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sábado, 19 de abril de 2025

Da Fritada de Páscoa lá de casa à Torta Capixaba e sua Evolução para a Torta Capixaba de Repolho e Peixe Salgado: uma Quaresma de Legumes, Fé e Reinvenções.

 

Quando eu era criança e morava em Guaraciaba do Norte, no cimo da Serra da Ibiapaba — o ponto mais alto do Ceará — a Semana Santa chegava com o cheiro de terra molhada e promessas de mesa farta. Não era apenas um tempo sagrado pela fé católica que nos guiava, mas pela sincronia mágica entre o calendário litúrgico e a estação das chuvas. Tudo florescia. Tudo era verde. E tudo, na cozinha da minha mãe, se tornava celebração.

Apesar dos jejuns recomendados, a Sexta-feira Santa, o Sábado de Aleluia e, sobretudo, o Domingo de Páscoa eram dias em que a comida nos contava histórias: eu já percebia pelos pratos, fosse lá de casa ou das mesas das casas aonde éramos convidados, a fartura era predominante – talvez o meu lugar de privilégio me reservara isso! Em nossa mesa havia peixada cearense, feijão com abóbora macia, peixe frito, salada de maionese, malassadas simples, farofa de cenoura; muitas tapiocas com queijo, beijus, roscas de goma seca temperada com óleo de coco babaçu, grude, bolos de puba, de macaxeira, bolo mole (de leite).... Mas o prato que mais me tocava era também o mais silencioso: a fritada de legumes que minha mãe preparava com a precisão de quem cozinha não apenas com as mãos, mas com a alma.

Era sempre feita na mesma forma de alumínio com buraco no meio, a mais alta que era pra caber mais conteúdo, uma peça modesta e brilhante de tantas histórias. Os legumes — batata inglesa, cenoura, chuchu, abóbora — eram cozidos e depois refogados no perfume de tomate, cebola, coentro e pimenta-de-cheiro. Um toque de pimenta-do-reino, sal quanto baste. Enquanto isso, minha mãe batia as claras em neve até ficarem firmes, depois juntava as gemas e continuava a bater até tudo crescer em volume e leveza. Às vezes, acrescentava uma colher de farinha de trigo ou de maizena — uma escolha de ocasião, para aquele ingrediente que estivesse mais perto dela na hora do preparo. Às vezes, ela colocava farinha de mandioca peneirada bem fininha, peneirada duas ou mais vezes, e a mistura se transformava como mágica ao ponto de ninguém desconfiar que tinha farinha de mandioca. Mas, eu, esperto, já tinha sacado o truque e o aprendi também, pois essa peneirada da farinha de mandioca também era o segredo para deixar especialmente as malassadas perfeitas, fofinhas e sem grumos.

Ela despejava um terço da mistura de ovos no fundo da forma, acomodava os legumes já refogados e cobria com o restante da mistura espumosa de ovos. A fritada era cozida ali mesmo, na chama mais baixa do fogão, coberta com a tampa de uma panela. E então, esperava-se. Não havia relógio: havia o tempo da comida. O tempo do milagre.

Enquanto isso, eu saia da cozinha onde minha, com os cabelos longos presos de qualquer jeito, concentrada passava para a limpeza dos utensílios, na pia da cozinha; e, eu ia para o chão do meu quarto, ligava a televisão que trazia outro tipo de cozinha: o programa “A Cozinha Maravilhosa da Ofélia”, na Bandeirantes, com sua voz pausada e jeito de tia sábia. Ou então, mais doce ainda, quando a confeitaria delicada da argentina Marta Ballina me encantava ensinando técnicas de confeitaria para bolos, glacês, flores de açúcar e gestos milimétricos. Sem saber, eu estava sendo alimentado por três mulheres: minha mãe, Ofélia, Marta.

Com o tempo, fui tomando gosto pelo fogão. Comecei a cozinhar também, com ambições maiores, pratos mais elaborados. Mas a Semana Santa sempre me chamava de volta para aquela forma de alumínio, para aquele gesto da colher mergulhando nos legumes macios, sem quebrá-los. E, claro, como todo cozinheiro que se forma entre sabores herdados, trouxe meus desvios.

Meu toque pessoal foi acrescentar repolho — bem refogadinho, com sabor de aconchego. Às vezes também colocava uma lata de sardinha, o que era raro, pois acho que esse peixe me deixa com um retrogosto estranho na boca. E em certas ocasiões, ainda misturava os ovos batidos com os legumes, para que ficasse mais parecido com uma torta, uma fusão de memórias e vontades. Ainda assim, o gosto final permanecia o mesmo: o gosto do conforto. Do afeto. De um tempo onde a comida era mais do que alimento — era uma forma de amar.



Hoje, quando penso em Páscoa, também penso na chama baixa do fogão, na forma de alumínio cheia até a borda, na casquinha dourada quebrando sob a colher. E penso na cozinha cheia de vozes femininas — reais e televisivas — que me ensinaram que cozinhar é, no fim das contas, uma forma de contar histórias com o coração.

Com o passar dos anos, o tempo sempre ajudando na riqueza do conhecimento, me fez perceber que a fritada de legumes lá de casa poderia ter ligação com uma produção gastronômica de terras mais distantes, como aquelas onde moram os capixabas. 

Entre a Fritada da Serra e as Tortas capixabas: Ecos de Afeto 

À primeira vista, a fritada de legumes da minha mãe, nascida no coração úmido da Serra da Ibiapaba, e a torta capixaba, filha das marés e da tradição do Espírito Santo, parecem receitas distantes — separadas por geografia, ingredientes e sotaques. Mas ao olhar mais de perto, percebe-se que ambas falam a mesma língua: a da cozinha afetiva, feita com o que se tem, com o que se ama, com o que se aprendeu a passar adiante.

A fritada lá de casa usava os frutos da terra: batata, cenoura, chuchu, abóbora, às vezes repolho, e quando eu estava disposto, as sardinhas davam o ar da graça, todos sempre bem refogados e envoltos em uma camada generosa de ovos batidos em neve — leves, quase como uma nuvem assada sobre o colorido dos legumes. Era feita no fogão a gás, lentamente, numa forma com buraco, coberta com a tampa de uma panela. O fogo baixo era tão importante quanto qualquer ingrediente.

Já a torta capixaba carrega o sabor do litoral. É prato de Sexta-feira Santa também, mas com o perfume dos frutos do mar — bacalhau, siri, camarão, juntados ao palmito — refogados e depois mergulhados em ovos igualmente batidos. A cobertura dourada, o uso do repolho em muitas variações caseiras, a presença de coentro e tomate, tudo ecoa de forma surpreendente a fritada de minha mãe. E como na nossa cozinha, e apesar de ter uma panela de barro caraterística e não uma forma com buraco no meio, todas se assam com cuidado, no compasso do tempo da tradição.

O que as une, acima de tudo, é o gesto: o cuidado de quem prepara, o silêncio reverente de quem espera, o instante em que a casquinha dourada se parte sob a colher, revelando o que há por dentro — memórias, histórias, e aquele gosto de casa que nenhuma receita escrita consegue reproduzir por completo.

A história de um prato raramente se resume aos seus ingredientes. Muitas vezes, ela se mistura com o que não se escreve em livro de receitas: a escassez, a fé, o que havia na feira e o que sobrou do dia anterior. A torta capixaba é uma dessas preparações que carregam, em cada camada, não só sabores, mas também a memória do tempo e da gente que a fez perdurar.

Ela nasceu em dias de silêncio e recolhimento, quando a religião pedia jejum e o mar oferecia consolo. Era, e ainda é, prato de Sexta-feira Santa, de casas quietas e panelas cheias de peixe e lembrança. Mas, como tudo que é vivo, a torta também mudou. Assumiu novas formas, ganhou o corpo do repolho, o sal do peixe seco, e assim se moldou à vida como ela é — feita de fé, mas também de finanças apertadas e da criatividade que só a necessidade ensina.

Na sua versão mais modesta, quase uma prima distante da receita original, a torta de repolho com peixe salgado continua sendo o que sempre foi: um gesto de continuidade, de insistência em manter acesa a chama de uma tradição, mesmo quando o forno é simples e os ingredientes, poucos. É nessa adaptação que se vê o mais bonito — a força discreta de um povo que sabe transformar o possível em sagrado. 

A Torta Capixaba: Raízes e Tradição

A torta capixaba é daquelas receitas que nascem de um rito — e florescem como um símbolo. No Espírito Santo, ela ganhou forma nos dias contidos da Quaresma, quando a fé mandava afastar a carne vermelha e a natureza, generosa, oferecia o mar inteiro em troca. Camarões, mariscos, peixes frescos, palmito recém-colhido — eram esses os ingredientes permitidos, e eram também os mais nobres. A Páscoa se aproximava, e com ela, um prato que soube transformar devoção em sabor.

Nas cozinhas da Ilha de Vitória, enquanto os sinos tocavam para as liturgias, outras mãos trabalhavam em silêncio sobre bancadas de madeira: as mãos das paneleiras de Goiabeiras. Com o barro extraído da própria terra, moldavam com paciência utensílios que fariam história. As panelas que saíam de lá — robustas, negras, quase solenes — tornaram-se tão simbólicas quanto o prato que abrigavam. Em 2002, esse ofício foi reconhecido como patrimônio cultural brasileiro, mas sua importância já era conhecida muito antes de qualquer chancela oficial: bastava sentar-se à mesa.




Essas panelas tinham algo de altar. Nelas se preparava a moqueca capixaba, claro, mas também a torta. Eram versáteis: suportavam o fogo direto, iam ao forno, chegavam à mesa ainda exalando calor e memória. E mesmo quem não tinha uma peça original das Goiabeiras dava um jeito — fosse com um tabuleiro de alumínio, uma travessa de vidro ou uma panela de barro menos ilustre. O que importava era o espírito da coisa: que a mistura coubesse, que o forno suportasse, que o gosto não se perdesse.

A torta, afinal, era feita com o que havia. Restos de moqueca, sobras de peixe, pedaços de marisco, às vezes um camarão tímido que escapara do prato principal. Tudo era refogado em azeite com cebola, tomate e o tempero do dia — não o da receita, mas o do quintal ou do bolso. Por fim, era coberta com ovos batidos com vigor — espumosos, arejados, quase festivos. Sobre eles, rodelas de cebola, algumas azeitonas, talvez uma flor de palmito. E então, o forno fazia seu trabalho.

O que saía de lá não era só comida: era uma resposta à escassez, uma forma de obedecer à Igreja sem trair o paladar, uma prova de que a simplicidade não exclui a fartura — pelo contrário, a reinventa.

A torta capixaba, nesse sentido, é um hino à inteligência doméstica. Como tantos pratos tradicionais, ela nos ensina que a verdadeira sofisticação não está nos ingredientes caros, mas na capacidade de fazer do ordinário algo extraordinário. E que a fé, quando bem temperada, pode também ter gosto de festa.

Pode-se dizer que a origem dessa torta está na criatividade popular em tempos de privação. A utilização de ingredientes acessíveis e abundantes, como o peixe e o palmito, e a reutilização de sobras dos pratos principais, reflete a habilidade de adaptação da população local, especialmente em tempos de crise, como as secas prolongadas e a escassez de alimentos frescos.

 A Transformação: A Torta de Repolho com Peixe Salgado

Com o tempo — como acontece com tudo o que sobrevive — a torta capixaba se sofisticou. Ganhou novos trajes, mais finos: bacalhau dessalgado com zelo, azeites vindos de longe, azeitonas reluzentes como pequenas pedras negras. Tornou-se, para muitos, um prato de celebração solene, quase de prestígio, exigindo listas de compras mais caras do que permitia o salário da semana. Mas as mesas continuam a ser postas, com ou sem luxo — e a comida, em sua essência mais terna, não esquece suas origens.

Foi assim que, num movimento silencioso e obstinado, surgiu uma nova torta, mais modesta, mas não menos nobre: a de repolho com peixe salgado. O repolho, verdinho e farto, brotava nos quintais e nas feiras. Era barato, rendia bem, e substituía o palmito com dignidade. No lugar dos mariscos frescos, vieram os peixes salgados — o tipo de ingrediente que atravessa as distâncias sem precisar de refrigeração, que se compra por gramas e se guarda enrolado em papel pardo. E quando nem isso havia, a sardinha de lata dava seu jeito: com seu óleo espesso e gosto forte, entrava na receita com a coragem dos alimentos que sustentam famílias inteiras.

Essa versão da torta — mais singela, mais próxima da vida como ela é — manteve intacto o que importa: o gesto. Ainda se trata de reunir o que sobrou, refogar com afeto, cobrir com ovos batidos e levar ao forno com esperança. É comida que sabe de onde veio. Que não se envergonha das substituições, porque entende que sabor, muitas vezes, é feito mais de memória e cuidado do que de etiqueta de preço.

A torta de repolho capixaba é, assim, um prato de resistência e inventividade. Uma resposta generosa à escassez. E talvez por isso mesmo, mais fiel à alma do que a versão original — porque nela se vê, com nitidez comovente, o que a cozinha sempre foi: uma arte de continuar, mesmo quando quase nada há.

A torta de repolho com peixe salgado não é apenas um eco da torta capixaba original — é sua irmã mais brava, nascida em tempos difíceis, mas com um coração igualmente ardente. É, acima de tudo, um testemunho da capacidade que as pessoas têm de fazer poesia com os restos, de criar beleza mesmo quando tudo ao redor sugere que não há espaço para ela.

Quando a escassez bate à porta, e a feira parece mais cara a cada semana, não é raro que a cozinha se torne um palco silencioso de resistência. Ali, longe dos gabinetes onde se discutem políticas públicas, mãos anônimas encontram saídas com o que têm. O repolho, com seu miolo suculento e folhas largas, substitui o palmito sem alarde. O peixe salgado — às vezes firme, às vezes desfiado, sempre resiliente — entra onde o camarão não pode mais chegar. E o forno, cúmplice de tudo, transforma esse gesto de contenção em um prato cheio de dignidade.

É nesse jogo de substituições que a tradição se revela mais viva do que nunca. Porque tradição, ao contrário do que se pensa, não é repetir à exaustão o que foi feito uma vez — é saber preservar a alma das coisas mesmo quando o corpo precisa mudar. A torta de repolho guarda, intacta, a alma da torta capixaba: ela é feita para reunir, para partilhar, para consagrar com gosto os dias que merecem ser lembrados.

E talvez seja exatamente aí que resida sua beleza mais pungente. Porque esses pratos — esses que nascem da necessidade, mas permanecem por escolha — são mais do que comida. São declarações silenciosas de que a fome pode ser vencida com engenho, e de que a memória cultural não precisa de pompa para continuar a existir. O povo que os faz é o mesmo que, diante do que falta, olha para o fundo da panela e diz: ainda dá.

A torta capixaba e sua versão de repolho são, portanto, mais do que receitas. São histórias comestíveis, páginas quentes de uma narrativa maior. São, como toda boa comida de raiz, um lembrete de que onde há afeto e criatividade, há sempre mesa posta. E isso, por si só, já é uma forma profunda de fé.

Tanto a torta capixaba quanto a sua versão mais humilde de repolho são muito mais do que o que se serve à mesa. Elas são rituais que atravessam o tempo, marcando com sabor os dias em que a fé, a memória e o silêncio se entrelaçam. Durante a Quaresma — esse tempo suspenso entre o pesar e a promessa —, as tortas se tornam um elo visível entre o corpo e o espírito. Servidas em dias solenes como a Quinta-feira Santa e a Sexta-feira da Paixão, elas ocupam o centro da mesa como se fossem, também, orações — só que feitas com legumes, temperos, ovos, sal, e o calor do forno.

São, igualmente, celebrações da solidariedade. Em um tempo anterior ao barulho dos refrigeradores e ao embrulho plástico dos mercados, fazia-se comida em quantidade não por ostentação, mas por cuidado. As travessas quentes passavam pelas janelas, as porções dobradas encontravam o caminho até a casa vizinha. Uma torta, por mais simples que fosse, era partilha. Uma garantia de que ninguém — nem o solitário, nem o esquecido — estaria sem alimento naquele tempo sagrado.

E no coração dessa prática comunitária estavam as mulheres. Com mãos que sabiam medir a farinha “no olho” e ajustar o sal pelo cheiro do refogado, foram elas que moldaram as panelas e as tradições. Mulheres que talvez nunca tenham lido sobre “patrimônio cultural”, mas que criaram, sem saber, algo que o tempo decidiu preservar. A torta capixaba, a de repolho, e até mesmo aquela outra, feita longe do Espírito Santo — a fritada de legumes —, têm em comum essa origem feminina, terrosa, terna.

Porque lá em Guaraciaba do Norte, na Serra da Ibiapaba, havia uma outra torta — embora ninguém a chamasse assim. Era a fritada de legumes que minha mãe preparava com capricho e precisão, numa forma com buraco no meio, dessas comuns de alumínio, posta direto sobre a chama do fogão. Os legumes — batata, cenoura, chuchu, abóbora — vinham refogados com cheiro-verde, cebola, tomate, pimenta-do-reino, e sal. Por cima, o toque que elevava tudo: ovos batidos em neve, virando uma cobertura dourada e etérea, como uma bênção. Não era preciso forno, nem palmito, nem camarão. Só tempo, fogo baixo e olhos atentos. Aquilo também era Quaresma. Aquilo também era fé.

E se há uma ponte invisível que liga essas receitas — da moqueca à sardinha enlatada, do repolho às claras em neve — é o desejo profundo de manter vivo algo mais antigo do que qualquer tradição registrada: a vontade de cuidar, de preservar o que é sagrado através do ato de alimentar. A fritada de legumes era, no seu modo modesto e doméstico, uma prece familiar. Uma adaptação silenciosa às circunstâncias, feita com os ingredientes disponíveis e um sentido claro de continuidade. Como toda boa comida, não servia apenas ao corpo. Servia também à memória.

E talvez seja isso que une todas essas tortas e fritadas, todas essas camadas de ovo, legume, peixe e lembrança: o fato de que, quando a panela chia e o aroma começa a invadir a casa, o tempo parece suspenso. E ali, entre a chama e o prato, uma tradição renasce — feita não de regras, mas de amor.

A história da torta capixaba, e sua evolução para a torta de repolho, é uma história de adaptação, tradição e sobrevivência. Esses pratos representam não apenas uma culinária rica e diversa, mas também a força e a criatividade de um povo que soube manter suas tradições vivas, apesar das adversidades. Eles são, acima de tudo, símbolos de resistência cultural: enquanto a torta capixaba é um prato dos ricos e das festas, a torta de repolho com peixe salgado é o prato das famílias simples, uma versão humilde, mas igualmente representativa de um legado culinário que perdura.

Mas há ainda outras tortas, outros nomes, outras mãos que também participaram desse coro de reinvenções. A fritada de legumes que minha mãe fazia, lá no alto da Serra da Ibiapaba, é um desses ecos. Talvez não tenha a fama nem o peso ritual da torta capixaba, nem a função de resistência clara da torta de repolho. Mas guarda, em sua simplicidade luminosa, a mesma alma: a de uma comida feita com o que se tem, no tempo que se pode, com a fé possível.

Não havia mariscos ou panelas patrimoniais, tampouco decorações elaboradas. Mas havia batata, chuchu, cheiro-verde, ovos batidos em neve e a paciência de quem sabia que cozinhar, naquela casa, era também orar. A fritada de legumes era um tipo de torta sem nome, sem receita fixa, feita sobre a boca do fogão com o fogo baixinho — como quem não quer acordar os vizinhos com a lembrança de tempos difíceis.

Em seu cerne, todas essas receitas — tortas ou fritadas, com mariscos ou com sardinha — são muito mais do que comida. São manifestações silenciosas de continuidade. São a prova de que memória também se come. Que tradição também se inventa. E que mesmo as casas mais humildes, com mesas feitas de tábuas largas e formas de alumínio simples, sabem servir fartura quando o prato é temperado com afeto.

No fim das contas, seja na beira-mar capixaba ou nas altitudes da serra cearense, é sempre a mesma história: mulheres ao redor do fogão, crianças rondando em busca de um pedaço dourado, vizinhos que sentem o cheiro e reconhecem o gesto. Um alimento que consola, que celebra, que sustenta. Uma comida que é, antes de tudo, um modo de lembrar — e de continuar.

Torta Capixaba

500g de peixe fresco (geralmente, é usada garoupa, truta ou siri – pode variar dependendo da disponibilidade)

300g de camarão (descascado)

200g de marisco ou outro fruto do mar (opcional, mas tradicional)

200g de bacalhau dessalgado (o bacalhau é um ingrediente clássico em muitas variações da torta capixaba)

200g de palmito (fresco ou em conserva)

6 ovos (preferencialmente, use ovos caipiras)

1 cebola grande (picada finamente)

3 dentes de alho (picados)

1 pimentão verde (picado)

1 tomate (picado)

1/4 de xícara de azeite de oliva

1/2 colher de chá de urucum (para dar a cor e o sabor típico)

Coentro fresco (a gosto)

Sal e pimenta-do-reino (a gosto)

2 colheres de sopa de azeitonas verdes ou pretas (opcional)

Farinha de trigo (o suficiente para engrossar o molho)

Caldo de peixe (pode ser feito com as espinhas do peixe ou comprados prontos)

1 xícara de leite de coco (opcional, mas muito tradicional em algumas receitas)

Preparo: Corte o peixe em pedaços pequenos e cozinhe-os em uma panela com água e sal até ficarem macios. Após o cozimento, retire as espinhas e desfie o peixe em pedaços pequenos. Cozinhe os camarões e mariscos até ficarem bem cozidos e reserve. Em uma frigideira grande, refogue a cebola, o alho e o pimentão no azeite até ficarem dourados. Acrescente o tomate picado e deixe cozinhar até formar um molho. Adicione o peixe desfiado, o camarão e o marisco refogados, misturando bem. Em outra panela, cozinhe o palmito até ficar bem macio. Caso seja palmito de conserva, basta picá-lo em pedaços pequenos. Misture o palmito picado com os frutos do mar e o peixe. Em seguida, acrescente o urucum, coentro picado, sal e pimenta-do-reino a gosto. Bata os ovos até dobrarem de volume e ficarem bem espumosos.  Pré-aqueça o forno a 180°C. Unte a forma de torta com azeite (se tiver uma panela de barro, use-a) e, em seguida, coloque metade dos ovos batidos, na mistura já preparada de peixe marisco e verduras, misture bem e despeje na forma untada com azeite, nivele bem a mistura e coloque o restante do ovo batido por cima. Para decorar, inclua umas rodelas de cebola com uma azeitona no centro de cada rodela e leve ao forno e asse por aproximadamente 30 a 40 minutos ou até que a torta fique bem dourada por cima e firme. Retire a torta do forno e deixe esfriar por alguns minutos antes de servir. Ela pode ser servida quente ou em temperatura ambiente.

Dicas:

A torta capixaba é muito tradicional na Semana Santa e especialmente na Quinta-Feira Santa, sendo preparada em grande quantidade para a refeição.

O urucum é essencial para dar à torta a cor característica, que é uma das marcas da receita.

O palmito é um ingrediente clássico da torta capixaba e traz uma suavidade única à receita.

O leite de coco não é obrigatório, mas é uma opção para dar um toque mais cremoso à mistura, especialmente em algumas versões da receita.

Para preparar a torta com peixe salgado, o bacalhau é geralmente o mais escolhido, mas lembre-se de retirar todo o sal do peixe antes de preparar.

 Torta Capixaba de Repolho com Sardinha

1 cebola grande

3 latas de sardinha

azeite quanto baste

2 batatas grandes amassadas

1 repolho grande picado em fatias finas

150g de azeitona sem caroço

200g de palmito

1/2 maço de cebolinha

1/2 maço de salsinha

1 maço de coentro

1 e ½ tomates sem semente

sal a gosto

1 colher (café) de pimenta-do-reino

1 colher (sopa) de alho

1 cebola cortada em rodelas com azeitonas

4 ovos inteiros

Preparo: Dourar a cebola no azeite e deixar dourar bem. Juntar o tomate, a pimenta do reino, azeitona, palmito, a sardinha, refogar bem. Juntar metade do cheiro verde e todo o repolho, misturar e refogar bem, até deixar a aguinha que se forma no fundo da panela secar. Não se espante, pois o repolho murchar mesmo. Noutra panela, coloque mais azeite e o colorau, refogue as sardinhas sem o liquido das latinhas, depois de bem refogado, junte na mistura anterior, acerte o sal, junte as batatas cozidas amassadas e misture muito bem. Coloque a mistura num tabuleiro ou refratário untado com azeite , espalhe uniformemente e reserve. bata as claras em neve, até picos firmes, junte as gemas e bata mais. coloca a mistura de ovos por cima do preparado e espalhe bem para nivelar. por cima colocar as rodelas de cebola com uma azeitona no centro de cada uma delas, e levar para assar ate ficar dourada. Servir quente ou fria com arroz branco e salada.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

PROJETO SABORES DA TRADIÇÃO: À Mesa com as Rainhas Portuguesas – Entrevista com a investigadora de História da Alimentação GUIDA CÂNDIDO (Portugal).


Caros Confrades e Consórores, estimados amigos e amigas leitores, venho agradecer mais uma vez sua participação e interação com este blog que hoje, exatamente, completa oito anos de existência. Foram muitos aprendizados, muitas informações absorvidas e compartilhadas, muitas receitas testadas (umas que deram certo, outras nem tanto), algumas poucas reclamações, mas sempre tentando resgatar histórias, receitas e novidades do mundo gastronômico que nos alimenta corpo e alma. Muito obrigado.
Por ser um dia especial hoje retomo, mais uma vez o Projeto Sabores da Tradição que desenvolvo nesta Confraria com entrevistas com personalidades variadas para discutir temas tão diversificados quanto a cultura gastronômica. Assim, hoje a entrevistada da Confraria Gastronômica do Barão de Gourmandise vem tratando de um assunto instigante e muito querido por mim (pessoalmente): à mesa com as rainhas – entrevista com a historiadora da alimentação portuguesa Guida Cândido.


A alimentação nos palácios sempre foi motivo de especulação desde os tempos remotos: era demonstração de luxo, poder, ostentação, exotismo, influência, mas principalmente dos costumes de épocas que não voltam mais. As monarquias que sobrevivem aos tempos atuais ainda causam frisson quando anunciam casamentos reais onde o menu de banquetes e o bolo do casamento despertam bastante curiosidade e são copiados pelos modismos.
Eu, particularmente, tenho uma preferência por algumas mulheres monarcas em alguns países, e sempre me pego investigando seus hábitos alimentares para descobrir algo interessante e dividir com vocês. E hoje, não seria diferente. Espero que apreciem a entrevista. E, mais uma vez, obrigado por acompanhar o blog.

Barão de Gourmandise (B.G.) - Para aqueles que não lhe conhecem, poderia apresentar-se e dizer quem é você e a que se dedica?

Guida Cândido (G.C.): O meu nome é Guida Cândido, trabalho no município da Figueira da Foz, na Divisão de Cultura onde desenvolvo trabalho relacionado com a História Local, o Património Cultural e os fundos locais, nomeadamente a fotografia antiga. Paralelamente, sou investigadora de História da Alimentação, associada ao Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos (CECH) da Faculdade de Letras (FLUC) da Universidade de Coimbra (UC), fazendo parte da equipa multidisciplinar do projeto DIAITA - Patrimónios Alimentares da Lusofonia.
Sou autora do Grupo Leya, concretamente da chancela editorial D. Quixote, com quem editei desde 2016 três livros desta área de investigação: "Cinco Séculos à Mesa - 50 receitas com história"; "Five Centuries of Portuguese Cuisine" e, este ano, "Comer como uma rainha - receituário real do século XVI ao século XX”, todos disponíveis (AQUI). Desenvolvo trabalho de consultoria na área da História da alimentação, foodstyling e fotografia. E Alimento o hiperespaço em www.panelasemdepressao.com




B.G. – Antes de chegarmos às mesas das rainhas, gostaria de iniciar pela ‘aventura’ da escrita de “Cinco séculos à mesa”. Sei bem como é árdua (e deliciosa) a tarefa de dedicar-se a pesquisas nos tempos atuais: seja pelas fontes escassa e de difícil acesso, recursos limitados, ter que verificar e reverificar fontes, revisar datas, analisar discursos, comparar falas, etc., etc.... assim, conte-me um pouco de como surgiu a ideia para o livro. Qual foi o estopim para ele, houve uma história em particular que lhe fez aguçar o sentido investigativo e dar início ao texto, ou foi algo já pré-estabelecido?

G. C.: O "Cinco Séculos à Mesa" surgiu na sequência da minha tentativa de editar a dissertação do meu mestrado em “Alimentação: Fontes, Cultura e Sociedade” da FLUC, “Comer como uma rainha - estudo de um livro de despesas da Casa de D. Catarina de Áustria de 1571”. A editora gostou do texto e do tema mas considerou um trabalho demasiado académico para publicar para um público mais amplo. Sugeri, então, fazer um périplo pela História da Alimentação nos últimos cinco séculos, com um breve ensaio histórico que inclui ainda um capítulo dedicado à Antiguidade Clássica e recriar 50 receitas dos cinco principais livros de receitas desses séculos. E a proposta foi aceite com entusiasmo e em menos de um ano, estava nas bancas.

B. G. - O que mais lhe surpreendeu enquanto percorria essa aventura gastronômica pelo receituário gastronômico português entre os séculos XV e XX?

G. C.: Não sendo propriamente uma surpresa, é sempre interessante perceber o que perdurou e o que se perdeu ao longo dos séculos. Fico sempre fascinada com a descoberta de receitas que julgamos que são invenções recentes e que se revelam muito antigas, ou que estão associadas a períodos recuados. Por exemplo, muitas pessoas consideram recente esta tendência de aromatizar manteiga, e, na realidade, Paul Plantier já apresenta, no século XIX, pelo menos uma receita irresistível de manteiga com anchovas.

B. G. – Acredito que a cerimônia e o protocolo à mesa em Portugal não diferem nos séculos XVI e XVIII de outras realezas europeias. No entanto, quando se trata de requinte e exotismos destaques curiosos sempre aparecem para nos surpreender. O que poderia nos contar sobre a fineses, o exotismo e o requinte nestes cinco séculos à mesa que investigou?

G. C.: Os livros de registo de despesas de cozinha das casas reais possibilitam observar quais as iguarias que os monarcas e seus serviçais privilegiam no seu quotidiano; o que os grupos desfavorecidos não alcançam; os alimentos que se revestem de importância simbólica e carácter raro, exótico e distinto. Tão especiais como os que D. Catarina apresenta no banquete que oferece à sua sobrinha, a Infanta D. Maria, por ocasião do casamento da Infanta, com Alexandre Farnese. No Paço da Ribeira, no desenrolar do banquete, presenteia os convidados com abundância de carnes vindas de vários e distantes pontos do império, tal como a água servida que se diz proveniente de muitas partes do mundo: Indo, Ganges, nascentes e lagos de África e Ásia e rio Tibre, numa tentativa de ostentar os domínios imperiais do reino português. Os monarcas comem em abundância e com qualidade.
Do Oriente e do Brasil, com a expansão portuguesa, provêm alimentos como tomate, chocolate, batata, ananás, peru e tantas outros alimentos que implicam, necessariamente, mudanças na alimentação da Europa e potenciam de forma marcada sinais de poder e ostentação na corte, firmando o luxo e refinamento da mesa ocidental. De resto, o banquete, nos séculos XV e XVI, promove a mesa para ser observada na sua abundância, na qualidade dos seus pratos, na forma de apresentação dos mesmos, numa certa encenação e teatralidade que a torna cada vez mais, não um lugar de coesão social, mas sim de separação, evidenciando todas as particularidades que distinguem os privilegiados dos restantes grupos da sociedade.
Os inventários dos bens das rainhas da Época Moderna permitem conhecer o grau de exotismo e de sofisticação das suas mesas, sobretudo a partir de D. Catarina de Áustria, quando os portugueses acedem ao Japão e à China. A bateria de cozinha e as peças da mesa são sumptuosas, com materiais nobres como prataria, madrepérola, laca, porcelanas, madeiras e têxteis nobres. Embora a sala de jantar enquanto espaço físico e específico de refeições apenas seja efetivo no século XVIII, os palácios da Época Moderna apresentam salas multifuncionais onde se desenrolam refeições armando-se as mesas e toda a logística necessária. O mesmo pode acontecer nas câmaras e antecâmaras, ricamente decoradas, muitas vezes com recurso a decorações efémeras como dosséis e panos de armar. Na mesa retangular, a tolha é habitualmente branca e rasa o chão, completando a cena diversas cadeiras, almofadas e iluminação com castiçais e candelabros de prata. A riqueza da baixela não é ostentada na mesa mas sim na copa, onde ocupa um lugar de destaque.
Nos séculos XVI, XVII e XVIII presume-se que a alimentação na corte portuguesa não difira muito das restantes cortes europeias. As refeições quotidianas e os banquetes são momentos revestidos de um rigoroso protocolo. Em torno das figuras reais orbitam inúmeras personagens.

B. G. – Pesquisando sobre menus históricos encontrei, algumas vezes, referências que apontam para a existência de duas cozinhas reais: a do rei e a da rainha. Mas poucos se dão conta disso. Há quem faça relatos de que rei e rainha apenas se juntavam em banquetes festivos, celebrações ou alguma comilança que envolvia relações públicas com a corte e personas destacáveis. O que me diz a esse respeito? Se deparou com algo do tipo nas suas pesquisas?

G. C.: No protocolo real português a tendência era de duas cozinhas, uma para o rei outra para a rainha. Não por acaso, existe a designação Casa da Rainha. E as refeições eram normalmente privadas. As refeições públicas decorrem de situações particulares, de cerimónias e festas e nessas ocasiões, é mais comum ambos monarcas partilhares a mesa.
No século XVII, com as refeições públicas, as refeições do rei são uma atividade de representação com presença da corte e sacralização da pessoa do monarca, havendo uma forte hierarquia nos bastidores, onde as refeições são preparadas. A documentação revela a ascensão de algumas figuras até chefe de cozinha. Verifica-se, ainda, a existência de cozinheiros com caráter extraordinário, requisitados quando decorrem banquetes.
A etiqueta, as cerimónias e as práticas rituais na Casa das Rainhas, entre a segunda metade do século XVII e a primeira metade do século XVIII, são marcadas pelo modelo dito borgonhês.
A partir do século XIX, concretamente nos reinados de D. Maria I e de D.Luís , as refeições do quotidiano já apresentam os monarcas juntos, com outras individualidades da corte, sobretudo no reinado de D. Luís e de D. Maria Pia, onde também se conhece com mais precisão o que vai à mesa, uma vez que estão em voga os menus.


Maria Pia de Saboia GCNSC • GCSI (Turim, 16 de outubro de 1847 — Nichelino, 5 de julho de 1911) foi uma princesa de Saboia e rainha de Portugal e Algarves como consorte do rei D. Luís I de Portugal.

B. G.  – Partindo então para "Comer como uma rainha": o que lhe levou a dedicar-se ao estudo das mesas das rainhas? E por que das rainhas escolhidas?

G.C.: Foi inevitável pegar neste tema depois da minha dissertação que tinha apenas a rainha D. Catarina de Áustria como protagonista. A escolha das rainhas prendeu-se com a vontade de fazer mais uma vez uma cronologia até ao século XX e focou-se nas rainhas a que consegui associar mais documentação e livros de cozinha editados durante a sua permanência no trono.

Catarina de Áustria, Catarina de Habsburgo ou, mais raramente, Catarina de Espanha (em castelhano: Catalina de Austria; Torquemada, 14 de janeiro de 1507 - Lisboa, 6 de fevereiro de 1578) foi arquiduquesa da Áustria, infanta de Espanha e rainha de Portugal como esposa de D. João III.

B.G.  – Poderia explicar brevemente a relação dessas rainhas apresentadas na obra com a alimentação. Havia a preocupação delas relativas a alimentação, ou simplesmente tratavam a comida como algo necessário para sustentar o corpo e como elemento de status?

G. C.: O Homem é o que come. E o que come é também aquilo que gostaria de ser. Ontem e hoje, a alimentação da humanidade poderá dividir-se em dois campos essenciais que se traduzem na necessidade e no prazer, refletindo hierarquias sociais e culturais, bem como as relações de poder. A juntar à escolha dos alimentos, aos básicos e aos supérfluos, surgem ainda as técnicas de preparação e confecção. Estes princípios constituem um elemento diferenciador ou unificador a que se juntam ainda as questões da mesa e da etiqueta; os rituais e as normas; as interdições e uma gramática de saberes tão extensa quanto complexa.
Comia-se por forma a estabelecer e definir hierarquias. À época, a alimentação era mais do que alimento, era uma manifestação de poder, distinção e exotismo.
Da mesa medieval chegam os ritos e interditos, sob diversos olhares – antropológico, sociológico, económico, religioso e cultural, identificando os alimentos que chegam à mesa, a sua confecção na cozinha, de acordo com as práticas e os gostos culinários da época, as preferências ou os interditos alimentares de ordem religiosa, social ou dietética.
Em conclusão, as rainhas em causa alimentavam-se de acordo com as normas da sua época, atendendo às matrizes estipuladas para a comida de corte.

B. G.– Algumas das rainhas se dedicava a cozinha? Alguma com dons gastronômicos indiscutíveis ou apenas todas eram amantes da boa mesa?

G. C.: Desconheço, na investigação que fiz, qualquer intervenção das rainhas na cozinha, embora os seus gostos sejam relevantes na hora da escolha das refeições. Por exemplo, em D. Catarina de Áustria, percebe-se o gosto direcionado por determinados alimentos. O estudo do livro de despesas da sua casa, de 1571, refere diversas vezes a indicação concreta de galinha para a rainha, bem como cerejas e saladas para a monarca. Ou a compra de queijos em Belém para D. Catarina. Algumas terão sido mais frugais.

B. G. – Das rainhas investigadas qual te chamou maior atenção, e por que?

G. C.: Eu tenho uma “relação” muito particular com o universo alimentar de D. Catarina de Áustria. Embora o objetivo da minha dissertação tenha sido o estudo das questões alimentares desta rainha, fica-se inevitavelmente apaixonado pela figura carismática de Catarina de Áustria, uma mulher que perde todos os filhos e que deposita as últimas esperanças nos netos que também têm finais trágicos. Ainda assim, a sua energia e o gosto pelo belo, pelo exótico e pelo colecionismo fazem dela uma rainha incontornável.

B. G. – De fato, podemos dizer que os casamentos entre as casas reais permitiram que receitas e ingredientes diferentes de seus países de origem percorressem o mundo, pelo capricho dos monarcas ou pelo prazer afetivo que eles têm ao remeter diretamente à pátria. Poderia nos contar um pouco sobre essa interação gastronômica em Portugal a partir das rainhas que vieram de outras nações europeias? Sei, por exemplo, que as massas foram introduzidas em Portugal por volta do século XVIII – o que me pareceu até demorado, considerando que Marco Polo levou o macarrão da China para a Itália no século XIII...

G. C.: Naturalmente que existem os “produtos da saudade” que são levados de uns territórios para outros. Tanto é assim que o primeiro livro de cozinha português conhecido, o Livro de Cozinha da Infanta D. Maria, encontra-se fora de portas, na Biblioteca Nacional de Nápoles. A neta de D. Manuel, aquando do seu casamento com Alexandre Farnese leva-o para Parma, juntamente com outras peças de enxoval e o seu séquito.
E existem muitas evidências de rainhas que se fazem acompanhar entre outros serviçais, dos seus cozinheiros, é o caso de D. Maria Ana de Áustria que trouxe consigo, aquando do seu consórcio com D. João V, de uma cozinheira. É um caso extremamente interessante porque essa função era normalmente atribuída aos homens. Em todo o caso, esta rainha traz uma cozinheira que mantém ao seu serviço na corte portuguesa e, naturalmente, com a herança de sabores mais nórdicos, associados à sua origem.


B. G.  - Um dos meus maiores problemas, ultimamente, nas minhas pesquisas, além do pouco tempo, são os testes das receitas...  Vez por outro posto a receita e só vou testá-la um tempo depois. Assim, gostaria de saber como se deu o processo de escolha dos pratos apresentados em seus livros? Você testou todas as receitas?

G. C.: Em todo os meus livros as receitas foram testadas e fotografadas. Em alguns casos, mais do que uma vez, para garantir a sua possibilidade de execução pelos leitores. O critério que usei na escolha de todas elas teve como princípio a correspondência o mais fiel ao original, mas também a possibilidade de ir ao encontro dos palatos da atualidade, sem causar demasiada estranheza, mas, ainda assim, conseguir alguma surpresa na descoberta de alguns sabores de que nos desabituámos.

B. G. – Certa vez, li no jornal inglês "The Independent" uma reportagem de um antigo chefe da Casa Real britânica que e compilou o essencial de um dia à mesa de Isabel II. De acordo com o texto, tudo iniciava com uma xícara de chá Earl Grey - sem leite nem açúcar - e biscoitos. Depois viria fruta e cereais - que devem ser servidos em uma caixa Tupperware, porque, para Isabel II, é a melhor forma de os manter crocantes. Quando deseja variar, escolhe torradas com compota ou uns ovos mexidos com salmão fumado e trufas. Antes do almoço não pode faltar um gin e um Dubonnet, um aperitivo doce à base de vinho, com uma rodela de limão e bastante gelo. Depois, à refeição, algo muito simples, como peixe ou frango grelhados e legumes. Se almoçar sozinha, nada de arroz, batatas ou massas. À tarde, um chá acompanhado por mini sanduiches de pepino, salmão defumado, ovo e maionese, fiambre e mostarda, e "jam pennies", que são sandes com compota de framboesa cortadas em pequenos círculos, do tamanho da moeda inglesa. Biscoitos, scones e bolos também entram no menu vespertino. Entre os bolos preferidos da rainha está um de biscoito de chocolate que foi servido no casamento de William e Kate (inclusive já tratei dele aqui no blog). Para o jantar são servidos, habitualmente, um filete de salmão ou bifes, cortados finamente, de vaca, faisão ou veado, vindos das quintas de Sandringham e Balmoral. A rainha também aprecia um bom assado de domingo. Quanto a sobremesas, morangos e pêssegos cultivados nas suas quintas, e - não pode faltar - chocolate. Seja de um tablete mais exclusivo ou de uma marca de supermercado, o importante é comer um pouco de chocolate. Por fim, Isabel II gosta de rematar o dia com um copo de Champanhe. Deste modo, poderia nos descrever como era o menu de uma dessas mesas reais?

G. C.: Como já referi, com a chegada dos menus, torna-se mais concreto o conhecimento dos pratos que vão à mesa real. Nessa medida, a minha escolha recai na rainha D. Maria Pia. D. Luís e D. Maria Pia viajam com regularidade pelas cortes europeias e, naturalmente, adotam o que a moda dita.
Um alimento que se destaca nos menus reais é a pasta. A grande variedade de massas alimentícias e a profusão de receitas com este ingrediente, revelam os gostos culinários neste período e, por arrasto, as da mesa real. O facto da rainha ser italiana, facilita a divulgação deste alimento, mas também de outros pratos italianos que surgem nas ementas, como risottos e uma panóplia de receitas à moda de com uma abrangência que excede a generalidade do à italiana e especifica com regionalismos: à piemontesa, à milanesa, à Veneza entre outros.
Esta catalogação ultrapassa a fronteira do território italiano e, nos diferentes menus da coleção do Palácio da Ajuda, é possível encontrar diversas referências de pratos atribuídos a outros contextos. Logicamente muitos pratos à portuguesa, mas também à inglesa, à holandesa, à francesa…
Os menus permitem conhecer os hábitos alimentares da família real, exibindo não só os pratos, mas também a sua ordem de chegada à mesa e, até, a constância e preferência por algumas receitas ou ingredientes. Assim, a estrutura de um menu, na época, compõe-se de: sopa; hors d’oeuvre; prato de relevo; entrada quente e entrada fria; assado; legumes; entremeios e doces.
As refeições no paço revestem-se de muito requinte, com marcadores e ementas de fino gosto e diferentes mesas consoante a categoria das pessoas. A principal é a mesa de estado onde se sentam o rei, a rainha, a camarista da rainha, o mordomo-mor, o vedor, o médico e oficiais de guarda do palácio.

B. G. – Conseguiste achar em suas pesquisas algum prato que esteve sempre presente deste a época da primeira rainha analisada até a última? Qual seria?

G. C.: Uma receita em particular não diria. No entanto, julgo que em todas estas mesas, a galinha teve sempre um lugar privilegiado e de destaque nas refeições apresentadas.

B. G. – Imagino que desde o lançamento de seus livros já tenha ouvido muitas perguntas do tipo: o que come uma rainha? Ou, o que compõe a mesa de uma rainha?  Mas, e o que elas não comiam? Haviam restrições nas mesas das monarcas? Bebiam de tudo?

G. C.: As restrições prendem-se com os preceitos religiosos. Legumes e vegetais destinam-se, essencialmente, aos dias de jejum de carne, tal como acontece com o peixe que está na mesa em cumprimento das prescrições religiosas de abstinências e jejuns.
Quanto às bebidas, sobretudo até ao final do período medieval, beber significava essencialmente beber vinho, uma vez que a água oferecia algumas limitações em termos de salubridade. Portanto, as nossas rainhas, ao que se conhece, bebiam vinho, como a generalidade das pessoas.

B. G – Alguns historiadores da alimentação tendenciam afirmações que apontam para o gosto feminino por doces? Você corrobora com essa ideia? Algum doce em especial com referência histórica a alguma das rainhas?

G. C.: Julgo que o doce não era uma predileção feminina, era um gosto geral. Só tardiamente se começa a fazer a distinção do doce e do salgado, permanecendo a sobreposição de açúcar em muitos pratos de carne como se pode ver no receituário do Livro de Cozinha da Infanta D. Maria. A tendência do doce é manifesta na grande quantidade de marmeladas, doces e compotas, bem como em toda a doçaria que se disseminou em Portugal até à atualidade.

B. G.  – Onde se pode comer como uma rainha em Portugal, nos dias atuais?

G. C.: Essa pergunta é curiosa e vem ao encontro de um projeto que iniciei recentemente, com o objetivo de responder a essa necessidade. Criei um ciclo de jantares de rainhas que têm como base o meu livro, com uma rainha em cada jantar e o menu associado. Este primeiro ciclo irá decorrer numa Pousada charmosa em Condeixa, bem perto da cidade universitária de Coimbra. (VER AQUI)
No próximo dia 15 de setembro, realiza-se o primeiro de vários jantares dinamizados numa articulação e colaboração comigo e o Chefe de Cozinha João d'Eça Lima sob o lema: comer como uma rainha, inspirado na obra publicada que retrata a vertente histórica e gastronómica relacionada com os gostos e identidade cultural à mesa no período que vai do século XVI ao século XX.
O primeiro jantar, dedicado a Catarina de Áustria terá o espírito e encenação de um banquete onde serão servidos pratos com base no receituário registado: canja de perdiz, queijos artesanais, pão artesanal, galinha albardada, desfeito de galinha, coelho em tigela, boldroegas, picado de carne de vaca em seco, pastéis de leite, almojávenas de Dona Isabel de Vilhena e pessegada. Serão servidos vinhos brancos e ainda apresentadas mais algumas iguarias da época.
O jantar, com início pelas 20 horas, é de reserva obrigatória e limitado no número de participantes e conta com a presença, introdução e enquadramento por mim.
O objetivo é estender este projeto a outros restaurantes ou hotéis que tenham interesse em oferecer um serviço diferenciado, com um projeto inédito em Portugal.

B. G. – Considerando que a mesa é um lugar onde se deve partilhar as delicias gastronômicas com as pessoas que se gosta, poderia nos dizer qual das rainhas das casas reais ainda existentes no mundo você gostaria de sentar à mesa, e quem mais convidaria para descobrir mais sobre ela (elas)?

G. C.: Na impossibilidade de escolher a princesa de Marrocos, uma vez que os monarcas se divorciaram, gostaria de partilhar uma refeição com Rania da Jordânia. Tenho imensa curiosidade pela cozinha do Médio Oriente e julgo que existe um receituário com uma matriz comum ao nosso no uso das especiarias que, no nosso caso, se suavizou.

Meu Sabor da Tradição
G. C.  A minha avó materna deixou-nos há dois anos com 98 anos de idade. Era muito comunicadora e, quando me sentava à sua beira, ficava tempo infinito a ouvi-la desfiar histórias de outros tempos. A minha avó, ao contrário de muitas avós, não é uma referência culinária para mim. De poucas comidas que fazia guardo memórias, sobretudo porque deixou de cozinhar quase há duas décadas e julgo que no caso dela, era mais por necessidade do que prazer. Porém, existem quatro alimentos que lhe estão inteiramente ligados e que serão sempre os da minha avó.
A broa! O ritual de fazer broa de milho era quase religioso. Entre fermentos e cruzes traçadas sobre a massa, o dia de cozer a broa era vivido com entusiasmo.
Alguns dias, no regresso da escola, passava em casa dela para comer um pão regado com azeite e polvilhado de açúcar amarelo. Não sei exatamente de onde veio esta ideia, se mais alguém o fazia, mas era o pão da minha avó, que eu adorava e que agora me parece inusitado.
Também as batatas fritas dela eram únicas. Essas sim, apetecem-me agora e sempre. No borralho, sobre a trempe, uma grande sertã com azeite do seu olival. Rodelas grossas de batata eram ali mergulhadas e depois servidas com um ovo estrelado.
De doçaria nada me lembro para além do arroz doce. Mas há um bolo que fazia questão de me dar. Às sextas feiras ia à feira na vila fazer as compras que completavam o que tirava da terra. E nesses dias trazia sempre um bolo para as netas. Um pastel de nata para mim, uma bola de berlim para a minha irmã. Talvez por isso, ainda hoje na pastelaria portuguesa, é este o meu bolo preferido. Por isso, o meu sabor de tradição.

Pastéis de Nata (16 unidades, no original 12)
Cozinha Tradicional Portuguesa – Maria de Lurdes Modesto

500 g de massa folhada preparada
creme:
500 ml de natas
200 g de açúcar
8 gemas
2 colheres de sopa de farinha sem fermento
1 casca de limão grande

Preparo: Comecei por preparar o creme, misturando bem todos os ingredientes e levei ao lume (fogo) mexendo sempre até levantar fervura e engrossar. Deixei arrefecer até ficar morno. Cobri com película aderente para não ficar uma crosta. Estendemos a massa folhada e cortámos círculos ligeiramente maiores do que as formas de queques. Untámos ligeiramente as formas com manteiga e colocámos a massa. Recheei os pastéis de nata com o creme e levei ao forno pré-aquecido a 250º, durante cerca de 15 minutos até ficarem bem tostados. Tirei do forno, deixei-os arrefecer ligeiramente, desenformei e servi polvilhados com canela.