Todo aniversário pede um
bolo. Talvez porque a vida, desde muito antes de sabermos escrever sobre ela,
tenha encontrado na doçura uma maneira particularmente bonita de marcar o
tempo.
Hoje, porém, o bolo é quase
um detalhe. O que celebro são os dezesseis anos da Confraria Gastronômica do
Barão de Gourmandise. Dezesseis anos desde que aquilo que nasceu como um
pequeno lugar de guarda-memória pessoal — quase um caderno de lembranças aberto
apenas para mim — começou, pouco a pouco, a escapar pelas frestas da minha vida
e ganhar o mundo.
Primeiro veio o blog.
Depois, a página homônima no Facebook, que acelerou tudo de uma maneira que eu
jamais teria imaginado. Vieram leitoras e leitores, mensagens, traduções
automáticas atravessando fronteiras, pessoas de lugares que eu talvez nunca
visite e que, ainda assim, passaram a sentar-se comigo à mesma mesa imaginária.
Quem gosta de números pode
dizer que o blog já ultrapassou dois milhões de acessos individuais e chegou a
leitores em mais de 160 países. Parece uma frase bonita de escrever. Mas
números, sozinhos, não contam uma história.
Por trás de cada acesso
existe alguém. Uma pessoa que chegou procurando uma informação, uma receita,
uma história sobre comida, uma curiosidade, talvez apenas uma palavra. Algumas
foram embora depressa. Outras ficaram. Algumas voltaram. Algumas escreveram. E
algumas, de maneiras que jamais poderiam imaginar, acabaram deixando também
alguma coisa de si por aqui.
Foi assim que a escrita
deixou de ser apenas uma forma de guardar minhas próprias memórias e passou a
carregar uma responsabilidade que eu não havia previsto.
Quanto mais gente lia, mais
eu precisava cuidar do que escrevia. E quanto mais eu escrevia, mais pessoas
interessadas em gastronomia, cultura, história da alimentação e tudo aquilo que
existe entre um prato e a civilização começaram a aparecer.
Foi uma das maiores riquezas
desses anos. Conheci pessoas extraordinárias. Também conheci algumas que, se
pudesse escolher novamente, teria deixado passar pela porta sem sequer
perguntar o nome. Faz parte.
A internet tem seus pequenos
zoológicos humanos. Há quem chegue para conversar, aprender, acrescentar. Há
quem chegue para discordar — o que considero saudável, porque nenhuma
inteligência cresce cercada apenas de aplausos. E há os haters, essa curiosa espécie
que parece acordar diariamente com a missão de encontrar alguma coisa que possa
detestar gratuitamente.
Existe ainda um tipo
particularmente interessante: aquele que não necessariamente entende mais, mas
precisa estar certo. Sempre.
A certeza, para algumas
pessoas, parece ser uma forma de anestesia. Aprendi a conviver com isso. Aliás,
muita coisa que me incomodava profundamente no começo hoje me provoca, no
máximo, um levantar de sobrancelha. Talvez esse seja um dos luxos de envelhecer.
Ou de aprender.
Porque, no fim, tudo isso
também me ensinou. Melhorou minha escrita. Expôs meus erros de português.
Fez-me rever ideias, pesquisar mais, desconfiar das próprias certezas e
compreender que conhecimento não é uma propriedade privada com escritura
registrada em cartório.
Mas há uma coisa que ninguém
conseguiu tirar de mim: aquilo que aprendi. Foram anos de estudo, pesquisa,
leitura, observação, conversa, curiosidade e dedicação. E conhecimento
adquirido dessa maneira cria raízes. Ninguém o apaga. Ninguém o copia para fora
de você. Ninguém o leva embora. Embora tenham tentado.
Algumas situações, olhando
hoje, chegam a ser quase cômicas. Quase.
Já aconteceu de eu pesquisar
durante horas, organizar referências, estudar determinado assunto para escrever
um texto e, pouco depois de publicá-lo, descobrir profissionais da gastronomia
— professores inclusive — esperando o conteúdo aparecer para transformá-lo em
aula.
Uma vez, deparei-me com uma
apostila inteira construída a partir de meus textos. Inteira. Só faltou uma
pequena coisa: meu nome.
Nem uma referência. Nem uma
nota de rodapé. Nem aquele gesto mínimo de reconhecer que alguém havia passado
horas, dias ou anos estudando antes de colocar aquilo no mundo.
Também já fui chamado para
trabalhos sem remuneração porque, segundo as próprias pessoas que me
procuravam, eu era “o melhor no assunto”. Mas, curiosamente, quando surgia
dinheiro para pagar alguém, eu deixava de ser o melhor. Passava a existir
alguém de fora. Eu continuava sendo lembrado apenas quando não havia orçamento.
E houve ainda quem copiasse
textos meus na íntegra — inclusive os trechos em que conto episódios da minha
infância — e os publicasse em seus próprios perfis como se aquelas lembranças
tivessem acontecido na vida deles.
Confesso que, em certas
ocasiões, a falta de vergonha alheia chega a ser uma experiência quase
gastronômica: primeiro provoca espanto, depois um gosto amargo e, finalmente, a
vontade de simplesmente pedir a conta.
Já me disseram para
contestar. Para aplicar a lei. Para brigar. Talvez tivessem razão. Mas eu nunca
fui muito afeito a guerras. Durante algum tempo, essas coisas me tiravam o
sono. Hoje, prefiro minha paz. Ligo o foda-se com uma tranquilidade que, confesso,
tem me feito muito mais feliz. E sigo.
E, aos haters, eu observo
vocês. Às vezes, confesso, até me divirto com alguns comentários grosseiros e
com o esforço quase comovente de certas pessoas para parecer mais inteligentes
do que aquilo que acabaram de escrever permite. Mas a minha história não é
sobre vocês.
Sei que alguns certamente
chegaram até aqui com aquela expectativa quase religiosa de encontrar alguma
coisa para criticar e, talvez, com a esperança de finalmente descobrir uma
razão para confirmar aquilo que já decidiram pensar antes mesmo de começar a
ler. Pois bem. Para não frustrar completamente essa expectativa, deixo apenas
dois pequenos avisos.
O primeiro: sim, meus textos
continuarão sendo grandes. Não é um acidente de percurso, uma falha de edição
ou alguma dificuldade minha em encontrar o botão de “resumir”. Sou um ser
prolixo. Penso muito, lembro de muita coisa, sinto ainda mais e, sinceramente,
não sei descrever tudo aquilo que uma história, uma comida ou uma memória
desperta em mim em menos de 130 caracteres.
Para quem precisa de textos
que possam ser lidos entre uma piscada e outra, a internet está cheia de
excelentes criadores oferecendo conteúdos curtos, rápidos e perfeitamente
adaptados a essa necessidade. Fiquem à vontade. Não faltará onde encontrar. Eu,
por aqui, continuarei escrevendo do tamanho que algumas histórias exigem.
Afinal, há coisas que simplesmente não cabem em uma legenda curta — e algumas
que eu nem gostaria que coubessem.
O segundo aviso é para
aqueles que, depois de esculhambar um texto, gostam de concluir, com a
segurança característica de quem já encontrou todas as respostas, que aquilo só
poderia ter sido escrito por inteligência artificial.
Pois bem. Confesso que,
depois de ouvir isso algumas vezes, peguei ar. E resolvi transformar a
provocação em alguma coisa útil: vou, sim, passar a usar inteligência
artificial por uma certa pirraça.
Não para escrever por mim,
muito menos para substituir aquilo que é essencial neste trabalho, mas para
fazer o que me parece realmente útil: sistematizar pesquisas, organizar
informações, cruzar materiais e ajudar a administrar o volume quase indecente de
referências que uma pessoa curiosa consegue acumular depois de tantos anos. Se
já vão atribuir à máquina aquilo que escrevo, ao menos agora ela terá alguma
participação de verdade — nos bastidores.
E, já que estamos falando de
inteligência artificial, talvez seja importante esclarecer que não vejo
qualquer problema em utilizá-la quando ela consegue melhorar o trabalho que
pretendo entregar. Se uma ferramenta pode me ajudar a encontrar uma referência,
organizar uma quantidade absurda de informações, perceber uma repetição, testar
uma estrutura ou simplesmente enxergar aquilo que meus olhos cansados já não
enxergam, não vejo por que deveria recusá-la em nome de alguma pureza artesanal
da escrita.
Uso aquilo que considero
útil, assim como uso livros, bancos de dados, dicionários, mecanismos de busca
e todas as outras ferramentas que foram inventadas justamente para ampliar
aquilo que uma pessoa consegue fazer sozinha.
Aliás, pensando bem, talvez
alguns comentaristas pudessem experimentar a mesma tecnologia antes de publicar
certas coisas. Não para que a inteligência artificial escrevesse por eles,
naturalmente, mas apenas para oferecer uma pequena assistência à inteligência —
que, em alguns casos, parece estar precisando de uma revisão bastante
cuidadosa.
Dito isso, há uma coisa que
a inteligência artificial não poderá fazer por mim.
Ela não terá a minha
infância. Não terá as pessoas que conheci. Não terá as comidas que provei. Não
terá as lembranças que me visitam sem serem convidadas, nem as perguntas que me
perseguem durante dias. Não terá minhas dúvidas, meus afetos, minhas contradições,
minhas pequenas obsessões ou essa insistente incapacidade de olhar para uma
história, uma comida ou uma lembrança sem querer descobrir o que existe por
trás delas.
A máquina poderá me ajudar a
organizar o que sei e a encontrar caminhos dentro daquilo que ainda não sei.
Mas aquilo que me faz escrever continuará sendo meu. E talvez seja justamente
aí que esteja uma das maiores mudanças destes dezesseis anos.
Quando comecei, eu queria
guardar coisas. Guardar receitas, histórias, descobertas, lembranças. Talvez
nem soubesse exatamente por quê. Era uma maneira de impedir que determinadas
coisas desaparecessem dentro de mim.
Hoje, percebo que não
escrevo apenas para guardar. Escrevo também para conversar. Dezesseis anos
mudam uma pessoa. Mudaram a maneira como penso, como pesquiso, como escrevo e
até a maneira como lido com aquilo que antes me tirava o sono. Aprendi a
desconfiar mais das minhas próprias certezas, a ouvir melhor, a aceitar que
algumas perguntas são mais interessantes do que certas respostas e,
principalmente, a compreender que conhecimento não perde valor quando é
compartilhado.
Talvez eu tenha começado
este blog tentando preservar memórias e tenha terminado descobrindo que algumas
memórias só permanecem vivas quando encontram outra pessoa. É por isso que
continuo compartilhando.
Já ouvi pessoas dizerem que
eu deveria publicar menos. Ensinar menos. Guardar mais. Compartilhar menos
conteúdo, menos ideias, menos descobertas.
Como se conhecimento fosse
uma espécie de cofre. Como se prosperar dependesse de esconder a chave. Nunca
consegui pensar assim. Talvez porque eu não acredite que o mundo tenha escassez
de conhecimento. Pelo contrário.
O mundo é vasto demais para
isso. Enquanto alguém acredita ter descoberto a última palavra sobre alguma
coisa, outra pessoa, em algum lugar, está fazendo uma pergunta que ainda não
nos ocorreu.
Todo dia. Toda hora.
Surge alguma coisa nova que
me provoca aquela velha inquietação deliciosa: e se eu descobrir o que existe
por trás disso?
E não estou falando apenas
de gastronomia. A gastronomia é uma parte do meu mundo, não o mundo inteiro.
Comida toca história, religião, política, economia, território, memória, afeto,
poder, fome, celebração, identidade.
Um prato raramente é apenas
um prato. É justamente por isso que gosto de compartilhar. Quando descubro algo
interessante e coloco isso no mundo, talvez alguém aprenda. Talvez outra pessoa
melhore aquilo. Talvez alguém encontre uma referência que não conhecia. Talvez
um professor use a informação em uma aula. Talvez um estudante descubra uma
pergunta nova. Talvez alguém, em algum lugar, faça melhor do que eu.
E isso não diminui o que
fiz. Ao contrário. Isso faz a coisa crescer. Conhecimento, para mim, não é uma
fatia de bolo que desaparece quando outra pessoa come. É fermento. Quanto mais
se espalha, mais coisas pode fazer crescer.
Talvez eu pudesse ter sido
mais empreendedor. Talvez devesse ter transformado tudo isso em um negócio há
muito tempo. Talvez pudesse ter cobrado por aquilo que entreguei gratuitamente
durante tantos anos. Talvez.
Mas a vida também é feita
dos caminhos que escolhemos sem saber exatamente para onde levam. Até aqui, fui
feliz fazendo isso. E existe uma satisfação difícil de explicar quando aquilo
que começou sozinho passa a fazer parte de uma rede maior de pessoas, ideias,
descobertas e possibilidades.
Quando seu conteúdo começa a
gerar valor para outras pessoas, você deixa de produzir apenas aquilo que seria
capaz de produzir sozinho. A rede passa a pensar junto. E isso, para mim, é uma
das formas mais bonitas de prosperidade. Não necessariamente a financeira. A
humana.
Nesse percurso, muitos
leitores já me pediram para escrever livros. Livros sobre tudo isso. É um sonho
que continua guardado em algum lugar muito especial dentro de mim. E vai
acontecer. Um dia.
Para isso, preciso de
dinheiro, tempo, dedicação e uma dose considerável de organização — qualidades
que nem sempre caminham juntas quando se vive entre pesquisa, escrita e as
urgências da vida.
Por isso, quando me
perguntam: “Quando vai transformar o conteúdo em livros?”, eu respondo
simplesmente: uma hora esse sonho se torna real.
Enquanto isso, continuo
escrevendo. E talvez seja essa uma das coisas que mais definem a maneira como
enxergo o conhecimento: ele só se torna verdadeiramente meu quando também
consegue encontrar algum caminho para chegar a outra pessoa.
Por isso, neste aniversário,
minha primeira vontade é agradecer. A cada leitora. A cada leitor. A cada
pessoa que chegou, leu, voltou, compartilhou, discordou com respeito, corrigiu
alguma coisa, ensinou outra, mandou uma mensagem. E, principalmente, a quem
escreveu apenas para dizer que gostou.
Vocês talvez não saibam o
que uma mensagem dessas pode significar para quem está do outro lado da tela.
Às vezes, uma frase pequena chega justamente no dia em que era necessária.
Existe algo profundamente
humano em descobrir que uma pessoa, em algum lugar, interrompeu por alguns
minutos aquilo que estava fazendo para ler aquilo que você escreveu e, depois,
sentiu vontade de responder. É uma espécie de conversa à distância. Uma forma
estranha e bonita de companhia.
Eu escrevo sozinho diante de
uma tela, mas nunca estou completamente sozinho quando sei que, em algum
momento, alguém estará do outro lado para ler. E talvez essa seja a verdadeira
confraria.
Não apenas pessoas reunidas
ao redor da comida, mas pessoas reunidas por tudo aquilo que a comida consegue
despertar. Porque percebo, ao longo desses anos, que existe algo nos mantendo
ligados. Não sou eu. Não é apenas o blog. Não são as receitas.
É a comida. Ou melhor:
aquilo que a comida faz conosco. A maneira como nos atravessa. Como guarda
pessoas dentro de sabores. Como devolve uma infância inteira através do cheiro
de alguma coisa cozinhando. Como uma mesa pode conter uma família. Uma
ausência. Uma viagem. Uma saudade. Um país. Uma história.
Quando falamos de comida,
quase nunca estamos falando somente de comida. Estamos falando de pessoas. É
por isso que, ao longo desses anos, esta confraria deixou de ser apenas um
lugar onde publico aquilo que descubro e se transformou, aos poucos, em um
espaço de encontro.
É dessa companhia que quero
lembrar hoje. Dos dezesseis anos em que nossas histórias, ainda que brevemente,
se tocaram através das palavras. Daquilo que vocês me ensinaram sem
necessariamente saber que estavam ensinando. Das perguntas que abriram novas
pesquisas, das mensagens que chegaram em dias inesperados, das pessoas que
permaneceram e também daquelas que passaram rapidamente, deixando alguma coisa
pelo caminho.
Afinal, uma vida inteira é
feita disso: gente que chega, gente que parte, gente que fica, histórias que
terminam e outras que começam quando menos esperamos.
Ultimamente, tenho recebido
algumas mensagens dizendo que os textos mudaram, que estão mais poéticos, mais
subjetivos, talvez até mais próximos de alguma coisa que eu havia deixado
adormecida durante os anos de pesquisa. E acho que essas pessoas têm razão.
Depois de terminar o
doutorado, percebi que havia passado tempo demais organizando o mundo em
categorias, referências, conceitos, argumentos e conclusões, como se toda
experiência precisasse caber em alguma estrutura antes de merecer ser
compreendida.
Talvez por isso, terminado
esse longo período de disciplina intelectual, eu tenha sentido necessidade de
voltar a um lugar mais meu, menos sistematizado, mais intuitivo, onde uma
lembrança possa atravessar um parágrafo sem precisar apresentar credenciais
acadêmicas e onde uma sensação possa simplesmente existir sem que eu tenha de
explicá-la até a exaustão.
Por isso, se vocês têm
percebido que estou escrevendo de outra maneira, não é impressão: estou mesmo. Depois
de tantos anos tentando compreender o mundo pela razão, talvez eu tenha
finalmente me permitido voltar a senti-lo também. E talvez seja isso que eu
desejo que aconteça com quem lê.
Não espero que cada texto
produza uma revelação extraordinária, nem que todas as pessoas concordem comigo
— seria, aliás, uma experiência bastante suspeita.
Basta que, em algum momento,
alguma coisa tenha acontecido dentro de você enquanto lia.
Talvez uma lembrança tenha
voltado sem ser convidada; talvez uma curiosidade tenha nascido; talvez tenha
surgido vontade de cozinhar, de pesquisar, de perguntar, de discordar ou
simplesmente de olhar para alguma coisa que parecia conhecida por um ângulo diferente.
Se alguma palavra minha já
provocou esse pequeno deslocamento, por menor que tenha sido, então ela
encontrou seu destino.
E, para aquilo que ainda não
aconteceu, não tenho pressa. O futuro continua oferecendo páginas, histórias,
mesas, sabores e encontros que nenhum de nós conhece ainda.
Hoje, como manda a tradição,
deveria haver uma receita de aniversário. E haverá, porque certas tradições
merecem ser respeitadas, sobretudo quando envolvem comida. Mas esta postagem
não nasceu para contar a história de uma receita.
Hoje quero falar de outra
coisa, talvez mais difícil de explicar e muito mais importante para mim: quero
falar da companhia. Da companhia de vocês, que durante dezesseis anos
atravessaram estas páginas e, de maneiras que muitas vezes nem imaginam,
transformaram um espaço que nasceu como um simples arquivo de memórias pessoais
em uma espécie de mesa à qual pessoas de lugares, histórias e vidas
completamente diferentes passaram a se sentar.
Foram dezesseis anos de
palavras atravessando telas e chegando a lugares que eu jamais imaginei
alcançar; de pesquisas, comida, memória, descobertas, irritações, aprendizados,
algumas decepções, muitas surpresas e uma quantidade provavelmente irresponsável
de curiosidade.
Quando olho para trás, não
consigo enxergar apenas aquilo que escrevi. Enxergo também tudo aquilo que
aconteceu enquanto eu escrevia, todas as pessoas que apareceram pelo caminho,
todas as conversas que nasceram de um texto, todas as perguntas que me
obrigaram a pesquisar novamente, todas as descobertas que vieram justamente
porque alguém, do outro lado da tela, resolveu perguntar alguma coisa.
E isso, para mim, é muito
maior do que qualquer número de acessos poderia contar. Então, antes do bolo,
antes da receita e antes de qualquer outra celebração, fica o meu
agradecimento.
Obrigado por esses dezesseis
anos de leitura, conversa, curiosidade e companhia. Obrigado por cada mensagem
carinhosa, por cada pergunta, por cada correção feita com generosidade e por
cada descoberta que alguém decidiu dividir comigo. Obrigado, sobretudo, por
terem transformado palavras que nasceram dentro de mim em alguma coisa que
passou a existir também dentro de outras pessoas.
Enquanto eu ainda encontrar
alguma história escondida em uma receita, alguma memória adormecida dentro de
um sabor, alguma pergunta que mereça ser investigada ou alguma palavra que me
pareça digna de ser colocada no mundo, continuarei escrevendo.
Não sei exatamente por
quanto tempo, porque aprendi que algumas das melhores coisas da vida não
precisam de prazo para continuar fazendo sentido. Sei apenas que, enquanto eu
me sentir confortável nesta mesa, continuarei aqui, com a mesma curiosidade que
me trouxe até ela há dezesseis anos.
E talvez seja esse o melhor
modo de celebrar um aniversário: perceber que o tempo passou, que muita coisa
mudou, que nós também mudamos, mas que a mesa continua posta.
E que, do outro lado dela,
ainda existe alguém.
A conversa, felizmente,
ainda está longe de terminar.
PALAČINKOVA TORTA
TORTA DE PALAČINKE
Foi essa ideia que me fez
escolher esta torta para celebrar os dezesseis anos da Confraria. A palačinka
torta pertence àquela grande família de sobremesas encontradas em diferentes
países da Europa Central e dos Bálcãs, construídas a partir das finíssimas
palačinke, semelhantes aos nossos crepes. Há inúmeras versões, com frutas,
geleias, cremes, nozes e chocolate, porque, como acontece com quase tudo que
atravessa fronteiras, cada lugar acaba colocando um pouco de si dentro da
receita.
Mas há uma particularidade
nesta torta que talvez não seja percebida imediatamente quando se olha para
ela. Embora o resultado final tenha a aparência de um bolo ou torta de camadas,
suas camadas não são exatamente aquelas que imaginamos quando pensamos em uma
sobremesa desse tipo. As palačinke não são simplesmente empilhadas umas sobre
as outras, alternando recheios. Elas são recheadas, enroladas e depois
acomodadas juntas dentro da forma, onde passam a formar a estrutura da torta. É
quase como construir uma pequena arquitetura com crepes, creme e frutas:
primeiro se fazem as partes, depois elas são reunidas e, somente no final,
aquilo que era um conjunto de rolinhos passa a parecer uma única torta.
A versão que escolhi é
búlgara e reúne palačinke de chocolate, cerejas ácidas, um creme delicado de
mascarpone e creme de leite e uma cobertura de chocolate. A acidez das cerejas
é importante aqui: ela interrompe a doçura do chocolate e do creme e impede que
a sobremesa se torne simplesmente doce. Há uma espécie de equilíbrio nessa
combinação que me agrada particularmente.
E talvez haja uma razão
ainda mais pessoal para ela estar aqui hoje. Esta não é uma torta construída de
uma única vez. Ela é feita aos poucos, parte por parte, até que todas aquelas
coisas aparentemente independentes passem a formar uma coisa só.
Dezesseis anos de blog
também foram assim. Uma pesquisa levou a outra. Uma receita trouxe uma
história. Uma história trouxe uma pergunta. Uma pergunta trouxe outra pesquisa.
Pessoas chegaram, algumas ficaram, outras partiram, algumas deixaram lembranças
pelo caminho. E, depois de tantos anos, quando olho para tudo isso, percebo que
talvez uma história seja exatamente isso: aquilo que conseguimos construir com
as pequenas coisas que decidimos não deixar desaparecer.
Por isso, para os dezesseis anos da Confraria, o bolo poderia até ser um bolo. Mas achei mais apropriado que tivesse camadas. Mesmo que, neste caso, elas precisassem primeiro ser enroladas para finalmente se encontrarem.
Ingredientes
Palačinke de chocolate
2 ovos
100 g de açúcar
1 colehr de chá de extrato de baunilha
2 colheres (sopa) de óleo
2 colheres (sopa) de cacau em pó sem
açúcar
160 g de farinha de trigo
400 ml de leite
200 ml de água
Recheio de cerejas
400 g de cerejas ácidas (višnje), sem
caroços (ou use cerejas fresca que tiver)
200 g de açúcar
2 colheres (sopa) de amido de milho
Creme
300 g de mascarpone
200 ml de creme de leite fresco, com
30–36% de gordura
100 g de açúcar de confeiteiro
1 colher (chá) de pasta ou extrato de
baunilha
Ganache de chocolate
200 g de chocolate amargo
250 ml de creme de leite fresco
Preparo: para preparar as palačinke (panquecas
finas), bata os ovos com o açúcar e o açúcar de baunilha até obter uma mistura
homogênea. Acrescente o óleo, o cacau em pó e a farinha de trigo e misture.
Adicione o leite e a água aos poucos, mexendo até obter uma massa lisa, sem
grumos e relativamente líquida. Aqueça uma frigideira antiaderente e, se
necessário, unte-a levemente com óleo. Prepare palačinke finas, colocando uma
pequena quantidade de massa na frigideira e girando-a para espalhar por toda a
superfície. Doure dos dois lados e reserve. Para o recheio de cerejas, coloque
as cerejas sem caroço em uma panela com o açúcar e leve ao fogo. Cozinhe até
que as frutas liberem seu suco e a mistura comece a ferver. Dissolva o amido de
milho em um pouco de água fria e acrescente às cerejas, mexendo continuamente
até obter um recheio espesso. Retire do fogo e deixe esfriar completamente.
Para preparar o creme, bata o mascarpone com o creme de leite fresco, o açúcar
de confeiteiro e a baunilha até obter um creme firme, liso e aerado. Para a
montagem, forre uma forma retangular de aproximadamente 20 × 10 × 7 cm com
filme plástico, deixando sobras nas laterais para facilitar a retirada da
torta. Separe algumas palačinke para forrar a forma e cubra o fundo e as
laterais, deixando parte das bordas para fora. Espalhe uma camada fina de creme
sobre uma palačinka e coloque uma porção do recheio de cerejas. Enrole-a
cuidadosamente e acomode o rolinho na forma. Repita o procedimento com outras
palačinke, formando rolinhos recheados, e disponha-os lado a lado dentro da
forma. Complete os espaços e cubra a superfície com o restante do creme. Feche
a torta com as palačinke que ficaram nas laterais, pressionando delicadamente
para compactar as camadas. Cubra com o filme plástico e leve à geladeira por
pelo menos 8 horas, de preferência durante a noite. Para preparar a ganache,
aqueça o creme de leite fresco até começar a formar pequenas bolhas nas bordas,
sem deixar ferver. Despeje-o sobre o chocolate amargo picado e deixe descansar por
alguns minutos. Misture delicadamente até obter uma ganache lisa e brilhante.
Retire a torta da geladeira, desenforme cuidadosamente sobre uma travessa e
cubra com a ganache. Leve novamente à geladeira por alguns minutos, apenas até
a cobertura firmar. Decore como desejar. Sirva gelada ou ligeiramente
refrigerada.


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