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terça-feira, 29 de outubro de 2024

Hingabana, o lírio-aranha vermelho: Morte, perda, separação e abandono – os muitos simbolismos de uma flor..

.Neste lado ocidental do mundo alguns países, influenciados pelas veias da colonização ou pelo marketing avassalador do capitalismo, estão se preparando para comemorar o Halloween, o Dia das Bruxas, uma tradição que se iniciou com celtas e druidas no pré-cristão para celebrar uma transição do ano que eles chamavam de Samhain, cujo vinculo religioso se constituía como “a morte do Deus” (que trazia consigo o fim da colheita e o inverno); deus esse que ressuscitaria na estação seguinte, ainda mais forte. No meio disso tudo, se construiu um folclore com muitas lendas, estórias e mitos que converteram antigas tradições camponesas em celebrações vinculadas à bruxaria e aos espíritos malignos, que acabaram sendo usadas, pela disseminação do medo, em uma ferramenta poderosa para manter a hierarquia e controlar a sociedade, promovendo uma visão de mundo que favorecia a Igreja.

Sabe-se que, as populações mais ignorantes, em grande parte devido à falta de acesso à educação e ao conhecimento científico, tornaram-se presas fáceis dessas crenças. A Igreja, que monopolizava a educação e a interpretação da Bíblia, moldou a cosmovisão das pessoas, fazendo-as acreditar que qualquer desvio das doutrinas aceitas poderia levar à condenação. Essa manipulação do conhecimento resultou em uma sociedade onde a superstição prevalecia sobre a razão, perpetuando uma cultura de medo e controle.

O Halloween é um exemplo fascinante de como crenças errôneas podem ser perpetuadas por instituições em busca de controle. A Igreja, ao manipular o medo e a ignorância, conseguiu moldar a forma como as pessoas viam o sobrenatural, influenciando suas práticas culturais – ao longo desse percurso, muitas pessoas, na maioria mulheres, foram assassinadas acusadas de bruxaria pelo simples fato de terem um maior domínio sobre o conhecimento de uso de plantas, unguentos e venenos. Contudo, a evolução do Halloween também demonstra a capacidade humana de resistir e reinventar tradições, transformando medos em celebrações. Essa dinâmica continua a refletir a complexidade da interação entre cultura, religião e conhecimento ao longo da história.


Para não ficar muito repetitivo, e ter que tratar novamente sobre o Halloween, algo que já apresentei em algumas postagens que você pode conferir AQUI, AQUI, AQUI, AQUI, AQUI, AQUI, AQUI, AQUI e AQUI. E, hoje queria seguir o clima da estação e a linha do “pouco aterrorizante”, mas fugindo do óbvio. Para isso, resolvi procurar argumentos fora do mundo ocidental. Assim, hoje vou falar do simbolismo de uma pequena flor que poder ser tão fatal quanto a ignorância.

Num mundo onde se redescobre a imensidade de formas, usos e gostos com as plantas comestíveis não convencionais – PANCs, também se encontra plantas altamente tóxicas e letais.  Logo, é altamente importante e necessário o domínio do conhecimento sobre plantas para que não haja um pandemônio, sobretudo na cozinha.

O conhecimento antigo do mundo das plantas dominado inicialmente por mulheres ainda no período horticultural, antes mesmo do surgimento da agricultura já demonstrava a importância de se entender de plantas, seus ciclos e suas produções, particularmente para a sustentar a alimentação. Mais tarde, esses conhecimentos ganhariam ainda mais poder e seriam ampliados por xamãs, curandeiros e bruxas, que aumentaram exponencialmente o uso da flora para alimentação, fármacos, produtos de beleza, construção dentro outros fins.


Nesse sentido, hoje você vai conhecer um pouco mais sobre o Lirio-aranha vermelho – que, no final, serviu para inspirar uma bebida interessante que você pode servir na sua festa de Halloween e, com ela, ter mais conteúdo de conversas que fujam do óbvio.

A história do lírio-aranha vermelho começa com uma bela cena outonal no final de setembro durante o feriado budista de Ohigan (o O é um título honorífico e Higan significa “a outra margem”).  Por um lado, esse feriado tem algo semelhante com o Halloween, pois, na verdade, Higan é uma abreviação de Tôhigan, onde Tô significa “atravessar” e como Higan quer dizer “A Outra Margem”, Tôhigan que dizer “atravessar para a outra margem”. Tô é a parte mais significativa da palavra Tôhigan. Higan, a menos que sejamos muito cautelosos, torna-se um conceito. Mas Tô (atravessar, ir) não é um conceito; é a experiência, é a vivência. Desse modo, o importante é atravessar para a outra margem, e eu gostaria de enfatizar mais o Tô do que o Higan. Ele recomenda viver o dia-a-dia. O destino, a meta, o fim, o Higan, acaba por ser alcançado se você dá cada passo no caminho perfeito. Se os meios são perfeitos, é natural que alcancemos o objetivo perfeito. Assim, os meios são mais importantes que o objetivo. Eu não deveria dizer “mais importantes”, pois isso divide os meios e os fins em duas coisas, enquanto que os meios são fins e os fins são os meios. Sabendo-se isso, a palavra Higan torna-se perfeitamente compreensível sem o acréscimo do verbo Tô. Atravessar é dar vida à outra margem – logo, seria acreditar também que essa outra margem é puramente real.


É esse período de tempo, logo antes do equinócio de outono deu origem a um dos folclores mais fascinantes para a existência de qualquer flor do mundo. No Japão, Ohigan é uma época para voltar para casa para visitar túmulos e prestar homenagem aos ancestrais. Também coincide com o breve período de floração do lírio-aranha vermelho (Lycoris radiata), que floresce incomumente no outono. Por causa da associação da flor com Ohigan (お彼岸) e o equinócio de outono (彼岸), essa flor é conhecida em japonês como Higanbana (彼岸花).

A primeira vez que eu me deparei com esses seres florais requintados, aqui mesmo no Ceará, paralisei, mas nem sabia que ela era tudo isso – admirei a cor, a beleza e segui. É uma flor impressionante, elegante e intimidadora. Ela é alta e sem folhas, seu longo caule se ergue do chão e no topo, fica uma linda coroa de flores com longos tentáculos esticados ao redor dela. Ela exige respeito e espaço para exibir sua opulência.

O lírio-aranha vermelho pode ter muitos nomes diferentes, seu nome latino é Lycoris radiata, mas ela é conhecida como flor do inferno, lírio mágico vermelho, flor do equinócio, flor da morte, dentre outros.

Por enquanto, vamos chamá-la apenas de Lycoris. E ela é muito mais do que apenas uma flor bonita: em cada centímetro de seu corpo botânico, o veneno corre em suas veias. Sua raiz bulbosa, folhas elegantes e coroa de flores que contêm um alcaloide tóxico chamado licorina que tem comprovada ação emética, analgésica, anti-inflamatória, estimulante respiratória, anticancerígena, antiviral e expectorante. Mas, em contrapartida, se ingerida causará dor abdominal, salivação, tremores, náusea, vômito, convulsões, paralisia e se for ingerido em grandes quantidades é letal.

As flores de Lycoris não nascem com a primavera, nem florescem no verão. Ela floresce com a cortina do outono, depois que todas as suas folhas murcham. Na mitologia chinesa, há uma lenda sobre a singularidade dessa flor. Ela é cercada por um mito de morte, perda e tristeza, porque por trás de sua beleza há uma história trágica.

Um outro nome para o lírio-aranha vermelho é "Mañjusaka" (em chinês) e "Manju-syage" (em japonês), e eles fazem relação direta com a existência de seres mitológicos que você conhecerá a partir de agora. Essa história tem raízes japonesas, mas foi levada para partes da China, o que explica as versões variadas e, as vezes confusas, que se encontra por aí.

                                          Amaterasu, a deusa do sol japonesa 

Tudo começa com a deusa do sol Amaterasu (cujo epiteto completo é Amaterasu-ōmikami, ou seja, "a Grande Deusa Augusta que ilumina o céu”, deusa do círculo mitológico japonês que domina o panteão do Xintoísmo), designando dois espíritos da natureza que aqui vamos identificar como elfos (mas, há quem diga que eram fadas) para proteger as flores e as folhas de forma independente.

Lycoris (vamos chamar assim, o lírio-aranha vermelho) nem sempre foi assim, costumava haver estações em que ela estava inteira. Um breve momento no tempo em que suas folhas e flores se cruzavam e naquele pico de sua magia ela era bem protegida por dois elfos leais. Um, chamado Mañju, que protegia a flor, enquanto o outro, chamado Saka, protegia as folhas.

A maioria dos elfos encarregados de proteger a flora sagrada trabalhavam juntos em harmonia; as folhas captavam a luz do sol e forneciam nutrientes para a flor que criava sementes e pólen para uma nova vida.

Lycoris era diferente, ela esperava seu tempo, armazenando sua energia de suas folhas durante toda a estação e esperando até o outono para florescer. Ela preferia apresentar sua beleza então, depois que toda a outra flora começasse a perder vitalidade e murchar. Até que fossem apenas ecos de beleza e ela sozinha brilhasse, como uma flor brilhante de fogo no campo. Uma surpresa etérea e deslumbrante para todos os seus espectadores. Uma estação em que ela seria a flor mais bonita.



Mañju e Saka gostavam bastante dos caprichos de Lycoris. Apesar de todo seu orgulho intimidador, a flor era imensamente charmosa e gentil com seus servos élficos. Embora eles perdessem o luxo da companhia élfica, eles tinham muito orgulho e cuidado em proteger a flor mais mágica do reino.

Haveria um ano ocasional, quando a estação mudava para o outono, onde os elfos se cruzavam. Eles nunca tinham muito tempo para conversar, mas os dois se cortejavam através da linguagem da doação de presentes de colheita.

Alguns anos, Saka pedia às abelhas para enviarem mel e delícias para Mañju durante a floração do outono, e Mañju coletava cristais extravagantes e deixava pólen brilhante no caule para decorar o retorno de Saka.

Naturalmente, com o passar dos séculos, os elfos ficaram cada vez mais curiosos um sobre o outro. Lycoris gostava bastante das brincadeiras entre os dois. Ela era uma entidade antiga e lhe dava alegria ver os dois elfos flertando. Ela nunca admitiria, mas ela adorava participar de ideias de presentes e surpresas sazonais. Em noites calmas, Lycoris permitia que os elfos lhe contassem histórias. Depois, ela ilustrava para Mañju as histórias de Saka; como durante dias tempestuosos, quando parecia que seus caules iriam quebrar, seu protetor abraçava Lycoris através dos ventos fortes e da chuva para manter seu caule firme e gracioso. Ou, como ela observava com admiração enquanto a bela Saka trabalhava na luz do sol com a força de um javali, revirava o solo novo sobre seu bulbo de raiz e coletava composto para nutrição. Lycoris amava que Saka arrancasse suas folhas menos atraentes e massageasse o novo crescimento para garantir que ela tivesse a vegetação mais forte para coletar nutrientes para sua semente.

A estação da floração passou e Mañju e a floração retornaram à hibernação, e Saka e as folhas despertaram da delas. Lycoris, é claro, contava as histórias de ambos. Entretendo Saka com histórias de Mañju. Afinal, era sua época favorita do ano. Ela adorava o olhar aguçado de Mañju para a beleza.

Mañju garantiria que a luz do sol atingisse sua flor perfeitamente durante sua floração. Usando uma colocação metódica de pedras e cristais para refletir a luz em sua flor das maneiras mais lisonjeiras. Ela se orgulhava quando humanos e animais paravam para encará-la. Mañju cuidava de seus estames, certificando-se de que seu pólen estivesse fofo, saudável e brilhante e que suas pétalas estivessem brilhantes e perfeitamente enroladas. Seu tempo com Saka a fez se sentir protegida, vital e forte, enquanto seu tempo com Mañju a fez se sentir confiante, fértil e opulenta.

Ambos os elfos estavam apaixonados, eles ouviam as histórias repassadas por Lycoris com admiração, mas sempre havia uma pontada de melancolia puxando o coração. Um amor que nunca poderia ser. Deveres que não podiam ser abandonados. Os elfos fantasiavam em conhecer o outro, dançar juntos e contar histórias da própria flor. Lycoris ria, mas então suspirava, avisando-os de que eles nunca poderiam se encontrar nesta vida, pois, pelas leis da natureza, eles nunca deveriam deixar seus postos como guardiões da ordem natural. Sua beleza, apesar de toda a sua vaidade, era um valor definido dentro da lei da natureza. A flor aconselhou os elfos com uma sabedoria antiga. A sabedoria de uma entidade ligada à natureza para viver um ciclo de vidas sem fim.

“Mantenha seu vínculo forte. Sua vida é apenas um piscar de olhos da minha eternidade. Em momentos de tempo, vocês dois morrerão e deixarão de ser elfos. Meu presente para vocês por seu serviço leal serão milhares de vidas envoltas nos braços um do outro. E quando essas vidas terminarem, lá estarei em seus túmulos, levando-os um ao outro.”

Claro, os elfos ficaram com o coração partido, mas se confortaram com o conselho da flor. Eles eram apenas elfos nesta vida e deviam obedecer às leis da natureza, pois são guardiões dela. Na próxima vida, eles poderiam, talvez, ficar juntos.

Então, durante o outono nos anos ímpares quando as flores e as folhas passavam umas pelas outras, e Mañju e Saka só trocavam sorrisos e desejos rápidos de boa estação. Séculos se passaram e momentos de tempo para uma flor antiga eram excoriantes para um elfo apaixonado.

Havia uma fome brotando dentro deles. Uma fome que passou despercebida até se transformar em uma devastação, uma luxúria. Os elfos queriam se tocar, ser abraçados, se entregar a horas de conversa. Essa fome aumentaria ano após ano até que uma estação, quando os dois passaram, eles decidiram fazer um pacto. Ambos abandonariam seus postos para ficarem juntos por apenas uma noite.

Lycoris em toda a sua sabedoria ancestral implorou aos dois. A Deusa do Sol não ficaria satisfeita. Quando seus olhos tocassem toda a superfície da terra ela veria a ordem sendo interrompida. Ela sentiria isso em seu próprio ser. Os elfos discordaram. Eles achavam que tinham descoberto uma forma de se encontrarem: se eles se encontrassem à noite, a Deusa do Sol não ficaria sabendo. Ela é a mãe de todos e certamente poderia ter compaixão nas leis do amor.

Lycoris foi gentil em discordar dos elfos. Ela era muito mais velha e não apenas entendia as leis da natureza, mas também do descuido no amor. A Deusa do Sol é um ser complexo, seus deveres na natureza são espalhar calor e vida para aqueles que encontra. O Sol está sempre profundamente preocupado com o estado do mundo ao seu redor, o que a torna uma criatura de rotina, ela exige equilíbrio. Lycoris explicou que não há dúvida de que o Sol é uma força da natureza. Ela não é uma entidade que entende benevolência. O Sol é rápido para temperar e toma decisões na velocidade da luz, estas nunca devem ser revertidas.

Os elfos desconsideraram o aviso, a ideia de estarem juntos valia o risco. Isso fez Lycoris balançar de ansiedade e conforme a estação mudava e chegava a hora dos caminhos dos elfos se cruzarem novamente. Enquanto suas últimas folhas murchavam lentamente e seu botão floral começava a se formar, os dois elfos se encontraram no meio das estações para ficarem frente a frente.

O tempo pareceu parar. Houve uma mudança no ar enquanto os dois olhavam nos olhos um do outro, próximos o suficiente para se tocarem. O puxão da natureza os puxava e chicoteava seus corpos como um vento violento tentando inaugurar as estações. Esses elfos só conseguiam suportar o fardo e olhar com admiração para a imensa beleza um do outro. Os guardiões míticos do Lírio-Aranha vermelho que, por séculos protegeram a mesma flor, encontrando-se apenas de passagem, captando olhares oníricos um do outro, comunicando-se em um código sazonal de presentes, agora estavam juntos. Mañju sorriu e estendeu a mão para Saka calorosamente. Os dois se encontraram e se abraçaram profundamente.

Esse era o tipo de abraço que faz alguém tremer de ansiedade, um encontro de duas almas que estavam destinadas a se separar. Como uma corrente, era poderoso, estimulante e, para os elfos, era mágico. Naquela noite, eles passariam dançando, conversando e rindo um com o outro, longe do olhar matinal da Deusa do Sol.

No entanto, assim que o orvalho do amanhecer se formou, a Deusa do Sol acordou com fúria ardente. Ela ficou inquieta a noite toda. Essa pequena corrente que os elfos fizeram quando se encontraram havia se transformado em ondas violentas na mente da Deusa. Elas haviam interrompido o equilíbrio junto com o sono divino da deusa e ela não estava satisfeita.

Ela brilhou pela terra em uma luz dourada ofuscante, vasculhando a terra furiosamente, procurando por qualquer sinal de desequilíbrio e exigindo saber o que a perturbara ao logo da noite. Ela procurou nas ondas do oceano, nas dunas do deserto, nos picos das montanhas, sem encontrar nada. As criaturas da terra se esconderam, sentindo a fúria quente do Sol em seu estado errático. Ela estava imparável, com raiva e muito cansada. Foi somente quando ela passou por Lycoris e seu campo de flores que sentiu o desequilíbrio e parou. A flor estava alta e orgulhosa como sempre, mas ela estava desprotegida, sua magia desobstruída e desprotegida, derramando-se sobre a terra em ondas de um poder estagnado.

A Deusa olhou curiosamente para a flor, que murchava lentamente debaixo do seu calor. Ela estava curiosa para saber por que Lycoris não floresceu em seu devido tempo. Ela não conseguia entender por que a flor mais vaidosa da terra deixaria de lado seu orgulho e beleza para perder sua floração, o auge de sua magia. Lycoris não respondeu, ela apenas se curvou respeitosamente, murchando na presença do Sol. A Deusa ficou furiosa. Exigindo saber para onde a guardiã outonal das flores tinha ido. Lycoris, junto com o resto do ecossistema, permaneceu em um silêncio aterrorizante. A Deusa do Sol ardia e gritava por respostas, queimando lentamente Lycoris.

Em proteção à flor, os elfos rapidamente emergiram de seu esconderijo juntos. Suas mãos se entrelaçaram e suas cabeças se curvaram vergonhosamente diante desta entidade flamejante. A Deusa do Sol estava tão brilhante e irada que os elfos não conseguiam olhar para ela, mas apenas tremer em sua presença. Eles imploraram para que ela cortasse a flor e seus campos. Admitindo que foram avisados desse resultado. A deusa se virou para Lycoris, repreendendo a flor por encorajar essa união e por seu silêncio sobre o assunto.

A Deusa do Sol, em uma névoa de uma noite sem dormir e um acesso de raiva, decidiu que os elfos haviam traído as leis da natureza e não eram mais confiáveis para cumprir seus deveres enquanto estivessem juntos. Os elfos soluçaram e imploraram aos pés da Deusa. Eles estavam apaixonados! Certamente, ela poderia entender e permitir que eles continuassem a passar um pelo outro silenciosamente como costumavam fazer. A Deusa estava lívida. Ela não tinha capacidade de misericórdia em sua ira e nenhuma compreensão do amor, apenas ordem. Ela levantou as mãos, lançando uma forte maldição sobre os elfos e Lycoris.

As folhas de Saka podem nunca mais encontrar as flores de Mañju. Era isso. Os dois estavam fadados a nunca mais se encontrarem. Não nesta vida, ou em qualquer outra. Eles nunca passariam um pelo outro, nunca sorririam um para o outro, nunca trocariam olhares. Eles seriam presos a um labirinto de almas, para nunca mais se encontrarem.

A maldição seguiu seu curso, separando os dois pelo resto daquela vida, e a flor, Lycoris, também sofreu. O que antes era sua preferência orgulhosa por flores, agora era uma maldição vergonhosa da natureza para a flor. Suas folhas agora murchariam bem antes de sua floração, deixando-a com um caule simples e nu até sua floração. A dor da tristeza que ela sentia pelo destino de seus elfos e sua amargura por essa característica amaldiçoada se manifestaram séculos depois em um veneno tangível que, até hoje, corre por suas veias, raiz e flor enquanto ela lamenta o destino dos amantes que tão lealmente a protegeram.

Foi dito que após a morte, o casal se encontrou na vida após a morte. Eles juraram se encontrar após a reencarnação. No entanto, nenhum deles seria capaz de manter sua palavra, pois a maldição da Deusa do Sol seguiu os elfos por vidas inteiras.

Depois desse episódio, diz-se que, se você conhecer uma pessoa que nunca mais verá, as flores de Manjusaka crescerão ao longo do caminho que eles percorreram quando partiram. Até hoje, pode-se considerar que Lycoris é alguém que cumpre sua promessa. Crescendo em campos onde os mortos são sepultados, guiando os espíritos para a próxima vida, secretamente esperando tropeçar nas almas de seus guardiões para um dia guiá-los a um lugar onde eles possam finalmente ficar juntos.

Embora seja uma lenda, a história mostra a realidade da floração outonal do lírio-aranha vermelho, que floresce bem antes das folhas saírem. Um aglomerado de flores vermelhas brilhantes, semelhantes a aranhas, com longos estames brilham no topo de um caule verde e fino, criando uma camada vermelha sobre a paisagem. O brilho vermelho desaparece rapidamente à medida que as pétalas murcham, deixando a planta nua. As folhas então emergem, trazendo a vida de volta à planta mais uma vez antes que elas também fiquem marrons e a planta retorne ao solo, morrendo pela segunda vez.

Uma flor de muitos nomes

Mas esses estão longe de ser os únicos nomes para o lírio-aranha vermelho. No Japão, essa flor tem mais nomes. Muitos desses nomes estão relacionados ao folclore único da flor, que é multifacetado. Curiosamente, muitos (se não a maioria) dos nomes estão associados à morte e os motivos são interessantes.

Durante o Ohigan, quando os lírios-aranha vermelhos estão em flor, eles são uma visão muito comum em cemitérios, mas não são encontrados ao redor de lápides porque são deixados como memoriais. O motivo real está na botânica interessante desta planta e é muito mais macabro. A planta inteira, do bulbo à flor, é venenosa.

Em tempos históricos no Japão, corpos humanos eram enterrados diretamente no solo e a perturbação por toupeiras, raposas ou outros animais, escavando ou catando as ossadas mortas, era um problema comum. Para garantir que os túmulos fossem deixados em paz, as pessoas plantavam os lírios-aranha vermelhos venenosos sobre corpos enterrados para deter os animais. Túmulos e morte logo foram associados ao lírio-aranha vermelho, o que lhe rendeu o nome de "flor da morte" e o ainda mais sombrio, "flor-cadáver".

Além dos cemitérios, o método de plantar bulbos de lírio venenoso como uma forma de controle animal se estendeu às margens de rios e campos agrícolas, como arrozais – para proteger também as colheitas.

Uma superstição comum em torno da flor era que, se você colhesse uma delas e levasse para casa ela faria sua casa queimar. Como acontece com muitas superstições e mitos, essa pode ter sido uma forma de assustar as crianças para impedi-las de tocar na planta venenosa.

Como esse tipo de lírio era plantado ao redor de túmulos, quando as flores vermelhas floresciam da mesma cor de sangue, acreditava-se que elas atraíam (ou sugava) o sangue dos mortos, ligando-as ainda mais à morte. E enquanto balançavam na brisa, alguns pensavam que pareciam fantasmas, dando a elas outro nome de "flor fantasma".

A conexão da flor com o budismo é mais do que apenas a coincidência de florescer durante a celebração de Ohigan.

Um dos poucos nomes não associados à morte, a flor também é chamada de Manjushage (曼殊沙華) (pronuncia-se Mandyuu shaguê), que vem das escrituras budistas. O Manjushage é uma flor celestial que não existe entre nós, mas o lírio-aranha vermelho foi plantado por monges para representá-lo e, portanto, associado aos templos budistas – essa flor simboliza que a noite se torna maior que o dia. Simboliza o fim de nossa existência, o esfriar, a despedida, o esquecimento.   Existem também lírios-aranha brancos, que tendem a ser mais comumente conhecidos como Manjushage.

"Higan" tem um significado além do feriado para homenagear os ancestrais. No Sutra do Coração Budista, higan significa "a outra margem", referindo-se ao mítico Rio Sanzu. Os espíritos cruzam este rio para alcançar a iluminação, por isso é frequentemente visto como um símbolo de passagem para a morte. Lírios-aranha vermelhos crescem ao longo das margens do Rio Sanzu e saúdam os espíritos recém-falecidos.

Em outro texto budista, o Sutra de Lótus, Diyu é o reino dos mortos, ou inferno, e diz-se que os lírios-aranha vermelhos crescem lá, marcando um caminho para guiar os espíritos à reencarnação. Outro nome para os lírios é "flores do inferno".

Simbolismo em Anime

O simbolismo difundido do lírio-aranha vermelho no Japão é usado regularmente nas artes, da literatura à música, cinema e animação. Até mesmo espectadores casuais de anime provavelmente já encontraram o lírio-aranha vermelho em vários deles. A flor aparece regularmente, às vezes como uma imagem passageira, outras vezes, como um símbolo mais arraigado em um anime ou de um personagem. Mas, nunca está lá por acaso.

No Japão, algumas flores são tão simbólicas e significativas que há uma palavra usada para denotar essa linguagem não falada: hanakotoba. Glicínia, sakura, ameixa e crisântemo são apenas algumas flores que simbolizam coisas diferentes e importantes na cultura japonesa.

Um buquê raramente é simples e muitas vezes cheio de significado não dito, tanto quanto a aparência aparentemente casual de uma flor no anime. O lírio-aranha faz parte dessa rica linguagem das flores e muitas vezes é usado para prenunciar uma morte iminente.

Lírios-aranha vermelhos em Kimetsu no Yaiba

Lírios-aranha vermelhos podem ser vistos de passagem em um dos animes mais populares, Kimetsu no Yaiba (鬼滅の刃), popularmente conhecido no ocidente como Demon Slayer, geralmente aparecem nos créditos finais. Em um programa cheio de morte, isso não seria apenas um prenúncio, mas uma promessa. Curiosamente, há também um lírio-aranha azul fictício que entra na história do demônio muzan.

Os lírios-aranha desempenham um papel maior no mangá e anime, Tokyo Ghoul (東京喰種), de Sui Ishida. Outra história onde a morte é inevitável e frequente, as flores fazem aparições regulares ao longo da história. Mas nesta história, os lírios não simbolizam apenas a morte. Em uma cena em particular, o personagem principal, Ken Kaneki, é dramaticamente torturado e, à medida que sua mente e corpo começam a quebrar, um campo de cravos brancos se transforma em lírios-aranha vermelhos, simbolizando sua metamorfose em uma pessoa totalmente diferente enquanto ele é destruído.

Talvez o uso mais comovente do lírio-aranha vermelho que já vi em qualquer anime seja no episódio 9 do programa, Dororo (どろろ), de Osamu Tezuka (o mesmo artista que criou Astro Boy). A história segue o misterioso Hyakkimaru e a criança órfã Dororo. O episódio 9 é carregado de simbolismo do lírio-aranha vermelho, pois encontra Dororo doente e encontrando as flores, levando a um flashback. Tenzuka deve ter percebido que outro nome para a flor era "flor de criança abandonada" e definiu habilmente esse nome nesta história trágica onde Dororo conta como ela se tornou órfã. A cena final, onde sua mãe finalmente morre de fome, incapaz de continuar, é em um vasto campo de lírios-aranha vermelhos. Cercada pelas flores, ela morre e Dororo é abandonada.

Depois desse contexto todo, imagino uma festa de Halloween, mais chique, sem muitas das coisas obvias, com ambiente decorados com flores de lírio-aranha vermelho e, para seguir a superstição japonesa, que associa essa flor com o fogo, não seria nada mal apresentar para os convidados, um drink com a cor intensa da flor e pegando fogo... essa é a ideia da bebida a baixo.

COQUETEL LÍRIO-ARANHA VERMELHO FLAMEJANTE

Para o Xarope de tomilho e framboesa (xarope de sangue) (rende cerca de 1 xícara / 240 mL)

340 g de framboesas congeladas

3 raminhos de tomilho

100 g de açúcar branco (o que equivale a ½ xícara)

120 mL de água (equivale a ½ xícara)

1 gota de corante alimentício marrom 1 gota pequena de corante alimentício em gel marrom (opcional se você quiser escurecer ainda mais a cor do xarope)

Para o Coquetel - para um coquetel

67 mL de rum branco (usei Bacardi)

44 mL de xarope de tomilho e framboesa (receita acima)

22 mL de suco de limão espremido na hora

2 cubos de gelo

⅛ colher de chá de pó de brilho perolado ou vermelho pó de brilho (opcional)

1 ½ colher de chá de rum Bacardi 151 opcional (MANUSEIE COM CUIDADO)

Preparo: Primeiro prepare o xarope - Coloque todos os ingredientes em uma panela (exceto o corante marrom), 340 g de framboesas congeladas, 3 raminhos de tomilho, 100 g de açúcar branco, 120 mL de água. Cozinhe a mistura em fogo médio-alto. Mexa até que o açúcar dissolva e deixe a mistura ferver. Mexa com frequência até que as framboesas amoleçam e se quebrem na calda. Retire a calda do fogo e deixe esfriar completamente. Isso é importante, pois as framboesas e o tomilho vão infundir a calda. Coe a mistura em uma peneira fina para remover um pouco da polpa e das sementes. Não aperte muito a polpa, pois você não quer muita polpa no xarope. O xarope não deve ficar turvo. Adicione o corante alimentício marrom para deixar o xarope com uma cor vermelha um pouco mais escura. Esta é uma etapa opcional. Despeje o xarope em uma garrafa e guarde na geladeira. Montando o coquetel: Coloque todos os ingredientes em uma coqueteleira com gelo (e junte o pó de brilho também, se quiser um coquetel brilhante). Agite por alguns segundos para gelar o coquetel. Coe o coquetel em uma taça coupé. Na hora de servir, ele deve estar em chamas, para isso, coloque uma colher de coquetel sobre a superfície do coquetel e cuidadosamente coloque o rum 151 sobre o coquetel. Cuidadosamente, acenda a camada de rum 151 usando um fósforo ou isqueiro. Isto é apenas para o teatro e não tem impacto no sabor do coquetel. Antes de consumir o coquetel, o fogo DEVE SER APAGADO. Coloque um pires ou um prato pequeno sobre o copo para apagar a chama. O coquetel pode ser apreciado depois que as chamas forem apagadas.


segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Parkin: um bolo de gengibre e aveia para a tradicional Bonfire Night inglesa – ou, minhas viagens por perfumes e antídotos especiarados

 

Eu adoro perfumes, tanto quanto - ou mais - adoro bolos. E, esses dias, enquanto eu analisava aromas de fragrâncias que pretendo comprar [gosto de analisar as chamadas de notas de saída (ou cabeça), notas de coração (ou corpo) e as notas de fundo (ou base)] – me dei conta de uma peculiaridade que vinculam meus perfumes preferidos com a cozinha: as especiarias. Eu explico: eu adoro perfumes de “inverno” e os perfumes noturnos (os que entendem de perfumes sabem do que falo), pelo simples fato de que eles geralmente trazem elementos quentes para as fragrâncias e, na maioria das vezes, são especiarias que e tanto amo e uso na cozinha as notas que se sobressaem e me conquistam para a compra. Ocorre que, até então, eu não tinha percebido o motivo pelo qual os perfumes noturnos e invernais me agradam tanto. Mas enquanto analisava um desses futuros perfume para compra percebi que as notas me lembram os cheiros das celebrações de fim de ano com aquelas comidinhas deliciosas e cheias de especiarias que eu tanto amo. Talvez, no meu inconsciente, esses perfumes ativem uma “estação de celebração eterna” quando faço uso deles, e isso sempre me deixa feliz – como se eu estivesse empolgado com as festividades natalícias. Vai saber... o fato, é que com isso, percebi que todas as notas dos meus perfumes preferidos conversam entre si. Por isso, os usos dos sentidos são tão fundamentais na cozinha, as lembranças olfativas são um trunfo que um cozinheiro precisa aprender.... mesmo sem ter um “nariz absoluto” (olfato apuradíssimo).

Por conta dessa ‘minha viagem’, trago a receita de um bolo invernal e especiarado que vai te surpreender no sabor. Trata-se do Parkin, um bolo de gengibre e aveia bastante tradicional para as celebrações de inverno, e principalmente para celebrar a Bonfire Night (5 de novembro). Antes, porém, é preciso fazer um contexto histórico para situar o nosso bolo de hoje.


A Bonfire Night é uma comemoração realizada em 5 de novembro com a queima de fogos de artifícios e de uma grande fogueira que foi instituía na Inglaterra para comemorar a sobrevivência do rei. Há que se refira à celebração como “A noite de Guy Fawkes”: a história conta que o soldado católico inglês Guy Fawkes, membro da chamada "conspiração da pólvora", na noite do dia 5 de novembro de 1605 tentou matar o rei Jaime I da Inglaterra com a tentativa de explodir o Parlamento Inglês. Ocorre que Fawkes e seus comparsas fora descoberto e tanto ele quanto os seus companheiros acabaram sendo torturados na Torre de Londres por quatro dias antes de serem levados para morrer na forca, tendo ainda seus corpos arrastados pelas ruas da cidade e esquartejados em seguida.


Celebração da Noite de Guy Fawkes no Castelo de Windsor, por Paul Sandby, c. 1776

O parkin entretanto já era um bolo comemorativo comido em festivais de inverno, muito antes desse ocorrido. O consumo do parkin se originou com as práticas das religiões antigas de comer bolos especiais para marcar o primeiro dia de inverno. O parkin é feito com farinha de aveia (e aveia era o principal cereal cultivado no norte) que dá ao parkin sua textura densa, gengibre em pó (o tempero mais barato em tempos passados, embora ainda seja um deleite para a maioria das pessoas) e melaço preto (conhecido por lá como black treacle, introduzido na Inglaterra em século XVII e importado das Índias Ocidentais pelos portos de Lancashire).


Antigamente, o Parkin era mais simples do que é hoje, pois era feito com banha e as primeiras receitas não incluíam ovos. No século XVIII, à medida que ingredientes básicos como farinha de trigo e açúcar ficaram mais baratos, eles também foram incluídos na receita padrão, resultando em uma textura mais leve. O Golden Syrup (xarope dourado), outra adição posterior, adiciona um sabor adorável ao bolo. Além do bolo em si, o Parkin também é utilizado para preparar uma sobremesa deliciosa, Yorkshire Parkin Trifle (imagens abixo) no qual mistura-se camadas de bolo com maçãs, peras ou ameixas guisadas e um bocado de chantilly.


Frequentemente associado a Yorkshire, mas é muito difundido e popular em outros lugares, principalmente em Lancashire. As receitas do parkin de Yorkshire geralmente usam mais farinha de aveia do que farinha de trigo, enquanto as receitas de Lancashire tendem a ter mais farinha de trigo do que farinha de aveia – isso se entende pelo fato de Lancashire ter mais acesso rápido enquanto era porto de notabilidade do passado.

Outro fato importante é que existem vários tipos diferentes de parkin. No Yorkshire Cookery Book de M Gaskell, publicado em 1919, aparece uma lista 17 receitas para ele. E sua popularidade continua no Norte, onde é vendido em padarias da região. Claro, ele está prontamente disponível na noite Bonfire.

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Infelizmente não encontrei referências sobre o motivo pela qual o termo parkin nomeio esse bolo. Mas, vem de 1728 a primeira referência publicada feita sobre o parkin: coletada nas sessões do West Yorkshire Quarter, quando Anne Whittaker foi acusada de roubar aveia para preparar parkin.

O mestre e poeta de Lancashire Tim Bobbin descreve esse bolo em 1740, e ele é reconhecível como um parkin (Stead, Jennifer; Wilson, C Anne; Brears, Peter; Hunter, Lynette; Pollard, Helen (1991). "6". In C. Anne Wilson (ed.). Traditional Food East and West of the Pennines. Edinburgh University Press)

Um possível uso mais antigo de parkin está em uma balada do século XVII "A canção de Arthur O'Bradley", que descreve um casamento alegre da época de Robin Hood - século XIV [que vocês podem saber mais em Carr, W (1828). The dialect of Craven. London.]

When Arthur, to make their hearts merry

Brought ales and parkin and perry.

(Quando Arthur, para alegrar seus corações

Trouxe cervejas, parkin e perry) 

O parkin de antigamente era muito semelhante a um bolo Tharf, esse último é de origem teutônica antiga, já que tharf ou theorf significava 'ázimo, não fermentado, sólido duro ou encharcado' em inglês antigo. John Wycliffe em sua tradução da Bíblia em 1389 (Marcos Ch.14.v. 1) chama os pães ázimos de "tharf loove". Mas com o passar dos tempos, o uso do fermento passou a ser utilizado paar melhorar a qualidade do parkin. Porém, tanto o Parkin quanto o bolo tharf eram usados indistintamente em Lancashire e South Yorkshire até 1900. Ao longo dos 500 anos, a receita e o sabor desses bolos mudaram consideravelmente.

                             Tharf Cake

Há quem acredite que eles eram comida dos pobres: pois, fornos eram raros nas casas dos pobres, e eles geralmente não tinham acesso padarias públicas antes de 1820, então os bolos eram cozidos em assadeiras ou chapas em grelhas em fogo aberto. O melhor parkin é feito com aveia fresca, cuja data da colheria geralmente ocorre por volta da primeira semana de novembro

Isso faz sentido quando se sabe que o sul da Inglaterra era uma área onde a aveia era o grão básico para os pobres, ao invés do trigo. Ele está intimamente relacionado ao bolo tharf - um bolo sem açúcar cozido em uma grelha, em vez de assado. A época tradicional do ano para a confecção dos bolos tharf era logo após a colheita da aveia, na primeira semana de novembro. Para ocasiões festivas, o bolo era adoçado com mel.

No século XVII (cerca de 1650), o açúcar começou a ser importado de Barbados e o melaço preto (black treacle) era assim um subproduto do processo de refino. O melaço foi usado pela primeira vez por boticários; para fazer um remédio chamado Theriaca, do qual deriva a palavra Treacle (melaço). À medida que o melaço se tornou abundante, ou treacle, como era chamado na época, ele foi substituído pelo mel na preparação de bolos tharf.

Preparação de theriac: illustração de um Tacuinum sanitatis

O Theriac ou theriaca é uma mistura médica originalmente rotulada pelos gregos no século I dC e amplamente adotada no mundo antigo, tanto quanto a Pérsia, China e Índia através das ligações comerciais da Rota da Seda.

Na mitologia grega, dizia-se que Panacea, a deusa da cura, tinha uma poção que curava todas as doenças. A busca pelo remédio que cura tudo continuaria ao longo da antiguidade, à medida que os médicos e curandeiros experimentavam várias curas no atendimento regular de seus pacientes, especialmente em situações desesperadoras. No mundo antigo, os envenenamentos eram bastante comuns e a busca por um composto capaz de proteger uma pessoa contra qualquer tipo de toxina levou à popularidade do que se pensava ser um antídoto universal: a terapia.

De tal forma, o nome theriac se originou do termo grego theria, que se refere a animais selvagens, e foi dado a uma preparação que servia inicialmente como um antídoto e depois como uma cura universal para uma série de doenças. De acordo com Plínio, o Velho (23-79 DC) e Galeno de Pérgamo (131-c.201 DC), uma das primeiras formulações para uma terapia contra mordidas de animais peçonhentos foi inscrita em uma pedra no Templo de Asclepios no ilha de Kos; continha tomilho, opoponax (mirra doce), sementes de anis, erva-doce e salsa. Outra referência inicial aos theriacos pode ser encontrada nos poemas didáticos Theriaca et Alexipharmaca, do século II aC, do gramático, poeta e médico grego Nicander de Colofonte, que descreveu uma variedade de venenos de mordidas de animais e seus antídotos.

A ideia de um theriaco parece ter ganhado maior destaque durante o reinado de Mitrídates VI (132-63 aC), rei de Ponto na Ásia Menor. Mitrídates VI vivia em um medo constante de ser envenenado e não apenas testava substâncias venenosas em criminosos e escravos, mas também ingeria regularmente venenos e seus antídotos. Seu médico pessoal Crateuas inventou um antídoto conhecido como Mitrídates, que continha cerca de 40 ingredientes e foi pensado para proteger contra o veneno de escorpiões, víboras, lesmas do mar, bem como outras toxinas. Mitrídates parece ter ficado tão acostumado a vários venenos que, quando foi capturado por Pompeu, tentou o suicídio por envenenamento. No entanto, como escreveu Dio Cássio, "o veneno, embora mortal, não prevaleceu sobre ele, pois ele havia acostumado a sua constituição, tomando antídotos preventivos em grandes doses todos os dias". Algumas histórias descrevem que, tendo falhado nessa tentativa, Mitrídates ordenou que um de seus soldados o matasse com uma espada. Entre os papéis do rei derrotado, Pompeu encontrou a fórmula para Mithridatus e a traduziu para o latim.

Diferentes tipos de theriacos foram produzidos posteriormente na Antiguidade, mas o mais célebre foi talvez o inventado por Andromachus, médico do imperador romano Nero, no século I dC. Andromachus veio da ilha de Creta onde "homens botânicos" a serviço do imperador coletavam ervas e as colocavam em vasos de tricô, que eram enviados não apenas para Roma, mas também para outras nações.

Os vastos conhecimentos de botânica de Andromachus ajudaram-no a "fornecer à humanidade os medicamentos necessários". Ele afirmou que sua fórmula para seu Galeni Theriaca (tranqüilidade terapêutica) era um aprimoramento da fórmula de Mitrídates porque continha cerca de 64 ingredientes e era enriquecido com carne de víbora e uma quantidade muito maior de ópio. De acordo com Andromachus, seu theriaco poderia ser usado não apenas para picadas de animais peçonhentos, mas também para doenças como asma, cólica, hidropisia, inflamação e até peste. Na verdade, o sucesso do theriaco de Andromachus elevou-o à dignidade de Archiatrus (médico-chefe) e a preparação gozou de grande reputação durante séculos.

No século seguinte, o médico grego Galeno formulou uma terapia que, pretendia ele, eclipsaria todas as outras em sua popularidade. Além disso, ele fez experiências com seu theriaco, com a intenção de provar seu efeito terapêutico.

Galeno foi uma figura importante da medicina na era romana. Ele escreveu um grande número de tratados sobre assuntos médicos e filosóficos e suas doutrinas dominaram o pensamento médico até o século XVI. Nascido em Pérgamo, parte da Ásia Menor, o pai de Galeno, Nicon, um arquiteto rico, supervisionou sua educação. Inicialmente, Galeno estudou medicina em sua cidade natal, depois em Corinto e, finalmente, em Alexandria. Retornando a Pérgamo, ele foi nomeado médico da cidade para a Escola de Gladiadores, mas ganhou tal reputação que logo se tornou o médico da corte dos imperadores romanos Marco Aurélio e Lúcio Vero.

Seguindo a teoria humoral de Hipócrates, Galeno acreditava que os quatro humores do corpo (fleuma, sangue, bile negra e bile amarela) eram responsáveis pela saúde ou doença. Indo mais longe, ele classificou todas as personalidades em quatro tipos: fleumática, sanguínea, colérica e melancólica. Desequilíbrios nesses humores levariam à doença e poderiam ser corrigidos pela adição de extratos de ervas de origem semelhante, mas também de outros extratos com propriedades opostas. Galeno também acreditava que mais de um medicamento deveria ser administrado para ter um efeito terapêutico e era favorável à mistura de vários agentes para otimizar sua absorção.

Na corte real, Galeno preparou seu theriaco e escreveu sobre vários compostos theriacos em seus livros De Antidotis I, De Antidotis II e De Theriaca ad Pisonem. A fórmula básica consistia em carne de víbora, ópio, mel, vinho, canela e mais de 70 ingredientes. O produto final deveria amadurecer por anos e era administrado por via oral como uma poção ou topicamente em emplastros. Galeno afirmava que sua terapia extraía venenos como uma ventosa e podia dividir o tecido de um abscesso mais rapidamente do que um bisturi. A preparação era tomada diariamente pelo imperador Marco Aurélio para proteger contra venenos e ajudar a garantir uma boa saúde geral.



Mas Galeno não apenas administrou sua terapia, ele também a experimentou em animais. Em De Theriaca ad Pisonem, ele descreve como pegou galos e os dividiu em dois grupos: em um grupo ele deu a theriac e no outro não. Em seguida, ele colocou os dois grupos em contato com cobras; Galeno observou que os galos que não receberam theriac morreram imediatamente após serem mordidos, enquanto os que receberam a terapia sobreviveram. Além disso, ele aponta que esse experimento pode ser usado nos casos em que alguém deseja ter certeza se um theriaco em sua forma natural ou foi adulterada. Paralelamente a esse trabalho, Galeno escreveu sobre o efeito de seu theriaco em pacientes individuais. Em uma passagem de De Theriaca ad Pisonem, ele dá um relato esclarecedor sobre o uso de sua terapia para tratar icterícia causada por picada de cobra.

Um dos escravos do imperador cuja tarefa era espantar cobras, depois de picado, tomou por algum tempo goles de remédios comuns, mas como sua pele mudou a ponto de assumir a cor de um alho-poró, veio até mim e narrou seu acidente; depois de ter bebido theriaco, recuperou rapidamente sua cor natural. Os médicos procuram descobrir se há sinais peculiares ao envenenamento, porque muitas vezes veem, sem a administração de qualquer veneno mortal, que o corpo apresenta uma corrupção dos humores semelhante à produzida pelos venenos; não é de surpreender, portanto, que às vezes ocorra uma mudança nos humores, de modo que todo o corpo seja afetado pela icterícia.

Galeno chamou sua preparação de Theriac de Andromachus e, enquanto a medicina galênica prevaleceu, o mesmo aconteceu com o apelo da theriaca- não apenas como um antídoto para picadas de cobra, mas eventualmente como uma cura universal.

Armazenado em potes de porcelana ornamentados, muitas vezes ilustrados com cenas da vida de Mitrídates, sobreviveu até a Europa medieval no comércio que se desenvolveu nas terias, mais notavelmente na Itália, onde as terias ficaram conhecidas como o Melaço de Veneza (Venice Treacle), uma preparação oficial que trazia o selo da república.

Usos e instruções de dosagem em um anúncio para o Melaço de Veneza, (c. Século 18) - 

Seu legado é aparente até mesmo nas farmacopéias francesas e alemãs do século XIX. Seja como uma panacéia universal ou apenas uma preparação viciante graças ao ópio, a influência da terapia estendeu-se muito além de suas origens na antiguidade.

Cabe ressaltar ainda que, os antigos bestiários da Idade Média incluíam informações - muitas vezes fantasiosas - sobre feras perigosas e suas mordidas. Quando a cana-de-açúcar era uma mercadoria exótica do Oriente, os ingleses recomendaram o melado à base de açúcar como um antídoto contra o veneno, originalmente aplicado como uma pomada. Por extensão, o melado poderia ser aplicado a qualquer propriedade de cura: na Idade Média.

Norman Cantor observa, (em: The wake of the plague: the Black Death and the world it made. Simon and Schuster, 2001), que o suposto efeito do remédio seguia o princípio homeopático "do cabelo de cachorro", pelo qual uma mistura contendo um pouco da carne venenosa (pensava-se) da serpente seria um remédio soberano contra o veneno da criatura.

Em seu livro sobre medicina, Livre de seyntz medicines, de 1354, Henry de Grosmont, primeiro duque de Lancaster, escreveu que "o melaço é feito de veneno para que possa destruir outros venenos". Outro motivo para incluir carne de cobra era a crença generalizada de que as cobras continham um antídoto para se proteger contra o envenenamento de seu próprio veneno.

Pensando por analogia, Henry Grosmont também pensava no theriac como um curativo moral, o remédio "para fazer um homem rejeitar o pecado venenoso que entrou em sua alma". Visto que se acreditava que a praga, e notavelmente a Peste Negra, havia sido enviada por Deus como uma punição pelo pecado e teve suas origens em serpentes pestilentas que envenenaram os rios, a terapia foi um remédio ou terapia particularmente apropriado. Em contraste, Christiane Fabbri argumenta em Treating Medieval Plague: The Wonderful Virtues of Theriac (de 2007), que o theriac, que muito frequentemente continha ópio, na verdade tinha efeito paliativo contra a dor e reduzia a tosse e a diarreia.

Mas, já se sabe que no norte da Europa, o mel era usado tanto como remédio, para bolos festivos e para fazer hidromel; antes de 1750, a doçura não era uma característica da comida cotidiana.

Os bolos de mel tinham um significado festivo especial. Eles foram cozidos para ficarem duros, mas após armazenamento por algumas semanas, eles recuperaram a umidade, tornando-se macios e até pegajosos. O melaço tem propriedades higroscópicas (Capacidade de absorver a umidade do ar) . German Lebkuchen e Pfefferkuchen foram outros exemplos de pães de gengibre higroscópicos festivos. Eles também eram cozidos no verão e umedecidos para consumo no Natal. Assim, embora parkin e bolo tharf pareçam ser sinônimos, todos os parkins geralmente eram bolos tharf doces.

A ligação do parkin com as festividades invernais iniciadas em novembro vem desde as origens celtas, que já celebravam a data com fogueiras e bolos rituais. Novembro começa com All Hallows Eve, o Dia de Todos os Santos (1 de novembro), que é seguido pelo Dia de Finados (2 de novembro)., seguindo pela Little Lent  com apequena Quaresma e o jejum de quarenta dias até o Natal iniciado  no Martinstag ou Martinmas, 11 de novembro, que era conhecido como Velho Dia das Bruxas e Antiga Véspera de Halloween – era o dia do Funeral de São Martinho de Tours (caso contrário, Martin le Miséricordieux). A festa era amplamente vista como a época preferida para o abate da "carne de Martinmas" de gado de primeira, gansos, outros animais e o fim da labuta de semeadura (semeadura) de trigo no outono: no Dia de Finados, bolos de alma (soul cakes, já tratei deles AQUI) eram assados, e a feira dos Martinmas era importante por ser o dia tradicional de compra e venda de gado e contratação de servos para o ano seguinte. Foi também a data em que o gado foi abatido e salgado para preservá-lo para o inverno e para festas e danças em geral.

Tanto o festival celta de Samain (31 de outubro) quanto o festival dos mortos All Halows em 1º de novembro, era celebrado com bolos e fogueiras especiais. Essas datas foram cristianizadas pela igreja em 837 DC, mas a tradição culinária delas continuou. Quando Guy Fawkes, em 1605, deu à igreja inglesa um motivo para comemorar com uma fogueira, a tradição foi adotada com o novo nome, apenas quatro dias depois, em 5 de novembro. Durante o período de industrialização, muitos feriados tradicionais foram interrompidos, mas a Noite de Guy Fawkes continuou a ser celebrada. No século XIX (1862), o parkin e caramelo de melado com batatas assadas no fogo se tornaram os alimentos tradicionais da Noite de Guy Fawkes, e em Leeds, 5 de novembro ficou conhecido como Noite de Parkin.

Os principais ingredientes de um parkin tradicional de Yorkshire são aveia, farinha de trigo, melado preto (black treacle), gordura (tradicionalmente banha, mas as receitas modernas usam manteiga, margarina ou óleo de colza) e gengibre. Uma das principais características do parkin é que ele retém bem sua textura. É cozido para ficar duro, mas depois de vários dias armazenado em uma lata ou caixa lacrada, torna-se macio novamente, é essa a textura que se pretende obter.

Depois de tanta história, chegou a hora de vocês aprenderem a receita desse bolo, que é fácil e delicioso. Você pode prepará-lo hoje deixá-lo guardadinho para devorá-lo no dia 05 de novembro. Uma dica importante: ele deve ser mantido em uma lata hermética por pelo menos três dias antes de ser cortado, para permitir que umedeça e fique mais gostoso. Ele vai se manter bem, armazenado em uma lata hermética por até duas semanas

Parkin

1/2 xícara (113 gramas) de manteiga sem sal

  1/2 xícara (64 gramas) de açúcar mascavo escuro

  1 xícara (128 gramas) de mel

  2/3 de xícara (85 gramas) de melaço

  1 xícara (150 gramas) de farinha de trigo

  1/2 xícara (64 gramas) de farinha de aveia (ou flocos de aveia triturados)

  1/2 colher de chá de bicarbonato de sódio

  1 colher de chá de fermento em pó

  4 colheres de chá de gengibre em pó

  2 colheres de chá de noz-moscada moída na hora

  1/4 colher de chá de sal

  1 ovo grande, temperatura ambiente, batido

 ¼ de copo de leite (59 ml), temperatura ambiente

Preparo:  Pré-aqueça o forno a 325 ° F / 160 ° C. Unte uma assadeira quadrada de 22 x 22 x 5 cm com manteiga e forre com papel manteiga. Em uma panela pequena, leve ao fogo baixo, adicione a manteiga e o açúcar e aqueça até que a manteiga derreta. Junte o melaço e o mel até que o açúcar se dissolva. Retire do fogo. Em uma tigela, misture a farinha de trigo , a aveia, o bicarbonato de sódio, o fermento em pó, o gengibre, a noz-moscada e o sal. Adicione a mistura de melaço / mel / manteiga aos ingredientes secos, mexa ou bata até incorporar. Adicione o ovo batido, acrescente o leite e mexa até ficar bem misturado. Despeje a massa na assadeira preparada. Asse no centro do forno por 1 hora ou até que as laterais do bolo comecem a se soltar da assadeira e um palito saia limpo ao ser inserido no centro. Deixe o bolo esfriar na forma por 10 minutos e depois transfira para uma gradinha para esfriar completamente. Embrulhe em papel vegetal e guarde 5 dias antes de comer.