É pra se comer bastante esta idéia de combinar gastronomia, cultura e história unidas num lugar acessível. Principalmente numa época onde as pessoas se entopem de gorduras trans e não alimentam a alma.
Sabendo que o homem não nasce da fome, mas do apetite. Te convido a conjugar o verbo comer em todas as suas possibilidades.
Um brinde a você por estar aqui! Bon apetit!!!
O
evento em questão trata-se de um almoço realizado em 20 de agosto de 1902, a
bordo do Iate Victoria & Albert, em Portsmouth, oferecido por Suas
Majestades o Rei Eduardo VII e a Rainha Alexandra do Reino Unido em homenagem a
Sua Majestade Imperial o Xá da Pérsia, Mozaffar ad-Din Shah Qajar (persa: مظفرالدین
شاه قاجار, Mozaffar Ŝāh-e Qājār, Muẓaffari'd-Dīn Shāh Qājār; 23 de março de
1853 - 3 de janeiro de 1907) o quinto rei Qajar da Pérsia (Irã) até sua morte
em 1907. Muitas vezes é creditado a ele a criação da constituição persa, que
ele aprovou como uma de suas ações finais enquanto Xá.
Sua Majestade Imperial o Xá da Pérsia, Mozaffar ad-Din Shah Qajar
Suas Majestades o Rei Eduardo VII e a Rainha Alexandra do Reino Unido
Iate Real Victoria & Albert
A
história conta que os populares, principalmente as mulheres de todas as classes
sociais, ficaram maravilhados com a presença do Xá da Pérsia que desceu do trem
real, em Portsmouth, para ser recebido rei Eduardo VII.
Além
da curiosidade e do imaginário que acompanhava a figura do Xá, outro motivo
para tanta admiração era um item que poderia ser visto a quaisquer olhos
naquela ocasião: adornando o chapéu do Xá estava o maior diamante rosa do
mundo: o Dari-i-Noor (em persa: دریای نور que significa "Mar de
luz"), também escrito Darya-ye Noor, é um dos maiores diamantes lapidados
do mundo, pesando cerca de 182 quilates (36 g). Sua cor, rosa pálido, é uma das
mais raras que se encontram nos diamantes.
Retrato de 1903 de Mozaffar-al-Din Shah por Leslie Ward, retratando o Shah usando o diamante Darya-i-Nur como decoração de chapéu.
O paradeiro exato do Daria-i-Noor é discutível:
diz-se que ele está preservado em um cofre do Banco Sonali em Dhaka,
Bangladesh. Mas, um diamante com nome e descrição semelhantes pode ser
encontrado nas joias da coroa iraniana do Banco Central do Irã em Teerã, veja a
imagem deste último abaixo.
Impecável,
Sua Majestade, Eduardo VII trajava seu uniforme do almirante da frota que
também exibia um objeto motivo de grande cobiça pelo Xá: a medalha da Grande
Ordem da Jarreteira, honraria que o Xá tanto desejava e que acreditava que
receberia naquela ocasião.
Grande Ordem da Jarreteira
Um aperto de mão entre Suas Majestades foi
visto publicamente antes de eles caminharem ao longo do cais por um tapete
vermelho até o iate real recém-construído, o Yacht Victoria and Albert de Sua
Majestade, onde o almoço estava prestes a ser servido.
O
Menu servido revela que um grande banquete de onze pratos, começando com uma
bisque de lagostim, aconteceu a bordo. Seguiram-se pratos de costelas de
cordeiro com pepino em creme; maionese de peixe;Tetraz assado ( essa ave pertence ao grupo de
aves galiformes da família Phasianidae, que habita exclusivamente o hemisfério
Norte e inclui muitas aves cinegéticas, caçadas por desporto ou para
alimentação, que se alimentamsobretudo
de sementes e bagas, mas também consomem incestos e outros pequenos invertebrados);
e uma sobremesa de bolos de arroze
compota de greengages (ameixas selvagens iranianas chamadas posteriormente de
Reine Claude, e que deram origem as ameixas comuns europeias).
Convidados para o almoço: foto tirada a bordo do HMY Victoria and Albert no dia deste banquete real, 20 de agosto de 1902. Sentado na primeira fila (da esquerda para a direita): o Príncipe de Gales (futuro Rei George V); Xá da Pérsia; Rainha Alexandra; Rei Edward VII; e a Princesa Vitória de Gales.
A sala de jantar a bordo do Royal Yacht Victoria and Albert
Recorte do The Times com a circular da corte (Court Circular)de 20 de agosto de 1902.
Embora
o banquete tenha sido bem aproveitado por todos, o Xá partiu muito infeliz: em
vez de receber a Grande Ordem da Jarreteira, ele teve que se contentar com um
retrato do rei adornado com joias que, segundo consta, fez uma careta ao pensar
em dar uma decoração cristã a um muçulmano.
Confira
o menu detalhadamente abaixo, com duas das receitas servidas na ocasião – e ao
final, deixo a música "God Bless the Prince of Wales" (em galês: Ar
Dywysog Gwlad y Bryniau), canção patriótica escrita para marcar a ocasião do
casamento do futuro rei Eduardo VII com Alexandra da Dinamarca.
MENU
Bisque d’Ecrevisses
Bisque de lagostim
aromatizado com conhaque, vinho branco, pimenta caiena e engrossado com crème
fraîche
Mayonnaise de Poisson
Moldes decorados de
peixe cozido vapor misturado com maionese, ovo e farinha para acompanhar a
bisque
Côtelettes d’agneau aux
Concombres
Costeletas de cordeiro
que são primeiro foram cobertas com um molho branco antes de serem empanadas e
fritas; e servidas com creme de pepino
Poulets à l’Estragon
Peitos de frango
escalfados com creme de estragão e molho temperado com araruta
Grouse rôties
Tetraz
assado
Dressed Crabs
Carne da Caranguejos
refogada e servida dentro da casca
Viandes froides à la
Gelée
Aspic de carnes frias
(sem uso de porco, dado os convidados muçulmanos do rei)
Salade de tomates
Salada de tomate
Purée de choufleurs,
gratinée
Puré de couve-flor
gratinado com farinha de rosca e crosta de queijo
Pains de riz à la
Cintra
Bolos pequenos feitos
de farinha de arroz, embebidos em creme, empanados e depois fritos
Compôte de Reine Claude
Compota de Greengages
(ameixas verdes silvestres) com o nome da Rainha Claude, esposa do Rei
Francisco I da França
Purée
de choufleurs gratinée
1
grande cabeça de couve-flor quebrada em floretes
3/4
xícaras de queijo parmesão ralado
1/2
xícara de queijo ralado Gruyere
3
colheres de sopa de manteiga sem sal em cubos
1/2
colher de chá de alho em pó (ou dois dentes de alho bem picadinhos)
1/4
colher de chá de pimenta do reino moída
1/4
colher de chá de folhas de tomilho picadas
Sal e
pimenta a gosto
Para a
cobertura
1
xícara de farinha de rosca
1/4
xícara de manteiga sem sal derretida
Preparo:
Cozinhes os floretes de couve-flor no vapor até ficar bem macia, cerca de 20
minutos. Pré-aqueça o forno a 350 graus. Transfira a couve-flor para uma tigela
grande. Amasse a couve-flor com um espremedor de batatas ou use o processador
se preferir. Junte os queijos, a manteiga, o alho, o sal e a pimenta a gosto.
Unte uma forma (20 x 20 x 5 cm) com um pouco de manteiga e polvilhe um pouco da
farinha de rosca. Acerte o purê com um pouco mais de sal e pimenta a gosto (se
achar necessário) coloque o puré na forma pronta, cubra com uma pouco mais de
farinha de rosca e manteiga e asse até que a cobertura esteja dourada. Decore a
gosto.
Compota
de ameixa Reine Claude
800 g
de ameixas Reine Claude (pode ser a ameixa fresca comum)
100 g
de açúcar
3
gotas de extrato de baunilha
Preparo: Lave as ameixas, corte-as ao meio e descarte
as cementes. Adicione o açúcar, a baunilha e misture. Cozinhe em fogo baixo por
cerca de 20 minutos, retire a panela do fogo e deixe esfriar. Em seguida,
mantenha em potes fechados na geladeira.
Sirva
a compota de ameixa fria, com queijo branco ou puro.
No
meio desse isolamento social no qual vivemos, por causa da Covid19, acabei me
interessando por estudar a evolução das pandemias no mundo, desde a
antiguidade, na ambição de produzir um texto acadêmico que continua em processo
de investigação. Entre achados históricos curiosos, muitas histórias terríveis
por ações impensadas e por falta de conhecimento e tecnologias o mundo sofreu –
e continua sofrendo – com inimigos letais infectocontagiosos que aparecem de
tempos em tempos causando rebuliço nas sociedades e ceifando a vida de milhares
de pessoas. Com a existência de uma pandemia, tudo muda nas sociedades,
inclusive a maneira de comer e beber. Um reflexo disso é a medicalização da
alimentação, tão remota quanto o mais remoto dos tempos, onde o alimento torna-se
o medicamento, e vice e versa.
Analisando
cuidadosamente alguns casos onde a alimentação se transformou por conta da
pandemia acabei chegando a conclusão de que, existem algumas coincidências que
se repetem em tempos diferentes em lugares igualmente diferentes, uma dessas
coincidências eu trago a público agora; é o caso da gim-tônica: uma bebida que
serviu como medicamento numa época onde a febre amarela assombrava a vida
humana.
E
tudo começa com a quinina, já ouviu falar dela? A quinina é retirada de um arbusto
conhecido como Quina (Cinchona) típico das áreas tropicais da América, usado
como remédio contra a malária. É um alcaloide de gosto amargo que tem funções
antitérmicas, antimaláricas e analgésicas. A descoberta da quinina pelo
Ocidente data do final do século XVI e início do século XVII, durante a
conquista do Império Inca pelos espanhóis na região do Peru. Nessa época, os
invasores espanhóis tomaram conhecimento de uma árvore usada pelos índios para
curar febre.
Uma
lenda espanhola diz que um soldado, sofrendo de um acesso de malária no meio da
selva, bebeu a água amarronzada de uma pequena lagoa onde árvores de quinina
haviam caído. Ele então foi dormir, e quando acordou sua febre havia
desaparecido. O soldado concluiu que a água foi responsável pela cura e que ela
era um tipo de "chá" feito do tronco e casca das árvores embebidos na
água. Maravilhado, ele espalhou a notícia. Outra lenda conta que os índios
observavam que animais doentes bebiam água nas lagoas onde árvores de quinina
se encontravam.
Cinchona - ilustração do século XIX.
Em
1633 um jesuíta chamado Padre Antonio de la Calancha descreveu as propriedades de cura da
árvore em seu livro Crônica Moralizada da Ordem de Santo Agostinho: "Uma árvore cresce, que eles chamam
de árvore da febre, na região de Loxa, cuja casca tem cor de canela. Quando
transformada em pó, juntando-se uma quantidade equivalente ao peso de duas
moedas de prata, e oferecida ao paciente como bebida, ela cura febre e ... tem
curado miraculosamente em Lima."
Jesuítas
no Peru começaram a utilizar a casca da árvore para prevenir e tratar malária. A
cinchona é uma árvore especial até para padrões amazônicos. Ou melhor: várias,
já que existem pelo menos 40 membros dentro desse gênero, plantas que são
parentes distantes dos cafeeiros. Elas têm entre 15 e 20 metros de altura e
crescem na área oriental da Cordilheira dos Andes – aquela que é voltada para o
Brasil e perto da nascente do Rio Amazonas.
Algumas
das árvores do gênero cinchona têm casca rica em quinina, uma molécula
alcaloide. O poder de cura de uma infusão da casca já era bem conhecido pelos
povos nativos. Com o desembarque dos conquistadores – e da malária – a quinina
foi logo escalada pelos andinos no tratamento contra a nova doença. E deu
certo.
Mais
de cem anos e várias gerações depois, o poder da quinina contra a malária já
era conhecimento comum nos Andes, mas a informação ainda não tinha viajado para
a Europa. É nesse ponto da história que entram uma lenda referente ao conde e a condessa de
Chinchón, um título da nobreza espanhola e que em 1630 era ocupado por Luis Jerónimo
de Cabrera, Vice-Rei do Peru. A
mulher dele, Ana de Osório (1599-1625), a primeira condessa de Chinchón, teve malária em 1638. Depois de tentarem todos os
remédios europeus disponíveis, sem sucesso, ela foi tratada com quinina por
recomendação de médicos e políticos locais, o que a salvou da morte.
Publicada
em 1663 por Sabastiano Bado, essa história não é verdadeira, pois Ana de Osório
morreu na Espanha três anos antes de seu marido ser nomeado Vice-rei do
Peru. mesmo assim, tal não foi o
impedimento para que no século XVIII, o botânico sueco Carolus Linnaeus
chamasse Cinchona spp. à árvore cuja casca era a base da produção de quinino,
usada no tratamento da malária. Dessa forma, o nome da condessa, que nunca foi
ao Peru, ficou ligado para sempre a esta plante, cujo nome vulgar é Quina.
Depois
de salvar a vida da condessa e impressionar o Vice-Rei, a quinina não era mais
um segredo do conhecimento andino. Era informação. Naquela década, a Companhia
de Jesus passou a usar a quinina no tratamento e até na prevenção da malária.
Alguns
anos depois, o padre Bartolomé Tafur levou cascas da cinchona para Roma. Não
demorou para a quinina conquistar o clero. E bastou a morte do Papa Inocêncio X
para que o poder da substância ficasse ainda mais evidente. “O conclave papal
de 1655 foi o primeiro em que não se registrou nenhuma morte por malária entre
os cardeais participantes. Logo os jesuítas começaram a importar grandes
quantidades de quina e a vendê-la por toda a Europa”, contam Penny Le Couteur e
Jay Burreson.
Em 1654 a casca peruana foi introduzida na
Inglaterra , onde para tornar esse ingrediente potável, os britânicos da Índia
do século XIX o misturaram com açúcar e água.
Apesar
de a fama da casca peruana ter se espalhado rapidamente, sua classificação
botânica permanecia desconhecida. Nenhum botânico havia publicado descrição ou
desenho da árvore da qual se originava, pois ela crescia somente em florestas
tropicais de difícil acesso, na região dos Andes.
Em
1735 um botânico francês chamado Joseph de Jussieu viajou à América do Sul, e
depois de muitas viagens descobriu e descreveu a árvore como sendo da família
Rubiaceae, ou família do café.
Em
1739, o taxonomista sueco Carolus Linnaeus batizou o gênero de Cinchona, um
anagrama do nome de uma condessa espanhola que, diz a lenda, foi curada pela
casca. Cinchona spp é como geralmente se definem as espécies produtoras de
quinina. É difícil a classificação devido à ocorrência de cerca de 40
variedades diferentes. O gênero com maior teor de quinina são C. ledgeriana e
C. officinalis.
Em
1820, os químicos franceses Joseph Pelletier e Joseph Caventou isolaram a
quinina das cascas de Cinchona e a identificaram como sendo um alcalóide. Só
muito mais tarde foi reconhecida como um alcaloide da classe dos quinolínicos.
A biossíntese da quinina envolve a condensação da triptamina e secologanina,
levando a estriquitosidina, posteriormente ao corinanteol e finalmente após
sucessivos rearranjos à quinina.
Cascas de Quina (Cinchona)
A
exportação de cascas de Cinchona tornou-se um negócio lucrativo, pois os
produtores de quinina dependiam de grandes demandas de cascas coletadas de
árvores silvestres. Em 1880 a Colômbia sozinha exportou 6 milhões de libras
para a Europa. O valor de exportação da casca de Cinchona era tão grande que
Bolívia, Colômbia, Equador e Peru proibiram a exportação de sementes e plantas,
em uma tentativa de manter o monopólio das exportações.
Mas
a tentação de quebrar o monopólio latino-americano tornou-se irresistível. Em
1852, Justus Hasskarl, diretor de um Jardim Botânico holandês em Java, começou
secretamente a contrabandear sementes de Cinchona da América do Sul.
Entretanto, a quantidade de quinina contida nas cascas era muito pequena.
Claramente, a quantidade de alcaloides produzidos variava devido às inúmeras
variedades existentes. Uma segunda coleta de sementes seria necessária para
produzir uma indústria viável em Java.
Outra
oportunidade para estabelecer uma indústria de quinina holandesa surgiu com o
australiano Charles Ledger em 1861. Ledger havia tentado em várias ocasiões
coletar sementes de Cinchona, mas foi confundido pela diversidade do gênero -
existem 40 espécies e cada uma possui inúmeras variedades. As sementes que
Ledger vendia para o governo inglês continham quase nenhuma quinina. Ledger
acabou convencendo um índio Aymará, Manuel Incra, a contrabandear sementes de
uma espécie boliviana de Cinchona que, dizia-se, possuía grande quantidade de
quinina. Ledger voltou à Europa e tentou vender as sementes para o governo
inglês que, decepcionado com a pequena quantidade de quinina contida nas
árvores de Cinchona fornecidas por Ledger no passado, recusou-se a comprá-las.
A notícia chegou ao governo holandês, que pagou a quantia de 20 dólares pelas
sementes.
Enquanto
as árvores cresciam, o governo holandês espantava-se com a quantidade de
alcaloides contidos nas cascas, um recorde de 13%. Com o crescimento da
produção de variedades ricas em quinina em Java, o comércio de exportação na
América do Sul entrou em declínio. Em 1930 as plantações holandesas em Java
produziam 22 milhões de libras de casca, equivalente a 97% da quinina mundial.
Em
1940, durante a Segunda Guerra Mundial, o exército alemão apoderou-se de toda a
reserva de quinina da Europa quando invadiu Amsterdã. Quando os japoneses
invadiram a Indonésia em 1942 os EUA e seus aliados ficaram quase sem
fornecimentos de quinina.
Havia
uma pequena plantação de quinina nas Filipinas, mas esta também foi tomada
pelos japoneses algumas semanas depois da invasão de Java. Entretanto, o último
avião aliado a deixar as Filipinas, antes desta cair nas mãos dos japoneses,
levava uma preciosa carga: 4 milhões de sementes de Cinchona. Estas foram diretamente
para Maryland, EUA.
Depois
de germinadas, estas foram enviadas para a Costa Rica para serem plantadas.
Entretanto havia poucas esperanças de que estas plantas amadurecessem a tempo
de atender às necessidades de quinina na guerra. Mais de 600.000 soldados das
tropas americanas na África e Pacífico Sul haviam contraído malária, e a média
de mortalidade era de 10%.
A
falta de cascas de Cinchona tornara-se um problema sério. Poucas semanas depois
da captura das Filipinas, o botânico Raymond Fosberg recebeu a missão,
juntamente com outros botânicos americanos, de coletar novas espécies de
Cinchona na América do Sul e assegurar um carregamento de cascas para os EUA ,
estabelecendo plantações.
Para
assegurar a rapidez das coletas, os EUA mandaram grupos de pesquisa para
Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. Durante estas expedições Fosberg e seus
colegas aprenderam muito a respeito da biologia da Cinchona.
Entre
1943 e 1944, Fosberg e seus colegas asseguraram 12,5 bilhões de libras de
cascas de Cinchona para os países aliados. Enquanto isso, químicos das forças
aliadas procuravam por substitutos da quinina, porém os fármacos sintéticos
antimaláricos não tinham a eficácia da quinina, além de produzir efeitos
desagradáveis como náuseas, diarreia, e amarelamento da pele.
Entende-se
que o Gim-tônica se originou no exército da Companhia Britânica das Índias
Orientais como a única maneira de fazer com que os soldados consumissem limões
/limas (para a prevenção do escorbuto) e quinino (para evitar a malária). É
conhecido a partir de referências de meados do século XIX, embora, em 1883,
Hugh Wilkinson em suas terras e mares ensolarados: uma viagem na SS. 'Ceilão'
tinha que explicar o que era um 'gin-tônica'.
Definitivamente
conhecido por esse nome apenas desde uma referência no artigo 'A Morning With a
Bobbery Pack' reproduzida em vários jornais e revistas de 1882: "Estávamos
bebendo gim e tônica sob a velha árvore no maidan de Calcutá, depois de um jogo
muito disputado no pólo."
Gim-Tônica está associado ao jogo de Polo na Índia
Surpreendentemente, o termo atual 'gim e tônico'
não parece aparecer na ficção antes de 'Right Ho, Jeeves ', de PG Wodehouse em
1922, embora' Gin and Bitters 'seja conhecido pelo menos em um artigo de' The
Reading Mercury 'na segunda-feira 07 de agosto de 1780 (p3); "O capitão me
disse que eu era bem-vindo a bordo e perguntou me se tivesse um copo de gin e
bitters? "
Winston
Churchill, um grande fã de levantar um copo, supostamente disse certa vez, e
por boas razões: "Gim-tônica salvará mais vidas e cabeças inglesas do que
todos os médicos do Império". Uma metáfora para o mundo colonial
globalizado, no qual uma bebida genuinamente europeia e uma mistura
sul-americana se reuniram em um país asiático para apoiar o Império Britânico.
O casamento entre gim e a tônica foi consumado no Raj britânico do século XIX.
As
guerras coloniais travadas pelos britânicos durante os séculos XVII e XVIII
foram salpicadas de desastres causados por doenças tropicais transmitidas por
mosquitos. Demorou meio século para aprender a lição.
Desde
o final do século XVIII até meados do século XIX, a Companhia das Índias
Orientais (British East India Company) anexou à força grandes áreas da Índia.
Essa era a joia da coroa e a exploração de seus recursos possibilitou a
revolução industrial no país anglo-saxão, mas a Grã-Bretanha teve que pagar um
preço muito alto. Dezenas de novas doenças dizimaram invasores, colonos e
soldados de pele branca. A malária era uma delas, talvez a pior.
Tropas coloniais britânicas da Índia tomam quinino diariamente.
O
controle britânico da Índia colonial exigia a capacidade de combater a doença.
Na década de 1840, soldados e cidadãos britânicos residentes na Índia usavam
700 toneladas de casca de quinino em pó anualmente - uma árvore reconhecida
como um antídoto para a malária que foi testada pela primeira vez na condessa
de Chinchón - importada dos domínios espanhóis na América tropical.
O
quinino é amargo; portanto, para tornar o pó remotamente potável, eles o
misturaram com açúcar e água. Assim nasceu um refrigerante medicinal, Indian
Tonic Water, que ainda continua a aparecer nas modernas latas de tônicos.
Tornou-se
a bebida preferida dos anglo-indianos e manteve as tropas britânicas vivas.
Permitiu que as autoridades sobrevivessem nas terras insalubres e nas regiões
úmidas da Índia e, finalmente, possibilitou que uma população britânica estável
prosperasse nas colônias tropicais
Mas
algo estava faltando. A amargura da quinina não foi interrompida com o açúcar
de cana. A coragem do soldado não foi reforçada por algumas gotas de água
tônica. Álcool barato era um ingrediente mais eficaz para mitigar a amargura e
incutir valor. Ideal para lidar com as longas campanhas de guerra nas colônias
britânicas. E se misturarmos o refrigerante com um gim, deve ter sugerido algum
intendente que gosta de mollate.
O
gim pode ser destilado a partir de qualquer grão. Começou a ser usado na
Holanda sob o nome holandês Jenever e tornou-se popular na Grã-Bretanha quando
o holandês William of Orange se tornou o rei William III da Inglaterra. Naquela
época, o gim já estava sendo produzido na Inglaterra, porque a mistura havia
sido descoberta por marinheiros britânicos quando apoiaram a Holanda durante a
Guerra da Independência Holandesa em 1568 e puderam verificar que o destilado
transformou seus aliados holandeses em javalis. Eles chamaram isso de
"coragem holandesa" e levaram a receita para seu país.
Durante
o conturbado reinado inglês de Guilherme III e Maria II, iniciado em 1688, a
fabricação de gim se tornou uma ferramenta de política econômica para fornecer
uma alternativa ao conhaque francês em um momento de conflito político e
religioso entre a Grã-Bretanha e a França. Entre 1689 e 1697, o governo aprovou
uma série de leis destinadas a restringir as importações de conhaque através da
imposição de tarifas pesadas. Ao mesmo tempo, para aumentar a venda de produtos
domésticos, ele ofereceu benefícios fiscais para ajudar súditos britânicos a
destilar seu próprio espírito de "bom cereal inglês".
Gin
era mais seguro que beber água (para chamar assim) e dez vezes mais barato que
cerveja ou qualquer outro refrigerante, e era inesgotável. Como não podia ser
menor, tornou-se o licor dos pobres, que era uma maioria esmagadora. Ao final
dos dois primeiros anos de execução das leis que favoreciam seu consumo, a
produção nacional de gin subiu para mais de dois milhões de litros por ano.
Em
1721, as contas fiscais especiais da Inglaterra indicaram que cerca de um
quarto dos residentes de Londres estavam empregados na produção de gim. Isso
foi equivalente a quase 9,1 milhões de litros de produtos isentos de impostos
por ano.
Na
década seguinte, o consumo de gim (permitido para maiores de 15 anos) dobraria
novamente, e as cidades de meio milhão de pessoas poderiam comprar um copo de
gim por pouco mais de um centavo de uma gama de quase 7.000 gins diferentes.
Portanto,
se restava alguma coisa na Inglaterra, era a capacidade de destilar o gin. E se
os marinheiros da Marinha Real tinham direito a uma porção de rum por dia, por
que não adicionar gin barato à água da Índia para reduzir seu sabor amargo e,
sem dúvida (embora não tenha sido dito), por causa do efeito intoxicante que
infundia. coragem para as tropas?
A
mistura com álcool foi a desculpa para socializar um medicamento essencial para
a sobrevivência da colônia. Quando os soldados retornaram ao Reino Unido e
pediram a combinação dos clubes, eles se identificaram como os heróis do
Oriente, o que incentivava seu consumo por emulação. A combinação
quintessencial do império britânico e de outro império nascera, a de um alemão
inteligente, Johann Jacob Schweppe (1740-1821).
Schweppe
desenvolveu um método para carbonatação de água na cidade suíça de Genebra
(bastante premonição), onde fundou a Schweppe's em 1783. Em 1792, mudou-se para
a populosa Londres para desenvolver o negócio até se aposentar em 1798,
deixando o negócio aberto para ele. Futura expansão sob o nome de J. Schweppe
& Co. A expansão internacional ocorreu por volta de 1870, quando o tônico
apareceu, uma água gaseificada com vários ingredientes, entre outros com
quinina.
Era
uma empresa com boa sorte. Quando ele quis estabelecer seu negócio na América,
enviou seu primeiro chefe de exportação, Walter James Hawksford, a bordo do
Titanic: ele foi um dos passageiros que escaparam vivos do naufrágio.
Em
2012, uma das garrafas Schweppes originais, que Hawksford carregou com ele e
afundou com o navio, foi encontrada em perfeitas condições. A partir de então,
decidiu-se relançar a primeira versão da garrafa para ser utilizada na linha
tônica Premium.
O
tônico era uma bebida direta e original herdada dos ingleses que haviam servido
(ou enriquecido) na Índia. Lá eles tomaram quinino e se acostumaram a
misturá-lo com limão e refrigerante. O resultado, sozinho ou misturado com o
gim, acabou sendo tão bem-sucedido que eles o levaram de volta à Inglaterra e o
tornaram a bebida nacional. Nasceu a gim-tônica, uma bebida "longa,
animada e leve", uma companhia perfeita tanto para um aperitivo quanto
para o jantar ou depois da noite.
No
Brasil, após uma visita da realeza inglesa, a bebida foi inicialmente
recomendada por Juscelino Kubitschek a Joaquim Pires Sobrinho, que viraria
prefeito da pacata cidade de Jaguariúna (SP) em 1963, o que a ajudou a
difundi-la pelo interior de SP. A garrafa doada por Juscelino se encontra no
museu da Maria-Fumaça de Jaguariúna.
O
mercado da bebida destilada, à base de zimbro, vem crescendo no Brasil. Só de
2016 para 2017, o consumo de gim cresceu 111% no país, de acordo com um
levantamento da International Wine and Spirits Research (IWSR), consultoria de
consumo de bebidas alcoólicas. Só em São Paulo já existem mais de 10 bares que
servem somente gin; e nos últimos três anos, mais de 20 marcas brasileiras
começaram a produzir gin. Os produtos nacionais já estão até ganhando destaque
e prêmios mundo afora. É o caso do Amázzoni, que menos de um ano após o lançamento
conquistou o prêmio de melhor produto artesanal do ano no World Gin Awards
2018.
Atualmente
é bastante difundido no mundo, especialmente no Reino Unido e consiste na
mistura de gim, água tônica de quinino gaseificada (uma espécie de
refrigerante) e lima, em variadas proporções.
Se
você gosta de gim-tônica, esqueça o caráter medicinal da combinação moderna.
Não há desculpa terapêutica que conta. A tônico está sem a quantidade original
de quinino (algumas versões Premium estão voltando às origens) devido aos
efeitos colaterais de sua ingestão, e a maioria dos gins, filhas da química,
está a anos-luz do London Gin original : um destilado seco, sem adoçantes, com
um sabor puro de nebrina obtido de zimbros de Menorca e feito com conhaque de
cereais.
Gin-tônica
Vapt e Vupt
falite fitas fininhas de pepino e acomode-as em espiral dentro de um copo alto (tipo long drink) Encha de gelo até a borda. Despeje gim até encher um terço do copo. Complete com água tônica. e decore com uma fatia de limão ou laranja.
Gin-tônica
perfeita
60 ml
de gin (deixe sua garrafa de gin no congelador antes de preparar, isso pode
deixar a bebida ainda mais geladinha)
1
limão siciliano (você pode fazer com limão taiti e limão galego, mas o
siciliano é menos ácido!)
cubos
de gelo
100 ml
de água tônica
Preparo:em um copo de boca larga coloque 1 rodela de
limão no fundo do copo. Adicione os cubos de gelo até o topo, o copo precisa
estar cheio.
Despeje
o gin e a água tônica com cuidado. Com a ajuda de uma colher, dê uma leve
misturada. Sirva muito gelado e consuma logo!
Eu
estava aqui ouvindo a música do Criolo, 'Fermento pra massa' (inclui o audio no final dessa postagem), e rememorando meu livro de receitas do Fermento em Pó Royal,
chamava Receitão, mas era um livreto fininho, retangular, que cabia na palma da
mão. Foi com ele que aprendi a preparar bolinhos de arroz deliciosos, quando eu
ainda era uma criança... Hoje em dia, com a internet, são raras as empresas que
ainda distribuem livros de receitas impressos para os consumidores – a desculpa
é a praticidade, preparam livretos que ficam disponíveis on line. Mas eu
confesso que adoro um livrinho impresso, seja ele de receitas ou não.
Ocorre
que nos anos 80 e 90, essa era uma prática bastante comum e que já vinha de
décadas anteriores. Queria ter esse meu livretinho aqui para mostrar a vocês,
mas ele se foi... embora eu cuide bem dos meus livros, esse foi um dos que
sumiu das minhas vistas...
Me
peguei refletindo agorinha mesmo: quem fica pensando em fermento em pó com
tanta coisa acontecendo no mundo? Pra ter resposta fui para a internet.
Descobri que a historiadora da alimentação Linda Civitello, em algum momento,
também pensou em fermento em pó – assim como eu –, a diferença é que isso lhe
rendeu um livro chamado “Baking Powder Wars: The Cutthroat Food Fight that
Revolutionized Cooking”, que em português soaria como ‘As Guerras do
fermento em Pó: a briga de comida cruel que revolucionou a culinária’. Fui espreitar
mais sobre o livro e fiquei ainda mais curioso pra saber mais a esse
respeito... e, agora, divido o que aprendi aqui, com vocês.
Esse
danadinho do fermento em pó, é um humilde e quase invisível item na cozinha,
geralmente não costuma ser confundido com bicarbonato de sódio, mas é
responsável por você não levar horas em processos de fermentação nas suas
receitas.
Seguramente,
a invenção do fermento em pó foi um divisor de águas, uma criação que economiza
muito trabalho e eliminava a necessidade de manter o cultivo do seu próprio
fermento e, assim, tornar possível que apenas com a abertura de uma latinha, ou
rasgando um pacotinho, lhe permitir criar todo tipo de guloseimas deliciosas,
de biscoitos modernos, bolo de aniversário complexos e até bons pães.
Antes
de fermento em pó, você estaria fadado a passar muitas horas esperando a ação
da fermentação para ter bons resultados nas suas preparações. Se você quisesse
que seu bolo ficasse fofo e suave, em vez de denso e solado, você precisaria
fazer um trabalho sério para fazê-lo crescer.
Durante
a maior parte da história da humanidade, o principal agente de crescimento tem
sido o fermento. À medida que esses pequenos fungos crescem e se dividem, eles
respiram oxigênio e liberam dióxido de carbono, como nós. Misture-os em massas
e eles acabarão preenchendo-as com as conhecidas bolhas de dióxido de carbono
que fazem os produtos de panificação subirem - um processo conhecido como
fermentação.
No
século XVIII e antes, a maioria das preparações de forno que necessitavam de
fermentação eram ditadas pelos delicados caprichos da respiração do fermento –
isso não se refere a fermento seco ou fermento fresco das novidades comerciais.
Primeiro você tinha que fazer o fermento, deixando fermentar frutas, verduras
ou grãos. Depois de fazer isso, seu agente em ascensão suado ainda poderia ser
morto ou enfraquecido por temperaturas muito quentes ou muito frias, ou sofrer
contaminação por bactérias – por isso, muitas receitas iniciais recomendam a
ajuda de um servo. Então o que mudou? Em uma frase, fermento em pó. Sem essa
substância branca milagrosa, literalmente não teríamos bolo como o conhecemos
agora.
Aí,
me surgiu outro questionamento: como alguém que pesquisa e prepara comidas, e
que usa fermentos em algumas delas, não tem noção nem certeza do que compõe o
fermento em pó que consume? No meu caso, quando aprendi a usar fermento nas
receitas ainda na infância, não sabia o que diferenciava o antigo fermento em
pó de antes do que consumo hoje. E assim como eu, muita gente talvez nem saiba
que ‘coisa é essa’ que faz as receitas crescerem e se tornarem
melhores(certo?). Algumas pessoas pensam que fermento em pó é bicarbonato de
sódio, outras nem sabem que relação eles têm.
É
necessário informar aqui que o fermento em pó é um fermento químico, que é
diferente do fermento original que são organismos vivos. O fermento em pó é
mais uma invenção norte-americana, uma criação que serve de atalho para deixar
as coisas mais fáceis e práticas. É uma substancia praticamente infalível,
quando não está com validade vencida, pois não depende dos caprichos do clima,
temperatura ou habilidade do cozinheiro. Portanto, é um torna-se um atalho
democrático, mas trata-se de fermentação química.
Antes da invenção do fermento em pó, quando se
escolhia uma preparação que levava fermento na composição o processo poderia
ser demorado ao extremo principalmente se você desejasse ter produções em
quantidade: gastava-se horas na feitura do fermento, horas no preparo, mais
horas para receitas que necessitam de segunda e terceira fermentações para
desenvolver a massa, e mais horas para que asasse. E, ainda tinha que assar em
fornos com temperaturas corretas. Mas imagine, em tempos em que os fornos eram
de barro, de tijolos, sem controle de temperatura como os que hoje existem nos
fogões de nossas casas. Ah, e ainda precisavam cuidar das cincas... era uma
trabalheira. E, mesmo assim, saiam coisas deliciosas (às vezes não).
O
protótipo do fermento em pó está registrado em 1796, no “American Cookery”
de Amelia Simmons, que é o primeiro livro de receitas escrito por um americano
publicado na América. Antes disso, tinha-se livros de receitas escritos na
Inglaterra e em outras partes da Europa.
No
século XVIII, os padeiros americanos já estavam experimentando maneiras menos
intensas de mão-de-obra para fazer as ‘coisas subirem’. Além de incluir ar aos
ovos (batendo em espumas e usando claras em neve, eles costumavam usar pearlash,
ou potassa, é esse o registro que aparece no primeiro livro de receitas
americano, o American Cookery, em 1796. Feito de cinzas de lixívia e
madeira, ou amônia de padeiro, o pearlash consistia principalmente de
carbonato de potássio, que também produz dióxido de carbono de maneira rápida e
confiável. Mas esse agente era difícil em usar, por ser cáustico e geralmente
fedido.
Em
1846, a introdução do bicarbonato de sódio, um sal que pode reagir com um ácido
para criar dióxido de carbono, facilitou as coisas. Mas o bicarbonato de sódio
ainda precisava ser misturado com um ácido. Por ser barato e amplamente
disponível, os padeiros costumavam usar leite azedo – por esse motivo você
encontra o uso de leitelho (buttermilk) em muitas receitas do Sul dos
estados Unidos até hoje. O leitelho é o liquido que sobra do batimento da
manteiga, tem uma acidez e azedume característico no cheiro que dão o
diferencial nas preparações. É muito comum em lugares de climas quentes como os
Bálcãs, o sul da Ásia, o Oriente Médio e o Sul dos Estados Unidos – e quando
não se tem o leitelho original você pode prepara um ‘falso’ com apenas leite e
suco de limão ou vinagre. O que importa é a reação química que isso vai
contribuir na receita. É justamente esse processo, essa reação química, que
precisava acontecer e ser controlada: naquele tempo era mais difícil de saber o
quão ácido era um leitelho, o que significava que era difícil saber quanto
bicarbonato de sódio usar ou por quanto se deveria assar a preparação para
obter um resultado perfeito.
Aqui,
vou me permitir fazer um adendo para falar do uso de um processo curioso de
fermentação que me deparei aqui no meu Estado e que vai de encontro a um dado
histórico que acusa que as algumas donas de casa norte americanas faziam a
adição de sais para obter fermentação. Logo, era comum tê-las cheirando os sais
para saber qual usar. Ninguém hoje diria, oh, eu vou entrar no meu armário de
remédios aqui e ver o que posso adicionar neste bolo.
Então,
aqui no Ceará, meu estado e que se encontra no nordeste brasileiro, era muito
comum o uso de tabletes de Sonrisal (bicarbonato de sódio, carbonato de sódio e
ácido cítrico) no preparo de bolos. Essa é uma prática antiga, bastante
presente nos interiores, onde nem sempre se tinha uma vendinha por perto.
Um
exemplo famoso desse uso, é um bolo com banana bastante famoso encontrado na,
internacionalmente famosa, praia de Jericoacoara onde a boleira prepara a massa
usando Sonrisal, e há filas de comensais para degustar aquela preparação.
Muitos dos comensais só saberiam desse detalhe diferencial quando os moradores
locais acabam confessando o segredo em conversas.
Parece
piada, eu sei, mas não é. E não é tão ultrajante quanto parece, porque na
Alemanha alguns alemães usavam hartshorn, que é amônia. A amônia tem
propriedades leves de fermentação. É um sal volátil, mas tem cheiro forte,
fedido. O problema da amônia para assar é justamente ela ser amônia. Se você
não acertar na precisão da dosagem isso deixará um gosto de amônia e um cheiro
de urina. É por isso que agora é geralmente usado apenas em pequenas coisas
nítidas, porque evapora rapidamente. Se você tem algo denso e rico em gordura
que mantém o sabor e o aroma, e se não cozinhar completamente, sua cozinha vai
cheirar a urina, e isto é um problema.
O
primeiro produto semelhante ao fermento em pó foi criado pelo químico inglês
Alfred Bird, no final da década de 1840, o Cremor Tártaro, um pó ácido composto
de bitartarato de potássio, e bicarbonato de sódio, mantendo os dois separados
até que fossem utilizados, para que não reagissem muito cedo. Infelizmente, o
cremor tártaro era um subproduto caro da produção de vinho que precisava ser
importado da Europa, o que significava estar fora do alcance de muitos
americanos mais pobres.
Em
1856, a necessidade de uma alternativa viável levou um jovem químico Eben
Norton Horsford a criar e patentear o primeiro fermento em pó moderno. Horsford
trabalhou em um momento em que a química estava apenas começando a ser
considerada um campo respeitado e acabou criando o primeiro laboratório de
química moderna nos Estados Unidos na Universidade de Harvard. Ao ferver os
ossos dos animais para extrair fosfato monocálcico, Horsford desenvolveu um
composto ácido que poderia reagir com o bicarbonato de sódio para criar as
bolhas desejáveis de CO2 - foi realmente o primeiro produto químico e abriu as
comportas para o uso de produtos químicos em alimentos.
Mais
tarde, Horsford teve a ideia de juntar os dois em um mesmo recipiente. A água
os ativava, então ele os misturou com amido de milho para absorver o excesso de
umidade e impedir que eles reagissem prematuramente. Agora, em vez de comprar
dois ingredientes separados na farmácia (onde os produtos químicos eram
vendidos na época) e ter que medir com precisão cada um deles, os possíveis
padeiros e confeiteiros poderiam pegar um recipiente da prateleira do
supermercado e estar prontos para levar para casa e usar.
Na
década de 1880, a empresa de Horsford mudou para a mineração do fosfato
monocálcico, em vez de extraí-lo dos ossos fervidos, porque era mais barato.
Comercializado sob o nome "Rumford" (nomeado com nome do Conde
Rumford, que era o benfeitor de Horsford enquanto ele era professor em
Harvard), o fermento ainda é vendido hoje na mesma formulação.
Mas
Rumford não ficou sozinho por muito tempo na indústria de fermento em pó. A
empresa Royal Baking Powder rapidamente aproveitou o tradicional cremor tártaro
usado ad hoc pelas donas de casa, enquanto as empresas Calumet e Clabber Girl
pretendiam ser mais modernas usando o fosfato de alumínio e sódio ácido
(alúmen), que era mais barato e muito mais forte do que outros ácidos de
fermento em pó. Centenas de pequenos fabricantes surgiram em todo o país e, no
final do século XIX, a indústria de fermento em pó valia milhões de dólares.
Vemos
experimentações até 1900 e mesmo depois disso, as pessoas estavam produzindo
seus próprios pós de panificação, em pequenos lotes em pequenos locais nos
Estados Unidos. Deste modo, haviam 543 empresas de fermento em pó nos Estados
Unidos. Muitos dessas seriam como se você tivesse em pouca quantidade para
muitos supermercados. E, se você estivesse perto de ferrovias que podia trazer
esses minerais, tudo o que você precisava eram algumas latas - até então
tinha-se um bom alumínio -, um rótulo e você poderia ter seu próprio rótulo de
fermento em pó.
Aqui
começa a fazer sentido o termo cruel mencionado no título do livro de Linda: a
competição cruel dos fermentos em pó. Sempre houve concorrência em todas as
áreas. Ainda existe! Espionagem industrial e truques sujos não são novidade.
Mas no século XIX, uma das maiores competições ocorreu entre as antigas formas
artesanais de fazer alimentos e a nova maneira industrial, que era mais barata,
mais rápida e possuía economias de escala que você não possuía com produtos
artesanais.
A
guerra já estava acontecendo, por exemplo, com o chocolate. Você tinha o novo
processo industrial e empresas mais antigas, como a Cadbury, que disseram que
seu chocolate era puro, como o Royal Baking Powder, esse é o nome original do
pó royal, também afirmava que era. Se você está no caminho da pureza, se está
dizendo que todos esses outros chocolates ou pós de confeitaria que contêm
esses ingredientes não são puros, não pode ir e fazer você mesmo esse produto,
porque se comprometeu com o seu slogan. Tudo o que você pode fazer é combatê-lo
na publicidade. Inclusive, já fiz um post sobre A Guerra do Chocolate em pó que
você pode ler AQUI.
E
uma das maneiras pelas quais a publicidade se espalhava foi pela a existência
de milhares de jornais nos Estados Unidos. Você tinha pequenos jornais e, em
seguida, começa a receber revistas nacionais por volta de 1900 por causa,
novamente, das ferrovias. Centenas de páginas de publicidade em coisas como o
catálogo da Sears, o catálogo da Montgomery Ward, para que você estivesse
recebendo publicidade. Esses pequenos jornais locais não conseguiram se manter
apenas com as receitas locais, então recebiam receitas de empresas nacionais
como a Royal Baking Powder.
A
Manteiga foi outro caso notório nesse aspecto. Quando a margarina surgiu no
século XIX, a indústria de manteiga no estado de Nova York disse que não
queriam essa competição, que isso era veneno, uma coisa terrível e que não
poderia parecer manteiga. A margarina era branca - eles passaram a adicionar
corante para dar a aparência de manteiga – a concorrência queria que fosse
tingido de vermelho, roxo ou preto, ou alguma cor hedionda e nada apetitosa.
Então, as pessoas que usavam margarina, mesmo no início do século XX, vinha com
uma pequena cápsula que você misturava para que parecesse manteiga. Foi daí que
a competição acirrou. Você tinha vastas novas economias de produtos em escala e
o método artesanal. É claro que agora, vamos voltar, de várias maneiras, para
essas formas artesanais menores de fazer as coisas. Parece que há uma nova
“corrida do ouro” - eles estão inventando muitas coisas e se espalhando, mas, é
apenas uma luta enorme.
Certo,
certo! E como você está em uma economia laissez-faire, não há nenhuma agência
governamental ou algo do momento, no século XIX, que estivesse supervisionando
ou tivesse o poder de fazer qualquer coisa por publicidade ou impressão. Você
poderia fazer as reivindicações que desejasse com alerta direto. Você é o
comprador - depende de você. E, inversamente, se você tiver o dinheiro, poderá
comprar qualquer coisa. Um dos argumentos para você poder comprar qualquer tipo
de fermento em pó que você quisesse, desde que estivesse tudo bem com o
produto, você poderia usar o tipo de fermento que quisesse– houve uma época onde havia cocaína na Coca-Cola (VEJA AQUI) e heroína em remédio para tosse, mas como era legal, estava tudo bem... mas
tudo muda. Também é interessante você perceber que você obteria muito conteúdo
patrocinado antecipadamente. Todas essas empresas estavam fazendo seus próprios
livros de receitas exaltando as virtudes do fermento em pó.
Era
óbvio: você precisaria educar o público sobre como usar seu produto. Assim,
induziam as donas de casa pelos livros de receitas que distribuíam. E, ao mesmo
tempo, apresentavam receitas com ou sem fermento, e isso causava desconfiança
de algumas pessoas. As empresas de fermento em pó fariam demonstrações e iriam
de porta em porta demonstrando e entregando os livretos – o meu Receitão,
mencionado no início deste poste, pode servir como exemplo: uma amiga da escola
recebeu vários exemplares desse livretinho de alguém que ela conhecia que
trabalhava para a empresa distribuidora do pó royal, que pediu pra ela
distribuir. E ela fez isso, na escola, assim eu ganhei o meu. Um fato, muito
importante é a necessidade de você ensinar ao público como usar corretamente o
seu produto. Os livros de receitas distribuídos gratuitamente ou as recitas
patrocinadas em páginas de jornais e revistas eram uma maneira de fazer isso.
Apesar
disso, a maneira de assar com fermento não se adaptou imediatamente a essa nova
revolução, já que a maioria das receitas que as mulheres e os livros de
receitas existentes tinham eram construídas em torno da velha maneira de
combinar um ácido com um sal. As empresas de fermento em pó trabalharam para
mudar isso lançando seus próprios livros de receitas, que serviam como manuais
de marketing e instruções para seus produtos.veja detalhadamente um exemplo abaixo:
Alguns
desses livros de culinária são mantidos hoje nas coleções do Museu Nacional de
História Americana, parte do Instituto Smithsonian. Nessa mesma coleção,
remanescentes das feias guerras travadas na crescente indústria de fermento em
pó na virada do século XX. Como empresas de fermento em pó de alume como
Calumet e Clabber Girl conquistaram cada vez mais o mercado de fermento em pó,
o Royal Baking Powder, em particular, lutou para desacreditá-los.
Nos
anúncios, a o Pó Royal, que dispunha de cremor tártaro na sua composição,
explicitava seu slogan "absolutamente puro", pois além de seu produto
dispor de um ingrediente mais caro e de qualidade comprovada alegava, ao mesmo tempo,
que outros pós de cozimento eram prejudiciais para a saúde já que eles usavam
alume. Deste modo, a empresa mexeu com o medo do consumidor de alimentos
adulterados e iniciou lobby para proibir variedades de alume.
A
luta culminou em 1899, quando Royal conseguiu subornar a legislatura do
Missouri para aprovar uma lei que proibia a venda de todos os pós de cozimento
de alume naquele estado norte-americano. Durante seis anos de luta, milhões de
dólares em subornos foram pagos, dezenas de pessoas foram enviadas para a
cadeia por simplesmente vender fermento em pó, e a imprensa de forçagem forçou
a renúncia do vice-governador do estado.
Quando
os muckrakers da época descobriram, explodiu em um enorme escândalo - os
muckrakers eram jornalistas reformistas na Era Progressista nos Estados
Unidos, que expunham instituições e líderes estabelecidos como corruptos; e
eles geralmente tinham um grande público em revistas populares. Mesmo com a
revogação da proibição, os fabricantes de fermento em pó lutaram por décadas no
século XX por meio de batalhas publicitárias e intensas guerras de preços.
Eventualmente,
as empresas de fermento em pó de alume venceram, e Royal e Rumford foram
adquiridas pela Clabber Girl, deixando a Calumet como as empresas americanas
reinantes no mercado.
Você
não precisa procurar muito para notar que a hegemonia do fermento em pó
continua hoje: cozinheiros de todo o mundo o usam em tudo, de cupcakes a
crepes, muffins a madeleines, danishes a rosquinhas. O fato de você poder
encontrá-lo em todos os lugares diz algo sobre como ele foi adotado e aceito no
mundo gastronômico. E, para além das latinhas, caixinhas e pacotinhos de
fermento, hoje eles também podem vir adicionados á farinhas de trigo e a
misturas prontas para bolo. Então, agradeça à química e à ciência moderna que
você não é um daqueles primeiros cozinheiros antigos com trabalhos exaustivos
para comer um simples delicinha que leva fermento na composição.
A
receita de hoje vai ser uma das mais práticas e saborosas, encontradas nas
publicidades divulgadas em páginas de revistas.