segunda-feira, 30 de março de 2026

BREVE HISTÓRIA DA "CUDDURA DI PASQUA CU L’OVA”

 

Sempre que a Páscoa se aproxima, algo em mim desperta com a delicadeza de uma memória antiga, quase esquecida, como se o tempo sussurrasse receitas guardadas nas dobras do mundo. Procuro, então, aquilo que não se entrega facilmente, sabores que não se tornaram comuns, preparações que ainda carregam o mistério de sua origem.

Ao longo dos anos, encontrei muitas dessas criações gastronômicas servidas na Páscoa que, curiosamente, trazem em sua forma a presença silenciosa de ovos cozidos, repousando sobre a massa como pequenos astros domésticos, símbolos de algo maior que a própria receita.

Esses ovos, elementos quase humildes à distração dos olhos, ainda assim, respiram uma memória antiga, como se dentro de suas cascas frágeis pulsasse o eco de eras esquecidas. Não são apenas alimento, nem ornamento: são relicários silenciosos de um tempo em que o mundo ainda sussurrava seus mistérios diretamente à pele dos homens.

Eles nos conduzem por um fio invisível, delicado e inevitável, até um tempo que antecede qualquer narrativa, um tempo em que o mundo ainda não havia sido coberto pelas certezas que hoje tentam contê-lo. Nesse território de penumbra e origem, onde as antigas crenças germânicas respiram sob camadas de esquecimento, os símbolos não eram ideias, mas presenças vivas, pulsantes, enraizadas no próprio curso da existência.

Ali, onde o frio começa a ceder em um suspiro quase imperceptível e uma doçura morna insiste em nascer, das antigas crenças germânicas elevava-se a deusa Eostre, Ostara, não como figura distante, mas como a própria respiração do mundo em seu instante de retorno. Ela não governava de longe nem exigia devoção nomeada. Era o impulso suave que desperta a terra adormecida, a seiva que volta a percorrer o que parecia imóvel, a memória profunda da vida que jamais se perde, apenas recolhe-se à espera do momento de florescer outra vez.

Seu nome carregava a aurora em si, a primeira claridade que rompe a longa permanência da sombra, o equilíbrio delicado entre o que se despede e o que começa a surgir. Não era apenas lembrada, era vivida em cada broto que ousava romper a superfície, em cada sopro morno que dissolvia a rigidez do inverno, em cada pulsação silenciosa que devolvia à matéria o desejo de existir.

Sua presença não se impunha, insinuava-se. Era sentida como se sente a luz quando, pela primeira vez, ousa tocar o que ainda guarda a memória do frio, e, nesse toque quase invisível, reacende tudo o que parecia esquecido dentro da própria terra.

Seu nome não atravessava apenas os lábios. Ele vibrava. Espalhava-se como claridade tênue no instante em que a vida, ainda hesitante, escolhe regressar. Um chamado silencioso, porém irresistível, que despertava tudo o que permanecia à espera.

Ao redor dela, como se emergissem de um sonho antigo e úmido, lebres e coelhos deslizavam em quietude, guardiões de um segredo que não se traduz em palavras. Em seus corpos habitava o impulso irreprimível da continuidade, a insistência da carne, a memória profunda da terra que, mesmo após o longo adormecer do frio, reencontra o caminho do florescimento.

Nesse movimento, havia uma sacralidade íntima, quase indizível. Algo que não pede compreensão, apenas reconhecimento. Como quando, na escuridão, se percebe um reflexo e, sem saber como, se sabe que ele também nos pertence.

Muito antes de qualquer doutrina ousar dar nome ao que pulsa, já se pressentia, não pela razão, mas por um saber antigo que repousa no fundo da alma, que a primavera não se limita ao giro das estações visíveis. Ela se insinua como um renascer silencioso, uma respiração funda do mundo, quase imperceptível, e ainda assim inevitável.

Algo desperta.

Uma luz macia se infiltra onde antes só havia palidez, e o que estava recolhido começa, aos poucos, a se abrir como quem recorda um gesto esquecido. O calor retorna sem pressa, como mãos que aquecem aquilo que julgava não mais sentir. E dentro desse movimento, quase secreto, o desejo reaprende seu próprio nome, como se nunca tivesse partido, apenas adormecido sob camadas de tempo.

Tudo então se torna promessa. Um estremecer delicado percorre a matéria das coisas, e até o silêncio parece conter um sopro de vida prestes a florescer.

Já me debrucei sobre Eostre, sobre as origens da “Páscoa”, dos coelhos e dos ovos como símbolo dessa estação, em outro momento (veja AQUI), como quem avança no escuro com as mãos estendidas, tentando tocar aquilo que se esquiva, buscando oferecer contorno ao que não se deixa prender. Naquela tentativa, movia-me o desejo de recordar que o que hoje se nomeia como Páscoa repousa, em sua essência mais profunda, sobre camadas sobrepostas de narrativas, um tecido paciente elaborado ao longo do tempo, sob o qual permanecem, em silêncio, gestos muito mais antigos, absorvidos, transformados, lentamente ressignificados pela Igreja, até que novas histórias se erguessem sobre essas fundações discretas, quase apagadas, mas nunca ausentes.

Ainda assim, a celebração da primavera, sobretudo nas terras do Norte global, jamais se deixou conter por completo. Persistiu. Indomável em sua delicadeza. Reconhecível sob diferentes línguas, múltiplas formas, variados modos de reverência a um mesmo e eterno assombro: o retorno da vida, que sempre encontra caminho de volta, mesmo após os períodos mais longos de silêncio.

Convém lembrar, com a delicadeza de quem afasta um véu antigo sem rasgá-lo, que aquilo que hoje se reconhece como Páscoa, ligada à morte e à ressurreição de Cristo, surgiu muito depois dessas primeiras reverências ao despertar da terra.

Nos primórdios do cristianismo, ainda no século I, os seguidores de Jesus Cristo passaram a recordar sua ressurreição no mesmo período da Pessach, a antiga celebração judaica da passagem e da libertação. Com o passar do tempo, essa memória foi ganhando forma, até encontrar definição mais clara no século IV, durante o Concílio de Niceia, no ano de 325, quando se estabeleceu o tempo comum da celebração.

                 Pessach

             Afresco do século XVI representando o Primeiro Concílio de Niceia.

Ainda assim, sob essa construção posterior, permanecem camadas mais antigas, como raízes silenciosas sob a superfície, lembrando que diferentes formas de nomear o renascimento sempre coexistiram, tocando, cada uma à sua maneira, o mesmo mistério essencial do retorno da vida.

E é por isso que, quando a Páscoa se aproxima, sinto um chamado quase íntimo de resgatar essas histórias, não como quem ensina, mas como quem reacende uma chama. Para compreender, mais profundamente, essa estação que não se contenta em apenas existir, mas exige ser sentida. Para decifrar, ainda que em fragmentos, a presença desses símbolos (primavera, ovos, coelhos) que nos observam através do tempo, carregando significados que ultrapassam aquilo que vemos.

E enquanto caminho por entre essas eras antigas, trazendo à superfície suas memórias adormecidas, continuo a buscar, com paciência quase devocional, novas formas de honrar essa herança. Na cozinha, nos gestos, nos rituais reinventados. Preparações que não são apenas receitas, mas pequenos atos de reverência.

Como se, a cada criação, fosse possível, ainda que por um instante, tocar o passado. E sentir, outra vez, o mundo despertar.

Foi nesta semana, ao me lançar, mais uma vez, nesse delicado ofício de procurar vestígios do que o tempo quase dissolveu, que senti regressar aquela sensação antiga, quase ritualística: a descoberta que não surpreende, mas reconhece. Como se algo, do outro lado do tempo, também me buscasse.

Entre caminhos possíveis e fragmentos dispersos de memória, uma criação italiana revelou-se diante de mim. Não de forma abrupta, mas com a paciência das coisas que sabem esperar; como se tivesse permanecido ali, intacta em sua essência, aguardando precisamente este momento do ano para ser novamente tocada, lembrada, vivida.

E, como tantas vezes acontece quando a Itália se insinua, não era apenas uma receita que se apresentava, mas uma narrativa inteira, moldada não só em farinha, mas em gestos repetidos ao longo de gerações, em silêncios compartilhados, em mãos que aprenderam, sem palavras, a perpetuar o sagrado no cotidiano.

Desta vez, o convite não é apenas culinário. É contemplativo.

A Cuddura di Pasqua cu l’ova surge não como um simples preparo, mas como um objeto de devoção sensível, uma espécie de relicário comestível, onde o passado repousa suavemente sobre o presente. Seus contornos carregam mais do que forma: guardam intenção, simbolismo, permanência.

Há algo de profundamente comovente em sua existência. Como se, ao ser moldada, cada detalhe sussurrasse histórias antigas, de primaveras que já floresceram, de mesas reunidas, de ciclos que se encerram apenas para recomeçar.

E diante dela, não se trata apenas de provar.

Mas de observar. De sentir. De reconhecer, em sua simplicidade ornamentada, o delicado entrelaçar do tempo e da memória.

Entre as delicadezas que florescem na Páscoa como ecos de um tempo que se recusa a se dissolver, uma se eleva em silêncio, envolta em uma dignidade quase sagrada. A cuddura de Páscoa com ovos surge não apenas como alimento, mas como uma presença, um círculo de massa entrelaçada que parece respirar sob o toque de quem a contempla. No centro, os ovos repousam com uma quietude solene, como se velassem segredos antigos, guardiões de uma herança que pulsa sob a superfície do mundo visível.

Nada em sua forma se entrega ao acaso. Cada curva, cada torção da massa carrega a cadência de gestos ancestrais, repetidos com devoção ao longo das eras, como se o tempo se deixasse dobrar junto à farinha e às mãos que a moldam. Ao tocá-la, quase se pode sentir a memória viva que percorre sua estrutura, um sussurro antigo que atravessa gerações e ainda encontra abrigo no presente.

Há, nela, uma beleza que não se impõe, mas envolve. Uma delicadeza que não se explica, apenas se sente, como a lembrança de algo profundamente íntimo que nunca chegou a partir por completo.

Diz-se que seu nome nasce de um eco antigo, um som que atravessa séculos como um sopro persistente. Kolloura, termo que murmura a origem grega, palavra que desenha, já em sua sonoridade, a ideia de um círculo que se fecha e recomeça, de algo contínuo, indivisível. Assim eram chamadas as coroas de pão oferecidas aos deuses, entregues com devoção e expectativa, como se cada gesto buscasse alcançar aquilo que não se vê, mas se pressente.

Com o passar do tempo, não apenas os costumes se transformaram, mas também a própria língua, moldada pela voz dos que a pronunciavam. A rigidez do “k”, som seco e incisivo, foi se suavizando ao encontrar o fluxo da fala siciliana, tornando-se um “c” mais leve, mais arredondado ao ouvido. A palavra, antes marcada por contornos firmes, ganhou uma musicalidade mais branda, quase íntima. Ainda assim, o “a” final permaneceu intacto, como uma raiz que se recusa a desaparecer, sustentando a continuidade entre o que foi e o que ainda é. Dessa lenta transfiguração nasceu cuddura, não como ruptura, mas como desdobramento natural, onde cada alteração sonora carrega a marca do tempo sem apagar a origem.



E, enquanto a palavra se transformava, seu significado também se ampliava com delicadeza. A forma circular persistiu, guardando em si a memória mais antiga, mas passou a acolher novos símbolos, como o ovo, que repousa sobre a massa como promessa silenciosa de renascimento.

Assim, a cuddura se apresenta como herdeira de uma tradição viva, onde língua e cultura se entrelaçam com a mesma suavidade de sua massa. Em cada curva, em cada som que a nomeia, permanece uma lembrança que não se dissolve, convidando as mãos e os sentidos a participarem desse contínuo gesto de criação e renovação.

 Aquilo que hoje repousa sobre mesas festivas já foi, em outro tempo, um elo entre o humano e o sagrado, um objeto carregado de intenção, moldado não apenas com farinha, mas com desejo e esperança.

Na Sicília, essa presença se espalha como um fio invisível que une cidades, vilarejos, memórias. Em lugares como Messina, sua permanência é mais intensa, quase palpável, como se o passado ainda respirasse pelas janelas das casas e pelas vitrines das confeitarias. E, no entanto, ela não pertence apenas a esse território.

Outras regiões do sul da Itália guardam versões que, embora diferentes na forma ou no nome, compartilham a mesma essência. Na Calábria, surge como cuzzupa. Na Puglia, transforma-se em scarcella. Todas elas parecem dialogar entre si, como variações de uma mesma história, sugerindo que esse doce não é um ponto isolado, mas parte de um tecido cultural mais vasto, profundamente enraizado no imaginário mediterrâneo.

Ao recuar ainda mais no tempo, a origem dessa preparação se revela em contornos mais antigos, quase míticos. A palavra cuddura encontra sua raiz em kollura, designando pães em forma de anel ou coroa. Esses pães não eram criados para o simples deleite. Eram oferendas, gestos ritualísticos, entregues em cerimônias que buscavam tocar aquilo que não se vê. Estavam ligados a pedidos de proteção, à fertilidade da terra, ao ciclo da vida que insiste em recomeçar.

Nesse sentido, a cuddura, em sua essência primeira, não era um doce. Era um símbolo, um objeto carregado de intenção espiritual, pertencente a uma tradição que muitos, por desconhecimento, rotularam de forma simplista, sem perceber sua profundidade.

Sua chegada à Sicília se inscreve em um período de intensas trocas culturais. Entre os séculos oitavo e quinto antes da era comum, os gregos estabeleceram suas raízes na ilha, levando consigo não apenas sua arquitetura e filosofia, mas também seus hábitos alimentares e suas práticas sagradas.

O pão circular, no formato de anel ou coroa, já investido de significado, encontrou ali um novo solo para se perpetuar. Séculos depois, sob a influência bizantina, essa tradição não se dissipou. Ao contrário, foi reinterpretada, absorvida por novas crenças, moldada por novas narrativas. É talvez por isso que a cuddura atravessou milênios sem desaparecer. Ela mudou de sentido, vestiu outras leituras, mas nunca deixou de existir.

Com a cristianização da Sicília, ocorre uma transformação delicada, quase imperceptível à primeira vista, mas profundamente significativa. O que antes era um objeto ritual de uma antiga espiritualidade passa a ser incorporado a uma nova visão de mundo. O anel de pão passa a evocar a coroa de espinhos de Cristo, carregando consigo a dor e o sacrifício. O ovo, já carregado de simbolismo muito antes disso, é integrado à forma, agora associado à ideia de ressurreição, de vida que retorna após o silêncio. É nesse encontro que surge a forma primordial da cuddura pascal.

Pão e ovo se unem, criando um símbolo que atravessa camadas de significado, unindo passado e presente em um único gesto.

O ovo, por sua vez, traz consigo uma história ainda mais antiga. Em diversas culturas do Mediterrâneo, ele sempre representou fertilidade, renovação, o mistério da vida contido em sua forma perfeita. Quando o cristianismo se expandiu, não destruiu esse símbolo. Preferiu transformá-lo, reinterpretá-lo à luz de sua própria narrativa. Esse processo, conhecido como sincretismo religioso, revela não uma ruptura, mas uma continuidade disfarçada, onde antigos significados permanecem vivos sob novas leituras.

Nos primeiros séculos de sua presença na Sicília, a cuddura era simples, quase austera. Feita com massa de pão, sem excessos, preparada em ambientes domésticos onde o tempo parecia correr de forma diferente. Era uma comida ligada à terra, ao ritmo das estações, ao calendário agrícola que determinava a vida dos camponeses. Sua presença estava profundamente conectada à primavera, ao despertar dos campos, à promessa de colheitas futuras.

E, como tantas heranças que atravessam o tempo sem jamais se fixarem em uma única forma, a própria Cuddura desdobra-se em variações que guardam o mesmo sopro simbólico. Na Sicília, seus registros mais reconhecíveis começam a ganhar contorno entre os séculos XVII e XVIII, quando a versão mais próxima do pão, macio e levemente perfumado, se afirmava como presença nas mesas pascais, moldado à mão e ornado com ovos inteiros. Com o passar do tempo, sobretudo entre os séculos XVIII e XIX, surgem também preparações mais firmes, de textura densa, aproximando-se do biscoito, talvez como adaptação às diferentes casas, aos fornos, às permanências mais longas. Ainda assim, independentemente da forma que assume, algo permanece intacto, como uma memória que se recusa a desaparecer: o gesto de envolver o ovo, de guardar no alimento a promessa silenciosa da vida que insiste em retornar.

E, nesse cenário, são as mãos femininas que sustentam essa tradição. Donas de casa, mães, avós. Mulheres que moldavam a massa com gestos aprendidos não por livros, mas pela repetição, pela observação, pela memória transmitida de geração em geração. Cada forma criada carregava um pouco dessas histórias silenciosas. Assim, a cuddura se tornou mais que um alimento. Tornou-se um patrimônio íntimo, doméstico, feminino, guardado dentro das casas como um segredo compartilhado.

Ao longo dos séculos, a tradição não se perdeu. Em algumas cidades sicilianas, ainda persiste o costume das noivas levarem suas cudduras à igreja durante a celebração pascal, buscando bênção antes de oferecê-las àquele com quem desejam construir um futuro. O gesto, simples à primeira vista, carrega uma densidade simbólica que atravessa o tempo. É um presente, mas também uma promessa.

Com o passar dos anos, as formas da cuddura se multiplicaram, como se cada uma delas quisesse narrar uma pequena história. Em Messina, especialmente, surgem em formatos que evocam imagens e significados diversos. Sinos que anunciam a Páscoa com sua presença silenciosa. Cestos que sugerem abundância. Pombas e galos que carregam a ideia de vida e proteção. Bonecas oferecidas às meninas, como pequenos tesouros comestíveis. Corações moldados com intenção, entregues como expressão de afeto e compromisso. Antigamente, uma jovem podia oferecer uma cuddura em forma de coração àquele que desejava, transformando o doce em linguagem, em gesto, em declaração.

Compartilhar essa sobremesa também carrega um significado próprio. Comer juntos não é apenas um ato de partilha, mas um ritual carregado de desejo por boa fortuna, por continuidade, por vida renovada. O ovo, mais uma vez, permanece no centro dessa simbologia, lembrando que tudo pode recomeçar.

Tradicionalmente, a cuddura nasce no espaço doméstico, feita com ingredientes simples, ainda que seu preparo exija atenção, cuidado, quase uma devoção silenciosa. Os ovos que a adornam costumavam ser dispostos em número ímpar, uma escolha que carregava seu próprio simbolismo, ainda que, com o tempo, esse detalhe tenha se tornado menos rígido.

Ela ocupa seu lugar à mesa no Domingo de Páscoa e segue para os piqueniques da segunda-feira, acompanhada por outras preparações que também guardam suas histórias. Pãezinhos, cordeiro de marzipã, cassata assada. Cada um deles como capítulos distintos de uma mesma narrativa doce que percorre a Sicília e suas memórias.

Com o passar do tempo, a própria receita se transformou. Aquilo que antes era um pão simples tornou-se mais delicado, mais rico. A massa, agora próxima de um biscoito amanteigado, incorpora manteiga, açúcar, leite. Recebe cores, confeitos, detalhes que a tornam mais festiva, mais exuberante. Ainda assim, mantém os ovos inteiros, com casca, como se fossem o elo que impede o rompimento com o passado.

Essa evolução revela mais do que uma mudança de ingredientes. Ela reflete a passagem de uma comida de subsistência, nascida da necessidade e da terra, para um doce simbólico, carregado de celebração, memória e beleza. Uma transformação que, longe de apagar sua origem, apenas a envolve em novas camadas, como o tempo faz com todas as coisas que escolhe preservar.

Ao final, se percebe que a cuddura di Pasqua cu l’ova não é apenas um doce, mas uma narrativa viva, moldada pelo tempo, pelo calor de mãos que se repetem através das gerações, pelo sussurro das estações que sempre retornam. Cada ovo colocado sobre a massa é mais que decoração: é promessa de vida, gesto de fé, recordação de ritmos ancestrais que ainda habitam o coração da Sicília. Cada trançado, cada detalhe, carrega em si o perfume de histórias, de mulheres que ensinaram à filha, à neta, à vizinha, que a cozinha é também santuário, memória e ritual.

Deixem que a cuddura toque suas mãos e seus sentidos, que envolva suas casas com seu aroma, que desperte em vocês o mesmo encanto que atravessou séculos. Sintam-na com o respeito que merece, com o prazer silencioso que desperta a alma. E, quando decidirem recriar essa magia, saibam que as receitas completas estarão à espera, prontas para transformar farinha, ovos e açúcar em ponte viva entre passado e presente, em celebração da vida que sempre renasce.

CUDDURA DE PÁSCOA

Massa:

500 g de farinha de trigo

10–15 g de fermento biológico (se usar o fermento fresco, use 30g)

70–150 g de açúcar (dependendo da doçura desejada. Você também pode usar mel)

120 g de gordura de banha (se preferir, use manteiga; mas a banha traz outros sabores)

250–300 ml de água morna

Uma pitada de sal

Ovos cozidos com casca (para incorporar na massa)

Preparo: Dissolva-o o fermento na água morna e reserve. Em uma tigela, coloque a farinha, o açúcar (ou o mel) e o sal. Junte a banha e misture com as mãos até incorporar.  Acrescente a água com fermento e sove até obter uma massa lisa e elástica. Cubra e deixe crescer até dobrar de volume. Depois de fermentada a massa, divida-a em porções, forme cordões ou laços, modele em formas circulares ou simbólicas. encaixe os ovos com casca no interior da massa, prendendo-os com tiras de massa.  Se se desejar, pincele com ovo batido e salpique açúcar colorido. Assar: forno pré-aquecido a 180–200 °C até dourar.

CUDDURA (TIPO BISCOITO)

500 g de farinha de trigo

150 g de açúcar

150 g de manteiga ou banha

2 ovos

1 colher de fermento químico ou use a mesma medida de amoníaco para doce (eu prefiro esse último)

2–4 colheres de leite

raspas de limão ou laranja

1 pitada de sal

Decoração:

ovos cozidos inteiros

confeitos coloridos

1 ovo para pincelar

Preparo: fazer a massa misturando a farinha, açúcar, manteiga ou a banha. Incorporar ovos, Acrescentar leite e aromatizantes. Trabalhar até virar massa homogênea. Deixar repousar (20–30 min, opcional). Depois é hora de modelar, escolha o formato que preferir. Inserir os ovos cozidos e prende-los com tiras de massa.  Pincelar a massa com ovo e adicionar confeitos coloridos. Asse em Forno a 180°C, por 20–30 minutos ou até dourar.

 

 

 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

MOMO, HERDEIRO DO ESCÁRNIO E DA FESTA: ORIGENS MÍTICAS DE UM REI POPULAR

 

Passei um tempo em silêncio, desses silêncios que não se anunciam. Quem acompanha de perto percebe quando a ausência não nasce do abandono, mas da necessidade. Foi um período de leitura voraz, de escrita obsessiva, de entrega quase solitária, como quem se recolhe para afiar o pensamento e limpar o olhar. Enquanto isso, a cidade seguia seu próprio compasso.

Por aqui, o pré-carnaval já se espalhava pelas ruas de Fortaleza-CE. Todo fim de semana traz uma promessa de barulho, suor, música alta, corpos em trânsito e alegria exibida sem pudor. A festa se ensaiava antes dos grandes dias de carnaval, como se precisasse provar a si mesma sua própria urgência.

Em uma dessas tardes ruidosas, ouvi alguém zombar das vestimentas dos brincantes. Riso fácil, comentário raso, seguido da lembrança da ausência de Momo, o rei carnavalesco, como se sua falta fosse uma falha grave naquele cenário ainda inacabado. Intervim. Expliquei com calma que o reinado de Momo começa no carnaval, não antes. Que o chamado pré-carnaval sequer era conhecido em outros tempos. Acrescentei algo mais incômodo. Se aquela pessoa soubesse quem foi Momo de verdade, não pediria sua presença com tamanha leviandade. Talvez nem o evocasse.

Disse ainda que, se a semelhança bastasse, o julgamento apressado que acabara de fazer carregava muito mais do espírito do Momo original do que qualquer coroa simbólica ou fantasia inflada. O deus da zombaria reconheceria ali um espelho.



Representação de Momo (Momus), como o "Tolo" numa carta de Tarot do século  XVIII.

Como costuma ocorrer quando se atravessa o caminho de alguém pouco interessado em cultura ou escuta, nada foi compreendido. Fui chamado de louco. Ele saiu saltando atrás do bloco que passava, dissolvido na multidão, entregue ao ritmo, sem carregar consigo nenhuma pergunta.

Fiquei. Ri. Ri daquela palhaçada inteira, da cena, do equívoco, do contraste entre o barulho e a ignorância satisfeita.

Agora, porém, chegou a hora de explicar isso a vocês. De contar com vagar quem foi Momo, de onde veio essa figura inquieta e o que ela carrega muito além da caricatura carnavalesca. E quem sabe, se o sujeito tropeçar neste texto, consiga entender um pouco melhor aquilo que já deveria saber, sobretudo se insiste em se dizer tão devoto do carnaval.

MOMO ANTES DA COROA: ENTRE A MASCARA E O RISO INCOMODO ESCÁRNIO

Antes da coroa de papel dourado, antes do trono improvisado sobre carros alegóricos, antes do riso largo que hoje se vende como símbolo de alegria popular, Momo já caminhava entre os deuses. Não como soberano, não como herói, mas como presença incômoda. Antes de ser rei, foi ruído. Antes de ser festa, foi incisão.

Momo nasceu no Olimpo grego, mas nunca pertenceu verdadeiramente a ele. Seu nome carrega o peso da burla, da crítica afiada, da zombaria que não poupa nem o sagrado. Em grego, Mômos ou Momus é essa força que ri enquanto fere, que aponta enquanto desmonta, que observa com um olhar incapaz de se satisfazer. Em latim, Momus preserva o mesmo veneno elegante. Não se trata de riso leve, mas de ironia como exercício constante, quase um vício do espírito.

Filha de Nyx, a Noite, gerado sem pai, Momo surge de um território onde as certezas se dissolvem. Essa origem não é detalhe menor. A noite, na mitologia, não apenas cobre o mundo, ela revela o que o dia prefere esconder. É desse escuro primordial que Momo emerge, trazendo consigo a habilidade de enxergar falhas onde todos celebram perfeição. Por isso nunca foi uma divindade de templos ou devoções. Sua morada sempre foi a palavra, o comentário, o canto torto no meio do coro.

Diferente do imaginário moderno, Momo não escondia o rosto por vergonha. Era representado com uma máscara que se erguia, não que se fixava. A máscara subia para mostrar o rosto verdadeiro, como se dissesse que toda aparência precisa ser questionada. Na outra mão, um boneco, símbolo da loucura. Não da loucura criativa apenas, mas daquela que nasce quando o pensamento não encontra repouso. Esse detalhe iconográfico diz muito. Momo não brinca com a loucura alheia, ela a carrega como extensão de si.

Frequentava o cortejo de Dionísio (Baco, o deus do vinho), caminhava ao lado de Comos, deus das farras, dos excessos e das celebrações noturnas. Ali, entre vinho, música e corpos em desordem, Momo observava, comentava, corroía. Enquanto uns se perdiam no êxtase, ela afiava o olhar. Enquanto outros se entregavam ao abandono, ela permanecia lúcida demais. Talvez por isso nunca tenha sido bem-vinda por completo.

Momo, no séquito de Dionísio, aparece na forma rechonchuda para representar abundância.

Eu, na minha representação de Momo.

Nas narrativas antigas, Momo passa a ocupar o lugar de julgador. Não por virtude reconhecida, nem por sabedoria celebrada, mas pela fama que o precede. Entre os deuses, corria o comentário de que ninguém enxergava tão bem as falhas quanto ele. E foi por isso que Zeus, Prometeu e Atena, inflados pelo orgulho de suas obras, decidiram submetê-las ao seu olhar.

Zeus apresentou primeiro sua criação. Um touro imenso, musculoso, dotado de força bruta e ímpeto indomável. Um animal feito para avançar, para rasgar o espaço com os chifres, para impor respeito pelo peso do corpo e pelo fogo do ataque. Momo observou em silêncio, contornou a figura com os olhos, e então sorriu. Apontou o defeito com delicadeza cruel. Os olhos, disse ele, estavam mal colocados. Não se alinhavam aos chifres. Como poderia uma criatura tão vocacionada para o embate não enxergar com precisão aquilo que pretendia ferir?

Prometeu, em seguida, trouxe sua obra. O homem. Um corpo erguido, moldado com intenção, dotado de mãos capazes de criar, de destruir, de acariciar. Um ser atravessado por desejo, pensamento e contradição. Momo aproximou-se com curiosidade renovada. Tocou o peito da criatura e lamentou a ausência de má abertura. Uma janela, sugeriu, algo que permitisse ver o que se passa por dentro. Pensamentos, intenções, segredos. Para ele, um ser que oculta o próprio interior já nasce defeituoso.

Por fim, Atena apresentou a casa. Um abrigo concebido com lógica, proporção e inteligência. Um espaço pensado para proteger, acolher, organizar a vida. Momo caminhou ao redor da construção, analisou suas paredes, sua base firme, e então encontrou mais uma falha. A casa não possuía rodas. Não podia ser movida. Ficava condenada ao entorno, aos vizinhos, às circunstâncias do lugar. Para Momo, uma morada que não pode escapar é, desde o início, uma prisão elegante.

               Pintura de 1561, de Maarten van Heemskerck rep do juslgamento de Momus

Nenhuma dessas críticas buscava aprimorar o mundo. Nenhuma carregava a intenção de cuidar da criação. Todas serviam a um único propósito: provar que nada, nem mesmo aquilo que nasce das mãos divinas, é suficiente. O olhar de Momo não constrói. Ele desvela até que reste apenas a fratura.

Essa cena guarda uma violência que não se anuncia. Não é a violência do erro explícito, nem do fracasso evidente, mas a da exigência infinita, aquela que corrói em silêncio. Momo não aceita o limite como condição natural da criação. Seu olhar não repousa. Não concede trégua. Tudo o que toca precisa ser atravessado pelo juízo, mesmo quando o juízo já não serve a nenhum propósito além de si mesmo.

É por isso que o Olimpo o rejeita. Não por blasfêmia, não por afronta direta, não por traição aos deuses, mas por excesso de lucidez. A lucidez que não se curva, que não admite pausa, torna-se insuportável até entre imortais. A criação, divina ou humana, não resiste em um território onde a crítica se recusa a cessar. Em algum ponto, até os deuses precisam aceitar a imperfeição como parte do mundo, como condição inevitável de tudo o que nasce.

A expulsão de Momo não carrega fúria teatral. É um gesto quase administrativo, um afastamento necessário para que o próprio cosmos continue respirando. A presença constante de Momo ameaça o ato criador, pois transforma todo nascimento em objeto imediato de corrosão. O Olimpo, para existir, precisa de um intervalo entre o gesto de criar e o gesto de julgar.

Em uma versão posterior do mito, registrada na tradição das fábulas atribuídas a Esopo e retomada por comentadores antigos, a história se amplia e inclui Afrodite, a deusa do amor. Diante dela, Momo se vê, pela primeira vez, em dificuldade. Observa o corpo, a forma, a harmonia, a beleza que parece escapar a qualquer reparo. Não encontra falha nos contornos, nem na presença, nem no encanto que se impõe sem esforço.

Ainda assim, não se cala.

Quando a perfeição se apresenta de maneira irrecusável, Momo recua para o detalhe mínimo. Escuta o som das sandálias de Afrodite ao tocar o chão. Um ruído quase imperceptível, banal, irrelevante para qualquer outro olhar. É ali que finca sua zombaria. Não por necessidade de correção, mas por incapacidade de aceitar o silêncio diante do que não pode ser diminuído.

          Momus, deus da sátira e do escárnio - Pintura de Hippolyte Berteaux, teto do Théâtre Graslin - Nantes

Esse gesto revela sua essência com clareza desconfortável. Quando não há defeito, Momo inventa. Quando a beleza se impõe, ele escava o insignificante. Sua crítica não nasce da justiça, nem do desejo de aperfeiçoar, mas de uma compulsão interna, uma urgência que não admite repouso. O riso de Momo não celebra. Ele precisa ferir para continuar existindo.

Sempre achei essa história profundamente humana. Conheci gente assim. Talvez todos conheçamos. Pessoas incapazes de celebrar sem desmontar, de admirar sem reduzir, de permanecer em silêncio diante do que não podem dominar. Em uma ocasião específica, alguém me disse, com um sorriso de desprezo, que toda festa precisa de rei, que toda alegria exige um rosto oficial. Sorri de volta. Pensei em Momo. Pensei em como ele jamais reinou. Foi expulso do Olimpo. Condenado a vagar como alegoria, como conceito, como espelho desconfortável.

Momo não foi criado para liderar multidões. Foi feito para incomodar consciências. Não nasceu para ser coroado, mas para apontar fissuras. Seu lugar sempre foi o da margem, da palavra atravessada, do riso que não consola. Quando hoje pedem sua presença antes da hora, quando exigem sua aparição como se fosse garantia de autenticidade, repetem o gesto que levou à sua queda. Transformam crítica em fantasia, ironia em decoração, pensamento em adereço.

Talvez seja essa a maior anedota de todas. Momo, o deus incapaz de pertencer, convertido em símbolo oficial da festa. A figura que jamais se acomodou, agora acomodada em carros, discursos e slogans. E ainda assim, se olharmos com atenção, ele continua ali. Não na coroa, mas no comentário atravessado. Não no trono, mas no julgamento apressado. Não no centro do bloco, mas naquele riso que desmonta tudo e segue adiante, satisfeito com o próprio eco.

MOMO: DA QUEDA DO OLIMPO AO TRONO DA FARSA CARNAVALESCA

Komos (ou Comos), divindade menor e talvez menos conhecida fora dos círculos eruditos da Grécia e Roma antigas, era o deus das festas noturnas, dos excessos e da embriaguez jovial. Seu nome já evocava a dança, a música e a alegria desenfreada, e suas celebrações eram marcadas por orgias, cantos e marchas improvisadas que transformavam a cidade em um palco vibrante de risos e rituais invertidos. Diferente de Momo, que personificava a crítica e a ironia, Komos era a encarnação do prazer e da liberação das convenções, o espírito que empurrava os mortais para o abandono do autocontrole e para o êxtase do instante. Nas ruas, em salões e jardins, sua presença era invisível, mas sentida na música dos tambores, nos passos desordenados e no tilintar de taças e pratos.

Vasos áticos de figuras negras e vermelhas (sécs. VI–V a.C.) - Komos aparece como jovem bêbado, muitas vezes: nu ou semi-nu, com coroa de hera ou videira, segurando taça (kylix) ou ânfora de vinho, em procissão festiva (kômos) com músicos e dançarinos. Às vezes ele se confunde visualmente com sátiros, mas sem características animalescas.

Foi na confluência desses dois mundos, o da sátira de Momo e o da folia de Komos, que a tradição romana encontrou o modelo do que viria a ser o Rei do Carnaval. A fusão das duas figuras — Momo, com seu sarcasmo afiado e olhar crítico, e Komos, com sua energia libertária e festiva — criou uma divindade híbrida, masculina, capaz de governar o tempo da festa sem que ninguém ousasse questionar sua autoridade temporária. Durante três dias, ao ritmo das celebrações em honra a Saturno, as saturnálias, o escolhido para representar Momo encarnava essa síntese: seria ao mesmo tempo crítico e indulgente, mordaz e generoso, mestre das regras e autor do caos. Era o único capaz de equilibrar a ironia da crítica com a energia da festa, transformando o espaço urbano em um teatro de exageros e paradoxo.

O rito de coroação desse Rei Momo, embora efêmero, refletia a profundidade dessa herança mitológica. O mais belo soldado da cidade, ou posteriormente o homem mais obeso — símbolo da fartura e do excesso — recebia a coroa, tornando-se a autoridade suprema do instante, o anfitrião das transgressões, o juiz e o executor do humor e da crítica. Mas, ao término da celebração, a morte simbólica do rei lembrava a fragilidade do poder e a necessidade da passagem: toda autoridade, por maior que pareça, é apenas um gesto temporário diante da marcha inexorável do tempo.

A fusão de Komos e Momo não se limitou à festa. Ela simbolizava a união de opostos: a indulgência e a censura, o prazer e a lucidez, a excitação e o juízo. Essa combinação permitiu que o carnaval emergisse como espaço onde a ironia e a alegria coexistem, onde o exagero físico e a crítica social se encontram, e onde o riso é tanto celebração quanto advertência. Não é por acaso que, séculos depois, a imagem do Rei Momo atravessaria continentes, aparecendo nas ruas de Sevilha, de Barranquilla e do Rio de Janeiro, sempre portando a mesma função essencial: coroar a festa e, ao mesmo tempo, recordar que toda alegria consciente precisa de sombra para existir.

Assim, Momo e Comos deixaram de ser figuras isoladas para se fundirem em uma divindade masculina, transformando-se no símbolo supremo das festas, da desordem e do prazer sem limites. Era a imagem que seduzia os artistas, que povoava pinturas, relevos e máscaras, e que transformava cada celebração em uma coreografia ritual de exagero e sátira. Durante os três dias em que o povo se entregava às festividades dedicadas a Saturno — os ancestrais do que hoje chamamos carnaval — o mais belo dos soldados era escolhido para representar Momo. Coroado como rei, tornava-se a autoridade máxima, anfitrião de toda a orgia, senhor da transgressão, e guardião do caos cuidadosamente permitido. Ao final, entretanto, a efemeridade de seu poder era lembrada pela morte simbólica do rei, uma oferenda de passagem que unia a celebração à consciência da finitude humana.

Com o tempo, os critérios mudaram. O escolhido passou a ser o homem mais obeso, símbolo da fartura, do excesso, da extravagância que transbordava o ordinário.

Na Espanha de 1553, quando a fé ainda ardia em ritos severos e a noite sabia o gosto do sacrifício, o Rei Momo surgiu sob a forma de um boneco entregue às chamas. Não era apenas fogo: era um gesto de misericórdia simbólica, uma tentativa de suavizar antigos costumes de brutalidade explícita. Ao queimar Momo, queimava-se também a dor crua, substituindo-a por metáfora — a morte de Cristo encenada não como sangue, mas como cinza, promessa silenciosa de ressurreição.No ventre febril do carnaval, Momo tornava-se espelho dos excessos humanos. Sua queima não era punição, mas catarse: o fogo lavava os pecados da carne, dissolvia risos em fumaça e devolvia a cidade ao compasso austero da Quaresma. O que ardia ali não era apenas o boneco, mas a embriaguez coletiva, os desejos que precisavam morrer para que a ordem pudesse renascer.

Em Cádiz, antiga sentinela do Atlântico, cidade moldada pelo sal, pelo vento e pelo escárnio, Momo ganhou voz própria. Tornou-se sátira encarnada, riso afiado, crítica travestida de festa. Sob sua máscara ardente, zombava-se dos poderosos, das autoridades, da própria condição humana — tudo com a leveza perigosa do deboche que não fere, mas expõe. Era uma irreverência quase sagrada, um pacto tácito entre o povo e o fogo.

À meia-noite da Quarta-feira de Cinzas, quando o carnaval exala seu último suspiro, Momo é entregue às chamas. O relógio marca não apenas o fim da festa, mas a passagem do excesso para o silêncio, do delírio para a contenção. As cinzas caem como neve morna sobre a cidade, e nelas repousa a promessa de retorno à normalidade — austera, penitente, necessária.

A tradição persiste, teimosa e viva. Ano após ano, novos Momo são criados, cada qual mais real, mais humano, como se a cidade desejasse reconhecer-se naquele corpo condenado ao fogo. Assim, Cádiz continua a queimar seu “Dios Momo”, não por ódio, mas por amor ao rito: porque algumas verdades só se revelam quando dançam, e algumas purificações só acontecem quando ardem. Mais tarde, em Barranquilla, na Colômbia, o Rei Burlesco reinava nos salões de baile, autorizando a desordem carnavalesca com bumbos, pratos e maracas, em paródia as cerimônias oficiais dos vice-reis, devolvendo às ruas o espírito irreverente de Momo, agora traduzido em ritmo, riso e música.



Ilustração do El Dios Momo, 1886, Biblioteca Nacional da Espanha

Em 1910, sob a lona do Circo Spinelli, uma opereta escrita e encenada por Benjamin de Oliveira marcou a primeira personificação do Rei Momo no Brasil. Benjamin de Oliveira, reconhecido como o primeiro palhaço negro do país, fez surgir em cena essa figura inaugural, ainda embrionária, como um presságio alegre. Mesmo assim, somente na década de 1930 o Rei Momo ganhou contornos próximos à imagem carnavalesca que atravessou o tempo e chegou aos nossos dias.

Benjamim de Oliveira vestido e maquiado como palhaço, o primeiro rei Momo do Brasil

Benjamim de Oliveira e sua mãe. - Benjamim de Oliveira — nome que mais tarde soaria como clarim nos picadeiros — nasceu Benjamim Chaves, em 11 de junho de 1870, numa fazenda de chão duro e céu largo, a Fazenda dos Guardas, em Pará de Minas. Ali, a terra ainda guardava marcas de correntes invisíveis, e o ar parecia pesado de destinos já escritos antes mesmo do primeiro choro.

Em 1933, um grupo de jornalistas do periódico A Noite, no Rio de Janeiro, então capital da República, concebeu um boneco de papelão para desfilar pelas ruas da cidade. Ao fim do percurso, o boneco foi colocado em um trono, conduzindo simbolicamente a folia popular. Recebeu o nome de Rei Momo I e Único, denominação que misturava ironia, invenção e desejo de eternidade. No ano seguinte, em 1934, a equipe de A Noite decidiu substituir o boneco por uma figura de carne e presença real. O escolhido foi o cronista Francisco de Moraes Cardoso, que inaugurou a tradição carioca do reinado momesco. Seu domínio sobre a festa se prolongou até 1948, ano de sua morte, encerrando um capítulo fundador.

Baile de Carnaval 28/02/1946 no Teatro João Caetano - Rio de Janeiro. Nela consta a Rainha do Baile das Atrizes (Mara Rúbia) e o Rei Momo (Francisco de Moraes Cardoso). Foto: Jean Manzon por Diários Associados, acervo Instituto Moreira Salles

Do período que se seguiu à morte de Francisco de Moraes Cardoso até o início da década de 1970, o Rei Momo passou a ser escolhido por indicação de agremiações carnavalescas e de veículos de imprensa, num acordo tácito entre a festa e quem a narrava. Em 1972, um decreto municipal alterou definitivamente esse percurso e determinou que o Rei Momo fosse definido por meio de concurso público, estabelecendo um novo modelo de escolha.

Outras cidades do Brasil também adotaram a coroação do Rei Momo. Santos foi pioneira no estado de São Paulo, em 1934. O primeiro coroado no município foi Waldemar Esteves da Cunha, conhecido como o Magnânimo, considerado o mais antigo Rei Momo do país. Seu nome atravessou décadas e permaneceu ligado à memória do carnaval até sua morte, em 2013, aos 92 anos.

No Rio de Janeiro, cidade que deu início à tradição e cultiva o orgulho do título de Rei Momo I e Único, destacou-se Reynaldo de Carvalho, conhecido como o Bola, que reinou por nove anos consecutivos, de 1987 a 1995, estabelecendo um recorde que permanece intacto. Em 2004, um decreto do então prefeito César Maia encerrou a exigência de peso mínimo como critério para inscrição no concurso de Rei Momo. O argumento apresentado foi a política de combate à obesidade, redefinindo os contornos simbólicos do corpo real da festa e abrindo novas possibilidades para o trono da alegria.

E ainda, se olharmos para as tradições mitológicas, vemos que Momo jamais se limitou à esfera humana. Sua presença acompanha até o próprio desenho do destino. Diz-se que, diante do peso que a Terra suportava devido à multiplicação rápida dos homens, Zeus, incomodado, pensou em puni-los de diversas maneiras: fulminar ou afogar a maioria. Mas Momo, com sua sagacidade infalível, sugeriu um caminho mais engenhoso: casar Tétis com um mortal, de cujo enlace nasceria Aquiles, e ao mesmo tempo permitiria que Zeus gerasse Helena, cuja presença provocaria discórdia entre a Ásia e a Europa, culminando na Guerra de Tróia. A ironia de Momo não era apenas crítica ou farsa: era uma intervenção estratégica, capaz de reorganizar o mundo por meio do caos calculado, equilibrando vida e morte, ordem e transgressão.

No vocabulário humano, o nome “momo” passou, no século XVI, a significar farsa, sátira e paródia, registrado em crônicas espanholas que descreviam “grandes e suntuosas festas de momos”. Tornar-se Rei Momo, o rei da folia carnavalesca, não exigia grande adaptação: o sarcasmo, a sátira e a burla já eram a essência dessa figura. Assim, o carnaval, com toda a pompa, a música e o exagero, não inventou Momo. Apenas vestiu de cores e plumas aquilo que ela já carregava como essência: a celebração do exagero, a crítica ao excesso e a alegria do olhar penetrante.

Poucos conhecem, porém, o outro lado dessa divindade. Momo possuía uma beleza rara, quase impossível de ignorar, mas coberta pela máscara da ironia, aquela que transformava o sorriso em julgamento, e o encanto em comentário mordaz. Filho de Nix, a deusa da noite, nasceu entre mais ou menos vinte e um irmãos e irmãs, figuras do mistério, da escuridão e da luz: Orfeu, senhor dos sonhos; Hécate, guardiã da magia obscura; outros ainda mergulhados em sombras que poucos ousariam nomear; e dois irmãos de luz, representantes do bem, da clareza e da bondade que equilibravam o destino familiar. Esse panteão particular de irmãos e irmãs revela que Momo não era apenas crítica ou riso: era herança da noite, herança da sombra, mas também portadora de um lampejo de luz, um equilíbrio tênue entre o encanto e a corrosão, entre a diversão e a consciência do limite, mesmo quando ninguém mais parecia perceber.

Na trajetória de Momo, da mitologia grega ao reinado carnavalesco, há sempre essa tensão entre presença e máscara, entre beleza e ironia, entre juízo e folia. Momo, filha da noite, senhora do sarcasmo e do excesso, atravessa séculos para ensinar que rir é também compreender; que satirizar é, muitas vezes, intervir; e que até o mais belo e perfeito dos seres precisa de uma sombra para existir.

O DOCE CHIACCHIERE: UM TRIBUTO IRRESISTÍVEL AO ESPÍRITO DE MOMO

Entre máscaras, serpentinas e o riso que percorre as ruas, surge um deleite que, sem jamais ter sido concebido para tal, parece carregar a própria essência de Momo: trata-se do Chiacchiere. Também conhecido por frappe, bugie ou cenci, ele é uma tradição do carnaval italiano, um fragmento de história transformado em prazer efêmero. Sua massa fina, delicadamente frita, estala sob os dentes, polvilhada de açúcar ou mergulhada em mel, oferecendo uma experiência que vai além do sabor: é um gesto de transgressão, um estalo de alegria que lembra o riso mordaz e ácido do deus da ironia.


A história do Chiacchiere remonta ao Renascimento italiano, especialmente nos salões de Veneza, Roma e Florença, onde o carnaval florescia com pompa e excessos. O nome, que significa literalmente “conversa fiada” ou “falatório”, sugere um vínculo simbólico irresistível com a sátira e o espírito crítico: cada mordida é um pequeno comentário, um sussurro de travessura que evoca a liberdade da língua solta, do riso irreverente e da crítica sutil. Embora o doce não tenha sido inspirado por Momo, podemos imaginar que, ao degustá-lo durante a folia, sentimos a presença da divindade: o estalo, a leveza e o prazer contêm o mesmo humor ácido que ele personificava.

O Chiacchiere é apenas um dos muitos doces que pontuam o carnaval italiano, herança viva das celebrações que acompanharam séculos de tradições politeístas. Assim como as máscaras e os desfiles evocavam antigos deuses, rituais e festivais de rua, a confeitaria carnavalesca transformava farinha, açúcar e gordura em símbolos de fartura, prazer e transgressão temporária. É nessa tradição que o Chiacchiere encontra seu charme: não como homenagem intencional a Momo, mas como um lembrete comestível de sua presença invisível, da ironia que atravessa as festas e da liberdade que o carnaval sempre celebrou.

Experimentar um Chiacchiere, então, é mais do que um gesto gastronômico: é tocar com os sentidos uma história que atravessa séculos. É provar a ironia convertida em doçura, a crítica transformada em riso, e o instante efêmero da festa transformado em memória. Nesse pequeno pedaço de massa estaladiça, a tradição carnavalesca se mantém viva, lembrando que, mesmo quando esquecemos os deuses, sua essência pode se manifestar nos lugares mais inesperados — na conversa fiada, no riso compartilhado, e no estalo de um doce entre os dentes.

CONCLUSÃO – O ECO DE MOMO NO CARNAVAL E NO TEMPO

E assim, ao fechar este percurso, compreendo que Momo nunca foi apenas um rosto mascarado ou um personagem festivo. Filho da Noite, irmã de deuses sombrios e luminosos, guardião da ironia e da crítica, ele atravessou a História como um sopro de lucidez e riso cortante, expondo falhas e imperfeições com a precisão de quem vê além do véu das aparências. Nos antigos mitos gregos, Momo julgava todos e tudo com a perspicácia de quem conhece o limite da criação. Sua expulsão do Olimpo não foi derrota, mas a afirmação de que a crítica absoluta, como o riso absoluto, precisa de liberdade para existir.

Quando a tradição romana o uniu a Comos, deus da festa, nasceu o que chamamos de Rei do Carnaval: a síntese perfeita entre desordem e lucidez, excesso e consciência, riso e julgamento. O Rei Momo, coroado e exaltado nos salões e ruas, tornou-se a personificação da celebração, ao mesmo tempo anfitrião e crítico, rei e bufão, mestre da orgia e do sarcasmo. Cada gesto da folia, cada passo de dança, cada máscara que se ergue, é herança dessa fusão: a consciência de que a alegria mais plena carrega sempre uma sombra de lucidez, e que a liberdade total pede o contraste da crítica, ainda que suave ou disfarçada.

E mesmo na gula das festas, Momo permanece. Basta olhar para o Chiacchiere, aquele estalo doce e efêmero, para perceber a presença invisível da ironia. O simples gesto de morder um pedaço de massa fina, frita, polvilhada de açúcar, é reencontrar o espírito da conversa fiada, do falatório ácido, do comentário mordaz e leve. O doce não foi feito para ele, mas carrega a analogia perfeita: a celebração da vida e do riso, com todos os excessos e sutilezas do carnaval. Cada Chiacchiere é um fragmento de História, uma lembrança de que o espírito politeísta, a música de Comos, e a crítica de Momo continuam vivos em nossas mãos, nossas bocas e nossos olhos atentos à festa.

No final, Momo não é apenas lenda, crítica ou figura carnavalesca. Ele é o fio que conecta a antiga mitologia ao presente, a ironia à alegria, a sombra à luz da festa. Ao percorrer seus passos — da crítica implacável do Olimpo, à fusão com Comos e ao reinado efêmero e magnífico do carnaval, até o riso crocante de um Chiacchiere — sentimos a força de uma ideia que atravessa milênios: que a festa, para ser verdadeira, precisa de consciência; que o riso, para ser profundo, precisa de lucidez; que a tradição, para sobreviver, precisa transformar mitos em gesto cotidiano, e ironia em prazer compartilhado.

Momo permanece, invisível e irresistível, entre máscaras, músicas e doces, lembrando que o mundo, por mais sério que pareça, sempre poderá ser visto com olhos de crítica e boca de riso. E que o verdadeiro espírito do carnaval é exatamente isso: o encontro entre a transgressão e a sabedoria, o riso e a reflexão, a máscara e o rosto que se ergue por trás dela, sorrindo, sempre. 

Chiacchiere

Ingredientes (rende cerca de 40 unidades)

500 g de farinha de trigo tipo 00 — a mais fina e ideal para a textura crocante

70 g de açúcar granulado

50 g de manteiga amolecida (temperatura ambiente)

3 ovos médios

1 gema adicional para enriquecer a massa

30 ml de grappa, vinho branco seco ou licor de sua preferência (confere leveza e aroma)

1 pitada de sal fino

Óleo neutro para fritar

Açúcar de confeiteiro para polvilhar por cima quando estiver pronto ou calda de açúcar ou mel

Modo de Preparo: Em uma tigela grande, peneire a farinha e o açúcar juntos. Adicione a pitada de sal. Faça uma cavidade no centro e coloque os ovos inteiros e a gema. Acrescente a manteiga amolecida e, se desejar, a grappa ou vinho — isso ajuda a massa a ficar mais leve e perfumada.

Misture todos os ingredientes inicialmente com um garfo e depois comece a sovar com as mãos até obter uma massa lisa e homogênea, levemente firme. Envolva a massa em pano de prato (ou filme plástico) e deixe descansar por cerca de 20 a 30 minutos à temperatura ambiente — isso facilita esticá-la depois.  Polvilhe levemente uma superfície limpa com farinha. Abra a massa com um rolo até que fique bem fina — quase translucente.  Corte tiras ou formas retangulares com uma faca ou cortador de massa. Espanhole (faça um corte, ou dois, no centro de cada retângulo) se quiser a forma tradicional. Aqueça óleo abundante em uma panela funda — a temperatura ideal é em torno de 170 °C. Frite poucas unidades por vez para que o óleo não esfrie demais.  Ao fritar, os doces vão inchar ligeiramente e dourar por igual. Vire para cada lado até ficarem crocantes e dourados.  Retire com uma escumadeira e coloque sobre papel absorvente para eliminar excesso de óleo. Polvilhe generosamente com açúcar de confeiteiro enquanto ainda estão mornos — isso cria a aparência branca de inverno e intensifica o sabor doce. 

Dicas e Variações – para Aroma extra: adicionar raspas de laranja ou limão na massa intensifica o perfume e é tradicional em muitas regiões italianas. Versão assada: se preferir mais leve, elas podem ser assadas em forno quente até dourar, mantendo parte da crocância e reduzindo a gordura.