Ninguém precisava me ensinar
café.
Eu nasci dentro dele. Muito
antes de aprender geografia, já conhecia a cor exata de um cafezal maduro.
Muito antes de compreender economia, testemunhava safras inteiras transformando
o humor de uma família. Muito antes de escutar a palavra patrimônio, caminhava
por entre os legados invisíveis deixados por gerações que acreditavam na terra,
na chuva e na paciência.
Meu avô era coronel do café
e senhor de engenho.
A expressão soa exagerada
aos ouvidos modernos. Faz lembrar romances empoeirados, fotografias amareladas
e homens de bigode que observavam horizontes com excessiva solenidade.
Mas aquele mundo existiu. E
eu cresci entre seus vestígios, na serra da Ibiapaba, as terras mais altas do
Ceará. Lá, conheci os frutos antes das xícaras sofisticadas.
As cerejas de café
cintilavam entre a folhagem como pequenas joias polidas pela luz da serra. O
vermelho intenso parecia guardar o próprio sol sob uma película delicada. Eu as
colhia diretamente dos galhos e as levava à boca sem cerimônia, com a mesma felicidade
clandestina de uma criança que rouba cajás do quintal vizinho ou jabuticabas
escondidas sob a sombra de uma árvore generosa.
Bastava romper a casca fina
entre os dentes para que surgisse uma doçura inesperada. A polpa clara envolvia
a língua com uma suavidade quase melosa, revelando um segredo que raramente
chega ao conhecimento da maioria das pessoas. Poucos têm a oportunidade de
conhecer o café nesse estágio de sua vida. Quase todos o encontram já
transformado em grãos secos, torrados ou moídos, distante da beleza luminosa
que o veste durante a juventude.
Enquanto eu saboreava
aquelas pequenas cerejas aquecidas pelo sol da Ibiapaba, desconhecia a sorte
que carregava nas mãos. O mundo costumava conhecer o café apenas depois da
secagem, quando a fruta desaparecia e restava somente a semente. Eu, ao
contrário, conheci primeiro sua doçura. Conheci o café antes que ele se
tornasse café. Conheci-o quando ainda era fruto, perfume, cor e promessa.
Também aprendi cedo que o
café possuía uma vida secreta. Para muitos, ele começava na prateleira de um
supermercado. Para mim, sua história principava muito antes, quando ainda era
apenas uma promessa escondida dentro de um grão.
Tudo nascia da terra escura
e úmida da serra. Alguns plantavam mudas já formadas. Os mais pacientes, ou
talvez os mais teimosos, confiavam o trabalho às próprias sementes. Enterravam
os grãos com a mesma fé silenciosa de quem escreve uma carta para o futuro e a
entrega aos cuidados do tempo. Depois vinha a espera pelo primeiro verde
rompendo o solo, tão delicado que um olhar distraído poderia confundi-lo com
qualquer outra planta.
A partir dali, cada etapa
parecia obedecer a um calendário conhecido apenas pela natureza. As folhas se
multiplicavam. Os galhos se fortaleciam. As floradas surgiam de repente,
cobrindo os cafezais com pequenas estrelas brancas. Durante alguns dias, a paisagem
parecia esquecer sua vocação agrícola para se transformar em jardim. Os galhos
que pouco antes sustentavam apenas folhas verdes passavam a carregar milhares
de flores delicadas, tão numerosas que, vistas de longe, davam a impressão de
uma fina camada de neve pousada sobre a serra cearense.
Quem nunca presenciou uma
florada de café costuma imaginar que o ar se enche do aroma da bebida. Nada
poderia estar mais distante da verdade.
O perfume não lembra café.
Não antecipa a torra. Não sugere a fumaça quente escapando de uma xícara.
A fragrância é doce, fresca
e luminosa. Certas notas evocam flores cítricas. Outras recordam o jasmim
recém-aberto ao entardecer. Algumas manhãs pareciam misturar flor de
laranjeira, mel e chuva recente numa combinação tão delicada quanto difícil de
descrever.
A natureza, por vezes,
demonstra um senso de humor refinado. A planta responsável por uma das bebidas
mais robustas e escuras do mundo floresce com a leveza perfumada de uma
debutante vestida de branco.
Nenhuma fotografia consegue
capturar plenamente aquele momento. Pois o verdadeiro espetáculo acontecia no
ar. O perfume avançava pelos caminhos de terra, atravessava cercas, invadia
quintais e alcançava distâncias surpreendentes. Mesmo sem enxergar um único
cafeeiro, alguém podia saber que a florada havia chegado. Bastava respirar.
O vento tornava-se
mensageiro. As correntes de ar carregavam anúncios invisíveis pelos vales e
encostas, espalhando notícias que dispensavam palavras. O café estava
florescendo.
Caminhar entre aquelas
fileiras floridas produzia uma estranha sensação de suspensão. O mundo
continuava funcionando. Os pássaros mantinham seus cantos. As nuvens
prosseguiam viagem. O sol seguia seu curso. Ainda assim, alguma coisa parecia
desacelerar.
A luz filtrava-se pelas
pétalas.
As abelhas trabalhavam com
uma concentração admirável. Elas compreendiam aquela abundância muito antes de
qualquer agricultor. Desde as primeiras horas da manhã, mergulhavam nas flores
recém-abertas com uma diligência admirável, recolhendo o néctar generoso que os
cafeeiros ofereciam por alguns breves dias do ano. Desse encontro entre insetos
e floradas nascia um dos tesouros mais discretos da paisagem cafeeira: o mel de
flores de café. Claro como âmbar jovem e fluido como luz líquida, ele carrega
notas florais delicadas, nuances cítricas e uma elegância aromática que parece
preservar a própria memória da floração. Cada colher guarda algo daquela nuvem
perfumada que pairou sobre a serra. Talvez por isso seja tão valorizado. Sua
produção depende da coincidência entre o trabalho das abelhas, o clima
favorável e a breve duração das flores. Não se trata apenas de um mel raro. É
quase uma maneira de engarrafar a primavera do cafezal antes que o vento a leve
embora.
Durante a infância, eu não
possuía vocabulário para compreender o que sentia. Apenas sabia que gostava de
permanecer ali. Hoje suspeito que aquelas flores me ensinaram uma lição
silenciosa.
A beleza mais extraordinária
raramente anuncia sua chegada com antecedência. Ela aparece. Permanece por
pouco tempo. Perfuma tudo ao redor. E parte antes que possamos acreditar
completamente em sua existência.
Talvez por isso as floradas
de café sejam tão memoráveis. Sua duração é breve. Sua lembrança, não.
Décadas depois, ainda
consigo fechar os olhos e sentir aquele perfume atravessando a serra, chegando
antes mesmo da paisagem. Como certas pessoas amadas, ele anunciava sua presença
muito antes de ser visto.
Depois chegavam os frutos.
Primeiro verdes. Mais tarde amarelados. Por fim vermelhos, brilhantes e
lustrosos como pequenas lanternas penduradas entre as folhas.
A colheita reunia mãos,
cestos, conversas e paciência. Nenhum galho oferecia seus tesouros de uma só
vez. Cada cereja precisava ser escolhida. Cada fruto carregava seu próprio
momento.
Terminada a colheita, os
terreiros assumiam o protagonismo. Sob o sol da Ibiapaba, os grãos espalhados
no chão secavam lentamente. De longe, o terreiro parecia um grande tapete vivo
mudando de cor ao longo dos dias. Alguém sempre passava para revolvê-los com um
ancinho, espalhando-os novamente para que o calor alcançasse cada canto. O
movimento possuía algo de coreografia antiga, repetida tantas vezes que já se
confundia com a própria paisagem.
A torra vinha depois.
Poucas experiências se
comparam ao instante em que o café começa a mudar de cor e libera os primeiros
perfumes. O aroma tomava conta dos ambientes, atravessava portas, escapava
pelas janelas e percorria corredores como um visitante incapaz de conter o entusiasmo
pela própria chegada. Até os mais distraídos percebiam que alguma coisa
extraordinária estava acontecendo.
Em seguida surgia o pilão. A
madeira recebia os grãos torrados com uma solenidade quase religiosa. Cada
batida produzia um som grave e ritmado que ecoava pelos cômodos. Toc. Toc. Toc.
Aquele ruído possuía a
cadência das coisas que não aceitam pressa.
Nenhuma máquina piscava
luzes. Nenhum visor digital exibia contagens regressivas. Nenhum aparelho
prometia resultados instantâneos. Somente braços, madeira, café e tempo.
Então chegava o aroma. E
depois a espera.
Sempre a espera.
A infância ensinou-me algo
que os adultos parecem esquecer com facilidade: as melhores coisas raramente
chegam depressa.
Nenhum fruto amadurecia por
impaciência.
Nenhuma flor desabrochava
porque alguém estava com pressa.
Nenhuma bebida ficava pronta
ao toque de um dedo.
Tudo obedecia ao seu próprio
compasso.
Naquele mundo, o café não
era produzido. Era acompanhado.
As pessoas cuidavam,
observavam, colhiam, secavam, torravam e moíam, mas a transformação verdadeira
acontecia em silêncio, longe do alcance das mãos humanas. O tempo realizava o
trabalho mais importante.
Talvez por isso eu tenha
crescido acreditando que a espera não era um obstáculo entre o desejo e a
recompensa. A espera fazia parte da recompensa.
O café exigia tempo. E
talvez por essa razão eu tenha passado boa parte da vida tentando escapar dele.
Mas, o destino possui um
senso de humor peculiar.
Anos mais tarde,
transformei-me justamente naquilo que meus avós jamais compreenderiam.
Tornei-me um homem que
acorda, abre um vidro de Nescafé, despeja uma colher em uma caneca, acrescenta
água quente e segue adiante como se estivesse resolvendo uma pendência
burocrática.
Não me crucifiquem.
Reconheço o crime. Conheço a acusação.
A promotoria possui provas
abundantes. O réu confessa.
Durante anos abandonei a
liturgia familiar em troca da praticidade.
Nenhuma desculpa serve.
Não foi falta de
conhecimento. Não foi ignorância. Não foi pobreza. Muito menos ausência de
tempo.
Foi escolha. A mais moderna
de todas as escolhas.
Troquei a experiência pela
velocidade. Troquei a história pela conveniência. Troquei a memória pelo
atalho.
Até que meus rins decidiram
participar da conversa. E uma doença possui maneiras curiosas de reorganizar
prioridades.
Certas pessoas recebem um
diagnóstico e passam a enxergar a fragilidade da vida.
Outras passam a enxergar
listas ( listas de restrições, de exames, de substâncias, de alimentos).
Subitamente um coco verde
deixa de ser apenas um coco verde.
Uma carambola deixa de ser
apenas uma fruta.
Um simples gole torna-se
cálculo.
Uma refeição transforma-se
em negociação.
O corpo, que durante décadas
trabalhou silenciosamente nos bastidores, sobe ao palco e exige atenção. Foi
assim que descobri algo curioso.
Talvez eu precisasse voltar
para casa. Não para a casa feita da serra.
Para a outra.
A casa para a qual eu
precisava retornar não era feita de tijolos, telhas ou portas. Sua arquitetura
obedecia a materiais mais delicados e mais resistentes. Era uma construção
erguida com hábitos, pequenos gestos e lembranças acumuladas ao longo de gerações.
Ali, a água fervia devagar.
O café atravessava o pano em silêncio. As manhãs possuíam outro ritmo. Ninguém
confundia velocidade com sabedoria. Ninguém acreditava que a pressa fosse uma
virtude.
Foi nesse ponto que meu
dilema começou a ganhar forma.
Todas as manhãs, encontro-me
diante de duas versões de mim mesmo. Uma delas segura um vidro de café solúvel.
A outra segura uma chaleira. A primeira deseja economizar alguns minutos. A
segunda deseja recuperar décadas inteiras.
Durante muito tempo imaginei
que aquele conflito pertencesse apenas a mim.
Hoje suspeito que sua origem
seja mais antiga.
Certas heranças não chegam
em escrituras, fotografias ou inventários. Instalam-se discretamente nos
gestos. Permanecem adormecidas durante anos. Depois despertam sem aviso, numa
cozinha qualquer, diante de uma simples xícara de café.
Por isso que a chaleira
continua aparecendo em meus pensamentos.
Ela não carrega apenas água.
Transporta vozes. Transporta paisagens. Transporta pessoas.
Quando observo o vapor
subindo em espirais suaves, vejo novamente os cafezais da serra. Escuto o som
dos grãos revolvidos nos terreiros. Sinto o perfume da torra escapando pelas
janelas. Percebo que aquela segunda versão de mim nunca esteve sozinha.
Ela possui raízes. Possui
sobrenome. Possui memória. E, acima de tudo, possui um rosto. O rosto de meu
pai.
Meu pai jamais compreenderá
completamente a pressa moderna. Não por incapacidade. Por escolha. Ou talvez
por sabedoria.
Enquanto o restante do mundo
se apaixona por atalhos, ele continua acreditando nos caminhos. Ainda hoje, ele
sobe a serra e retorna carregado de grãos de café, como quem traz para casa um
punhado da própria história. Depois os torra. Depois os mói. Depois prepara a
bebida com a serenidade de alguém que não está produzindo café, mas
participando de um ritual antigo.
Sempre que fala sobre o
assunto, afirma que aquele é o melhor café do mundo. Durante anos atribuí essa
convicção ao orgulho.
Agora começo a suspeitar que
ele estivesse falando de outra coisa.
Talvez estivesse falando do
tempo. Talvez estivesse falando da memória. Talvez estivesse falando do amor
silencioso que certas pessoas depositam em tarefas aparentemente simples.
Ninguém passa décadas
repetindo um ritual apenas por causa do sabor.
Certas práticas sobrevivem
porque sustentam identidades. Porque ajudam a organizar lembranças. Porque
oferecem abrigo.
Todas as manhãs acontece uma
cena que me acompanha desde que fui morar com meu pai: a primeira xícara de
café que ele prepara não lhe pertence.
Antes do primeiro gole,
antes da primeira palavra, antes mesmo de o dia assumir plenamente sua forma,
uma pequena porção do café recém-passado é colocada diante da imagem de São
Benedito.
O gesto dura apenas alguns
segundos. Talvez menos.
Ainda assim, carrega o peso
sereno das coisas repetidas durante uma vida inteira.
A cozinha costuma despertar
envolta naquela claridade indecisa das primeiras horas do dia, quando a manhã
ainda parece ponderar se deseja nascer por completo ou permanecer por alguns
instantes entre o sonho e a vigília. A luz atravessa a janela sem urgência,
espalhando-se sobre a mesa, acariciando o metal gasto dos utensílios,
iluminando a fumaça delicada que sobe em espirais lentas enquanto meu pai
coloca um pouco de café num copo americano.
Eis uma pequena ironia
nacional. O objeto atende pelo nome de americano, embora poucas coisas pareçam
tão brasileiras. Presente em padarias, balcões de botequins, cozinhas modestas,
almoços de domingo e conversas intermináveis, ele ocupa o imaginário coletivo
com a discrição de quem nunca precisou anunciar a própria importância. Meu pai
provavelmente desconhece que aquela peça de vidro, lançada em 1947 por Nadir
Dias de Figueiredo, tornou-se um ícone do design brasileiro e conquistou espaço
até mesmo no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Tampouco imagino que lhe
interesse saber que o adjetivo americano nasceu da origem das máquinas
importadas que permitiram sua fabricação em larga escala. Certas grandezas não
dependem de currículo.
Para ele, o copo serve a um
propósito muito mais elevado do que qualquer consagração estética ou
reconhecimento internacional. Entre seus dedos, deixa de ser objeto industrial
para tornar-se instrumento de devoção.
A fumaça ascende lentamente,
desenhando figuras efêmeras no ar. O aroma do café recém-passado mistura-se ao
silêncio do mundo ainda adormecido. Nenhum gesto parece improvisado. Cada
movimento possui a serenidade de algo repetido durante décadas, polido pelo
tempo até adquirir a precisão de uma oração. O líquido escuro repousa naquele
recipiente comum, transparente, sem adornos, como se a simplicidade fosse
condição indispensável para o sagrado.
Talvez resida justamente aí
a beleza do ritual.
Enquanto museus celebram
formas, linhas e proporções, meu pai transforma o mesmo objeto em ponte entre o
cotidiano e o invisível. Sem discursos grandiosos, sem qualquer preocupação com
simbolismos acadêmicos, ele deposita diante da imagem de São Benedito, no alto
de uma prateleira, a oferenda com a naturalidade de quem conversa com um velho
amigo. O café fumega. O santo permanece em silêncio. Ainda assim, algo parece
acontecer naquele encontro.
A cena carrega uma dignidade
difícil de explicar. Nenhuma solenidade excessiva. Nenhum espetáculo de fé.
Apenas um homem, um copo de café e uma tradição construída por incontáveis
manhãs. O extraordinário surge justamente da ausência de pretensão.
Talvez meu pai jamais
descubra que o copo americano se tornou referência internacional de design.
Talvez jamais se interesse por datas, fábricas ou exposições. Pouco importa. Ao
utilizá-lo naquela oferenda diária, ele lhe confere um significado que museu
algum poderia exibir em suas vitrines. Entre a fumaça que sobe e a luz que se
espalha pela cozinha, o velho copo deixa de contar a história da indústria
brasileira para participar de algo muito mais raro: a história íntima de uma
devoção.
O aroma do café
recém-preparado ainda mistura-se ao frescor do amanhecer, criando uma espécie
de fronteira invisível entre a noite que se despede e o dia que começa.
Os anos passaram. Muitas
coisas mudaram, eu mudei de cidade.
Algumas pessoas partiram. Aquele gesto, porém, permaneceu.
Hoje percebo que meu pai não
oferece apenas café. Oferece gratidão. Oferece memória. Oferece pertencimento.
Para ele, São Benedito nunca
foi somente o santo cozinheiro que protege panelas e fogões. Seu nome também
conduz a uma geografia afetiva. Conduz à cidade de São Benedito, aninhada na
Serra da Ibiapaba, onde parte da história de nossa família criou raízes.
Quando o copo americano com
café repousa diante da imagem, algo curioso acontece. Por um instante, fé, café
e memória deixam de ser coisas separadas. A cozinha torna-se maior do que suas
paredes. A serra aproxima-se. Os cafezais reaparecem. Os vivos fazem companhia
aos ausentes. E o aroma que sobe parece carregar consigo muito mais do que água
e grãos torrados. Carrega uma conversa silenciosa entre gerações.
Uma conversa que começou
muito antes do meu nascimento e que, somente agora, começo a aprender a
escutar.
Não se trata de uma
cerimônia grandiosa.
Nenhum sino toca.
Nenhuma procissão atravessa
a sala.
Apenas café. E silêncio.
Talvez seja justamente por
isso que o gesto me emocione hoje. A verdadeira devoção raramente faz
espetáculo.
São Benedito permanece ali.
Escuro como a madeira antiga. Paciente como as montanhas. Guardião de cozinhas,
panelas e memórias.
Padroeiro dos cozinheiros.
Companheiro das pessoas simples que aprenderam a transformar escassez em
alimento e alimento em afeto.
Para meu pai, porém, o santo
representa mais do que a tradição religiosa. Representa também a cidade de São
Benedito. A serra. A juventude. Os parentes. As manhãs envoltas em neblina.
Ao oferecer aquele primeiro
café, ele não conversa apenas com um santo. Conversa com um território inteiro.
Conversa com os mortos. Conversa com as próprias origens.
Algumas bebidas alimentam o
corpo. Outras alimentam pertencimentos. E poucas realizam as duas tarefas com
tanta elegância quanto o café.
Recentemente meu pai veio me
visitar.
Entre uma conversa e outra,
notei algo curioso. Ele observava vitrines. Comparava modelos. Perguntava
preços. Examinava peças metálicas com uma atenção que normalmente se reserva a
relógios antigos ou ferramentas de confiança. Demorei um pouco para entender.
Ele procurava uma cafeteira
dessas estilo iitaliana para mim.
Nada sofisticado. Nada
extravagante. Uma dessas pequenas peças octogonais que há décadas transformam
água e café em argumento contra a pressa.
Não me fez discurso. Não
apresentou estatísticas. Não iniciou uma palestra sobre saúde. Apenas olhava.
Comparava. Escolhia.
Pais de sua geração possuem
esse idioma silencioso. Demonstram afeto através de objetos. Consertam o que
está quebrado. Trazem frutas. Recomendam casacos. Compram cafeteiras.
Por trás daquele gesto
existiam duas preocupações.
A primeira pertencia aos
médicos. A segunda pertencia à memória.
Os médicos haviam explicado
que talvez fosse hora de eu abandonar certos atalhos. Meu corpo já não
negociava com a mesma generosidade de antes.
Os rins, funcionários
discretos durante décadas, resolveram exigir novas regras para continuar
trabalhando.
Meu pai escutou. Concordou.
Mas suspeito que sua preocupação fosse mais antiga. Durante anos ele repetiu
que aqueles cafés solúveis não eram café de verdade.
Eu respondia com a
arrogância típica dos apressados. Argumentava que eram práticos. Rápidos.
Convenientes.
Como acontece com
frequência, a vida ouviu a discussão em silêncio e aguardou sua oportunidade
para decidir quem estava certo.
Agora encontro-me diante de
uma ironia que faria qualquer romancista sorrir. Passei anos tentando encurtar
o caminho entre acordar e beber café.
Hoje preciso reaprender o
percurso inteiro. Preciso voltar aos grãos. À água. À espera. Preciso
reaprender movimentos que meu avô conhecia. Que meu pai ainda conhece. Que
minhas mãos esqueceram.
Durante muito tempo
enxerguei o ritual como perda de tempo. Talvez porque confundisse velocidade
com liberdade. Hoje começo a suspeitar do contrário. Talvez algumas das
melhores coisas da vida aconteçam justamente nos minutos que tentamos
economizar.
Enquanto a água aquece.
Enquanto o aroma se espalha.
Enquanto o café sobe
lentamente pela cafeteira.
Enquanto nada acontece. E
justamente por isso tudo acontece.
Talvez eu nunca tenha
abandonado apenas o café. Talvez tenha abandonado uma forma de habitar o tempo.
Agora preciso encontrá-la novamente.
Não para viver no passado.
Não para transformar a memória em museu.
Mas para descobrir se ainda
existe espaço, neste mundo de urgências, para escutar a água ferver.
Meu avô plantava café. Meu
pai torra café. TALVEZ TENHA CHEGADO MINHA VEZ DE SIMPLESMENTE ESPERAR O CAFÉ
PASSAR.
Durante muitos anos
acreditei que economizava tempo. Hoje desconfio que estava apenas trocando vida
por eficiência, uma negociação que parece razoável quando observada de longe,
mas que se revela desastrosa quando finalmente aprendemos a calcular seus custos.
O tempo pertence aos
relógios. A vida, não. Ela se acomoda em lugares mais discretos, nos aromas que
escapam da cozinha antes mesmo de o dia despertar por completo, no som da água
encontrando o pó de café, na luz que atravessa a janela e transforma uma mesa
comum em cenário de pequenas cerimônias domésticas. Nenhuma dessas coisas dura
mais do que alguns instantes. Ainda assim, são elas que permanecem.
Jamais conheci alguém que
guardasse na memória os minutos que conseguiu poupar. Recordamos, isso sim,
aqueles momentos em que estivemos inteiramente presentes, quando o mundo
desacelerou o suficiente para ser percebido. Talvez por essa razão o envelhecimento
assuste menos do que costumamos admitir. Mais inquietante do que o avanço dos
anos é descobrir quantas vezes atravessamos os próprios dias sem realmente
habitá-los, quantas manhãs se dissolveram sem que víssemos a delicadeza da
manhã, quantas refeições desapareceram na pressa, quantos cafés foram
consumidos sem que tivéssemos a gentileza de encontrá-los pelo caminho.
Com o passar do tempo,
comecei a suspeitar que ninguém prepara café sozinho, pelo menos não da maneira
antiga. Em cada xícara parece existir uma presença silenciosa que não se deixa
nomear com facilidade. Quando observo a fumaça desenhando formas passageiras no
ar, percebo que a memória talvez não funcione como um arquivo organizado,
desses que armazenam fatos em prateleiras bem etiquetadas. Ela se parece muito
mais com uma infusão lenta, capaz de atravessar aquilo que somos e deixar, sem
alarde, um sabor persistente.
Meu avô plantava café. Meu
pai torra café. Entre um gesto e outro, separados por décadas e unidos pelo
mesmo aroma, talvez tenha chegado minha vez de aprender algo mais simples e
mais difícil: esperar. Esperar a água aquecer, esperar o pó receber seu banho
escuro, esperar que a casa desperte, esperar que a manhã revele seus detalhes.
Porque certas heranças não chegam em escrituras nem aparecem em fotografias.
Elas sobrevivem em rituais aparentemente insignificantes, nesses instantes em
que o tempo deixa de ser uma medida e volta a ser uma experiência.
E talvez seja justamente aí
que a vida se esconda, não nos grandes acontecimentos que passamos anos
perseguindo, mas nessa fumaça que sobe devagar, nessa luz que atravessa a
cozinha sem pedir licença e nesse café que, antes de ser bebida, sempre foi uma
maneira de estar no mundo.
Durante muito tempo
acreditei que sabia tudo o que era necessário sobre café. Conhecia os cafezais
da serra, as cerejas maduras brilhando entre as folhas, o perfume das floradas,
o calor das torras, o som compassado do pilão e a fumaça que dançava acima das
xícaras e dos copos americanos. Mais tarde aprendi sobre filtros, cafeteiras,
moagens e infusões. O tempo, porém, mostrou que eu ainda ignorava a lição mais
importante. Nenhuma delas dizia respeito ao café propriamente dito. Dizia
respeito à espera. Dizia respeito à capacidade de permanecer presente enquanto
algo se transforma diante de nossos olhos. Dizia respeito à arte de não
apressar aquilo que possui seu próprio ritmo. Meu avô talvez soubesse disso ao
plantar. Meu pai certamente sabe quando oferece o primeiro café a São Benedito.
Eu apenas começo a compreender agora. Depois de tantos atalhos, tantas
urgências e tantas tentativas de ganhar alguns minutos, descubro que a
verdadeira herança deixada por eles não foi uma receita nem um método de preparo.
Foi um ensinamento mais raro. Foi aprender, enfim, como esperar o café passar.
Café com Cardamomo e Casca de Laranja do
barão de Gourmandise
500 ml de água filtrada
5 colheres de sopa rasas de café moído
na hora (cerca de 35 g)
3 bagas de cardamomo levemente esmagadas
1 tira de casca de laranja, retirada com
descascador ou faca, sem a parte branca (medindo entre 4 a 5 cm)
Rapadura ralada ou açúcar, apenas se
desejar
Preparo: Aqueça a água até o momento em que pequenas bolhas começam a surgir no fundo da chaleira, antes da fervura vigorosa. Misture o café moído e as sementes de cardamomo no coador. Acomode a casca de laranja sobre o leito de café. Despeje água suficiente apenas para umedecer todo o pó e aguarde cerca de 30 segundos. Continue vertendo o restante da água lentamente, em movimentos circulares, permitindo que a infusão aconteça sem pressa. Adoce se desejar e sirva imediatamente.

















