domingo, 2 de junho de 2019

O que dá ao Red Velvet Cake seu ar de je-ne-sais-quoi?


O bolo veludo vermelho é um bolo popular, com uma coloração vermelha ou marrom-avermelhada. É usualmente preparada como um bolo de camadas, coberto e recheado com creme de manteiga ou de cream cheese – ambos os cremes serviram para dar mais popularidade ao bolo. O tom marrom-avermelhado é originado a partir da reação entre o elemento ácido do bolo, o leitelho e as antocianinas presentes no chocolate. Entretanto, corante vermelho pode ser adicionado para intensificar. Os ingredientes comuns são: leitelho, manteiga, farinha, cacau em pó, e beterraba ou corante vermelho. A quantidade de cacau varia entre as receitas. A cobertura de cream cheese é tradicional, assim como a de creme de manteiga.


O Red Velvet experimentou uma explosão de popularidade nos últimos anos. Além do bolo homônimo, Red Velvet está agora disponível em forma de cupcake, juntamente com panquecas, biscoitos, sorvetes e até lattes! O bolo ganhou popularidade no século 20, mas suas raízes se estendem mais para trás. As verdadeiras origens do Red Velvet Cake não são completamente conhecidas. No entanto, sua história pode ser rastreada ao longo dos anos, graças a livros de receitas, receitas e avanços na produção de alimentos.
Velvet (Veludo) era o termo usado na Inglaterra vitoriana para descrever bolos com um miolo fino e uma textura macia, distinto entre outros confeitos, como pound cakes (bolos mais densos) e sponge cakes (pão-de-ló).  Esse tipo de bolo começou a ser feito desde o século XIX. As receitas pediam o uso de cacau para amaciar a farinha e fazer bolos de textura mais fina. Esta textura mais suave deu a estes bolos o nome de bolos de veludo (red Velvet). O Mahogany cake (bolo de mogno) também era popular e incorporava cacau e café (seu primo é o Devil's Food Cake – já tratamos desse bolo AQUI).


No início dos anos 1900, surgiram receitas de bolos de cacau aveludado (cocoa velvet cake), bolos vermelhos de cacau (red cacau cake) e outras variações. Uma das menções mais proeminentes do bolo Red Velvet veio em 1943, em “The Joy of Cooking” de Irma S. Rombauer (sim - o livro que inspirou a carreira de Julia Child). Enquanto a Sra. Rombauer não era muito fã e anotou isso em seu livro, foi uma das primeiras menções nacionalizadas do bolo Red Velvet.


Quando os itens ideais para o cozimento (especificamente açúcar e manteiga) foram racionados durante a Segunda Guerra Mundial, alguns padeiros e confeiteiros começaram a adicionar beterraba ou suco de beterraba em seus bolos. Isso foi feito por vários motivos. O vermelho do suco de beterraba tornava os bolos mais atraentes, e as beterrabas também agiam como incremento que mantinham os bolos úmidos. Algumas receitas de red velvet realmente pedem beterraba, mas não há uma correlação clara entre beterraba e bolo de veludo vermelho, apenas uma teoria sobre as origens do bolo.


À empresa Adams Extract atribui-se fazer o bolo “original” Red Velvet na década de 1920. Atualmente você pode comprar o mix da empresa em sua embalagem vintage. O Waldorf Astoria Hotel, em Nova York, também alega que é o local de nascimento do bolo Red Velvet, estando o bolo em seu menu popular desde os anos 50. Alguns argumentam que o bolo Red Velvet é oriundo do Sul dos Estados Unidos. Enquanto não há uma resposta clara, sabemos que foi por volta dos anos de 1920 e 1950, que o Red Velvet se popularizou nos Estados Unidos.


No Canadá, o bolo era uma sobremesa bem conhecida nos restaurantes e padarias da cadeia de lojas de departamentos Eaton nas décadas de 1940 e 1950. Promovida como uma receita exclusiva da Eaton, com funcionários que conheciam a receita que juraram silêncio, muitos acreditaram erroneamente que o bolo foi a invenção da matriarca das lojas de departamento, Lady Eaton.


Hoje, o Red Velvet Cake confia mais em corantes vermelhos do que em beterrabas. Outra razão pela qual o corante alimentício é usado para dar ao bolo sua cor de assinatura é devido à maneira como o cacau é processado nos Estados Unidos. A maioria do cacau disponível nas lojas de mantimentos é conhecida como cacau processado holandês (fiz um post sobre a Guerra do Chocolate em pó que esclarece isso direitinho - CLIQUE AQUI). O fato é que o cacau natural é bastante ácido. Quando é processado, o ácido é reduzido ao criar uma cor marrom rica. É o ácido no cacau natural que reage ao leitelho criando uma tonalidade avermelhada. Como o cacau natural não é tão amplamente disponível, os padeiros/confeiteiros optam, em vez disso, por usar o cacau processado holandês e adicionar corante alimentar para dar a cor mais intensa aos bolos.


Enquanto isso, em Austin, Texas, o vendedor de corantes e extratos de alimentos John A. Adams estava ficando rico. Ele e sua esposa Betty provaram o bolo de veludo vermelho no Waldorf, de acordo com as histórias da Adams Extract Company. Em 1938, o governo aprovou a Lei de Alimentos, Medicamentos e Cosméticos (federal Food, Drug and Cosmetic Act in 1938), aplicando regulamentações sobre corantes alimentares. Adams decidiu que o veludo vermelho seria o seu trem para o sucesso, e como um ato de proeza de marketing, o casal optou por vender mais corantes e extratos. Na década de 1940, eles lançaram uma receita de bolo de mogno (mahogany cake) que usava corante vermelho. A receita era impressa em cartões e vendida com baunilha, corante vermelho e aromatizante artificial de manteiga - um aditivo popular durante a Segunda Guerra Mundial, quando a manteiga foi racionada. Incluía uma receita de cobertura, conhecida como cobertura de leite cozido, feita com leite, farinha, manteiga e açúcar. 



O veludo vermelho tornou-se popular nos lares texanos e nas feiras estaduais do Centro-Oeste, espalhando-se para o sul, onde hoje tem um dia especial dedicado a ele nas festas do Dia da Emancipação e nas celebrações da Juneteenth - uma coleção de alimentos vermelhos que simbolizam o derramamento de sangue durante a escravidão e a Guerra Civil.
Mas o veludo vermelho nem sempre foi popular entre as multidões culinárias. Como mencionei anteriormente, a Irma S. Rombauer escreveu na edição de 1943 de A Alegria da Culinária (The Joy of Cooking): "Geralmente popular, mas não comigo, que não deve ser tomado como critério." Enquanto James Beard afirmava que o bolo era "brando e desinteressante", e veludo vermelho lutou por um destaque em livros de receitas populares nos anos 80 e no início dos anos 90.


Nos últimos anos, o red celvet cakes e os cupcakes red velvet tornaram-se cada vez mais populares nos EUA e em muitos países europeus. Um ressurgimento da popularidade deste bolo é atribuído por alguns ao filme Steel Magnolias (1989), que incluiu um bolo de noivo de veludo vermelho feito na forma de um tatu, e virou uma estrela.




A Magnolia Bakery em Manhattan serve esse bolo também em forma de cupcakes desde sua inauguração em 1996, assim como os restaurantes conhecidos por sua culinária sulista como a Amy Ruth's no Harlem, que abriu em 1998. Em 2000, Cake Man Raven abriu uma das primeiras padarias dedicadas ao bolo no Brooklyn, onde vende este bolo para as celebridades.


Em 2005, o veludo vermelho era um item básico em quase todas as padarias sofisticadas de todo o país. Em 2011, o amor da América pelo veludo vermelho atingiu seu auge, com red velvet fried chicken na American Cupcake em San Francisco; red velvet lattes na Dunkin’ Donuts; red velvet Pop-Tarts; and red velvet tea na the Republic of Tea. E se você não consegue deixar o bolo na cozinha? Há loção para o corpo de veludo vermelho, sabonetes e protetor labial também.



Red velvet Cake (receita tradicional)
Para um bolo de 3- 6 camadas
2 e 1/2 xícaras de farinha de trigo
2 colheres de sopa de cacau em pó não alcalinizado (como Nestle ou Hershey's)
1 colher de chá de bicarbonato de sódio
1 xícara de leitelho (leite integral com uma colher de chá de suco de limão)
2 colheres de chá de corante alimentício vermelho
1 colher de chá de baunilha
1 e 1/2 xícaras de açúcar mascavo
1 e 1/2 xícaras de óleo vegetal
1 colher de chá de sal
2 ovos grandes
1 colher de chá de vinagre de vinho tinto ou branco
Para recheio/Cobertura
1 xícara de leite integral
1 xícara de açúcar granulado
4 colheres de sopa mais 2 colheres de chá de farinha de trigo
1/4 colher de chá de sal
250 gramas de manteiga sem sal em temperatura ambiente
1 colher de chá de extrato de baunilha
Preparo: Para o bolo - pré-aqueça o forno a 180 graus. Unte 3 formas de bolo de 20cm de diâmetro com manteiga e forre os fundos com círculos de papel manteiga. Reserve. Peneire a farinha, o cacau e o bicarbonato de sódio. Deixou de lado. Misture o leitelho com o corante alimentar e baunilha juntos - reserve. Com um misturador de mão ou na tigela da batedeira, misture o açúcar, o óleo e o sal. Adicione os ovos 1 de cada vez e bata até emulsionar. A mistura vai engrossar e ficar opaca. Adicione alternando os ingredientes secos com a mistura de leitelho, até ficar homogêneo, e então misture o vinagre e mexa bem. Divida uniformemente entre as três formas preparadas e leve ao forno por 40 a 45 minutos, ou faça o teste do palito. Retire do forno e deixe esfriarem nas formas por 10 minutos e, em seguida, coloque-os em uma gradinha para esfriar completamente, e só depois disso retire o papel do fundo do bolo. Para o recheio/cobertura: Em uma panela média, misture o leite, o açúcar, a farinha e o sal. Deixe ferver em fogo médio, mexendo sempre. Deixe ferver por 15-30 segundos e, em seguida, passe em uma peneira de malha fina dentro de uma tigela. Deixe esfriar até ficar em temperatura ambiente. Depois disso, junte a baunilha e misture bem.  Com a ajuda da batedeira, ou batedor de mão, agregue a manteiga aos poucos batendo bem para emulsionar. Uma vez que toda a manteiga foi adicionada, bata em alta velocidade por alguns 5-7 minutos (ou mais) até que a cobertura esteja lisa e fofa. Se ainda não estiver se unindo em uma massa fofa gloriosa, leve à geladeira por alguns minutos e, em seguida, bata novamente. Montagem: Corte os topos dos bolos e esmigalhe-os.  Manche com um pouco da cobertura no centro do seu prato de bolo e coloque uma camada de bolo em cima. Espalhe uniformemente cerca de 1/2 xícara do creme de cobertura/recheio. Repita até terminar as camadas todas. Verifique se o bolo está nivelado e as camadas estão empilhadas uniformemente e, em seguida, leve à geladeira por 30 minutos ou mais. Isso evitará que suas camadas deslizem enquanto decora. Depois disso, espalhe uma fina camada do creme ao redor de todo o bolo, para em seguida cobrir com uma camada mais espessa de cobertura e no topo do bolo. Use as migalhas feitas com o topo dos bolos para decorar da maneira que preferir, ou pressionando-as pelas laterais ou usando-as em um estêncil para fazer um desenho no topo como eu fiz.
Obs.: Como a gordura deste bolo é de óleo, ele não fica duro na geladeira. A manteiga na cobertura ficará dura, portanto, se você refrigerá-lo, fatie e espere 30 minutos antes de servir, para que o glacê possa amolecer.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

O que tem por trás da tradição do chocolate quente com churros em 25 de maio?


Nessas terras topicais brasileiras, sobretudo no litoral escaldante, é quase uma excentricidade quando alguém pede um chocolate quente (olhe que eu tenho experiencia nisso: sempre observo a fisionomia das pessoas quando eu vou em lugares e peço chocolate quente para beber. As pessoas devem me achar sei lá o que..., mas não troco minha bebida quentinha pelas caras feias das pessoas). Foi pensando nisso, e por estar no mês de maio, que resolvi tratar de tradição do chocolate quente com churros, encontrada em alguns países que foram colônias espanholas no passado, em 25 de maio.


Inicialmente, devo ressaltar que questões estritamente históricas são motivos para tornar datas importantes, e aniversários patrióticos oferecem mais elementos para tornar essas datas diferentes. Logo, se hoje nos trópicos pode parecer uma excentricidade, em tempos coloniais era comum. E depois, quando as colônias americanas de países europeus descobriram as maravilhas do cacau, o habito do chocolate quente se espalhou pelo mundo (já tratei disso anteriormente contando sobre o luxo do chocolate quente [CLIQUE AQUI] e sobre a guerra do chocolate em pó, que conta como esse ingrediente, hoje banal, apareceu, causando reboliço [CLIQUE AQUI]).


Maxwell Bloch, em seu trabalho intitulado Chocolate, virreyes y virreinas (Chocolate, vice-reis e vice-rainhas) aponta, inclusive, como o chocolate foi revolucionário na sua chegada à Espanha. Antes da chegada dos espanhóis: o 'xocolatl' era uma bebida fria especialmente preparada para os tlatoanis e as grandes elites.



Tlatoani (do nauatle tlahtoāni [t͡ɬaʔtoˈaːni] 'aquele que fala'), era o termo utilizado pelos povos nauas da Mesoamérica para designar os governantes dos altépetl (cidades). Eram escolhidos pelos nobres (pipiltin) como governantes, sendo escolhidos entre uma família ou dinastia governante nas diferentes cidades. Os tlatoanis que governavam vários altépetl (como no caso dos mexicas) eram designados Huey Tlatoani.
O termo Tlatoanis tem sido, geralmente, traduzido de forma incorreta para designar rei ou imperador, o que me parece impreciso, sobretudo quando se considera que os povos mesoamericanos não formavam reinos ou impérios – mas, vulgarmente, o termo serve para dar essa representatividade monárquica a quem detinha esse título.
A bebida 'xocolatl' tinha muito simbolismo e não deveria ser consumida pelo povo a menos que fosse uma ocasião especial como uma festividade. 



Mas, com a chegada dos espanhóis, a bebida foi modificada, foi alterada – sendo adoçada com açúcar e temperada com canela para agradar ao paladar dos europeus –, e se tornou uma nova bebida quente que poderia ser consumida por todas as pessoas, já que os colonizadores espanhóis tiraram as proibições pré-hispânicas relativas ao seu consumo.
A bebida então entrou na lista de alimentos de primeira necessidade, básico, porque além de seu gosto requintado e sua grande contribuição nutricional, e ajudava a reconfortar pessoas com tipos diferentes de enfermidades e mau humor. Logo, o chocolate se tornou um vício nas aldeias da Nova Espanha, especialmente entre as mulheres.
A Nova Espanha existiu de 1535 a 1821, sendo um reino da Espanha durante o período colonial, na América do Norte e Central, onde hoje correspondem os estados de Arizona, Califórnia, Colorado, Nevada, Novo México e Utah nos Estados Unidos até à Costa Rica na América Central, tendo como capital a Cidade do México. 

Bandeira de Nova Espanha

O comprimento máximo do Vice-Reino da Nova Espanha, com a adição de Louisiana (1764-1803). Em território verde claro não controlada de forma eficaz, mas alegou como parte do Vice-Reino.

Brasão de Nova Espanha

A Nova Espanha não só administrava as terras compreendidas entre estes limites mas também o arquipélago das Filipinas na Ásia. Depois da derrota do exército espanhol pelas tropas de Agustín de Iturbide e Vicente Guerrero, todo o território (com exceção do arquipélago asiático) passaram a formar parte do Império Mexicano a partir de 28 de Setembro de 1821.
Naquele tempo, para as sociedades em Nova Espanha, o chocolate também tinha simbolismo. Quando alguém era convidado para visitar a casa de outra pessoa, o anfitrião sempre oferecia chocolate e era sinal de má-educação, rudeza, se o convidado tomasse o chocolate. Então, ninguém deveria se surpreender que, na véspera da Revolução de Maio, o chocolate era algo comum.



A Revolução de Maio foi uma série de eventos que ocorreram entre 18 e 25 de maio de 1810 na cidade de Buenos Aires, capital do Vice-Reino do Rio da Prata. Esta era uma colônia do Império Espanhol que incluía aproximadamente os territórios dos atuais países da Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai. O resultado foi a remoção do vice-rei Baltasar Hidalgo de Cisneros e o estabelecimento de um governo local, a Primeira Junta. A Revolução de Maio foi a primeira revolta bem-sucedida no processo de independência da América do Sul.
Contudo, a história do chocolate quente de 25 de maio entra para os anais da história num episódio bélico, como bem conta o jornalista e pesquisador Daniel Balmaceda, autor de La comida en la historia argentina.


Em 25 de maio de 1826, durante a Guerra da Cisplatina, conflito ocorrido entre o Império do Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata (no período de 1825 a 1828, pela posse da Província Cisplatina, a região da atual República Oriental do Uruguai), as forças navais patrióticas comandadas por William Brown, conhecido naquela região como Guillermo Brown, dispararam suas armas na área do atual Puerto Madero para os navios brasileiros, que não responderam. Em navios patrióticos eles celebravam com chocolate quente. A partir daquele episódio, graças a Brown, a tradição do chocolate quente surgiu como a bebida oficial dos dias patrióticos.

Almirante William (Guillermo) Brown

Nessa data, 25 de maio, se celebra o Dia da Pátria, na Argentina, que foi quando o Primeiro Governo Crioulo foi formado em frente ao Cabildo, em 1810. Essa data nada tem a ver com a independência argentina – a Declaração de Independência do Reino espanhol ocorreu vários anos depois (9 de julho de 1816). Igualmente ambos os fatos estão relacionados, já que com a Revolução de Maio, a Independência da Argentina começou a tomar forma.



Cabildo era uma corporação municipal instituída na América Espanhola durante o período colonial que se encarregava da administração geral das cidades coloniais. Era o órgão que dava representatividade legal à cidade, através do qual os habitantes resolviam os problemas administrativos, econômicos e políticos do município.

Plaza de Mayo e o Cabildo de Buenos Aires, em 1867.

O cabildo é derivado de instituições similares da Espanha medieval, transplantadas à América pelos primeiros conquistadores já no século XVI. Os membros do cabildo eram escolhidos entre os principais habitantes da cidade, que detinham assim amplos poderes jurídicos e administrativos. Com o tempo, os cabildos foram perdendo muito do seu poder devido às tendências centralizadoras do poder colonial espanhol, que se observaram na América espanhola a partir do século XVIII. Os cabildos permaneceram, porém, como os representantes máximos da oligarquia dos criollos, os descendentes dos colonizadores espanhóis.


O chocolate crioulo era menos espesso do que o que é normalmente era consumido na Espanha, ou na Europa em geral. E o hábito de tomar chocolate no inverno já estava tão arraigado que, faz alguns séculos, os teólogos tiveram que pedir uma dispensa ao Papa para que excluísse a bebida das normas de jejum, caso contrário, tudo seria em pecado Madrid. Tudo por conta do “Liquidum non rumpit jenjunium" - o líquido não quebra o jejum.
O churro, herança espanhola, é o aliado tradicional da xícara de chocolate e é muito popular em Castilla, mas os churros são consumidos em Espanha têm geralmente uma forma de ferradura, enquanto na Argentina churros retos, que a rigor podem parecer bastões, e lá são os mais consumidos. Às vezes, esses bastões são recheados com doce de leite ou creme e, em geral, polvilhados com açúcar.




Assim, quem acompanhou o programa Chaves, vai entender a ligação do chocolate quente com churros e considerar as ligações do México com a Nova Espanha. E quem visitar Madrid, Argentina, Uruguai, vai perceber que existem muitos lugares para apreciar chocolate quente com churros, como também existem em outros países americanos.


Depois, tratarei da origem dos churros mas, por enquanto, deixo abaixo duas receitas práticas para chocolate quente e churros que podem te inspirar a comemorar este 25 de maio.

Chocolate quente cremoso

(rende de 2 a 3 xícaras)
250ml de leite integral
250ml de creme de leite fresco
100 g de chocolate meio amargo picado
50 g de chocolate ao leite picado
1 pitada generosa de canela em pó
Para decorar: chantilly caseiro, cacau ou canela em pó (opcional)

Preparo: Leve o leite e o creme de leite para ferver, com a pitada de canela. Depois que levantar fervura e começar a subir, desligue o fogo e tampe a panela para infusionar mais com a canela, por 2 minutos. Em seguida, adicione os chocolates picados no leite quente. Misture. Coloque a panela em fogo moderado e deixe engrossar delicadamente por 5 a 10 minutos, misturando. Retire do fogo quando a consistência combina estiver a seu gosto (eu prefiro mais grossinho e cremoso). Sirva chocolate quente imediatamente, com um pouco de chantilly e cacau (ou canela) em pó para decorar.

Churros rápidos

250 g de farinha de trigo
250 a 280 ml de água
1 pitada de sal
2 colheres de sopa de azeite (ou óleo)
1 pitada de bicarbonato (opcional)
Óleo de fritar neutro
Açúcar e canela para passar os churros

Preparo: coloque a água pra ferver com o azeite. Enquanto isso, misture os ingredientes secos (farinha, sal, bicarbonato). Adicione o óleo e água fervente aos ingredientes secos e misture energeticamente com uma colher de pau. A massa deve ser pegajosa, se não for o caso, adicione um pouco mais de água. Despeje em um saco de confeiteiro (ou nun caso de açúcar seco, com uma ponta larga e canelada. Coloque o óleo pra esquentar. Aperte o saco de confeiteiro e deixe cair  a massa num tamanho de 10 a 15 cm de comprimento na panela com óleo já quente, frite por 3 minutos, ou até que os churros fiquem dourados. Polvilhe com o açúcar e canela, sirva com chocolate quente.

sábado, 20 de abril de 2019

Potica - um tradicional bolo da páscoa eslovena


Em maio de 2017, durante uma visita oficial do presidente dos Estados Unidos ao Vaticano, o Papa Francisco e a primeira-dama dos EUA Melania Trump conversavam despretensiosamente... foi quando um comentário do Papa gerou rebuliço e desencadeou ‘fama’ para um bolo tradicional esloveno conhecido como Potica. 



De acordo com relatos de fontes como a Associated Press e o The Guardian, o papa fez um gesto em direção ao presidente Trump e perguntou para a primeira-dama algo como: “O que você dá para ele comer? Potica? [Estava o Papa brincando com o peso de Donald Trump?]


Porém, deu-se uma infinidade de Interpretações para diferir esse episódio, embora pareça que pelo menos momentaneamente, a primeira-dama pensou que o papa estava falando sobre pizza.
A Associated Press concluiu que ela finalmente pegou e disse: "Potica, ah sim", enquanto o The Guardian sugeriu que ela disse "pizza". Mas, na época, a Internet não perdoou e então surgiram memes com o episódio que divertiram muita gente, naturalmente.
Foi lembrando desse episódio, e por amanhã ser domingo de Páscoa, lembrei que a Potica é tradicionalíssima entre os eslovenos para essa época do ano, e achei que seria interessante para o blog incluir essa receita no seu legado. Outro fato, é que essa preparação é, aparentemente, uma das favoritas do Papa Francisco que, de acordo com a Associated Press, rotineiramente o pontífice fala com os visitantes eslovenos sobre isso. Mas o que exatamente é a potica (pronuncia-se poh-TEET-sah)?



Trata-se de um tipo de pão doce, mais comumente feito com recheio de noz, e tradicional entre os eslovenos. Mas, que também poderá ser encontrado na Sérvia e na Croácia como povitica; e o beigli húngaro seria um parente próximo.
Muitas vezes, é referido como bolo, pelo fato de ser consistindo de uma massa de levedura enriquecida com manteiga e ovo, onde se espalha um recheio de nozes, para depois ser enrolada, deixar crescer e ser assada. A potica pode lembrar a babka (já falamos dela AQUI)
É encontrado nos dois feriados mais importantes: a páscoa e o natal. Mas, também em ocasiões especiais, e especialmente na Páscoa, rivaliza com ovos em termos de importância na mesa eslovena.



A Eslovênia, é um país pequeno, mas é muito diversificado, e por isso se pode encontrar variações desse preparado que pode vir na forma de um tronco (enrolado) ou de um bolo desses com furo no meio. Para o recheio, além das tradicionais nozes, ainda se pode usar, queijo com estragão, chocolate, sementes de papoula, bacon, avelãs....
Como muitos pães fermentados, a potica leva tempo e demanda certo esforço para ser feita. É por isso que, mesmo na Eslovênia, é mais provável que você compre uma já pronta na padaria ou na mercearia local. E daí se percebe que pode se tratar de uma tradição em risco, e que merece ser estimulada e preparada para além do valor simbólico.
Os eslovenos preparam Potica há séculos. A primeira menção deste prato tradicional remonta ao século XVI, quando foi gravado no primeiro livro já impresso em esloveno.



A Potica foi mencionada pela primeira vez por Primož Trubar, um padre luterano que publicou os primeiros livros em esloveno no século XVI. Também foi mencionada por Janez Vajkard Valvazor, um polihistor esloveno que escreveu o famoso The Glory of the Duchy of Carniola no século XVII. 


The Glory of the Duchy of Carniola 


Sua receita foi descrita pela primeira vez por Valentin Vodnik, um poeta esloveno que escreveu o primeiro livro de receitas esloveno em 1799. O primeiro livro inteiramente dedicado à potica (Slovenian Potica, 2013) foi escrito pela doutora Janez Bogataj, famosa etnóloga eslovena.




Seu nome deriva da palavra eslovena poviti, que significa "embrulhar", forma em que se enrola o preparado. E Potica é uma parte tão importante da herança eslovena que foi duas vezes apresentada em seus selos postais.




A primeira vez foi em 1993 na série Europe in miniature. O selo foi desenhado pelo lendário Miljenko Licul, também o designer do passaporte esloveno e do cartão de identidade nacional, bem como o lado nacional das moedas Euro da Eslovénia.
O segundo selo foi publicado em 2005 na série Europa - Gastronomy. Possui três poticas típicas: nogueira, semente de papoula e estragão, simbolizando três regiões geográficas da Eslovênia: os Alpes, as planícies da Panônia e o Mediterrâneo.
A parte mais importante de fazer Potica é a preparação da massa levedada, que é um processo delicado que requer tempo e paciência. Uma vez que a massa tenha subido, ela é preenchida com um recheio (doce ou salgado) e depois assada. Existem mais de quarenta tipos diferentes de recheios para Potica, mas os mais populares entre os nativos da Eslovênia são o de nozes, estragão, mel, bacon e alfarroba.



Ao longo da história, todas as classes sociais prepararam Potica para celebrar ocasiões festivas. O recheio do bolo era um símbolo do status social da família. As famílias mais ricas usavam recheios caros, como nozes e creme, e os pobres só podiam arcar com ervas ou amor (pedaços duros de gordura). Hoje, o recheio não é mais um indicador da classe de uma família, mas Potica continua a ser uma tradição nas famílias eslovenas.
Nenhum feriado importante é comemorado sem a Potica tradicional. Depois de muitos séculos, ainda simboliza uma época festiva em que toda a família se reúne em casa. Isso traz lembranças felizes e esperanças de um bom futuro. Ao viajar na Eslovênia, os visitantes devem experimentar este prato tradicional para ver por que ele tem sido e continua sendo tão importante para o povo da Eslovênia.
O bolo de potica esloveno, que ganhou fama pelo mundo inteiro graças ao Papa Francisco, graças ao episódio que abre esta postagem, e por conta dele causou reboliço ao ponto de tornar-se protegido como um prato tradicional esloveno. A proteção cobrirá a receita exclusiva, o processo de cozimento e os ingredientes. A The Slovenian Chamber of Agriculture and Forestry (Câmara Eslovena de Agricultura e Florestas) assumiu o papel de liderança na harmonização de receitas e recheios.



A Câmara Eslovena de Agricultura e Florestas, em cooperação com a Câmara de Comércio e Indústria da Eslovênia, organizou uma série de degustações de bolos potica com especialistas e cidadãos para o desenvolvimento de uma receita ideal para cozinhar massas e recheios de potica.
Prescrições acordadas foram testadas em várias padarias, e a receita de massa foi aprovada de acordo com os resultados obtidos. Também se concordou que cinco tipos de potica passaria a ser protegidos: a tradicional, com recheio de nozes; com nozes e passas; com passas; com estragão; e a com estragão e queijo cottage.



O processo de proteção começará com o solicitante que enviar o pedido, que deverá conter uma especificação descrevendo o procedimento de produção, ingredientes, relação histórica, etc. A especificação deve indicar os documentos que confirmam o uso do nome oficial - “Slovenska Potica”.
Em seguida, o Ministério da Agricultura publicará a especificação em seu site e a enviará para revisão e exame ao Ministério da Saúde e à Agência de Nutrição Saudável, Veterinária e Proteção de Plantas. A especificação será publicada oficialmente por 30 dias e, durante esse período, qualquer pessoa ou organização poderá enviar comentários a ela. Possíveis comentários serão considerados por comissões de especialistas, que incluem especialistas em culinária, tecnólogos de alimentos e especialistas em nutrição.




Os fabricantes, que desejam incluir seus produtos com esse nome exclusivo protegido, terão que obter um certificado. Se o processo de produção em uma determinada padaria estiver de acordo com a especificação, o órgão oficial emitirá um documento de autorização - um certificado declarando que o produto usando um nome exclusivo legalmente protegido é realmente autêntico. Os produtores serão obrigados a passar pelo procedimento de certificação uma vez por ano.
Anteriormente, os eslovenos já defendiam “Prekmurska gibanica” (bolo de camadas Prekmurje), “Idrijski žlikrofi” (bolinhos de farinha com molho) e “Belokranjska pogača” (pão de forma Bela Krajina) como seus pratos exclusivos e tradicionais. E agora tem mais a potica como bem protegido.
Por estar entre as obras culinárias mais famosas da Eslovênia, a Potica, chega a ser incorporada pelo turismo ao ponto da Organização de Turismo da Eslovênia prestar especial atenção a este prato e realizar vários eventos a partir dele. O Ministério das Relações Exteriores, em sua página no Twitter, observa que a Eslovênia é o berço não só da potica, mas também dos vinhos “Teran” e da “Kranjska klobasa” (linguiça de Carníolo). Mas a potica ainda é produto raro nas importações, mas que vem sendo trabalhado por especialistas do mercado para ganhar popularidade pelo mundo.



Enquanto você não vai para a Eslovênia degustar uma potica tradicional, deixo a receita para que você se inspire em preparar. Amanhã será domingo de páscoa, uma ótima oportunidade para apresentar essa inovação na sua refeição em família, ou para presentear amigos.

Potica
Para a massa
16 colheres de sopa de manteiga sem sal
1/2 xícara de leite integral
1/4 xícara de água morna
4 e 1/2 colheres de chá fermento biológico seco (dois saquinhos)
3 gemas
2 e 1/2 xícaras de farinha, além de mais para laminação
1/4 colher de chá de sal
1/4 de xícara de açúcar
Para o recheio
1 colher de chá de canela em pó
2 xícaras de nozes finamente picadas
3 colheres de sopa mais 1 xícara de açúcar
1/2 xícara de passas picadas (pode ser tâmaras)
3/4 xícara de leite integral
3 claras de ovos grandes, à temperatura ambiente
Preparo: Para a massa: Misture a manteiga e o leite em uma panela pequena em fogo médio-baixo; cozinhe até que a manteiga derreta, depois desligue o fogo e deixe esfriar para ficar morna. Despeje a mistura morna na tigela de uma batedeira (ou com um batedor de mão) bata e misture o fermento. Deixe descansar por pelo menos 5 minutos (para garantir que a levedura esteja ativa; deve borbulhar ou espumar na superfície). Junte as gemas e a mistura de manteiga e leite e acrescente a farinha, o sal e o açúcar. Bata em velocidade média-baixa para formar uma massa pegajosa e suave. Transfira para uma tigela untada com untada com óleo; cubra com filme plástico engraxado diretamente na superfície e leve à geladeira 8 a 12 horas (seria interessante fazer durante a noite para preparar no outro dia). Para o recheio: Misture a canela, nozes, 3 colheres de sopa de açúcar, as passas e leite em uma panela em fogo médio. Cozinhe por 7 a 10 minutos, mexendo, até engrossar a mistura. Deixe esfriar. Despeje as claras na tigela de uma batedeira ou batedeira de mão equipada com um batedor de balão. Bata em velocidade média até ficar espumoso, depois aumente a velocidade para médio-alto. Gradualmente adicione o restante 1 xícara de açúcar, batendo para formar um merengue que mantém picos firmes. Com cuidado, misture o merengue na mistura de noz resfriada. Montagem: Divida a massa descansada e refrigerada ao meio. Farinha levemente uma superfície de trabalho. Trabalhando com uma porção da massa de cada vez, espalhe farinha de ambos os lados e enrole cada uma delas em uma rodada de um centímetro. Espalhe o recheio de nozes em cada massa aberta, deixando uma margem de 1 centímetro nas bordas. Enrole formando um tronco bem apertado. Unte uma forma com óleo de cozinha; transferir o tronco de massa recheado, cubra com filme plástico ou pano de prato e deixe crescer por 30 minutos. Quando estiver pronto para assar, pré-aqueça o forno a 350 graus. Assar por 50 a 60 minutos, até que o topo esteja bem dourado e fazendo o teste do palito ele saia limpo (sequinho). Deixe esfriar na forma por pelo menos 5 minutos e, em seguida, inverta em um prato. Servir.