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terça-feira, 5 de maio de 2026

A CEREJA ENTRE O AROMA E O GOSTO: UMA CONVERSA SENSORIAL

 

Tenho uma fraqueza assumida na vida: perfumes. Amo-os com uma devoção que beira o excesso, quase uma irreverência delicada. Já me disseram, entre o gracejo e a premonição, que um dia serei cremado e minhas cinzas repousarão entre frascos vazios, pequenas relíquias de vidro, guardiãs silenciosas dessa paixão.

Hoje, contudo, essa imagem já não me serve por completo. Não porque o amor tenha diminuído, mas porque amadureceu. Tenho comigo aqueles que verdadeiramente me tocam, os que reconheço como parte de mim, e já não vagueio em busca de fragrâncias, embora eu amo experimentar as novidades. Ainda assim, ou talvez por isso mesmo, amo-os mais do que nunca. Há neles uma presença que não se vê, mas se sente na pele como um calor baixo, contínuo, quase uma respiração que me acompanha.

Curiosamente, meu gosto jamais foi aleatório. Hoje reconheço com clareza as notas que me atravessam. Não é uma escolha raciona. É um reconhecimento imediato, como quando o corpo aceita algo antes mesmo de saber o que é.

Com o tempo, aprendi a distinguir cada nota não como conceito, mas como sensação. Primeiro ela surge difusa, quase indefinida. Depois ganha contorno. E, por fim, se fixa (ou desaparece), deixando apenas um rastro que o corpo continua a perseguir.

O que mais me seduz nessa jornada é o encontro entre perfume e sabor. Não como ideia, mas como experiência física: um sobe pelo ar, o outro se abre na língua — e em algum ponto os dois se encontram, como se o corpo não soubesse mais diferenciar de onde veio a sensação. Entre a perfumaria e a gastronomia, memórias se acendem com uma nitidez inesperada, atravessando o corpo como uma lembrança que não pede permissão para ficar.

Carrego comigo um desejo íntimo, quase indizível, de um dia me dedicar ao estudo acadêmico desse enlace invisível entre gastronomia e perfumaria, como quem tenta compreender a própria alma através dos sentidos. Imagino tocar, ao mesmo tempo, a delicadeza de uma fragrância e a densidade de um sabor, unindo-os em uma experiência plena, onde o invisível ganha forma e o instante se torna palpável. Nesse ponto de encontro, talvez eu encontre algo raro: a sensação de inteireza, como se o mundo, por um breve momento, coubesse inteiro entre o respirar e o provar.

Nada é tão satisfatório quanto vestir-se com um perfume e perceber, no ar, a curiosidade que ele desperta. Poucas sensações se comparam ao instante em que a pele, recém tocada por um perfume, começa a insinuar sua presença no ar. Algo se move ao redor, quase imperceptível no início, até que olhares se voltam, trajetórias se interrompem, e um leve murmúrio nasce da tentativa de decifrar o que escapa. A fragrância paira como um enigma delicado, envolvendo quem passa sem jamais se revelar por inteiro.

Alguns ousam perguntar: “que perfume é esse, qual o nome?” Para mim, é um gesto que revela mais do que falta de educação: é a intrusão de uma intimidade olfativa que deveria permanecer sagrada, uma magia que merece ser contemplada sem palavras, apenas sentida. Quando alguém se aproxima e pergunta o nome de um perfume pra mim, sinto como se uma porta invisível fosse aberta sem consentimento. Não por desagrado, mas por reconhecer que certos encantos pertencem ao território do silêncio.

O perfume, assim como um segredo bem guardado, pede apenas presença e sensibilidade. Nomeá-lo é, de algum modo, reduzir sua extensão, conter aquilo que nasceu para se expandir no indizível. Mas, para provar que gastronomia e perfumaria se entrelaçam de maneira quase natural, trago um fragmento da minha própria experiência, construída ao longo de anos entre sabores e aromas.

Não falo apenas de impressões etéreas ou devaneios sensoriais. Trago comigo a evidência viva desse encontro, lapidada em silêncio ao longo de anos entre panelas e frascos, entre vapores que sobem e notas que se revelam lentamente. Foi nesse convívio íntimo com o calor e com o ar que aprendi a reconhecer o mesmo gesto em dois mundos distintos.

O que apresento a seguir não nasce de teoria, mas de vivência. É um fragmento daquilo que experimentei e respirei com atenção quase devota, onde sabor e fragrância deixaram de ser territórios separados para se tornarem uma única linguagem, sutil e envolvente, capaz de ser sentida antes mesmo de ser compreendida.

Desde criança, já na cozinha, aprendi a perceber os aromas em sua complexidade, a distinguir os matizes mais sutis que escapam àqueles que não têm um bom sentido do gosto, nem um bom nariz. Sou um desses poucos, que desde cedo se deixa guiar pelo olfato e paladar. Por consequência, enquanto me aventurava entre panelas e temperos, descobri simultaneamente o mundo da perfumaria. Ainda na pré-adolescência, mergulhei na perfumaria internacional com uma curiosidade insaciável.

Lembro com clareza do meu primeiro perfume importado: kouros, de yves saint laurent. Um perfume carregado de significados, que me prendeu de imediato. Naquele tempo, eu vivia fascinado pela mitologia grega, e o nome me seduziu de imediato. Kouros é palavra grega, plural de kouroi, termo usado para designar estátuas de jovens homens nus do período arcaico. Essas estátuas representavam o homem ideal, físico atlético e musculoso, pernas separadas, corpo em movimento, juventude pura.

O gênio de yves saint laurent se encantou por elas, especialmente pela beleza clássica e pela sensação de frescor intenso que emanavam. O perfume foi lançado em 1981, um ano antes do meu nascimento, e quando finalmente o experimentei, já com cerca de doze anos, ele continuava a encantar como no dia de sua criação, e encanta até hoje.

Recordo também de um momento decisivo: anos mais tarde, estudando perfumes, encontrei uma antiga publicidade do kouros com o slogan que o definia: “um perfume para deuses vivos”. A fragrância foi concebida para homens confiantes, conquistadores, com presença marcante, tudo aquilo que eu desejava ser na época.

A partir dali meu fascínio se aprofundou. Comecei a observar cada ingrediente, cada nota olfativa, quase como se estivesse aprendendo a decifrar uma linguagem secreta. Hoje, ao sair de casa para comprar um perfume, já sei, pelo simples toque das notas, se será capaz de me encantar ou não. É um aprendizado sutil, fruto de anos de sensibilidade cultivada entre aromas, panelas e memórias. 

Contudo, o perfume que se tornou minha assinatura, a essência que carrega minha identidade e se inscreveu como marca registrada de minha presença, também veio da maison yves saint laurent. Chamava-se m7, lançado em 2002, embora hoje esteja descontinuado. Era um oriental amadeirado masculino realmente impactante. Sua presença não chegava — ela tomava. Antes mesmo de tocar a pele, já havia algo no ar, mais denso, mais quente, quase como se o espaço tivesse sido ocupado.

Sua presença era hipnótica, marcada por uma sugestão de cereja que se insinuava no ar, mesmo sem aparecer nas notas descritas nos releases da perfumaria. Não uma doçura simples, mas algo entre o doce e o escuro, quase amargo, como uma calda que ferve por tempo demais e começa a se transformar. E que o sentia, percebia que havia algo de intenso, quase sedutor, nessa doçura imaginária, lembrando uma calda de cereja forte que se prolongava no olfato, prendendo os sentidos e virando cabeças por onde eu passava. As pessoas, curiosas e fascinadas, se viravam para tentar descobrir a origem daquele aroma.

No primeiro instante, uma claridade desperta. O alecrim se eleva fresco e vibrante, entrelaçado à luminosidade da mandarina e ao brilho delicado da bergamota, como um gesto inicial que abre o ar e convida os sentidos a se inclinarem. É uma promessa nada inocente, que logo se aprofunda.

Então, o coração se revela mais denso, mais envolvente. O agarwood (oud), escuro e hipnótico, se expande com sua presença quase táctil, enquanto o vetiver traça linhas terrosas, firmes, como raízes que ancoram a fragrância em algo mais antigo, mais profundo do que a própria memória.

E, por fim, vem o que permanece. O âmbar se derrama em calor silencioso, envolvendo tudo com uma doçura contida, enquanto o almíscar repousa na pele como um eco íntimo, uma respiração baixa que prolonga a experiência para além do instante. Assim, o m7 não era apenas um perfume. Era uma presença que se insinuava e ficava, uma assinatura que se escrevia no espaço sem pressa, como uma história que não deseja terminar, apenas continuar a ser sentida. Era eu ali, presente, marcando presença, sendo essência viva.

Quando fiquei órfão do m7, a ausência não foi ideia. Foi física.
Como se algo que habitava a pele tivesse sido retirado, e o corpo continuasse esperando por ele.

Em 2011, uma promessa acendeu-se como uma chama contida, quando surgiu o m7 oud absolu. Por um instante, acreditei que aquele sopro antigo retornaria para me encontrar. Mas o que veio trazia outra voz. Reconhecível, sim, em alguns contornos, como um rosto entrevisto na penumbra, mas desprovido da força magnética que outrora me capturara.



Faltava-lhe o mistério envolvente, aquela tessitura quase hipnótica onde os elementos se entrelaçavam com precisão silenciosa. Não havia o eco inesperado de uma doçura que lembrava cereja sem jamais se declarar, nem a delicadeza que equilibrava o abismo e a elegância.

Restou uma impressão difusa, como um sonho que se tenta reter ao despertar e escapa pelos dedos. Não foi um rompimento abrupto, mas uma decepção que se acomodou em silêncio, com a serenidade triste de quem reconhece que algo, uma vez perdido, não retorna com a mesma alma.

Curiosamente, uma das notas que permanece em meu olfato favorito é a cereja. Essa nota, pequena e intensa, é a responsável pelos elogios que recebo quando uso certos perfumes que revezo no meu dia a dia:

·         L’homme idéal eau de parfum da guerlain, masculino;

·         Narcotic delight da initio parfums, compartilhável;

·         Black opium over red da yves saint laurent, feminino;

·         Electric cherry da tom ford, compartilhável; e,

·         Stronger with you powerfully da giorgio armani, masculino.

Em todos eles, a cereja deixa seu rastro, discreto e marcante, lembrando-me do prazer de descobrir aromas, do encanto que a fragrância pode provocar, da magia de sentir e ser sentido. Cada perfume tem sua maneira de falar comigo — nenhum substitui o m7, nenhum o carrega com a mesma intensidade — mas todos oferecem pequenas lembranças, notas que me acompanham, resquícios de memória e desejo, e que, ainda hoje, me fazem voltar a eles com o mesmo fascínio com que os descobri.

Mas o aroma das cerejas que amo jamais é inocente. Existe um ponto em que a cereja deixa de ser agradável e começa a ser insistente. E é exatamente ali que ela se torna inesquecível.

Na perfumaria, cereja não é apenas cereja. Ela é cuidadosamente construída por mãos precisas, por perfumistas que brincam com moléculas de histórias curiosas e até enigmáticas. Entre as mais marcantes, o benzaldeído confere aquele aroma intenso de cereja amarga, quase amêndoa; o etilmaltol traz uma doçura viciante, açúcar queimado, quase hipnótica; e a heliotropina entrega nuances de cereja cremosa, envolta em baunilha. O benzaldeído, especialmente, pertence à mesma família aromática das amêndoas amargas, substâncias que carregam consigo a memória do prazer e da fixação olfativa.

Mas por que nos sentimos tão fascinados pelo cheiro da cereja? Porque ele ativa no cérebro uma combinação delicada e poderosa: dopamina, prazer, memória afetiva, lembranças doces da infância e até um leve estímulo de excitação. É por isso que perfumes de cereja nos seduzem, nos envolvem, parecem quase hipnóticos.

Porque o corpo não sente “fruta”. Sente calor. Sente proximidade. Sente algo que se aproxima demais. E é exatamente por isso que a molécula de cereja na perfumaria se tornou uma das notas mais sedutoras, sussurrando ao olfato histórias de prazer, desejo e lembrança.

E assim como o perfume transforma a cereja, ela também se revela na gastronomia. Ela transporta o sujeito por territórios de prazer, lembrança e desejo, a cereja se revela também na gastronomia, em experiências que hipnotizam os sentidos. É impossível separar o encanto da fragrância da doçura que ela desperta; ambas brincam com a memória, provocam suspiros, fazem o corpo e a mente despertarem ao mesmo tempo.

Um exemplo perfeito dessa alquimia sensorial são as cherries jubilee (cerejas do jubileu), sobremesa clássica que, mesmo séculos depois, continua a encantar paladares, misturando calor e frescor, doçura e intensidade, como se cada mordida fosse uma nota de perfume traduzida em sabor.

A história real da origem das cerejas jubilee é deliciosamente fascinante

As cherries jubilee, uma sobremesa clássica flambada em brandy e servida com sorvete de baunilha, estão vivenciando um renascimento em popularidade.

A menos que seus passos o tenham conduzido a um restaurante francês onde o tempo parece repousar sobre as mesas, ou a uma churrascaria de elegância quase cerimonial, na qual mãos discretas ainda vestem luvas brancas e o gesto de servir carrega uma antiga dignidade, é provável que seus olhos jamais tenham encontrado as cerejas jubilee inscritas entre as promessas de uma sobremesa.

E, ainda assim, algo começa a se mover sob a superfície do presente, como um perfume esquecido que retorna ao ar sem aviso. Um renascimento silencioso se insinua, e com ele uma expectativa delicada, quase elétrica, como se o mundo estivesse prestes a redescobrir um encanto que nunca deixou de existir por completo.

Essa iguaria, ao primeiro olhar despretensiosa, guarda em si uma harmonia rara. Cerejas doces e ácidas se entregam ao calor do brandy, cedendo lentamente à chama que as envolve, enquanto repousam, ao final, sobre a brancura macia de um sorvete de baunilha de textura profunda e quase etérea. Há nela uma simplicidade que não se explica pela ausência, mas pela precisão, como se cada elemento soubesse exatamente o lugar que deve ocupar para alcançar algo próximo do sublime.

E por trás dessa criação, como uma presença que atravessa o tempo com discrição e autoridade, encontra-se auguste escoffier. Seu nome não surge como mero registro histórico, mas como a assinatura de um gesto que ultrapassa a técnica. Foi ele quem concebeu essa doçura ardente, oferecendo-a não ao acaso, mas à própria rainha vitória da inglaterra, como se transformasse a cozinha em linguagem capaz de tocar até mesmo a distância solene de uma coroa.

Em 1897, a rainha vitória celebrou 60 anos no trono com seu jubileu de diamante. Todo o reino unido comemorou, e o próprio escoffier desenvolveu as cerejas jubilee em homenagem à ocasião memorável. Curiosamente, escoffier deixou seu cargo no savoy de londres em março de 1897 e rumou para paris, para a mais nova unidade do hotel ritz. O jubileu da rainha foi comemorado em junho daquele ano. Rainha por dever, a rainha vitória adorava cozinhar e assar como hobby, e era notório seu apreço por doces, além de ela adorar cerejas. É apropriado, portanto, que a receita de escoffier em homenagem a ela fosse uma sobremesa.

Entre meados e o final do século xix, escoffier havia conquistado tamanha reputação por sua alta gastronomia que membros da realeza de todo o mundo viajavam para seus restaurantes para experimentar seus menus em locais sofisticados como monte carlo, lucerna, suíça e londres. Outros clientes incluíam a nata da sociedade.

A cereja do jubileu original de escoffier não era complicada em termos de ingredientes, mas certamente era um espetáculo à parte que exigia habilidade e cuidado. Cerejas frescas, açúcar e licor (inicialmente o kirsch, um licor de cerejas) era praticamente tudo o que a receita precisava. O que tornava a sobremesa extravagante era o fato de usar a técnica inovadora do flambé, onde a cada de cerejas era flambada: o álcool aquecido é incendiado, criando chamas azuis dramáticas, sendo muitas preparada à mesa, diante dos convidados.

Nota-se que, quando o calor encontra o álcool nessa preparação, algo muda imediatamente. O aroma sobe forte, quase excessivo por um segundo — como se fosse demais.

Então o fogo surge. Azul. Rápido. Quase silencioso.

Por um instante, ele parece agressivo.

Depois recua.

E quando desaparece, o que resta já não é álcool — é perfume.

Depois, como uma estação que se insinua sem pressa, veio a evolução da receita, já nas primeiras luzes do século xx. O prato, que antes caminhava com outra respiração, passou a encontrar o frio sedoso do sorvete de baunilha, e nesse encontro nasceu a forma que hoje reconhecemos, uma harmonia que repousa entre o calor que se eleva e a doçura que se desfaz na língua.

Sob mãos cuidadosas, foi sendo lapidado. Escoffier o tomou como quem segura algo vivo, sensível ao toque, e o conduziu aos salões de hotéis onde o luxo parecia suspender o tempo. Ali, cada detalhe passou a sussurrar intenção.

Entre as mudanças que mais marcaram sua essência, surgiram os espessantes, como a araruta, raiz discreta que guarda em si um amido de delicadeza quase etérea, tão familiar também às cozinhas brasileiras de outros tempos, onde o saber se transmitia em gestos silenciosos. Houve ainda um refinamento nos licores, escolhidos com precisão, como se cada gota precisasse dialogar com o restante.

E, acima de tudo, consolidou-se a padronização desse contraste que provoca e encanta, o quente envolvendo o frio, o efêmero tocando o denso, transformando a sobremesa em uma experiência onde opostos não se anulam, mas se completam em uma espécie de equilíbrio raro, quase impossível de nomear, mas profundamente sentido.

Quando eu falo em padronização no início do século xx, o que se sente por trás dessa transformação é a presença silenciosa e firme de auguste escoffier e do sistema culinário francês, que passou a desenhar com precisão aquilo que antes vivia mais livre, mais sujeito ao instante.

Se antes: o prato nascia como criação única, moldada para um evento real, quase como um gesto irrepetível oferecido ao momento; não seguia uma forma fixa, sua identidade mudava como a luz sobre uma mesa em diferentes horas do dia; e, podia se transformar conforme o cozinheiro, a ocasião, ou até o humor invisível do ambiente.

Depois de escoffier: ganhou estrutura definida, técnica precisa e uma apresentação que passa a ser reconhecida e repetida com intenção; passou a integrar o repertório clássico da cozinha francesa, como uma memória que passa a ser ensinada e preservada; e, a criação deixou de ser apenas acontecimento e passa a ser linguagem.

A entrada do sorvete, o encontro entre quente e frio, foi talvez a mudança que marca o ponto mais sensível dessa transformação.

Antes, apenas cerejas em calda, envoltas em calor, com o toque do flambado conduzindo toda a experiência. Depois, surge a presença do sorvete de baunilha, frio, suave, quase silencioso diante do calor restante do prato. Esse gesto inaugura um conceito técnico que passa a orientar novas construções o contraste térmico controlado.

Por que isso ganha importância, não como explicação fria, mas como sensação que se revela aos poucos na boca e na memória, está no modo como o calor desperta o aroma e o faz subir como se tivesse vida própria, especialmente aquele que nasce do álcool e se desprende no ar em ondas sutis, quase como um perfume que se recusa a permanecer fixo, enquanto o frio, ao contrário, envolve o excesso de açúcar e o silencia, trazendo uma textura cremosa que repousa na língua com uma calma profunda, como algo que acolhe sem pressa, e nesse encontro entre opostos surge uma assinatura própria, uma identidade sensorial que se fixa sem esforço, como se o prato encontrasse seu lugar dentro de quem prova.

Esse tipo de contraste, nascido desse momento de refinamento, passa a influenciar sobremesas clássicas que surgiriam depois, como se a partir dali a cozinha tivesse aprendido uma nova forma de emoção, feita de temperaturas que se aproximam sem conflito, se atravessam sem ruptura e se transformam mutuamente até que já não se sabe onde termina o calor e onde começa o frio, apenas a experiência inteira permanecendo, viva, suspensa e inesquecível.

Uso de espessantes como araruta

Antes, o que se tinha era uma calda mais fluida, quase como um xarope simples que escorria sem resistência, levando consigo o calor e o sabor de forma mais dispersa, menos contida.

Depois, com a introdução de espessantes como a araruta, e em algumas variações também o amido, a textura do molho passa a ganhar outra densidade, como se o líquido aprendesse a permanecer, a se sustentar sobre si mesmo sem perder leveza. O resultado é um molho mais aveludado e estável, que se fixa melhor ao sorvete, envolvendo-o em vez de apenas atravessá-lo, e que também confere ao prato uma aparência mais refinada, mais deliberada, como se cada elemento tivesse encontrado seu lugar exato.

Essa busca pelo controle da textura revela um traço essencial da cozinha clássica, onde nada é deixado ao acaso e até a consistência se torna uma forma de precisão sensível.

Ajuste e padronização do álcool

Antes, a escolha do álcool variava de maneira mais livre, quase instintiva, dependendo do que estivesse disponível, sem uma linha fixa de identidade.

Depois, essa liberdade vai sendo conduzida para escolhas mais específicas, como o kirsch, o conhaque e, em algumas versões, o rum, cada um trazendo uma assinatura própria ao conjunto.

O objetivo deixa de ser apenas acrescentar sabor e passa a ser o de criar harmonia com a fruta, sem que o álcool a sobreponha, mas sim a revele. Ao mesmo tempo, busca se garantir uma flambagem eficiente, onde o fogo não é apenas efeito visual, mas parte ativa da construção do sabor.

O tipo de álcool escolhido interfere diretamente na intensidade da chama, no aroma que permanece depois do fogo e no próprio perfil sensorial da sobremesa, como se cada escolha determinasse o clima final da experiência.

Técnica de flambagem controlada

Neste ponto, a flambagem deixa de ser apenas um momento de espetáculo e passa a ser um gesto técnico estruturado, repetível, quase coreografado pelo rigor da cozinha clássica.

O processo se define em etapas claras. O molho é aquecido, o álcool é adicionado com medida, a inflamação ocorre no instante preciso e a chama é conduzida até o ponto exato de seu desaparecimento.

O resultado é uma execução segura, previsível, capaz de ser repetida por qualquer chef treinado dentro do mesmo padrão, sem perda de identidade ou de efeito.

A passagem de escoffier por grandes hotéis como o savoy hotel london transforma profundamente essa lógica.

Nesse ambiente, os pratos deixam de ser experiências únicas e passam a exigir outra natureza, precisam ser replicáveis, rápidos e consistentes, capazes de manter a mesma qualidade em qualquer serviço, a qualquer hora.

Nesse contexto, o cherries jubilee se consolida como uma receita de cardápio, estruturada, ensinável e preparada para o funcionamento das brigadas de cozinha, onde cada função depende da precisão da outra.

As cerejas do jubileu tornaram-se uma sobremesa adorada nos estados unidos da década de 1950, e os chefs começaram a tomar liberdades com a receita, adicionando raspas de frutas cítricas, especiarias quentes como canela e misturando os licores (rum, kirsch e bourbon funcionam tão bem quanto o conhaque puro, a bebida dos aristocratas). Um elemento que se manteve é ​​o fato de que o cherries jubilee é preparado e servido à mesa devido ao espetáculo de fogo, assim como acontece com bananas foster, crepes suzette e baked alaska.

Felizmente, a primeira sobremesa não é mais reservada apenas à realeza ou à elite, podendo ser feita em qualquer cozinha por um cozinheiro habilidoso e, de preferência, com um fósforo longo ou um bom maçarico culinário.

Como dizia o próprio escoffier, a culinária, assim como a moda, deve evoluir com o tempo, e nessa frase ecoa uma visão em que o sabor nunca se acomoda por completo, mas se move junto das transformações do mundo.

As cerejas ácidas sem caroço permanecem como escolha tradicional para o preparo das cerejas jubilee, preservando um equilíbrio mais vibrante entre acidez e doçura, mas a modernidade abriu outras possibilidades sensoriais, onde as cerejas bing, mais doces e densas, passam a ocupar espaço em versões contemporâneas, ao mesmo tempo em que o conhaque, antes quase assinatura do prato, pode ser substituído por rum ou bourbon, cada um trazendo um desvio distinto de calor, madeira e profundidade aromática. Em busca de praticidade, até mesmo cerejas congeladas, depois de descongeladas, encontram seu lugar no preparo, sem romper a essência do resultado final.

No período em que os gourmets começaram a reconhecer sua delicadeza, as cerejas jubilee pertenciam quase exclusivamente aos restaurantes sofisticados, onde surgiam como sobremesa celebrada, envolta em técnica e prestígio. Com o passar das décadas, especialmente por volta dos anos 1950 ou 1960, o prato foi sendo gradualmente afastado desse centro de atenção, em parte porque cozinheiros amadores passaram a reproduzi-lo em casa, muitas vezes utilizando cerejas em calda, com a intenção de reproduzir em seus jantares a mesma aura de requinte que antes pertencia aos grandes salões.

De certa forma, essa perda de prestígio não significou apenas esquecimento, mas também uma espécie de deslocamento simbólico, em que a sobremesa deixou de pertencer exclusivamente ao território da alta gastronomia e passou a circular em espaços mais cotidianos. Esse movimento dissolveu parte da distância que antes separava o refinado do doméstico, enfraquecendo a aura de arrogância que por vezes envolvia a cozinha mais elitizada.

Ainda assim, esse prato icônico de escoffier permanece capaz de impressionar, conservando sua identidade mesmo através das adaptações, e hoje pode ser preparado do início ao fim em uma única panela, como se toda a complexidade que um dia exigiu salões e cerimônias tivesse encontrado um caminho mais direto, sem perder por completo sua memória de origem.

No ponto em que tudo parece se encerrar, percebe-se que nada realmente terminou. Porque o que começou como perfume nunca deixou de ser alimento. E o que surgiu como alimento nunca deixou de ser perfume. O cheiro que parecia pertencer ao ar desce. Vira textura. Vira calor. Vira presença.

E ainda assim continua sendo memória.

O cheiro que antes se acreditava pertencente apenas ao ar, ao invisível, ao instante que se dissipa, encontra no sabor uma continuação inesperada. Ele desce. Ele se torna textura. Ele se torna calor. Ele se torna chama. E ainda assim continua sendo aquilo que sempre foi, uma construção de memória, desejo e reconhecimento.

A cereja nunca foi apenas fruta. Ela é um limiar. Algo que o corpo reconhece antes de entender. No perfume, ela não existe como matéria, mas como sugestão construída, como química que imita a lembrança de algo que talvez nunca tenha acontecido. Na comida, na sobremesa, ela não é apenas ingrediente, mas acontecimento, onde fogo, frio e açúcar se organizam para produzir um tipo de prazer que também não pertence apenas ao paladar.

Em algum ponto entre esses dois mundos, o que se revela não é a diferença entre eles, mas a mesma engrenagem invisível. Ambos trabalham com o que não pode ser segurado por muito tempo. Ambos dependem do instante em que algo toca os sentidos e começa a desaparecer enquanto ainda está sendo percebido.

Foi assim que a cereja deixou de ser apenas nota, prato ou técnica. Ela passou a ser um modo de perceber o mundo. Um lembrete de que aquilo que mais nos marca não é o que permanece, mas o que atravessa o corpo e se desfaz enquanto ainda está vivo dentro dele.

E talvez seja por isso que certos perfumes parecem comestíveis e certas sobremesas parecem lembranças. Não porque se confundem, mas porque sempre estiveram no mesmo lugar, apenas vistos por sentidos diferentes.

No fim, não é uma conclusão que permanece.

É o rastro. Um cheiro que parece ter peso. Um gosto que parece ter memória. E algo que, mesmo depois de desaparecer, continua acontecendo dentro do corpo.

Como se ainda estivesse ali.

Como se o mundo, por um instante, tivesse sido íntimo demais para ser explicado.

Receita clássica de cherries jubilee atribuída à tradição de escoffier

A formulação original nasce da cozinha clássica francesa do final do século xix, associada ao trabalho de auguste escoffier e ao serviço de mesa em ambientes de alta gastronomia. A execução tradicional valoriza precisão, calor controlado e o contraste entre quente e frio.

Ingredientes
cerejas frescas ácidas, sem caroço
açúcar refinado
manteiga
kirsch ou conhaque, podendo variar entre versões clássicas francesas e adaptações posteriores
sorvete de baunilha de boa qualidade

Preparo:  as cerejas são colocadas em uma frigideira larga, onde recebem o açúcar e a manteiga. O calor desperta lentamente os sucos da fruta, formando um líquido que envolve as cerejas como uma calda leve e luminosa. O movimento da panela é suave, sem pressa, apenas o suficiente para que tudo se integre sem perder a integridade da fruta. Quando a mistura atinge ponto quente e levemente espesso, o licor é adicionado. O aroma muda de imediato, tornando o ar mais profundo e envolvente. Nesse instante, a chama pode ser introduzida, criando a flambagem clássica. O fogo percorre a superfície por alguns segundos, queimando o excesso de álcool e deixando apenas sua essência aromática, mais redonda e silenciosa. Com a chama apagada, o molho permanece vivo, brilhante e levemente denso. As cerejas são então dispostas sobre o sorvete de baunilha, que contrasta com a temperatura quente da calda, criando o efeito característico da sobremesa. 

Molho de cereja (com araruta)

Ingredientes
300 g de cerejas (frescas ou congeladas) sem caroço
80 g de açúcar refinado (aprox. 1/3 de xícara)
60 ml de água ou suco de cereja
1 colher de chá de suco de limão
30 a 50 ml de kirsch, conhaque ou rum (opcional
1 colher de sopa de araruta
2 colheres de sopa de água fria (para dissolver)

 

Preparo:  em uma panela, coloque as cerejas, o açúcar e a água. Leve ao fogo médio. Conforme aquece, as cerejas começam a liberar suco e a mistura ganha corpo naturalmente. Cozinhe por cerca de 5 a 8 minutos, mexendo suavemente, até que as frutas estejam macias e o líquido levemente aromático. Reduza o fogo. Adicione o suco de limão para equilibrar a doçura. Em uma tigela pequena, dissolva a araruta na água fria até ficar completamente lisa, sem grumos. Esse detalhe é essencial, porque a araruta só funciona corretamente quando entra hidratada e fria. Com o molho ainda quente, despeje a mistura de araruta em fio, mexendo continuamente. Em menos de um minuto, o líquido começa a mudar de textura, ficando mais brilhante, mais espesso e com aparência de calda fina e sedosa. Evite ferver forte depois disso, pois a araruta perde efeito com fervura prolongada. Se estiver usando álcool, adicione no final e aqueça levemente. Para versão flambada, aqueça o licor separadamente, adicione à panela quente e inflame com cuidado, deixando a chama apagar sozinha. Você deve obter um molho de cereja espesso, mas ainda fluido, com brilho intenso, capaz de envolver frutas ou sorvete sem escorrer rapidamente. A textura fica mais estável do que uma redução tradicional, com sensação mais “limpa” na boca.

 

 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

MOMO, HERDEIRO DO ESCÁRNIO E DA FESTA: ORIGENS MÍTICAS DE UM REI POPULAR

 

Passei um tempo em silêncio, desses silêncios que não se anunciam. Quem acompanha de perto percebe quando a ausência não nasce do abandono, mas da necessidade. Foi um período de leitura voraz, de escrita obsessiva, de entrega quase solitária, como quem se recolhe para afiar o pensamento e limpar o olhar. Enquanto isso, a cidade seguia seu próprio compasso.

Por aqui, o pré-carnaval já se espalhava pelas ruas de Fortaleza-CE. Todo fim de semana traz uma promessa de barulho, suor, música alta, corpos em trânsito e alegria exibida sem pudor. A festa se ensaiava antes dos grandes dias de carnaval, como se precisasse provar a si mesma sua própria urgência.

Em uma dessas tardes ruidosas, ouvi alguém zombar das vestimentas dos brincantes. Riso fácil, comentário raso, seguido da lembrança da ausência de Momo, o rei carnavalesco, como se sua falta fosse uma falha grave naquele cenário ainda inacabado. Intervim. Expliquei com calma que o reinado de Momo começa no carnaval, não antes. Que o chamado pré-carnaval sequer era conhecido em outros tempos. Acrescentei algo mais incômodo. Se aquela pessoa soubesse quem foi Momo de verdade, não pediria sua presença com tamanha leviandade. Talvez nem o evocasse.

Disse ainda que, se a semelhança bastasse, o julgamento apressado que acabara de fazer carregava muito mais do espírito do Momo original do que qualquer coroa simbólica ou fantasia inflada. O deus da zombaria reconheceria ali um espelho.



Representação de Momo (Momus), como o "Tolo" numa carta de Tarot do século  XVIII.

Como costuma ocorrer quando se atravessa o caminho de alguém pouco interessado em cultura ou escuta, nada foi compreendido. Fui chamado de louco. Ele saiu saltando atrás do bloco que passava, dissolvido na multidão, entregue ao ritmo, sem carregar consigo nenhuma pergunta.

Fiquei. Ri. Ri daquela palhaçada inteira, da cena, do equívoco, do contraste entre o barulho e a ignorância satisfeita.

Agora, porém, chegou a hora de explicar isso a vocês. De contar com vagar quem foi Momo, de onde veio essa figura inquieta e o que ela carrega muito além da caricatura carnavalesca. E quem sabe, se o sujeito tropeçar neste texto, consiga entender um pouco melhor aquilo que já deveria saber, sobretudo se insiste em se dizer tão devoto do carnaval.

MOMO ANTES DA COROA: ENTRE A MASCARA E O RISO INCOMODO ESCÁRNIO

Antes da coroa de papel dourado, antes do trono improvisado sobre carros alegóricos, antes do riso largo que hoje se vende como símbolo de alegria popular, Momo já caminhava entre os deuses. Não como soberano, não como herói, mas como presença incômoda. Antes de ser rei, foi ruído. Antes de ser festa, foi incisão.

Momo nasceu no Olimpo grego, mas nunca pertenceu verdadeiramente a ele. Seu nome carrega o peso da burla, da crítica afiada, da zombaria que não poupa nem o sagrado. Em grego, Mômos ou Momus é essa força que ri enquanto fere, que aponta enquanto desmonta, que observa com um olhar incapaz de se satisfazer. Em latim, Momus preserva o mesmo veneno elegante. Não se trata de riso leve, mas de ironia como exercício constante, quase um vício do espírito.

Filha de Nyx, a Noite, gerado sem pai, Momo surge de um território onde as certezas se dissolvem. Essa origem não é detalhe menor. A noite, na mitologia, não apenas cobre o mundo, ela revela o que o dia prefere esconder. É desse escuro primordial que Momo emerge, trazendo consigo a habilidade de enxergar falhas onde todos celebram perfeição. Por isso nunca foi uma divindade de templos ou devoções. Sua morada sempre foi a palavra, o comentário, o canto torto no meio do coro.

Diferente do imaginário moderno, Momo não escondia o rosto por vergonha. Era representado com uma máscara que se erguia, não que se fixava. A máscara subia para mostrar o rosto verdadeiro, como se dissesse que toda aparência precisa ser questionada. Na outra mão, um boneco, símbolo da loucura. Não da loucura criativa apenas, mas daquela que nasce quando o pensamento não encontra repouso. Esse detalhe iconográfico diz muito. Momo não brinca com a loucura alheia, ela a carrega como extensão de si.

Frequentava o cortejo de Dionísio (Baco, o deus do vinho), caminhava ao lado de Comos, deus das farras, dos excessos e das celebrações noturnas. Ali, entre vinho, música e corpos em desordem, Momo observava, comentava, corroía. Enquanto uns se perdiam no êxtase, ela afiava o olhar. Enquanto outros se entregavam ao abandono, ela permanecia lúcida demais. Talvez por isso nunca tenha sido bem-vinda por completo.

Momo, no séquito de Dionísio, aparece na forma rechonchuda para representar abundância.

Eu, na minha representação de Momo.

Nas narrativas antigas, Momo passa a ocupar o lugar de julgador. Não por virtude reconhecida, nem por sabedoria celebrada, mas pela fama que o precede. Entre os deuses, corria o comentário de que ninguém enxergava tão bem as falhas quanto ele. E foi por isso que Zeus, Prometeu e Atena, inflados pelo orgulho de suas obras, decidiram submetê-las ao seu olhar.

Zeus apresentou primeiro sua criação. Um touro imenso, musculoso, dotado de força bruta e ímpeto indomável. Um animal feito para avançar, para rasgar o espaço com os chifres, para impor respeito pelo peso do corpo e pelo fogo do ataque. Momo observou em silêncio, contornou a figura com os olhos, e então sorriu. Apontou o defeito com delicadeza cruel. Os olhos, disse ele, estavam mal colocados. Não se alinhavam aos chifres. Como poderia uma criatura tão vocacionada para o embate não enxergar com precisão aquilo que pretendia ferir?

Prometeu, em seguida, trouxe sua obra. O homem. Um corpo erguido, moldado com intenção, dotado de mãos capazes de criar, de destruir, de acariciar. Um ser atravessado por desejo, pensamento e contradição. Momo aproximou-se com curiosidade renovada. Tocou o peito da criatura e lamentou a ausência de má abertura. Uma janela, sugeriu, algo que permitisse ver o que se passa por dentro. Pensamentos, intenções, segredos. Para ele, um ser que oculta o próprio interior já nasce defeituoso.

Por fim, Atena apresentou a casa. Um abrigo concebido com lógica, proporção e inteligência. Um espaço pensado para proteger, acolher, organizar a vida. Momo caminhou ao redor da construção, analisou suas paredes, sua base firme, e então encontrou mais uma falha. A casa não possuía rodas. Não podia ser movida. Ficava condenada ao entorno, aos vizinhos, às circunstâncias do lugar. Para Momo, uma morada que não pode escapar é, desde o início, uma prisão elegante.

               Pintura de 1561, de Maarten van Heemskerck rep do juslgamento de Momus

Nenhuma dessas críticas buscava aprimorar o mundo. Nenhuma carregava a intenção de cuidar da criação. Todas serviam a um único propósito: provar que nada, nem mesmo aquilo que nasce das mãos divinas, é suficiente. O olhar de Momo não constrói. Ele desvela até que reste apenas a fratura.

Essa cena guarda uma violência que não se anuncia. Não é a violência do erro explícito, nem do fracasso evidente, mas a da exigência infinita, aquela que corrói em silêncio. Momo não aceita o limite como condição natural da criação. Seu olhar não repousa. Não concede trégua. Tudo o que toca precisa ser atravessado pelo juízo, mesmo quando o juízo já não serve a nenhum propósito além de si mesmo.

É por isso que o Olimpo o rejeita. Não por blasfêmia, não por afronta direta, não por traição aos deuses, mas por excesso de lucidez. A lucidez que não se curva, que não admite pausa, torna-se insuportável até entre imortais. A criação, divina ou humana, não resiste em um território onde a crítica se recusa a cessar. Em algum ponto, até os deuses precisam aceitar a imperfeição como parte do mundo, como condição inevitável de tudo o que nasce.

A expulsão de Momo não carrega fúria teatral. É um gesto quase administrativo, um afastamento necessário para que o próprio cosmos continue respirando. A presença constante de Momo ameaça o ato criador, pois transforma todo nascimento em objeto imediato de corrosão. O Olimpo, para existir, precisa de um intervalo entre o gesto de criar e o gesto de julgar.

Em uma versão posterior do mito, registrada na tradição das fábulas atribuídas a Esopo e retomada por comentadores antigos, a história se amplia e inclui Afrodite, a deusa do amor. Diante dela, Momo se vê, pela primeira vez, em dificuldade. Observa o corpo, a forma, a harmonia, a beleza que parece escapar a qualquer reparo. Não encontra falha nos contornos, nem na presença, nem no encanto que se impõe sem esforço.

Ainda assim, não se cala.

Quando a perfeição se apresenta de maneira irrecusável, Momo recua para o detalhe mínimo. Escuta o som das sandálias de Afrodite ao tocar o chão. Um ruído quase imperceptível, banal, irrelevante para qualquer outro olhar. É ali que finca sua zombaria. Não por necessidade de correção, mas por incapacidade de aceitar o silêncio diante do que não pode ser diminuído.

          Momus, deus da sátira e do escárnio - Pintura de Hippolyte Berteaux, teto do Théâtre Graslin - Nantes

Esse gesto revela sua essência com clareza desconfortável. Quando não há defeito, Momo inventa. Quando a beleza se impõe, ele escava o insignificante. Sua crítica não nasce da justiça, nem do desejo de aperfeiçoar, mas de uma compulsão interna, uma urgência que não admite repouso. O riso de Momo não celebra. Ele precisa ferir para continuar existindo.

Sempre achei essa história profundamente humana. Conheci gente assim. Talvez todos conheçamos. Pessoas incapazes de celebrar sem desmontar, de admirar sem reduzir, de permanecer em silêncio diante do que não podem dominar. Em uma ocasião específica, alguém me disse, com um sorriso de desprezo, que toda festa precisa de rei, que toda alegria exige um rosto oficial. Sorri de volta. Pensei em Momo. Pensei em como ele jamais reinou. Foi expulso do Olimpo. Condenado a vagar como alegoria, como conceito, como espelho desconfortável.

Momo não foi criado para liderar multidões. Foi feito para incomodar consciências. Não nasceu para ser coroado, mas para apontar fissuras. Seu lugar sempre foi o da margem, da palavra atravessada, do riso que não consola. Quando hoje pedem sua presença antes da hora, quando exigem sua aparição como se fosse garantia de autenticidade, repetem o gesto que levou à sua queda. Transformam crítica em fantasia, ironia em decoração, pensamento em adereço.

Talvez seja essa a maior anedota de todas. Momo, o deus incapaz de pertencer, convertido em símbolo oficial da festa. A figura que jamais se acomodou, agora acomodada em carros, discursos e slogans. E ainda assim, se olharmos com atenção, ele continua ali. Não na coroa, mas no comentário atravessado. Não no trono, mas no julgamento apressado. Não no centro do bloco, mas naquele riso que desmonta tudo e segue adiante, satisfeito com o próprio eco.

MOMO: DA QUEDA DO OLIMPO AO TRONO DA FARSA CARNAVALESCA

Komos (ou Comos), divindade menor e talvez menos conhecida fora dos círculos eruditos da Grécia e Roma antigas, era o deus das festas noturnas, dos excessos e da embriaguez jovial. Seu nome já evocava a dança, a música e a alegria desenfreada, e suas celebrações eram marcadas por orgias, cantos e marchas improvisadas que transformavam a cidade em um palco vibrante de risos e rituais invertidos. Diferente de Momo, que personificava a crítica e a ironia, Komos era a encarnação do prazer e da liberação das convenções, o espírito que empurrava os mortais para o abandono do autocontrole e para o êxtase do instante. Nas ruas, em salões e jardins, sua presença era invisível, mas sentida na música dos tambores, nos passos desordenados e no tilintar de taças e pratos.

Vasos áticos de figuras negras e vermelhas (sécs. VI–V a.C.) - Komos aparece como jovem bêbado, muitas vezes: nu ou semi-nu, com coroa de hera ou videira, segurando taça (kylix) ou ânfora de vinho, em procissão festiva (kômos) com músicos e dançarinos. Às vezes ele se confunde visualmente com sátiros, mas sem características animalescas.

Foi na confluência desses dois mundos, o da sátira de Momo e o da folia de Komos, que a tradição romana encontrou o modelo do que viria a ser o Rei do Carnaval. A fusão das duas figuras — Momo, com seu sarcasmo afiado e olhar crítico, e Komos, com sua energia libertária e festiva — criou uma divindade híbrida, masculina, capaz de governar o tempo da festa sem que ninguém ousasse questionar sua autoridade temporária. Durante três dias, ao ritmo das celebrações em honra a Saturno, as saturnálias, o escolhido para representar Momo encarnava essa síntese: seria ao mesmo tempo crítico e indulgente, mordaz e generoso, mestre das regras e autor do caos. Era o único capaz de equilibrar a ironia da crítica com a energia da festa, transformando o espaço urbano em um teatro de exageros e paradoxo.

O rito de coroação desse Rei Momo, embora efêmero, refletia a profundidade dessa herança mitológica. O mais belo soldado da cidade, ou posteriormente o homem mais obeso — símbolo da fartura e do excesso — recebia a coroa, tornando-se a autoridade suprema do instante, o anfitrião das transgressões, o juiz e o executor do humor e da crítica. Mas, ao término da celebração, a morte simbólica do rei lembrava a fragilidade do poder e a necessidade da passagem: toda autoridade, por maior que pareça, é apenas um gesto temporário diante da marcha inexorável do tempo.

A fusão de Komos e Momo não se limitou à festa. Ela simbolizava a união de opostos: a indulgência e a censura, o prazer e a lucidez, a excitação e o juízo. Essa combinação permitiu que o carnaval emergisse como espaço onde a ironia e a alegria coexistem, onde o exagero físico e a crítica social se encontram, e onde o riso é tanto celebração quanto advertência. Não é por acaso que, séculos depois, a imagem do Rei Momo atravessaria continentes, aparecendo nas ruas de Sevilha, de Barranquilla e do Rio de Janeiro, sempre portando a mesma função essencial: coroar a festa e, ao mesmo tempo, recordar que toda alegria consciente precisa de sombra para existir.

Assim, Momo e Comos deixaram de ser figuras isoladas para se fundirem em uma divindade masculina, transformando-se no símbolo supremo das festas, da desordem e do prazer sem limites. Era a imagem que seduzia os artistas, que povoava pinturas, relevos e máscaras, e que transformava cada celebração em uma coreografia ritual de exagero e sátira. Durante os três dias em que o povo se entregava às festividades dedicadas a Saturno — os ancestrais do que hoje chamamos carnaval — o mais belo dos soldados era escolhido para representar Momo. Coroado como rei, tornava-se a autoridade máxima, anfitrião de toda a orgia, senhor da transgressão, e guardião do caos cuidadosamente permitido. Ao final, entretanto, a efemeridade de seu poder era lembrada pela morte simbólica do rei, uma oferenda de passagem que unia a celebração à consciência da finitude humana.

Com o tempo, os critérios mudaram. O escolhido passou a ser o homem mais obeso, símbolo da fartura, do excesso, da extravagância que transbordava o ordinário.

Na Espanha de 1553, quando a fé ainda ardia em ritos severos e a noite sabia o gosto do sacrifício, o Rei Momo surgiu sob a forma de um boneco entregue às chamas. Não era apenas fogo: era um gesto de misericórdia simbólica, uma tentativa de suavizar antigos costumes de brutalidade explícita. Ao queimar Momo, queimava-se também a dor crua, substituindo-a por metáfora — a morte de Cristo encenada não como sangue, mas como cinza, promessa silenciosa de ressurreição.No ventre febril do carnaval, Momo tornava-se espelho dos excessos humanos. Sua queima não era punição, mas catarse: o fogo lavava os pecados da carne, dissolvia risos em fumaça e devolvia a cidade ao compasso austero da Quaresma. O que ardia ali não era apenas o boneco, mas a embriaguez coletiva, os desejos que precisavam morrer para que a ordem pudesse renascer.

Em Cádiz, antiga sentinela do Atlântico, cidade moldada pelo sal, pelo vento e pelo escárnio, Momo ganhou voz própria. Tornou-se sátira encarnada, riso afiado, crítica travestida de festa. Sob sua máscara ardente, zombava-se dos poderosos, das autoridades, da própria condição humana — tudo com a leveza perigosa do deboche que não fere, mas expõe. Era uma irreverência quase sagrada, um pacto tácito entre o povo e o fogo.

À meia-noite da Quarta-feira de Cinzas, quando o carnaval exala seu último suspiro, Momo é entregue às chamas. O relógio marca não apenas o fim da festa, mas a passagem do excesso para o silêncio, do delírio para a contenção. As cinzas caem como neve morna sobre a cidade, e nelas repousa a promessa de retorno à normalidade — austera, penitente, necessária.

A tradição persiste, teimosa e viva. Ano após ano, novos Momo são criados, cada qual mais real, mais humano, como se a cidade desejasse reconhecer-se naquele corpo condenado ao fogo. Assim, Cádiz continua a queimar seu “Dios Momo”, não por ódio, mas por amor ao rito: porque algumas verdades só se revelam quando dançam, e algumas purificações só acontecem quando ardem. Mais tarde, em Barranquilla, na Colômbia, o Rei Burlesco reinava nos salões de baile, autorizando a desordem carnavalesca com bumbos, pratos e maracas, em paródia as cerimônias oficiais dos vice-reis, devolvendo às ruas o espírito irreverente de Momo, agora traduzido em ritmo, riso e música.



Ilustração do El Dios Momo, 1886, Biblioteca Nacional da Espanha

Em 1910, sob a lona do Circo Spinelli, uma opereta escrita e encenada por Benjamin de Oliveira marcou a primeira personificação do Rei Momo no Brasil. Benjamin de Oliveira, reconhecido como o primeiro palhaço negro do país, fez surgir em cena essa figura inaugural, ainda embrionária, como um presságio alegre. Mesmo assim, somente na década de 1930 o Rei Momo ganhou contornos próximos à imagem carnavalesca que atravessou o tempo e chegou aos nossos dias.

Benjamim de Oliveira vestido e maquiado como palhaço, o primeiro rei Momo do Brasil

Benjamim de Oliveira e sua mãe. - Benjamim de Oliveira — nome que mais tarde soaria como clarim nos picadeiros — nasceu Benjamim Chaves, em 11 de junho de 1870, numa fazenda de chão duro e céu largo, a Fazenda dos Guardas, em Pará de Minas. Ali, a terra ainda guardava marcas de correntes invisíveis, e o ar parecia pesado de destinos já escritos antes mesmo do primeiro choro.

Em 1933, um grupo de jornalistas do periódico A Noite, no Rio de Janeiro, então capital da República, concebeu um boneco de papelão para desfilar pelas ruas da cidade. Ao fim do percurso, o boneco foi colocado em um trono, conduzindo simbolicamente a folia popular. Recebeu o nome de Rei Momo I e Único, denominação que misturava ironia, invenção e desejo de eternidade. No ano seguinte, em 1934, a equipe de A Noite decidiu substituir o boneco por uma figura de carne e presença real. O escolhido foi o cronista Francisco de Moraes Cardoso, que inaugurou a tradição carioca do reinado momesco. Seu domínio sobre a festa se prolongou até 1948, ano de sua morte, encerrando um capítulo fundador.

Baile de Carnaval 28/02/1946 no Teatro João Caetano - Rio de Janeiro. Nela consta a Rainha do Baile das Atrizes (Mara Rúbia) e o Rei Momo (Francisco de Moraes Cardoso). Foto: Jean Manzon por Diários Associados, acervo Instituto Moreira Salles

Do período que se seguiu à morte de Francisco de Moraes Cardoso até o início da década de 1970, o Rei Momo passou a ser escolhido por indicação de agremiações carnavalescas e de veículos de imprensa, num acordo tácito entre a festa e quem a narrava. Em 1972, um decreto municipal alterou definitivamente esse percurso e determinou que o Rei Momo fosse definido por meio de concurso público, estabelecendo um novo modelo de escolha.

Outras cidades do Brasil também adotaram a coroação do Rei Momo. Santos foi pioneira no estado de São Paulo, em 1934. O primeiro coroado no município foi Waldemar Esteves da Cunha, conhecido como o Magnânimo, considerado o mais antigo Rei Momo do país. Seu nome atravessou décadas e permaneceu ligado à memória do carnaval até sua morte, em 2013, aos 92 anos.

No Rio de Janeiro, cidade que deu início à tradição e cultiva o orgulho do título de Rei Momo I e Único, destacou-se Reynaldo de Carvalho, conhecido como o Bola, que reinou por nove anos consecutivos, de 1987 a 1995, estabelecendo um recorde que permanece intacto. Em 2004, um decreto do então prefeito César Maia encerrou a exigência de peso mínimo como critério para inscrição no concurso de Rei Momo. O argumento apresentado foi a política de combate à obesidade, redefinindo os contornos simbólicos do corpo real da festa e abrindo novas possibilidades para o trono da alegria.

E ainda, se olharmos para as tradições mitológicas, vemos que Momo jamais se limitou à esfera humana. Sua presença acompanha até o próprio desenho do destino. Diz-se que, diante do peso que a Terra suportava devido à multiplicação rápida dos homens, Zeus, incomodado, pensou em puni-los de diversas maneiras: fulminar ou afogar a maioria. Mas Momo, com sua sagacidade infalível, sugeriu um caminho mais engenhoso: casar Tétis com um mortal, de cujo enlace nasceria Aquiles, e ao mesmo tempo permitiria que Zeus gerasse Helena, cuja presença provocaria discórdia entre a Ásia e a Europa, culminando na Guerra de Tróia. A ironia de Momo não era apenas crítica ou farsa: era uma intervenção estratégica, capaz de reorganizar o mundo por meio do caos calculado, equilibrando vida e morte, ordem e transgressão.

No vocabulário humano, o nome “momo” passou, no século XVI, a significar farsa, sátira e paródia, registrado em crônicas espanholas que descreviam “grandes e suntuosas festas de momos”. Tornar-se Rei Momo, o rei da folia carnavalesca, não exigia grande adaptação: o sarcasmo, a sátira e a burla já eram a essência dessa figura. Assim, o carnaval, com toda a pompa, a música e o exagero, não inventou Momo. Apenas vestiu de cores e plumas aquilo que ela já carregava como essência: a celebração do exagero, a crítica ao excesso e a alegria do olhar penetrante.

Poucos conhecem, porém, o outro lado dessa divindade. Momo possuía uma beleza rara, quase impossível de ignorar, mas coberta pela máscara da ironia, aquela que transformava o sorriso em julgamento, e o encanto em comentário mordaz. Filho de Nix, a deusa da noite, nasceu entre mais ou menos vinte e um irmãos e irmãs, figuras do mistério, da escuridão e da luz: Orfeu, senhor dos sonhos; Hécate, guardiã da magia obscura; outros ainda mergulhados em sombras que poucos ousariam nomear; e dois irmãos de luz, representantes do bem, da clareza e da bondade que equilibravam o destino familiar. Esse panteão particular de irmãos e irmãs revela que Momo não era apenas crítica ou riso: era herança da noite, herança da sombra, mas também portadora de um lampejo de luz, um equilíbrio tênue entre o encanto e a corrosão, entre a diversão e a consciência do limite, mesmo quando ninguém mais parecia perceber.

Na trajetória de Momo, da mitologia grega ao reinado carnavalesco, há sempre essa tensão entre presença e máscara, entre beleza e ironia, entre juízo e folia. Momo, filha da noite, senhora do sarcasmo e do excesso, atravessa séculos para ensinar que rir é também compreender; que satirizar é, muitas vezes, intervir; e que até o mais belo e perfeito dos seres precisa de uma sombra para existir.

O DOCE CHIACCHIERE: UM TRIBUTO IRRESISTÍVEL AO ESPÍRITO DE MOMO

Entre máscaras, serpentinas e o riso que percorre as ruas, surge um deleite que, sem jamais ter sido concebido para tal, parece carregar a própria essência de Momo: trata-se do Chiacchiere. Também conhecido por frappe, bugie ou cenci, ele é uma tradição do carnaval italiano, um fragmento de história transformado em prazer efêmero. Sua massa fina, delicadamente frita, estala sob os dentes, polvilhada de açúcar ou mergulhada em mel, oferecendo uma experiência que vai além do sabor: é um gesto de transgressão, um estalo de alegria que lembra o riso mordaz e ácido do deus da ironia.


A história do Chiacchiere remonta ao Renascimento italiano, especialmente nos salões de Veneza, Roma e Florença, onde o carnaval florescia com pompa e excessos. O nome, que significa literalmente “conversa fiada” ou “falatório”, sugere um vínculo simbólico irresistível com a sátira e o espírito crítico: cada mordida é um pequeno comentário, um sussurro de travessura que evoca a liberdade da língua solta, do riso irreverente e da crítica sutil. Embora o doce não tenha sido inspirado por Momo, podemos imaginar que, ao degustá-lo durante a folia, sentimos a presença da divindade: o estalo, a leveza e o prazer contêm o mesmo humor ácido que ele personificava.

O Chiacchiere é apenas um dos muitos doces que pontuam o carnaval italiano, herança viva das celebrações que acompanharam séculos de tradições politeístas. Assim como as máscaras e os desfiles evocavam antigos deuses, rituais e festivais de rua, a confeitaria carnavalesca transformava farinha, açúcar e gordura em símbolos de fartura, prazer e transgressão temporária. É nessa tradição que o Chiacchiere encontra seu charme: não como homenagem intencional a Momo, mas como um lembrete comestível de sua presença invisível, da ironia que atravessa as festas e da liberdade que o carnaval sempre celebrou.

Experimentar um Chiacchiere, então, é mais do que um gesto gastronômico: é tocar com os sentidos uma história que atravessa séculos. É provar a ironia convertida em doçura, a crítica transformada em riso, e o instante efêmero da festa transformado em memória. Nesse pequeno pedaço de massa estaladiça, a tradição carnavalesca se mantém viva, lembrando que, mesmo quando esquecemos os deuses, sua essência pode se manifestar nos lugares mais inesperados — na conversa fiada, no riso compartilhado, e no estalo de um doce entre os dentes.

CONCLUSÃO – O ECO DE MOMO NO CARNAVAL E NO TEMPO

E assim, ao fechar este percurso, compreendo que Momo nunca foi apenas um rosto mascarado ou um personagem festivo. Filho da Noite, irmã de deuses sombrios e luminosos, guardião da ironia e da crítica, ele atravessou a História como um sopro de lucidez e riso cortante, expondo falhas e imperfeições com a precisão de quem vê além do véu das aparências. Nos antigos mitos gregos, Momo julgava todos e tudo com a perspicácia de quem conhece o limite da criação. Sua expulsão do Olimpo não foi derrota, mas a afirmação de que a crítica absoluta, como o riso absoluto, precisa de liberdade para existir.

Quando a tradição romana o uniu a Comos, deus da festa, nasceu o que chamamos de Rei do Carnaval: a síntese perfeita entre desordem e lucidez, excesso e consciência, riso e julgamento. O Rei Momo, coroado e exaltado nos salões e ruas, tornou-se a personificação da celebração, ao mesmo tempo anfitrião e crítico, rei e bufão, mestre da orgia e do sarcasmo. Cada gesto da folia, cada passo de dança, cada máscara que se ergue, é herança dessa fusão: a consciência de que a alegria mais plena carrega sempre uma sombra de lucidez, e que a liberdade total pede o contraste da crítica, ainda que suave ou disfarçada.

E mesmo na gula das festas, Momo permanece. Basta olhar para o Chiacchiere, aquele estalo doce e efêmero, para perceber a presença invisível da ironia. O simples gesto de morder um pedaço de massa fina, frita, polvilhada de açúcar, é reencontrar o espírito da conversa fiada, do falatório ácido, do comentário mordaz e leve. O doce não foi feito para ele, mas carrega a analogia perfeita: a celebração da vida e do riso, com todos os excessos e sutilezas do carnaval. Cada Chiacchiere é um fragmento de História, uma lembrança de que o espírito politeísta, a música de Comos, e a crítica de Momo continuam vivos em nossas mãos, nossas bocas e nossos olhos atentos à festa.

No final, Momo não é apenas lenda, crítica ou figura carnavalesca. Ele é o fio que conecta a antiga mitologia ao presente, a ironia à alegria, a sombra à luz da festa. Ao percorrer seus passos — da crítica implacável do Olimpo, à fusão com Comos e ao reinado efêmero e magnífico do carnaval, até o riso crocante de um Chiacchiere — sentimos a força de uma ideia que atravessa milênios: que a festa, para ser verdadeira, precisa de consciência; que o riso, para ser profundo, precisa de lucidez; que a tradição, para sobreviver, precisa transformar mitos em gesto cotidiano, e ironia em prazer compartilhado.

Momo permanece, invisível e irresistível, entre máscaras, músicas e doces, lembrando que o mundo, por mais sério que pareça, sempre poderá ser visto com olhos de crítica e boca de riso. E que o verdadeiro espírito do carnaval é exatamente isso: o encontro entre a transgressão e a sabedoria, o riso e a reflexão, a máscara e o rosto que se ergue por trás dela, sorrindo, sempre. 

Chiacchiere

Ingredientes (rende cerca de 40 unidades)

500 g de farinha de trigo tipo 00 — a mais fina e ideal para a textura crocante

70 g de açúcar granulado

50 g de manteiga amolecida (temperatura ambiente)

3 ovos médios

1 gema adicional para enriquecer a massa

30 ml de grappa, vinho branco seco ou licor de sua preferência (confere leveza e aroma)

1 pitada de sal fino

Óleo neutro para fritar

Açúcar de confeiteiro para polvilhar por cima quando estiver pronto ou calda de açúcar ou mel

Modo de Preparo: Em uma tigela grande, peneire a farinha e o açúcar juntos. Adicione a pitada de sal. Faça uma cavidade no centro e coloque os ovos inteiros e a gema. Acrescente a manteiga amolecida e, se desejar, a grappa ou vinho — isso ajuda a massa a ficar mais leve e perfumada.

Misture todos os ingredientes inicialmente com um garfo e depois comece a sovar com as mãos até obter uma massa lisa e homogênea, levemente firme. Envolva a massa em pano de prato (ou filme plástico) e deixe descansar por cerca de 20 a 30 minutos à temperatura ambiente — isso facilita esticá-la depois.  Polvilhe levemente uma superfície limpa com farinha. Abra a massa com um rolo até que fique bem fina — quase translucente.  Corte tiras ou formas retangulares com uma faca ou cortador de massa. Espanhole (faça um corte, ou dois, no centro de cada retângulo) se quiser a forma tradicional. Aqueça óleo abundante em uma panela funda — a temperatura ideal é em torno de 170 °C. Frite poucas unidades por vez para que o óleo não esfrie demais.  Ao fritar, os doces vão inchar ligeiramente e dourar por igual. Vire para cada lado até ficarem crocantes e dourados.  Retire com uma escumadeira e coloque sobre papel absorvente para eliminar excesso de óleo. Polvilhe generosamente com açúcar de confeiteiro enquanto ainda estão mornos — isso cria a aparência branca de inverno e intensifica o sabor doce. 

Dicas e Variações – para Aroma extra: adicionar raspas de laranja ou limão na massa intensifica o perfume e é tradicional em muitas regiões italianas. Versão assada: se preferir mais leve, elas podem ser assadas em forno quente até dourar, mantendo parte da crocância e reduzindo a gordura.