terça-feira, 30 de dezembro de 2025

À MESA DE SILVESTER: TRADIÇÕES E ENCANTOS DO ANO NOVO ALEMÃO

 

Festa, por si só, sempre carregou expectativas — ao menos em mim, como uma corrente elétrica sob a pele. Lembro com nitidez de quando era criança e cada convite de aniversário se tornava um mapa do tesouro: eu o examinava em silêncio, decifrando cores, fontes, desenhos, tentando adivinhar o bolo que viria, sua forma, sua ousadia, sua promessa.

Muitas vezes o encanto morria cedo; o bolo era bonito, quase escultórico, mas traía o paladar com um gosto vazio, e um bolo ruim, para mim, sempre foi capaz de arruinar uma festa inteira. Desde então, toda vez que me chamam para celebrar qualquer coisa, algo em mim desperta uma curiosidade vigilante — observo os detalhes, escuto os silêncios, mas é na mesa que deposito minhas maiores expectativas. Porque aquilo que se come diz muito sobre o que se espera do futuro.

E as festas de fim de ano jamais seriam exceção a essa regra.

As possibilidades são infinitas — ainda que os bolsos, quase nunca, o sejam. Dependendo do lugar para onde se vai, encontram-se mesas exuberantes, cheias de excessos calculados, ou mesas mais contidas, discretas em sua oferta. Mas mesmo estas últimas carregam algo de precioso: oferecem sempre o melhor que podem.

E isso é de uma beleza silenciosa. Servir o melhor, independentemente das circunstâncias, é um gesto que diz mais do que abundância; diz cuidado, intenção, desejo de partilha. Talvez seja por isso que se fale em comida de festa — não sei ao certo. Só sei que é assim: aquilo que se coloca à mesa, sobretudo no fim de um ano, carrega um pouco daquilo que se espera salvar, proteger ou fazer florescer no tempo que começa.

Numa dessas festas, onde a noite se fazia promessa e o novo ano respirava em cada copo tilintante, encontrei pela primeira vez uns porquinhos de marzipã sobre a mesa — tão delicados, tão rosados, como se tivessem nascido de pétalas de rosa. Peguei um e o encarei, interrogando o mundo: por que, entre todas as formas possíveis para um doce, escolheram um porco?

Era doce, sim, mas também era carne de símbolo, e ali, debaixo da luz quase reverente dos últimos minutos do ano, aquele porquinho deixou de ser apenas um doce. Tornou-se linguagem.

Eu me lembrei das regras silenciosas e antigas lá de casa: não se comia, na entrada de um novo ciclo, aquilo que ciscava ou andava para trás. O caranguejo estava proibido; apenas peixes que, na percepção popular, nadam sempre para frente e porcos que sabem seguir adiante podiam cruzar o limiar de um ano para o outro. Não que todos os peixes realmente sigam apenas para frente — a natureza é muito mais flexível do que nossas certezas —, mas o gesto carregava um sentido profundo: um apelo visceral para marchar sempre adiante, jamais recuar, para receber o ano com olhos fixos na promessa de novos começos.

E ali estava ele, um porquinho inteiro feito de marzipan — doce de amêndoas tão amado que é quase um órgão secreto do meu coração – uma miniatura que cabia na palma da mão com folga. Tão belo que dava pena devorar. Rosado como a promessa de alvorada, moldado como se tivesse vontade própria. Eu o toquei — quase como quem desfia um segredo antigo — e quis entender por que ele existia naquela forma.

Não havia Internet nem celulares naquela época; para descobrir, eu tive que esperar o feriado acabar e ir até a biblioteca, buscando entender o nome, a figura, a alma daquele símbolo. E descobri que ele não era invenção de festa bagunçada nem capricho de confeiteiro. Ele vinha de longe, de uma imaginação que aprendia com o tempo a transformar esperança em figura — e figura em destino.

Mas, naquela noite da virada do ano, entre risos nervosos e promessas tenras, eu não comi apenas um doce: eu comi, ainda sem saber, uma imagem do futuro. Cada mordida era uma reverberação, uma pergunta que ecoava nas minhas entranhas: o que significa, realmente, desejar sorte — e o que fazemos com ela depois que ela nos aparece em forma de porquinho?

O doce desapareceu, mas o símbolo ficou cravado como se fosse um portal de luz em mim. Um portal que eu, agora, começo a abrir para você. 

SILVESTER: A NOITE QUE SUSPENDE O TEMPO

A noite de Ano Novo na Alemanha não é apenas o virar de um calendário, mas um sopro suspenso entre o que passou e o que está por vir. É como se o tempo, por algumas horas, resolvesse hesitar, hesitar com medo de se perder entre a memória e a promessa.

O nome dado a essa noite, Silvester, não surgiu ao acaso: ela recebeu esse nome em homenagem ao Papa Silvestre I (Papa Silvester I), que viveu e governou a Igreja de Roma de 31 de janeiro de 314 até sua morte, em 31 de dezembro de 335 d.C. e cuja festa litúrgica ocorre justamente no último dia do ano.

A partir do século XVI, com a reforma do calendário gregoriano em 1582, quando se fixou o 31 de dezembro como o último dia do ano civil, a comemoração litúrgica de Silvestre — um homem que viveu na encruzilhada entre o mundo antigo e a nova ordem cristã — começou a se entrelaçar com a passagem do ano, como se a Igreja, o tempo e a vida cotidiana tivessem feito um pacto silencioso com o tempo humano para batizar essa noite de esperança eterna.

                           Papa Santo Silvestre I - 33.º Papa da Igreja Católica

Mas não foi apenas um ato burocrático de nomear um dia no calendário. Havia algo profundo em associar o fim de um ciclo à figura daquele que presidiu uma Igreja em transformação, num tempo em que a luz do solstício de inverno ainda se debatia com a noite fria.

Com o passar dos séculos, o significado religioso acabou cedendo lugar ao sentimento popular — Silvester deixou de ser lembrado apenas como festa de um santo e passou a ser, para a maioria, o limiar onde o amor e a ansiedade pelo futuro se entrelaçam em um só momento de fogo, brisa e desejo.

Se você mora no Brasil, certamente já se deparou, seja pelas ruas ou pela televisão, com a famosa Corrida de São Silvestre, que acontece todos os anos em São Paulo, no dia 31 de dezembro. Centenas de pés apressados riscam o asfalto, corpos suados se empurram e respiram juntos, e o ar vibra com a energia de quem corre não apenas contra o tempo, mas com ele.

                              Esse ano será celebrado o 1 centenário da corrida em São Paulo.

Muitos jamais se perguntaram por que essa prova carrega o nome de São Silvestre, e é aí que a história se cruza com o instante: assim como a noite de Silvester na Alemanha celebra a passagem do ano em homenagem ao Papa Silvestre I, a corrida brasileira, em sua própria cadência e ritmo, carrega essa memória silenciosa. É como se cada corredor, ao cruzar a linha de chegada, tocasse não apenas o espaço físico, mas também o tempo, lembrando que todo fim é começo, toda corrida é promessa, e que até o esforço mais humano pode se transformar em ritual de passagem — uma celebração do movimento, da vida e da esperança que se renova a cada dezembro.

Hoje, quando se pronuncia esse nome na véspera do ano, não ecoa apenas um nome antigo, mas um peso de história e de expectativa — como se cada “Silvester” (Silvestre, no Brasil) repetido fosse também um desejo sussurrado ao tempo, um convite para que o novo ano chegue mais suave, mais inteiro, mais pleno do que aquele que se despede.

As casas se tornam pequenos universos pulsantes: o aroma de delícias recém-saídas do forno se entrelaça com o perfume doce de sobremesas, simples ou generosamente recheadas, enquanto o calor das luzes que piscam — penduradas em árvores, enfeitando paredes, refletindo em vidros embaçados — cria um cintilar suave que parece dançar no ar, envolvendo cada canto em um abraço de calor e promessa

Entre esse calor, entre sombras que parecem sussurrar, os alemães trocam palavras que não são apenas cumprimentos, mas desejos que vibram e quase se tornam palpáveis: “Viel Glück!” (muita sorte!), dizem, e é como se cada sílaba fosse capaz de atravessar o tempo, chegando ao futuro com promessa.

Pequenas lembranças, Glücksbringer (trazedores de sorte), circulam entre mãos que se estendem e se entrelaçam, objetos simples, frágeis ou coloridos, que carregam em si a crença de que a sorte pode ser tocada, presenteada, sentida, quase mastigada como quem prova a vida antes que ela aconteça.

                              Representações dos Trazedores de sorte alemães.

Há uma espécie de poesia silenciosa na maneira como cada detalhe é arranjado: a posição das velas, a disposição dos doces, o brilho das pequenas figuras de porco, limpador de chaminés e joaninhas espalhadas pela mesa. É uma dança de intenções, onde cada gesto se torna prece, cada olhar é promessa e cada riso é uma fagulha de esperança.

Silvester, então, não é apenas festa; é ritual, mesmo que sem regras explícitas, é celebração da vida que continua, do tempo que insiste em seguir e da sorte que todos, de algum modo, buscam segurar em suas mãos por apenas uma noite.

GLÜCKSSCHWEIN: O PORQUINHO QUE RASGA O TEMPO

Entre todos os símbolos que povoam a mesa de Silvester, nenhum é tão carnal, tão íntimo, tão visceralmente ligado à vida e à promessa quanto o Glücksschwein (porquinho da sorte).



Hoje ele se apresenta às vezes como figura de marzipan — doce de amêndoas que derrete como lembrança na língua — ou como chocolate moldado com carinho, rosado ou dourado, frágil em sua perfeição. Mas quanto mais doce é sua superfície, mais profunda é a terra da qual ele brota. Sua raiz não é suave ou efêmera; ela mergulha em séculos de história onde o porco não era apenas um animal na fazenda — era o coração pulsante da sobrevivência humana.

Na Idade Média, antes das luzes elétricas e das prateleiras fartas de supermercados, possuir porcos era possuir o próprio futuro. Cada animal robusto não representava apenas alimento garantido para o inverno cruel: era fonte de gordura para cozinhar, pele curtida para utensílios e ferramentas, e a promessa de novos porcos que perpetuariam a vida da família.

Ter um porco no estábulo era como segurar nas mãos um pequeno universo de fartura doméstica, um contrato silencioso entre o trabalho diário e o sustento seguro. Observá-lo pastando, ouvir seu grunhir suave, era testemunhar a continuidade, a segurança palpável de que o amanhã não chegaria vazio. Cada porco carregava em si não só a carne, mas também a esperança e a respiração de toda uma casa, de toda uma vida, condensada em um ser que sabia apenas avançar, como se estivesse destinado a abrir caminhos para o novo.



A prosperidade se media em grunhidos que ecoavam pela manhã, em patas que cavavam a terra, em corações que batiam com a promessa de alimento e continuidade. Um porco era mais que alimento: era segurança, prosperidade, permanência. Por isso, no falar popular, nasceu e permanece a expressão “Schwein haben” (ter porco) — para dizer que alguém teve sorte, que o destino lhe sorriu, que a vida, de algum modo invisível, mas potente, decidiu favorecer.

O porquinho, mesmo hoje feito de açúcar ou chocolate, carrega essa densidade de vida como se fosse carne em forma de doce. Quando você o segura entre os dedos — quão pequena sua forma, quão leve seu peso — ainda assim parece sentir uma pulsação antiga, como se o passado tivesse vontade própria. Os olhos moldados em detalhe não são apenas traços de confeiteiro: parecem janelas para um tempo em que a sorte estava atrelada à sobrevivência diária. Cada curva daquele porquinho parece murmurar histórias de mãos calejadas alimentando famílias inteiras ao redor de uma mesa humilde, de noites de inverno rasgadas pelo frio e aquecidas pelo cheiro de alimento sendo preparado.

E então há o momento da mordida — esse instante em que o doce e o destino, sabor e promessa, se encontram. É um choque delicado, como quando uma memória nos atravessa sem aviso: acontece rápido, mas deixa um rastro que arde por dentro. A língua registra o açúcar e a amêndoa, mas a alma percebe outra coisa: percebe que a sorte não é apenas acaso, não é mero capricho do universo, mas sim tudo aquilo que nos nutre, que nos protege, que nos sustenta. A sorte está nas mãos que trabalham, na terra que dá alimento, nas mesas compartilhadas em noites longas.

O porquinho de marzipan nos ensina que sorte é alimento, cuidado, fartura conquistada — não algo que cai do céu, mas algo que nasce do chão, da história e da vontade contínua de seguir adiante.

E assim, ao mordê-lo, sentimos que não consumimos apenas doce. Consumimos história. Consumimos o peso de gerações que souberam amar o suficiente para garantir que houvesse pão, carne e esperança na mesa. O doce dissolve na boca, mas o símbolo permanece, apertando o peito com algo que é ao mesmo tempo suave e profundo — a certeza de que, em alguma dimensão do mundo, nossa sorte, nossa prosperidade, estão entrelaçadas com as mãos que moldaram aquele porquinho e com o tempo que o trouxe até nós.






O porco da sorte aparece aidna em outras formas, além do marzipã como você pode ver ai em cima.

Não me aventurei tanto no mérito das receitas salgadas, mas o porco, na culinária alemã, é tratado com uma reverência quase artística. Cada corte, cada preparo, parece carregado de tradição e cuidado: o Schweinebraten — assado suculento e perfumado com ervas —, o Schnitzel de porco, dourado e crocante, e as diversas salsichas defumadas, que variam de região para região, são provas de que o porco é muito mais que alimento; é especialidade, herança e festa. Por isso ele se espalha por tantas mesas, seja em forma de prato principal, seja como figura doce e delicada de marzipan: em cada porco servido ou modelado, há a promessa de fartura, de cuidado e de bons começos que atravessam o ano.

 SCHORNSTEINFEGER: ENTRE FULIGEM E PROTEÇÃO

Entre a doçura do porquinho e a promessa que ele carrega, ergue-se o Schornsteinfeger (limpador de chaminés), figura que parece simples à primeira vista, mas cuja presença respira segurança e cuidado nos cantos mais antigos do lar.


Antigamente, quando as casas eram feitas de madeira e os dias de inverno se arrastavam longos, como sombras silenciosas sobre telhados e ruas, a fuligem acumulada nas chaminés era um perigo constante, pronta para devorar não apenas o fogo, mas sonhos, memórias e a segurança das famílias.

Nesse cenário, o limpador de chaminés não era apenas um trabalhador: era guardião, mensageiro silencioso da vida cotidiana, alguém que caminhava entre a fuligem e a fumaça, tocando o invisível, transformando perigo em cuidado, e oferecendo, com gestos discretos e precisos, a certeza de que o calor da lareira não queimaria os corações, mas aqueceria o lar inteiro.


Suas roupas pretas contrastavam com os botões dourados que brilhavam com o reflexo da luz do fogo — cada botão, cada gancho, cada gesto de limpeza carregava uma magia prática, quase sagrada. Tocar esses botões, mesmo hoje, em miniaturas ou cartões de lembrança, é mais do que superstição: é um gesto que traduz a necessidade humana de proteção, que promete anos livres de acidentes, que acalma a respiração e o coração, que transforma uma mesa de festa em um território seguro. Há nesse gesto algo ancestral: o toque no metal, o deslizar da mão sobre a superfície, como se estivéssemos conectando nossas vidas às mãos daqueles que, no passado, varreram fuligem e medo para longe.

A presença do Schornsteinfeger na mesa de Silvester não é casual – muitas vezes formato em biscoitos e chocolate. Ele simboliza mais do que a limpeza física: é a passagem do velho para o novo feita com cuidado, uma renovação lenta e segura, um gesto de arrumar não apenas a casa, mas também o espaço interno, a mente e a alma, para que possam receber o que está por vir.


A fuligem que ele varria — preta, leve, invisível — transforma-se, em nossas lembranças e símbolos, em memória e promessa, espalhando-se pelo ar como poeira de sorte. Entre velas tremeluzentes e risos que reverberam pelas paredes, o Schornsteinfeger parece respirar entre os objetos, invisível mas essencial, lembrando-nos que a sorte também precisa de cuidado, proteção e atenção.

E, se você se permite olhar com atenção, percebe que a magia dele não está apenas na segurança: está na poesia do gesto, na consciência de que o mundo, mesmo com seus riscos, pode ser atravessado com delicadeza. Cada miniatura em uma mesa, cada cartão com sua imagem, é uma narrativa silenciosa: “Aqui houve cuidado, aqui houve intenção, aqui houve vida protegida.” Entre açúcar e metal, entre fuligem e chocolate, o Schornsteinfeger nos lembra que a sorte, a proteção e a promessa caminham juntas, e que cada fim de ano é uma chance de varrer o velho, limpar os riscos, e abrir espaço para o novo com confiança e reverência. 



MARIENKÄFER: PEQUENA GUARDIÃ DE SORTE

Por fim, há o Marienkäfer (joaninha), criatura minúscula que, à primeira vista, parece frágil, quase perdida entre os grandes símbolos de fartura e proteção. Mas não se deixe enganar: ela carrega séculos de crenças, devoção e cuidado silencioso.

Em alemão, seu nome significa literalmente “besouro de Maria”, evocando a Virgem Maria e sua guarda maternal. Diz a tradição que a joaninha é enviada como mensageira de boa sorte, um sinal de proteção divina e atenção delicada aos detalhes da vida, lembrando que mesmo os caminhos mais incertos podem ser acompanhados por uma presença gentil e invisível.

Cada ponto em suas asas é visto como um pequeno talismã, muitas vezes associado ao número sete, considerado especialmente auspicioso. Assim, o Marienkäfer não é apenas um ornamento ou doce: é um símbolo de esperança, cuidado e atenção silenciosa, completando a tríade de fartura, proteção e promessa que permeia a mesa de Silvester.


Na virada do ano, a joaninha se insinua nos detalhes da festa: ela aparece nas miniaturas, nos amuletos, às vezes no marzipan ou no chocolate, lembrando, com delicadeza quase imperceptível, que a sorte pode ser sutil, pequena e silenciosa, mas absolutamente essencial. Não fala, não tilinta, não brilha como uma vela — mas a sua presença transmite cuidado, atenção, e um tipo de esperança que não se impõe, apenas se instala. Ela se apoia nos outros símbolos, respirando entre o Glücksschwein e o Schornsteinfeger, completando a tríade: fartura, proteção e delicadeza.

Segurá-la entre os dedos, ou apenas notar sua imagem em um enfeite, é tocar o que há de mais tênue e profundo em uma tradição: a consciência de que sorte e cuidado podem existir nas coisas mais pequenas, e que a força da proteção não está apenas na magnitude, mas na atenção silenciosa e constante. Entre doces que lembram o passado, metais que lembram segurança e asas minúsculas que lembram vigilância e ternura, o Marienkäfer sela a promessa de um ano novo pleno, seguro, delicadamente abençoado — um pequeno guardião do futuro, lembrando que até o menor gesto, a menor presença, pode transformar o destino.

            TRÍADE DA VIRADA: SORTE, PROTEÇÃO E PROMESSA

Quando o Glücksschwein, o Schornsteinfeger e o Marienkäfer se encontram na mesa de Silvester, não estão apenas lado a lado: formam uma paisagem viva de símbolos que respiram, que contam histórias e carregam esperanças.

O porquinho, com seu corpo rosado de marzipan, oferece prosperidade, lembrando que sorte é alimento, cuidado e fartura conquistada com mãos e corações atentos.

O limpador de chaminés, com seus botões dourados e a memória das casas de madeira, oferece proteção, uma promessa silenciosa de segurança que atravessa séculos e se reflete em cada respiração mais tranquila da noite.

A joaninha, minúscula e delicada, oferece cuidado e esperança, lembrando que a sorte pode ser sutil, quase imperceptível, mas essencial — e que a delicadeza também carrega poder.

Na penumbra de dezembro, enquanto os aromas de doces e carnes assadas se entrelaçam com o tilintar de copos e o sopro frio que escapa pelas janelas, cada um desses símbolos pulsa com vida própria.

Eles não estão ali apenas para ornamentar a mesa: são mensageiros silenciosos daquilo que desejamos carregar para o ano que começa. O porquinho nos lembra que a fartura se cultiva; o limpador de chaminés, que a proteção se valoriza; a joaninha, que a esperança se preserva, mesmo nas formas mais discretas.

E assim, ao redor dessa mesa de Silvester, cada olhar, cada toque, cada mordida em marzipan ou doce se transforma em um pequeno milagre cotidiano — uma celebração de um ano que pode ser doce, seguro e cheio de novas possibilidades, tecido com a magia e a tradição que atravessam gerações.

É nesse instante, entre passado e futuro, entre açúcar, metal e asas delicadas, que a mesa de Silvester se revela como um universo inteiro de cuidado, desejo e poesia, onde a vida, mesmo em sua fragilidade, se renova, e onde cada gesto, por menor que pareça, toca a eternidade de um novo ano que se abre diante de nós.

NA GASTRONOMIA DE ANO NOVO: O BANQUETE QUE ALIMENTA O FUTURO

Quando penso em Silvester — essa porta tênue entre o que foi e o que será — a mesa se torna algo mais que superfície cheia de pratos: ela se torna coração. Na Alemanha, a gastronomia do Ano Novo não é apenas sabor; é tecido de crenças, de imagens que falam sem palavras, de culinária que carrega promessas nos aromas e nas texturas.

Entre os sabores que povoam essa noite há uma tradição firme e antiga: comer carne de porco ou pratos com porco na véspera ou no primeiro dia do ano. Isso não é casual nem apenas uma questão de paladar; está entrelaçado com uma ideia visceral de que a vida deve seguir para frente, nunca para trás.

Diferentemente de aves, que ciscam e recuam, o porco é visto como um animal que avança, que olha adiante, e por isso representa o impulso e a esperança de um futuro que segue adiante com segurança e coragem.

Essa associação se reflete não só em pratos salgados, mas também em doces e sei lá quantas formas que a imaginação pode inventar. Os Glücksschweinchen de marzipan — pequenos porquinhos doces — surgem como presentes metamorfoseados em sorte, como se cada dentada pudesse dissolver os medos do ano que termina e plantar promessas para o que nasce.

Em muitas regiões, pratos tradicionais vão além: chucrute com carne de porco — comida que aquece o corpo e o espírito — é servida como quem partilha histórias ancestrais; antes da refeição, a mesa inteira deseja uns aos outros bênçãos e prosperidade na quantidade de tiras de repolho que circulam entre os pratos.

Mas a gastronomia do novo tempo não se prende a regras rígidas — ela floresce em interações humanas. Há sopas de lentilhas que lembram moedas, convidando quem come a imaginar riqueza e abundância; há festas onde o fondue ou o raclette transformam o ato de comer em dança compartilhada de sabores que derretem uns nos outros, aquecendo mãos e corações ao redor da mesa.

E o porco — seja na forma de carne suculenta, seja em biscoitos decorados ou cupcakes com topos de joaninhas, seja em chocolates moldados com ludicidade — é, de todas as possibilidades culinárias, aquele que mais parece conjurar futuro com o simples gesto de ser comido. Nada ali é apenas alimento; cada prato é uma invocação de sorte, um gesto que diz que o novo ano merece ser saboreado com coragem, imaginação e alegria.

Na Alemanha, há uma salada peculiar que atende pelo nome de Roter Heringssalat — salada de arenque vermelho — e seu nome já carrega a cor profunda da beterraba e o peso do costume. Ela não é prato casual: chega à mesa do Ano-Novo, sobretudo no norte alemão, como presença quase obrigatória, silenciosa e fiel, ao lado de outros alimentos que falam de continuidade e desejo de prosperidade. 

Ali também surgem a Linsensuppe (sopa de lentilhas, moedas humildes que prometem fartura), o Sauerkraut que estala ácido e vivo, o Schweinebraten ou o simples Würstchen com salada de batatas, o arenque servido puro em conserva, o pão escuro ainda morno, a manteiga espessa, os picles alinhados como pequenas memórias do verão. É uma mesa de inverno que não ostenta, mas sustenta; que não grita celebração, mas a afirma com constância. O Roter Heringssalat repousa ali como um eixo: frio, rosado, intenso, lembrando a todos que o ano começa com aquilo que foi preservado — o sabor que resiste, a tradição que permanece, e a esperança que, discreta, se infiltra entre uma garfada e outra.

Mas essa salada de beterraba com arenque é um clássico de Ano Novo. Vinda do norte da Alemanha, das regiões onde o Báltico respira sal e memória — Hamburgo, Schleswig-Holstein, as terras baixas varridas pelo vento — essa salada nasce da mesma lógica silenciosa que moldou a salada finlandesa chamada Rosolli: a convivência íntima com o frio, com a espera, com a arte de conservar o que sustenta. Ali, o arenque não é ingrediente, é herança; a beterraba, com sua cor de vinho profundo, não enfeita, ancora. Maçãs trazem o estalo ácido da colheita tardia, cebolas e picles falam de paciência, de tempo guardado em vidro. 

A semelhança entre as duas saladas não é coincidência, mas parentesco antigo, tecido por rotas marítimas, comércio hanseático e invernos longos demais para o desperdício. Cada cultura ajustou o prato ao próprio temperamento — a Alemanha o fez mais denso, mais afirmativo, enquanto a Finlândia deixou-o respirar —, mas ambas revelam o mesmo gesto ancestral: transformar necessidade em beleza, preservação em sabor, e fazer da mesa um lugar onde o passado continua vivo, discreto e essencial. 

JANTAR PRA UM: RISOS E TRADIÇÃO À MESA DE SILVESTER

Além dessas figuras importantes — o porquinho, o limpador de chaminés e a joaninha — existe um hábito peculiar que veio importado dos britânicos, um ritual de humor e repetição que transforma a noite de Silvester em algo inesperadamente familiar e coletivo...

No coração da noite de Silvester, quando o relógio se aproxima do limiar do novo ano, surge uma tradição curiosa e silenciosa, que atravessou mares e décadas: a comédia britânica “Dinner for One”. Criada em 1963, na Inglaterra, contava uma história simples e absurda — uma senhora celebra seu aniversário com um jantar em que todos os convidados já morreram, e seu mordomo, fiel e meticuloso, repete os brindes e passos, tornando o ritual cômico e encantador.

Mas foi na Alemanha que essa pequena obra encontrou um lar, transformando-se em ritual quase sagrado de fim de ano, transmitida todos os 31 de dezembro. Não é música, não é dança, mas a repetição perfeita da cena, os tilintares de taças, os tropeços e a comicidade silenciosa, criam algo que toca a alma: um ritual de continuidade, de conforto e de leveza para a passagem do velho para o novo. veja abaixo um desses programas:

Por que um programa britânico conquistou corações alemães? Porque o Silvester é, antes de tudo, uma noite de espera e transição. Entre o que passou e o que virá, a mente busca algo previsível, algo que dê segurança sem esforço, e “Dinner for One” oferece isso: a mesma cena, a mesma piada, o mesmo brinde, repetidos ano após ano, como se cada replay dissesse: “Tudo está no seu lugar; o tempo pode seguir, mas a memória e a tradição permanecem.” O riso coletivo diante da tela, mesmo distante ou em família, cria uma espécie de música invisível, um ritual de humor e união que transforma o instante em abrigo emocional.

Entre velas, cheiro de doces e o tilintar real das taças, assistir àquele mordomo tropeçar, erguendo a garrafa e entoando cada frase com precisão cômica, é participar de uma ponte entre gerações.

É entender que a sorte, a proteção e a esperança não se encontram apenas nos símbolos físicos — no porquinho, na joaninha, no limpador de chaminés —, mas também em gestos compartilhados, risos repetidos, pequenos rituais que nos lembram que o ano que vem pode ser leve, seguro e pleno de alegria.

E assim, na penumbra da sala iluminada pela tela da televisão, a Alemanha inteira se curva, sorrindo diante de um espetáculo britânico que se tornou parte de sua própria alma de Silvester, provando que tradição não se prende à origem, mas àquilo que toca o coração e atravessa o tempo. 

EPÍLOGO DA VIRADA: O FUTURO EM CADA GESTO, CADA SABOR

À beira do último suspiro de dezembro, a mesa de Silvester deixa de ser objeto e passa a respirar. Ela pulsa. Reúne em sua superfície um mapa secreto do amanhã, como se cada detalhe fosse capaz de ensinar ao tempo o caminho que desejamos seguir. Ali, nada é pequeno: os porquinhos de marzipã guardam promessas rosadas, os limpadores de chaminé em miniatura reluzem como sentinelas discretos, as joaninhas repousam — mesmo invisíveis — sobre a doçura do instante. Tudo exala sentido.

Os aromas escapam da cozinha como confidências quentes, o pão recém-nascido espalha conforto, e as velas acesas desenham sombras que parecem ouvir. Taças se encontram num breve canto de cristal, risos se soltam diante da velha cena do mordomo em desequilíbrio, e há uma alegria mansa no ar, dessas que não fazem alarde, mas permanecem. O calor não vem só das chamas: vem dos olhos, das mãos próximas, da certeza silenciosa de pertencimento.

Quando os dedos tocam o porquinho da sorte, quando o dourado dos botões de chocolate brilha sob a luz, quando se imagina a joaninha abrindo asas sobre um doce, compreende-se algo essencial: a sorte não cai do céu por descuido. Ela nasce do zelo, da lembrança do que já foi vivido e da coragem de esperar. Cada gesto carrega uma intenção delicada, como quem escreve o futuro sem levantar a voz.

Nesse limiar em que a noite se inclina para dar passagem ao novo ano, tudo se mistura: o que fomos, com nossas falhas e encantos, e o que desejamos ser. A esperança ganha textura — é açúcar que derrete, é riso que aquece, é silêncio cheio de significado. O tempo deixa de ser linha e vira encontro.

A mudança não se mede apenas em segundos contados; ela acontece no detalhe quase invisível, na doçura compartilhada, no tropeço que arranca gargalhadas, no voo imaginado de uma joaninha que insiste em pousar onde há afeto. O futuro se anuncia discreto, pedindo apenas atenção para existir.

Com a alma desarmada e o coração atento, percebemos: o ano que nasce já nos envolve. Traz consigo pequenas surpresas, sinais de cuidado, abundância que começa simples, risos que se multiplicam, gestos mínimos que sustentam grandes possibilidades. Nada chega apenas porque o calendário virou; chega porque alguém cuidou, desejou, acreditou.

No instante quieto que antecede a primeira hora, a mesa reluz com uma luz que não vem de lâmpadas nem de velas. Por um breve e precioso momento, o mundo parece exatamente o lugar certo para confiar: que o bem é possível, que a vida pode ser generosa, e que os milagres mais verdadeiros costumam caber na palma da mão. 

PORQUINHO DA SORTE DE MARZIPÃ (GLÜCKSSCHWEIN AUS MARZIPAN)

250 g de farinha de amêndoas sem pele e triturada até virar farinha fininha (eu não gosto de comprar farinha de amêndoas pois ela perde o óleo com o tempo)

250 g de açúcar de confeiteiro

1 clara de ovo (ou 2 colheres de sopa de xarope de glicose, se preferir uma textura mais maleável)

Algumas gotas de essência de amêndoas (opcional, mas intensifica o aroma)

Corante alimentício rosa

Cravos-da-índia, chocolate derretido ou marzipã adicional colorido para olhos e focinho

Modo de Preparo:  Preparar a massa – o Em uma tigela grande, peneire a farinha de amêndoas e o açúcar de confeiteiro, garantindo que fiquem bem misturados e sem grumos. Acrescente a clara de ovo aos poucos, mexendo com uma colher de pau ou espátula, até que a massa comece a se unir. Se estiver usando xarope de glicose, misture devagar até formar uma textura firme, mas maleável, que não grude nas mãos. Se desejar, adicione algumas gotas de essência de amêndoas para intensificar o aroma. Colorir a massa – Separe uma porção da massa e adicione corante rosa, amassando bem até que a cor fique uniforme. É importante usar pequenas quantidades de corante de cada vez, para não alterar a textura. Dividir e modelar – Separe pequenas porções da massa, aproximadamente do tamanho de uma noz, para formar cada porquinho. Primeiro, modele um corpo oval e ligeiramente achatado. Para a cabeça, faça uma pequena bola e pressione levemente na extremidade do corpo, criando a união. Modele orelhas triangulares pequenas e fixe-as delicadamente na cabeça, pressionando levemente para que fiquem firmes. Faça um focinho: uma bolinha minúscula de marzipã rosa ou branco, pressionando levemente no centro da cabeça. Para os olhos, use cravos-da-índia, pequenos pedaços de chocolate ou marzipã colorido. Pressione levemente para que fiquem seguros. Detalhes finais – Se desejar, use um palito de dente para marcar pequenas linhas no focinho ou definir as orelhas. Para a cauda, modele um fio fino de marzipã e enrole em espiral, fixando na parte traseira do corpo. Secagem e armazenamento – Deixe os porquinhos secarem em temperatura ambiente por algumas horas antes de embalá-los ou servir. Podem ser armazenados em recipiente hermético, longe da umidade, por até uma semana.

Dicas adicionais para modelar com beleza e naturalidade: existem moldes de acrílico nas lojas de confeitaria e aceleram a modelagem e aí você fica apenas com o trabalho da decoração.  Trabalhe com a massa levemente untada nas mãos, se estiver pegajosa. Para porquinhos menores, use metade da quantidade de massa indicada. Experimente diferentes tonalidades de rosa para focinho e corpo, criando profundidade visual. A prática deixa os detalhes mais precisos; cada porquinho terá seu charme único, exatamente como na tradição alemã.

HERINGSSALAT (ROTER HERINGSSALAT) — salada de beterraba com arenque

2 batatas médias cozidas, descascadas e cortadas em cubos

2 maçãs Granny Smith descascadas e cortadas em cubos

2 cenouras cozidas, descascadas e cortadas em cubos

2 xícaras de beterraba cozida, descascada e cortada em cubos

1 cebola média picada

2 picles médios cortados em cubos

3/4 de xícara de arenque (ou sardinha em conserva)

1/8 colher de chá de pimenta-do-reino

1 colher de chá de endro picado

Molho de creme azedo:

1 xícara de creme azedo ou creme de leite fresco

1 colher de sopa de suco de limão ou a gosto

2 colheres de chá de suco de beterraba

açúcar a gosto

sal a gosto

Modo de Preparo:  Em uma tigela grande o suficiente, misture as batatas, as maçãs, as cenouras, a cebola, os picles e o arenque em cubos. Polvilhe com a pimenta-do-reino e o endro e misture bem para distribuir os ingredientes uniformemente. Reserve os cubos de beterraba para adicionar à salada pouco antes de servir. Prepare o molho em uma tigela separada, misturando todos os ingredientes até obter uma mistura homogênea. Agora, adicione à salada e misture para envolver tudo no molho. Como alternativa, você pode servir o molho à parte para que cada um possa adicionar a quantidade que desejar à sua porção. Mantenha refrigerado. Na hora de servir, adicione a beterraba e misture delicadamente. Em seguida, transfira para uma tigela de servir sobre uma cama de alface fresca. Sirva e aproveite com seu prato principal favorito!

domingo, 28 de dezembro de 2025

BRIGITTE BARDOT: O SABOR DE UMA VIDA

  

Quando a notícia da morte de Brigitte Bardot atravessou meu dia de hoje, algo antigo se moveu dentro de mim, como uma maré que retorna sem avisar. A lembrança veio de muito longe, de um tempo em que eu era criança e o mundo ainda se organizava em sons, impressões e espantos.

A primeira vez que ouvi o nome Brigitte Bardot, não foi acompanhado de imagem alguma — foi apenas o nome, pronunciado por alguém que falava de beleza como se falasse de um acontecimento raro.

A infância, essa arquiteta caprichosa da memória, guarda algumas cenas com precisão quase cruel, como fotografias intocadas, e dissolve outras em lampejos rápidos, que surgem e desaparecem. Não me recordo quem puxou o assunto, nem em que sala, nem em que tarde. Mas lembro perfeitamente do impacto do nome.

Brigitte Bardot.

Ele me empolgou de imediato. Soava chique, inteiro, estrangeiro. Um nome que parecia caminhar de salto alto mesmo quando dito em voz baixa. Logo alguém explicou que era francês — e isso bastou. Ali se fechou o círculo do meu encantamento infantil: o que era francês, para mim, era sinônimo de elegância, de mundo vasto, de algo que existia além do alcance das mãos.

O tempo passou — não com pressa, mas com aquela paciência própria de quem sabe onde quer chegar. Anos muitos, muitos anos depois, o nome ressurgiu. Já não era apenas música: vinha carregado de história. Era o início dos anos 2000, eu cursava Turismo na faculdade, aprendendo a ler os lugares não apenas como espaços, mas como destinos moldados por encontros improváveis. Eu tinha aulas com professores que fizeram parte da primeira turma de Turismo no Brasil, pessoas que traziam nos olhos a memória de quando tudo ainda estava sendo inventado.

Num desses dias, enquanto ajustávamos uma viagem técnica para a Região dos Lagos, mais precisamente para Búzios, no Rio de Janeiro, o professor mencionou Brigitte Bardot. Disse, quase como quem conta um segredo antigo, que fora ela a responsável por colocar Búzios na rota do turismo mundial ainda na década de 1960. Achei curioso, quase poético: o primeiro curso de Turismo no Brasil só surgiria na década de 1970, mas Bardot já havia feito, sozinha, o trabalho que os livros ainda tentariam explicar depois.


Ela esteve em Búzios duas vezes, em 1964. A primeira, em janeiro, quando permaneceu ali por quatro meses, hospedada em Manguinhos, ao lado do então namorado Bob Zagury. A segunda, em dezembro, já sob uma luz mais intensa, quando sua presença deixava de ser apenas curiosidade e passava a ser acontecimento. O que a seduziu foi o aspecto bucólico, a necessidade de isolamento, o silêncio como abrigo. Brigitte aportou na Armação de Búzios para descansar do mundo — e, sem saber, transformou aquele lugar para sempre.

Para os moradores locais, gente simples e hospitaleira, ela não era mito nem estrela. Era descrita como “uma criança bonita, parecida com uma boneca de olhos verdes”, conforme registrou o Jornal do Brasil da época. Essa imagem me toca profundamente: a mulher que o mundo venerava vista ali como algo frágil, quase doméstico, pertencente ao cotidiano da vila.

Depois da visita da jovem Brigitte Bardot, o balneário foi revelado ao mundo. A antiga vila de pescadores começou a mudar, a crescer, a ganhar projeção nacional e internacional. Durante sua estadia, ela viveu de forma simples, caminhando pela cidade, frequentando praias como Manguinhos, convivendo com os moradores — como se estivesse tentando, por alguns meses, ser apenas mais um corpo entre o mar e a areia.

Mas o mundo não esquece facilmente aquilo que toca. Após suas visitas, Búzios passou por mudanças aceleradas, ganhou fama, desejo, nome. E desde então, nunca mais saiu de moda.

Em 1999, a cidade inaugurou a Orla Bardot, onde uma estátua foi instalada em sua homenagem — um gesto de gratidão silenciosa, quase marítima. Brigitte Bardot nunca mais retornou ao município, mas deixou algo mais duradouro que presença: um legado. Algo que permanece no desenho da cidade, no fluxo dos visitantes, na memória coletiva.

Neste domingo, logo após a notícia de sua partida, a Prefeitura de Búzios publicou uma homenagem. O texto destacava a relação rara que ela construiu com o lugar, mesmo sendo chamada de musa. Um trecho dizia: “Você fez diferente: caminhou junto, escolheu o silêncio, preferiu o essencial. Tornou-se parte da alma de Búzios, como se sempre tivesse estado aqui.”



Ao ler essas palavras, senti que aquele nome que me encantara na infância finalmente fechava um ciclo dentro de mim — não como despedida, mas como permanência.

Como turismólogo de formação, eu reconheço com clareza quase técnica — mas nunca fria — que Brigitte Bardot foi um elemento fundamental na construção e na manutenção de Búzios como destino turístico. Há dados, há datas, há análises possíveis. O impacto é mensurável: antes dela, uma vila; depois dela, um nome pronunciável em muitas línguas. Mas essa leitura, embora correta, é insuficiente.

Porque imagino — e essa imaginação me acompanha como uma pergunta que não se cala — que para aqueles que conviveram com ela naquela época, ali, entre o sal do mar e a poeira das ruas de terra, Bardot tenha sido mais do que um fator de transformação econômica ou simbólica. Talvez tenha sido apenas uma presença: alguém que caminhava devagar, que olhava nos olhos, que ria com facilidade. Talvez tenha sido silêncio partilhado, sombra dividida, manhãs sem urgência.

Quando estive em Búzios, não cheguei a entrevistar nenhum antigo morador. Hoje, confesso, isso me pesa. Arrependo-me desse silêncio que deixei existir. Gostaria de ter encontrado essas pessoas, de ter ouvido suas vozes gastas pelo tempo, de recolher fragmentos de uma Brigitte que não aparece nos filmes nem nas fotografias — aquela que existiu apenas ali, naquele intervalo raro da vida em que ela não era espetáculo, mas vizinhança. Ter mais visão dela. Ter mais humanidade emprestada por quem a viu sem moldura.

Hoje, entretanto, ela já não está mais entre nós. E o que fica são imagens. Imagens conhecidas, repetidas, algumas cristalizadas demais. Ficam os gestos eternizados, os enquadramentos, os olhares capturados quando ainda não sabiam que seriam eternos. Fica aquilo que o mundo conseguiu guardar.

Eu conheço o suficiente — e digo isso com respeito e consciência dos limites. Vi alguns de seus filmes, desses que atravessam décadas sem envelhecer por completo. Vez por outra, ouço algumas das músicas que ela gravou, e nelas há sempre algo de leve e de melancólico, como se a voz carregasse a fadiga doce de quem foi vista demais. Conheço também suas escolhas fora das telas, suas recusas, seu afastamento, sua decisão de existir longe do brilho constante.

E, curiosamente, partilho gostos com ela. Particularmente, também gosto de alguns dos pratos que eram os seus preferidos — mas isso ficará para o final deste ensaio, como se deve deixar o sabor repousar até o momento certo. Antes, porém, é preciso falar um pouco sobre ela, para aqueles que não a conheceram, para os que nasceram depois que sua imagem já era mito, para quem só ouviu o nome sem nunca ter parado para senti-lo.

Porque Brigitte Bardot não foi apenas vista.

Ela foi percebida.

E essa diferença muda tudo. 

ELA FOI CORPO E ALMA DE SUA PRÓPRIA LENDA

Quando Brigitte Bardot nasceu em Paris, em setembro de 1934, ela nasceu já envolta em seda e etiqueta — numa grande cidade que é ao mesmo tempo luz e sombra, no lar de uma família burguesa tradicional, com apartamentos elegantes e rotinas marcadas por rigor e expectativas altas. Seu pai era industrial, dono de fábricas e habituado ao poder sereno das grandes máquinas; sua mãe, filha de um diretor de seguros, vivia a elegância da moda e da dança, interessada mais nas formas do que nas fugas do coração. Bardot cresceu entre salões bem arrumados, festas cuidadas e um futuro que, para muitos, já parecia escrito.

Brigitte Bardot (à esquerda) rodeada pela família na escadaria da casa dos avós em Louveciennes, França, maio de 1952. O pai, Louis, a mãe, Anne-Marie, o avô, "Boum-papa", a irmã de 13 anos, Mijanou, e o cachorro. Foto de Walter Crone

Mas havia algo nela que ardia além dos tecidos caros e das salas amplas — uma inquietação, um desejo de respirar o mundo sem a moldura previsível que sua educação tentava impor. No lar onde o rigor católico controlava os passos e onde os amigos eram escolhidos com a mesma precisão de um terno bem cortado, ela sentia vontade de desaparecer daquele desenho perfeito e buscar algo que ninguém ali poderia nomear.

A própria infância de Bardot ficou marcada por estas tensões: em casa, os padrões de comportamento eram estritos, as amizades limitadas e a disciplina — implacável. Numa ocasião que ela mesma recordaria depois, um vaso favorito dos pais foi quebrado durante uma brincadeira — e, em resposta, seus pais reagiram com severidade, exigindo distância emocional e formalidade até na forma de tratamento dentro de casa, como se cada gesto fosse uma chance de desordem a ser evitada.

Mas o corpo dela não nasceu para ser contido. Enquanto aprendia balé e desenhava passos no estúdio, um impulso mais profundo crescia em seu peito: o desejo de sentir a vida em movimento, de ser mais do que um rosto bonito em retratos engessados. Aos quinze anos, quando posou para a capa da revista Elle e foi vista pela primeira vez fora do círculo restrito de sua família, algo dentro dela despertou de vez — era como se uma janela se abrisse para um céu que antes parecia sempre distante.

E então Roger Vadim entrou em cena — não apenas como cineasta ou futuro marido, mas como o agente que desafiou todas as bordas daquela existência burguesa. Ele viu nela não apenas um rosto, mas um espírito que precisava se lançar para fora das paredes controladas da casa parisiense. A partir daquele encontro e daquela primeira câmera que não tirava uma pose educada, Brigitte começou a aprender algo que sua educação jamais ensinara: que a vida verdadeira às vezes acontece fora das grades do esperado, fora das curvas suaves do que é seguro.

               Brigitte Bardot e Roger Vadim tomando café da manhã na cama, década de 1950.

Ela não apenas deixou a riqueza para trás — ela começou a rejeitar a própria ideia de um destino pronto e arrumado. Entrou no cinema como quem atravessa um campo vasto pela primeira vez: com respiração contida e coração solto, sabendo que nada jamais seria como antes. Essa decisão foi um salto para fora da colcha confortável da riqueza, rumo ao desconhecido do palco, da tela, da fama e de um mundo que, por vezes, a quis como objeto antes de percebê-la como alma.

Assim, a transformação de Brigitte Bardot — da menina criada entre cortinas pesadas e ordens repetidas — para a mulher que violou convenções, desafiou normas e reinventou sua própria vida não é apenas uma história biográfica: é um gesto de coragem, de amor próprio e de busca pela autenticidade que poucos conseguem viver.

Foi então que Roger Vadim, jovem cineasta e seu primeiro marido, escreveu um papel que não era apenas retrato, mas uma revolução: And God Created Woman (E Deus Criou a Mulher, 1956). Nesse filme, Brigitte, aos 22 anos, não apenas atuou — ela incendiou a tela com uma energia que parecia descender de outra lógica, uma que recusava personagens dóceis e molduras contidas. A sensualidade que emanava dela era tempestade e brisa ao mesmo tempo, uma música sem nome que atravessava corpos e atravessou décadas.



A fama foi um sol que brilhou forte demais. Não era incomum que fãs atravessassem portões, entrassem em sua casa, rondassem jardins de Saint-Tropez, na esperança de apenas um lampejo de sua presença, uma relíquia qualquer que pudesse tocar e guardar. Os paparazzi, como aves noturnas sedentas, perseguiram cada movimento seu, transformando até os dias quietos em sequência de flashes. Alguns atravessaram o limite do humano: bolas de neve jogadas em seu rosto, uma enfermeira que, em um ataque de loucura, a atacou com um garfo — e que deixou cicatrizes que Brigitte carregou consigo como mapas de batalhas íntimas.

A imagem que o público consome — aquela moldurada, iluminada, pronta para consumo — era apenas a superfície de um corpo que sangrava sob o peso do olhar permanente. Nada disso é exagero poético, mas a verdade crua de uma mulher que foi vista demais, que foi reduzida a cenário e a objeto, sem que quase ninguém perguntasse o que ardia em seus olhos.

Aos 40 anos, esgotada pelo assédio e pelos espinhos invisíveis da fama, Brigitte decidiu virar o rosto para a câmera e escutar o que seu próprio coração gritava em silêncio. Ela tentou tirar sua própria vida em mais de uma ocasião — não como rendição, mas como sinal de que o mundo que a queria inteira e sempre disponível não lhe pertencia.

Foi assim que ela se afastou dos holofotes e descobriu um amor que exigia silêncio, respeito e verdade: o amor pelos animais. Fundou, em 1986, a Fundação Brigitte Bardot, dedicada à proteção e ao bem-estar dos que não têm voz. Não foi um gesto fácil ou decorativo. Para financiar sua causa, ela leiloou joias e objetos pessoais, convertendo lembranças de um passado de glamour em recursos para resgatar vidas indefesas.

Do outro lado da lente, Brigitte viu nos olhos dos animais aquilo que aprendeu a reconhecer em si mesma: a vulnerabilidade, o medo, a vontade de viver sem dor — algo que jamais encontrou no olhar insaciável da fama. Ela viajou, protestou, exigiu mudanças e confrontou tradições que aceitavam sofrimento como normalidade. Seu nome passou a soar nas campanhas contra a caça de focas, contra a crueldade nas fazendas industriais, contra práticas que o mundo justificava com o argumento da necessidade.

E mesmo ali, nessa nova encarnação de si mesma, seu coração continuou a arder em contradições: seu ativismo apaixonado muitas vezes colidiu com palavras duras e posições que a tornaram figura controversa e alvo de condenações por incitação ao ódio em sua França natal — lembrando que as complexidades humanas não são facilmente apaziguadas por intenções nobres.

E assim foi sua vida:

corpo que foi desejo,

alma que foi lente,

espírito que foi voz dos silenciados.

Ela se tornou mito — não porque alguém o decretou, mas porque sua história é feita de luz e de feridas, de brilho e de noites sem estrelas, de amor e de dor.

O GOSTO DO SILÊNCIO: QUANDO A VIDA SE SERVE À MESA

Existe um território da vida que raramente aparece nas biografias oficiais: a cozinha. É ali que a fama se dissolve, que o corpo descansa da pose, que a alma escolhe o que pode ou não ingerir do mundo. Brigitte Bardot, mesmo depois de ter sido imagem excessiva, foi alguém que soube preservar esse território íntimo do sabor.

Quanto à comida, ela continuou cozinhando para si mesma já em idade avançada, com prazer evidente, como quem transforma o ato de comer em gesto de cuidado e permanência. Comer, para Bardot, nunca foi espetáculo — foi refúgio.


Em Saint-Tropez, onde tantos a perseguiram com olhos famintos, havia também um lugar onde ela se sentava como qualquer outra pessoa: o restaurante La Ponche, discreto, antigo, impregnado de Mediterrâneo. Ali, entre paredes que ouviram confidências e passos lentos, o cardápio oferecia muito mais do que a culinária provençal clássica. Havia ecos do mundo: Índia, Tailândia, Líbano, Japão, Marrocos. Uma diversidade que parecia dialogar com a própria trajetória de Bardot — mulher francesa, mas jamais confinada a uma única identidade.

Curiosamente, ninguém sabia dizer qual era, de fato, sua comida favorita. Como se esse detalhe tivesse sido guardado longe do olhar público, protegido da curiosidade que tantas vezes lhe invadiu a vida. Foi apenas mais tarde, num gesto quase fortuito, no posto de turismo de Saint-Tropez, que a resposta surgiu — escondida numa edição local de revista, daquelas que só quem caminha sem pressa encontra. A edição de setembro celebrava as figuras que haviam atravessado as ruas da cidade. Entre elas, Brigitte. E ali, finalmente, estava revelado o prato que lhe era caro: a salada de tabule.

A história vinha contada por Frédéric van Coppernolle, chef belga, cuja vida se entrelaçou à dela de maneira silenciosa e profunda. Em 1980, aos quinze anos, ele foi morar com a avó na propriedade de Bardot, enquanto seus pais atravessavam um divórcio difícil. A avó cuidava da casa — e cozinhava. Bardot, já então uma defensora obstinada dos direitos dos animais, era vegetariana há muitos anos, e a cozinha da casa girava em torno desse princípio: nada de crueldade, nada de excesso, apenas o essencial.

O jovem Frédéric tornou-se ajudante da avó. Preparavam tortas de cebola, ratatouille perfumado de azeite, pizzas simples, quiches de legumes e queijo. Cozinhavam também para os muitos habitantes não humanos da casa: treze cães e cerca de quarenta gatos, alimentados com refeições feitas especialmente para eles — como se a ética de Bardot se estendesse, naturalmente, da mesa ao quintal.

Entre todos os pratos, havia um que se repetia com carinho: o tabule da avó. Tecnicamente, não era tabule, mas cuscuz — e eles sabiam disso. Nunca a corrigiam. Bardot era conhecida por certa teimosia doce, e a paz valia mais do que a precisão culinária. Chamavam de tabule, e assim ficava. Afinal, os ingredientes falavam por si: ervas frescas, limão abundante, azeite generoso. O nome era apenas um detalhe.

Na juventude, durante as filmagens em Saint-Tropez, esse prato acompanhava outro prazer simples: a Tarte Tropézienne. Um brioche macio, aberto ao meio, recheado com creme de confeiteiro misturado a creme de manteiga, coberto por açúcar cristal. A sobremesa ganhou fama mundial e foi batizada pela própria Bardot, em 1956, durante as filmagens de E Deus Criou a Mulher. Mesmo o doce carregava sua marca: sensual sem ser excessivo, simples sem ser banal.

Com o passar dos anos, sua relação com a comida tornou-se ainda mais ética. Desde o final da década de 1970, Brigitte Bardot militou ativamente por opções vegetarianas em restaurantes, denunciou a crueldade da indústria alimentar e defendeu uma alimentação que não exigisse sofrimento como condição. Comer, para ela, tornou-se também um ato político — silencioso, firme, irrevogável.

E assim, quando pensamos em Bardot à mesa, não a vemos como mito, mas como alguém que escolhia folhas, cortava limões, sentia o perfume da hortelã. Alguém que, depois de ter sido devorada pelos olhares do mundo, aprendeu a escolher cuidadosamente o que deixaria entrar em si.

Se o tabule foi o abraço fresco de uma vida vegetariana, há outro sabor que pertence à memória de Brigitte Bardot como um sopro dourado de verão. Enquanto a salada era leve, cheia de ervas e limão, havia um doce que sussurrava o nome da Riviera Francesa entre cada camada de creme e massa — a Tarte Tropézienne.

A Tarte Tropézienne não é apenas um ‘bolo’. É um pedacinho de Saint Tropez transformado em sobremesa: uma massa de brioche levemente amanteigada, macia como nuvem, dividida ao meio e recheada com um creme tão delicado que parece feito de memórias — mistura de crème pâtissière e creme de manteiga, às vezes aromatizado com água de flor de laranjeira ou um toque de rum. Por cima, pequenos cristais de açúcar brilham como manhã de sol na Côte d’Azur.

Essa sobremesa nasceu nos anos 1950, criada por Alexandre Micka, um confeiteiro polonês que se instalou em Saint Tropez após a Segunda Guerra Mundial e trouxe consigo a receita esquecida de sua avó, adaptada ao clima ensolarado daquele recanto do Mediterrâneo.

Foi ali, enquanto Brigitte Bardot filmava “E Deus Criou a Mulher” nas ruas ensolaradas e nos becos de pedra da vila, que ela encontrou esse presente de textura e sabor. Dizem que ela se apaixonou pela sobremesa e sugeriu ao confeiteiro que desse um nome ao doce que ela tanto pedia — primeiro chamando o de la tarte de Saint Tropez, e, mais tarde, consolidando o nome que conhecemos hoje: Tarte Tropézienne.


A partir desse momento, a Tarte Tropézienne deixou de ser apenas um bolo local e tornou se um ícone, uma poesia em forma de açúcar e creme. Ela ganhou fama junto com Bardot, assumindo seu lugar entre os símbolos da Riviera — tão leve quanto o vento que percorre o mar, tão radiante quanto o sorriso de uma noite de verão.

E então, ao contrário de muitas sobremesas que se perdem com o tempo, ela permaneceu. Permeou cafés escondidos entre ruazinhas, foi servida em mesas com vista para o porto, tornou se objeto de desejo de viajantes e locais. A receita original ainda é guardada com cuidado como um segredo de família, transmitida por gerações de padeiros que mantêm viva essa tradição culinária de Saint Tropez.

Provar uma Tarte Tropézienne é sentir na boca a história de uma mulher que, na juventude, foi desejo e estrela, e que, depois, soube escolher seus prazeres com a mesma honestidade que escolheu sua trajetória de vida — sem concessões, mas com poesia.

A brioche acaricia os lábios, o creme desliza como saudade, e os cristais de açúcar explodem como risos de infância. É uma sobremesa que não se come apenas com a língua — se come com lembranças, com paisagens, com tempo suspenso.

DESPEDIDA À DIVA PELO SABOR E PELA VIDA

E então chegamos ao momento em que a textura encontra o símbolo, em que o sabor se torna voz e a sobremesa se ergue como epitáfio.

Ao fechar os olhos, o nome Brigitte Bardot ressoa como um sussurro de elegância e mistério, carregado do perfume distante do cinema francês. Seu caminhar pelas praias de Búzios, há décadas, transformou aquele recanto em destino mundial, como se cada passo tivesse imprimido magia na areia e nos corações que o mundo ainda descobriria. Não era apenas uma atriz ou um ícone: Brigitte se tornou presença viva, elo entre fantasia e realidade, entre o sonho que a tela projetava e o mundo que podia ser tocado com a imaginação e o encanto. Hoje, sua memória retorna como um sopro suave, lembrando que, embora tenha partido, permanece em cada história, em cada paisagem, em cada passo leve que deixou gravado no tempo.

E se sua vida se revela em imagens e lembranças, há também um sabor que nos aproxima de sua intimidade: a salada de tabule. Cada grão de bulgur, cada folha de hortelã, cada toque de limão nos fala de uma Brigitte que escolheu a simplicidade com elegância, que apreciou o gesto de cozinhar e comer com prazer e consciência. Naquele prato, encontramos não apenas temperos, mas a essência de quem viveu com intensidade, ética e delicadeza, uma mulher que transformou cada escolha, por menor que fosse, em expressão de sua liberdade e de sua alma.

Brigitte Bardot, cuja vida foi um caleidoscópio de beleza, decisão e contradição, encontrou na Tarte Tropézienne — essa poesia açucarada entre duas nuvens de brioche — não apenas um deleite, mas um espelho da própria existência: rica, leve, intensa e definitivamente inesquecível.

Naquele encontro entre atriz e doce, não foi somente uma sobremesa que ganhou um nome. Foi um pedaço de história que se confunde com a crença de um mundo mais livre, mais sensível, mais profundo. A receita, criada por Alexandre Micka a partir de uma herança familiar e consolidada durante as filmagens de E Deus Criou a Mulher, encontrou em Bardot um coração que a reconheceu e a nomeou — como quem dá nome ao que ama.

Ela, que por tanto tempo viveu sob o peso dos olhares, achou na mesa um lugar de calma e de verdade. Entre ervas frescas e limões vivos do tabule, e o creme generoso da Tropézienne, estava toda a ambiguidade de uma vida que foi cobiçada e serena ao mesmo tempo. A comida que ela escolhia não era apenas alimento: era gesto, era pausa, era afirmação de uma escolha ética — de amar os que não podem falar e de escutar o que o silêncio ensina.

Agora, ao fim, não se trata apenas de lembrar Brigitte Bardot como estrela de cinema ou musa dos anos 1950 e 1960.

Trata se de recordar que, por trás da câmera, havia uma mulher que olhou para a vida com intensidade e lutou por aquilo que acreditava ser justo.

Trata se de contemplar uma forma de existir que não se deu por vencida diante do espetáculo dos outros, mas buscou significado no simples e no essencial.

E, por isso, ao trazer esta sobremesa — a Tarte Tropézienne, com sua massa dourada, seu coração cremoso e seu açúcar cintilante — construo um momento de despedida que é ao mesmo tempo celebração: um convite para sentir cada camada da memória com a mesma delicadeza com que Brigitte viveu, amou e escolheu seus caminhos.

Ao fechar este ensaio, deixo a última imagem não como um fim, mas como um brinde — um pedaço de Saint Tropez servido na língua do tempo, onde cada mordida é lembrança, cada aroma é emoção, e cada memória é um sopro que não se apaga.

Adeus, Brigitte Bardot. Que a eternidade seja tão leve quanto a espuma de um creme e tão luminosa quanto o sol que banha aqueles campos de limão e mar.

SALADA DE TABOULE AO ESTILO DE BRIGITTE BARDOT

Nesta versão atribuída a Brigitte Bardot, a “salada de tabule” é feita com couscous marroquino instantâneo — por isso, tecnicamente, não é o tabule tradicional como se conhece no Oriente Médio, que leva bulgur (trigo para quibe). Mas o resultado é igualmente refrescante, aromático e delicioso, com sabores que evocam as viagens, os jardins e o Mediterrâneo que a diva tanto amou.

 Ingredientes

½ xícara de suco de tomate (bata tomates bem maduros no liquidificador e coe)

1 ½ xícaras de couscous marroquino instantâneo

1 colher de sopa de azeite de oliva (pode ir até ¼ de xícara, conforme gosto)

1 xícara de grãodebico enlatado (bem escorrido)

1 ½ xícaras de tomates picados

1 xícara de pepino, descascado, sem sementes e em cubinhos

1 colher de chá de alho, bem picado

3 colheres de sopa de échalotes ou cebola bem picadinha

Raspas de ½ limão

Suco de 3 colheres de sopa de limão (cerca do suco de 1 limão)

1 ½ a 2 xícaras de folhas de hortelã picadas (conforme preferência)

2 colheres de chá de sal

Pimentadoreino a gosto

Pimentacaiena ou molho picante (opcional, para finalizar)

MODO DE PREPARO: Aqueça líquidos: num pequeno tacho, leve 1 xícara de água e o suco de tomate para começar a ferver. Hidrate o couscous: coloque o couscous marroquino instantâneo numa tigela resistente ao calor e despeje sobre ele a água com suco de tomate ferventes. Tempere: adicione o azeite e misture delicadamente. Cubra com um pano ou com plástico e deixe o couscous repousar, absorvendo o líquido, por alguns minutos até que os grãos estejam macios. Misture os ingredientes frescos: em outra tigela, combine o grãodebico, tomates, pepino, alho, échalotes, raspas e suco de limão. Solte o couscous: com um garfo, solte os grãos agora macios e junteos aos vegetais. Incorpore as ervas: acrescente a hortelã picada, o sal e a pimentadoreino; mexa bem para integrar sabores. Ajuste e refrigere: finalize com pimentacaiena ou um toque de molho picante se desejar, cubra e leve à geladeira por pelo menos 3 horas — o descanso ajuda os sabores a se fundirem e aprofundarem. Sirva frio, como entrada refrescante ou acompanhamento. 

TARTE TROPÉZIENNE

Ingredientes para a massa (brioche):

600 g de farinha de trigo

2 colheres de chá de fermento biológico seco

100 g de açúcar

6 ovos

1 colher de chá de sal

300 g de manteiga sem sal, amolecida

Raspas de 2 limões (opcional, para perfume)

Açúcar em pérola para polvilhar

Creme (Crème Diplomate — combinação de crème pâtissière e creme batido):

500 ml de leite

6 gemas de ovo

80 g de açúcar

60 g de farinha de trigo

60 g de amido de milho

1 fava de baunilha ou essência de baunilha

200 ml de creme de leite fresco batido

Água de flor de laranjeira (opcional)

Modo de preparo – Prepare a brioche: misture farinha, açúcar, fermento, sal e ovos. Sove até ficar elástica. Acrescente a manteiga aos poucos e continue sovando até a massa ficar lisa e macia. Deixe crescer em local morno até dobrar de volume. Modele em forma redonda e asse até dourar levemente. Polvilhe açúcar em pérola por cima antes de ir ao forno. Faça o crème pâtissière: aqueça o leite com baunilha. Bata gemas com açúcar, adicione farinha e amido. Incorpore ao leite quente até engrossar e esfriar. Junte o creme batido: depois de frio, misture delicadamente o creme de leite batido ao crème pâtissière para obter leveza. Monte a torta: corte a brioche ao meio horizontalmente, recheie generosamente com o creme, coloque a “tampa” por cima e leve à geladeira antes de servir.