domingo, 6 de setembro de 2026

ENQUANTO HOUVER ALGUÉM DO OUTRO LADO DA MESA: DEZESSEIS ANOS DA CONFRARIA GASTRONÔMICA DO BARÃO DE GOURMANDISE

 

Todo aniversário pede um bolo. Talvez porque a vida, desde muito antes de sabermos escrever sobre ela, tenha encontrado na doçura uma maneira particularmente bonita de marcar o tempo.

Hoje, porém, o bolo é quase um detalhe. O que celebro são os dezesseis anos da Confraria Gastronômica do Barão de Gourmandise. Dezesseis anos desde que aquilo que nasceu como um pequeno lugar de guarda-memória pessoal — quase um caderno de lembranças aberto apenas para mim — começou, pouco a pouco, a escapar pelas frestas da minha vida e ganhar o mundo.

Primeiro veio o blog. Depois, a página homônima no Facebook, que acelerou tudo de uma maneira que eu jamais teria imaginado. Vieram leitoras e leitores, mensagens, traduções automáticas atravessando fronteiras, pessoas de lugares que eu talvez nunca visite e que, ainda assim, passaram a sentar-se comigo à mesma mesa imaginária.

Quem gosta de números pode dizer que o blog já ultrapassou dois milhões de acessos individuais e chegou a leitores em mais de 160 países. Parece uma frase bonita de escrever. Mas números, sozinhos, não contam uma história.

Por trás de cada acesso existe alguém. Uma pessoa que chegou procurando uma informação, uma receita, uma história sobre comida, uma curiosidade, talvez apenas uma palavra. Algumas foram embora depressa. Outras ficaram. Algumas voltaram. Algumas escreveram. E algumas, de maneiras que jamais poderiam imaginar, acabaram deixando também alguma coisa de si por aqui.

Foi assim que a escrita deixou de ser apenas uma forma de guardar minhas próprias memórias e passou a carregar uma responsabilidade que eu não havia previsto.

Quanto mais gente lia, mais eu precisava cuidar do que escrevia. E quanto mais eu escrevia, mais pessoas interessadas em gastronomia, cultura, história da alimentação e tudo aquilo que existe entre um prato e a civilização começaram a aparecer.

Foi uma das maiores riquezas desses anos. Conheci pessoas extraordinárias. Também conheci algumas que, se pudesse escolher novamente, teria deixado passar pela porta sem sequer perguntar o nome. Faz parte.

A internet tem seus pequenos zoológicos humanos. Há quem chegue para conversar, aprender, acrescentar. Há quem chegue para discordar — o que considero saudável, porque nenhuma inteligência cresce cercada apenas de aplausos. E há os haters, essa curiosa espécie que parece acordar diariamente com a missão de encontrar alguma coisa que possa detestar gratuitamente.

Existe ainda um tipo particularmente interessante: aquele que não necessariamente entende mais, mas precisa estar certo. Sempre.

A certeza, para algumas pessoas, parece ser uma forma de anestesia. Aprendi a conviver com isso. Aliás, muita coisa que me incomodava profundamente no começo hoje me provoca, no máximo, um levantar de sobrancelha. Talvez esse seja um dos luxos de envelhecer. Ou de aprender.

Porque, no fim, tudo isso também me ensinou. Melhorou minha escrita. Expôs meus erros de português. Fez-me rever ideias, pesquisar mais, desconfiar das próprias certezas e compreender que conhecimento não é uma propriedade privada com escritura registrada em cartório.

Mas há uma coisa que ninguém conseguiu tirar de mim: aquilo que aprendi. Foram anos de estudo, pesquisa, leitura, observação, conversa, curiosidade e dedicação. E conhecimento adquirido dessa maneira cria raízes. Ninguém o apaga. Ninguém o copia para fora de você. Ninguém o leva embora. Embora tenham tentado.

Algumas situações, olhando hoje, chegam a ser quase cômicas. Quase.

Já aconteceu de eu pesquisar durante horas, organizar referências, estudar determinado assunto para escrever um texto e, pouco depois de publicá-lo, descobrir profissionais da gastronomia — professores inclusive — esperando o conteúdo aparecer para transformá-lo em aula.

Uma vez, deparei-me com uma apostila inteira construída a partir de meus textos. Inteira. Só faltou uma pequena coisa: meu nome.

Nem uma referência. Nem uma nota de rodapé. Nem aquele gesto mínimo de reconhecer que alguém havia passado horas, dias ou anos estudando antes de colocar aquilo no mundo.

Também já fui chamado para trabalhos sem remuneração porque, segundo as próprias pessoas que me procuravam, eu era “o melhor no assunto”. Mas, curiosamente, quando surgia dinheiro para pagar alguém, eu deixava de ser o melhor. Passava a existir alguém de fora. Eu continuava sendo lembrado apenas quando não havia orçamento.

E houve ainda quem copiasse textos meus na íntegra — inclusive os trechos em que conto episódios da minha infância — e os publicasse em seus próprios perfis como se aquelas lembranças tivessem acontecido na vida deles.

Confesso que, em certas ocasiões, a falta de vergonha alheia chega a ser uma experiência quase gastronômica: primeiro provoca espanto, depois um gosto amargo e, finalmente, a vontade de simplesmente pedir a conta.

Já me disseram para contestar. Para aplicar a lei. Para brigar. Talvez tivessem razão. Mas eu nunca fui muito afeito a guerras. Durante algum tempo, essas coisas me tiravam o sono. Hoje, prefiro minha paz. Ligo o foda-se com uma tranquilidade que, confesso, tem me feito muito mais feliz. E sigo.

E, aos haters, eu observo vocês. Às vezes, confesso, até me divirto com alguns comentários grosseiros e com o esforço quase comovente de certas pessoas para parecer mais inteligentes do que aquilo que acabaram de escrever permite. Mas a minha história não é sobre vocês.

Sei que alguns certamente chegaram até aqui com aquela expectativa quase religiosa de encontrar alguma coisa para criticar e, talvez, com a esperança de finalmente descobrir uma razão para confirmar aquilo que já decidiram pensar antes mesmo de começar a ler. Pois bem. Para não frustrar completamente essa expectativa, deixo apenas dois pequenos avisos.

O primeiro: sim, meus textos continuarão sendo grandes. Não é um acidente de percurso, uma falha de edição ou alguma dificuldade minha em encontrar o botão de “resumir”. Sou um ser prolixo. Penso muito, lembro de muita coisa, sinto ainda mais e, sinceramente, não sei descrever tudo aquilo que uma história, uma comida ou uma memória desperta em mim em menos de 130 caracteres.

Para quem precisa de textos que possam ser lidos entre uma piscada e outra, a internet está cheia de excelentes criadores oferecendo conteúdos curtos, rápidos e perfeitamente adaptados a essa necessidade. Fiquem à vontade. Não faltará onde encontrar. Eu, por aqui, continuarei escrevendo do tamanho que algumas histórias exigem. Afinal, há coisas que simplesmente não cabem em uma legenda curta — e algumas que eu nem gostaria que coubessem.

O segundo aviso é para aqueles que, depois de esculhambar um texto, gostam de concluir, com a segurança característica de quem já encontrou todas as respostas, que aquilo só poderia ter sido escrito por inteligência artificial.

Pois bem. Confesso que, depois de ouvir isso algumas vezes, peguei ar. E resolvi transformar a provocação em alguma coisa útil: vou, sim, passar a usar inteligência artificial por uma certa pirraça.

Não para escrever por mim, muito menos para substituir aquilo que é essencial neste trabalho, mas para fazer o que me parece realmente útil: sistematizar pesquisas, organizar informações, cruzar materiais e ajudar a administrar o volume quase indecente de referências que uma pessoa curiosa consegue acumular depois de tantos anos. Se já vão atribuir à máquina aquilo que escrevo, ao menos agora ela terá alguma participação de verdade — nos bastidores.

E, já que estamos falando de inteligência artificial, talvez seja importante esclarecer que não vejo qualquer problema em utilizá-la quando ela consegue melhorar o trabalho que pretendo entregar. Se uma ferramenta pode me ajudar a encontrar uma referência, organizar uma quantidade absurda de informações, perceber uma repetição, testar uma estrutura ou simplesmente enxergar aquilo que meus olhos cansados já não enxergam, não vejo por que deveria recusá-la em nome de alguma pureza artesanal da escrita.

Uso aquilo que considero útil, assim como uso livros, bancos de dados, dicionários, mecanismos de busca e todas as outras ferramentas que foram inventadas justamente para ampliar aquilo que uma pessoa consegue fazer sozinha.

Aliás, pensando bem, talvez alguns comentaristas pudessem experimentar a mesma tecnologia antes de publicar certas coisas. Não para que a inteligência artificial escrevesse por eles, naturalmente, mas apenas para oferecer uma pequena assistência à inteligência — que, em alguns casos, parece estar precisando de uma revisão bastante cuidadosa.

Dito isso, há uma coisa que a inteligência artificial não poderá fazer por mim.

Ela não terá a minha infância. Não terá as pessoas que conheci. Não terá as comidas que provei. Não terá as lembranças que me visitam sem serem convidadas, nem as perguntas que me perseguem durante dias. Não terá minhas dúvidas, meus afetos, minhas contradições, minhas pequenas obsessões ou essa insistente incapacidade de olhar para uma história, uma comida ou uma lembrança sem querer descobrir o que existe por trás delas.

A máquina poderá me ajudar a organizar o que sei e a encontrar caminhos dentro daquilo que ainda não sei. Mas aquilo que me faz escrever continuará sendo meu. E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores mudanças destes dezesseis anos.

Quando comecei, eu queria guardar coisas. Guardar receitas, histórias, descobertas, lembranças. Talvez nem soubesse exatamente por quê. Era uma maneira de impedir que determinadas coisas desaparecessem dentro de mim.

Hoje, percebo que não escrevo apenas para guardar. Escrevo também para conversar. Dezesseis anos mudam uma pessoa. Mudaram a maneira como penso, como pesquiso, como escrevo e até a maneira como lido com aquilo que antes me tirava o sono. Aprendi a desconfiar mais das minhas próprias certezas, a ouvir melhor, a aceitar que algumas perguntas são mais interessantes do que certas respostas e, principalmente, a compreender que conhecimento não perde valor quando é compartilhado.

Talvez eu tenha começado este blog tentando preservar memórias e tenha terminado descobrindo que algumas memórias só permanecem vivas quando encontram outra pessoa. É por isso que continuo compartilhando.

Já ouvi pessoas dizerem que eu deveria publicar menos. Ensinar menos. Guardar mais. Compartilhar menos conteúdo, menos ideias, menos descobertas.

Como se conhecimento fosse uma espécie de cofre. Como se prosperar dependesse de esconder a chave. Nunca consegui pensar assim. Talvez porque eu não acredite que o mundo tenha escassez de conhecimento. Pelo contrário.

O mundo é vasto demais para isso. Enquanto alguém acredita ter descoberto a última palavra sobre alguma coisa, outra pessoa, em algum lugar, está fazendo uma pergunta que ainda não nos ocorreu.

Todo dia. Toda hora.

Surge alguma coisa nova que me provoca aquela velha inquietação deliciosa: e se eu descobrir o que existe por trás disso?

E não estou falando apenas de gastronomia. A gastronomia é uma parte do meu mundo, não o mundo inteiro. Comida toca história, religião, política, economia, território, memória, afeto, poder, fome, celebração, identidade.

Um prato raramente é apenas um prato. É justamente por isso que gosto de compartilhar. Quando descubro algo interessante e coloco isso no mundo, talvez alguém aprenda. Talvez outra pessoa melhore aquilo. Talvez alguém encontre uma referência que não conhecia. Talvez um professor use a informação em uma aula. Talvez um estudante descubra uma pergunta nova. Talvez alguém, em algum lugar, faça melhor do que eu.

E isso não diminui o que fiz. Ao contrário. Isso faz a coisa crescer. Conhecimento, para mim, não é uma fatia de bolo que desaparece quando outra pessoa come. É fermento. Quanto mais se espalha, mais coisas pode fazer crescer.

Talvez eu pudesse ter sido mais empreendedor. Talvez devesse ter transformado tudo isso em um negócio há muito tempo. Talvez pudesse ter cobrado por aquilo que entreguei gratuitamente durante tantos anos. Talvez.

Mas a vida também é feita dos caminhos que escolhemos sem saber exatamente para onde levam. Até aqui, fui feliz fazendo isso. E existe uma satisfação difícil de explicar quando aquilo que começou sozinho passa a fazer parte de uma rede maior de pessoas, ideias, descobertas e possibilidades.

Quando seu conteúdo começa a gerar valor para outras pessoas, você deixa de produzir apenas aquilo que seria capaz de produzir sozinho. A rede passa a pensar junto. E isso, para mim, é uma das formas mais bonitas de prosperidade. Não necessariamente a financeira. A humana.

Nesse percurso, muitos leitores já me pediram para escrever livros. Livros sobre tudo isso. É um sonho que continua guardado em algum lugar muito especial dentro de mim. E vai acontecer. Um dia.

Para isso, preciso de dinheiro, tempo, dedicação e uma dose considerável de organização — qualidades que nem sempre caminham juntas quando se vive entre pesquisa, escrita e as urgências da vida.

Por isso, quando me perguntam: “Quando vai transformar o conteúdo em livros?”, eu respondo simplesmente: uma hora esse sonho se torna real.

Enquanto isso, continuo escrevendo. E talvez seja essa uma das coisas que mais definem a maneira como enxergo o conhecimento: ele só se torna verdadeiramente meu quando também consegue encontrar algum caminho para chegar a outra pessoa.

Por isso, neste aniversário, minha primeira vontade é agradecer. A cada leitora. A cada leitor. A cada pessoa que chegou, leu, voltou, compartilhou, discordou com respeito, corrigiu alguma coisa, ensinou outra, mandou uma mensagem. E, principalmente, a quem escreveu apenas para dizer que gostou.

Vocês talvez não saibam o que uma mensagem dessas pode significar para quem está do outro lado da tela. Às vezes, uma frase pequena chega justamente no dia em que era necessária.

Existe algo profundamente humano em descobrir que uma pessoa, em algum lugar, interrompeu por alguns minutos aquilo que estava fazendo para ler aquilo que você escreveu e, depois, sentiu vontade de responder. É uma espécie de conversa à distância. Uma forma estranha e bonita de companhia.

Eu escrevo sozinho diante de uma tela, mas nunca estou completamente sozinho quando sei que, em algum momento, alguém estará do outro lado para ler. E talvez essa seja a verdadeira confraria.

Não apenas pessoas reunidas ao redor da comida, mas pessoas reunidas por tudo aquilo que a comida consegue despertar. Porque percebo, ao longo desses anos, que existe algo nos mantendo ligados. Não sou eu. Não é apenas o blog. Não são as receitas.

É a comida. Ou melhor: aquilo que a comida faz conosco. A maneira como nos atravessa. Como guarda pessoas dentro de sabores. Como devolve uma infância inteira através do cheiro de alguma coisa cozinhando. Como uma mesa pode conter uma família. Uma ausência. Uma viagem. Uma saudade. Um país. Uma história.

Quando falamos de comida, quase nunca estamos falando somente de comida. Estamos falando de pessoas. É por isso que, ao longo desses anos, esta confraria deixou de ser apenas um lugar onde publico aquilo que descubro e se transformou, aos poucos, em um espaço de encontro.

É dessa companhia que quero lembrar hoje. Dos dezesseis anos em que nossas histórias, ainda que brevemente, se tocaram através das palavras. Daquilo que vocês me ensinaram sem necessariamente saber que estavam ensinando. Das perguntas que abriram novas pesquisas, das mensagens que chegaram em dias inesperados, das pessoas que permaneceram e também daquelas que passaram rapidamente, deixando alguma coisa pelo caminho.

Afinal, uma vida inteira é feita disso: gente que chega, gente que parte, gente que fica, histórias que terminam e outras que começam quando menos esperamos.

Ultimamente, tenho recebido algumas mensagens dizendo que os textos mudaram, que estão mais poéticos, mais subjetivos, talvez até mais próximos de alguma coisa que eu havia deixado adormecida durante os anos de pesquisa. E acho que essas pessoas têm razão.

Depois de terminar o doutorado, percebi que havia passado tempo demais organizando o mundo em categorias, referências, conceitos, argumentos e conclusões, como se toda experiência precisasse caber em alguma estrutura antes de merecer ser compreendida.

Talvez por isso, terminado esse longo período de disciplina intelectual, eu tenha sentido necessidade de voltar a um lugar mais meu, menos sistematizado, mais intuitivo, onde uma lembrança possa atravessar um parágrafo sem precisar apresentar credenciais acadêmicas e onde uma sensação possa simplesmente existir sem que eu tenha de explicá-la até a exaustão.

Por isso, se vocês têm percebido que estou escrevendo de outra maneira, não é impressão: estou mesmo. Depois de tantos anos tentando compreender o mundo pela razão, talvez eu tenha finalmente me permitido voltar a senti-lo também. E talvez seja isso que eu desejo que aconteça com quem lê.

Não espero que cada texto produza uma revelação extraordinária, nem que todas as pessoas concordem comigo — seria, aliás, uma experiência bastante suspeita.

Basta que, em algum momento, alguma coisa tenha acontecido dentro de você enquanto lia.

Talvez uma lembrança tenha voltado sem ser convidada; talvez uma curiosidade tenha nascido; talvez tenha surgido vontade de cozinhar, de pesquisar, de perguntar, de discordar ou simplesmente de olhar para alguma coisa que parecia conhecida por um ângulo diferente.

Se alguma palavra minha já provocou esse pequeno deslocamento, por menor que tenha sido, então ela encontrou seu destino.

E, para aquilo que ainda não aconteceu, não tenho pressa. O futuro continua oferecendo páginas, histórias, mesas, sabores e encontros que nenhum de nós conhece ainda.

Hoje, como manda a tradição, deveria haver uma receita de aniversário. E haverá, porque certas tradições merecem ser respeitadas, sobretudo quando envolvem comida. Mas esta postagem não nasceu para contar a história de uma receita.

Hoje quero falar de outra coisa, talvez mais difícil de explicar e muito mais importante para mim: quero falar da companhia. Da companhia de vocês, que durante dezesseis anos atravessaram estas páginas e, de maneiras que muitas vezes nem imaginam, transformaram um espaço que nasceu como um simples arquivo de memórias pessoais em uma espécie de mesa à qual pessoas de lugares, histórias e vidas completamente diferentes passaram a se sentar.

Foram dezesseis anos de palavras atravessando telas e chegando a lugares que eu jamais imaginei alcançar; de pesquisas, comida, memória, descobertas, irritações, aprendizados, algumas decepções, muitas surpresas e uma quantidade provavelmente irresponsável de curiosidade.

Quando olho para trás, não consigo enxergar apenas aquilo que escrevi. Enxergo também tudo aquilo que aconteceu enquanto eu escrevia, todas as pessoas que apareceram pelo caminho, todas as conversas que nasceram de um texto, todas as perguntas que me obrigaram a pesquisar novamente, todas as descobertas que vieram justamente porque alguém, do outro lado da tela, resolveu perguntar alguma coisa.

E isso, para mim, é muito maior do que qualquer número de acessos poderia contar. Então, antes do bolo, antes da receita e antes de qualquer outra celebração, fica o meu agradecimento.

Obrigado por esses dezesseis anos de leitura, conversa, curiosidade e companhia. Obrigado por cada mensagem carinhosa, por cada pergunta, por cada correção feita com generosidade e por cada descoberta que alguém decidiu dividir comigo. Obrigado, sobretudo, por terem transformado palavras que nasceram dentro de mim em alguma coisa que passou a existir também dentro de outras pessoas.

Enquanto eu ainda encontrar alguma história escondida em uma receita, alguma memória adormecida dentro de um sabor, alguma pergunta que mereça ser investigada ou alguma palavra que me pareça digna de ser colocada no mundo, continuarei escrevendo.

Não sei exatamente por quanto tempo, porque aprendi que algumas das melhores coisas da vida não precisam de prazo para continuar fazendo sentido. Sei apenas que, enquanto eu me sentir confortável nesta mesa, continuarei aqui, com a mesma curiosidade que me trouxe até ela há dezesseis anos.

E talvez seja esse o melhor modo de celebrar um aniversário: perceber que o tempo passou, que muita coisa mudou, que nós também mudamos, mas que a mesa continua posta.

E que, do outro lado dela, ainda existe alguém.

A conversa, felizmente, ainda está longe de terminar.

 

PALAČINKOVA TORTA

TORTA DE PALAČINKE

 Há alguma coisa particularmente bonita nas sobremesas feitas de camadas. Talvez porque elas nos lembrem, ainda que inconscientemente, que algumas coisas boas raramente acontecem de uma vez. É preciso colocar uma coisa sobre a outra, esperar, construir, repetir e, no fim, descobrir que aquilo que parecia apenas uma coleção de partes se transformou em alguma coisa inteira.

Foi essa ideia que me fez escolher esta torta para celebrar os dezesseis anos da Confraria. A palačinka torta pertence àquela grande família de sobremesas encontradas em diferentes países da Europa Central e dos Bálcãs, construídas a partir das finíssimas palačinke, semelhantes aos nossos crepes. Há inúmeras versões, com frutas, geleias, cremes, nozes e chocolate, porque, como acontece com quase tudo que atravessa fronteiras, cada lugar acaba colocando um pouco de si dentro da receita.

Mas há uma particularidade nesta torta que talvez não seja percebida imediatamente quando se olha para ela. Embora o resultado final tenha a aparência de um bolo ou torta de camadas, suas camadas não são exatamente aquelas que imaginamos quando pensamos em uma sobremesa desse tipo. As palačinke não são simplesmente empilhadas umas sobre as outras, alternando recheios. Elas são recheadas, enroladas e depois acomodadas juntas dentro da forma, onde passam a formar a estrutura da torta. É quase como construir uma pequena arquitetura com crepes, creme e frutas: primeiro se fazem as partes, depois elas são reunidas e, somente no final, aquilo que era um conjunto de rolinhos passa a parecer uma única torta.

A versão que escolhi é búlgara e reúne palačinke de chocolate, cerejas ácidas, um creme delicado de mascarpone e creme de leite e uma cobertura de chocolate. A acidez das cerejas é importante aqui: ela interrompe a doçura do chocolate e do creme e impede que a sobremesa se torne simplesmente doce. Há uma espécie de equilíbrio nessa combinação que me agrada particularmente.

E talvez haja uma razão ainda mais pessoal para ela estar aqui hoje. Esta não é uma torta construída de uma única vez. Ela é feita aos poucos, parte por parte, até que todas aquelas coisas aparentemente independentes passem a formar uma coisa só.

Dezesseis anos de blog também foram assim. Uma pesquisa levou a outra. Uma receita trouxe uma história. Uma história trouxe uma pergunta. Uma pergunta trouxe outra pesquisa. Pessoas chegaram, algumas ficaram, outras partiram, algumas deixaram lembranças pelo caminho. E, depois de tantos anos, quando olho para tudo isso, percebo que talvez uma história seja exatamente isso: aquilo que conseguimos construir com as pequenas coisas que decidimos não deixar desaparecer.

Por isso, para os dezesseis anos da Confraria, o bolo poderia até ser um bolo. Mas achei mais apropriado que tivesse camadas. Mesmo que, neste caso, elas precisassem primeiro ser enroladas para finalmente se encontrarem. 

Ingredientes

Palačinke de chocolate

2 ovos

100 g de açúcar

1 colehr de chá de extrato de baunilha

2 colheres (sopa) de óleo

2 colheres (sopa) de cacau em pó sem açúcar

160 g de farinha de trigo

400 ml de leite

200 ml de água

Recheio de cerejas

400 g de cerejas ácidas (višnje), sem caroços (ou use cerejas fresca que tiver)

200 g de açúcar

2 colheres (sopa) de amido de milho

Creme

300 g de mascarpone

200 ml de creme de leite fresco, com 30–36% de gordura

100 g de açúcar de confeiteiro

1 colher (chá) de pasta ou extrato de baunilha

Ganache de chocolate

200 g de chocolate amargo

250 ml de creme de leite fresco

Preparo: para preparar as palačinke (panquecas finas), bata os ovos com o açúcar e o açúcar de baunilha até obter uma mistura homogênea. Acrescente o óleo, o cacau em pó e a farinha de trigo e misture. Adicione o leite e a água aos poucos, mexendo até obter uma massa lisa, sem grumos e relativamente líquida. Aqueça uma frigideira antiaderente e, se necessário, unte-a levemente com óleo. Prepare palačinke finas, colocando uma pequena quantidade de massa na frigideira e girando-a para espalhar por toda a superfície. Doure dos dois lados e reserve. Para o recheio de cerejas, coloque as cerejas sem caroço em uma panela com o açúcar e leve ao fogo. Cozinhe até que as frutas liberem seu suco e a mistura comece a ferver. Dissolva o amido de milho em um pouco de água fria e acrescente às cerejas, mexendo continuamente até obter um recheio espesso. Retire do fogo e deixe esfriar completamente. Para preparar o creme, bata o mascarpone com o creme de leite fresco, o açúcar de confeiteiro e a baunilha até obter um creme firme, liso e aerado. Para a montagem, forre uma forma retangular de aproximadamente 20 × 10 × 7 cm com filme plástico, deixando sobras nas laterais para facilitar a retirada da torta. Separe algumas palačinke para forrar a forma e cubra o fundo e as laterais, deixando parte das bordas para fora. Espalhe uma camada fina de creme sobre uma palačinka e coloque uma porção do recheio de cerejas. Enrole-a cuidadosamente e acomode o rolinho na forma. Repita o procedimento com outras palačinke, formando rolinhos recheados, e disponha-os lado a lado dentro da forma. Complete os espaços e cubra a superfície com o restante do creme. Feche a torta com as palačinke que ficaram nas laterais, pressionando delicadamente para compactar as camadas. Cubra com o filme plástico e leve à geladeira por pelo menos 8 horas, de preferência durante a noite. Para preparar a ganache, aqueça o creme de leite fresco até começar a formar pequenas bolhas nas bordas, sem deixar ferver. Despeje-o sobre o chocolate amargo picado e deixe descansar por alguns minutos. Misture delicadamente até obter uma ganache lisa e brilhante. Retire a torta da geladeira, desenforme cuidadosamente sobre uma travessa e cubra com a ganache. Leve novamente à geladeira por alguns minutos, apenas até a cobertura firmar. Decore como desejar. Sirva gelada ou ligeiramente refrigerada.