, e sempre me pego investigando seus hábitos alimentares para descobrir
algo interessante e dividir com vocês. E hoje, não seria diferente. Espero que
apreciem a entrevista. E, mais uma vez, obrigado por acompanhar o blog.
Barão de Gourmandise (B.G.) - Para aqueles
que não lhe conhecem, poderia apresentar-se e dizer quem é você e a que se
dedica?
Guida Cândido (G.C.): O meu
nome é Guida Cândido, trabalho no município da Figueira da Foz, na Divisão de
Cultura onde desenvolvo trabalho relacionado com a História Local, o Património
Cultural e os fundos locais, nomeadamente a fotografia antiga. Paralelamente,
sou investigadora de História da Alimentação, associada ao Centro de Estudos
Clássicos e Humanísticos (CECH) da Faculdade de Letras (FLUC) da Universidade
de Coimbra (UC), fazendo parte da equipa multidisciplinar do projeto DIAITA -
Patrimónios Alimentares da Lusofonia.
Sou
autora do Grupo Leya, concretamente da chancela editorial D. Quixote, com quem
editei desde 2016 três livros desta área de investigação: "Cinco Séculos à
Mesa - 50 receitas com história"; "Five Centuries of Portuguese
Cuisine" e, este ano, "Comer como uma rainha - receituário real do
século XVI ao século XX”, todos disponíveis (AQUI). Desenvolvo trabalho de
consultoria na área da História da alimentação, foodstyling e fotografia. E
Alimento o hiperespaço em www.panelasemdepressao.com
B.G. – Antes de chegarmos às mesas das
rainhas, gostaria de iniciar pela ‘aventura’ da escrita de “Cinco séculos à
mesa”. Sei bem como é árdua (e deliciosa) a tarefa de dedicar-se a pesquisas
nos tempos atuais: seja pelas fontes escassa e de difícil acesso, recursos
limitados, ter que verificar e reverificar fontes, revisar datas, analisar
discursos, comparar falas, etc., etc.... assim, conte-me um pouco de como
surgiu a ideia para o livro. Qual foi o estopim para ele, houve uma história em
particular que lhe fez aguçar o sentido investigativo e dar início ao texto, ou
foi algo já pré-estabelecido?
G. C.: O "Cinco Séculos
à Mesa" surgiu na sequência da minha tentativa de editar a dissertação do
meu mestrado em “Alimentação: Fontes, Cultura e Sociedade” da FLUC, “Comer como
uma rainha - estudo de um livro de despesas da Casa de D. Catarina de Áustria
de 1571”. A editora gostou do texto e do tema mas considerou um trabalho
demasiado académico para publicar para um público mais amplo. Sugeri, então,
fazer um périplo pela História da Alimentação nos últimos cinco séculos, com um
breve ensaio histórico que inclui ainda um capítulo dedicado à Antiguidade
Clássica e recriar 50 receitas dos cinco principais livros de receitas desses
séculos. E a proposta foi aceite com entusiasmo e em menos de um ano, estava
nas bancas.
B. G. - O que mais lhe surpreendeu
enquanto percorria essa aventura gastronômica pelo receituário gastronômico
português entre os séculos XV e XX?
G. C.: Não sendo propriamente
uma surpresa, é sempre interessante perceber o que perdurou e o que se perdeu
ao longo dos séculos. Fico sempre fascinada com a descoberta de receitas que
julgamos que são invenções recentes e que se revelam muito antigas, ou que
estão associadas a períodos recuados. Por exemplo, muitas pessoas consideram
recente esta tendência de aromatizar manteiga, e, na realidade, Paul Plantier
já apresenta, no século XIX, pelo menos uma receita irresistível de manteiga
com anchovas.
B. G. – Acredito que a cerimônia e o
protocolo à mesa em Portugal não diferem nos séculos XVI e XVIII de outras
realezas europeias. No entanto, quando se trata de requinte e exotismos
destaques curiosos sempre aparecem para nos surpreender. O que poderia nos
contar sobre a fineses, o exotismo e o requinte nestes cinco séculos à mesa que
investigou?
G. C.: Os livros de registo
de despesas de cozinha das casas reais possibilitam observar quais as iguarias
que os monarcas e seus serviçais privilegiam no seu quotidiano; o que os grupos
desfavorecidos não alcançam; os alimentos que se revestem de importância
simbólica e carácter raro, exótico e distinto. Tão especiais como os que D.
Catarina apresenta no banquete que oferece à sua sobrinha, a Infanta D. Maria,
por ocasião do casamento da Infanta, com Alexandre Farnese. No Paço da Ribeira,
no desenrolar do banquete, presenteia os convidados com abundância de carnes
vindas de vários e distantes pontos do império, tal como a água servida que se
diz proveniente de muitas partes do mundo: Indo, Ganges, nascentes e lagos de
África e Ásia e rio Tibre, numa tentativa de ostentar os domínios imperiais do
reino português. Os monarcas comem em abundância e com qualidade.
Do
Oriente e do Brasil, com a expansão portuguesa, provêm alimentos como tomate,
chocolate, batata, ananás, peru e tantas outros alimentos que implicam,
necessariamente, mudanças na alimentação da Europa e potenciam de forma marcada
sinais de poder e ostentação na corte, firmando o luxo e refinamento da mesa
ocidental. De resto, o banquete, nos séculos XV e XVI, promove a mesa para ser
observada na sua abundância, na qualidade dos seus pratos, na forma de
apresentação dos mesmos, numa certa encenação e teatralidade que a torna cada
vez mais, não um lugar de coesão social, mas sim de separação, evidenciando
todas as particularidades que distinguem os privilegiados dos restantes grupos
da sociedade.
Os
inventários dos bens das rainhas da Época Moderna permitem conhecer o grau de
exotismo e de sofisticação das suas mesas, sobretudo a partir de D. Catarina de
Áustria, quando os portugueses acedem ao Japão e à China. A bateria de cozinha
e as peças da mesa são sumptuosas, com materiais nobres como prataria,
madrepérola, laca, porcelanas, madeiras e têxteis nobres. Embora a sala de
jantar enquanto espaço físico e específico de refeições apenas seja efetivo no
século XVIII, os palácios da Época Moderna apresentam salas multifuncionais
onde se desenrolam refeições armando-se as mesas e toda a logística necessária.
O mesmo pode acontecer nas câmaras e antecâmaras, ricamente decoradas, muitas
vezes com recurso a decorações efémeras como dosséis e panos de armar. Na mesa
retangular, a tolha é habitualmente branca e rasa o chão, completando a cena
diversas cadeiras, almofadas e iluminação com castiçais e candelabros de prata.
A riqueza da baixela não é ostentada na mesa mas sim na copa, onde ocupa um
lugar de destaque.
Nos
séculos XVI, XVII e XVIII presume-se que a alimentação na corte portuguesa não
difira muito das restantes cortes europeias. As refeições quotidianas e os
banquetes são momentos revestidos de um rigoroso protocolo. Em torno das
figuras reais orbitam inúmeras personagens.
B. G. – Pesquisando sobre menus históricos
encontrei, algumas vezes, referências que apontam para a existência de duas
cozinhas reais: a do rei e a da rainha. Mas poucos se dão conta disso. Há quem
faça relatos de que rei e rainha apenas se juntavam em banquetes festivos,
celebrações ou alguma comilança que envolvia relações públicas com a corte e
personas destacáveis. O que me diz a esse respeito? Se deparou com algo do tipo
nas suas pesquisas?
G. C.: No protocolo real
português a tendência era de duas cozinhas, uma para o rei outra para a rainha.
Não por acaso, existe a designação Casa da Rainha. E as refeições eram
normalmente privadas. As refeições públicas decorrem de situações particulares,
de cerimónias e festas e nessas ocasiões, é mais comum ambos monarcas
partilhares a mesa.
No
século XVII, com as refeições públicas, as refeições do rei são uma atividade
de representação com presença da corte e sacralização da pessoa do monarca,
havendo uma forte hierarquia nos bastidores, onde as refeições são preparadas.
A documentação revela a ascensão de algumas figuras até chefe de cozinha. Verifica-se,
ainda, a existência de cozinheiros com caráter extraordinário, requisitados
quando decorrem banquetes.
A
etiqueta, as cerimónias e as práticas rituais na Casa das Rainhas, entre a
segunda metade do século XVII e a primeira metade do século XVIII, são marcadas
pelo modelo dito borgonhês.
A
partir do século XIX, concretamente nos reinados de D. Maria I e de D.Luís , as
refeições do quotidiano já apresentam os monarcas juntos, com outras
individualidades da corte, sobretudo no reinado de D. Luís e de D. Maria Pia,
onde também se conhece com mais precisão o que vai à mesa, uma vez que estão em
voga os menus.
Maria Pia de Saboia GCNSC • GCSI (Turim, 16 de outubro de 1847 — Nichelino, 5 de julho de 1911) foi uma princesa de Saboia e rainha de Portugal e Algarves como consorte do rei D. Luís I de Portugal.
B. G.– Partindo então para "Comer como uma rainha": o que lhe levou
a dedicar-se ao estudo das mesas das rainhas? E por que das rainhas escolhidas?
G.C.: Foi inevitável pegar
neste tema depois da minha dissertação que tinha apenas a rainha D. Catarina de
Áustria como protagonista. A escolha das rainhas prendeu-se com a vontade de
fazer mais uma vez uma cronologia até ao século XX e focou-se nas rainhas a que
consegui associar mais documentação e livros de cozinha editados durante a sua
permanência no trono.
Catarina de Áustria, Catarina de Habsburgo ou, mais raramente, Catarina de Espanha (em castelhano: Catalina de Austria; Torquemada, 14 de janeiro de 1507 - Lisboa, 6 de fevereiro de 1578) foi arquiduquesa da Áustria, infanta de Espanha e rainha de Portugal como esposa de D. João III.
B.G.– Poderia explicar brevemente a relação dessas rainhas apresentadas na
obra com a alimentação. Havia a preocupação delas relativas a alimentação, ou
simplesmente tratavam a comida como algo necessário para sustentar o corpo e
como elemento de status?
G. C.: O Homem é o que come.
E o que come é também aquilo que gostaria de ser. Ontem e hoje, a alimentação
da humanidade poderá dividir-se em dois campos essenciais que se traduzem na
necessidade e no prazer, refletindo hierarquias sociais e culturais, bem como
as relações de poder. A juntar à escolha dos alimentos, aos básicos e aos
supérfluos, surgem ainda as técnicas de preparação e confecção. Estes
princípios constituem um elemento diferenciador ou unificador a que se juntam
ainda as questões da mesa e da etiqueta; os rituais e as normas; as interdições
e uma gramática de saberes tão extensa quanto complexa.
Comia-se
por forma a estabelecer e definir hierarquias. À época, a alimentação era mais
do que alimento, era uma manifestação de poder, distinção e exotismo.
Da
mesa medieval chegam os ritos e interditos, sob diversos olhares –
antropológico, sociológico, económico, religioso e cultural, identificando os
alimentos que chegam à mesa, a sua confecção na cozinha, de acordo com as
práticas e os gostos culinários da época, as preferências ou os interditos
alimentares de ordem religiosa, social ou dietética.
Em
conclusão, as rainhas em causa alimentavam-se de acordo com as normas da sua
época, atendendo às matrizes estipuladas para a comida de corte.
B. G.– Algumas das rainhas se dedicava a
cozinha? Alguma com dons gastronômicos indiscutíveis ou apenas todas eram
amantes da boa mesa?
G. C.: Desconheço, na
investigação que fiz, qualquer intervenção das rainhas na cozinha, embora os
seus gostos sejam relevantes na hora da escolha das refeições. Por exemplo, em
D. Catarina de Áustria, percebe-se o gosto direcionado por determinados
alimentos. O estudo do livro de despesas da sua casa, de 1571, refere diversas
vezes a indicação concreta de galinha para a rainha, bem como cerejas e saladas
para a monarca. Ou a compra de queijos em Belém para D. Catarina. Algumas terão
sido mais frugais.
B. G. – Das rainhas investigadas qual te
chamou maior atenção, e por que?
G. C.: Eu tenho uma “relação”
muito particular com o universo alimentar de D. Catarina de Áustria. Embora o
objetivo da minha dissertação tenha sido o estudo das questões alimentares
desta rainha, fica-se inevitavelmente apaixonado pela figura carismática de
Catarina de Áustria, uma mulher que perde todos os filhos e que deposita as
últimas esperanças nos netos que também têm finais trágicos. Ainda assim, a sua
energia e o gosto pelo belo, pelo exótico e pelo colecionismo fazem dela uma
rainha incontornável.
B. G. – De fato, podemos dizer que os
casamentos entre as casas reais permitiram que receitas e ingredientes
diferentes de seus países de origem percorressem o mundo, pelo capricho dos
monarcas ou pelo prazer afetivo que eles têm ao remeter diretamente à pátria.
Poderia nos contar um pouco sobre essa interação gastronômica em Portugal a
partir das rainhas que vieram de outras nações europeias? Sei, por exemplo, que
as massas foram introduzidas em Portugal por volta do século XVIII – o que me
pareceu até demorado, considerando que Marco Polo levou o macarrão da China
para a Itália no século XIII...
G. C.: Naturalmente que
existem os “produtos da saudade” que são levados de uns territórios para
outros. Tanto é assim que o primeiro livro de cozinha português conhecido, o
Livro de Cozinha da Infanta D. Maria, encontra-se fora de portas, na Biblioteca
Nacional de Nápoles. A neta de D. Manuel, aquando do seu casamento com
Alexandre Farnese leva-o para Parma, juntamente com outras peças de enxoval e o
seu séquito.
E
existem muitas evidências de rainhas que se fazem acompanhar entre outros
serviçais, dos seus cozinheiros, é o caso de D. Maria Ana de Áustria que trouxe
consigo, aquando do seu consórcio com D. João V, de uma cozinheira. É um caso
extremamente interessante porque essa função era normalmente atribuída aos
homens. Em todo o caso, esta rainha traz uma cozinheira que mantém ao seu
serviço na corte portuguesa e, naturalmente, com a herança de sabores mais
nórdicos, associados à sua origem.
B. G.- Um dos meus maiores problemas, ultimamente, nas minhas pesquisas, além
do pouco tempo, são os testes das receitas...Vez por outro posto a receita e só vou testá-la um tempo depois. Assim,
gostaria de saber como se deu o processo de escolha dos pratos apresentados em
seus livros? Você testou todas as receitas?
G. C.: Em todo os meus livros
as receitas foram testadas e fotografadas. Em alguns casos, mais do que uma
vez, para garantir a sua possibilidade de execução pelos leitores. O critério
que usei na escolha de todas elas teve como princípio a correspondência o mais
fiel ao original, mas também a possibilidade de ir ao encontro dos palatos da
atualidade, sem causar demasiada estranheza, mas, ainda assim, conseguir alguma
surpresa na descoberta de alguns sabores de que nos desabituámos.
B. G. – Certa vez, li no jornal inglês
"The Independent" uma reportagem de um antigo chefe da Casa Real
britânica que e compilou o essencial de um dia à mesa de Isabel II. De acordo
com o texto, tudo iniciava com uma xícara de chá Earl Grey - sem leite nem
açúcar - e biscoitos. Depois viria fruta e cereais - que devem ser servidos em
uma caixa Tupperware, porque, para Isabel II, é a melhor forma de os manter
crocantes. Quando deseja variar, escolhe torradas com compota ou uns ovos
mexidos com salmão fumado e trufas. Antes do almoço não pode faltar um gin e um
Dubonnet, um aperitivo doce à base de vinho, com uma rodela de limão e bastante
gelo. Depois, à refeição, algo muito simples, como peixe ou frango grelhados e
legumes. Se almoçar sozinha, nada de arroz, batatas ou massas. À tarde, um chá
acompanhado por mini sanduiches de pepino, salmão defumado, ovo e maionese,
fiambre e mostarda, e "jam pennies", que são sandes com compota de
framboesa cortadas em pequenos círculos, do tamanho da moeda inglesa.
Biscoitos, scones e bolos também entram no menu vespertino. Entre os bolos
preferidos da rainha está um de biscoito de chocolate que foi servido no
casamento de William e Kate (inclusive já tratei dele aqui no blog). Para o
jantar são servidos, habitualmente, um filete de salmão ou bifes, cortados
finamente, de vaca, faisão ou veado, vindos das quintas de Sandringham e
Balmoral. A rainha também aprecia um bom assado de domingo. Quanto a
sobremesas, morangos e pêssegos cultivados nas suas quintas, e - não pode
faltar - chocolate. Seja de um tablete mais exclusivo ou de uma marca de
supermercado, o importante é comer um pouco de chocolate. Por fim, Isabel II
gosta de rematar o dia com um copo de Champanhe. Deste modo, poderia nos
descrever como era o menu de uma dessas mesas reais?
G. C.: Como já referi, com a
chegada dos menus, torna-se mais concreto o conhecimento dos pratos que vão à
mesa real. Nessa medida, a minha escolha recai na rainha D. Maria Pia. D. Luís
e D. Maria Pia viajam com regularidade pelas cortes europeias e, naturalmente,
adotam o que a moda dita.
Um
alimento que se destaca nos menus reais é a pasta. A grande variedade de massas
alimentícias e a profusão de receitas com este ingrediente, revelam os gostos
culinários neste período e, por arrasto, as da mesa real. O facto da rainha ser
italiana, facilita a divulgação deste alimento, mas também de outros pratos
italianos que surgem nas ementas, como risottos e uma panóplia de receitas à
moda de com uma abrangência que excede a generalidade do à italiana e
especifica com regionalismos: à piemontesa, à milanesa, à Veneza entre outros.
Esta
catalogação ultrapassa a fronteira do território italiano e, nos diferentes
menus da coleção do Palácio da Ajuda, é possível encontrar diversas referências
de pratos atribuídos a outros contextos. Logicamente muitos pratos à
portuguesa, mas também à inglesa, à holandesa, à francesa…
Os
menus permitem conhecer os hábitos alimentares da família real, exibindo não só
os pratos, mas também a sua ordem de chegada à mesa e, até, a constância e
preferência por algumas receitas ou ingredientes. Assim, a estrutura de um
menu, na época, compõe-se de: sopa; hors d’oeuvre; prato de relevo; entrada
quente e entrada fria; assado; legumes; entremeios e doces.
As
refeições no paço revestem-se de muito requinte, com marcadores e ementas de
fino gosto e diferentes mesas consoante a categoria das pessoas. A principal é
a mesa de estado onde se sentam o rei, a rainha, a camarista da rainha, o
mordomo-mor, o vedor, o médico e oficiais de guarda do palácio.
B. G. – Conseguiste achar em suas
pesquisas algum prato que esteve sempre presente deste a época da primeira
rainha analisada até a última? Qual seria?
G. C.: Uma receita em
particular não diria. No entanto, julgo que em todas estas mesas, a galinha
teve sempre um lugar privilegiado e de destaque nas refeições apresentadas.
B. G. – Imagino que desde o lançamento de
seus livros já tenha ouvido muitas perguntas do tipo: o que come uma rainha?
Ou, o que compõe a mesa de uma rainha?Mas, e o que elas não comiam? Haviam restrições nas mesas das monarcas?
Bebiam de tudo?
G. C.: As restrições
prendem-se com os preceitos religiosos. Legumes e vegetais destinam-se,
essencialmente, aos dias de jejum de carne, tal como acontece com o peixe que
está na mesa em cumprimento das prescrições religiosas de abstinências e
jejuns.
Quanto
às bebidas, sobretudo até ao final do período medieval, beber significava
essencialmente beber vinho, uma vez que a água oferecia algumas limitações em
termos de salubridade. Portanto, as nossas rainhas, ao que se conhece, bebiam
vinho, como a generalidade das pessoas.
B. G – Alguns historiadores da alimentação
tendenciam afirmações que apontam para o gosto feminino por doces? Você
corrobora com essa ideia? Algum doce em especial com referência histórica a
alguma das rainhas?
G. C.: Julgo que o doce não
era uma predileção feminina, era um gosto geral. Só tardiamente se começa a
fazer a distinção do doce e do salgado, permanecendo a sobreposição de açúcar
em muitos pratos de carne como se pode ver no receituário do Livro de Cozinha
da Infanta D. Maria. A tendência do doce é manifesta na grande quantidade de
marmeladas, doces e compotas, bem como em toda a doçaria que se disseminou em
Portugal até à atualidade.
B. G.– Onde se pode comer como uma rainha em Portugal, nos dias atuais?
G. C.: Essa pergunta é
curiosa e vem ao encontro de um projeto que iniciei recentemente, com o
objetivo de responder a essa necessidade. Criei um ciclo de jantares de rainhas
que têm como base o meu livro, com uma rainha em cada jantar e o menu
associado. Este primeiro ciclo irá decorrer numa Pousada charmosa em Condeixa,
bem perto da cidade universitária de Coimbra. (VER AQUI)
No
próximo dia 15 de setembro, realiza-se o primeiro de vários jantares
dinamizados numa articulação e colaboração comigo e o Chefe de Cozinha João
d'Eça Lima sob o lema: comer como uma rainha, inspirado na obra publicada que
retrata a vertente histórica e gastronómica relacionada com os gostos e
identidade cultural à mesa no período que vai do século XVI ao século XX.
O
primeiro jantar, dedicado a Catarina de Áustria terá o espírito e encenação de
um banquete onde serão servidos pratos com base no receituário registado: canja
de perdiz, queijos artesanais, pão artesanal, galinha albardada, desfeito de
galinha, coelho em tigela, boldroegas, picado de carne de vaca em seco, pastéis
de leite, almojávenas de Dona Isabel de Vilhena e pessegada. Serão servidos
vinhos brancos e ainda apresentadas mais algumas iguarias da época.
O
jantar, com início pelas 20 horas, é de reserva obrigatória e limitado no
número de participantes e conta com a presença, introdução e enquadramento por
mim.
O
objetivo é estender este projeto a outros restaurantes ou hotéis que tenham
interesse em oferecer um serviço diferenciado, com um projeto inédito em
Portugal.
B. G. – Considerando que a mesa é um lugar
onde se deve partilhar as delicias gastronômicas com as pessoas que se gosta,
poderia nos dizer qual das rainhas das casas reais ainda existentes no mundo
você gostaria de sentar à mesa, e quem mais convidaria para descobrir mais
sobre ela (elas)?
G. C.: Na impossibilidade de
escolher a princesa de Marrocos, uma vez que os monarcas se divorciaram,
gostaria de partilhar uma refeição com Rania da Jordânia. Tenho imensa
curiosidade pela cozinha do Médio Oriente e julgo que existe um receituário com
uma matriz comum ao nosso no uso das especiarias que, no nosso caso, se
suavizou.
Meu Sabor da Tradição G. C.A minha avó materna deixou-nos há dois anos com 98 anos de
idade. Era muito comunicadora e, quando me sentava à sua beira, ficava tempo
infinito a ouvi-la desfiar histórias de outros tempos. A minha avó, ao
contrário de muitas avós, não é uma referência culinária para mim. De poucas
comidas que fazia guardo memórias, sobretudo porque deixou de cozinhar quase há
duas décadas e julgo que no caso dela, era mais por necessidade do que prazer.
Porém, existem quatro alimentos que lhe estão inteiramente ligados e que serão
sempre os da minha avó.
A
broa! O ritual de fazer broa de milho era quase religioso. Entre fermentos e
cruzes traçadas sobre a massa, o dia de cozer a broa era vivido com entusiasmo.
Alguns
dias, no regresso da escola, passava em casa dela para comer um pão regado com
azeite e polvilhado de açúcar amarelo. Não sei exatamente de onde veio esta
ideia, se mais alguém o fazia, mas era o pão da minha avó, que eu adorava e que
agora me parece inusitado.
Também
as batatas fritas dela eram únicas. Essas sim, apetecem-me agora e sempre. No
borralho, sobre a trempe, uma grande sertã com azeite do seu olival. Rodelas
grossas de batata eram ali mergulhadas e depois servidas com um ovo estrelado.
De
doçaria nada me lembro para além do arroz doce. Mas há um bolo que fazia
questão de me dar. Às sextas feiras ia à feira na vila fazer as compras que
completavam o que tirava da terra. E nesses dias trazia sempre um bolo para as
netas. Um pastel de nata para mim, uma bola de berlim para a minha irmã. Talvez
por isso, ainda hoje na pastelaria portuguesa, é este o meu bolo preferido. Por
isso, o meu sabor de tradição.
Pastéis de Nata (16 unidades, no original
12)
Cozinha Tradicional Portuguesa – Maria de
Lurdes Modesto
500 g
de massa folhada preparada
creme:
500 ml
de natas
200 g
de açúcar
8
gemas
2
colheres de sopa de farinha sem fermento
1
casca de limão grande
Preparo: Comecei por preparar o
creme, misturando bem todos os ingredientes e levei ao lume (fogo) mexendo
sempre até levantar fervura e engrossar. Deixei arrefecer até ficar morno.
Cobri com película aderente para não ficar uma crosta. Estendemos a massa folhada
e cortámos círculos ligeiramente maiores do que as formas de queques. Untámos
ligeiramente as formas com manteiga e colocámos a massa. Recheei os pastéis de
nata com o creme e levei ao forno pré-aquecido a 250º, durante cerca de 15
minutos até ficarem bem tostados. Tirei do forno, deixei-os arrefecer
ligeiramente, desenformei e servi polvilhados com canela.
Estava
eu comento um Parfait (sobremesa italiana que foi aperfeiçoada pelos franceses
– sempre eles –, e que depois tratarei em postagem exclusiva aqui) que eu tinha
ganhado, quando me deu vontade de comer pão com patê. Só eu tenho essas manias
de comer doce e depois ter a necessidade de comer algo salgado?
Vi
que em casa não tinha muita coisa na geladeira para fazer patê e fui ao supermercado
comprar um tubinho de patê, desses simples que a Sadia vende em pequenas
porções, só para matar meu desejo. Mas quando cheguei em casa, após devorar
todo o patê com fatias de pão, fui pesquisar mais sobre origem dos patês e
receitas interessantes, quando acabei me deparando com um famoso patê salgado
suíço que se chama Le Parfait. Seria mais uma ironia do destino neste
conturbado mês de agosto? Bom, se foi ou não o destino pregando peça ajudou de
algum modo, pois hoje a postagem é sobre o creme sanduiche: Le Parfait.
A
história desse patê perfeito começa coma a criação de levedura para melhorar
alimentos durante a II Grande Guerra: e Friburgo, na Suíça, foi o berço do
famoso produto que acabou se espalhado pelo país em um tubo vermelho. A produção
começou nas instalações da la Brasserie du Cardinal, que forneceu levedura, um
dos ingredientes fundamentais do "creme de sanduíche" daquela época.
Por
isso, sempre digo que, em alguns casos, as restrições são boas o suficiente
para aguçar a criatividade dos homens. Durante a Segunda Guerra Mundial, como
toda a Europa, a Suíça estava singularmente carente de carne, e priorizava o
cultivo de produtos como batatas. É neste contexto que Claude Blancpain, um
estudante da Friburgo, filho de um industrialista, conseguiu concretizar uma
ideia brilhante. Na verdade, ideia, é antes uma receita que, em um primeiro
momento, vai ajudar a melhorar as refeições suíças durante a guerra, antes de
fazer a felicidade de várias gerações de gourmets, os de hoje Incluindo: Le
Parfait (O Perfeito).
Quem,
além de mim, não conhecia Le Parfait? Talvez não por marcas, nem com esse nome.
Mas antigamente era comum supermercados venderem patês em tudinho como os de
creme dental, ou em latinhas pequenas – essas ainda muito encontradas hoje em
dia. Mas se formos perguntar aos suíços eles, provavelmente responderam, que
todos conhecem. E, se duvidar, vão responder: “ Qual é o suíço que não tem um
tubo na geladeira?” e, logo indicar a compra do tubinho vermelho no qual o
produto ainda é bem vendido por lá – e que hoje conta com variação de sabores.
Um
fato, é que a marca é bastante conhecida, mas sua composição, por outro lado,
permanece um tanto misteriosa, às vezes deixando espaço para as suposições mais
errôneas e teorias da conspiração. E Não, Le Parfait não faz parte da mesma
família que as salsichas e outros embutidos considerados duvidosos pelos
consumidores preocupados com sua saúde e níveis de colesterol.
Se
fossemos fazer aqui uma classificação pela formula que aparece na embalagem,
seguramente ele faria parte dos produtos "orgânicos", porque seu
ingrediente principal não de origem animal, mas vegetal. Mais precisamente, é
um assunto bem conhecido dos amantes da cerveja: o fermento (leveduras). Sua
composição deixa muita gente ainda desconfiada: 45% de levedura de cerveja, 12%
do fígado de porco, gorduras vegetais, especiarias e um pouco amido.
Foi
durante seus estudos em química que Claude Blancpain descobriu as excepcionais
propriedades nutricionais do fungo unicelular. Uma atração que rapidamente se
transformou em paixão. No final de seus estudos levando ao doutorado, o
Friburguense estabeleceu o objetivo de produzir um alimento à base de levedura.
Seu
problema real não era nutricional, mas de bom gosto. Para que o produto funcionasse,
deveria ser absolutamente agradável ao paladar e ter durabilidade. Na verdade,
a ideia não era nova. Durante a guerra, um químico vienense, Leo Offer, já
havia tentado a aventura. Seu projeto era substituir a carne com leveduras nas
salsichas para aumentar a produção. Contudo, não deu certo, o gosto foi
rejeitado pelos consumidores. Mas ele não desanimou.
Claude
Blancpain estava determinado a criar o mais rapidamente possível uma empresa
para lançar seu patê. A guerra viria acelerar sua realização. Ele obteve
rapidamente das autoridades federais, com o apoio do Conselheiro Federal
Wahlen, as autorizações que lhe permitiam usar o estanho, um material
particularmente racionado. A fim de minimizar os riscos e investimentos
necessários para construir uma fábrica, o Friburguense decidiu mudar-se para as
instalações da la Brasserie du Cardinal em Friburgo. Uma maneira de matar dois coelhos
com uma cajadada, já que a cervejaria também deve fornecer a levedura
necessária para a produção do patê.
Não
é por acaso que Claude Blancpain inventou essa curiosa difusão de patê com
leveduras em 1942. Ele é neto do fundador de la Brasserie du Cardinal, em
Friburgo, Paul-Alcide Blancpain. O lúpulo e o malte já eram parte da empresa
familiar. No entanto, para iniciar o processo de fermentação da cerveja, você
precisa de fermento: o famoso cogumelo Saccharomyces cerevisiae. Durante muito
tempo, os resíduos foram destinados à alimentação animal, até que Claude
Blancpain os recicla em "patês para fins dietéticos": Pâté Dyna e
Pâté Tartex.
Um
substituto do tempo de crise, era assim conhecido o patê. "Dyna é uma
refeição sem cupom": em 1942, esse era um grande argumento de venda. De
fato, a economia de guerra impôs medidas de racionamento sobre a população
suíça. Açúcar, legumes, gorduras, óleo, queijo, ovos e leite eram racionados
progressivamente a partir de 1939. Em março de 1942, foi a vez da carne.
Enquanto
dois dias "sem" carne por semana, desde o ano anterior, agora para
obter suas refeições, era necessário apresentar cupons oficiais. Com seus patês
à base de levedura e gorduras vegetais, Claude Blancpain vai poupado a
população das restrições do racionamento. Sua pequena empresa recebe
rapidamente o apoio das autoridades políticas que lhe concedem o direito de
usar folha-de-flandres em suas embalagens. Matéria também sujeita a
racionamento.
A
receita, original e inalterada se deve a Claude Blancpain, Erwin Haag e
Rose-Blanche Sourdeau-Haag, todos os três químicos. O primeiro, herdeiro de la
Brasserie du Cardinal, inventa já em 1942 de patês com levedura. Ele criou a
empresa Dyna (alusão sutil à Cardinal) e Pâté Dyna e Pâté Tartex (TARTine
EXquise) e foram muito bem-sucedidos até 1945 - tanto que, em 1945, no final da
guerra, a empresa que se tratava de uma sociedade simples foi transformada em
uma empresa pública limitada. Mas, em seguida, floparam com o final da guerra.
Pois com o fim do racionamento, ninguém queria comer esses substitutos da
carne. Para sobreviver, a marca Dyna começou a fazer compotas, geleias e
raviolis frescos. No entanto, em paralelo, a dupla está desenvolvendo o produto
capaz de garantir o futuro da Dyna.
Foi
quando Erwin Haag teve então uma ideia genial: adicionar uma porção de fígado
de porco e algumas migalhas de trufas no preparado, renomeou o produto como Le Parfait
e projetou uma embalagem em tudo vermelho e branco com antecedência icônica,
quase não mudou desde então. A nova receita foi lançada e para distingui-la de
embutidos processados, o produto foi descrito como crème sandwich au foie
truffée (creme sanduíche de fígado trufado). Assim como os patês Dyna e Tartex,
o sucesso foi imediato, especialmente entre os jovens.
Devido
ao crescimento, a Dyna foi forçada a alugar instalações fora da Brasserie du
Cardinal para manter sua produção mais pura. Mas em 1956, Claude Blancpain toma
a decisão de construir uma nova fábrica ultramoderna na área industrial de
Freiburg. A inauguração ocorreu em 1959. Desde então, a fábrica da Parfait não
se moveu.
Em
1962, a Dyna introduz novas máquinas que permitem a produção «à la chaîne» de
Parfait em tubos. A introdução de tubos de alumínio será feita cinco anos
depois. A sociedade de Friburgo, que aquela época empregava cem funcionários,
está no auge de sua glória. Mas o mercado suíço era pequeno. Para continuar a
crescer, a Dyna não tem escolha a não ser mudar para o exterior. Um
desenvolvimento caro que a empresa de Claude Blancpain não pode pagar. Única
solução: aliar-se a alguém já implantado.Ainda, em 1962, duas novas variedades surgiram no mercado: um com ervas,
o outro com presunto.
"Mais
do que simples foie gras” (Plus qu’un simple foie gras): foi com esse slogan
cativante que os anunciantes elogiaram o Le Parfait em 1963. Na época, o creme
de sanduiche ainda estava "enriquecido com trufas". Um ingrediente
que, imaginamos, fez muito para restaurar o poder da disseminação do produto
até o final da Segunda Guerra Mundial. No final dos anos sessenta, a reputação
do Le Parfait era tal que era encontrada nas bancas da prestigiada loja Harrods
em Londres. Apostamos que as migalhas do cogumelo precioso, distribuído com
parcimônia na torta, são para muito. Quando a trufa desapareceu para o
benefício da la corne d’abondance? Nos anos noventa. Os dois cogumelos têm a
mesma cor, mas não o mesmo preço, nem o mesmo sabor!
Em
1970, foi concluído um acordo de fusão com o grupo de Basileia Ursina-Franck.
Poucos meses depois, Ursina-Franck é assumida pela gigante Nestlé Alimentana.
Desde a aquisição pela Nestlé, quatro produtos foram definitivamente
instituídos: Le Parfait original (tudo vermelho, 1950), celui au foie de
volaille (o de fígado de galinha, tudo amarelo, 1995), celui aux fines herbes
et à l’ail (ervas e alho, tudo verde, 1996) e celui au thon (atum, tudo azul,
2002).
São fabricados 700 toneladas por ano, apenas para o mercado suíço. Desde
2008, o Le Parfait não é mais produzido no território de Friburgo, mas em
Basel, na fábrica de Thomy. A fábrica da Cardinal foi esvaziada em 2011.
Brasserie du Cardinal, Fribourg, 2007.
Assim,
para finalizar, deixo a receita de dois patês fáceis e deliciosos para não
deixar o gostinho caseiro de lado – mas quem estiver pela Europa, experimente o
Le Parfait e me mande alguns (risos).
Patê de cogumelos e nozes
350g
de cogumelos pleurotes ou de shiitake, picados (ou 227de champignons café
picados)
2
colheres de sopa de manteiga
2
dentes de alho picados (ou 2 èchalotas picadas)
5
folhas frescas de sálvia
1/2
xícara (125 mL) de água ou vinho ou caldo de carne
1/4 de
xícara (60 ml) de creme de leite
1
xícara de nozes picadas (quase moídas)
Sal
marinho e pimenta moída na hora
Preparo: Em uma frigideira,
refogue os cogumelos em fogo médio (sem gordura) por 10 minutos ou até que a
água esteja completamente evaporada.
Adicione
a manteiga, alho e sálvia. Tempere com sal e pimenta e continue cozinhando por
5 minutos. Adicione a água (ou o liquido de sua preferência) e reduza pela
metade. Retire do fogo e adicione o creme de leite. Transfira os cogumelos para
a tigela do mixer, ou liquidificador, adicione as nozes e bate até ficar
homogêneo. Se a consistência estiver muito firme, adicione um pouco mais de
creme de leite. Verifique o tempero e despeje em um ramekin. Deixe esfriar e
leve à geladeira antes de servir.
Preparo: Derreta metade da
manteiga em uma panela em fogo médio-baixo. Adicione as échalotes picadas e
frite por 2 minutos. Em seguida, adicione o alho e refogue por mais 2 minutos.
Adicione o fígado com tomilho e louro. Frite suavemente por cerca de 3 minutos
de cada lado (os fígados terão um tom rosado no meio). Abaixe o fogo e adicione
a bebida escolhida. Deixe reduzir por 2 minutos. Despeje o conteúdo da panela
no processador de alimentos (ou no liquidificador) e remova a folha de louro.
Bata até ficar homogêneo. Abra o o processador e adicione a manteiga restante,
o creme de leite, o sal e a pimenta. Misture por mais alguns segundos, até que
tudo esteja bem incorporado. Transfira para uma tigela de cerâmica ou vidro e
alise a superfície. Cubra e coloque na geladeira por pelo menos 2 horas.