sábado, 6 de fevereiro de 2021

Minnuzze di Sant'Agata ou cassatelle di Sant'Agata: uma sobremesa siciliana entre o sagrado e o profano, cheia de simbolismo.

 

O Minnuzze di Sant'Agata, ou cassatelle di Sant'Agata, é singular: redondo, branco, no formato indistinguível de um seio, com sabor forte e cheio de sentimentos que se combinam com a devoção e a tradição, é uma sobremesa típica da capital do Etna, na Sicília, famosa por doces suntuosos e incríveis. Geralmente é devorado especialmente por ocasião da festa dedicada à padroeira da cidade de Catânia. Em sua simplicidade visual, essas sobremesas escondem, além das camadas de habilidade particular de quem prepara, histórias antigas sobre sofrimento, fé e devoção.

Estão sempre à venda nas pastelarias da Catânia, ou nos banquetes improvisados que enchem todos os recantos da Itália por ocasião das celebrações que se realizam todos os anos de 3 a 5 de fevereiro, e depois novamente a 12 de fevereiro, datas em que teria ocorrido o martírio da santa. Mas as homenagens também continuam no dia 17 de agosto, dia em que se lembra o momento em que os restos mortais foram levados de volta para a bela cidade siciliana da Catânia, após terem sido roubados em Constantinopla.

O doce na realidade é uma pequena cassata (já tratei sobre ela AQUI), que em italiano se chama cassatina, em forma de cúpula recheada com pasta de amêndoa verde (pistache ou marzipã), ricota de leite de ovelha com gotas de chocolate amargo e uma fina camada de Pan di spagna (pão-de-ló), tudo coberto com uma pitada de glacê real e uma cereja cristalizada no centro para completar.

Todo catanês que se preze, e um número cada vez maior de turistas que visitam a cidade, não pode deixar de provar a sobremesa que relembra a história da santa cataniana. Seria uma homenagem de luz e doçura para relembrar um momento angustiante e infernal de escuridão.

A pequena cassatina lembra os seios de uma mulher. Esta forma particular está diretamente ligada a memória do martírio de Santa Águeda de Catânia, Águeda de Palermo ou Águeda da Sicília, também conhecida como Ágata: nascida em uma respeitável família cristã, a pequena Ágata, com apenas 15 anos, decidiu dedicar sua vida a Deus e assim se tornou uma das virgens consagradas pelo bispo.

Martírio de Santa Ágata, óleo sobre tela de Sebastiano del Piombo de 1520. Atualmente no Palácio Pitti, em Florença.

Era o final do ano 250. O procônsul Quinziano chegou à Sicília para aplicar o edito do imperador Décio, que previa a abjuração pública da fé para todos os cristãos. Aqueles que não respeitaram a vontade de Roma tiveram que sofrer severas perseguições. Segundo a tradição, quando o procônsul viu a jovem Ágata, apaixonou-se perdidamente por ela.

Tendo sabido de sua nobre origem familiar, ele pediu que ela adorasse os deuses pagãos e repudiasse o Cristianismo. Ágata recusou vigorosamente, encontrando um triste destino.

Em seguida, foi entregue à Afrodísia, uma mulher perversa que administrava, com suas seis filhas, uma casa dita de má-fama. Nesse lugar, Ágata sofreu investidas contra sua honra mais terríveis que tortura ou morte, mas permaneceu firme, alegando:

"Minha coragem e minha mente estão tão firmemente fundadas sob a pedra firme de Jesus Cristo, que por dor alguma podem ser mudadas; suas palavras [não] são mais que vento, suas promessas [não] são mais que chuva, e suas ameaças [não] são mais que ameaças como rios que passam, e mesmo que todas estas coisas choquem a base da minha coragem, ainda por isso ela não se move. (Tiago de Voragine. «Santa Ágata». Legenda Áurea. Gênova, Itália, 1288)”

Depois de um mês, Afrodísia contactou Quinciano e lhe disse que, apesar de enormes esforços, fracassou em convencê-la a abjurar sua fé cristã. Ao ouvir isso, Quinciano convocou Ágata para ser julgada e tentou convencê-la a sacrificar aos ídolos mediante ameaças, mas ela retrucou que eles não eram deuses e sim demônios dourados feitos de mármore e madeira.

Após um longo diálogo no qual Quinciano ameaçou-a inúmeras vezes, ela foi espancada e jogada na prisão. No dia seguinte tentou convencê-la novamente, mas ela se recusou, o que fez o oficial ordenar que fosse esticada numa cremalheira, um aparelho de tortura cheio de barras e ganchos de ferro nas laterais onde a vítima era queimada com tochas.

Ele ordenou que os seios dela fossem esmagados e cortados. Em reprimenda, Ágata teria dito: "Demasiado criminoso e tirano cruel, não tens vergonha de cortar aquilo em uma mulher que tu sugou em tua mãe, e da qual tu foste alimentado? Mas eu tenho meus seios inteiros em minha alma, da qual eu nutro todos os meus juízos, [e] da qual ordenei servir nosso senhor Jesus Cristo, desde o começo de minha juventude." Quinciano então enviou-a para a prisão, onde permaneceu sem comida e auxílio médico. Ali, a virgem recebeu uma visão de São Pedro que a reconfortou com uma luz divina e a curou de seus ferimentos.

São Pedro curando Ágata, óleo sobre tela de Giovanni Lanfranco de 1614

Quatro dias depois, Quinciano obrigou-a a se enrolar nua em brasas misturadas com cacos de tigelas quebradas, porém esta tortura foi interrompida em decorrência dum grande tremor que destruiu vários edifícios e matou Silvano e Fastião, respectivamente o conselheiro e amigo Quinciano.

Temeroso que a população poderia voltar-se contra ele após o incidente, o oficial ordenou que Ágata fosse novamente colocada em sua cela. Ao retornar à cela, ela teria orado: "Senhor, meu Criador, tu sempre me protegeste desde o berço; tu me tiraste do amor do mundo e me deste paciência para sofrer. Recebe agora minha alma." Depois disso, teria deixado de viver.

Após a morte de Ágata, seu corpo foi recolhido e sepultado pelos cristãos. Enquanto eles preparavam-o com pomadas para o embalsamamento, alegadamente teria surgido um jovem vestido em seda acompanhado por uma multidão ricamente vestida que nunca foi vista na cidade. O jovem acompanhou a procissão que carregava Ágata e prostrou-se próximo aonde o corpo seria depositado. Quando a falecida foi depositada no túmulo, ele colocou, na cabeça do corpo, uma pequena tábua de mármore na qual estava escrito em latim Mentem sanctam, spontaneam, honorem deo dedit et patriæ liberationem fecit ("Você tem mente santa que Deus lhe deu a honra e salvou a pátria"). O corpo de Ágata foi sepultado na Catedral de Catânia. No século XI, se descobriria que seu corpo estava "incorrupto".

Nota de Ágata, a mensagem deixada em sua cabeça.

Segundo a Legenda Áurea, algum tempo depois Quinciano faleceria de uma morte terrível, embora não seja mencionada a causa do óbito. Um ano após estes eventos, no começo de fevereiro, um grande incêndio irrompeu das montanhas em direção a Catânia queimando tudo em seu caminho. Desesperados, os catanenses foram ao sepulcro de Santa Ágata e recolheram o véu que estava em sua tumba e seguraram-o em direção das chamas, que alegadamente se extinguiram em 5 de fevereiro, dia de sua celebração. Com o fim do perigo, o véu foi devolvido ao túmulo e passou a ser adorado como uma das relíquias da santa.

Imediatamente, o povo de Catânia começou a venerar a jovem virgem, que escolheu o martírio em vez da abjuração da fé. No ato político, ou seja, a defesa contra os opressores estrangeiros, também era intrínseco o ato religioso, a defesa do cristianismo, que consagrou Ágata a Santa para católicos e ortodoxos. Precisamente por causa de sua forma em siciliano, eles também são chamados de "minne (ou seja, seios) de Sant'Agata".

Relicário de Santa Águeda de Notre Dame, Paris.

Ágata é celebrada como santa pela Igreja Católica e Ortodoxa e sua festa litúrgica ocorre dia 5 de fevereiro. Há evidências que seu culto surgiu desde a Antiguidade. Ela está listada numa cópia do Martirológio de Jerônimo do século VI em associação com Jerônimo e no Calendário de Cartago (Sinaxário) de ca. 530.

Também aparece num hino de autor anônimo preservado na obra do papa Dâmaso I (r. 366–384), em um dos carmes de Venâncio Fortunato do século VI, bem como é descrita numa procissão de santas na Basílica de Santo Apolinário Novo em Ravena, na Itália. Existe panegíricos dedicados a ela da autoria de Isidoro de Sevilha (século VI), São Adelmo (século VII) e do patriarca do século IX Metódio I (r. 843–847).

Duas igrejas do fim da Antiguidade Tardia em Roma lhe foram dedicadas, uma edificada pelo papa Símaco (r. 498–514) na Via Ápia ca. 500 e que atualmente encontra-se em ruínas, e outra, chamada Santa Ágata dos Godos, que foi adornada e entregue aos godos arianos ca. 460/470 pelo oficial romano Ricímero.

 Papa Gelásio I (r. 492–496) numa carta endereçada a certo bispo Vitor faz menção a uma "Basílica de Santa Ágata" e durante o pontificado do papa Gregório I (r. 590–604) vários santuários foram edificados para abrigar algumas das relíquias de Ágata, que ali permaneceram até serem transladadas para o Mosteiro de São Estêvão em Capri. Ainda há outra igreja, Santa Ágata em Trastevere que, segundo o Livro dos Pontífices, teria sido fundada na casa do papa Gregório II (r. 715–731).

Ágata está entre as sete mulheres que, junto com Virgem Maria, são celebradas pelo nome no Cânone da Missa. Como um atributo artístico seus seios são frequentemente mostrados cortados sobre uma bandeja; na Idade Média foram comumente confundidos com pães e aparentemente isso esteve na origem da cerimônia na qual pães são levados ao altar numa bandeja.

 No sul da Alemanha e na Áustria, pães são cozidos na forma de seios pequenos e são abençoados no dia 5 ou na véspera para que sejam eficazes contra doenças nas mamas, febre e queimaduras; as mães e o gado comem-os para garantir o fluxo do leite e suas migalhas são espalhadas pelas residências para prevenir incêndios.

Pão de Santa Ágata

Sant’Agata, padroeira da cidade de Catânia, aparece como uma mulher de fé inabalável que sofreu violências sem precedentes e por isso se tornou um símbolo. Seus seios foram erradicados e ela foi submetida ao massacre das brasas, por isso ainda hoje sua memória fala da força e da coragem das mulheres.

Mas, retrocedendo ainda mais na história, a festa de Santa Ágata teria origem em muitas de suas partes dos cultos da deusa Isis – ou de suas representações em outras culturas. Por isso, o doce também pode ser chamado de minnuzza di Virgini – neste caso, representaria o seio da deusa Ísis em seu papel de deusa-mãe.

A deusa Ísis - sua imagem foi, muitas vezes modelo para as imagens criadas para a Virgem Maria.

Elementos semelhantes também são encontrados nos cultos dos mistérios de Elêusis, na Grécia, onde por ocasião dos ritos direcionados para a deusa Deméter, era costume consumir bolos doces cuja aparência repropunha o peito da Deméter, protetora da colheita e deusa mãe.

Deusa Deméter, ou Ceres.

A festa religiosa de Sant'Agata origina-se destes dois cultos pagãos que foram reabsorvidos pela cultura cristã que os reformulou, ligando-os ao culto da Santa martirizada que se celebra de 3 a 5 de fevereiro, em Catânia.

A referência à história concentrada em uma sobremesa é tão boa quanto desavergonhada. prova disso, é uma fala do Príncipe Salina que aparece em uma famosa passagem do “Gattopardo”, de Tomasi di Lampedusa, na qual ele faz um questionamento interessante: Por que essa sobremesa deliciosa e explícita não atraiu a atenção do Santo Ofício, ministério eclesiástico muito estrito, sempre desconfiado de seus subordinados? A história não deu uma resposta, basta participar na festa de Santuzza, saboreando um misto de reverência e tradição.

Mas vamos passar para a receita de Minnuzze di Sant’agata, que, como disse antes, é preparada com pão de ló, ricota de ovelha, chocolate, maçapão e cobertura real. Já vi receitas com massa quebradiça em vez de bolo de esponja que absolutamente não devem ser feitas, a menos que você queira preparar outra sobremesa, mas por favor, não a chame de minnuzza di San’Agata.

Minnuzze de Sant'Agata

Para o Pan di Spagna (pão de ló)

2 ovos médios

60 g de açúcar granulado

42 g de farinha

18 g de amido

1 pitada de sal

a casca de meio limão

Para o minnuzze

Uma receita de Pan di Spagna

300 g de ricota de ovelha

50 g de gotas de chocolate amargo

120 g de pasta de amêndoa verde ou marzipã

100 g de açúcar granulado

Para a glacê real

135 g de açúcar de confeiteiro

30 g de clara de ovo

2 colheres de chá de suco de limão

Para a decoração final

cerejas cristalizadas

Equipamento:

moldes em forma de semiesfera em silicone ou aço

açúcar de confeiteiro para polvilhar as formas

tigela de massa redonda

Preparo: Na noite anterior, coloque a ricota de leite de ovelha para escorrer em uma peneira e coloque na geladeira durante a noite para escorrer, com uma tigela por baixo, até que perca o soro. Sempre na noite anterior, prepare o pão de ló. Na batedeira, os ovos com o açúcar até obter uma mistura clara, fofa e espessa.  e com a ajuda de uma espátula misture aos poucos a farinha e a fécula de batata previamente peneirada com o sal à mistura com movimentos lentos de baixo para cima. Por fim, adicione a casca ralada do lodo ou limão. Despeje a mistura em uma forma retangular forrada com papel manteiga e leve ao forno a 180 °, em forno pré-aquecido, por 10-15 minutos, até dourar. Após o tempo de cozimento, desenforme o pão de ló e deixe esfriar sobre uma gradinha. Prepare o minnuzze: No dia do preparo do minnuzze, peneire a ricota e misture em uma tigela com o açúcar granulado, acrescente as gotas de chocolate preto, misture e reserve. Polvilhe todo o molde com açúcar de confeiteiro. Corte o pão de ló em 4 discos tão largos quanto a circunferência do molde. Estenda a pasta de amêndoa (ou marzipã) até uma espessura de cerca de 4 mm e corte-a em círculos com o dobro da circunferência do diâmetro de seus moldes. Cubra-os com pasta de amêndoa, remova o excesso de pasta de amêndoa das bordas dos hemisférios. Em seguida, preencha com o recheio de ricota e chocolate. Feche colocando um disco de pão de ló sobre o creme de ricota. Coloque o minnuzze nas formas na geladeira para descansar cerca de uma hora. Prepare o glacê real: Em uma tigela, coloque a clara de ovo e o suco de limão e comece a bater com o batedor, ou faça na batedeira, quando a clara estiver firme, acrescente o açúcar de confeiteiro aos poucos. Continue batendo até que o açúcar esteja completamente misturado com a clara do ovo, obtendo-se uma cobertura homogênea e sem grumos. Decoração final - Retire com cuidado cada cassatina de seu molde, despeje a cobertura por cima, por igual atenção, pois em pouco tempo tende a solidificar. Finalmente decore colocando uma cereja cristalizada no centro de cada minnuzza. Mantenha o minnuzze di sant'agata na geladeira. Eles duram no máximo alguns dias.

sábado, 23 de janeiro de 2021

Pavlova: da morte do Cisne à apoteose gastronômica

 

Em 23 de janeiro de 1931 é a data da morte do “Cisne”, a bailarina Anna Pavlova nos deixava e imortalizava toda a beleza de sua arte. Toda arte tem sua beleza, até a morte.

A morte do Cisne (The Dying Swan), ballet de 1905, coreografado por Mikhail Fokine, composição de Camille Saint-Saens, é uma linda metáfora para o fim da nossa existência, para o fim de todos os ciclos que passamos durante a vida. O solo de ballet protagonizado pela grande bailarina Anna Pavlova nos ensina que, a cada instante, devemos morrer, e deixar morrer aquilo que já não tem mais sentido dentro de nós, guardando a devida beleza de termos feito parte do grande espetáculo da Vida.

Inspirada por cisnes de um parque público e pelo poema de Lord Tennyson “The Dying Swan”, Anna Pavlova perguntou se Michel Fokine poderia criar um solo de ballet para apresentar em um concerto em 1905, no Mariinsky Imperial Opera.

Fokine então sugeriu uma dança para a composição do francês Camille Saint-Saëns, em violoncelo, “Le Cygne”, parte da peça “Le Carnaval des Animaux”. A coreografia era composta principalmente por movimentos da parte superior do corpo, especialmente os braços, e por um pequeno passo chamado “pas de bourrée suivi”.

Fokine comentou o seguinte sobre o ensaio com Pavlova: "Era quase um improviso. Dancei na frente dela, ela logo atrás de mim. Em seguida, ela dançou e eu caminhava ao lado dela, curvando os braços e corrigindo detalhes de poses. Antes dessa composição, fui acusado de rejeitar a dança nas pontas dos pés. A Morte do Cisne foi a minha resposta a essas críticas. Esta dança tornou-se o símbolo do Novo Ballet Russo. Foi uma combinação de técnica magistral com expressividade. Foi como uma prova de que a dança pode e deve satisfazer não só o olho, mas por meio do olho deve penetrar a alma."

Não é à toa que o espetáculo causa grande impacto na nossa Alma, além da interpretação sensível de Pavlova e da belíssima coreografia de Fokine, o poema de Tennyson que inspirou a obra, também nos faz sentir como se estivessemos ali contemplando a leveza e a profundidade dos cisnes em meio a natureza.

 

A Morte do Cisne

(Lord Tennyson, 1830)

A planície era gramada, selvagem e nua,

Largo, selvagem e aberto ao ar

Que havia se construído em todos os lugares

Um sub-telhado de cinza triste.

Com uma voz interior o rio correu,

Por que flutuava um cisne moribundo

E em alto som lamentou.

Foi no meio do dia.

Sempre o vento penoso continuou,

E levou os juncos enquanto passava.

II.

Alguns picos azuis ao longe roseavam,

E branco contra o céu branco e frio

Brilhavam suas coroas de neve.

Um salgueiro sobre o rio chorou,

E sacudiu a onda enquanto o vento suspirava;

Acima, no vento, estava a andorinha

Perseguindo a si mesma em sua vontade selvagem,

E longe dos musgos verdes e imóveis

Os emaranhados de água dormiam,

Filmado com roxo, verde e amarelo.

III

O hino da morte do cisne selvagem levou a alma

Daquele lugar de perda com alegria

Escondido em tristeza: primeiro ao ouvido

O gemido era baixo, cheio e claro;

E flutuando sobre o céu,

Prevalecendo em fraqueza, o canto fúnebre roubou

Às vezes longe e às vezes se aproximava;

Mas, em sua terrível voz jubilosa,,

Com uma música estranha e múltipla,

Fluiu adiante em um canto livre e forte;

Como quando um povo poderoso se alegra

Com flautas e com címbalos e harpas de ouro

E o tumulto de sua aclamação é rolado

Através dos portões abertos da cidade distante,

Ao pastor que vigia a estrela da tarde.

E os musgos rastejantes e ervas daninhas pegadiças,

E os galhos de salgueiro encanecidos e úmidos

E o ondulante aumentar do sussurro nos juncos,

E as trombetas desgastadas pelas ondas ecoando na margem,

E as prateadas flores pantanosas que lotam

Os riachos desolados e as piscinas

Foram inundados com um canto circundante.

 A obra de Camille Saint-Saëns também merece ser apreciada por nós como parte importante deste conjunto harmônico. Pensada inicialmente como uma brincadeira para criticar o cenário musical parisiense da época, Camille compôs em 14 movimentos, para piano e orquestra, “Le Carnaval des Animaux” mas só deixou o “Le Cygne” ser levado a público antes de sua morte, por medo que a peça e seu tom jocoso manchassem sua imagem de compositor sério. Por ironia do destino, “O Carnaval dos Animais”, destacando “O Cisne”, é sua obra mais conhecida. Os animais aqui não são somente animais, mas sim um símbolo para vários aspectos humanos, potencialidades e limitações que compartilhamos com os bichos. Como somos todos parte da mesma Natureza, estamos sujeitos às mesmas Leis.

Assim foram desenvolvidos os 14 movimentos:

1. Introdução e marcha real do leão. Os dois pianos e as cordas abrem a marcha do soberbo animal, imitando seus rugidos.

2. Galinhas e galos. Clarinetes, pianos, violinos e viola .

3. Hémiones (asnos selvagens do Tibet. Animais muito velozes).Os dois pianos lançam-se em escalas de clima de loucura, que jamais se alcançam.

4. Tartaruga. Tocada em andamento extremamente lento com cordas sobre um acompanhamento do piano.

5. O Elefante. O contrabaixo com ornamentos do piano tocam o tema.

6. Cangurus. Os dois pianos saltitam. Eles hesitam, eles param...

7. Aquarium. Flauta, celesta, os dois pianos e as cordas. As flautas dão um sentido de ondas, os pianos um sentido de nadar, a celesta faz parecer gotas de água.

8. Personagens de orelhas longas. Por poucos compassos dois violinos alternam seus diálogos.

9. O Cuco no fundo do bosque. Com o acompanhamento do piano, a terça do cuco é dita e redita pelo clarinete.

10. Viveiro. Uma flauta com acompanhamento dos pianos e das cordas.

11. Pianistas. Faz referência aos músicos iniciantes. Eles são, segundo Saint-Saëns, verdadeiros animais, e não dos menos barulhentos. Devem imitar o toque de um aluno de piano iniciante, alternado em escalas e terças duplas, com notas desafinadas. As cordas rangem, irritam-se e interrompem o insuportável duo.

12. Fósseis. As antigüidades – uma série de citações que se encadeiam vivamente.

13. O Cisne. Uma nobre bobagem, segundo o próprio Saint Saëns. O violoncelo toca sobre as harmonia dos pianos. No final ele adormece.

14. Final. Um desfile de toda a bicharada, onde desfilam os principais temas ouvidos durante a obra, inclusive a dos pianistas.

Dito isso, é importante percebermos que “A Morte do Cisne” não é somente sobre o cisne e sua vida solitária num parque da cidade, mas sim, como bem apresentado por Pavlova, uma luta contra a morte, uma luta pela existência, uma luta que travamos pelo que vale a pena ser vivido. Por outro lado, a obra também nos ensina a aceitar as Leis da Vida, nos mostra que também precisamos aprender a morrer, a reconhecer o fim dos ciclos e a interpretá-los com beleza.

Atualmente, a coreografia inspira muitas versões contemporâneas de Odette, o cisne branco no Lago dos Cisnes de Tchaikovsky, chegando até a nos confundir em quem inspirou quem ou até mesmo pensar que são a mesma obra. É importante percebermos também que, para além de uma grande exibição técnica, a proposta original de Folkine era algo mais profundo. Como diz sua neta Isabelle: “Não é necessário uma demanda técnica enorme, mas sim grande sensibilidade artística porque todo movimento, todo gesto deve demonstrar alguem tentando fugir da morte”. A intenção de Folkine era tocar nossa Alma através da beleza que um cisne expressa, mesmo no momento de sua morte. Na verdade, este cisne pode ser cada um de nós, seguindo os ciclos de vida e morte, e buscando o sentido nisso tudo.

Mas quem foi Pavlova?


 Anna Matveievna Pavlova nasceu em São Petersburgo a 31 de janeiro de 1881. De talento e carisma excepcionais, fascinou o mundo da dança no fim do século XIX e na primeira metade do século XX.  O seu extraordinário talento e as suas interpretações extremamente pessoais deram um novo sentido ao ballet clássico.

Nascida numa família de camponeses pobres, dizem que Pavlova não gostava de falar do seu pai, quando questionada sobre o tema, respondia que ele tinha morrido quando ela tinha 2 anos de idade. Mas a verdade é que a sua mãe a criou sozinha, portanto, era filha de mãe solteira. Aos 8 anos, como presente de aniversário assistiu ao espetáculo de ballet “A Bela Adormecida” no teatro Mariinsky. Emocionada decide dedicar-se à dança. Para isso, Pavlova tentou inscrever-se na Escola Imperial de Ballet de São Petersburgo, mas foi rejeitada devido à sua idade e baixa estatura. Persistente, em 1891, aos 10 anos, consegue concretizar o seu propósito.

Durante o seu período de formação, teve aulas com os mais famosos professores da época: Pavel Gerdt, Christian Johansson, Ekaterina Vazem, Nikolai Legat. Formou-se em 1899 com 18 anos de idade. Posteriormente entrou no corpo de bailado do Ballet Imperial Russo de São Petersburgo. Logo caiu nas graças de Marius Petipa, conseguindo posições de destaque cada vez maior, pois em 1902 já era segunda solista e em 1905 première danseuse, consequentemente em 1906 torna-se prima ballerina.

No final do século XIX o ideal da bailarina era ter um corpo compacto e musculado, para poder atender aos requisitos de técnica e performance nas danças. Anna Pavlova mudou esta visão. Tinha uma figura feminina, graciosa e delicada e um modo pessoal de dançar, começou a ganhar destaque nos espetáculos em que actuava e a arrebatar fãs entusiastas. Em 1908 estreou no Théatre du Châtelete (Paris) com o Ballets Russes de Serguei Diaghilev, que encontrou em Michel Fokin, total apoio para sua proposta de renovação no ballet. Neste período também surgia Nijinsky (considerado o máximo expoente da dança masculina) com quem encena o ballet Les Shylphides. Também nesta temporada dança o bailado Cleópatra. Em 1910, apresenta-se no Metropolitan Opera House, em Nova Iorque, no bailado Coppelia. Pavlova apresentou-se com a companhia de Diaghilev até 1911 e dividia o seu tempo entre estas viagens e as apresentações no Mariinsky. Já em 1913 ela decide deixar o Ballet Imperial e passa a apresentar-se representada por Victor d’Andre (com quem vem a se casar em 1924). Em 1914, ela deixa a Rússia definitivamente e muda-se para Londres, era o início da Primeira Grande Guerra.

 No natal do referido de 1930 Pavlova teve algumas semanas de descanso de uma digressão que realizava pela Europa. No regresso ao trabalho, numa cidade da Holanda, o comboio em que viajava foi obrigado a parar devido a um acidente ocorrido próximo da linha. Anna resolveu sair do comboio para ver o que tinha acontecido, mas vestia roupas muito leves e foi caminhando pela neve. Dias mais tarde, Pavlova foi acometida de forte pneumonia. Acabou por falecer no dia 23 de janeiro de 1931, no auge da fama e perto de completar 50 anos.

Mas e a pavlova de comer?

Fazer um churrasco no quintal e servir uma pavlova como sobremesa, talvez seja um dos hábitos mais característicos da cultura australiana. E isso se fortalece ainda mais no Natal, quando a sobremesa se veste para festa em todo aquele país. Mas, é ainda uma preparação com a cara do verão: é refrescante e deliciosamente saborizados com frutas tropicais, como o maracujá, hummm.  Ocorre que as ‘estórias’ de cozinha percorrem o mundo e nos educam a acreditar que a sobremesa seja uma preparação daquele lugar, e essa cultura acabou fazendo os australianos, de fato, terem uma grande afinidade com a pavlova. O único problema é que os neozelandeses pensam da mesma forma.


A sobremesa foi batizada em homenagem à bailarina russa Anna Pavlova, que era uma megastar quando fez turnê pelos dois países (Austrália e Nova Zelândia) na década de 1920.

Um livro de 1922 sobre culinária caseira australiana de Emily Futter continha uma receita para "Merengue com recheio de frutas". Esta é a primeira receita conhecida para um alimento totalmente semelhante à pavlova moderna, embora ainda não seja conhecido por esse nome.

No lado australiano, o chef Herbert “Bert” Sachse teria criado a pavlova no Esplanade Hotel de Perth em 1935, e foi batizada pelo gerente da casa, Harry Nairn, que observou que era “leve como a pavlova”. Em uma entrevista ao Woman’s Day em 1973, Sachse disse que a proprietária, Elsie Plowman, e Nairn o recrutaram para fazer algo "diferente e único" como um bolo ou doce. Ele Sempre lamentava que o bolo de merengue era invariavelmente muito duro e crocante, então decidiu criar algo que tivesse um topo estaladiço e cortasse como um marshmallow. Após um mês de experimentação - e muitos fracassos - encontrou a receita, que sobrevive até hoje.

Os neozelandeses, entretanto, costumam citar a história de um chef anônimo em um hotel de Wellington, que teria inventado a pavlova durante o único passeio da bailarina pelo país em 1926. Mas a professora emérita Helen Leach, uma neozelandesa especializada em antropologia alimentar no University of Otago e autora de The Pavlova Story: A Slice of New Zealand's Culinary History, foi incapaz de verificar esta versão dos eventos.

No entanto, a Dra. Leach encontrou nas suas pesquisas referências a três tipos de sobremesa chamadas pavlova em sua terra natal antes da oferta de Sachse.

A pavlova da Nova Zelândia de 1929 foi a versão que desencadeou as "guerras" da pavlova 

A primeira foi uma gelatina multicolorida em camadas da marca Davis Gelatine em 1926. Em seguida, vieram pequenos merengues com sabor de nozes e café, semelhantes a beijos, que surgiram na cidade de Dunedin em 1928 e se tornaram populares em todo o país. Então, em 1929, uma receita para um grande bolo de merengue com o nome da bailarina apareceu na publicação regional Dairy Farmer’s Annual. Este terceiro tipo de pavlova foi aquele que várias décadas depois se tornou o assunto das 'guerras' da pavlova, que insistem que a pavlova foi 'criada' ou 'inventada' e, em seguida, roubada / falsamente reivindicada por chefs / cozinheiros em toda a Tasmânia.

A estudiosa de culinária americana Darra Goldstein foi outra pesquisadora que ficou fascinada com pavlova depois que sua filha se mudou para a Austrália em 2014, e mais tarde para a Nova Zelândia, e ela começou a colecionar livros de receitas de ambos os países. Ela incluiu um capítulo sobre isso, escrito pela Dra. Leach, no livro que editou, The Oxford Companion to Sugar and Sweets.

Assim, as origens precisas de pavlova não podem ser determinadas e que, na verdade, é errado acreditar que receitas são inventadas - em vez disso, receitas evoluem com o tempo, muitas vezes em mais de um local. Quando há um prato tão popular como pavlova, não é surpresa que tanto a Austrália quanto a Nova Zelândia queiram reivindicá-lo como algo que deram ao mundo. Rivalidades amigáveis são sempre divertidas e, para alguns, é uma questão de orgulho nacional.

Esse foi certamente o caso do neozelandês Dr. Andrew Paul Wood e da australiana Annabelle Utrecht, que colocam o debate sobre as origens de pavlova em uma postagem do Facebook de um amigo em comum. Ambos foram pesquisar determinados a provar que o outro estava errado. Mas depois que começaram a cavar mais fundo, ficaram surpresos ao descobrir que a história da pavlova remonta muito mais longe.

Dr Andrew Paul Wood e Annabelle Utrecht

A dupla passou os últimos sete anos montando esse “quebra-cabeça culinário”, vasculhando livros de receitas, jornais, pinturas de naturezas mortas e arquivos de todo o mundo. Originalmente, eles planejavam fazer um pequeno documentário, mas quando perceberam que a história da pavlova era muito maior do que apenas uma batalha trans-Tasmaniana, eles decidiram escrever um livro sobre a história secreta da Pavlova e uma História Social de Sobremesas com Merengue.

Para começar, realizaram um exame forense das lendas kiwi e australianas, e novos fatos [foram] rapidamente revelados que mudaram completamente a narrativa. No século 18, grandes construções de merengue incorporando elementos de creme e frutas podiam ser encontradas em cozinhas aristocráticas em terras de língua alemã, então a coisa que chamamos de pavlova hoje tem na verdade mais de dois séculos.

Depois, as mulheres nas cozinhas europeias de classe média começaram a criar bolos de merengue cobertos com chantilly, nozes e frutas ou em conserva de frutas. A Europa estava em crise com as guerras napoleônicas em 1800 e quando as pessoas se mudaram e se estabeleceram em outras terras, as sobremesas parecidas com pavlova foram com elas.

Em 1860, você poderia encontrá-las na Grã-Bretanha, Rússia e América do Norte. Por exemplo, se você preparasse a Schaum Torte (o nome significa “bolo de espuma’, uma receita de 1850) e oferecesse aos amigos e lhes perguntasse o que seria, diriam seguramente que se tratava de uma pavlova. Daí, você depois, pesquisando, descobriria que as receitas da Shaum Torte chegaram ao sul da Austrália antes da Segunda Guerra Mundial, quando houve um grande fluxo de imigrantes alemães.

                                   Shaum Torte

Contudo, é importante dizer que o australiano Sachse produziu uma pavlova "sofisticada e altamente estável", sua receita realmente é o bolo mais próximo da pavlova que temos em mentes quando imaginamos pavlova. Mas, quando se prepara a pavlova da Nova Zelândia de 1929, você se surpreende poie era um sanduíche de merengue, não a pavlova que temos hoje. Mas as próximas pavlovas que saíram da Nova Zelândia por volta de 1932 a 1933 já eram bolos de nível único cobertos com frutas e creme.

Quanto ao nome, a dupla também descobriu centenas de receitas de pratos doces e salgados em homenagem a Anna Pavlova no hemisfério norte. Eles incluem Strawberries Pavlova, um glacé do período eduardiano servido com uma guarnição de framboesas, que apareceu no New Zealand Herald em 1911, mas que foi reimpresso da Inglaterra e também apareceria nos Estados Unidos - que incluía um componente de merengue que só poderia ser obtido com o nome de Pavlova por um tempo limitado.

Strawberries Pavlova era um glacé do período eduardiano servido com uma guarnição de framboesas 

Ainda mais surpreso se fica quando se encontrar uma receita em livros árabes medievais, incluindo o livro de receitas sírio do século 13 Kitab al-Wusla ilà al-Habib fi Wasf al-Tayyibat wa al-Tib (Livro do vínculo de amizade na descrição de Bons Pratos e Perfumes) que, embora não seja um merengue, "se você apertar os olhos da maneira certa" é semelhante a um merengue italiano, que é feito despejando uma calda de açúcar por cima das claras em vez do tipo assado que estamos familiarizados.

Esse tipo de cozimento com merengues e xarope de açúcar provavelmente passou para a Europa através de territórios controlados por portugueses na África (antigamente controlados por árabes), ou através da ocupação moura de Espanha, Sicília e França.

As primeiras referências européias aparecem em lugares como Itália e Espanha, onde havia uma grande população muçulmana na idade medieval. O açúcar era incrivelmente caro, então essas guloseimas eram confeitos destinados às mesas mais ricas, como a dos Habsburgos imperiais, que por acaso também eram ricos em açúcar do Novo Mundo.

Merengues assados (petite arrangements) podem ser encontrados na cozinha imperial de Madrid dos Habsburgos espanhóis no final do século XVI e início do século XVII. No século XVIII, produções maiores e mais sofisticadas de merengue começam a se revelar em livros de culinária e, no final dos anos 1700, bolos de merengue muito grandes e sofisticados podem ser encontrados nas casas dos nobres dos Habsburgos, como a de um bolo de merengue austríaco, três camadas de merengue de altura, cheias de compotas de frutas. No início de 1800, os bolos de merengue se tornaram incrivelmente populares entre as classes médias ricas também.

Mas, a pavlova de estilo australiano, aperfeiçoada por Sachse, foi aperfeiçoada por donas de casa no meio-oeste da América no final do século XIX. É aí que elas começaram a adicionar coisas como centáurea.

A pavlova geralmente tem um ingrediente de amido que a torna mais rígida e forte. Mas a fruta é o grande destaque, essa é provavelmente a maior diferença entre pavlova australiana e neozelandesa. A pavlova da Nova Zelândia é mais para ser servida com fruta kiwi, enquanto na Austrália você tem maracujá (e atrocidades, para os neozelandeses, como abacaxi). Na Grã-Bretanha, é muito mais sobre morangos, enquanto nas versões mais antigas a noz picada tinha grande destaque.

Em última análise, vê-se o "tataravô" do grande bolo de merengue, como entenderíamos a pavlova, como sendo o Spanische Windtorte (bolo de suflê), que era uma sobremesa austríaca composta por uma casca de merengue ou camadas, recheado com chantilly e frutas. Foi o primeiro de seu tipo e conhecido por ser cozido nas cozinhas dos Habsburgos no final dos anos 1700.

O Spanische Windtorte era uma sobremesa austríaca do século XVIII composta por merengue, chantilly e frutas

Idênticas por natureza, as receitas da baiser torte (torta do beijo)e da schaum torte só começaram a surgir nos anos 1800, quando fatores geopolíticos motivaram mudanças de nomenclatura em reinos não Habsburgos.

Veja como é fascinante acompanhar a história social de pavlova e a árvore genealógica dos merengues, observando como os bolos de merengue possivelmente começaram no continente africano e evoluíram nos Impérios Habsburgo e Romano na Europa Central. À medida que o poder mudava entre impérios e reinos, o merengue ia com ele.

 

New Zealand Pavlova

Para concha de merengue

4 claras de ovo grandes (em temperatura ambiente)

1 xícara de açúcar de refinado

1/2 colher de sopa de amido de milho

1 colher de chá de vinagre branco

1 colher de chá de baunilha

Para o chantilly e guarnição

1/2 xícara de creme de leite fresco

1/2 colher de chá de baunilha

1/2 xícara de açúcar de confeiteiro

2 xícaras de frutas frescas inteiras ou fatiadas de escolha (morangos, framboesas, kiwis, maracujá, bananas, mirtilos)

1 colher de sopa de suco de limão fresco

Preparo: Faça a Concha de Merengue. Aqueça o forno a 140 C e coloque a grelha no meio do forno. Forre uma assadeira com papel alumínio e desenhe um círculo de 18 cm no papel alumínio com a ponta de uma faca (não rasgue o papel alumínio). Deixe de lado. Em uma tigela de metal limpa de tamanho médio, bata as claras em neve em velocidade média. Bata até que as claras formem picos suaves. Polvilhe suavemente o açúcar nas claras, 1 colher de chá de cada vez, batendo continuamente até que as claras formem picos duros e brilhantes. Polvilhe o amido de milho e o vinagre no merengue e misture delicadamente com uma espátula. Adicione a baunilha e dobre suavemente a mistura novamente. Agora, espalhe suavemente o merengue no círculo sobre a folha para fazer uma base circular. Certifique-se de que as bordas do merengue são ligeiramente mais altas do que o centro para que você tenha um pequeno poço no meio. Asse o merengue por cerca de 1 hora e 15 minutos ou até ficar com uma cor de casca de ovo rosada muito clara. Desligue o forno e deixe a porta entreaberta para que o merengue esfrie completamente. Conforme o merengue esfria, ele irá rachar um pouco. Pouco antes de servir, tire o merengue do forno, retire delicadamente do papel alumínio e coloque em um prato. Faça o Chantilly: Bata as natas com a baunilha e o açúcar de confeiteiro até formar picos e reserve. Prepare a fruta lavando e fatiando. Misture frutas cortadas, como bananas e maçãs, com suco de limão para evitar que dourem. Espalhe delicadamente o creme por cima do merengue resfriado com uma espátula. Arrume as frutas por cima. Sirva imediatamente e aproveite.

domingo, 3 de janeiro de 2021

Kykeon (Ciceone): desvendando a bebida ritual dos grandes heróis gregos e dos iniciados nos Mistérios Eleusinos

 

Este ano vou dar continuidade a recuperar algumas comidas e bebidas da antiguidade. Acredito que é uma forma interessante dos mais jovens conhecerem um pouco do que era servido em tempos ancestrais, de poderem se permitir a aventuras na cozinha para (re)descobrir gostos, técnicas e alimentos que podem se integrar ao cotidiano – pelo menos para aqueles momentos aonde a curiosidade aguça e te permite ousar. Pode ser pretensão minha, de achar que alguém possa se interessar por isso, além de mim. Mas, se a minha curiosidade me fez chegar até aqui, pode ser que a sua possa te levar a se surpreender... então, vamos ao que interessa.

Geralmente ao final de setembro, os gregos antigos celebravam os Mistérios de Elêusis, uma das principais festas do ano, dedicada à deusa Deméter, na qual era comemorada a renovação da vida e o renascimento da natureza. Pouco se sabe sobre o conteúdo de tais mistérios e das celebrações, sendo os iniciados obrigados ao silêncio. Entretanto, sabe-se o nome da bebida ritual consumida pelos fiéis ao final de um período de jejum, que estava ligado ao jejum de Deméter. Ela própria narrada nos mitos, em particular numa fonte fascinante e arcaica: os Hinos homéricos. O nome da bebida era kykeon (chamado de ciceone, em português) palavra que significa “mistura”.

Cena do culto de Elêusis com Triptolemus em uma carruagem alada e Deméter, 460 AC. 

O Kykeon aparece em muitos textos gregos: nas obras homéricas (Ilíada, Odisseia e Hino a Deméter), nos livros de medicina (em particular o Corpus Hippocraticum, mas Galeno oferece informações importantes sobre seu principal componente, alphita), mas também nos livros de comédia e satíricos (Personagens de Teofrasto e Paz de Aristófanes, textos em que é mencionado um kykeon idêntico ao preparado no Hino).

Encontra-se uma pista importante sobre kykeon em um glossário da língua grega antiga escrito por Hesychius no século V: kykeon é o mesmo que tisana.

A termo kykeon frequentemente usada por Hipócrates (que viveu entre os séculos V e IV a .C), geralmente com o sentido de “fazer um kykeon” com vários ingredientes, cada vez diferentes, entre os quais encontramos alphita, um termo importante que será explicado abaixo. Mas, por mais que não se encontre o que é kykeon exatamente nas fontes médicas (apesar das muitas receitas), sabe-se exatamente como os médicos preparavam a tisana, graças ao De Facultatibus Alimentorum de Galeno (século II).

                               A versão em português do texto de Galeno é uma excelente leitura.

A tisana era um dos remédios básicos usados na medicina grega antiga, feita com cevada descascada, cozida demais em água até se dissolver completamente, com a adição de outros ingredientes, depois peneirada e bebida. Alguns médicos prescreviam comer o resíduo sólido, mas isso dependia do motivo do uso da tisana. O uso deste remédio continuou na Idade Média e Renascimento.

Kykeon, entretanto, tem uma diferença importante de tisana: é feito com alphita, não simplesmente com cevada. Alphita é uma palavra traduzida para o latim como polenta e, exatamente como polenta, significa tanto a preparação em si quanto a matéria-prima com a qual se faz. Encontrei usadas de forma idêntica as palavras tisana (que para alguns autores, por exemplo Apicius, também poderia significar a cevada descascada) e alica (que poderia significar espelta descascada, espelta descascada embranquecida e socada conforme descrito por Plínio, ou mesmo espelta descascada cozida como de costume).

Galeno é um autor muito preciso, felizmente, e fornece informações importantes sobre a Alphita. É uma farinha grossa, semelhante à alica, obtida torrando-se a cevada fresca (logo que é colhida, antes de secar) e amassando-a. Com esta farinha grossa, os gregos fazem dois tipos principais de preparações: alphita e maza. Maza é uma espécie de pão sem fermento, obtido embebendo a farinha em leite, suco de uva concentrado ou vinho, a seguir amassado e cozido; alphita é cozida em água como tisana e bebida ou comida como substituto do pão, dependendo do uso que se deve fazer dele.


                                     A Maza grega

Nota-se uma diferença importante entre tisana e alphita: a primeira é descascada, a segunda, em vez disso, é inteira. Galeno escreve extensivamente sobre como a maza é pouco nutritiva em comparação com o pão de cevada, porque contém farelo.

Agora, que se sabe como se faz o kykeon, pelo menos, a parte que diz respeito à alphita: é uma polenta líquida, cozida demais, feita com cevada verde torrada e moída grosseiramente. Este é o nosso ponto de partida para começar a ler os poemas homéricos e tentar recriar o kykeon que eles descrevem.

Este vaso de cerca de 490 AC, de um artista chamado Brygos, é considerado por alguns como uma representação da cena kykeon na Ilíada, quando uma mulher escravizada chamada Hecamede prepara um kykeon de vinho e queijo para o idoso Rei Nestor. Outros identificam essas figuras como o velho guerreiro Fênix com os Briseis escravizados (há muitas mulheres escravizadas na Ilíada...)

Assim, pode-se dizer que o Kykeon (do grego "misturar, mexer") era uma bebida de água e cevada (às vezes aromatizada com hortelã ou tomilho) popular entre a classe trabalhadora "inferior" da Grécia antiga. Na Ilíada de Homero, é descrita como uma mistura de água, cevada, ervas e queijo de cabra moído (Livro XI) e a bebida também é mencionada no Livro X da Odisseia quando a feiticeira Circe a usa, misturada com mel, para fazer sua poção.

Kykeon é mais famoso, entretanto, por seu uso nos Ritos de Deméter na cidade de Elêusis, onde era usado por iniciados para vivenciar o mistério da morte e renascimento no ritual que veio a ser conhecido como Os Mistérios de Elêusis. Essa mistura, no entanto, diferia significativamente da bebida comum por ter propriedades psicoativas, provavelmente causadas pelo fungo Ergot na cevada reunida em torno de Elêusis, o que permitiu aos iniciados nos Mistérios alcançar uma compreensão mais completa de seu propósito na vida e livrar-se do medo da morte; como testemunhos de escritores antigos que participaram dos Mistérios atestam.

No tempo do Império Romano, o Kykeon ainda era uma bebida popular, feita de água, vinho, mel e cevada, com várias ervas adicionadas ao paladar individual. Essa bebida comum, entretanto, era considerada da mesma forma que uma pessoa nos dias modernos consideraria os refrigerantes. O kykeon que foi preparado para os Mistérios de Elêusis era muito estimado porque o ritual em si era muito importante para o povo.

Antes da chegada de Roma, a única estrada na Grécia antiga que não era um caminho de cabras era o Caminho Sagrado que levava de Atenas à cidade de Elêusis, local dos Ritos de Deméter. Este ritual, que era observado todos os anos, comemorava a busca da deusa Deméter por sua filha desaparecida, Perséfone, e iniciava os comunicantes em um conhecimento esotérico do significado da vida e da morte.

Ruinas do Telesterion de Elêusis

O Kykeon era tão importante para este ritual que as duas famílias que possuíam a terra onde a cevada crescia em Elêusis tornaram-se muito ricas e eram tidas em alta consideração. Como os iniciados nos Mistérios juraram segredo, ninguém sabe o que aconteceu uma vez que eles entraram no templo subterrâneo do Telesterion em Elêusis, mas é sabido que, antes de sua descida, eles se banhavam ritualmente e se purificavam e depois bebiam um copo de kykeon recém-preparado com a cevada local. Ao descer à terra após esta preparação, os comunicantes estavam reencenando a jornada de Perséfone para o mundo subterrâneo e, como sua história no mito, eles buscaram renascer.

De acordo com o mito de Deméter e Perséfone, a deusa da terra e sua filha estavam cuidando de flores em um campo quando o deus Hades, erguendo os olhos de seu reino no submundo, viu a garota e a quis.

O Rapto de Perséfone, de Nicolo Dell'Abbate

Quando Deméter estava distraída, Hades abriu a terra e levou Perséfone para a escuridão. Deméter, desesperada para encontrar sua filha desaparecida, pediu ajuda ao rei dos deuses, Zeus, mas ele alegou que não tinha conhecimento do paradeiro de Perséfone.

A mãe então começou a procurar por sua filha através da terra (uma jornada semelhante em muitos aspectos ao conto egípcio da deusa Ísis e sua busca para encontrar seu marido desaparecido Osíris) até que ela foi descansar perto de um poço em Elêusis.

Para passar despercebida, Deméter se disfarçou de velha e as filhas da rainha da cidade, visitando o poço, convidaram-na de volta ao palácio para ser entrevistada para o cargo de babá de seu irmão mais novo. Deméter aceitou esta posição e cuidou do jovem príncipe, mas, tendo recentemente perdido um filho, ela queria ter certeza de que nada aconteceria com ele e então o colocou todas as noites nas chamas celestiais para torná-lo imortal.

                                   Proserpina (Perséfone) pintura de 1874, por Dante Gabriel Rossetti

A rainha a encontrou fazendo isso uma noite e, compreensivelmente horrorizada ao ver seu filho lançado nas chamas, atacou Deméter. A deusa então se revelou em toda a sua fúria e glória, mas decidiu não punir o povo pela afronta de sua rainha se eles construíssem um templo em homenagem a Deméter na cidade. O povo concordou prontamente e, depois de dar-lhes os dons e conhecimentos da agricultura, ela continuou seu caminho.

Perséfone, entretanto, permaneceu no submundo com Hades. Deméter ficou tão perturbada que negligenciou seus deveres como deusa da natureza e as árvores não conseguiram produzir frutos e as colheitas falharam e a terra secou.

Primeiro os animais começaram a morrer e depois as pessoas morreram depois deles. Os deuses não estavam mais recebendo seus sacrifícios e ofertas habituais, então Zeus enviou seu mensageiro Hermes ao Hades, ordenando-lhe que libertasse Perséfone.

Hades se apaixonou pela garota, no entanto, e assim a enganou para que comesse uma romã. Ela comia apenas algumas sementes, mas a lei inquebrável era que, se alguém comesse da terra dos mortos, permaneceria na terra dos mortos. Como ela havia comido apenas um pouco (os famosos seis caroços de romã), no entanto, ela foi liberada para voltar para sua mãe por seis meses, mas, para os outros seis, ela teve que voltar para o Hades.

Quando Perséfone estava com sua mãe, a terra era brilhante e quente e dava comida, mas, quando ela voltou para o mundo subterrâneo e Deméter ficou deprimida, a terra estava fria e escura e nada crescia. A história explicava as estações, mas também enfatizava o conceito de uma vida após a morte e a natureza cíclica de todas as coisas vivas.

Os gregos entendiam que seus deuses estavam trabalhando ao seu redor porque podiam ver a prova diária da existência do deus por meio do brotamento das árvores na primavera ou da queda das folhas no outono.

Os Ritos de Deméter foram mais do que apenas um 'festival de outono'; a reconstituição da busca de Deméter por sua filha desaparecida e o misterioso rito que ocorreu no templo subterrâneo de Elêusis mudou radicalmente a vida daqueles que participaram dele. Depois que os comunicantes pegaram seu copo de kykeon e eram conduzidos ao templo subterrâneo, pensa-se que talvez um oficiante tenha recitado a história de Deméter e Perséfone, ou encenado, ou talvez os próprios comunicantes tenham participado da encenação da história.


Regina Vasorum - A história de Demeter e Kore (este era o nome de Perséfone antes de ela ir para o Hades) foi entrelaçada com vários outros mitos gregos. O museu Hermitage tem uma hidria (transportadora de água) lindamente trabalhada, adornada ao redor de seus ombros com representações em relevo das várias divindades associadas a Eleusis. Esta Regina Vasorum (Rainha dos Vasos) foi encontrada no sul da Itália e data do século 4 aC. A ilustração mostra na hidria a representação de Deméter e Kore reunidas. O diagrama em preto e branco identifica as várias divindades que ainda aparecem: tanto Hércules quanto Dionísio, embora heróis de seus próprios mitos, também participaram dos Mistérios e se tornaram iniciados; Atena está presente porque os Mistérios foram conduzidos sob os auspícios da cidade de Atenas; Triptolemus existe para representar Elêusis, e talvez também para ser um símbolo dos seres humanos normais. Demeter e Kore são retratadas duas vezes - separadas e depois reunidas.

Como o segredo dos Mistérios foi bem guardado por aqueles que participaram, ninguém que não participou jamais soube o que aconteceu lá. Sabe-se, no entanto, que praticamente todos os escritores, pensadores, governantes ou construtores antigos cujo nome conhecemos hoje, desde o início dos Ritos em cerca de 1500 aC até serem encerrados e proibidos pelo imperador cristão Teodósio em 392 dC , foi um iniciado nos Mistérios de Elêusis.

Platão, entre muitos outros, menciona os mistérios especificamente em seu diálogo do Fédon, afirmando que apenas aqueles que eram iniciados podem morar com os deuses.

Já foi sugerido, uma vez que o Fédon lida com a imortalidade da alma, que Platão queria dizer que apenas os iniciados desfrutariam de uma vida após a morte gratificante. No contexto do diálogo, entretanto, parece mais provável que ele quisesse dizer que apenas os iniciados tinham uma compreensão dos assuntos mais importantes da vida enquanto viveram.

Outros escritores antigos, como Plutarco, apoiariam essa interpretação. Ele escreveu que, após ser iniciado, perdeu o medo da morte e se reconheceu como uma alma imortal.

O ingrediente psicoativo do ergot no kykeon, combinado com o ritual no Telesterion subterrâneo, produziu um evento de mudança de vida nos comunicantes. 

O Santuário de Deméter em Eleusis 

O local em si era dedicado a Deméter, havia essencialmente um vazio de dedicatórias a ela no século III, apenas algumas no século IV com algumas mais do primeiro e segundo séculos aC. No século IV, mais da metade das dedicatórias vêm da própria cidade e algumas até honram os funcionários em vez da deusa. [9]

Localização do Santuário

Em 1738, John Montague visitou o local e notou que muitas esculturas foram destruídas pelos turcos que começaram a habitar o local (COSMOPOULOS, 2015). Cinquenta anos antes disso, Sir George Wheeler havia pintado as ruínas, dando-nos uma ideia de como elas eram antes disso (COSMOPOULOS, 2015)

Edward Clarke visitou o local em 1803 e viu a estátua do Cargatid. Ele queria levá-la de volta para a Inglaterra, mas a estátua era sagrada para os habitantes locais, que acreditavam que "Santa Demetra" protegia suas plantações.

A história que se conta é que ele tentou retirá-la e levou a estátua até o navio, apenas para que ela voltasse sozinha durante a noite. Quando ele finalmente conseguiu em seu navio, todo o navio afundou na viagem de volta para a Inglaterra. Foi recuperada muito mais tarde e a estátua agora vive no Museu Fitzwilliam. As colheitas dos habitantes locais falharam durante anos depois que Clarke tomou a estátua (COSMOPOULOS, 2015)

Desde a remoção da estátua por Clarke, Hobhouse observou que "os restos da antiga Elêusis são agora muito insignificantes; algumas pequenas pedras e pedaços de lixo em pé, 'são tudo o que resta (HOBHOUSE, 1817).

Em 1812, a Sociedade dos Diletanti escavou o local e descobriu a localização do Telesterion, mas neste momento ele havia sido enterrado sob parte da vila, tornando impossível a escavação completa. Em 1882, Demetrios Philos realizou uma escavação completa no local, foi financiado pela Sociedade Arqueológica de Atenas e foi capaz de mover as casas na área do Telesterion. No entanto, ele não conseguiu encontrar muito, o que significa que é difícil tirar conclusões reais sobre a estrutura e organização do site (COSMOPOULOS, 2015). 

O Telesterion, ou Salão de Iniciação, era um grande edifício coberto, com cerca de 170 pés quadrados. Era cercada por todos os lados por degraus, que deviam servir de assentos para os mystae, enquanto os dramas sagrados e as procissões ocorriam no chão do salão: esses assentos eram parcialmente construídos, parcialmente cortados na rocha sólida; em tempos posteriores, eles parecem ter sido revestidos de mármore. Havia duas portas de cada lado do corredor, exceto o noroeste, onde é escavado na rocha sólida, e um terraço de rocha em um nível mais alto adjacente a ele; este terraço pode ter sido a estação daqueles que ainda não foram admitidos à iniciação completa. O teto do salão era sustentado por fileiras de colunas, que mais de uma vez foram renovadas.

Das Atividades Rituais do Santuário 

Os rituais eram realizados em homenagem a Deméter.

No festival de Haloa, a sacerdotisa dava oferendas de comida e bebida, pois não havia nenhum sacrifício de sangue. (COSMOPOULOS, 2015)

Durante a Thesmophoria, no mesmo dia da festa, os restos mortais dos porcos podres eram trazidos dos fossos cheios de cobras (batizados com o nome de Megara), misturados com sementes e colocados no altar como oferenda. Segundo Ruscillo, ao usar as evidências zoológicas, o barulho dos bailers (sem data para esta festa) teria feito as cobras regurgitarem os leitões que haviam alimentado no início da festa (ZUNTZ,1971). 

Uma placa votiva conhecida como Tábua de Ninnion, representando elementos dos Mistérios de Elêusis, descoberta no santuário de Elêusis (meados do século 4 aC)

Os Festivais do Santuário de Deméter em Eleusis 

Os festivais de Elêusis focavam na fertilidade tanto para a agricultura quanto para os humanos.

Em Março / abril celebravam o festival de Chloia que homenageou Demeter Chloë (‘A Verde’). Isso marcaria o início da primavera e o crescimento das safras.

No verão era Calamaia, festa da debulha do grão.

Em agosto / setembro era celebrado o festival de Eleusinia, com o objetivo de agradecer a Demeter pelo dom da agricultura. Era celebrado a cada quatro anos e em escala muito maior.

Em Outubro / novembro realizavam o Proerosia, um festival de pré-aração.

Em Novembro / dezembro era o mês de Poseidon, no qual o festival de Haloa era celebrado. Era uma homenagem a Deméter e Dioniso e era exclusivamente para mulheres. Havia um grande foco na fertilidade com genitais masculinos e femininos feitos de massa e apresentados em todos os lugares. A sacerdotisa sussurrava palavras sagradas para os participantes - não sabemos o que eram por causa da natureza secreta do festival (COSMOPOULOS, 2015)

A Thesmophoria era um dos festivais mais difundidos na Grécia e celebrado em todo o mundo grego. Durava 3-4 dias e começa com uma procissão de Atenas ao santuário de Deméter. Havia um dia de jejum (nesteia) para representar a tristeza de Deméter, pois os iniciados se deixavam tornar alvo de zombarias rituais (aisechrologia), e então um dia de festa. Havia fortes imagens de fertilidade aqui, e novamente os símbolos fálicos feitos de massa. O festival homenageava a fertilidade das colheitas, humanos e o status das mulheres cidadãs. Novamente, este foi um festival exclusivamente feminino (COSMOPOULOS, 2015).

Thesmophoria por Francis Davis Millet, 1894-1897, óleo na lona, museu de arte da universidade de Brigham Young. As Tesmoforiantes ou As mulheres que celebram as Tesmofórias (em grego: ΘΕΣΜΟΦΟΡΙΑΖΥΣΑΙ), foi uma comédia escrita por Aristófanes e encenada em 411 a.C., nas Grandes Dionisíacas, festival em honra ao deus Dioniso. Nessas festas, além dos rituais em homenagem a Dioniso, existiam dias reservados para as competições de tragédia e comédia. As peças teatrais eram apresentadas e o público votava na sua preferida. As Tesmoforiantes apresenta diversas mulheres atenienses reunidas no templo de Deméter e Perséfone para celebrar o festival das Tesmofórias, ocasião em que a presença masculina é proibida. Nesse espaço sagrado elas planejam se vingar de Eurípides pela forma como são retratadas nas suas tragédias. Eurípides pede que o poeta Agaton, caracterizado diversas vezes por Aristófanes como tendo trejeitos efeminados, defenda sua causa na assembleia das mulheres. Diante da recusa de Agaton, um parente de Eurípides, provavelmente seu sogro, se disfarça de mulher e participa da assembleia no intuito de salvar Eurípides da condenação. Porém, ele acaba sendo descoberto e preso. Eurípides não tem outra alternativa a não ser ir até o Tesmofórion, mas a sua tentativa de fazer um acordo com as mulheres é frustrada e acaba tendo que ajudar o parente a fugir da prisão.

A organização dos mistérios cabia ao Arconte Basileu, que seria auxiliado por um paredro e quatro epimeletas. As partes religiosas eram organizadas pelos sacerdotes, sendo o sacerdote supremo o Anaktoron, que oficializaria a iniciação. As sacerdotisas de Demeter e Kore estavam envolvidas em todas as cerimônias. Os próprios mistérios duraram mais de dois mil anos, de cerca de 1450 aC a 230 dC (KELLER, 2009). 

Regras e regulamentos

 “Muitos são os locais a serem vistos na Grécia e muitas são as maravilhas a serem ouvidas, mas em nada o céu confere mais cuidado do que nos ritos de Elêusis.” (Pausânias 5.10.1)

Os mistérios de Elêusis eram exatamente isso, um mistério, portanto, era um nível estrito de sigilo que se esperava que fosse mantido por todos os iniciados. Qualquer um que revelasse os mistérios / não iniciados que invadissem o terreno do santuário seria morto.

A privacidade dos mistérios de Elêusis era, na verdade, protegida pela lei ateniense, sob pena de morte.

Dois meninos foram executados por se esgueirarem para espionar os mistérios e Alcibíades e Andokides quase foram executados porque se acreditava que eles revelaram o conteúdo secreto dos mistérios.

Os autores pagãos respeitaram a lei, portanto não escreveram nada sobre os mistérios deixando-nos com fontes limitadas.

Mas, mesmo assim, Aristóteles deu detalhes sobre a cerimônia de iniciação, era para ser uma experiência emocional em vez de cerebral de aprendizagem; ‘Παθειν em vez de μαθειν᾽ (ROSS, 1955). Portanto, a experiência deveria ser espiritual em vez de depender da orientação dos sentidos.

A iniciação deveria permitir que o indivíduo se concentrasse em seu eu interior, sendo assim protegido pelo silêncio.

A iniciação durava nove dias:

DIA 1: O Arconte Basileu (rei) convoca pessoas no Poikile Stoa para uma proclamação formal. Todos poderiam comparecer, exceto aqueles que não entendiam grego e aqueles que cometeram assassinato.

DIA 2: Os mystai purificaram-se lavando um leitão no mar e depois sacrificando-o de volta à cidade.

DIA 3: Houve sacrifícios na Eleusinion com a ajuda do Arconte Basileu.

DIA 4: Chamado de Askelpia na Epidaúria era o dia em que o culto de Asclépio se juntava aos mistérios de Elêusis.

DIA 5: Uma grande procissão de Atenas a Elêusis. Começando em Eleusinion, progredindo para o caminho Panathenaico, passando pela ágora e os Portões Dipylon, e então seguindo o Caminho Sagrado até chegarem a Elêusis. Aqueles que caminhavam estariam vestidos com roupas de festa, usando coroas de grinaldas de murta e segurando ramos de murta amarrados com fios de lã chamados de "bacchos" Depois de cruzar a ponte para o caminho sagrado, eles amarrariam uma fita de açafrão ao redor da mão direita e da perna esquerda. Eles então bebiam um líquido chamado kykeon, cujos ingredientes são desconhecidos, mas acreditava-se que continha um elemento psicotrópico (possivelmente ópio, pois as papoulas eram associadas a Deméter) que causava alucinações.

DIAS 6/7: O segundo grau secreto da cerimônia de iniciação acontecia e as coroas de murta eram substituídas por coroas de fita. Não se sabe mais nada depois disso.

DIA 8: totalmente desconhecido.

DIA 9: todos voltariam para casa, em uma procissão muito discreta (COSMOPOULOS, 2015).

Maquete do Santuário de Elêusis

A praça de entrada do santuário data da época romana e é pavimentada com grandes lajes retangulares de mármore. As etapas conduzem à Grande Propilaia.

O pátio era ladeado por stoas e uma fonte, um harmonioso edifício de mármore de 11 metros de comprimento com seis colunas na fachada. Provavelmente foi construído durante o reinado de Adriano. Atrás da fonte estão os restos do Arco do Triunfo Oriental.

Os restos do Arco do Triunfo Oriental construído em mármore pentélico por Antonino Pio ou Marco Aurélio. Foi modelado no Arco de Adriano em Atenas, como seu gêmeo na extremidade oeste do Santuário.

Reconstrução parcial do Arco do Triunfo Oriental. As inscrições revelaram que os arcos foram dedicados às duas deusas (Deméter e Perséfone) e ao imperador Adriano.

As fundações do Arco do Triunfo Ocidental marcando o fim da estrada de Megara. Era um único arco largo com um segundo andar de colunas e um entablamento acima dele.

Os restos do Templo de Artemis Propylaia e Poseidon Pater em pé na quadra pavimentada em um pódio alto. Construída em mármore pentélico durante o reinado de Marco Aurélio, possuía pórtico frontal e posterior com colunas dóricas.

O Grande Propileu (Propylaea), um portão monumental provavelmente construído por Marco Aurélio no mesmo local que um portão anterior da época de Kimon. Ele formava a entrada principal do santuário.

O Grande Propylaea era uma cópia aproximada do Propylaia da Acrópole em Atenas, consistindo em dois pórticos, cada um com uma fachada de seis colunas dóricas.

Os elementos arquitetônicos (triglyphs e metopes) que formaram o Grande Propylaea, um portão monumental provavelmente construído por Marco Aurélio.

Este busto com couraça de um imperador foi instalado no centro do frontão do Grande Propileu. Embora o rosto esteja gravemente danificado, acredita-se que seja um retrato do imperador Marco Aurélio, que construiu o Grande Propileu.

The Lesser Propylaea, um pequeno portal para o Santuário construído por Appius Claudius Pulcher em 54 AC.

A parte superior de uma das cariátides que flanqueava os Propileus Menores. Na cabeça carrega a kiste, o baú sagrado decorado em relevo com os símbolos do culto eleunisiano: espigas de trigo, papoulas, rosetas (Museu Eleusis).

O Santuário de Plutão (Hades), deus do submundo, que raptou Perséfone. Ele está situado a oeste do Propileu Menor. A caverna lembra a entrada para o submundo.

Escadas de degraus cortam o lado leste da rocha ao longo da Via Processional.

Visão geral do Telesterion, o “local de iniciação”. Era o edifício central do santuário onde os peregrinos eram iniciados nos Mistérios de Elêusis.

Servindo como o salão de iniciação e templo para os mistérios de Elêusis, o Telesterion era um grande salão hipostilo com assentos nos quatro lados onde os fiéis sentavam e assistiam aos rituais.

Os primeiros traços de construção no local do Telesterion são de um megaron micênico abrindo para o leste. Este foi substituído por um edifício geométrico, e na época de Sólon (cerca de 600 aC) um salão retangular, provavelmente com colunas, correndo sudoeste-nordeste foi construído para acomodar um número maior de participantes.

O Stoa de Philo construído pelo arquiteto de Elêusis Philo em meados do século 4 aC na ordem dórica a fim de estender o Telesterion pela adição de um espaço semiaberto.

Kallichoron: Bem, de acordo com o mito, foi aqui que Demeter descansou enquanto procurava por sua filha Kore. Aqui, danças para Demeter e Kore foram realizadas, daí o nome que significa Well of the Fair Dances.

Eleusis Museum

Como se vê, em Elêusis a festa durava 10 dias e tinha uma parte aberta a todos e uma parte misteriosa e iniciatória. Uma das cerimônias dizia respeito aos novos iniciados do culto, que eram conduzidos em procissão até o mar; aqui lavavam um porquinho que ofereceriam em sacrifício quando voltassem à cidade três dias depois. No caminho de volta, eles não tocaram em qualquer comida.

No entanto, não se sabe detalhes sobre a parte secreta da iniciação que era realizada em uma grande sala do Telesterion. Até porque a divulgação do rito envolvia a morte.

A parte que conhecemos diz respeito a uma grande procissão formada por iniciados e visitantes, que partia da Ágora de Atenas e terminava em Elêusis: estamos a falar de cerca de 20 km percorridos a pé no espaço de uma noite, à luz de tochas, sem beber e nem comer, cantando uma canção sagrada. A única diversão era a troca de palavras brincalhonas e obscenas.

Chegando ao santuário de Elêusis, os iniciados se separaram dos demais participantes e iam se purificar em alguns tanques. Começava então a vigília que duraria a noite toda e, nesse momento, quebraram o jejum bebendo o ciceone: uma mistura de água, farinha de cevada e hortelã.

"Então Metanira, enche uma taça de vinho tão doce como mel, ela o estendeu para ela (Deméter) mas a deusa a rejeitou: ela disse que na verdade ela estava proibida de beber o vinho tinto, e ordenou-lhe que a oferecesse como bebida água, com farinha de cevada, misturada com a delicada hortelã.

A mulher preparou o ciceone e entregou-o à deusa como ela havia ordenado:

Deméter, a muito venerada, aceitou e inaugurou o rito. (Trecho de 'Para Deméter', hinos homéricos)"

O ciceone é encontrado em várias fontes gregas e latinas e também ocorre de maneiras bastante diferentes.

Em primeiro lugar é lembrado como um gole de Deméter, que, em jejum após a longa e inútil busca por sua filha Perséfone, sequestrada pelo deus do submundo, recusou o vinho que lhe era oferecido, querendo apenas beber uma mistura de água, cevada e hortelã.

Esta bebida tornou-se assim a bebida ritual que os iniciados dos cultos dos mistérios de Elêusis (perto de Atenas), dedicados a Deméter, deviam tomar após um período de jejum. Para alguns estudiosos, cogumelos alucinógenos ou outras substâncias semelhantes eram adicionadas a esta mistura.

Na Ilíada e na República de Platão, entretanto, o ciceone consistia em vinho, farinha e queijo. Não está claro se se apresentava como uma bebida (o que seria nojento) ou de forma mais sólida: tudo depende das proporções.

A estudiosa Anna Ferrari, de Turim, (ormada em arqueologia e história da arte grega, dedicada aos estudos da mitologia grega e romana, arqueologia e história da arte, com obras importantes como: Dicionário de mitologia, Utet, Torino 1999; Dicionário de lugares literários imaginários, Utet, Torino 2006; Dicionário de lugares do mito. Geografia real e imaginário do mundo clássico, Rizzoli, BUR, Milan 2011) propõe que se tratava de uma espécie de fonduta (cuja receita deixo abaixo), mas com variações: eliminei o conhaque e a fécula de batata (que são adições modernas), acrescentei água para deixar a mistura mais fluida e menta, para lembrar a bebida de Deméter.

O ciceone indica, portanto, coisas diferentes, mas o que eles têm em comum é a ideia de mistura. Também pode ser usado metaforicamente para significar caos e confusão.

De fato, o imperador Marco Aurélio em seus Pensamentos, obra de reflexões filosóficas e exortações dirigidas a si mesmo, diz que: ou existe um universo racional e ordenado, ou um ciceone; claramente significando caos e confusão, enquanto ele, como um estóico, está mais inclinado, embora não inteiramente, a acreditar na primeira ideia; mas em outra passagem ele levanta a questão novamente e diz que no final não é importante, porque se o universo é racional ou não depende de nós, ao passo que cabe a nós trazer a racionalidade agindo de acordo com a razão e cumprindo nosso dever de acordo com nosso papel : em suas palavras: “Se o mundo vai por acaso, não vá por acaso também!”. Um aviso importante para nossos tempos difíceis.

E assim, os Ritos de Deméter tiveram uma importância incrível para aqueles que deles participaram e o kykeon era a chave que abriu a mente das pessoas para os segredos de seus deuses.

Abaixo deixo duas versões para essa bebida. Quem sabe ao prepara-la e ao ingeri-la os deuses lhe agraciam com sabedoria e revelações misteriosas... se preparar, depois me conte a sua experiência.

 

Bibliografia e Sugestões de Leitura

CLINTON, K; MARIANTOS, N.; HÄGG, R. Greek Sanctuaries – New Approaches (New York: Routledge). 1993. 

COSMOPOULOS, M. B. Bronze Age Eleusis and the Origins of the Eleusinian Mysteries. (Cambridge: Cambridge University Press). 2015. 

ELIADE, M. History of Religious Ideas, Volume 1. University Of Chicago Press, 1981. 

HOBHOUSE, J. C.(1817) A Journey Through Albania and Other Provinces of Turkey in Europe and Asia. (Phildelphia: M. Carey and Son). 1817. 

JOWETT, B. Translator. Fédon de Platão. Oxford, Clarendon Press, 1911. 

KELLER, M. L. The Ritual Part of Initiation into The Eleusinian Mysteries, (Los Angeles: University of California Press). 2009. 

KERÉNYI, K. Eleusis: imagen arquetípica de la madre y la hija. Madrid: Siruela. 2004. 

MIKALSON, J. D. Religion in Hellenistic Times (Los Angeles: University of California). 1998. 

PALMER, B. Bullfinch s Mythology. Livro do Mentor, 1962. 

ROSS. Aristotle: Selections. (The Society for the Promotion of Hellenic Studies). 1955. 

TONELLI, A. Eleusis e Orfismo. I misteri e la tradizione iniziatica greca. Feltrinelli, 2015. 

VIRGILI, A. Culti misterici ed orientali a Pompei. Roma: Gangemi. 2008. 

WASSON, R. G.; HOFMANN, A; RUCK, C. El camino a Eleusis: una solución al enigma de los misterios. México: Fondo de Cultura Económica. 1993. 

ZUNTZ, G. Persephone. Three Essays on Religion and Thought in Magna Graecia. (London: Oxford University Press). 1971. 

Kykeon de Demeter

cevada integral

poejo / tomilho (se não encontrar, use hortelã)

Preparo: Torre a cevada um pouco e depois bata no pilão (ou use o mixer ou o liquidificador) sem reduzi-la à farinha. Refogue dez partes de água com uma de cevada por pelo menos duas horas. Deixe esfriar. Misture duas partes de cevada cozida com três de água e adicione um pouco de poejo picado. Se você não tiver poejo, use hortelã. Misture bem e beba imediatamente.


Kykeon da Ilíada

cevada inteira

vinho tinto

queijo de cabra envelhecido


Preparo: Prepare a cevada como na receita anterior. Para então fazer a bebida misturando duas partes de cevada cozida com três partes de vinho, ralando por cima um pouco de queijo de cabra envelhecido. Misture bem todos os ingredientes e beba.

 

Ciceone (tipo fonduta mais sólida)

Ingredientes para 4 pessoas:

250 g de farinha de trigo

250 g de queijo envelhecido;

420 g de vinho branco;

O suco de meio limão;

Sal e pimenta a gosto.;

Uma pitada de noz-moscada;

Meio litro de água;

Algumas folhas de hortelã.

Preparo: Rale o queijo e misture com a farinha e a noz-moscada. Em uma panela, aqueça o vinho e, quando estiver bem quente, retire do fogo. Despeje a misture a farinha e o suco de limão, tempere com sal e pimenta e misture o queijo. Cozinhe por 10 minutos em fogo baixo, mexendo vigorosamente o tempo todo para evitar grumos e vá adicionando água aos poucos para manter a mistura fluida. Por fim, adicione algumas folhas de hortelã fresca. Deve ser consumido imediatamente e não pode ser reaquecido posteriormente.