sexta-feira, 24 de maio de 2019

O que tem por trás da tradição do chocolate quente com churros em 25 de maio?


Nessas terras topicais brasileiras, sobretudo no litoral escaldante, é quase uma excentricidade quando alguém pede um chocolate quente (olhe que eu tenho experiencia nisso: sempre observo a fisionomia das pessoas quando eu vou em lugares e peço chocolate quente para beber. As pessoas devem me achar sei lá o que..., mas não troco minha bebida quentinha pelas caras feias das pessoas). Foi pensando nisso, e por estar no mês de maio, que resolvi tratar de tradição do chocolate quente com churros, encontrada em alguns países que foram colônias espanholas no passado, em 25 de maio.


Inicialmente, devo ressaltar que questões estritamente históricas são motivos para tornar datas importantes, e aniversários patrióticos oferecem mais elementos para tornar essas datas diferentes. Logo, se hoje nos trópicos pode parecer uma excentricidade, em tempos coloniais era comum. E depois, quando as colônias americanas de países europeus descobriram as maravilhas do cacau, o habito do chocolate quente se espalhou pelo mundo (já tratei disso anteriormente contando sobre o luxo do chocolate quente [CLIQUE AQUI] e sobre a guerra do chocolate em pó, que conta como esse ingrediente, hoje banal, apareceu, causando reboliço [CLIQUE AQUI]).


Maxwell Bloch, em seu trabalho intitulado Chocolate, virreyes y virreinas (Chocolate, vice-reis e vice-rainhas) aponta, inclusive, como o chocolate foi revolucionário na sua chegada à Espanha. Antes da chegada dos espanhóis: o 'xocolatl' era uma bebida fria especialmente preparada para os tlatoanis e as grandes elites.



Tlatoani (do nauatle tlahtoāni [t͡ɬaʔtoˈaːni] 'aquele que fala'), era o termo utilizado pelos povos nauas da Mesoamérica para designar os governantes dos altépetl (cidades). Eram escolhidos pelos nobres (pipiltin) como governantes, sendo escolhidos entre uma família ou dinastia governante nas diferentes cidades. Os tlatoanis que governavam vários altépetl (como no caso dos mexicas) eram designados Huey Tlatoani.
O termo Tlatoanis tem sido, geralmente, traduzido de forma incorreta para designar rei ou imperador, o que me parece impreciso, sobretudo quando se considera que os povos mesoamericanos não formavam reinos ou impérios – mas, vulgarmente, o termo serve para dar essa representatividade monárquica a quem detinha esse título.
A bebida 'xocolatl' tinha muito simbolismo e não deveria ser consumida pelo povo a menos que fosse uma ocasião especial como uma festividade. 



Mas, com a chegada dos espanhóis, a bebida foi modificada, foi alterada – sendo adoçada com açúcar e temperada com canela para agradar ao paladar dos europeus –, e se tornou uma nova bebida quente que poderia ser consumida por todas as pessoas, já que os colonizadores espanhóis tiraram as proibições pré-hispânicas relativas ao seu consumo.
A bebida então entrou na lista de alimentos de primeira necessidade, básico, porque além de seu gosto requintado e sua grande contribuição nutricional, e ajudava a reconfortar pessoas com tipos diferentes de enfermidades e mau humor. Logo, o chocolate se tornou um vício nas aldeias da Nova Espanha, especialmente entre as mulheres.
A Nova Espanha existiu de 1535 a 1821, sendo um reino da Espanha durante o período colonial, na América do Norte e Central, onde hoje correspondem os estados de Arizona, Califórnia, Colorado, Nevada, Novo México e Utah nos Estados Unidos até à Costa Rica na América Central, tendo como capital a Cidade do México. 

Bandeira de Nova Espanha

O comprimento máximo do Vice-Reino da Nova Espanha, com a adição de Louisiana (1764-1803). Em território verde claro não controlada de forma eficaz, mas alegou como parte do Vice-Reino.

Brasão de Nova Espanha

A Nova Espanha não só administrava as terras compreendidas entre estes limites mas também o arquipélago das Filipinas na Ásia. Depois da derrota do exército espanhol pelas tropas de Agustín de Iturbide e Vicente Guerrero, todo o território (com exceção do arquipélago asiático) passaram a formar parte do Império Mexicano a partir de 28 de Setembro de 1821.
Naquele tempo, para as sociedades em Nova Espanha, o chocolate também tinha simbolismo. Quando alguém era convidado para visitar a casa de outra pessoa, o anfitrião sempre oferecia chocolate e era sinal de má-educação, rudeza, se o convidado tomasse o chocolate. Então, ninguém deveria se surpreender que, na véspera da Revolução de Maio, o chocolate era algo comum.



A Revolução de Maio foi uma série de eventos que ocorreram entre 18 e 25 de maio de 1810 na cidade de Buenos Aires, capital do Vice-Reino do Rio da Prata. Esta era uma colônia do Império Espanhol que incluía aproximadamente os territórios dos atuais países da Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai. O resultado foi a remoção do vice-rei Baltasar Hidalgo de Cisneros e o estabelecimento de um governo local, a Primeira Junta. A Revolução de Maio foi a primeira revolta bem-sucedida no processo de independência da América do Sul.
Contudo, a história do chocolate quente de 25 de maio entra para os anais da história num episódio bélico, como bem conta o jornalista e pesquisador Daniel Balmaceda, autor de La comida en la historia argentina.


Em 25 de maio de 1826, durante a Guerra da Cisplatina, conflito ocorrido entre o Império do Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata (no período de 1825 a 1828, pela posse da Província Cisplatina, a região da atual República Oriental do Uruguai), as forças navais patrióticas comandadas por William Brown, conhecido naquela região como Guillermo Brown, dispararam suas armas na área do atual Puerto Madero para os navios brasileiros, que não responderam. Em navios patrióticos eles celebravam com chocolate quente. A partir daquele episódio, graças a Brown, a tradição do chocolate quente surgiu como a bebida oficial dos dias patrióticos.

Almirante William (Guillermo) Brown

Nessa data, 25 de maio, se celebra o Dia da Pátria, na Argentina, que foi quando o Primeiro Governo Crioulo foi formado em frente ao Cabildo, em 1810. Essa data nada tem a ver com a independência argentina – a Declaração de Independência do Reino espanhol ocorreu vários anos depois (9 de julho de 1816). Igualmente ambos os fatos estão relacionados, já que com a Revolução de Maio, a Independência da Argentina começou a tomar forma.



Cabildo era uma corporação municipal instituída na América Espanhola durante o período colonial que se encarregava da administração geral das cidades coloniais. Era o órgão que dava representatividade legal à cidade, através do qual os habitantes resolviam os problemas administrativos, econômicos e políticos do município.

Plaza de Mayo e o Cabildo de Buenos Aires, em 1867.

O cabildo é derivado de instituições similares da Espanha medieval, transplantadas à América pelos primeiros conquistadores já no século XVI. Os membros do cabildo eram escolhidos entre os principais habitantes da cidade, que detinham assim amplos poderes jurídicos e administrativos. Com o tempo, os cabildos foram perdendo muito do seu poder devido às tendências centralizadoras do poder colonial espanhol, que se observaram na América espanhola a partir do século XVIII. Os cabildos permaneceram, porém, como os representantes máximos da oligarquia dos criollos, os descendentes dos colonizadores espanhóis.


O chocolate crioulo era menos espesso do que o que é normalmente era consumido na Espanha, ou na Europa em geral. E o hábito de tomar chocolate no inverno já estava tão arraigado que, faz alguns séculos, os teólogos tiveram que pedir uma dispensa ao Papa para que excluísse a bebida das normas de jejum, caso contrário, tudo seria em pecado Madrid. Tudo por conta do “Liquidum non rumpit jenjunium" - o líquido não quebra o jejum.
O churro, herança espanhola, é o aliado tradicional da xícara de chocolate e é muito popular em Castilla, mas os churros são consumidos em Espanha têm geralmente uma forma de ferradura, enquanto na Argentina churros retos, que a rigor podem parecer bastões, e lá são os mais consumidos. Às vezes, esses bastões são recheados com doce de leite ou creme e, em geral, polvilhados com açúcar.




Assim, quem acompanhou o programa Chaves, vai entender a ligação do chocolate quente com churros e considerar as ligações do México com a Nova Espanha. E quem visitar Madrid, Argentina, Uruguai, vai perceber que existem muitos lugares para apreciar chocolate quente com churros, como também existem em outros países americanos.


Depois, tratarei da origem dos churros mas, por enquanto, deixo abaixo duas receitas práticas para chocolate quente e churros que podem te inspirar a comemorar este 25 de maio.

Chocolate quente cremoso

(rende de 2 a 3 xícaras)
250ml de leite integral
250ml de creme de leite fresco
100 g de chocolate meio amargo picado
50 g de chocolate ao leite picado
1 pitada generosa de canela em pó
Para decorar: chantilly caseiro, cacau ou canela em pó (opcional)

Preparo: Leve o leite e o creme de leite para ferver, com a pitada de canela. Depois que levantar fervura e começar a subir, desligue o fogo e tampe a panela para infusionar mais com a canela, por 2 minutos. Em seguida, adicione os chocolates picados no leite quente. Misture. Coloque a panela em fogo moderado e deixe engrossar delicadamente por 5 a 10 minutos, misturando. Retire do fogo quando a consistência combina estiver a seu gosto (eu prefiro mais grossinho e cremoso). Sirva chocolate quente imediatamente, com um pouco de chantilly e cacau (ou canela) em pó para decorar.

Churros rápidos

250 g de farinha de trigo
250 a 280 ml de água
1 pitada de sal
2 colheres de sopa de azeite (ou óleo)
1 pitada de bicarbonato (opcional)
Óleo de fritar neutro
Açúcar e canela para passar os churros

Preparo: coloque a água pra ferver com o azeite. Enquanto isso, misture os ingredientes secos (farinha, sal, bicarbonato). Adicione o óleo e água fervente aos ingredientes secos e misture energeticamente com uma colher de pau. A massa deve ser pegajosa, se não for o caso, adicione um pouco mais de água. Despeje em um saco de confeiteiro (ou nun caso de açúcar seco, com uma ponta larga e canelada. Coloque o óleo pra esquentar. Aperte o saco de confeiteiro e deixe cair  a massa num tamanho de 10 a 15 cm de comprimento na panela com óleo já quente, frite por 3 minutos, ou até que os churros fiquem dourados. Polvilhe com o açúcar e canela, sirva com chocolate quente.

sábado, 20 de abril de 2019

Potica - um tradicional bolo da páscoa eslovena


Em maio de 2017, durante uma visita oficial do presidente dos Estados Unidos ao Vaticano, o Papa Francisco e a primeira-dama dos EUA Melania Trump conversavam despretensiosamente... foi quando um comentário do Papa gerou rebuliço e desencadeou ‘fama’ para um bolo tradicional esloveno conhecido como Potica. 



De acordo com relatos de fontes como a Associated Press e o The Guardian, o papa fez um gesto em direção ao presidente Trump e perguntou para a primeira-dama algo como: “O que você dá para ele comer? Potica? [Estava o Papa brincando com o peso de Donald Trump?]


Porém, deu-se uma infinidade de Interpretações para diferir esse episódio, embora pareça que pelo menos momentaneamente, a primeira-dama pensou que o papa estava falando sobre pizza.
A Associated Press concluiu que ela finalmente pegou e disse: "Potica, ah sim", enquanto o The Guardian sugeriu que ela disse "pizza". Mas, na época, a Internet não perdoou e então surgiram memes com o episódio que divertiram muita gente, naturalmente.
Foi lembrando desse episódio, e por amanhã ser domingo de Páscoa, lembrei que a Potica é tradicionalíssima entre os eslovenos para essa época do ano, e achei que seria interessante para o blog incluir essa receita no seu legado. Outro fato, é que essa preparação é, aparentemente, uma das favoritas do Papa Francisco que, de acordo com a Associated Press, rotineiramente o pontífice fala com os visitantes eslovenos sobre isso. Mas o que exatamente é a potica (pronuncia-se poh-TEET-sah)?



Trata-se de um tipo de pão doce, mais comumente feito com recheio de noz, e tradicional entre os eslovenos. Mas, que também poderá ser encontrado na Sérvia e na Croácia como povitica; e o beigli húngaro seria um parente próximo.
Muitas vezes, é referido como bolo, pelo fato de ser consistindo de uma massa de levedura enriquecida com manteiga e ovo, onde se espalha um recheio de nozes, para depois ser enrolada, deixar crescer e ser assada. A potica pode lembrar a babka (já falamos dela AQUI)
É encontrado nos dois feriados mais importantes: a páscoa e o natal. Mas, também em ocasiões especiais, e especialmente na Páscoa, rivaliza com ovos em termos de importância na mesa eslovena.



A Eslovênia, é um país pequeno, mas é muito diversificado, e por isso se pode encontrar variações desse preparado que pode vir na forma de um tronco (enrolado) ou de um bolo desses com furo no meio. Para o recheio, além das tradicionais nozes, ainda se pode usar, queijo com estragão, chocolate, sementes de papoula, bacon, avelãs....
Como muitos pães fermentados, a potica leva tempo e demanda certo esforço para ser feita. É por isso que, mesmo na Eslovênia, é mais provável que você compre uma já pronta na padaria ou na mercearia local. E daí se percebe que pode se tratar de uma tradição em risco, e que merece ser estimulada e preparada para além do valor simbólico.
Os eslovenos preparam Potica há séculos. A primeira menção deste prato tradicional remonta ao século XVI, quando foi gravado no primeiro livro já impresso em esloveno.



A Potica foi mencionada pela primeira vez por Primož Trubar, um padre luterano que publicou os primeiros livros em esloveno no século XVI. Também foi mencionada por Janez Vajkard Valvazor, um polihistor esloveno que escreveu o famoso The Glory of the Duchy of Carniola no século XVII. 


The Glory of the Duchy of Carniola 


Sua receita foi descrita pela primeira vez por Valentin Vodnik, um poeta esloveno que escreveu o primeiro livro de receitas esloveno em 1799. O primeiro livro inteiramente dedicado à potica (Slovenian Potica, 2013) foi escrito pela doutora Janez Bogataj, famosa etnóloga eslovena.




Seu nome deriva da palavra eslovena poviti, que significa "embrulhar", forma em que se enrola o preparado. E Potica é uma parte tão importante da herança eslovena que foi duas vezes apresentada em seus selos postais.




A primeira vez foi em 1993 na série Europe in miniature. O selo foi desenhado pelo lendário Miljenko Licul, também o designer do passaporte esloveno e do cartão de identidade nacional, bem como o lado nacional das moedas Euro da Eslovénia.
O segundo selo foi publicado em 2005 na série Europa - Gastronomy. Possui três poticas típicas: nogueira, semente de papoula e estragão, simbolizando três regiões geográficas da Eslovênia: os Alpes, as planícies da Panônia e o Mediterrâneo.
A parte mais importante de fazer Potica é a preparação da massa levedada, que é um processo delicado que requer tempo e paciência. Uma vez que a massa tenha subido, ela é preenchida com um recheio (doce ou salgado) e depois assada. Existem mais de quarenta tipos diferentes de recheios para Potica, mas os mais populares entre os nativos da Eslovênia são o de nozes, estragão, mel, bacon e alfarroba.



Ao longo da história, todas as classes sociais prepararam Potica para celebrar ocasiões festivas. O recheio do bolo era um símbolo do status social da família. As famílias mais ricas usavam recheios caros, como nozes e creme, e os pobres só podiam arcar com ervas ou amor (pedaços duros de gordura). Hoje, o recheio não é mais um indicador da classe de uma família, mas Potica continua a ser uma tradição nas famílias eslovenas.
Nenhum feriado importante é comemorado sem a Potica tradicional. Depois de muitos séculos, ainda simboliza uma época festiva em que toda a família se reúne em casa. Isso traz lembranças felizes e esperanças de um bom futuro. Ao viajar na Eslovênia, os visitantes devem experimentar este prato tradicional para ver por que ele tem sido e continua sendo tão importante para o povo da Eslovênia.
O bolo de potica esloveno, que ganhou fama pelo mundo inteiro graças ao Papa Francisco, graças ao episódio que abre esta postagem, e por conta dele causou reboliço ao ponto de tornar-se protegido como um prato tradicional esloveno. A proteção cobrirá a receita exclusiva, o processo de cozimento e os ingredientes. A The Slovenian Chamber of Agriculture and Forestry (Câmara Eslovena de Agricultura e Florestas) assumiu o papel de liderança na harmonização de receitas e recheios.



A Câmara Eslovena de Agricultura e Florestas, em cooperação com a Câmara de Comércio e Indústria da Eslovênia, organizou uma série de degustações de bolos potica com especialistas e cidadãos para o desenvolvimento de uma receita ideal para cozinhar massas e recheios de potica.
Prescrições acordadas foram testadas em várias padarias, e a receita de massa foi aprovada de acordo com os resultados obtidos. Também se concordou que cinco tipos de potica passaria a ser protegidos: a tradicional, com recheio de nozes; com nozes e passas; com passas; com estragão; e a com estragão e queijo cottage.



O processo de proteção começará com o solicitante que enviar o pedido, que deverá conter uma especificação descrevendo o procedimento de produção, ingredientes, relação histórica, etc. A especificação deve indicar os documentos que confirmam o uso do nome oficial - “Slovenska Potica”.
Em seguida, o Ministério da Agricultura publicará a especificação em seu site e a enviará para revisão e exame ao Ministério da Saúde e à Agência de Nutrição Saudável, Veterinária e Proteção de Plantas. A especificação será publicada oficialmente por 30 dias e, durante esse período, qualquer pessoa ou organização poderá enviar comentários a ela. Possíveis comentários serão considerados por comissões de especialistas, que incluem especialistas em culinária, tecnólogos de alimentos e especialistas em nutrição.




Os fabricantes, que desejam incluir seus produtos com esse nome exclusivo protegido, terão que obter um certificado. Se o processo de produção em uma determinada padaria estiver de acordo com a especificação, o órgão oficial emitirá um documento de autorização - um certificado declarando que o produto usando um nome exclusivo legalmente protegido é realmente autêntico. Os produtores serão obrigados a passar pelo procedimento de certificação uma vez por ano.
Anteriormente, os eslovenos já defendiam “Prekmurska gibanica” (bolo de camadas Prekmurje), “Idrijski žlikrofi” (bolinhos de farinha com molho) e “Belokranjska pogača” (pão de forma Bela Krajina) como seus pratos exclusivos e tradicionais. E agora tem mais a potica como bem protegido.
Por estar entre as obras culinárias mais famosas da Eslovênia, a Potica, chega a ser incorporada pelo turismo ao ponto da Organização de Turismo da Eslovênia prestar especial atenção a este prato e realizar vários eventos a partir dele. O Ministério das Relações Exteriores, em sua página no Twitter, observa que a Eslovênia é o berço não só da potica, mas também dos vinhos “Teran” e da “Kranjska klobasa” (linguiça de Carníolo). Mas a potica ainda é produto raro nas importações, mas que vem sendo trabalhado por especialistas do mercado para ganhar popularidade pelo mundo.



Enquanto você não vai para a Eslovênia degustar uma potica tradicional, deixo a receita para que você se inspire em preparar. Amanhã será domingo de páscoa, uma ótima oportunidade para apresentar essa inovação na sua refeição em família, ou para presentear amigos.

Potica
Para a massa
16 colheres de sopa de manteiga sem sal
1/2 xícara de leite integral
1/4 xícara de água morna
4 e 1/2 colheres de chá fermento biológico seco (dois saquinhos)
3 gemas
2 e 1/2 xícaras de farinha, além de mais para laminação
1/4 colher de chá de sal
1/4 de xícara de açúcar
Para o recheio
1 colher de chá de canela em pó
2 xícaras de nozes finamente picadas
3 colheres de sopa mais 1 xícara de açúcar
1/2 xícara de passas picadas (pode ser tâmaras)
3/4 xícara de leite integral
3 claras de ovos grandes, à temperatura ambiente
Preparo: Para a massa: Misture a manteiga e o leite em uma panela pequena em fogo médio-baixo; cozinhe até que a manteiga derreta, depois desligue o fogo e deixe esfriar para ficar morna. Despeje a mistura morna na tigela de uma batedeira (ou com um batedor de mão) bata e misture o fermento. Deixe descansar por pelo menos 5 minutos (para garantir que a levedura esteja ativa; deve borbulhar ou espumar na superfície). Junte as gemas e a mistura de manteiga e leite e acrescente a farinha, o sal e o açúcar. Bata em velocidade média-baixa para formar uma massa pegajosa e suave. Transfira para uma tigela untada com untada com óleo; cubra com filme plástico engraxado diretamente na superfície e leve à geladeira 8 a 12 horas (seria interessante fazer durante a noite para preparar no outro dia). Para o recheio: Misture a canela, nozes, 3 colheres de sopa de açúcar, as passas e leite em uma panela em fogo médio. Cozinhe por 7 a 10 minutos, mexendo, até engrossar a mistura. Deixe esfriar. Despeje as claras na tigela de uma batedeira ou batedeira de mão equipada com um batedor de balão. Bata em velocidade média até ficar espumoso, depois aumente a velocidade para médio-alto. Gradualmente adicione o restante 1 xícara de açúcar, batendo para formar um merengue que mantém picos firmes. Com cuidado, misture o merengue na mistura de noz resfriada. Montagem: Divida a massa descansada e refrigerada ao meio. Farinha levemente uma superfície de trabalho. Trabalhando com uma porção da massa de cada vez, espalhe farinha de ambos os lados e enrole cada uma delas em uma rodada de um centímetro. Espalhe o recheio de nozes em cada massa aberta, deixando uma margem de 1 centímetro nas bordas. Enrole formando um tronco bem apertado. Unte uma forma com óleo de cozinha; transferir o tronco de massa recheado, cubra com filme plástico ou pano de prato e deixe crescer por 30 minutos. Quando estiver pronto para assar, pré-aqueça o forno a 350 graus. Assar por 50 a 60 minutos, até que o topo esteja bem dourado e fazendo o teste do palito ele saia limpo (sequinho). Deixe esfriar na forma por pelo menos 5 minutos e, em seguida, inverta em um prato. Servir.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Merdalicorosa: o licor de merda de Portugal


Não, aqui não se faz uso de chamada sensacionalista para ganhar visualizações; nem se trata de brincadeira (de mau gosto) para ludibriar beberrões em balcões de bares. É, simplesmente, isso mesmo que você leu: licor de merda. Mas garanto que não vai ter merda na bebida. Sossegue.


A história dessa bebida curiosa se dá pelo idos da década de 1970, quando Portugal encontrava-se com vida política conturbada. E a bebida surge como forma de protesto, partindo da insatisfação popular com o Estado Novo, em vigor desde 1933.
Assim, o licor de merda surge originário de Cantanhede, pequena cidade do distrito de Coimbra, no ano de 1974, a partir da imaginação fértil do comerciante Luís Nuno Sérgio. Desde então se espalhou e ficou conhecido de tal forma que conquistou paladares de consumidores em terras internacionais.



O preparado é feito à base de leite, infusionado com aromáticos, que ganha uma cor amarelada no produto final. O rótulo, muitas vezes, aponta a jocosidade do espirito no qual foi criado e onde se pode ler, por exemplo, provocações do tipo: “É extraído a partir de diversas merdas de confiança...”.



Quanto ao surgimento, Luís Nuno Sérgio, já contava que tinha um garrafão de 20 litros para onde costumava mandar resíduos de outros licores que ia fazendo, e a essa compilação de restos dava o nome de licor de merda, que, obviamente, tinha um sabor variável consoante as sobras que lá se depositavam. Isso teria sido a origem.


O Criador experimentando a criação. Fonte: Facebook.


No entanto, houve posteriormente uma retomada do título para uma bebida, quando se resolveu melhorar a receita e fazer deslanchar com o produto. Neste caso, esta aplicação seria política e se contextualizava pelos desafios que a sociedade precisava superar em meio a desordem partidária, quando Direita e Esquerda não se entendiam numa altura de pós-revolução (parece o momento atual do contexto político brasileiro), e o Portugal andava abismando uma guerra civil.



O comerciante Luís Nuno Sérgio sem papas na língua, dirige-se diretamente ao então Primeiro-Ministro Vasco Gonçalves – fato que também pode ser encontrado e ser lido no rótulo da bebida: “um produto de alta qualidade, cuja fórmula pertenceu no final do século XX ao Frade maluquinho Basku Gonsalbes”.



Mais tarde, ainda se saberia de um episódio televisivo onde apresentadores espanhóis se aproveitando do nome curioso da bebida faz a marca ser alvo de uma pequena rábula: os apresentadores espanhóis tendo a informação que em Cantanhede se produzia licor de merda resolvem telefonar para a pequena cidade Beirã e pedir mais informações sobre a dita merdalicorosa. E tudo foi explicado.
Dentre os principais consumidores, além do mercado nacional português, Suíça e Luxemburgo aparecem entre os maiores demandantes. Enquanto outros lugares apenas incrementam suas cartas de licores com essa preciosidade de merda, e os criativos da gastronomia se aventuram a inovar e criar receitas incluindo a dita merdalicorosa fazendo surgir, sorvetes, mousses, pudins, bbolos e outros drinques como a “caipimerda” – deve ser coisa de brasileiro perdido pelo mundo.
* CAIPIMERDA *
Copo: Old Fashion
Ingredientes: 5 cl Licor de Merda, 1 Lima, Gelo Picado e 2 Palhinhas.
Preparação: Corte a lima em oito pedaços. Ponha os pedaços de lima num copo old fashion e esmague-a até o sumo se libertar. Junte o Licor de Merda e o gelo moído e misture. Sirva com palhinhas curtas.

* MERDOSKA *
Copo: Old Fashion
Ingredientes: 5 cl Licor de Merda, 1 Lima, Gelo Picado, Vodka a gosto e 2 Palhinhas.

Preparação: Idêntico à Caipimerda. No final adicione um pouco de Vodka a gosto. Sirva com palhinhas curtas.


Espero que essa não tenha sido mais uma investigação de merda. Até por que, aqui se acredita que, neste caso, a merda é benéfica se bebida com moderação - como qualquer outra merda.
Então, seja ousado (a) e vá além: experimente fazer sua própria merdalicorsa. E seja feliz!

Licor de Merda

1 litro de leite
500gramas de açúcar
150gramas de cacau em grão
1 vagem de baunilha aberta ao meio
1 pau de canela
2 rodelas de laranja
2 rodelas de limão
1 litro de aguardente

Preparo: Ferver o leite numa panela. Quando arrefecer, juntar o resto dos ingredientes: aguardente, açúcar, chocolate, baunilha e as rodelas de limão. Mexer bem e deixar a fermentar durante 8 dias. Mexer todos os dias à mesma hora com uma colher de pau. No último dia coar com a ajuda de um pano (outra sugestão também é coar em filtros de papeis, desses de coar café. E filtrar umas duas vezes) deixando assentar bem e engarrafar.