terça-feira, 8 de setembro de 2026

A MESA ONDE ELTON JOHN AINDA É REG DWIGHT

Ontem à noite, eu fiquei em casa.

Pode parecer uma informação pequena demais para começar uma história sobre Elton John, mas certas noites começam justamente assim, sem anunciar que pretendem se transformar em memória. O dia 7 de setembro tinha passado naquele estado peculiar dos feriados: um movimento amortecido, uma cidade que parece retirar lentamente os próprios ruídos, como se também precisasse descansar. Só o calor não descansara. O calor permanecera feroz, grudado à pele, fazendo o ar parecer mais espesso, como se a própria noite tivesse sido mergulhada em água morna antes de chegar.

Ainda assim, quando escureceu, tudo ganhou outra qualidade.

Eu sabia que a noite seria agradável porque Elton John estaria na televisão.

E existe uma diferença enorme entre assistir a alguém e esperar alguém. Eu não estava simplesmente esperando um show. Estava esperando uma visita. Uma dessas visitas impossíveis, porque o visitante atravessaria a tela vindo de décadas diferentes da minha vida, trazendo consigo versões de mim que eu nem sequer lembrava de ter deixado pelo caminho.

Elton John havia se aposentado dos palcos. Depois de uma carreira que já parecia pertencer à própria história da música, ele encerrara sua despedida com a turnê Farewell Yellow Brick Road (Adeus, Estrada de Tijolos Amarelos), iniciada em setembro de 2018 e concluída em julho de 2023. Foram 330 shows. Trezentos e trinta noites em que um homem se despediu do palco repetidamente, como se uma despedida pudesse ser ensaiada até encontrar sua forma definitiva.

Mas o Brasil ficara de fora. E isso, para os brasileiros que cresceram ouvindo Elton John, tinha alguma coisa de abandono. Ele sabia.

Quando seu agente lhe perguntou o que achava de cantar no Rock in Rio em 2026, Elton respondeu rapidamente que sim. E foi justamente esse sim que o trouxe de volta. Não um retorno integral, não uma negação de sua aposentadoria, mas uma exceção. Uma espécie de último gesto dirigido a um país que permanecera esperando.

Durante o show, ele próprio explicou a razão. O Brasil era lindo, disse, mas também era um lugar cheio de pessoas que amavam sua música. E talvez exista algo profundamente humano nessa justificativa: depois de tantos anos, de tantos aeroportos, hotéis, camarins, palcos e multidões, ele ainda reconhecia no amor do público uma dívida que valia a pena pagar. Foi quase uma reparação histórica.

E então o piano começou. Durante algum tempo, antes de Elton cantar, o instrumento ficou sozinho diante de nós, acompanhado pela banda. E aquele longo solo inicial de piano não parecia apenas uma introdução. Parecia uma porta se abrindo. Quando veio Funeral for a Friend (Funeral para um Amigo), eu já não estava inteiramente naquela sala.

Uma música pode fazer isso. Pode deslocar uma pessoa sem que ela precise sair do lugar.

De repente, eu estava de volta ao final de agosto de 1997.

As notícias chegavam com aquela violência peculiar das tragédias que primeiro parecem impossíveis, depois se tornam onipresentes. A princesa Diana tinha “falecido” — e mantenho as aspas porque, até hoje, a palavra e as circunstâncias continuam alimentando discussões. Mas certas controvérsias não alteram a experiência fundamental de uma geração: em 31 de agosto de 1997, o mundo perdeu o rosto mais popular entre as realezas vigentes. E o funeral foi marcado para 6 de setembro. O mesmo 6 de setembro que, em 2010, faria nascer esta Confraria.

Gosto dessas coincidências porque elas parecem pequenas quando acontecem, mas depois adquirem a estranha autoridade das coisas que só podemos compreender retrospectivamente. Uma data pode ser apenas uma data durante anos. Depois, sem pedir licença, ela passa a carregar duas vidas dentro de si.

Naquele 6 de setembro de 1997, a televisão transformou a despedida de Diana em uma experiência doméstica e planetária ao mesmo tempo. O mundo inteiro parecia caber dentro das salas de estar. Pessoas que nunca haviam estado diante dela choravam diante de uma tela. Pessoas discutiam os detalhes de sua morte, outras tentavam compreender o que tinha acontecido, muitas simplesmente permaneciam em silêncio, consternadas, como se a perda de alguém que nunca conheceram pudesse produzir uma espécie legítima de luto.

E, dentro da catedral inglesa, entre convidados ilustres, flores, silêncio e toda aquela solenidade que as grandes despedidas possuem, chegou o momento de Elton John se despedir de sua amiga.

Ele não escolheu simplesmente cantar uma música. Ele pegou uma música que já carregava a memória de outra morte, Candle in the Wind (Vela ao Vento), modificou seus versos e transformou-a em Goodbye England's Rose (Adeus, Rosa da Inglaterra).

Foi como se a mesma melodia tivesse envelhecido junto com o mundo e, naquela manhã, recebido um novo nome para poder chorar uma nova mulher.

Eu estava diante da televisão. E me arrepiei. Lágrimas quentes correram pelo rosto. Não eram lágrimas abstratas, dessas que pertencem apenas à emoção de uma cerimônia. Eram lágrimas físicas. Tinham temperatura. Desciam pela pele. Faziam o rosto ficar úmido enquanto Elton cantava para uma mulher que o mundo inteiro chamava de princesa e que, para ele, antes de qualquer título, era uma amiga.

Mas aquelas não foram as primeiras lágrimas que Elton John me arrancou. Muito antes daquela catedral, antes de Diana, antes de Goodbye England's Rose, existia Simba. Existia O Rei Leão.

Em 1994, Elton John cantou para a animação da Disney Can You Feel the Love Tonight (Você Pode Sentir o Amor Esta Noite), composta com Tim Rice. A música ganhou o Oscar de Melhor Canção Original em 1995 e, durante muito tempo, ficou gravada na memória de muita gente como uma das mais bonitas já criadas para uma animação.

Mas existe algo ainda mais extraordinário nesse episódio: dentro de uma mesma obra, três canções associadas a Elton John chegaram à disputa do Oscar. Can You Feel the Love Tonight (Você Pode Sentir o Amor Esta Noite), de Elton John e Tim Rice, venceu; Circle of Life (O Ciclo da Vida) e Hakuna Matata também foram indicadas.

E Hakuna Matata continuou vivendo depois do filme. Muita gente ainda canta. Eu também.

Só que meu Elton John começou antes. Em 1989, eu o ouvia cantar Sacrifice (Sacrifício) naqueles programas melosos que traduziam letras de músicas internacionais. Eram programas que ensinavam uma geração a imaginar o que as músicas diziam, muitas vezes antes mesmo de ela saber compreender o idioma.

E isso me interessa porque existe uma espécie de magia — e também de perigo — em não entender uma língua. Quando não compreendemos as palavras, a melodia passa a ocupar o território inteiro do significado.

A música diz aquilo que queremos que ela diga. Uma melodia triste pode virar uma declaração de amor. Uma voz rouca pode parecer uma promessa. Um refrão pode assumir uma felicidade que a letra jamais pretendeu oferecer. E muito provavelmente era isso que acontecia com Sacrifice.

Nas rádios do interior, para uma parte daquele público que não compreendia inglês, a música era tratada como uma grande canção romântica.

Eu, porém, já entendia um pouco. E aquilo me intrigava. Porque enquanto as pessoas ouviam romance, eu ouvia uma história de casamento, tentação, culpa, desgaste e desejo. Diz a letra assim: “Sacrifício É um gesto humano Quando as coisas dão errado Quando o cheiro dela permanece E a tentação é forte Dentro dos limites De cada homem casado Doce engano vem chamando E a negatividade pousa...”

Foi nesse momento que comecei a compreender uma coisa que faria Elton John se tornar ainda mais interessante para mim: uma música não precisava confirmar aquilo que sua melodia sugeria. Ela podia contradizer o próprio encanto. Podia soar como amor e falar de ruína. Podia acariciar o ouvido enquanto colocava diante de nós uma verdade desconfortável. E justamente essa fricção entre sentimento e literalidade que me aproximou dele.

As músicas de Elton John pareciam possuir portas secretas. Por uma delas entrava o romance. Por outra, a solidão. Por outra, o medo. Mais adiante apareciam o desejo, a culpa, o fracasso, a amizade, o sacrifício, a fantasia, a velhice, a exuberância, a perda. Nada precisava permanecer no lugar em que a primeira escuta o colocava.

Então veio Tiny Dancer (Pequena Dançarina). E ali Elton John encontrou uma criança. A minha.

Eu ficava horas repetindo a fita, imaginando uma pequena dançarina girando em sua roupa de balé, tão pequena que poderia caber na palma da minha mão. Não sei de onde veio aquela imagem. Talvez nenhuma criança saiba de onde vêm suas imagens mais preciosas. Elas simplesmente aparecem, e durante algum tempo acreditamos que nasceram da música quando, na verdade, talvez a música apenas tenha encontrado dentro de nós um quarto que já estava esperando por ela.

Eu repetia a fita. E a bailarina girava. Pequena. Leve. Quase impossível.

Depois veio Your Song (Sua Canção), e o que me atingiu foi outra coisa: a honestidade. Elton não precisava erguer uma arquitetura sofisticada para falar de amor. Bastavam algumas palavras quase desajeitadas, uma confissão que parecia escapar antes que o autor pudesse corrigi-la: “É um pouquinho engraçado esse sentimento aqui dentro Eu não sou do tipo que consegue disfarçar facilmente Não tenho muito dinheiro, mas, cara, se eu tivesse Eu compraria uma casa bem grande pra gente morar.”

Eu gostava disso.

Talvez ainda goste porque existe uma dignidade especial nas pessoas que não tentam parecer maiores do que são. Ele não tinha dinheiro para comprar a casa. Mas, se tivesse, compraria. E pronto.

O amor, naquela canção, não precisava de uma fortuna. Precisava de uma hipótese.

Depois, veio Bennie and the Jets (Bennie e os Jets), e aí a minha imaginação simplesmente tomou conta de tudo.

Minha versão preferia era a que Elton John cantava ao lado de Cher, com aquele piano enorme, marcante, e as duas vozes ocupando o espaço de uma maneira quase teatral, eu ouvia uma história sobre uma banda que não existia — e justamente por não existir, podia ser qualquer coisa.

Bennie era uma mulher. E os Jets eram uma banda de glam rock futurista. Eu os imaginava vestidos de maneira extravagante, cobertos de brilho, com uma aparência andrógina, botas prateadas, uma atitude estranha, quase alienígena. Eles não pareciam pertencer ao mesmo mundo das pessoas que os assistiam. Pareciam superiores ao público comum, como se tivessem atravessado alguma fronteira secreta entre o presente e um futuro extravagante.

Eu tinha uma imaginação fértil. E aquela música sabia exatamente o que fazer com ela. A canção era de 1973. Eu nasci nos agitados anos 80.

Quando encontrei Bennie and the Jets, portanto, o futuro imaginado por aquela música já tinha se transformado em passado. Ainda assim, dentro da minha cabeça, continuava futurista. O videoclipe só viria oficialmente em 2017, explorando um aspecto circense dos personagens, mas preciso confessar uma pequena infidelidade ao videoclipe: a minha versão era muito mais interessante.

Na minha cabeça, Bennie e os Jets eram maiores, mais estranhos, mais brilhantes. E talvez seja isso que uma grande música faça. Ela começa pertencendo ao artista e termina pertencendo à memória de quem a escuta.

Certamente existem outras canções icônicas de Elton John. Muitas. Mas essas são algumas das que ficaram presas em mim de uma maneira diferente. São aquelas que eu canto, que eu ouço, que escuto por acaso e fazem alguma coisa parar dentro de mim enquanto outra começa: o impulso de cantarolar, de voltar a uma frase, de reencontrar uma versão antiga de mim mesmo.

Gosto das versões antigas. Ainda as tenho no player do celular. Não porque sejam necessariamente melhores, mas porque carregam uma espécie de temperatura que as novas versões não conseguem reproduzir. O arquivo digital pode ocupar quase nada na memória do aparelho, mas dentro de nós uma música antiga nunca pesa tão pouco.

E então, ontem à noite, sentado em casa, eu vi Elton John diante daquele piano. E foi impossível não perceber o tempo.

Ele estava até discreto. Terno amarelo-ovo. Camisa azul-caneta. Óculos da mesma cor. Para alguém que construiu parte de sua imagem pública sobre o excesso, o brilho e a extravagância, aquela contenção tinha uma beleza particular. Elton parecia menos interessado em vestir o espetáculo do que em simplesmente habitá-lo. O homem que tantas vezes transformara roupas, óculos, botas, pedras e cores em uma espécie de linguagem própria agora parecia mais sereno, mais próximo de uma pessoa que finalmente conhece o peso de tudo aquilo que já carregou.

Talvez eu tenha reconhecido alguma coisa nele. Também tenho minhas quedas por roupas que brilham, por adereços caros, por objetos que parecem pedir para ser vistos. Existe uma pequena vaidade alegre nisso, uma vontade de não passar pelo mundo completamente despercebido.

Mas a semelhança que mais me divertiu foi outra. Os doces.

Elton John e eu temos uma paixão pelos doces. A diferença é que, no meu caso, eu ainda posso comê-los sem regras. Ele não.

E, de repente, olhando para aquele homem diante do piano, pensei que talvez envelhecer seja também aprender a conviver com as coisas que o corpo já não permite, enquanto a memória continua oferecendo tudo.

Porque a memória não faz dieta. Ela não se aposenta. Ela não sabe que uma turnê terminou. Ela simplesmente toca uma música, abre uma porta e nos devolve, intactos, a uma sala que já não existe, a uma televisão diante da qual choramos em 1997, a uma criança que repetia uma fita ou a faixa de um CD para ver uma pequena dançarina girar, a uma imaginação que inventou uma banda futurista antes mesmo de conhecer o mundo que a inspirara.

E talvez seja por isso que Elton John ainda consiga fazer aquilo que os grandes artistas fazem quando o tempo já passou por seus corpos: ele não nos devolve apenas às suas canções. Ele nos devolve a nós mesmos.

Quando terminei de pensar nos doces e naquela pequena coincidência entre Elton John e eu, fiquei com a impressão de que a comida talvez fosse uma das formas mais bonitas de chegar até ele.

Não ao Elton dos palcos, nem ao homem dos óculos extravagantes, dos ternos luminosos, do piano cercado por milhares de pessoas, mas ao outro, àquele que existia antes de qualquer multidão saber seu nome. Porque existe uma coisa curiosa na comida: ela consegue atravessar a celebridade com uma facilidade que nenhuma biografia consegue.

Uma pessoa pode passar a vida inteira sendo fotografada, entrevistada, observada e transformada em personagem, mas basta perguntar o que ela comia quando criança para que, de repente, o personagem recue e apareça alguém muito mais vulnerável, sentado diante de uma mesa antiga, esperando o almoço.

Foi assim que comecei a enxergar Elton de outra maneira. Passei a reconhece-lo mais por algumas partes de entrevista que ele deu por aí...

Antes de ser Sir Elton John, antes de ser o homem que poderia entrar em qualquer restaurante do mundo e pedir praticamente qualquer coisa, ele era Reg Dwight, um menino crescendo na Inglaterra do pós-guerra, dentro de uma realidade em que a comida ainda carregava a marca da escassez.

Ele cresceu numa council house, ao lado da mãe e da avó, enquanto o pai estava na Força Aérea, e aquela casa simples conheceu os anos em que conseguir determinados alimentos não dependia apenas de dinheiro, mas também daquilo que se encontrava, daquilo que se podia cultivar e daquilo que se conseguia fazer durar. Bacon era uma coisa difícil de obter; o suco de laranja podia chegar em uma garrafinha pequena, ser diluído em água e repartido. A cozinha não era cenário. Era o centro da vida.

E quando Elton fala dessa infância, o que me impressiona não é a pobreza da descrição, mas a ausência de ressentimento. Ele não conta aquela história como quem enumera aquilo que lhe faltou. Ao contrário, existe uma espécie de gratidão silenciosa na maneira como se lembra da comida feita pela avó.

Ela sabia cozinhar qualquer coisa e fazer aquilo parecer extraordinário. Os ingredientes eram simples, mas o resultado nunca parecia pequeno. O que sobrava de uma refeição podia transformar-se em outra coisa no dia seguinte. Nada precisava terminar quando a travessa era retirada da mesa. A comida continuava. Mudava de forma. Encontrava outra maneira de alimentar a família.

Talvez exista algo profundamente maternal nessa ideia de aproveitar o que restou. Não deixar nada morrer completamente.

Uma sobra que volta no dia seguinte com outro nome, outro tempero, outra aparência, como se a cozinha tivesse aprendido uma pequena lição sobre a própria existência: aquilo que parece ter terminado ainda pode oferecer alguma coisa.

E então aparece a avó. Ela surge na memória não como uma personagem secundária da infância de Elton, mas como uma dessas figuras que acabam ocupando um espaço muito maior dentro de nós do que percebemos enquanto somos crianças. Era ela quem tinha as mãos capazes de transformar ingredientes básicos em comida que o menino considerava maravilhosa. Era ela quem cultivava os vegetais. O jardim fazia parte daquela economia doméstica porque comprar tudo simplesmente não era uma possibilidade confortável. E, por isso, aos domingos, antes que o assado chegasse à mesa, havia trabalho a fazer. Descascar batatas. Preparar os vegetais. E, sobretudo, descascar as ervilhas.

Consigo imaginar essa cena com uma nitidez que talvez a memória de Elton nem precise mais produzir.

A manhã de domingo. A cozinha ocupada pelos pequenos ruídos domésticos. As ervilhas sendo retiradas das vagens. As mãos trabalhando enquanto o almoço se aproxima. E um menino observando aquilo sem saber que um dia lembraria daquele gesto com a ternura reservada às coisas que só se tornam preciosas depois que desaparecem.

Porque uma criança não pensa: “Estou vivendo uma memória.”

Uma criança simplesmente vive. É o adulto que volta depois, muitos anos mais tarde, e percebe que aquele domingo aparentemente insignificante guardava uma espécie de eternidade doméstica.

Foi isso que me tocou quando descobri que Elton ainda se lembrava de descascar ervilhas com a avó. Não era apenas uma lembrança gastronômica. Era uma lembrança de pertencimento. O domingo tinha sua comida, a comida tinha seu ritual, e o ritual reunia a família. A mesa não era apenas o lugar onde se comia o assado; era o lugar para onde todos voltavam. Por isso Elton sempre diz que o almoço de domingo era tão importante para a família.

Hoje, quando pensamos nele, é fácil imaginar hotéis, restaurantes, chefs, champanhe, mesas impecavelmente montadas e pratos que custam mais do que muitas famílias gastariam em uma semana inteira. Mas a memória gastronômica mais profunda daquele homem começa muito antes de tudo isso, num jardim, numa cozinha simples, numa família que precisava economizar e numa avó que fazia comida suficiente para que ninguém sentisse que estava perdendo alguma coisa.

E ele mesmo diz isso de uma maneira que considero especialmente bonita: apesar daqueles tempos difíceis, nunca se lembra de ter passado fome ou de ter sentido que lhe faltava alguma coisa. Essa frase muda tudo. Porque pobreza e privação não são necessariamente a mesma coisa que ausência de amor.

Uma casa pode ser pequena e ainda assim parecer enorme para uma criança que se sente protegida dentro dela. Uma mesa pode ser simples e ainda assim guardar uma abundância que nenhum restaurante consegue reproduzir.

Elton deve ter aprendido isso muito cedo: o luxo de uma refeição não está necessariamente no que se coloca no prato, mas naquilo que acontece ao redor dele.

E sua mãe também entra nessa história com uma força que não pode ser esquecida. Ela trabalhava muito, em diferentes lugares, e ainda assim voltava para casa e preparava o jantar. Era uma mulher trabalhando duramente para sustentar a família e, ao mesmo tempo, preservando aquele pequeno ritual de alimentar o filho. Elton cresceu vendo essa combinação entre trabalho e cuidado, entre cansaço e comida preparada em casa. Talvez seja por isso que a comida tenha permanecido tão profundamente associada ao afeto.

Não era apenas alguém colocando um prato diante dele. Era alguém dizendo, sem precisar dizer: você voltou para casa, eu pensei em você, você precisa comer. E existe uma linguagem mais antiga do que qualquer palavra para isso. Alimentar alguém é uma das primeiras formas de amor que aprendemos a reconhecer.

Antes de sabermos o que significa carinho, alguém nos alimenta. Antes de compreendermos a palavra proteção, alguém verifica se estamos com fome. Antes de entendermos o que significa lar, existe uma cozinha.

Por isso é tão revelador que Elton, já adulto, já rico, já famoso, ainda tenha como comfort food uma coisa tão simples. Quando perguntado sobre o que escolheria como comida de conforto, não respondeu com o risoto extraordinário do Lago de Como, nem com alguma preparação sofisticada de um restaurante famoso. Respondeu bacon. Um sanduíche de bacon inglês, em pão integral, com manteiga, bacon bem crocante e com a gordura retirada.

É quase engraçado pensar nisso. O homem poderia mandar preparar praticamente qualquer coisa. E quer um sanduíche. Um sanduíche de bacon.

Existe uma espécie de verdade escondida nessa simplicidade: o luxo pode impressionar o adulto, mas o conforto pertence às memórias mais antigas. Aquilo que chamamos de comida de conforto raramente é aquilo que parece mais sofisticado; é aquilo que consegue fazer alguma parte de nós baixar a guarda. Uma garfada pode nos devolver uma casa. Um cheiro pode devolver uma pessoa. Um prato pode fazer uma cozinha desaparecida reaparecer inteira.

Foi também na infância que Elton descobriu que comer fora podia ser uma espécie de aventura. A primeira lembrança de restaurante que guarda é a de um restaurante chinês em Harrow, quando tinha aproximadamente oito ou nove anos. Naquele tempo, restaurantes chineses começavam a despertar curiosidade e ainda eram relativamente raros na região. Para ele, aquilo era uma experiência quase exótica. Vieram os brotos de feijão, sabores diferentes, uma sensação de descoberta que transformava uma simples refeição em acontecimento. É bonito imaginar a cena porque existe uma criança dentro dela que ainda não conhece o mundo.

Para nós, hoje, comida chinesa pode ser banal. Podemos pedir alguma coisa pelo telefone, pelo aplicativo, receber uma embalagem na porta e continuar olhando para uma tela enquanto comemos. Para aquele menino, porém, entrar naquele restaurante significava atravessar uma fronteira. A comida era diferente, o ambiente era diferente, a experiência era diferente.

Era o mundo chegando ao prato. E talvez isso explique uma parte do Elton adulto que ainda viria. Porque aquele menino que descobriu que uma refeição podia transportar alguém para outro lugar se tornaria um homem capaz de viajar o mundo inteiro através da comida. E foi assim que, décadas depois, a simplicidade da infância encontrou o luxo.

No Lago de Como, na Itália, durante um jantar na casa de Gianni Versace, Elton encontrou um risoto de peixe-perca que o impressionou de maneira substancial. O prato, servido no Villa d’Este, tornou-se uma de suas grandes obsessões gastronômicas. Gianni Versace também gostava dele. Madonna também. Mas Elton não se contentou em descobrir que gostava daquela comida. Quis saber por que ela era tão boa.

O risoto era preparado com arroz carnaroli, peixe-perca e uma combinação delicada de ingredientes, incluindo manteiga, vinho branco, sálvia e chalotas. O chef Luciano Parolari, conhecido pela excelência em risotos, estava por trás daquela experiência. Elton ficou tão encantado que enviou seu próprio cozinheiro para passar quinze dias aprendendo com Parolari.

E essa imagem me parece extraordinariamente eltoniana. Porque o garoto que aprendeu com a avó a descascar ervilhas cresceu e passou a enviar seu chef para aprender os segredos de um risoto italiano. No fundo, é a mesma criança. A diferença é que agora ela pode atravessar um continente para descobrir como uma coisa deliciosa foi feita.

Existe uma continuidade quase secreta entre essas duas cozinhas. A cozinha da avó e a cozinha do Villa d’Este parecem mundos impossíveis de aproximar, mas Elton os une pela mesma curiosidade. O que importa não é apenas comer. É saber como algo chega a ser tão bom.

Talvez por isso a comida tenha conseguido permanecer tão poderosa dentro dele mesmo quando o palco cresceu, a fortuna chegou e a vida adquiriu proporções que aquele menino jamais poderia imaginar.

Mas a mesma relação com a comida que podia ser ternura também carregaria uma parte muito mais escura. E é impossível contar essa história sem atravessá-la. Porque durante anos Elton não apenas amou comida. Ele sofreu com ela.

Entre os anos 1970 e 1990, enquanto sua carreira explodia e sua vida pública se tornava cada vez mais grandiosa, ele também enfrentava bulimia e um ciclo devastador envolvendo álcool, cocaína e compulsão alimentar. Em 2010, ao falar com Piers Morgan, descreveu um período em que podia passar dias acordado usando drogas e bebendo, depois chegar a uma fome extrema, comer compulsivamente — entre outras coisas, sanduíches de bacon e um pote inteiro de sorvete — e provocar o próprio vômito. Quando recordava aquilo, dizia sentir vergonha e estremecer diante do que fazia consigo mesmo.

A imagem é brutal justamente porque envolve alimentos tão associados ao conforto.

O bacon que hoje aparece como seu sanduíche favorito. O sorvete que continua sendo uma de suas maiores tentações. As mesmas coisas que podem representar prazer também foram incorporadas a um ciclo de compulsão e sofrimento. É como se a comida tivesse deixado de ser uma porta para casa e se transformado, por algum tempo, numa porta para fugir de si mesmo.

Em 1990, Elton entrou em reabilitação em Chicago para tratar álcool, drogas e compulsão alimentar. Desde então, permaneceu sóbrio.  Mas existe uma diferença terrível entre abandonar uma substância e abandonar a comida.

O álcool pode ser retirado da vida. A cocaína pode ser retirada da vida. A comida precisa permanecer. É preciso sentar novamente diante dela. É preciso comer novamente. É preciso aprender a transformar aquilo que foi fonte de compulsão em uma parte possível da vida cotidiana.

Essa é uma das razões pelas quais a história gastronômica de Elton seja tão íntima. Não estamos falando apenas de alguém que gosta de comer. Estamos falando de alguém que precisou reconstruir sua relação com o ato de comer. E então chegamos ao presente.

O homem que um dia comeu para esquecer hoje precisa escolher cuidadosamente o que coloca no prato.

Depois do diagnóstico de diabetes tipo 2, sua relação com o açúcar tornou-se ainda mais restritiva. Ele já explicou que pode comer uma maçã, um pouco de melão, desde que mantenha cuidado com o nível de açúcar no sangue, mas também confessou aquilo que continua desejando: chocolate e sorvete. Sobretudo sorvete.

É quase cruel. Porque não existe nada de sofisticado no objeto do desejo. Não é caviar. Não é uma sobremesa de um restaurante de três estrelas. É sorvete.

O homem que pode sentar à mesa nos melhores lugares do mundo sente falta de uma coisa que uma criança poderia pedir numa tarde quente.

Quando lhe perguntaram sobre uma última refeição, ele levou essa lógica até o extremo. Se pudesse escolher sem consequências, não queria uma sequência de pratos salgados. Queria aquilo que não pode mais ter: sorvete, donuts, torta de maçã, crumble de ruibarbo e outras sobremesas. Também mencionou frango frito, outra das comidas que considera irresistíveis, especialmente associada ao Sul dos Estados Unidos, onde, segundo ele, a comida é extraordinária.

É uma última refeição quase infantil. E talvez por isso seja tão bonita.

Se alguém dissesse a Elton: você pode escolher qualquer coisa, nada lhe fará mal, não haverá amanhã para se preocupar, escolha tudo aquilo que seu corpo aprendeu a recusar, ele não escolheria necessariamente o prato mais raro do planeta.

Escolheria doces. Como se a liberdade, no fim, tivesse o sabor daquilo que nos foi negado. Mas existe outra coisa que essa história revela sobre ele e que me parece ainda mais importante do que suas preferências gastronômicas: Elton presta atenção em como as pessoas são tratadas à mesa.

Ele já explicou que gosta de frequentar determinados restaurantes porque gosta da equipe que trabalha neles. E uma das coisas que mais detesta é ver pessoas de seu próprio meio tratando garçons com arrogância ou crueldade.

Isso me parece uma qualidade extraordinariamente reveladora. Porque existe uma espécie de verdade que só aparece quando alguém trata uma pessoa que não pode lhe oferecer nada em troca. O modo como alguém fala com um garçom pode dizer mais sobre seu caráter do que a maneira como conversa com uma celebridade.

Elton sabe disso. Talvez porque, em algum nível, continue sendo aquele menino que viu a mãe trabalhar duro, que viu a avó cozinhar com ingredientes simples, que aprendeu que comida não aparece magicamente sobre a mesa e que por trás de cada prato existe alguém trabalhando.

E então a comida entra também na história de amor.

Quando Elton conheceu David Furnish, o jantar se tornou parte daquela aproximação desde o começo. Depois do primeiro encontro, Elton ligou para David e o convidou para jantar em casa. A ideia era pedir comida chinesa para viagem. Só existia um pequeno problema: Elton ainda não sabia o que David gostava de comer.

Então fez o que alguém com seu temperamento poderia fazer. Pediu tudo. Quando David chegou, encontrou quatro caixas enormes de papelão sobre o balcão da cozinha. A mesa estava posta para duas pessoas. Ele olhou para aquela quantidade absurda de comida e perguntou, naturalmente, quem mais viria. Ninguém.

Elton simplesmente não sabia do que David gostava e tinha pedido o cardápio inteiro. É uma das imagens mais adoráveis que encontrei nessa história. Porque existe uma espécie de generosidade desajeitada naquele gesto. Elton não conhecia ainda o gosto daquele homem, então, em vez de escolher por ele, ofereceu tudo.

Escolha você. Experimente. Veja do que gosta. A mesa está posta.

Talvez o amor também comece assim, sem que ninguém perceba. Não com uma declaração. Não com uma promessa. Mas com uma quantidade absurda de comida chinesa esperando sobre a bancada porque alguém ainda não sabe exatamente como agradar você.

A conversa sobre comida que Elton teve com Ruth Rogers aconteceu justamente em torno de uma mesa de madeira, na casa dele e de David, em Berkshire. A entrevista deveria durar meia hora e acabou se estendendo para cerca de uma hora. A própria equipe de Elton se surpreendeu com a quantidade de lembranças que apareceu naquela conversa. Ruth observou aquilo que, de certa forma, explica tudo: a comida tem uma maneira particular de abrir a porta das memórias.  E talvez seja por isso que eu tenha gostado tanto de descobrir Elton através da comida.

Porque a comida não me apresenta o homem que o mundo conhece. Ela me apresenta o menino. O menino que tinha uma avó capaz de transformar ingredientes simples em coisas deliciosas. O menino que descascava ervilhas aos domingos. O menino que descascava batatas enquanto a casa se preparava para o almoço. O menino que via a mãe trabalhar e ainda assim voltar para casa para preparar o jantar. O menino que tomou seu primeiro copo de suco de laranja diluído sem imaginar que um dia poderia pedir qualquer coisa a qualquer hora. O menino que entrou num restaurante chinês e descobriu, maravilhado, que o mundo podia ter sabores diferentes.

E depois, muito mais tarde, o homem que descobriu o risoto de peixe-perca no Lago de Como e mandou seu chef aprender a fazê-lo. O homem que, antes do palco, come um pequeno bife com legumes para não entrar em cena sentindo que vai desmaiar, transformando a refeição numa espécie de ritual de preparação para a música. O homem que pode jantar em lugares extraordinários, mas ainda encontra conforto num sanduíche de bacon. O homem que pode comprar qualquer sobremesa do mundo e precisa se afastar justamente delas. O homem que enfrentou a comida quando ela deixou de ser prazer e se tornou sofrimento. O homem que, ainda assim, continua dizendo que ama sorvete.

Talvez essa seja uma das contradições mais bonitas de Elton John. Ele passou a vida inteira cercado de excesso, mas suas lembranças mais profundas parecem nascer do simples.

Ervilhas, batatas, pão, um pedaço de bacon, uma torta de maçã. Uma mesa. Uma avó. Uma mãe. Um homem chegando para jantar. Quatro caixas de comida chinesa. Um piano esperando no palco.

E talvez a mesa seja, afinal, uma espécie de piano doméstico: também possui ritmo, também reúne pessoas, também cria silêncio, também desperta memórias, também pode contar uma vida inteira sem precisar dizer uma palavra.

Quando Elton fala de comida, eu não escuto apenas o que ele gosta de comer. Escuto de onde ele veio. Escuto a casa simples. Escuto a Inglaterra depois da guerra. Escuto a avó mexendo nas panelas. Escuto as ervilhas caindo de uma vagem. Escuto uma mãe chegando do trabalho e preparando o jantar. Escuto uma criança descobrindo um restaurante chinês como quem descobre um continente.

E, muitos anos depois, escuto o mesmo menino escondido dentro do homem que pode mandar seu chef para a Itália aprender o segredo de um risoto, mas que, quando perguntado sobre conforto, ainda volta para o bacon.

É possível que o mundo tenha dado a Elton John quase tudo o que uma pessoa pode desejar: dinheiro, fama, palco, prêmios, palácios, restaurantes, joais, obras de arte, viagens, ... e, ainda assim, quando a memória decide falar mais alto do que o luxo, ela não o leva para nenhuma dessas coisas. Leva-o para casa. Para a cozinha. Para a avó. Para a mesa.

E talvez seja esse o lugar onde Elton John continua sendo apenas Reg Dwight: um menino diante de um prato, aprendendo sem saber que, às vezes, a coisa mais sofisticada que uma vida pode guardar é simplesmente a lembrança de ter sido alimentado por alguém que nos amava.

 Risotto con Pesce Persico — versão reconstruída

 Antes que alguém imagine que esse risoto seja apenas mais uma dessas receitas que a internet, sempre tão hábil em transformar celebridades em ingredientes, decidiu colar ao nome de Elton John, vale interromper a viagem por um instante para olhar de perto aquilo que está dentro desse prato. O Risotto con Pesce Persico (Risoto com Peixe-Perca) não nasceu de uma associação inventada depois da fama de Elton: ele pertence, de verdade, à tradição gastronômica do Lago de Como, onde a perca capturada nas águas do lago encontra o arroz numa preparação que atravessou gerações e se tornou uma das especialidades mais características daquela região italiana.

E então surge o nome que torna essa história ainda mais especial: Luciano Parolari, o homem que durante décadas comandou as cozinhas do Villa d’Este e ganhou entre os amantes do risoto um título que parece quase uma provocação, mas que sua trajetória justificava plenamente: o “King of Risotto”, o Rei do Risoto. Parolari não guardou sua experiência apenas entre as paredes da cozinha; em 2005, publicou Tales of Risotto, reunindo parte de seu conhecimento sobre um prato que se tornou sua assinatura e que, ao longo da carreira, chegou às mesas de pessoas como James Beard, Madonna e Gianni Versace.

É justamente nesse território, entre a tradição do lago, a cozinha de um dos hotéis mais célebres da Itália e as mãos de um chef que transformou risoto em uma espécie de arte pessoal, que Elton John encontrou aquele prato que o fez parar, provar novamente e querer descobrir como se chegava àquele sabor. E quando alguém como Elton John, acostumado a comer nos lugares mais extraordinários do planeta, se apaixona por uma comida a ponto de mandar seu próprio chef aprender seu preparo diretamente com o homem que a criou, já não estamos falando apenas de uma refeição. Estamos falando de uma memória que começou no paladar e se recusou a terminar ali.

Para 4 pessoas

320 g de arroz Carnaroli

450 g de filés de peixe-perca ( Perca fluviatilis)

1 litro de caldo de vegetais suave, mantido quente

2 chalotas médias, finamente picadas

100 ml de vinho branco seco

80 g de manteiga

2 colheres de sopa de farinha de trigo

8–10 folhas de sálvia

Sal

pimenta-do-reino ou branca, de preferência moída na hora

Preparo: Comece pelo peixe. Seque muito bem os filés. Tempere-os delicadamente com sal e passe-os pela farinha, retirando o excesso. Reserve.  Agora, repare a base. Em uma panela larga, derreta cerca de 30 g da manteiga em fogo baixo. Junte as chalotas e deixe que amoleçam lentamente, sem adquirir cor. O objetivo é que desapareçam no fundo aromático do risoto. Junte o arroz Carnaroli e mexa durante aproximadamente 1–2 minutos, envolvendo cada grão na manteiga. O arroz precisa aquecer e ganhar aquela pequena resistência inicial antes de receber o líquido. Acrescente o vinho branco seco e mexa até que ele seja absorvido. Não tenha pressa nessa etapa: o vinho deve deixar o arroz perfumado, não permanecer como líquido solto. Deposi, acrescente uma concha de caldo quente e mexa. Quando o arroz absorver boa parte do líquido, acrescente outra. Continue dessa maneira, sempre com o caldo quente e sem abandonar a panela. Em outra frigideira, derreta aproximadamente 25–30 g de manteiga. Coloque os filés enfarinhados e doure-os dos dois lados. A farinha deve criar uma película muito fina e dourada, não uma crosta pesada. Retire e mantenha aquecido. Termine o arroz. Depois de aproximadamente 15–18 minutos, comece a provar o arroz. O Carnaroli precisa permanecer al dente, enquanto o conjunto deve adquirir aquela textura cremosa e fluida característica de um bom risoto. Retire do fogo quando o arroz ainda tiver um pouco de movimento, porque continuará cozinhando com o próprio calor. Na frigideira da perca, ou numa pequena panela, derreta os 20–25 g de manteiga restantes. Acrescente as folhas de sálvia picadas e deixe perfumar por aproximadamente dois minutos. Fora do fogo, incorpore uma pequena quantidade de manteiga fria ao arroz e mexa vigorosamente. Ajuste sal e pimenta. Eu não acrescentaria parmesão: a receita publicada não o inclui, e isso permite que a delicadeza da perca permaneça no centro do prato. Coloque o risoto em um prato largo. Ele deve se espalhar naturalmente quando você movimentar o prato, em vez de permanecer como uma massa compacta. Disponha os filés dourados de perca por cima e regue delicadamente com a manteiga de sálvia.


domingo, 6 de setembro de 2026

ENQUANTO HOUVER ALGUÉM DO OUTRO LADO DA MESA: DEZESSEIS ANOS DA CONFRARIA GASTRONÔMICA DO BARÃO DE GOURMANDISE

 

Todo aniversário pede um bolo. Talvez porque a vida, desde muito antes de sabermos escrever sobre ela, tenha encontrado na doçura uma maneira particularmente bonita de marcar o tempo.

Hoje, porém, o bolo é quase um detalhe. O que celebro são os dezesseis anos da Confraria Gastronômica do Barão de Gourmandise. Dezesseis anos desde que aquilo que nasceu como um pequeno lugar de guarda-memória pessoal — quase um caderno de lembranças aberto apenas para mim — começou, pouco a pouco, a escapar pelas frestas da minha vida e ganhar o mundo.

Primeiro veio o blog. Depois, a página homônima no Facebook, que acelerou tudo de uma maneira que eu jamais teria imaginado. Vieram leitoras e leitores, mensagens, traduções automáticas atravessando fronteiras, pessoas de lugares que eu talvez nunca visite e que, ainda assim, passaram a sentar-se comigo à mesma mesa imaginária.

Quem gosta de números pode dizer que o blog já ultrapassou dois milhões de acessos individuais e chegou a leitores em mais de 160 países. Parece uma frase bonita de escrever. Mas números, sozinhos, não contam uma história.

Por trás de cada acesso existe alguém. Uma pessoa que chegou procurando uma informação, uma receita, uma história sobre comida, uma curiosidade, talvez apenas uma palavra. Algumas foram embora depressa. Outras ficaram. Algumas voltaram. Algumas escreveram. E algumas, de maneiras que jamais poderiam imaginar, acabaram deixando também alguma coisa de si por aqui.

Foi assim que a escrita deixou de ser apenas uma forma de guardar minhas próprias memórias e passou a carregar uma responsabilidade que eu não havia previsto.

Quanto mais gente lia, mais eu precisava cuidar do que escrevia. E quanto mais eu escrevia, mais pessoas interessadas em gastronomia, cultura, história da alimentação e tudo aquilo que existe entre um prato e a civilização começaram a aparecer.

Foi uma das maiores riquezas desses anos. Conheci pessoas extraordinárias. Também conheci algumas que, se pudesse escolher novamente, teria deixado passar pela porta sem sequer perguntar o nome. Faz parte.

A internet tem seus pequenos zoológicos humanos. Há quem chegue para conversar, aprender, acrescentar. Há quem chegue para discordar — o que considero saudável, porque nenhuma inteligência cresce cercada apenas de aplausos. E há os haters, essa curiosa espécie que parece acordar diariamente com a missão de encontrar alguma coisa que possa detestar gratuitamente.

Existe ainda um tipo particularmente interessante: aquele que não necessariamente entende mais, mas precisa estar certo. Sempre.

A certeza, para algumas pessoas, parece ser uma forma de anestesia. Aprendi a conviver com isso. Aliás, muita coisa que me incomodava profundamente no começo hoje me provoca, no máximo, um levantar de sobrancelha. Talvez esse seja um dos luxos de envelhecer. Ou de aprender.

Porque, no fim, tudo isso também me ensinou. Melhorou minha escrita. Expôs meus erros de português. Fez-me rever ideias, pesquisar mais, desconfiar das próprias certezas e compreender que conhecimento não é uma propriedade privada com escritura registrada em cartório.

Mas há uma coisa que ninguém conseguiu tirar de mim: aquilo que aprendi. Foram anos de estudo, pesquisa, leitura, observação, conversa, curiosidade e dedicação. E conhecimento adquirido dessa maneira cria raízes. Ninguém o apaga. Ninguém o copia para fora de você. Ninguém o leva embora. Embora tenham tentado.

Algumas situações, olhando hoje, chegam a ser quase cômicas. Quase.

Já aconteceu de eu pesquisar durante horas, organizar referências, estudar determinado assunto para escrever um texto e, pouco depois de publicá-lo, descobrir profissionais da gastronomia — professores inclusive — esperando o conteúdo aparecer para transformá-lo em aula.

Uma vez, deparei-me com uma apostila inteira construída a partir de meus textos. Inteira. Só faltou uma pequena coisa: meu nome.

Nem uma referência. Nem uma nota de rodapé. Nem aquele gesto mínimo de reconhecer que alguém havia passado horas, dias ou anos estudando antes de colocar aquilo no mundo.

Também já fui chamado para trabalhos sem remuneração porque, segundo as próprias pessoas que me procuravam, eu era “o melhor no assunto”. Mas, curiosamente, quando surgia dinheiro para pagar alguém, eu deixava de ser o melhor. Passava a existir alguém de fora. Eu continuava sendo lembrado apenas quando não havia orçamento.

E houve ainda quem copiasse textos meus na íntegra — inclusive os trechos em que conto episódios da minha infância — e os publicasse em seus próprios perfis como se aquelas lembranças tivessem acontecido na vida deles.

Confesso que, em certas ocasiões, a falta de vergonha alheia chega a ser uma experiência quase gastronômica: primeiro provoca espanto, depois um gosto amargo e, finalmente, a vontade de simplesmente pedir a conta.

Já me disseram para contestar. Para aplicar a lei. Para brigar. Talvez tivessem razão. Mas eu nunca fui muito afeito a guerras. Durante algum tempo, essas coisas me tiravam o sono. Hoje, prefiro minha paz. Ligo o foda-se com uma tranquilidade que, confesso, tem me feito muito mais feliz. E sigo.

E, aos haters, eu observo vocês. Às vezes, confesso, até me divirto com alguns comentários grosseiros e com o esforço quase comovente de certas pessoas para parecer mais inteligentes do que aquilo que acabaram de escrever permite. Mas a minha história não é sobre vocês.

Sei que alguns certamente chegaram até aqui com aquela expectativa quase religiosa de encontrar alguma coisa para criticar e, talvez, com a esperança de finalmente descobrir uma razão para confirmar aquilo que já decidiram pensar antes mesmo de começar a ler. Pois bem. Para não frustrar completamente essa expectativa, deixo apenas dois pequenos avisos.

O primeiro: sim, meus textos continuarão sendo grandes. Não é um acidente de percurso, uma falha de edição ou alguma dificuldade minha em encontrar o botão de “resumir”. Sou um ser prolixo. Penso muito, lembro de muita coisa, sinto ainda mais e, sinceramente, não sei descrever tudo aquilo que uma história, uma comida ou uma memória desperta em mim em menos de 130 caracteres.

Para quem precisa de textos que possam ser lidos entre uma piscada e outra, a internet está cheia de excelentes criadores oferecendo conteúdos curtos, rápidos e perfeitamente adaptados a essa necessidade. Fiquem à vontade. Não faltará onde encontrar. Eu, por aqui, continuarei escrevendo do tamanho que algumas histórias exigem. Afinal, há coisas que simplesmente não cabem em uma legenda curta — e algumas que eu nem gostaria que coubessem.

O segundo aviso é para aqueles que, depois de esculhambar um texto, gostam de concluir, com a segurança característica de quem já encontrou todas as respostas, que aquilo só poderia ter sido escrito por inteligência artificial.

Pois bem. Confesso que, depois de ouvir isso algumas vezes, peguei ar. E resolvi transformar a provocação em alguma coisa útil: vou, sim, passar a usar inteligência artificial por uma certa pirraça.

Não para escrever por mim, muito menos para substituir aquilo que é essencial neste trabalho, mas para fazer o que me parece realmente útil: sistematizar pesquisas, organizar informações, cruzar materiais e ajudar a administrar o volume quase indecente de referências que uma pessoa curiosa consegue acumular depois de tantos anos. Se já vão atribuir à máquina aquilo que escrevo, ao menos agora ela terá alguma participação de verdade — nos bastidores.

E, já que estamos falando de inteligência artificial, talvez seja importante esclarecer que não vejo qualquer problema em utilizá-la quando ela consegue melhorar o trabalho que pretendo entregar. Se uma ferramenta pode me ajudar a encontrar uma referência, organizar uma quantidade absurda de informações, perceber uma repetição, testar uma estrutura ou simplesmente enxergar aquilo que meus olhos cansados já não enxergam, não vejo por que deveria recusá-la em nome de alguma pureza artesanal da escrita.

Uso aquilo que considero útil, assim como uso livros, bancos de dados, dicionários, mecanismos de busca e todas as outras ferramentas que foram inventadas justamente para ampliar aquilo que uma pessoa consegue fazer sozinha.

Aliás, pensando bem, talvez alguns comentaristas pudessem experimentar a mesma tecnologia antes de publicar certas coisas. Não para que a inteligência artificial escrevesse por eles, naturalmente, mas apenas para oferecer uma pequena assistência à inteligência — que, em alguns casos, parece estar precisando de uma revisão bastante cuidadosa.

Dito isso, há uma coisa que a inteligência artificial não poderá fazer por mim.

Ela não terá a minha infância. Não terá as pessoas que conheci. Não terá as comidas que provei. Não terá as lembranças que me visitam sem serem convidadas, nem as perguntas que me perseguem durante dias. Não terá minhas dúvidas, meus afetos, minhas contradições, minhas pequenas obsessões ou essa insistente incapacidade de olhar para uma história, uma comida ou uma lembrança sem querer descobrir o que existe por trás delas.

A máquina poderá me ajudar a organizar o que sei e a encontrar caminhos dentro daquilo que ainda não sei. Mas aquilo que me faz escrever continuará sendo meu. E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores mudanças destes dezesseis anos.

Quando comecei, eu queria guardar coisas. Guardar receitas, histórias, descobertas, lembranças. Talvez nem soubesse exatamente por quê. Era uma maneira de impedir que determinadas coisas desaparecessem dentro de mim.

Hoje, percebo que não escrevo apenas para guardar. Escrevo também para conversar. Dezesseis anos mudam uma pessoa. Mudaram a maneira como penso, como pesquiso, como escrevo e até a maneira como lido com aquilo que antes me tirava o sono. Aprendi a desconfiar mais das minhas próprias certezas, a ouvir melhor, a aceitar que algumas perguntas são mais interessantes do que certas respostas e, principalmente, a compreender que conhecimento não perde valor quando é compartilhado.

Talvez eu tenha começado este blog tentando preservar memórias e tenha terminado descobrindo que algumas memórias só permanecem vivas quando encontram outra pessoa. É por isso que continuo compartilhando.

Já ouvi pessoas dizerem que eu deveria publicar menos. Ensinar menos. Guardar mais. Compartilhar menos conteúdo, menos ideias, menos descobertas.

Como se conhecimento fosse uma espécie de cofre. Como se prosperar dependesse de esconder a chave. Nunca consegui pensar assim. Talvez porque eu não acredite que o mundo tenha escassez de conhecimento. Pelo contrário.

O mundo é vasto demais para isso. Enquanto alguém acredita ter descoberto a última palavra sobre alguma coisa, outra pessoa, em algum lugar, está fazendo uma pergunta que ainda não nos ocorreu.

Todo dia. Toda hora.

Surge alguma coisa nova que me provoca aquela velha inquietação deliciosa: e se eu descobrir o que existe por trás disso?

E não estou falando apenas de gastronomia. A gastronomia é uma parte do meu mundo, não o mundo inteiro. Comida toca história, religião, política, economia, território, memória, afeto, poder, fome, celebração, identidade.

Um prato raramente é apenas um prato. É justamente por isso que gosto de compartilhar. Quando descubro algo interessante e coloco isso no mundo, talvez alguém aprenda. Talvez outra pessoa melhore aquilo. Talvez alguém encontre uma referência que não conhecia. Talvez um professor use a informação em uma aula. Talvez um estudante descubra uma pergunta nova. Talvez alguém, em algum lugar, faça melhor do que eu.

E isso não diminui o que fiz. Ao contrário. Isso faz a coisa crescer. Conhecimento, para mim, não é uma fatia de bolo que desaparece quando outra pessoa come. É fermento. Quanto mais se espalha, mais coisas pode fazer crescer.

Talvez eu pudesse ter sido mais empreendedor. Talvez devesse ter transformado tudo isso em um negócio há muito tempo. Talvez pudesse ter cobrado por aquilo que entreguei gratuitamente durante tantos anos. Talvez.

Mas a vida também é feita dos caminhos que escolhemos sem saber exatamente para onde levam. Até aqui, fui feliz fazendo isso. E existe uma satisfação difícil de explicar quando aquilo que começou sozinho passa a fazer parte de uma rede maior de pessoas, ideias, descobertas e possibilidades.

Quando seu conteúdo começa a gerar valor para outras pessoas, você deixa de produzir apenas aquilo que seria capaz de produzir sozinho. A rede passa a pensar junto. E isso, para mim, é uma das formas mais bonitas de prosperidade. Não necessariamente a financeira. A humana.

Nesse percurso, muitos leitores já me pediram para escrever livros. Livros sobre tudo isso. É um sonho que continua guardado em algum lugar muito especial dentro de mim. E vai acontecer. Um dia.

Para isso, preciso de dinheiro, tempo, dedicação e uma dose considerável de organização — qualidades que nem sempre caminham juntas quando se vive entre pesquisa, escrita e as urgências da vida.

Por isso, quando me perguntam: “Quando vai transformar o conteúdo em livros?”, eu respondo simplesmente: uma hora esse sonho se torna real.

Enquanto isso, continuo escrevendo. E talvez seja essa uma das coisas que mais definem a maneira como enxergo o conhecimento: ele só se torna verdadeiramente meu quando também consegue encontrar algum caminho para chegar a outra pessoa.

Por isso, neste aniversário, minha primeira vontade é agradecer. A cada leitora. A cada leitor. A cada pessoa que chegou, leu, voltou, compartilhou, discordou com respeito, corrigiu alguma coisa, ensinou outra, mandou uma mensagem. E, principalmente, a quem escreveu apenas para dizer que gostou.

Vocês talvez não saibam o que uma mensagem dessas pode significar para quem está do outro lado da tela. Às vezes, uma frase pequena chega justamente no dia em que era necessária.

Existe algo profundamente humano em descobrir que uma pessoa, em algum lugar, interrompeu por alguns minutos aquilo que estava fazendo para ler aquilo que você escreveu e, depois, sentiu vontade de responder. É uma espécie de conversa à distância. Uma forma estranha e bonita de companhia.

Eu escrevo sozinho diante de uma tela, mas nunca estou completamente sozinho quando sei que, em algum momento, alguém estará do outro lado para ler. E talvez essa seja a verdadeira confraria.

Não apenas pessoas reunidas ao redor da comida, mas pessoas reunidas por tudo aquilo que a comida consegue despertar. Porque percebo, ao longo desses anos, que existe algo nos mantendo ligados. Não sou eu. Não é apenas o blog. Não são as receitas.

É a comida. Ou melhor: aquilo que a comida faz conosco. A maneira como nos atravessa. Como guarda pessoas dentro de sabores. Como devolve uma infância inteira através do cheiro de alguma coisa cozinhando. Como uma mesa pode conter uma família. Uma ausência. Uma viagem. Uma saudade. Um país. Uma história.

Quando falamos de comida, quase nunca estamos falando somente de comida. Estamos falando de pessoas. É por isso que, ao longo desses anos, esta confraria deixou de ser apenas um lugar onde publico aquilo que descubro e se transformou, aos poucos, em um espaço de encontro.

É dessa companhia que quero lembrar hoje. Dos dezesseis anos em que nossas histórias, ainda que brevemente, se tocaram através das palavras. Daquilo que vocês me ensinaram sem necessariamente saber que estavam ensinando. Das perguntas que abriram novas pesquisas, das mensagens que chegaram em dias inesperados, das pessoas que permaneceram e também daquelas que passaram rapidamente, deixando alguma coisa pelo caminho.

Afinal, uma vida inteira é feita disso: gente que chega, gente que parte, gente que fica, histórias que terminam e outras que começam quando menos esperamos.

Ultimamente, tenho recebido algumas mensagens dizendo que os textos mudaram, que estão mais poéticos, mais subjetivos, talvez até mais próximos de alguma coisa que eu havia deixado adormecida durante os anos de pesquisa. E acho que essas pessoas têm razão.

Depois de terminar o doutorado, percebi que havia passado tempo demais organizando o mundo em categorias, referências, conceitos, argumentos e conclusões, como se toda experiência precisasse caber em alguma estrutura antes de merecer ser compreendida.

Talvez por isso, terminado esse longo período de disciplina intelectual, eu tenha sentido necessidade de voltar a um lugar mais meu, menos sistematizado, mais intuitivo, onde uma lembrança possa atravessar um parágrafo sem precisar apresentar credenciais acadêmicas e onde uma sensação possa simplesmente existir sem que eu tenha de explicá-la até a exaustão.

Por isso, se vocês têm percebido que estou escrevendo de outra maneira, não é impressão: estou mesmo. Depois de tantos anos tentando compreender o mundo pela razão, talvez eu tenha finalmente me permitido voltar a senti-lo também. E talvez seja isso que eu desejo que aconteça com quem lê.

Não espero que cada texto produza uma revelação extraordinária, nem que todas as pessoas concordem comigo — seria, aliás, uma experiência bastante suspeita.

Basta que, em algum momento, alguma coisa tenha acontecido dentro de você enquanto lia.

Talvez uma lembrança tenha voltado sem ser convidada; talvez uma curiosidade tenha nascido; talvez tenha surgido vontade de cozinhar, de pesquisar, de perguntar, de discordar ou simplesmente de olhar para alguma coisa que parecia conhecida por um ângulo diferente.

Se alguma palavra minha já provocou esse pequeno deslocamento, por menor que tenha sido, então ela encontrou seu destino.

E, para aquilo que ainda não aconteceu, não tenho pressa. O futuro continua oferecendo páginas, histórias, mesas, sabores e encontros que nenhum de nós conhece ainda.

Hoje, como manda a tradição, deveria haver uma receita de aniversário. E haverá, porque certas tradições merecem ser respeitadas, sobretudo quando envolvem comida. Mas esta postagem não nasceu para contar a história de uma receita.

Hoje quero falar de outra coisa, talvez mais difícil de explicar e muito mais importante para mim: quero falar da companhia. Da companhia de vocês, que durante dezesseis anos atravessaram estas páginas e, de maneiras que muitas vezes nem imaginam, transformaram um espaço que nasceu como um simples arquivo de memórias pessoais em uma espécie de mesa à qual pessoas de lugares, histórias e vidas completamente diferentes passaram a se sentar.

Foram dezesseis anos de palavras atravessando telas e chegando a lugares que eu jamais imaginei alcançar; de pesquisas, comida, memória, descobertas, irritações, aprendizados, algumas decepções, muitas surpresas e uma quantidade provavelmente irresponsável de curiosidade.

Quando olho para trás, não consigo enxergar apenas aquilo que escrevi. Enxergo também tudo aquilo que aconteceu enquanto eu escrevia, todas as pessoas que apareceram pelo caminho, todas as conversas que nasceram de um texto, todas as perguntas que me obrigaram a pesquisar novamente, todas as descobertas que vieram justamente porque alguém, do outro lado da tela, resolveu perguntar alguma coisa.

E isso, para mim, é muito maior do que qualquer número de acessos poderia contar. Então, antes do bolo, antes da receita e antes de qualquer outra celebração, fica o meu agradecimento.

Obrigado por esses dezesseis anos de leitura, conversa, curiosidade e companhia. Obrigado por cada mensagem carinhosa, por cada pergunta, por cada correção feita com generosidade e por cada descoberta que alguém decidiu dividir comigo. Obrigado, sobretudo, por terem transformado palavras que nasceram dentro de mim em alguma coisa que passou a existir também dentro de outras pessoas.

Enquanto eu ainda encontrar alguma história escondida em uma receita, alguma memória adormecida dentro de um sabor, alguma pergunta que mereça ser investigada ou alguma palavra que me pareça digna de ser colocada no mundo, continuarei escrevendo.

Não sei exatamente por quanto tempo, porque aprendi que algumas das melhores coisas da vida não precisam de prazo para continuar fazendo sentido. Sei apenas que, enquanto eu me sentir confortável nesta mesa, continuarei aqui, com a mesma curiosidade que me trouxe até ela há dezesseis anos.

E talvez seja esse o melhor modo de celebrar um aniversário: perceber que o tempo passou, que muita coisa mudou, que nós também mudamos, mas que a mesa continua posta.

E que, do outro lado dela, ainda existe alguém.

A conversa, felizmente, ainda está longe de terminar.

 

PALAČINKOVA TORTA

TORTA DE PALAČINKE

 Há alguma coisa particularmente bonita nas sobremesas feitas de camadas. Talvez porque elas nos lembrem, ainda que inconscientemente, que algumas coisas boas raramente acontecem de uma vez. É preciso colocar uma coisa sobre a outra, esperar, construir, repetir e, no fim, descobrir que aquilo que parecia apenas uma coleção de partes se transformou em alguma coisa inteira.

Foi essa ideia que me fez escolher esta torta para celebrar os dezesseis anos da Confraria. A palačinka torta pertence àquela grande família de sobremesas encontradas em diferentes países da Europa Central e dos Bálcãs, construídas a partir das finíssimas palačinke, semelhantes aos nossos crepes. Há inúmeras versões, com frutas, geleias, cremes, nozes e chocolate, porque, como acontece com quase tudo que atravessa fronteiras, cada lugar acaba colocando um pouco de si dentro da receita.

Mas há uma particularidade nesta torta que talvez não seja percebida imediatamente quando se olha para ela. Embora o resultado final tenha a aparência de um bolo ou torta de camadas, suas camadas não são exatamente aquelas que imaginamos quando pensamos em uma sobremesa desse tipo. As palačinke não são simplesmente empilhadas umas sobre as outras, alternando recheios. Elas são recheadas, enroladas e depois acomodadas juntas dentro da forma, onde passam a formar a estrutura da torta. É quase como construir uma pequena arquitetura com crepes, creme e frutas: primeiro se fazem as partes, depois elas são reunidas e, somente no final, aquilo que era um conjunto de rolinhos passa a parecer uma única torta.

A versão que escolhi é búlgara e reúne palačinke de chocolate, cerejas ácidas, um creme delicado de mascarpone e creme de leite e uma cobertura de chocolate. A acidez das cerejas é importante aqui: ela interrompe a doçura do chocolate e do creme e impede que a sobremesa se torne simplesmente doce. Há uma espécie de equilíbrio nessa combinação que me agrada particularmente.

E talvez haja uma razão ainda mais pessoal para ela estar aqui hoje. Esta não é uma torta construída de uma única vez. Ela é feita aos poucos, parte por parte, até que todas aquelas coisas aparentemente independentes passem a formar uma coisa só.

Dezesseis anos de blog também foram assim. Uma pesquisa levou a outra. Uma receita trouxe uma história. Uma história trouxe uma pergunta. Uma pergunta trouxe outra pesquisa. Pessoas chegaram, algumas ficaram, outras partiram, algumas deixaram lembranças pelo caminho. E, depois de tantos anos, quando olho para tudo isso, percebo que talvez uma história seja exatamente isso: aquilo que conseguimos construir com as pequenas coisas que decidimos não deixar desaparecer.

Por isso, para os dezesseis anos da Confraria, o bolo poderia até ser um bolo. Mas achei mais apropriado que tivesse camadas. Mesmo que, neste caso, elas precisassem primeiro ser enroladas para finalmente se encontrarem. 

Ingredientes

Palačinke de chocolate

2 ovos

100 g de açúcar

1 colehr de chá de extrato de baunilha

2 colheres (sopa) de óleo

2 colheres (sopa) de cacau em pó sem açúcar

160 g de farinha de trigo

400 ml de leite

200 ml de água

Recheio de cerejas

400 g de cerejas ácidas (višnje), sem caroços (ou use cerejas fresca que tiver)

200 g de açúcar

2 colheres (sopa) de amido de milho

Creme

300 g de mascarpone

200 ml de creme de leite fresco, com 30–36% de gordura

100 g de açúcar de confeiteiro

1 colher (chá) de pasta ou extrato de baunilha

Ganache de chocolate

200 g de chocolate amargo

250 ml de creme de leite fresco

Preparo: para preparar as palačinke (panquecas finas), bata os ovos com o açúcar e o açúcar de baunilha até obter uma mistura homogênea. Acrescente o óleo, o cacau em pó e a farinha de trigo e misture. Adicione o leite e a água aos poucos, mexendo até obter uma massa lisa, sem grumos e relativamente líquida. Aqueça uma frigideira antiaderente e, se necessário, unte-a levemente com óleo. Prepare palačinke finas, colocando uma pequena quantidade de massa na frigideira e girando-a para espalhar por toda a superfície. Doure dos dois lados e reserve. Para o recheio de cerejas, coloque as cerejas sem caroço em uma panela com o açúcar e leve ao fogo. Cozinhe até que as frutas liberem seu suco e a mistura comece a ferver. Dissolva o amido de milho em um pouco de água fria e acrescente às cerejas, mexendo continuamente até obter um recheio espesso. Retire do fogo e deixe esfriar completamente. Para preparar o creme, bata o mascarpone com o creme de leite fresco, o açúcar de confeiteiro e a baunilha até obter um creme firme, liso e aerado. Para a montagem, forre uma forma retangular de aproximadamente 20 × 10 × 7 cm com filme plástico, deixando sobras nas laterais para facilitar a retirada da torta. Separe algumas palačinke para forrar a forma e cubra o fundo e as laterais, deixando parte das bordas para fora. Espalhe uma camada fina de creme sobre uma palačinka e coloque uma porção do recheio de cerejas. Enrole-a cuidadosamente e acomode o rolinho na forma. Repita o procedimento com outras palačinke, formando rolinhos recheados, e disponha-os lado a lado dentro da forma. Complete os espaços e cubra a superfície com o restante do creme. Feche a torta com as palačinke que ficaram nas laterais, pressionando delicadamente para compactar as camadas. Cubra com o filme plástico e leve à geladeira por pelo menos 8 horas, de preferência durante a noite. Para preparar a ganache, aqueça o creme de leite fresco até começar a formar pequenas bolhas nas bordas, sem deixar ferver. Despeje-o sobre o chocolate amargo picado e deixe descansar por alguns minutos. Misture delicadamente até obter uma ganache lisa e brilhante. Retire a torta da geladeira, desenforme cuidadosamente sobre uma travessa e cubra com a ganache. Leve novamente à geladeira por alguns minutos, apenas até a cobertura firmar. Decore como desejar. Sirva gelada ou ligeiramente refrigerada.