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terça-feira, 9 de dezembro de 2025

ISCA DA RAIVA: ENTRE A PALAVRA DO ANO, A VELHA TÉCNICA DE COZINHA E OS COZINHADOS DA CULTURA DIGITAL QUE TEMPERAM O MUNDO

 

Estava eu, nessa manhã tímida de luz — destas que se insinuam pela janela como um gato que exige colo — escrevendo para o blog. Buscava, com a atenção paciente de quem descasca lentamente uma fruta madura, ia a grafia correta de um termo em alemão, destinado a uma das minhas postagens natalinas. Era apenas um detalhe linguístico, uma pequena joia linguística que eu desejava polir antes de servir ao leitor — mas, como quase sempre acontece nas cozinhas digitais do nosso tempo, o destino tinha outros temperos preparados para mim. E foi exatamente nesse instante, quando a frase ainda se equilibrava na ponta dos meus dedos, que meu celular vibrou.

Era uma colega francesa — professora, naturalmente elegante como só os franceses sabem ser até quando enviam PDF pelo Facebook — com um material para leitura. Ia abrir o chat para a conversa. E então, como se uma mão invisível mexesse o caldo antes de mim, o algoritmo atualizou a tela: uma aberração política, daquelas sempre protagonizadas pela extrema direita, apareceu, grotesca, inflada, como um suflê de ódio que nunca deveria ter saído do forno.

Reagi no impulso — excluí o conteúdo e marquei como “fora dos meus interesses”. Por que fiz isso?

Porque, como qualquer cozinheiro sabe, há ingredientes com os quais não se negocia. E também porque, nos últimos tempos, percebo o algoritmo escondendo meus próprios conteúdos — como se tivesse prazer em fazer desaparecer aquilo que alimento com tanto cuidado.

Mas, como nos antigos truques de cozinha, após a frustração surgiu a surpresa: a tela, quase viva, se atualizou novamente, refletindo silenciosa a minha recente exclusão, percebida pelo algoritmo invisível. E então apareceu, cintilante e ágil, um vídeo — certeiro como um garçom que adivinha o pedido antes que seja pronunciado. Falava sobre a palavra do ano, e por um instante, toda a frustração se dissolveu na luz que tremeluzia na tela.

Sim, era exatamente essa. Uma expressão que chegava carregada de intenções e sombras: rage bait. Ou, se quisesse ouvir a poesia perversa do português, poderia chamá-la de “isca de raiva”, cada palavra pesada e sedutora, pronta para fisgar corações impacientes.

Diga-me você, que desliza pelo feed como quem vasculha uma geladeira à meia-noite: você também tem se irritado cada vez mais enquanto rola a tela?

Se sim, então caiu na armadilha dourada, na tática que se alimenta de nossa indignação como vampiro se alimenta de sangue fresco.

Rage bait (isca de raiva), foi esse termo que a Oxford University Press elegeu como palavra (ou expressão) do ano de 2025. E não à toa — seu uso triplicou nos últimos doze meses, como se o mundo inteiro tivesse decidido temperar a vida com pimenta demais.

AFINAL, O QUE É A TAL “ISCA DE RAIVA”?

Mesmo que o nome seja novo para muitos, quase todos já provaram desse prato — e eu mesmo fui servido logo ao amanhecer.

A Oxford University Press define rage bait como conteúdos publicados deliberadamente para provocar indignação: são chamativos, frustrantes, provocativos, ofensivos. Não por acaso, funcionam como o “clickbait”, só que com um tempero emocional mais ardente.

Clickbait — ou, para os íntimos, “isca de clique” — é aquela velha artimanha do mercado digital que se veste com o exagero de um ator decadente: títulos berrantes, imagens histéricas, vídeos que prometem mundos e fundos.

Tudo isso armado com o único propósito de arrastar o usuário pela curiosidade, como se puxasse um peixe inocente pelo anzol, conduzindo-o até uma página onde o tráfego vale mais do que a verdade. E, claro, uma vez lá, o leitor descobre que o banquete prometido não passa de farelo: conteúdo raso, promessas vazias, uma mesa posta para enganar — mas ainda assim lucrativa para quem o serviu.

Mas, no caso da isca de raiva, o objetivo não é apenas fisgar o clique — é cozinhar sua raiva, deixá-la bem suculenta, nutritiva para os algoritmos famintos.

E, veja só, a rage bait (isca de raiva) disputou seu trono com duas outras expressões do léxico contemporâneo: aura farming (cultivo de aura): a arte de cultivar uma persona carismática, elegante, misteriosa — como quem acende velas ao redor de si para parecer iluminado; e, biohack: o ritual moderno de tentar ajustar corpo e mente como quem regula o forno — suplementos, tecnologias, rotinas, tudo para produzir a melhor versão de si.

As três finalistas passaram por votação pública, mas foram os especialistas da Oxford que, ao final, decidiram. E faz sentido, já que o crescimento explosivo do termo demonstra que estamos mais atentos às manipulações emocionais que nos capturam.

E não poderia ser mais verdadeiro: antes a internet nos atraía pela curiosidade; agora, quer nossas emoções refogadas e servidas quentes.

O CICLO ENTRE 2024 E 2025: UM MENU DE EXAUSTÃO

Eu, que vivo em meio a bibliotecas, institutos de pesquisas, blogs, leituras em várias línguas e pesquisas por caminhos digitais tortuosos, já esperava que a isca da raiva vencera. Afinal, o ano de 2024 havia consagrado a expressão brain rot — “cérebro podre”, numa tradução tão literal quanto triste.

Esse termo descreve a deterioração mental causada pelo consumo excessivo de conteúdo trivial — rolagens infinitas, vídeos curtos, superficialidade mastigada como comida de micro-ondas.

Seu uso do “cérebro podre” cresceu 230% em 2024, o que talvez explique por que convivo diariamente com seus sintomas: comentários que dizem “seu texto é grande demais, não consigo ler até o final” ou, quando o cérebro podre chega ao ponto de ebulição, e surgem  insultos mais diretos. Pessoalmente, considero uma bênção: faço uma faxina, dou risada e bloqueio sem dó.

Mas o ponto é claro: brain rot (cérebro podre) e rage bait (isca de raiva) formam um ciclo perfeito — um caldo que ferve até transbordar. A indignação gera engajamento, o algoritmo amplifica, as mentes exaustas aceitam qualquer migalha de informação. As fake news se espalham como mofo em pão esquecido, e ninguém pesquisa, ninguém lê. Apenas compartilham, como reflexo.

Curiosamente, outras instituições também ofereceram suas palavras do ano: o Cambridge Dictionary escolheu parassocial, esse laço emocional que sentimos por celebridades que nunca nos deram bom-dia; já, o  Collins Dictionary preferiu vibe coding, sobre usar Inteligência Artificial para transformar intuição em código — algo entre alquimia digital e poesia programada.

No Brasil, há iniciativas como essas, sim, mas nenhuma com a profundidade das instituições citadas. Por aqui, os métodos são nebulosos, as escolhas variam, e às vezes parece que a palavra do ano serve mais para agradar interesses do que para revelar o espírito do tempo.

E enquanto eu ainda ruminava essa revelação linguística — a tal “isca de raiva”, pescada pelo algoritmo como quem joga um anzol na minha manhã —, percebi que havia ali uma coincidência mais saborosa do que eu esperava admitir. Porque, veja bem, toda isca, seja digital ou culinária, nasce do mesmo princípio ancestral: seduzir. Atrair. Enganar um pouco, se necessário. E, no fundo, conduzir o outro exatamente para onde queremos.

Foi então que algo quase poético (ou perversamente irônico) se insinuou na minha cabeça: como é curioso que a palavra do ano evoque justamente aquilo que a cozinha tradicional aprendeu muito antes das redes sociais — que uma boa isca pode mover mundos, das panelas aos feed infinitos.

Os algoritmos, afinal, não inventaram a manipulação; apenas a refogaram com tecnologia de ponta. Muito antes deles, os cozinheiros e cozinheiras já sabiam que um pedaço bem cortado, uma fritura bem calculada, uma crosta dourada no ponto exato eram suficientes para capturar qualquer atenção — fosse a de um comensal faminto ou a de um frango distraído.

E assim, ao lembrar das minhas próprias aventuras culinárias, a metáfora escorregou dos meus dedos como manteiga quente: talvez a melhor maneira de compreender a tal “isca de raiva” seja olhar para a mais humilde e deliciosa de todas as iscas — não a digital, mas a de frango. Sim, ela mesma, dourada, estalante, ancestral. Uma técnica simples e ainda assim poderosa o suficiente para atravessar gerações, cozinhas e agora, veja só, análises socioculturais sobre o comportamento humano – como essa que apresento.

Porque se há algo que une a fúria dos feeds e o perfume irresistível de uma fritura bem feita é exatamente isso: ambos sabem como nos capturar. Ambos sabem como nos impelir a um gesto rápido. Ambos dominam, com maestria quase cruel, a arte de despertar o que existe de mais instintivo em nós.

E é por esse caminho deliciosamente tortuoso que eu convido você a seguir: do léxico ao fogão, do algoritmo à panela. Deixemos por um instante a raiva digital repousar no canto da mesa, enquanto apresento a origem mais literal, mais saborosa e, quem diria, mais honesta dessa palavra que nos fisga — a verdadeira isca, aquela feita de frango, gordura quente e tradição. 

A GENEALOGIA SECRETA DAS ISCAS: QUANDO A COZINHA INVENTOU, SEM SABER, A SEDUÇÃO EM TIRAS

Se a tal isca de raiva moderna nasceu das engrenagens frias e maliciosas do algoritmo, suas ancestrais mais dignas — e, ouso dizer, mais honestas — vêm de um mundo muito anterior às telas. Um mundo de fogo, manteiga e mãos habilidosas. Um mundo onde a sedução não era digital, mas culinária. Pois, antes que o termo migrasse para o vocabulário febril das redes, a ideia de “iscas” já existia na cozinha, e sua história é um banquete que atravessa séculos.

E como toda comida verdadeiramente viva, as iscas de frango não têm pai, mãe ou certidão de nascimento. Não surgiram como uma invenção genial — aconteceram. Nasceram da necessidade, desse instinto primitivo e eterno que molda panelas e sociedades: a urgência de fazer mais com menos, de transformar sobras em refeições, de acelerar o cozimento sem sacrificar a alma do prato.

AS PRIMEIRAS SEDUÇÕES: EUROPA, SÉCULOS XVIII E XIX

Muito antes de receitas formais ou tratados de gastronomia industrial, nas cozinhas domésticas, mulheres — mulheres que eram ao mesmo tempo biblioteca, laboratório e templo da casa; e, invisíveis para os livros de história, mas essenciais à sobrevivência e à beleza da mesa — já sabiam, com instinto e paciência, que cortar em tiras não era mera conveniência: era um truque infalível, quase mágico. Tornava o cozimento mais rápido, multiplicava porções, harmonizava pedaços irregulares que sobravam da desossa, e transformava o comum em algo elegante, mesmo que ninguém registrasse em livros oficiais. Era uma técnica invisível, cotidiana, mas doméstica demais para figurar nas páginas da história — e, ainda assim, essencial para a sobrevivência, a economia e a beleza da mesa.

Na França do século XVIII, essa prática cotidiana começou a encontrar registro formal nas mãos de chefs como La Varenne e, mais tarde, Carême.

Surge então o termo émincé, aplicado a cortes finos, longos, elegantes, transformando um gesto doméstico em técnica profissional, e preparando o caminho para o que séculos depois seria chamado, sem alarde, de “iscas de frango”.

Só o fato de o émincé ser elevado à categoria de técnica pelos chefs de cozinha — quase todos homens naquele período — já lhe conferia um prestígio quase teatral. O termo, destinado a cortes finos, longos, elegantes, transformava o simples ato de cortar carne em um ritual de precisão. Cada tira, que nas cozinhas domésticas passaria despercebida, agora parecia pincelada pela mão de um artista, cada gesto calculado, cada movimento carregado de intenção.

Era a alta cozinha colocando sua assinatura sobre algo que, em essência, nasceu da prática cotidiana, da engenhosidade invisível das cozinheiras anônimas. A técnica masculina formalizava o gesto, mas a alma, como sempre, permanecia nas mãos daqueles que cozinhavam por necessidade, cuidado e amor — ainda que ninguém lhes atribuísse o crédito nos livros.

Daí, foi um pulo para o surgimento dos émincés de volaille. Essas tiras salteadas de carne de ave ainda não possuíam uma identidade própria, um nome que lhes desse personalidade, mas já eram uma declaração de técnica, precisão e cuidado.

Cada pedaço era conduzido à sua melhor versão, aquecido na manteiga no instante exato, envolvendo a cozinha com aromas sutis, quase secretos, como se cada fio de carne sussurrasse promessas de elegância e refinamento.

Era a arte da cozinha em gestos mínimos: simples, mas meticulosamente orquestrados, antecipando o que séculos depois chamaríamos de “iscas de frango”, com a diferença de que ali cada movimento carregava consciência, intenção e poesia.

Como toda boa técnica francesa, o émincé começou discreto, quase tímido, sussurrando pelos cantos das cozinhas de mansões e restaurantes aristocráticos. Mas, ao contrário de um segredo que se perde com o tempo, esses gestos silenciosos se tornaram indispensáveis, espalhando-se pelas panelas como uma melodia que ninguém quer esquecer.

Transformaram a prática cotidiana em tradição, moldando hábitos, refinando movimentos, e preparando o terreno para o que, séculos depois, chamaríamos de “iscas de frango” — a ponte perfeita entre a precisão calculada da haute cuisine e a sedução simples, quase instintiva, de um alimento cortado em tiras, capaz de encantar, saciar e, sobretudo, conquistar pelo gesto e pelo sabor.

SÉCULO XIX: OS EXÉRCITOS, AS FERROVIAS E A TIRANIA DO TEMPO

Se nas cozinhas aristocráticas o émincé era sinônimo de refinamento, precisão e elegância, nas cozinhas militares e ferroviárias ele se transformava em pura sobrevivência. Ali, o glamour e a manteiga francesa cediam lugar à urgência, à lógica dura da fome e do tempo contado: cada movimento precisava ser eficiente, cada pedaço de frango aproveitado até o último fio de carne.

Cortar em tiras significava muito mais do que estética — era a solução para três demandas fundamentais: alimentar multidões rapidamente, economizar proteínas escassas, e cozinhar sem luxo, mas com máxima eficiência.

Cadernos de campanha de exércitos alemães, franceses e ingleses registram receitas de frango em tiras com a mesma solenidade com que um poeta anotaria versos — não por vaidade, mas por necessidade. Essas tiras apareciam em refeitórios de soldados, em mesas de trabalhadores ferroviários e até em cozinhas de hospitais militares, cada uma adaptada à dureza do contexto: algumas salteadas rapidamente, outras fervidas em caldos ralos, todas obedientes à lei inexorável do tempo.

O fascinante é que essa técnica de simplicidade prática surgia quase simultaneamente em lugares distintos, como se o universo conspirasse para ensinar que a necessidade é a mãe da invenção.

Era, em sua essência, um gesto humano e universal: diante da pressão, homens e mulheres encontraram na tirinha de frango a resposta perfeita à tirania do relógio. Cada corte revelava, sem alarde, uma elegância utilitária — um refinamento forjado não pela pompa, mas pela exigência brutal do cotidiano.

Mais do que simples alimento, essas tiras simbolizavam a harmonia entre eficiência e economia, a tradução prática de que até o mais humilde pedaço de carne podia ser transformado em sustento digno, rápido e saboroso.

E, ironicamente, séculos depois, essa mesma ideia ressurgiria nos diners americanos e nos bares brasileiros como as modernas iscas de frango, ligando sem esforço a aristocracia invisível da técnica francesa à crueza pragmática das cozinhas de campanha. 

A VIRADA AMERICANA: QUANDO AS ISCAS GANHAM MARKETING

O século XX, sempre dramático, teatral e carregado de ambições industriais, trouxe um novo protagonista à história das tiras de frango: os Estados Unidos, país da velocidade, da produtividade obsessiva e da fome insaciável por eficiência e lucro. Aqui, o frango deixaria de ser apenas alimento e se tornaria instrumento de indústria, marketing e identidade cultural.

A carne de frango, antes delicadamente cortada em mansões parisienses ou cadernos de campanha europeus, agora era domada por este novo mundo de linhas de produção, dinheiros rápidos e consumidores apressados, ansiosos por sabor imediato.

Entre as décadas de 1930 e 1950, algo curioso e quase mágico aconteceu, como se a história da culinária tivesse decidido brincar de alquimia: três irmãos surgiram da mesma matriz, cada um com sua personalidade e função, e todos destinados a confundir cozinheiros, cardápios e clientes pelo mundo. Como em um espetáculo teatral, cada nome carregava uma promessa diferente, um marketing implícito, uma identidade cuidadosamente moldada para seduzir o olhar e o paladar: chicken tender, chicken strip e chicken finger.

Chicken tender: um corte anatômico autêntico, conhecido por tenderloin, ou o “filé mignon” do peito de frango. Sempre macio, sempre uniforme, sempre satisfeito de sua própria importância. Uma peça que se apresenta impecável, suculenta, exatamente como a natureza ou a engenharia industrial permitiu. No Brasil, conhecemos esse pedaço anatômico do frango por sasami ou filezinho.

Chicken strip: tiras feitas do peito, cortadas à mão, cada uma com personalidade própria — umas mais grossas, outras finas, algumas tímidas, outras audaciosas, todas com humor e textura variáveis. Não requerem o prestigioso tenderloin; a maioria se contenta com o peito inteiro, aceitando com elegância a imperfeição.

Chicken finger: o nome mais teatral da família, que privilegia o gesto e a forma sobre a anatomia. Um “dedo” dourado, alongado, sedutor, pronto para ser devorado. Pode ser feito tanto com tenderloin quanto com tiras de peito, pois, afinal, a aparência importa mais do que a origem. Um espetáculo comercial, digno de cartaz de neon, sem exigir nenhuma delicadeza técnica do cozinheiro.

Três variações de um mesmo conceito — tiras de frango — que transformariam a simplicidade do peito de ave em um símbolo da modernidade americana, conectando a eficiência industrial com a sedução do alimento pronto para consumo.



No fundo, todos compartilhavam a mesma essência: tirinhas de frango empanadas e fritas, prontas para satisfazer o apetite ansioso da modernidade, aquele impulso que confunde pressa com prazer. Não demorou para que os primeiros registros escritos surgissem no Condon’s Restaurant, em Manchester (New Hampshire), no início dos anos 1950, uma humilde epifania de marketing e sabor.

E como toda ideia que acerta o coração da gula e da eficiência, os chicken strips logo se espalharam pelos diners americanos dos anos 1960 — templos de néon, fritura e algodão doce — transformando-se no símbolo da comida rápida, uma espécie de poesia industrial: crocância, calor e conforto embalados em tiras, servidos com a velocidade que o novo mundo exigia.

Cada mordida era um manifesto da modernidade, um gesto simples que unia tradição francesa, pragmatismo militar e a voracidade da indústria americana. 

A CHEGADA AO BRASIL: ONDE A ISCA TE PEGA NO BAR

No crepúsculo de uma velha ordem agrária, o Brasil começava a se transformar. A avicultura, antes modesta e dispersa, ganhava tração: a criação intensiva de frangos se expandia, especialmente nas décadas de 1950 a 1970, impulsionada por tecnologias, melhoramento genético e uma nova economia de escala.

E, com ela, chegava silenciosa — mas irresistível — a possibilidade de tornar o frango tão comum quanto arroz e feijão, tão cotidiano quanto o pão de cada dia.

Foi nesse solo em mutação que as “iscas de frango” encontraram terreno fértil entre os anos 1970 e 1980: um Brasil em corrida pela urbanização, com novas classes sociais, com jovens que buscavam comer fora, com bares que precisavam oferecer petiscos fáceis, saborosos e baratos.

A esse contexto se unia um ingrediente essencial: o frango, cada vez mais abundante e acessível, pronto para assumir o protagonismo que, até então, cabia ao boi, ao porco, aos peixes, às “iscas de carne” ou “iscas de peixe”.

Nos bares e botequins — esses altares improvisados da sociabilidade brasileira — o nome “isca” já existia: discreto, modesto, quase paternal, evocando o gesto de petiscar, partilhar mesa com copo ao alcance e conversa alta. Mas faltava à mesa uma ave que suportasse o empanamento, a fritura intensa, o calor do óleo e a crocância necessária para saciar fome e desejo de maneira econômica. Foi aí que o frango — macio, neutro, acessível — se impôs como protagonista de uma nova tradição: escolha de bolso, gesto de afeto, petisco democrático.

Nas décadas de 1940 e 1950, surgem os primeiros indícios documentados — ainda que frágeis — de “frango à passarinho” em cardápios e anúncios de botecos: há quem aponte um anúncio de cantina em Curitiba (PR), datado de 1952, como uma das menções mais antigas do prato no país. Outras versões recordam que restaurantes da região de São Bernardo do Campo (SP) já serviam o prato desde 1949 — segundo relatos de botequeiros e donos de restaurantes.

Como prato, o frango à passarinho não segue a lógica austera de cortes precisos ou tiras uniformes. Em vez disso, é feito com pedaços pequenos — coxa, sobrecoxa, asa — geralmente cortados nas juntas, fritos em imersão de óleo quente. O resultado: carne suculenta, pele crocante, aroma de alho e óleo que invade o salão, um prato perfeito para dividir com cerveja gelada e conversas soltas.

O nome “à passarinho” evoca tanto o tamanho reduzido dos pedaços — lembrando aves pequenas — quanto uma tradição antiga de caças e “passarinhas” em festas rurais, adaptada com o tempo para o frango disponível nas cidades.

Como eu não me contento, fui pesquisar mais.  E os sussurros da história me levaram para Itália, onde possivelmente o tal do frango à passarinho se originou. Dizem que ele seria uma adaptação de um prato chamado pollo all'uccelletto — literalmente “frango/pássaro pequeno” ou “franguinho passarinho”.

Na tradição toscana — embora o nome “all’uccelletto” tenda a se aplicar a pratos de feijão, legumes ou carnes menores — havia a prática de cozinhar aves pequenas, miúdas, ou pedaços de carne em cortes simples, com azeite, alho e ervas, evocando a rusticidade rural e a simplicidade dos ingredientes disponíveis.

Nos anos de 1940 e 1950, Curitiba e São Bernardo do Campo não eram apenas cidades; eram redutos pulsantes de comunidades italianas consolidadas, territórios onde tradições, aromas e técnicas da península europeia conviviam com a vida cotidiana brasileira. É fácil imaginar que, em meio a essas colônias, a ideia de fritar pequenos pedaços de frango — inspirada em pratos como o pollo all’uccelletto (pequenos frangos assados ou cozidos com ervas, típico da Toscana) — tenha sido transportada por imigrantes ou seus descendentes.

No entanto, como toda boa adaptação, o prato sofreu mutações: o frango se tornou mais barato, os pedaços foram cortados nas juntas, mergulhados em óleo quente, perfumados com alho e limão, servidos para mãos ávidas em bares e botequins, transformando necessidade em celebração.

A geografia e a cultura desses lugares colaboraram: Curitiba e São Bernardo do Campo eram pontes entre a tradição italiana e os hábitos locais de feiras, cantinas e mesas compartilhadas. E assim, o nome “à passarinho”, lúdico e inventivo, nasceu talvez como tradução livre de “uccelletto”, capturando com humor e leveza o espírito de um prato que seria, ao mesmo tempo, homenagem e reinvenção popular.

Mas aqui mora a ambiguidade, a névoa da história: não existe hoje — ao menos publicamente — um documento concreto, um cardápio original, um artigo de jornal ou uma caderneta de receitas datada que comprove com certeza absoluta que aquele anúncio de 1952 ou o restaurante de 1949 foram de fato os “primeiros”. Todo o passado é tecido por relatos de botequins, lembranças familiares e tradições orais, tão vivas quanto inconstantes.

Assim, a origem italiana do frango à passarinho permanece como uma hipótese plausível, bela e simbólica — uma ponte entre a cozinha camponesa da Toscana e os bares calorosos do Brasil pós guerra —, mas não como fato certificado. A incerteza, aliás, dá à história um sabor extra: o sabor da memória coletiva, da adaptação, da reconstrução cultural.

Dessa forma, ao falarmos de “iscas de frango” no Brasil, convém distinguir com clareza:

        As iscas em tiras — herdeiras diretas da técnica refinada do corte fino (como no émincé francês) e adaptadas à lógica moderna dos “chicken strips” (dos EUA)

        O frango à passarinho — fruto da adaptação popular (de uma possível origem italiana), da pressa urbana, da fartura fácil e da sociabilidade de bar: pedaços de frango cortados nas juntas, fritos, servidos borbulhando, com sal, alho, limão, acompanhando copos e risadas.

Essa distinção não diminui a poesia do melhoramento dos pratos no âmbito nacional — antes, a valoriza. O frango à passarinho não é imitação servil de fast food estrangeiro nem mera cópia de técnica refinada; é criação popular, hibridismo de necessidade, sabor e convivência. Assado em óleo quente, o frango rústico renasce como símbolo de festa, comunidade e memória afetiva.

Esse petisco — simples, barato, imediato — tornou-se símbolo de conveniência urbana, de sociabilidade despretensiosa, de conforto rápido depois do trabalho, de cerveja gelada e conversa solta. Símbolo dos bares brasileiros. Era o frango que se transformava em ponte entre o rural e o urbano, entre a colheita e a mesa do boteco, entre a fome do operário e a gula festiva da noite.

Interessante notar que, no Brasil, o hábito de comer frango frito no balde — o ícone da globalização fast food — existia antes mesmo da chegada oficial da grande rede estrangeira que o popularizou. Estabelecimentos pioneiros já serviam “frango frito no balde” a partir de meados da década de 1960, com redes nacionais como a Chicken-In (fundada em 1967, em Campinas-SP), antes mesmo da chegada da KFC ao país.

Esses bares e lanchonetes nacionais “tropicalizaram” a ideia — adaptando a aos gostos locais, aos recursos disponíveis, às urgências brasileiras — e criaram um hábito que, por sua vez, preparou o terreno para a expansão de redes globais, décadas depois.

Ou seja: a “isca de frango” no Brasil não é cópia servil de fast food estrangeiro — é reinvenção, adaptação, apropriação criativa. É cultura popular em óleo quente, é o emprego da técnica para satisfazer o imediatismo urbano, é a tradição reinventada sob o mantra da praticidade.

E se me pedem uma origem mais poética e sociológica, digo: as iscas brasileiras são filhas de um Brasil em transição — da roça à cidade, do forno a lenha ao fogão elétrico, do almoço de família ao petisco de bar, da paciência à pressa, do luxo da haute cuisine ao gosto universal pelo sabor imediato.

Cada tira de frango empanada e frita carrega em si esse cruzamento de mundos — a herança da técnica refinada, o legado da necessidade, o sabor da improvisação, o calor da convivência. É a carne humilde que se ergueu para ser símbolo de festa, de amizade, de boemia, de sobrevivência cotidiana.

Aqui em Fortaleza o frango à passarinho e as iscas de frango (assim como iscas de peixe ou carne) são presença constante nos bares e botequins: petiscos de calor, riso e cerveja. Mas o que vemos realmente é uma bifurcação criativa da tradição: em algumas mesas simples, as iscas chegam não empanadas — apenas fritas na imersão no óleo quente, crocantes e sinceras; já nas barracas de praia ou restaurantes de hotel, o ritual muda de figura: o frango empanado encontra desde a farinha de rosca tradicional até a oriental farinha Panko, o calor da fritura torna-se refinamento, e o petisco busca status.

Em lugares assim, as iscas não vêm só com sal e limão — surgem acompanhadas de molhos que misturam maionese, ketchup e mostarda, rendendo — em versões populares — o tradicional “molho rosado” dos lanches e petiscos brasileiros; em versões mais sofisticadas, entram molho de mel e mostarda, barbecue ou cremes temperados, como a maionese de alho. Esta adaptação contemporânea ressignifica o petisco: de necessidade modesta ele vira elegância casual, um gesto de sabor com leveza e aspiração.

Por outro lado, o frango à passarinho verdadeiro — frito, simples, direto — mantém seu arrebatamento popular: pedaços pequenos, com osso ou não, alhos que viram ouro no óleo, o perfume se espalhando pelo ar abafado do bar, copos tilintando e conversa alta. Raramente ele aparece com molhos cremosos ou pretensões gourmet — e talvez por isso sobreviva como o sabor de casa, de infância, de encontro despretensioso.

Essa convivência de versões — a rústica, a empanada, a “requintada” — revela algo sobre nossa identidade de comer e pertencer: buscamos, ao mesmo tempo, conforto imediato e inovação; tradição popular e cosmopolitismo; o simples e o aspiracional. E, no fundo, cada isca, cada tira, cada pedaço de frango diz quem somos — um povo que transformou o simples em celebração, a pressa em convívio e o frango em memória coletiva.

MAS AFINAL, QUEM CRIOU AS ISCAS?

Ninguém, verdadeiramente. Ou, para ser mais franca — todos nós, em alguma cozinha, em algum momento. As iscas de frango são filhas da necessidade, do improviso, da inteligência doméstica, da urgência militar e, depois, da lógica industrial. São fruto natural da evolução culinária, uma espécie de herança coletiva que atravessou séculos, continentes e estilos de cozinha.

Mas, para mim, cada tira de frango é, portanto, um eco direto do émincé de volaille, da pressa das cozinhas ferroviárias e militares, e da engenhosidade americana do século XX.

Mas, se me pedem uma origem mais poética, histórica e técnica — se querem conhecer a primeira forma elegante reconhecível do que hoje chamamos “iscas” — então não hesito: tudo começa com o émincé de volaille, essas tiras finíssimas de frango salteadas, fruto da alta cozinha francesa do século XVIII.

É nele que encontramos a semente do gesto perfeito, o corte que equilibra rapidez, aproveitamento e elegância, transformando um simples pedaço de ave em símbolo de técnica, cuidado e sedução. 

O ÉMINCÉ DE VOLAILLE: A MÃE FRANCESA DE TODAS AS ISCAS

O século XVIII francês foi um momento de profunda transformação cultural e culinária. A cozinha, que até então se movia entre a opulência medieval e renascentista — caldos pesados, especiarias exageradas, apresentações barrocas — começava a buscar uma estética racional, leve e técnica. Nascia, então, a haute cuisine (alta cozinha), uma verdadeira revolução que unia precisão, estética e controle.

Nomes como La Varenne e Antonin Carême não apenas participaram dessa metamorfose: eles a moldaram, transformando a preparação de alimentos em uma linguagem sofisticada, quase musical, em que cada corte, cada redução e cada movimento na panela tinha seu lugar e significado.

Antes de existir como receita ou prato formal, havia a técnica. O verbo émincer, que significa “fatiar finamente”, surge nos registros do século XVII, aplicado inicialmente a legumes, ervas, carnes e aves. Mas foi no século XVIII que ele alcançou prestígio, tornando-se um dos pilares da cozinha francesa clássica.

Cortes uniformes, tiras delicadas de carne ou frango, precisão nos tempos de cocção: tudo se tornava uma extensão da mão do cozinheiro, uma dança silenciosa entre ingrediente e técnica.

O contexto histórico reforça essa evolução: La Varenne, em Le Cuisinier François (1651), já propunha cortes mais delicados, temperos equilibrados e uma leveza de execução que rompia com os exageros do passado. Décadas depois, Antonin Carême (1784–1833), o “rei dos chefs e chef dos reis”, consolidaria a sofisticação da cozinha francesa: molhos-mãe, reduções cuidadosas, técnicas de saltear e a padronização dos cortes transformavam qualquer preparação em um exercício de harmonia e refinamento.

O émincé nasce nesse ambiente como gesto técnico e estético — não apenas para cozinhar, mas para exercer poder e controle sobre o alimento. Cada tirinha de frango, cada fatia de carne, não era apenas parte de uma refeição: era manifestação de elegância, ciência e arte.

A delicadeza de um corte tornou-se símbolo de competência, refinamento e da própria modernidade da cozinha francesa, pavimentando, séculos depois, o caminho para o que chamaríamos de iscas de frango: um gesto antigo transformado em tradição universal.

O NASCIMENTO DO ÉMINCÉ DE VOLAILLE

O nascimento do émincé de volaille não foi apenas uma questão de cortar frango em tiras: foi a materialização da técnica francesa aplicada a uma carne ideal, clara, macia e dócil ao calor da manteiga. O frango tornou-se o modelo perfeito para expressar precisão, ritmo e elegância na cozinha, permitindo que cada tirinha fosse tratada como uma pequena obra-prima. A partir desse gesto surgiram preparos clássicos, cada um com sua personalidade, sua sofisticação e seu caráter definido:

        Émincé de volaille à la crème – tiras de frango salteadas, envoltas em um molho suave, geralmente à base de creme de leite, por vezes enriquecido com redução de caldo de ave, vinho branco e échalote. Um prato que revela a delicadeza da técnica: cremoso, equilibrado, sem elementos que distraiam do protagonismo da carne.

        Émincé de volaille aux champignons – o frango se une ao aroma terroso e profundo dos cogumelos paris, com ou sem creme de leite, dependendo da escola. Aqui, o vegetal não é coadjuvante: torna-se personagem principal, demonstrando a capacidade do émincé de adaptar-se à harmonia dos sabores.

        Émincé de volaille financière – uma expressão da haute cuisine em toda sua opulência e precisão. As tiras de frango são acompanhadas de guarnição financière, um elaborado conjunto de cogumelos, tournedos ou trufas picadas, pequenas quenelles de frango ou galinha e corações de alcachofra, tudo ligado a um molho profundo, geralmente demi-glace ou fundo escuro com vinho madeira. Um prato de densidade saborosa e sofisticação notável.

        Émincé de volaille à la suprême – tiras de frango finalizadas com molho suprême, velouté de volaille enriquecido com creme de leite e manteiga, claro, elegante e delicadamente estruturado. Um exemplo da leveza e precisão da cozinha clássica, onde o sabor brilha sem peso, e a textura das tiras se mantém impecável.

Cada uma dessas preparações, embora diversas, compartilha a mesma essência: cortes finos, salteados com rapidez e técnica, imersos em molhos que realçam a carne sem dominá-la.

O émincé de volaille não é apenas uma receita: é um gesto de refinamento, um elo entre a precisão da haute cuisine e a harmonia dos sabores, a base ancestral de todas as iscas de frango que surgiriam séculos depois.

Essa estrutura de cortes finos, rápidos e precisos aparece com clareza entre 1760 e 1820, período em que uniformidade, economia e velocidade tornaram-se virtudes tão valorizadas quanto o sabor e a apresentação. O primeiro registro formal do nome émincé de volaille surge no início do século XIX, mas a técnica já pulsava nas cozinhas muito antes, como um segredo silencioso, repassado de cozinheiro a cozinheiro, de mestre a aprendiz, quase como uma partitura culinária que ditava ritmo e cadência à manteiga quente e ao calor do fogão.

Com o surgimento dos primeiros restaurantes modernos — filhos diretos da Revolução Francesa, símbolos da democratização da refeição fora do lar — cresceu a necessidade de pratos rápidos, refinados, econômicos e repetíveis. O émincé encaixava-se como uma luva: tiras uniformes que cozinhavam rápido, aproveitando cada centímetro do frango, combinadas a molhos delicados, permitindo que a cozinha mantivesse excelência sem perder agilidade. Tornou-se clássico do almoço parisiense, símbolo da precisão francesa, e logo começou a cruzar fronteiras, carregando consigo a elegância do gesto técnico.

Quando a técnica francesa viajou pelo mundo, não levou apenas um método de corte — levou uma filosofia: cozinhar com rapidez, economia e elegância, respeitando o ingrediente e a harmonia do prato. Séculos depois, essa lógica renasceria em diferentes contextos: nos chicken breast strips americanos, nos chicken tenders, nos stir-fry de fusões europeias e asiáticas, e, inevitavelmente, nas iscas brasileiras. Cada tira, cada pedaço empanado ou salteado, é uma continuidade dessa tradição.

Hoje, ao fritarmos, saltearmos, empanarmos e devorarmos, quase sem perceber, repetimos um gesto milenar: aquele corte certeiro, a atenção ao tempo exato de cozimento, a busca pela textura perfeita. Um gesto nascido antes da fotografia, antes do telefone, antes da pressa moderna; um gesto que conecta mansões aristocráticas de Paris, diners americanos de néon e os bares e botequins de nossos dias. É a história da técnica transformada em prazer cotidiano, a elegância clássica disfarçada de simplicidade, a haute cuisine tocando, suavemente, o cotidiano de quem só queria uma boa isca de frango.

CONCLUSÃO: O ANCESTRAL QUE VIVE EM CADA ISCA

O émincé de volaille não nasceu como prato, mas como linguagem, como filosofia do corte e da cozinha, manifesto silencioso da precisão francesa do século XVIII. Ele era rapidez, elegância, uniformidade, economia — quase uma pedagogia do frango: cada tira tinha seu tempo exato no calor da manteiga, cada movimento de faca uma cadência, cada molho uma declaração de sutileza. Um gesto técnico que, séculos depois, se disfarçaria de simplicidade em restaurantes americanos e bares brasileiros, mas carregava consigo a alma da haute cuisine.

Hoje, ele é o ancestral direto de tudo o que chamamos “iscas de frango”. Dos chicken strips padronizados dos diners de Manchester às tiras empanadas nas barracas de hotel, das iscas de peixe e carne aos pedaços rústicos e dourados do frango à passarinho nos botequins de Curitiba, São Bernardo ou Fortaleza, cada fatia lembra que a técnica francesa e a improvisação popular, a aristocracia e o bar, a sofisticação e a pressa urbana podem conviver num mesmo prato.

E, se olharmos além da cozinha, percebemos que essa lógica de captura não é apenas culinária. A mesma tensão que nos leva a clicar em um título sensacionalista — a isca digital, a clickbait emocional — encontra paralelos na tradição do alimento em tiras: algo pequeno, rápido, acessível, irresistível. Seja na tela ou no prato, é o mesmo princípio: prender atenção, satisfazer desejos imediatos, gerar prazer quase instintivo. A comida e o algoritmo, portanto, não estão tão distantes quanto gostaríamos de pensar.

No final, cada isca que devoramos carrega memória, história e técnica: o passado francês, a engenhosidade dos exércitos, a pressa dos diners americanos, a criatividade dos botequins brasileiros. Cada pedaço é simultaneamente ferramenta, herança e poesia: uma história de mãos que cortam, frigideiras que tilintam, panelas que borbulham, pessoas que compartilham, risadas que se espalham. O émincé de ontem vive em cada tira de hoje, lembrando que até mesmo o gesto mais cotidiano pode ser ancestral, elegante e, sim, deliciosamente irônico.

Curiosamente, lembrem-se, foi justamente a palavra do ano, rage bait — a “isca da raiva” — que me arrastou por todo esse labirinto de história, cozinha e cultura. Ela prova, de forma quase fatal, que uma boa isca sempre funciona: seja para capturar cliques, provocar emoções digitais ou fisgar olhares famintos diante de um prato fumegante de frango em tiras.

O que começou como uma reflexão sobre títulos sensacionalistas se transformou numa viagem pelos séculos, das cozinhas aristocráticas francesas aos bares e botequins brasileiros, mostrando que, no fundo, toda isca — emocional ou culinária — compartilha o mesmo segredo: irresistibilidade combinada à promessa de recompensa imediata.

A culinária e o algoritmo, afinal, não são tão diferentes: ambos sabem que nada captura tão bem quanto uma boa isca.

EMINCÉ DE VOLAILLE À LA SUPRÊME

Ingredientes (para 2 pessoas — ajuste conforme necessidade)

2 peitos de frango (sem pele e osso),

50 g de manteiga sem sal

Sal e pimenta branca a gosto

Para o molho Suprême:

500ml de caldo de galinha

50 g de manteiga para o roux

50 g de farinha de trigo (para o roux)

Cream (creme de leite fresco ou creme pesado) ~150 ml

(Opcional) suco de limão, sal e pimenta branca a gosto

Modo de preparo: Tempere os peitos de frango com sal e pimenta. Aqueça uma mistura de manteiga e um pouco de óleo numa frigideira antiaderente. Doure bem os peitos de frango de ambos os lados — cerca de 5 minutos de cada lado. Retire o frango e reserve, mantendo o calor.

Para preparar o molho Suprême: Derreta os 50 g de manteiga em uma panela, junte a farinha e mexa até formar um roux claro; Aos poucos, adicione o caldo de galinha, mexendo bem para não empelotar — isso cria a velouté; Quando a velouté estiver cremosa e homogênea, incorpore o creme de leite, ajuste sal e pimenta e acrescente um fio de limão se quiser uma acidez sutil; mexa até encorpar.

Sirva os peitos de frango fatiado cobertos pelo molho Suprême, acompanhado de batatas, arroz, ou legumes — o clássico costuma pedir acompanhamento neutro para deixar brilhar a elegância do molho. 

ISCAS DE FRANGO DO BARÃO DE GOURMANDISE

400 g de peito de frango sem pele e osso, cortado em tiras (~2 cm de espessura)

Marinada de buttermilk

200 ml de leite integral

1 colher de sopa de suco de limão

1 colher de chá de sal — essa marinada rápida que mantém o frango suculento

Para empanar

60 g de farinha de trigo

10 g de amido de milho

¾ colher de chá de sal fino

½ colher de chá de pimenta preta (do reino)

½ colher de chá de páprica doce

¼ colher de chá de alho em pó

1 ovo + 1 colher de sopa de leite ou água

200 g de farinha de rosca ou panko — para cobertura crocante

Óleo neutro suficiente para fritura por imersão (~1 litro), aquecido a 175–180 °C (347–355 °F)

Preparo: Marinada – primeiro faça o buttermilk, misture o leite o suco de limão e sal numa tigela que depois caiba todo o frango cortado em tiras. Misture bem, e espere uns 3 minutos até a mistura dar uma talhada, não se assuste é isso mesmo o que se quer. Com o leite talhado, junte o frango e envolva bem nessa mistura de leite, cubra e deixe descansar 20–30 minutos. Isso ajuda a manter o frango suculento.  Preparar estação de empanado: em tigela 1 misture farinha + amido + sal + pimenta + páprica + alho; em tigela outra 2 bata o ovo com leite (ou água); em outra tigela coloque a farinha de rosca. Para empanar, escorra o frango da marinada, seque o excesso com papel toalha. Passe cada tira primeiro na mistura de farinha de trigo e amido temperado, sacudindo o excesso; depois mergulhe no ovo batido; por fim, cubra com farinha de rosca apertando levemente para aderir bem. Deixe as tiras empanadas descansarem 10–15 minutos — isso ajuda a crosta a firmar e não descolar durante a fritura.  Para fritar: Aqueça o óleo a 175–180 °C e frite as tiras em pequenas porções (cerca de 3–5 por vez), por 3–4 minutos ou até ficarem douradas e com temperatura interna segura. Retire com escumadeira e escorra sobre grade ou papel toalha. Sirva quente, com seu molho preferido (pode ser molho de mostarda, maionese temperada, barbecue, etc.).


sábado, 29 de novembro de 2025

UMA ODISSEIA DE REFERÊNCIAS: SOBRE OS ECOS DO MUNDO E O MEU CUSCUZ DE MILHO

 

Dia desses — embora não fosse a primeira vez — fui convidado para um evento elegante, meio íntimo, onde eu não conhecia o anfitrião e a maioria das presenças permanecia anônima aos meus olhos. Sempre detestei esses convites: a sensação de entrar num mundo desconhecido me deixa na defensiva, escondido atrás de mim mesmo, observando cada detalhe como um arqueólogo da presença alheia. Primeiro, o ambiente. Depois, as pessoas. Por fim, só então, quando o espaço já me parecia decifrável, eu me permito soltar.

O problema é que sou prolixo; gosto de explorar as minúcias, de demorar-me nas cores, nos gestos, nos tons. E, invariavelmente, quando percebo, tudo já acabou. Mas naquela noite, tentei acelerar o processo — acelerar o entendimento do espaço, do silêncio, da música.

O salão não era pequeno; pelo contrário, parecia expandir-se à medida que meus olhos percorriam cada detalhe. Pessoas selecionadas, impecáveis, cada presença carregando sua própria aura de distinção silenciosa.

A comida — meticulosa, artística, quase como se cada peça tivesse sido moldada à mão por mãos invisíveis que conheciam o segredo das gerações — ocupava a mesa do buffet com uma presença quase teatral. Num canto da mesa, erguia-se o coquetel de camarão, reinventado: em vez da tradicional concha que sempre guardou sua história, agora surgia como um vulcão de camarões temperados, imponente, quase em erupção. Ao posicionar-se no aparador, as estações estavam prontas, convidando a cada gesto de quem passasse a responder com os camarões da mesa, como se a degustação fosse um diálogo silencioso entre o tempo, a memória e o sabor. Antiquada? Talvez. Mas absolutamente deliciosa.

Pães de diversas formas e cores, alguns crocantes, outros macios, se misturavam a frutas secas, patês delicados e gravlax de salmão, perfumado com um endro picadinho que parecia uma pincelada de frescor sobre a superfície do peixe. Tudo disposto com um cuidado que convidava à contemplação: cores, texturas, brilhos, aromas — cada detalhe falava de tradição, de viagem, de história.

E ali, só naquele buffet, já me sentia saciado de descobertas, com o corpo e os sentidos envolvidos. Mas meu estômago curioso sabia que aquilo era apenas a abertura; que depois viria o jantar, que ainda se escondia nos bastidores, prometendo outra sequência de prazer e surpresa, e eu, impaciente, aguardava para me deixar atravessar por ele.

As bebidas não se limitavam a vinhos — havia uma infinidade delas, cada uma contando sua própria história líquida. Tintos profundos e densos, que escorriam nas taças como rios de rubis, prometendo calor, memórias e um deleite quase sagrado. Brancos frescos e cintilantes, espumantes que estalavam como pequenos fogos de artifício na boca, cada bolha um lampejo de festa suspensa. Uísques envelhecidos por décadas, que pareciam sussurrar segredos de carvalhos antigos e silêncios guardados, e gins perfumados com botânicos tão delicados que quase poderia borrifar um pouco no pescoço como perfume.

As taças eram pequenas obras de arte: cristal reluzente, alguns com bordas douradas, outros com facetas que refratavam a luz em minúsculos diamantes; detalhes que faziam qualquer gesto de erguer a taça parecer um ritual. Cada bebida parecia ter sido escolhida não apenas para beber, mas para ser admirada, sentida, quase venerada. E enquanto observava tudo isso, era impossível não perceber que cada aroma, cada cor, cada nuance de sabor, se entrelaçava com a música, com as conversas, com o calor humano do salão — tornando o simples ato de beber algo próximo do sublime.

A trilha sonora era familiar o suficiente para que eu pudesse cantarolar baixinho, cada nota despertando lembranças dispersas como borboletas assustadas — memórias que flutuavam no ar e se fixavam em cantos inesperados do meu ser. Lentamente, meu corpo cedeu à festa, àquela dança silenciosa de presença e percepção: sentei, sorri, ouvi, senti, provei, bebi. Cada gesto parecia calibrado, quase ritual, cada sabor explorado com a curiosidade de quem decifra mapas secretos.

E, para alguém como eu, taurino, sensível aos prazeres do mundo material, a combinação de comida e bebida assim — cuidadosa, generosa, intensa — era quase o paraíso: uma espécie de êxtase silencioso que se espalhava por todos os sentidos, deixando-me vulnerável à beleza do instante, e ao encantamento que ele carregava consigo.

Nas rodas de conversa, embora ainda envolto no meu casulo de análise, alguém me olhou, me perguntou algo, e eu respondi. Não apenas com palavras, mas com pequenos fragmentos de mundo que o outro não conhecia, conexões sutis que só meu repertório permitia.

E, aos poucos, algo curioso aconteceu: Eu, que começara a noite como tímido e observador, virei fio condutor de pequenas tempestades de ideias. Me puxaram para outras rodas, e outras, e outras. Até o fim da noite, estive em cada canto, falando de tudo — envolvido em conversas que flutuavam do trivial ao insólito, debatendo desde a eficácia poética de cebolas caramelizadas, das invenções esquecidas que outrora animaram as feiras medievais, aos mistérios do último eclipse que ninguém mais parecia lembrar, passando pela surpreendente arte de combinar queijos azuis com frutas secas ou o delicado protocolo de se servir um coquetel de camarão sem parecer anacrônico.

Cada conversa era um palco improvisado, e eu, inadvertidamente, o maestro de improvisos: arrancava risos com observações triviais que, por algum capricho, soavam como epifanias; lançava comparações absurdas — quem imaginaria que um relógio de parede pudesse ensinar mais sobre paciência que um livro de filosofia? — e, de repente, toda a diversidade ao meu redor parecia convergir em uma corrente invisível de atenção e fascínio.

O improvável se tornava normal, o antigo se reinventava em cada palavra, e eu, sem perceber, experimentava a estranha alegria de ser, ao mesmo tempo, observador e catalisador, minúcia e espetáculo.

E, claro, não lembro de tudo — foram tantas palavras, tantos risos, tantos detalhes que se entrelaçavam com cada gole. Entre uma taça e outra, o sutil poder etílico de Baco nos envolvia, sussurrando promessas de leveza e riso, enquanto o vinho escorria e tingia o tempo com cores suaves e quentes. Por sorte, mantive-me na tênue linha entre a indulgência e a consciência; justo o suficiente para absorver cada gesto, cada história, cada aroma, e perceber a noite em toda a sua plenitude até o último instante, sem que nada se perdesse no excesso.

Entre risos, comentários e pequenas epifanias, percebi que minha presença, quase sem esforço, começava a costurar mundos improváveis com palavras. Cada detalhe — por mais minúsculo, absurdo ou inesperado que parecesse — ganhava vida própria na mente de quem ouvia, como se pequenas fagulhas se acendessem em silêncio, iluminando cantos escondidos da imaginação alheia.

Em uma roda, me apelidaram de “Pedra Filosofal”; noutra, disseram que eu tinha o dom de “tirar leite de pedra”. Cada elogio soava como um eco curioso, uma nota fora do lugar que, no entanto, se harmonizava com o ritmo da noite.

Em uma roda onde o anfitrião me observava, enquanto meus olhos se perdiam nos detalhes da louça e no cintilar dos cristais, ele falou:

— Fico feliz que esteja se sentindo à vontade. Aliás, quero lhe dizer… e agradecer pela ajuda.

Sorri, enigmático, tentando decifrar por dentro: de que ajuda ele estaria falando? Então completou, com uma suavidade que atravessava a mesa como um sussurro:

— Seu repertório é tão rico que conseguiu unir todos aqui. Toda a diversidade, todas as conversas, tornaram o ambiente mais vivo. Vou chamá-lo mais vezes.

Agradeci, ainda intrigado, sem saber se aquilo era elogio, ironia ou surpresa — mas, no fundo, percebi o essencial: minha presença, meus detalhes, minhas referências — por mais improváveis ou fragmentadas que fossem — haviam encontrado eco. Haviam se entrelaçado com a curiosidade alheia, despertado sorrisos, risos contidos, pequenas epifanias. E isso, pensei, era magia suficiente para uma única noite: uma magia feita de palavras, gestos e atenção, silenciosa e efêmera, mas que deixava rastros invisíveis de conexão no ar.

Aprendi desde cedo, entre livros e viagens — e a decisão de me formar em turismo não foi acaso — que referências são riquezas silenciosas. São tesouros que se acumulam lentamente, invisíveis aos olhos, mas capazes de abrir mundos inteiros. Uma referência não se perde; ela permanece, silenciosa, pronta para se tornar ponte, fio condutor, luzinha no escuro. É a memória que conecta histórias, lugares, sabores e pessoas — e que nos permite transformar qualquer encontro, por mais simples que pareça, em algo memorável.

É exatamente sobre isso que escrevo hoje: referências e identidade. Pela minha maneira de perceber o mundo, pelo meu olhar atento, pelo modo como colho fragmentos de vidas, memórias e sabores — e, claro, pelo viés gastronômico. Pois sem essa lente particular, esse corpo de sentidos e curiosidade, eu simplesmente não seria eu. 

REPERTÓRIOS QUE CRIAM MUNDOS: REFERÊNCIAS E A ARTE DE PRESTAR ATENÇÃO

E foi nessa noite, entre taças cintilantes, risos que se espalhavam como pequenas fagulhas, e detalhes que dançavam sob a luz dos cristais, quando cheguei em casa me dei conta de algo fundamental: a atenção, o cuidado com o mundo à nossa volta, os gestos que carregam história, memória e sensibilidade, têm um poder silencioso. Cada conversa, cada aroma, cada textura que observei naquela festa era, na verdade, um pequeno universo de referências esperando para ser reconhecido. E foi exatamente ali que entendi: prestar atenção não é apenas notar, é absorver, conectar, permitir que essas pequenas riquezas silenciosas se tornem parte de nós — e que, quando compartilhadas, transformam o espaço e as pessoas ao redor.

Foi numa aula de cartografia, na faculdade de turismo, que tudo mudou. Nos pediram para analisar a granulometria da areia das praias e dos lugares que visitaríamos numa viagem técnica — para quem não conhece, granulometria é o estudo da textura, do tamanho e da distribuição dos grãos que compõem uma superfície. 

Cada tipo de areia diz algo sobre o lugar: se é firme ou solta, se o mar a moldou com força ou delicadeza, se suporta construção, se acolhe passos ou escorrega sob eles. Mais do que isso, cada areia traz um conforto distinto: há grãos que se ajustam ao corpo, acolhem-no; há outros que picam, deslizam, desafiam. E, considerando uma praia, é algo a se pensar quando se pretende passar um dia deitado na areia, entregue ao sol ou ao vento — o tipo de grão transforma a experiência inteira, mesmo sem percebermos.

Aprendi, naquele instante, a perceber o mundo não como uma massa uniforme, mas como um mosaico de partículas únicas, cada uma carregando sua própria história, cada grão sussurrando, silenciosamente, algo sobre a origem, o tempo e a memória do lugar de onde veio. Foi ali que meus olhos, antes distraídos, começaram a se abrir para a riqueza das minúcias, e meu modo de observar o mundo jamais seria o mesmo.

Enquanto examinava a areia, deslizando os dedos sobre os grãos, senti algo despertar em mim. Foi como se, pela primeira vez, meus olhos fossem convidados a ver o mundo em detalhes minúsculos, invisíveis à pressa cotidiana. Cada textura, cada placa, cada bilhete abandonado, cada sombra e reflexo tornou-se mapa, segredo, convite. E a partir daquele instante, meu olhar nunca mais foi o mesmo.

Foi assim que nasceu uma obsessão que me atravessa com a intensidade íntima das coisas que não se escolhe, mas que simplesmente exigem espaço dentro de nós: referências. Elas se acumulam silenciosas, discretas, mas poderosas, transformando o ordinário em extraordinário, permitindo que tudo ao nosso redor — lugares, pessoas, aromas, sabores — se conecte em uma rede invisível, cheia de significados.

Hoje, para mim, há um quase êxtase, uma atração suave e inevitável, em observar alguém que carrega referências no corpo, nos gestos, no olhar — como se cada movimento fosse um mapa silencioso de histórias e lembranças. São pessoas que estão plenamente ali, desperta, presentes, respirando com a mesma atenção com que um artesão acaricia suas ferramentas, conhecendo cada detalhe, cada nuance. Gente que presta atenção ao mundo: ao sabor do que come, à cadência do que ouve, à delicadeza do que o outro sente — e reconhece, mesmo no silêncio, o menor tremor de vida ao redor, como se pudesse sentir o pulso invisível do mundo batendo junto ao seu próprio.

Minha mãe sempre repetiu que a pessoa mais interessante numa roda de conversa jamais é aquela que sabe tudo — essa costuma ser, aliás, a mais entediante. A mais fascinante é a que sabe conversar, que abre espaço para o desconhecido, que faz de qualquer assunto um convite. Pode ser um tema que você nunca estudou, nunca viu, nunca tocou… mas se você tem bagagem, se tem repertório, você encontra uma luzinha ali dentro, uma memória, um paralelo, um sabor que se conecta e acrescenta algo novo.

E é assim — exatamente assim — que nasce a criação: desse encontro entre o que vimos e o que ainda estamos aprendendo a ver.

Isso me lembra do filme A Substância, lançado em setembro de 2024. Foi um burburinho intenso: uns amando, outros rejeitando, debates acalorados sobre se falava ou não da “realidade cruel”. Mas eu, como sempre, me perdi nas referências. Fiquei fascinado pelo modo como cada escolha carregava ecos de outros mundos, sutilezas que só se revelam a quem observa com atenção.

Quando estreou, fui pesquisar, e descobri leituras onde a diretora abriu um pequeno cofre do seu processo criativo e mostrou o moodboard que havia construído: recortes de mundos distintos, fragmentos de imagens antigas, trechos de outras artes entrelaçados com delicadeza quase obsessiva. Cada recorte, cada sobreposição, cada detalhe parecia sussurrar. E eu entendia: É daqui que nasce a força do conceito, é daqui que se aprende a dar vida ao imaginário.





Porque qualquer editorial, qualquer campanha, qualquer filme que se queira vivo, pulsante, antes de existir como produto acabado, precisa peregrinar por referências. Precisa atravessar o mundo com os olhos atentos, colher fragmentos de memórias alheias, sutilezas invisíveis, respiros de culturas e tempos distintos, e só então começar a esculpir o conceito, como um artesão que molda argila viva, sentindo sua textura, seu peso, seu potencial de transformação.

Cada referência, pensei, é uma centelha: não cópia, não repete; transforma, amplia, conecta mundos distantes em algo que pulsa junto ao presente. E foi nesse sussurro de imagens e memórias que percebi a alquimia silenciosa que toda criação realmente exige.

Claro que alguns insistem em dizer que referência é apenas cópia. Mas essa é a fala de quem nunca sentiu a centelha. Quem nunca percebeu, de repente, um fragmento de algo antigo acender um fogo novo dentro de si. Quem nunca entendeu que referência não rouba — ela transforma.

Referência é ponte e espelho ao mesmo tempo: conecta o que veio antes ao que ainda está por nascer, reflete camadas escondidas do mundo, e permite que o criador dialogue com tudo o que já existiu sem jamais se repetir. Cada fragmento ressignificado se torna algo que pulsa, que respira, que carrega a lembrança e ao mesmo tempo cria espaço para o inesperado.

É ouvir o canto de um pássaro que atravessou séculos, e reconhecer nele o mesmo sopro que inspirou uma melodia humana; é olhar para uma pintura antiga e sentir nos detalhes a urgência de contar algo inteiramente novo; é percorrer ruas, observar pessoas, texturas, cores, aromas, e perceber que cada referência é uma semente que, ao tocar sua imaginação, floresce de maneira única.

Quem diz que referência é cópia nunca notou o delicado milagre de transformação: o mundo oferecendo matéria-prima, e o artista — atento, reverente, curioso — devolvendo algo que nunca existiu antes. Porque, no fundo, a referência verdadeira não se contenta em repetir; ela liberta.

Falando em criação — e talvez seja impossível falar de criação sem tocar naquilo que vibra entre o natural e o humano — você já escutou o som da Matinta Pereira, o pássaro?

Se já escutou, talvez tenha percebido que o canto da Matinta Pereira — o pássaro verdadeiro, conhecido cientificamente como Momotus momota, e não a velha bruxa do folclore que se transforma em coruja e em histórias fantásticas — repete exatamente o mesmo tom que Tom Jobim transformou em música em Águas de Março.

A mesma nota, o mesmo chamado, agora transcrito em acordes e melodia humana, como se a natureza tivesse sussurrado seu segredo ao ouvido de Jobim numa manhã em que o mundo ainda estava meio adormecido, e ele, atento, captou o pulso desse pequeno maestro alado.

Eu, sinceramente, já havia sentido uma pontada de suspeita: aquela melodia de Águas de Março parecia carregar o eco de alguma nota que eu ouvira nos pássaros, um sussurro da natureza escondido entre acordes. Mas não tinha certeza. Até o dia em que decidi observar o mundo com mais atenção — como quem levanta um véu e descobre que o cotidiano está cheio de pequenos feitiços.

E foi por acaso, vagando sem rumo pela internet, que encontrei um vídeo de uma mulher comentando exatamente aquela peculiaridade da música: a mesma nota, o mesmo chamado, repetido pelo canto real da Matinta Pereira. Fiquei fascinado: não estava sozinho nessa percepção. Alguém, em algum lugar, também havia notado aquele detalhe sutil, e, de repente, minha intuição se transformava em certeza, e minhas descobertas pareciam menos solitárias, mais conectadas ao mundo — como se um fio invisível unisse observador, pássaro e música em um mesmo instante de atenção.

Como se, por um instante, nossas percepções tivessem se tocado no ar.

Queria ter salvado o vídeo. Juro que queria. Mas minha atenção corre como água de rio: a cada minuto, algo novo surge, me empolga, me leva, me faz imaginar o que poderia se transformar, o que poderia criar a partir dali… e, quando percebo, o vídeo já se perdeu no fluxo. Às vezes, faço anotações no celular, capturando pontos que realmente me cativam — pequenos mapas que depois me guiam em pesquisas, inspirações e até nas minhas postagens por aqui.

Acontece assim comigo: as descobertas chegam como fogos de artifício — brilham intensamente, explosivos, rápidos, quase impossíveis de conter. E é nesse lampejo, nesse instante fugaz, que sinto a magia de perceber, de conectar, de transformar o mundano em matéria-prima para o imaginário.

Mas o mais fascinante foi perceber que Tom Jobim fazia o mesmo. Veja: ele não apenas ouviu o pássaro; deixou-se atravessar pelo canto, permitiu que a natureza soprasse seu segredo diretamente em seu ouvido. Transformou aquele chamado selvagem em melodia humana, capturando o pulso do mundo e transmutando-o em música. Pegou um som que existia muito antes dele e o reinventou, cheio de delicadeza e sentido — e isso, convenhamos, é uma referência de primeira ordem. É o mundo oferecendo sua matéria-prima, e o artista respondendo com atenção, reverência e encantamento, criando algo que pulsa de vida própria. Eu não poderia deixar vocês na mão, sem ouvir o que eu ouvi, pelo menos. Então, segue no final do texto o link que vai ter lá a delicadeza que ele percebeu.

E é importante lembrar que referência também é potência política — talvez das mais perigosas. Se voltarmos à Revolução Francesa, por exemplo, veremos isso com clareza quase brutal: ideias que antes viviam confinadas nos livros, trancadas em bibliotecas e salões privados, escaparam para as ruas. Tomaram corpo, voz, braços. Atravessaram classes sociais, misturaram plebe e burguesia, e derrubaram séculos de privilégios com a força de quem finalmente entende o próprio lugar no mundo.



A monarquia entrou em pânico — e com razão. Eles perceberam que gente com bagagem pensa. Compara. Questiona. Exige. E isso sempre foi perigoso para quem está acostumado a governar pelo silêncio dos outros.

E até hoje é assim: uma população com educação assusta. A ignorância é confortável para quem manda; o repertório, não.

O cantor porto riquenho Bad Bunny, por exemplo, compreende com clareza essa força viva das referências. No processo de criação de seu mais recente álbum, Debí Tirar Más Fotos (lançado em 5 de janeiro de 2025), ele tomou uma decisão que poucos artistas têm coragem de fazer: convocou o historiador Jorell Meléndez Badillo para montar um dossiê completo sobre sua terra natal, Porto Rico — uma arqueologia afetiva da memória, da política, da cultura, da identidade.


Não foi só para compor melodias. Ele quis entender, com profundidade, as camadas políticas, sociais e culturais de onde vem — porque queria mais do que ritmo: queria significado. Queria que cada batida, cada letra, cada melodia fosse carregada de raízes, referindo se a histórias, lutas, raízes vivas.

Bad Bunny percebeu que, sem essa bagagem, sua obra correria o risco de ser um discurso vazio — sem alma, sem corpo, sem origem. Mas ao mergulhar no chão que o formou, ao revisitar o passado da ilha com honestidade e reverência, ele transformou o álbum numa carta aberta: uma homenagem, um grito, uma lembrança. 

Não era só ritmo ou melodia: ele buscava significado, raízes, pertencimento. Queria que cada verso, cada batida, carregasse um peso ancestral, uma identidade pulsante, viva. Resultado — DeBÍ TiRAR MáS FOToS foi premiado como Álbum do Ano no Latin GRAMMY 2025. Isso prova que um trabalho construído com consciência de onde vem pode transformar sua arte em algo que fala muito além da música — fala de história, de povo, de memória.

Essa conquista — música feita com raízes que conquista reconhecimento — reforça a ideia central: referências não são meras citações, não são cópias vazias. São matéria prima viva, profunda, que, quando bem manejada, gera significado. O mundo oferece seu passado; o artista devolve sentido, identidade, resistência — e, quiçá, eternidade.

E aqui eu preciso lembrar: referência não é apenas reconstrução do passado. Às vezes ela acontece em sincronia, como se o mundo inteiro estivesse respirando no mesmo compasso.

Quando todo o planeta consome as mesmas imagens, músicas e histórias online, duas pessoas podem, sem nunca terem trocado uma palavra, criar obras que se tocam no espírito, embora sejam completamente distintas na forma. É o caso de Kelela, com seu álbum Raven (2023), e Luedji Luna, com Bom Mesmo é Estar Debaixo D’Água (2021). As capas desses álbuns, diferentes em cores, traços e texturas, revelam mundos singulares; ainda assim, compartilham uma sensibilidade profunda, um mergulho na intimidade e na emoção, como se ambas captassem a mesma corrente de sentimentos que atravessa o tempo e o espaço. Não é cópia. É sintonia silenciosa — uma reverberação de espírito que se manifesta em formas únicas.

É Zeitgeist — o espírito do tempo empurrando todos para a mesma direção. É referência coletiva, convergência criativa, como se a própria época soprasse ideias na orelha de quem está atento.

O Zeitgeist (se pronuncia em português tsáit-gáist) palavra alemã que significa, literalmente, “espírito do tempo”, não trata apenas de moda ou tendência; é o sussurro invisível que atravessa gerações, a pulsação coletiva que molda pensamentos, sentimentos e criações antes mesmo de serem conscientes. O Zeitgeist é a corrente que une mentes dispersas, a atmosfera compartilhada de uma época que todos respiram sem perceber, o vento que sopra ideias semelhantes em cérebros distintos, mesmo que nunca tenham se encontrado.

É a referência coletiva em ação: convergência criativa que não copia, mas reflete o mundo em sua simultaneidade. É como se o tempo, percebido como entidade viva, respirasse junto com os artistas atentos, plantando sementes que florescem em músicas, livros, filmes, objetos, sabores e gestos. Quando uma canção, uma capa de álbum ou até uma receita parece surgir “ao mesmo tempo” em lugares diferentes, não é coincidência; é o espírito do tempo se infiltrando nos sentidos, convidando cada um a traduzir a mesma matéria-prima em cores, sons, palavras ou aromas únicos.

O Zeitgeist nos lembra que toda criação está enredada em uma rede invisível de experiências compartilhadas, que atravessa fronteiras geográficas e culturais. Ele é sopro e memória, presença e ausência, corrente subterrânea que conecta mundos e pessoas, mesmo sem que saibamos. É o convite silencioso para estar atento, para perceber que nada surge isolado — e que, quando conseguimos escutar essa vibração, nossas próprias referências ganham peso, sentido e vida.

E vale lembrar que a referência também está na rua — talvez, sobretudo na rua. Viajar, por exemplo, abre a mente como quem empurra uma janela antiga que sempre esteve emperrada. Viajar te força a confrontar outras maneiras de existir, outras lógicas, outros sabores, outras formas de silêncio. E aí você percebe que o preconceito nasce exatamente disso: da falta de referência, da ignorância confortável de quem nunca saiu do próprio território emocional.

E vamos combinar… o Brasil sofre demais com essa falta.

Um país vastíssimo, exuberante, múltiplo, feito de mil mundos que conversam pouco entre si — e que raramente se reconhecem. Falta bagagem sobre si mesmo. Falta estrada percorrida com os próprios pés, falta olhar curioso, falta escuta.

E, no fim, percebi que o destino em si perde a força. O que verdadeiramente importa não é o lugar onde chegamos, mas como fomos sendo moldados na travessia. O repertório — esse ouro íntimo que ninguém nos tira — a gente colhe ao longo do caminho: em cada parada, cada desvio, cada erro de rota, cada conversa inesperada, cada cidade que nos atravessa sem pedir licença, revelando suas histórias nos recortes do cotidiano.

Como disse Ralph Waldo Emerson, ensaísta e poeta norte-americano, uma das vozes centrais do Transcendentalismo — aquele movimento do século XIX que celebrava a intuição, a experiência individual e a profunda conexão do homem com a natureza —: “Life is a journey, not a destination”. Ou, nas palavras que ressoam com mais doçura em nosso idioma: “A vida é uma jornada, não um destino.”

Emerson nos lembra, com a delicadeza de quem observa a vida como um rio que serpenteia, que o verdadeiro valor da existência não reside apenas em chegar a algum ponto final ou em conquistar metas específicas. O que realmente importa são os momentos que se desdobram pelo caminho — as experiências que nos atravessam, os aprendizados que nos moldam, os encontros que nos transformam e até os pequenos tropeços que nos fazem sentir vivos.

A vida — com suas curvas e surpresas — nos convida a viver o agora, a valorizar o trajeto, as pequenas inquietações, os encontros, os cheiros e sabores que mudam nossos sentidos.

Porque não buscamos apenas chegar. Buscamos transformar o mundo — e a nós mesmos — no compasso dos passos vividos. E, se há algo que carrego comigo como certeza, é esta: não é o destino final que nos define. É a viagem. E todo o ouro de viagens jamais percorridas — mas já sentidas — está guardado no repertório que construímos, dia após dia.

CUSCUZ: A REFERÊNCIA QUE ME ALIMENTA

É curioso pensar que, entre todas as referências que coleciono — entre músicas que sussurram lembranças, filmes que moldam sonhos, livros que carregam mundos inteiros, pássaros que atravessam o ar com segredos antigos, revoluções que mudaram o curso da história e ideias que iluminam pensamentos — uma das que mais me atravessa vem de algo simples, amarelo e quente: o cuscuz de milho.


Talvez porque, como toda boa referência, ele não é apenas alimento: ele carrega dentro de si uma viagem inteira. Cada grão parece guardar ecos de desertos distantes, de mãos que amassaram a sêmola em pequenas cerâmicas no Magrebe, do sol escaldante da África do Norte, dos mares que levaram culturas e histórias até chegar à Península Ibérica, e dali, como quem transporta memórias em navios silenciosos, ao Brasil.

Aqui, na Terra Brasílis, de sol largo e abundância vegetal, o cuscuz renasceu. O milho brasileiro, generoso e dourado, encontrou o toque dos povos indígenas que já o cultivavam, e juntos reinventaram o prato — que se tornou novo, tropical, vibrante, um território de sentidos e lembranças. E cada mordida que dou é, de certa forma, uma viagem pela história e pelas mãos que vieram antes de mim, uma lembrança viva daquilo que nos atravessa sem pedir permissão.

O cuscuz não é apenas comida — jamais seria. Ele é uma espécie de alquimia doméstica, uma língua antiga que dispensa tradução. É memória servida quente, é história que se mastiga, é cultura que se dissolve na boca antes de se fixar no peito. É pertencimento em forma de vapor dourado. É referência que pulsa, que se herda como um segredo de família e que se reconhece antes mesmo de se compreender.

Do milho, um cereal simples — quase humilde à primeira vista — nascem grãos que, apesar do tamanho, carregam mundos inteiros. Ali dentro cabe um sol antigo cuidadosamente aprisionado, uma rota de fuga tecida em silêncio, um mapa invisível de lutas e resistências que atravessam séculos e geografias sem jamais perder o brilho.

Cada floco amarelo carrega, silenciosamente, os murmúrios das terras quentes do Nordeste brasileiro — murmúrios soprados por ventos secos, por roçados antigos, por mãos indígenas que, muito antes de Portugal sonhar com mapas, já conheciam a alma do milho. O grão não chegou de fora; já estava aqui, soberano, plantado, colhido, comido. O que atravessou oceanos não foi o milho — foi a ideia. A técnica. O gesto ancestral de transformar pequenos grânulos em sustento ao vapor, trazido na bagagem africana e nos ecos do cuscuz de sêmola que percorreu séculos no Magrebe e na Península Ibérica.

Assim, quando o mundo se encontrou nesta terra de luz desmedida, algo extraordinário aconteceu: o milho, já íntimo e abundante, encontrou uma nova forma de ser. E aquelas mulheres — indígenas, negras, mestiças — que pilavam o milho demolhado em pilões altos ou ralavam-no em latas de óleo furadas com pontas de prego, transformadas em raladores, sob o peso do sol e dos dias árduos, deram aos grãos de milho um novo destino. No ritmo repetido de seus braços, o Nordeste inteiro parecia vibrar: o som do pilão batendo era música, era resistência, era prece.

E foi nesse encontro — entre o milho que já era nosso e a técnica viajante que chegou de longe — que o cuscuz renasceu. Não apenas se adaptou: renasceu. Renasceu com a teimosia luminosa das coisas simples que recusam morrer; renasceu como quem recebe um nome antigo e o molda ao próprio corpo. Renasceu trazido pelas mãos indígenas, aquecido pela criatividade africana, temperado pela nostalgia portuguesa — até tornar-se, enfim, aquilo que hoje defendemos com fervor quase religioso nas mesas de domingo: um alimento que nutre, sim, mas sobretudo desperta memórias.

E como toda coisa viva — porque referências são vivas, inquietas, indomáveis — o cuscuz não ficou preso no tempo. Ele se espalhou pelo país como quem cria raízes e asas ao mesmo tempo, ousando existir em cada canto, em cada mão que o molda. Mudou de cor, de textura, de intenção; reinventou-se com a confiança insolente dos pratos que sabem seu próprio valor, que carregam histórias sem precisar se desculpar.





Multiplicou-se: versões de milho, de arroz, de mandioca, de amendoim, de inhame — cada uma guardando o sotaque, o cheiro, o toque da terra onde nasceu. Tornou-se doce ao encontro do leite de coco e do açúcar; flertou com o absurdo delicioso do leite condensado; experimentou encontros inesperados e provocativos; e até gerou sua cria mais polêmica, o cuscuz paulista — amado, odiado, defendido com a intensidade de quem torce por time de futebol, como se cada garfada fosse bandeira e manifesto.

Porque referência boa, essa sim, nunca é neutra: ela provoca, ela desafia, ela convida ao debate, à memória, ao gesto de se inclinar sobre a mesa e prestar atenção. Ela provoca sorrisos cúmplices e olhares indignados, desenterrando histórias esquecidas e desejos antigos. E o cuscuz, com sua simplicidade exuberante, me lembra disso: que a cultura é movimento, que tradição e invenção coexistem como amantes secretos, e que aquilo que amamos realmente — seja música, seja comida, seja palavra — carrega sempre mais do que supomos, mais do que cabe no prato, mais do que nos atrevemos a dizer.

Ele é, afinal, como toda boa referência: um fio invisível que atravessa o tempo, conectando o que veio antes de nós, o que criamos hoje e o que ainda ousaremos inventar. Um floco de milho quente e amarelado, carregado de história, de mãos que trabalharam, de risos e suor, de sol e vento, capaz de nos ensinar que, no fim das contas, existir é reinventar, e recordar é criar novamente.

O cuscuz desperta paixões antigas e discórdias festivas. Rios de debates surgem entre garfadas, e risos se misturam a olhares cúmplices de quem reconhece ali mais do que sabor: reconhece memória viva.

E talvez seja exatamente isso que transforma o cuscuz em algo além de alimento: um gesto ancestral reencarnado na cozinha moderna, um fragmento de história que se dobra sobre si mesmo, carregando ecos de mãos que trabalharam ao sol, de mulheres que ralavam o milho em pilões improvisados, de povos que atravessaram oceanos e desertos para encontrar novas terras.

Um grão modesto, amarelo e quente, capaz de lembrar que criação e pertencimento não surgem do nada. Que tudo o que amamos, tudo o que nos move, é tecido por camadas invisíveis de histórias, acasos, culturas e coragem — e que, ao saboreá-lo, nos tornamos parte dessa rede silenciosa. Um fio que liga passado e presente, mãos e bocas, memória e invenção.

O cuscuz me ensina que existir é reinventar, que cada gesto na cozinha — cada vapor que sobe, cada toque de panela — é ritual, memória e celebração. Que a tradição não é prisão, e que a simplicidade pode carregar universos inteiros. E, ao final, percebemos: não estamos apenas comendo. Estamos participando de um abraço invisível que atravessa séculos, continentes e vidas. Somos continuidade, somos testemunhas, somos cúmplices dessa história em cada floco dourado.

E, sendo brasileiro, não poderia esquecer das farofas, que também podem nascer do cuscuz. No início, a farofa era esplendor indígena: nossos ancestrais do Norte do Brasil tostavam a farinha de mandioca com a gordura de tartaruga no casco do próprio animal — gesto que era ao mesmo tempo sobrevivência, alquimia e poesia comestível. Uma técnica que, desde a existência dessa farofa ancestral, gerou milhões de variações possíveis, todas filhas da mesma inventividade que nos guia há séculos.


E então, o cuscuz quente chegou à mesa, dourado e perfumado, e alguém, com a ousadia própria de quem inventa sem pedir licença, percebeu que poderia virar farofa. Foi nesse instante que uma nova vida se abriu: possibilidades se multiplicaram, texturas se entrelaçaram, sabores se cruzaram. O simples floco amarelo, que já carregava oceanos, mãos, histórias e memórias, encontrou uma nova forma de existir, mais solta, mais crocante, mais brincalhona.

Assim, o cuscuz-farofa se tornou ritual e invenção, memória e novidade. Um testemunho silencioso de que toda criação brasileira nasce do improviso, da coragem de tocar o que já existe e transformá-lo, sem perder a essência, sem trair a origem. É herança que se reinventa, uma dança contínua entre passado e presente, entre mãos que moldaram o mundo antes de nós e bocas que o celebram hoje.

A farofa de cuscuz me lembra que pertencimento não é apenas um ponto no mapa, mas uma trama de tempo e memória, uma linha invisível que une quem veio antes de nós ao que nos tornamos hoje. Cada grão de milho, cada floco de farofa, cada massa amarela e quente carrega lembranças temperadas — mãos que moeram ou peneiraram o milho, fogueiras que aqueceram, mesas que acolheram famílias, amigos, vizinhos, desconhecidos. E, ao tocar esses gestos, sinto que somos parte de algo maior, respirando na mesma cadência das gerações que nos precederam.

E, de repente, um prato simples se torna mapa e bússola. Ele me ensina sobre paciência — porque cuscuz bem feito exige cuidado, atenção ao detalhe, respeito pelo ingrediente. Ensina sobre adaptação — porque, ao longo dos séculos, encontrou novos sabores, novos cheiros, novas combinações. Ensina sobre resistência — porque, mesmo diante de mudanças e desafios, permanece essencial, reconhecível, vivo.

O cuscuz é, portanto, mais que comida. É referência viva. É história. É cultura. É memória que se mastiga, se cheira, se sente na boca e no corpo. É repertório comestível, ouro íntimo, mapa do mundo que carregamos conosco, em cada refeição, em cada lembrança, em cada gesto que conecta passado, presente e futuro.

E, ao comer cuscuz, sinto que me alimento da própria história do mundo — e, ao mesmo tempo, deixo um traço sutil, invisível, mas presente, nessa mesma história. Porque é isso que as referências fazem: atravessam gerações, transformam sentidos, retornam reinventadas e continuam a pulsar.

Meu avô paterno, Mário, chamava cuscuz de “pão de milho”. E isso fazia todo sentido.

No Brasil antigo, o milho — assim como a mandioca — carregava consigo o ofício do pão, o sustento do campo, a intimidade da vida rural. Era alimento, mas também era história, memória e hábito. Ainda não havia farinha de trigo em larga escala, nem padarias a cada esquina. O que havia eram mãos que sabiam transformar grãos em vida.

Meu avô, meticuloso e paciente, começava o dia com seu chá de erva-cidreira cedinho, acompanhando a tapioca sem sal que ele amassava como quem acaricia lembranças. Mas, no final da tarde, ele desejava seu pão de milho. Às vezes o fazia com as próprias mãos, como se, naquele gesto simples, mantivesse a continuidade da família, da casa, da própria terra.

Quando percebi o ritual que ele seguia, algo que me encantava pela simplicidade quase mágica: ele amanhecia preparando sua tapioca sem sal e o chá de erva-cidreira, um gesto que era só dele, seu pequeno território de pertencimento, sua referência íntima de comida identitária.

E então, alimentado, antes de ir aos sítios para administrar os trabalhadores, partia para a padaria trazer o pão de trigo para toda a família — o novo, o “luxo” cotidiano, que chegava quentinho e silencioso à mesa, com tipos diferentes para agradar a todos, e deixava na mesa da cozinha sem pedir reconhecimento. Um gesto aparentemente simples, mas carregado de profundidade: ao mesmo tempo em que permanecia fiel às suas próprias raízes, oferecia aos outros um presente discreto, uma indulgência silenciosa, um afeto sem alarde. Antes mesmo de cruzar a soleira da porta, já havia cumprido seu pequeno rito, erguendo, invisivelmente, uma ponte delicada entre quem ele era e o que desejava oferecer ao mundo que o cercava.

Mas meu avô tinha um segredo para o seu cuscuz da tarde. Misturava à massa de milho demolhada um pouco de farinha de mandioca fininha. Dizia que era para dar mais liga. E, de fato, o cuscuz ficava coeso, quase grudando nos dedos, com aquela densidade que falava de histórias invisíveis, de gerações, de sol, vento e suor. Era um pão que contava, sem palavras, a memória da casa.

Eu, por minha vez, sigo um caminho diferente. Gosto do cuscuz bem hidratado. Mas, leve e soltinho. Meu segredo não está na farinha de mandioca, mas no equilíbrio sutil: duas pitadas de açúcar para cada pitada de sal. Não se assustem — não fica doce. Fica umami, irresistível, um abraço inesperado que aquece a boca e o coração ao mesmo tempo.

E é nesse contraste — entre o pão de milho firme do meu avô e o meu cuscuz leve e umami — que sinto a travessia do tempo. Entre sabores, texturas e gestos, cada mordida é um diálogo entre gerações, uma memória compartilhada, um afeto transmitido, invisível, mas profundo.

Cada mordida é uma pequena lição de mundo. Cada floco quente, cada aroma que sobe da panela, conecta-me com aqueles que vieram antes, com o solo que gerou o milho, com o sol que dourou as lavouras, com a água que molhou a terra. É uma geografia comestível: cores, cheiros, texturas e memórias que se entrelaçam em cada gesto, em cada instante, lembrando que o passado e o presente coexistem no mesmo prato.

E, ao mesmo tempo, é intimamente pessoal. É minha boca reconhecendo história, meu corpo sentindo pertencimento, minha memória provando que referências não se perdem — elas se incorporam, se transformam, viram parte de quem somos. Comer cuscuz é lembrar que a cultura é viva, que atravessa gerações e continentes, que se reinventa sem perder a essência.

No fim, é isso que me fascina: o cuscuz de milho é simples, mas nunca simplório. É cotidiano, mas nunca comum. É alimento, mas também é repertório. Cada ingrediente, cada técnica, cada escolha — desde o tipo de milho até a intensidade do fogo — é um gesto de referência. E cada gesto carrega a força de mãos que nos ensinaram, sem saber, a reconhecer o mundo e a nós mesmos.

O cuscuz me ensina que identidade se constrói na soma de detalhes, na atenção às raízes, na capacidade de transformar heranças em experiências vivas. E que, quando feito com cuidado, mesmo algo tão modesto quanto um grão de milho pode se tornar poesia.

E talvez por isso ele me comova tanto: porque, assim como eu, ele é feito de caminhos. De travessias. De camadas que o tempo não apaga.

 CONCLUSÃO, OU, O OURO ÍNTIMO DAS PEQUENAS FOMES

No fim — sempre há um fim, ainda que ele seja apenas mais uma dobra da travessia — percebo que tudo aquilo que chamo de mundo talvez não passe de um vasto banquete de referências.

Um banquete que não se encerra, que não se explica, que não me pede licença para me atravessar. E eu, humilde conviva, mastigo o que posso: memórias, músicas, grãos de areia, grãos de milho, o eco de revoluções, o sussurro de pássaros, a centelha de filmes, a ousadia de discos recém-nascidos, o Zeitgeist que me empurra pelas costas como uma brisa impaciente.

E é engraçado — quase irônico — pensar que foi o cuscuz, entre todas as grandezas que persegui como um arqueólogo de perfumes e rumores, quem se sentou ao meu lado para me revelar o essencial. Ele, pequeno e dourado, sem alarde, sem etiqueta dourada, sem a pompa dos cristais daquela festa. Ele, que nunca exigiu entusiasmo, mas sempre ofereceu pertencimento. Ele, que não precisa ser entendido para ser sentido.

Talvez seja isso o que posso chamar de verdade: o alimento que se confunde com afeto, que se insinua entre memória e desejo. E talvez um sorriso discreto — meio sombra, meio confissão — se formasse ao perceber que, na minha mesa, como em tantas outras, o simples é sempre um portal disfarçado, um segredo escondido à vista de todos.

Percebo, então, que minhas referências são como aquele salão da primeira noite: começam intimidando, depois me observam, e por fim me convidam para dançar. Cada uma traz seu fragmento de mundo, sua luz, sua sombra, sua música. Cada uma me costura em silêncio, como quem borda à mão um tecido antigo com fios novos, repaginando séculos em segundos. No fim da noite — ou da vida, quem sabe — somos todos feitos dessas costuras.

E talvez seja por isso que o cuscuz me comove tanto: porque, entre tudo o que encontro e tudo o que me encontra, ele é a metáfora perfeita daquilo que me tornei. Sou feito de travessias, de mãos que não conheço, de vozes que atravessaram desertos, florestas, mares e séculos para pousar, enfim, em mim. Sou feito de grãos herdados, de histórias que não me pertencem, mas que me reclamam. Sou feito da coragem de transformar o que recebo — e da delicadeza de não esquecer de onde veio.

No fundo, descobri que viver é exatamente isso: cozinhar-se aos poucos.

Temperar-se de referências.

Fermentar-se de memórias.

Servir-se ao mundo com aquilo que se colheu — e torcer para que alguém, em algum canto, prove e reconheça um sabor familiar, algo que acenda uma luzinha interna, uma lembrança de infância, um eco de eternidade.

E se há algo inesquecível nessa jornada — nesse buffet de mundos, nessa travessia de atenções, nessa poética dos detalhes — é compreender que, no final do dia, não somos a festa, nem a roda de conversa, nem o uísque envelhecido, nem o gênio acidental de unir pessoas desconhecidas.

Somos o cuscuz.

Simples, ancestral, transformado e transformador.

Reinvenção viva, quente, amarela, resistente.

E que sorte — que bênção, que privilégio — descobrir que, sendo feitos de grãos tão pequenos, ainda assim carregamos universos inteiros. É quase cômico, eu admito.

Mas profundamente verdadeiro.

Porque, no fim, a beleza do mundo não está nas grandes estruturas, nas teorias vastas, nos salões iluminados — mas nas minúcias que sabemos amar.

E, se existe alguma moral nessa epopeia de referências, talvez seja apenas esta: não é o mundo que me alimenta; são as referências que me cozinham.

E, com elas, eu sigo — quente, atento, em travessia constante.

Sempre pronto para a próxima mordida.

Farofa de Cuscuz do Barão de Gourmandise

2 colheres de sopa de manteiga

150g de bacon em cubinhos

1 cebola média fatiada em meias luas finas

1 cenoura média ralada no ralo grosso

1 xícara de milho verde (pode ser fresco ou de lata, escorrido)

3 folhas de couve fatiada fininha

2 dentes de alho picadinho

1 cubinho de caldo de galinha

1 xícara de flocão de milho

¾ de xícara de água

Sal e pimenta-do-reino a gosto

Preparo: Eu começo pelo cuscuz: pego uma xícara de flocão de milho e coloco numa tigela, adicionando duas pitadas de açúcar branco — os outros tipos deixam um gosto residual estranho — e uma pitada de sal. Acrescento três quartos de xícara de água, misturo delicadamente e deixo descansar por 15 minutos. Esse tempo é essencial: é ele que garante a textura correta, o corpo macio e solto do cuscuz. Passados os 15 minutos, coloco a mistura para cozinhar no vapor por mais 15 minutos. E então vem a recompensa sensorial: o aroma quente e doce do cuscuz cozido, que invade a cozinha, anunciando que está no ponto perfeito e que é hora de desligar o fogo. Enquanto ele cozinha, preparo os ingredientes da farofa. Numa panela grande, começo pelo bacon, deixando-o dourar até ficar estaladiço; depois, retiro e reservo. Na mesma panela, aproveito o óleo que sobrou do bacon para dourar o alho, adicionando a couve em seguida. Mexo rapidamente por um minuto, até que a couve adquira um verde profundo e vibrante, e então retiro do fogo e reservo. Volto à panela, coloco a manteiga, acrescento a cenoura e tempero com sal e pimenta-do-reino. Refogo por cerca de três minutos antes de adicionar a cebola fatiada, deixando-a suar até ficar translúcida e perfumada. Em seguida, junto todos os ingredientes reservados, incorporando-os ao refogado com cuidado e atenção. Por último, tiro o cuscuz ainda quente da cuscuzeira e o adiciono à mistura, desfazendo-o com um garfo, incorporando cada floco, respeitando sua textura, até que tudo esteja perfeitamente integrado. Finalizo com coentro picado e sirvo. Eu gosto de acompanhar com um ovo de gema mole, mas confesso: sozinho, o cuscuz já é uma maravilha. Cada mordida é quente, terna, e carrega um pouco de história, de cuidado, de sabor que atravessa gerações.