Algumas histórias perduram
não por fidelidade ao acontecido, mas pelo modo delicado como passam de boca em
boca. São polidas, adoçadas, tornadas pequenas o bastante para repousar no colo
da crença. Sobrevivem porque chegam cedo, quando a infância ainda aprende a
escutar. As tramas que se estendem da Natividade à Epifania oferecem esse
desenho: narrativas atravessadas por controvérsias, repetidas com precisão
quase artesanal, sustentando convicções por mais de dois mil anos. O que nos
alcança vem envolto em ouro simbólico; sob esse brilho, percebe-se um esqueleto
mais áspero, menos dócil, tenso de conflitos e de impasses técnicos — sobretudo
para quem busca datas, vestígios, chão. Enxergar isso pede um gesto inaugural
de lucidez: notar o instante em que o encanto afrouxa e os fios da engrenagem
se deixam ver.
Para mim, até as narrativas
nos colonizam. Chegam mansas, domesticadas. Séculos de escovação lhes limaram
as farpas; foram rearranjadas para não ferir, compostas para parecerem seguras.
O fulgor que sobra funciona como ornamento; a ossatura, quando observada de
perto, sugere outro desígnio. Ler esses episódios com atenção exige acolher o
momento em que o fascínio cede à suspeita, e a história, enfim, confessa a
própria carpintaria.
Talvez seja aí que a fenda
se abre: no instante em que aprendemos a distinguir o brilho do artifício que o
sustenta. Entre a história sagrada e a história doméstica, algo em nós
amadurece sem alarde. Não é perda, é deslocamento. O mundo não se desfaz; ele
muda de voz. Aquilo que antes descia envolto em mistério passa a revelar as
mãos que o sustentam, humanas, falíveis, cheias de intenção. A crença não cai
de um golpe — ela se dobra, como papel bem vincado, até caber numa forma mais
estreita de verdade. É desse aprendizado silencioso que nascem as primeiras
perguntas, aquelas que não pedem resposta imediata, apenas coragem para serem
feitas. E uma delas, inevitavelmente, assume a forma mais simples e mais
reveladora de todas.
Até quando eu acreditei em
Papai Noel?
Essa pergunta costuma vir
carregada de nostalgia alheia, mas comigo ela nunca encontrou terreno fértil.
Não caí no conto do vigário. Não atravessei o espanto nem tropecei no engano.
Não porque fosse especialmente brilhante — apenas atento. Desde muito cedo
percebi que os presentes não atravessavam chaminés (embroa l a na minha casa da
serra tivesse uma, a maioria das casas dos cearenses não tem), nem obedeciam ao
passo improvável de renas fabulosas. Vinham de mãos conhecidas, cuidadosas,
cansadas às vezes. Eram mãe, pai, avós, tios e tias, padrinhos e madrinhas
curvando a realidade com delicadeza para que ela coubesse inteira dentro da
infância.
Ainda assim — e isso importa
— eu amava a magia. Sempre gostei de histórias. O gesto profundamente humano de
inventar abrigo onde o mundo é duro demais, excessivamente literal. Eu sabia
que era encenação. Eu via os fios, reconhecia o palco, mas escolhia sustentar a
cena. Um acordo silencioso com o imaginário. Não por ingenuidade, mas por
ternura. Havia afeto nesse fingimento compartilhado, uma forma de cuidado que
não pedia verdade, apenas presença.
Com o tempo, aprendi a
enxergar melhor essas narrativas: suas origens tortuosas, seus remendos
discretos, as intenções que respiram por baixo do enredo. Acreditei, então,
estar pronto para todas as quedas simbólicas que me aguardavam — como se o
conhecimento fosse um amortecedor, como se compreender fosse suficiente para
não doer.
Eu estava errado.
Porque nada me atingiu com
tanta força quanto perceber, por conta própria, que o mundo jamais soube ao
certo quantos eram os chamados reis magos. Aquilo, sim, foi um abalo. Um choque
seco, sem aviso. Fiquei desnorteado — e, sendo honesto, tomado por uma fúria
íntima, quase infantil. Não pela ausência de resposta, mas pelo excesso de
invenção. Três. Sempre três. Um número repetido até ganhar peso de rocha. Com
nomes fixos, rostos fáceis de reconhecer, origens repartidas com zelo didático,
funções que pareciam ensinadas em cartilha. Um sistema fechado, confortável,
polido pela repetição até adquirir aparência de certeza.
E então, de súbito, o chão
cede. O que parecia firme revela-se névoa. O número escapa, os nomes se
desfazem, a própria ideia de “reis” perde contorno. Nada daquilo se sustenta
sem o apoio insistente da narrativa. O que resta é um campo aberto, indócil, onde
a história não oferece corrimão. Foi nesse instante que compreendi: não era a
dúvida que doía, mas a consciência de ter sido conduzido por tanto tempo por
uma arquitetura invisível, erguida mais para acalmar do que para dizer. E ali,
entre a ruína do símbolo e o silêncio que se seguiu, algo em mim deixou de
aceitar o conforto como verdade.
O absurdo não estava na
lenda existir. Estava em como ela se cristalizou. Como se alguém tivesse
decidido que a complexidade precisava ser domada, simplificada, embalada para
consumo cultural. E ali, curiosamente, algo em mim ruiu com mais força do que quando
percebi que Papai Noel era fruto de lendas antigas, marketing moderno e boa
vontade coletiva.
No fundo, talvez tenha sido
isso: perceber que os reis magos compunham uma história intrincada, fraturada,
atravessada por vazios — e que, apesar disso, continuava a se oferecer como
narrativa encerrada, limpa, sem arestas. Aquilo me tocou mais fundo do que
qualquer desilusão da infância. Porque ali não se tratava apenas de fantasia.
Ali estavam história, teologia, cultura, entrelaçadas num mesmo gesto de
contenção. Era o mundo adulto organizando o mistério para não precisar
sustentá-lo no olhar.
Foi quando entendi que o
incômodo não vinha da perda do encanto, mas do modo como ele fora administrado.
Não me doía que o mistério existisse; doía que ele tivesse sido domesticado.
Que o desconhecido fosse reduzido a forma, número, nome, hierarquia — como se o
indizível precisasse, a qualquer custo, caber numa moldura reconhecível. Havia
nisso uma pressa por sentido, um medo antigo do vazio, uma necessidade quase
ansiosa de fechar o que nasceu aberto. Era o mundo adulto organizando o
mistério para não ter de encará-lo.
Talvez ali tenha começado
outra forma de perceber a minha atenção. Menos disposta a aceitar histórias
prontas, mais inclinada a escutar as fissuras. Aprendi que são elas que
respiram. Que o que falta, muitas vezes, diz mais do que o que foi
cuidadosamente preenchido. E que certas narrativas só revelam sua verdade
quando param de tentar nos consolar.
E falo tudo isso porque, no
dia 26 de dezembro de 2025, meu amigo Vinicius Madureira — que possui o raro
dom de lembrar das pessoas com descobertas que realmente importam — me enviou
uma matéria. Um estudo sociológico francês, que se debruçava sobre algo
aparentemente simples: a maneira como crianças vivenciam o mito do Papai Noel.
Mas, como sempre, nada ali era simples de fato.
Obrigado, Viny. Obrigado por
pensar em mim de um jeito que realmente ilumina. Esses gestos — essa atenção,
essa partilha — são presentes que carregam algo de raro: cuidado, generosidade
e o encantamento que só existe quando alguém escolhe oferecer conhecimento com
afeto. Presentes que não cabem em caixas, mas que permanecem, vivos, muito
depois de serem entregues.
A matéria apresentava os
resultados de uma pesquisa que integra o livro “Premières Classes – comment la
reproduction sociale joue avant six ans” (Primeiras Classes – como a reprodução
social importa antes dos seis anos), publicado em 5 de setembro de 2015. As
autoras, Frédérique Giraud e Gaële Henri-Panabière, da Universidade Paris Cité,
investigam como as desigualdades sociais moldam percepções, aprendizagens e
práticas culturais desde a primeira infância — antes mesmo dos seis anos,
quando a maioria das crianças ainda está na pré-escola.
O estudo trazia à tona algo
inquietante: a relação com o mito de Papai Noel muda conforme a posição social.
Nas famílias das classes populares, a fantasia tende a se prolongar. Ali, o
encantamento é cultivado com engenhosidade, inventividade, insistência quase
obstinada. E vale tudo para manter viva a magia da infância. Não é ignorância:
é escolha simbólica, um gesto de proteção contra um mundo que cobra cedo
demais, que exige cedo demais.
Já nas famílias de classe
média ou alta, o movimento é distinto. A verdade chega antes, ou o
questionamento é estimulado. O mito é visto como uma “mentira desconfortável”,
algo que deve ser desmontado — não por malícia, mas para exercitar o pensamento
crítico. Papai Noel deixa de ser figura literal e se transforma em instrumento
pedagógico: um convite à reflexão, à análise, à suspeita. A fantasia é
reconfigurada, contida, subjugada à função educativa. O encantamento se torna
lição, o mistério se torna metáfora. E, nesse gesto, perde-se um pouco da
espontaneidade do assombro, substituída por um aprendizado consciente —
valioso, sem dúvida, mas de outro tipo, menos visceral, menos mágico.
O texto dizia que as
diferenças começam cedo. Antes dos seis anos. Antes da alfabetização formal.
Antes que a criança saiba explicar o mundo, ela já aprendeu como o mundo
funciona simbolicamente. Em alguns lares, o mito é abrigo. Em outros, é
experimento intelectual. E a pesquisa deixa claro: essas escolhas não são
neutras, nem apenas pessoais. Elas refletem estruturas sociais mais amplas,
condições materiais, expectativas de futuro.
Depois de ler tudo isso,
fiquei inevitavelmente reflexivo. Nasci em uma família de classe média.
Descobri cedo que Papai Noel não existia — mais ou menos na mesma idade das
crianças francesas descritas no estudo. Mas, ao mesmo tempo, eu amava histórias
de fantasia. E, conscientemente, ajudava a mantê-las vivas para as outras
crianças. Um comportamento ambíguo, talvez terapêutico, talvez digno de análise
clínica mais profunda. Fica para a terapia.
Ainda assim, volto ao ponto
inicial: nada me atingiu com tanta força quanto perceber que os reis magos são
uma construção instável, frágil, e, mesmo assim, persistem como certeza
cultural. Papai Noel, eu aceitei perder; os magos, não. Talvez porque ali não
se tratasse apenas de infância, mas de como eu lidava com o desconhecido. Com o
que não se fecha, com o que escapa, com o que insiste em permanecer sem forma,
sem nome, sem número. E foi nesse espaço aberto que percebi a pulsação da
história, que senti o mistério se recusar a ser domesticado. Foi ali que
aprendi — ainda que de maneira lenta e silenciosa — que nem tudo precisa caber
em molduras confortáveis para continuar a me tocar.
Quem sabe um dia essas
pesquisadoras francesas decidam pousar sua lente sobre esse território confuso
que me habita — risos. Até lá, resolvi iniciar o movimento. Dar o primeiro
passo. Narrar a partir do meu próprio ponto de observação. Desatar, com cuidado,
aquilo que foi montado em excesso. Sustentar o olhar sobre o que foi
simplificado demais para ainda merecer o nome de verdadeiro.
E que isso também funcione
como uma homenagem ao Viny. Pelas partilhas. Pelas provocações feitas sem
ruído, mas cheias de intenção. Pelos sinais lançados no céu comum dos dias —
pequenos brilhos que, de repente, me fazem erguer os olhos, afastar a cadeira,
e lembrar que pensar também pode ser um gesto de amizade.
ONDE REIS MAGOS ENTRAM NA
HISTÓRIA
Eles surgem de maneira
discreta, quase lateral, como se não precisassem de permissão para existir. O
texto sagrado já os põe em movimento antes mesmo de lhes emprestar contornos.
Vindos do Oriente — diz-se apenas isso. Homens atentos ao céu, decifradores de
sinais, viajantes que aprenderam a escutar o tempo nas curvas da luz. No relato
de Mateus, aparecem sem genealogia, sem número certo, sem feições atribuídas.
Nada além de função e gesto: viram algo no céu e partiram.
E é justamente essa ausência
que os torna tão inquietantes. Porque sem definição, sem forma, eles escapam do
conforto da certeza. Cada leitor é obrigado a preencher os vazios, a imaginar o
que não foi dado. É nesse espaço entre o visível e o indizível que eles
permanecem vivos, insistentes, misteriosos. Não se deixam domesticar, não cabem
em regras. E talvez seja por isso que, ainda hoje, continuam a nos ensinar:
sobre atenção, sobre risco, sobre o que significa seguir um brilho mesmo sem
mapa, sem número, sem garantia.
Eles aparecem poucas vezes
na Bíblia, mas deixam rastros que persistem, como pegadas rápidas demais para
serem ignoradas. O texto é econômico, quase seco, e talvez por isso tão
poderoso. “Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, eis
que uns magos vindos do Oriente chegaram a Jerusalém” (Evangelho segundo
Mateus, capítulo 2, versículo 1) — assim se abre a cena, sem adjetivos, apenas
o fato nu da chegada.
Em traduções mais diretas, a
frase se comprime ainda mais: “Magos do Oriente vieram a Jerusalém” (Mateus
2:1), como se o simples verbo vir fosse suficiente para definir toda a
existência deles. Logo depois, surge a pergunta — e ela se torna o eixo da narrativa:
“Onde está o rei dos judeus que nasceu? Porque vimos a sua estrela no Oriente e
viemos adorá-lo” (Mateus 2:2). O texto concentra-se nos verbos ver e vir, como
se toda a teologia estivesse contida nesse deslocamento, nesse movimento
provocado por um sinal que rompe a distância e exige resposta.
Mais adiante, a cena se
torna quase silenciosa, íntima: “E, entrando na casa, acharam o menino com
Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, lhe
ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra” (Mateus 2:11). Não se fala de números,
nomes ou aparência; sobra apenas o gesto, a reverência e os objetos. É essa
economia de palavras que transforma a passagem em um espaço aberto, onde o
leitor é convidado a imaginar, completar, sentir. Cada ausência — de rosto, de
contorno, de detalhe — funciona como um eco, um chamado para que nos
aproximemos do mistério não com explicações, mas com atenção, respeito e
curiosidade.
Por fim, a saída é breve e
carregada de consequência: “E, avisados em sonho para que não voltassem para
junto de Herodes, retiraram-se para a sua terra por outro caminho” (Mateus
2:12). Algumas traduções registram outro caminho, outras dizem um caminho diferente
— mas o sentido permanece intacto. Eles saem da história como entraram: em
movimento. E é exatamente assim que o Evangelho segundo Mateus os deixa,
localizados com precisão nos versículos, mas abertos o suficiente para que
séculos inteiros tentassem completar o que o texto escolheu não dizer.
A ideia permanece: eles não
voltam iguais. Entram na narrativa pela observação do céu e saem dela
transformados, deixando no texto apenas essas frases dispersas, suficientes
para que séculos inteiros se ocupassem em preenchê-las.
O mundo, porém, não suporta
personagens sem contorno por muito tempo. Aos poucos, a tradição lhes ofereceu
o que o texto não deu: estabilidade, simetria, nomes, rostos. Tornaram-se três
— número suficiente para equilibrar a cena, para justificar os presentes, para
caber no imaginário. E receberam nomes: Gaspar, Baltazar e Belchior. Cada um
passou a carregar uma identidade própria, uma origem distinta, uma aparência
reconhecível. O Oriente, vasto e impreciso, foi organizado em figuras
individuais.
Esses homens foram descritos
como sábios vindos de terras distantes, representantes de mundos antigos,
conhecedores de saberes profundos. A iconografia lhes atribuiu idades
diferentes, tons de pele variados, trajes exóticos, como se ali estivesse
condensada a pluralidade do mundo conhecido. Tornaram-se estrangeiros por
excelência, trazendo consigo não apenas presentes, mas o peso simbólico de
culturas inteiras.
Completando o fio da
narrativa, eu penso nos nomes que agora todos conhecem: Melchior, Gaspar e
Baltazar. Nenhum deles aparece na Bíblia. Surgiram muito depois, na tradição
cristã medieval, nos textos europeus entre os séculos V e VIII d.C., quando os
magos começaram a ganhar contornos, histórias próprias, faces mais definidas
nas lendas e hagiografias.
Melchior é descrito como
idoso, de pele clara, trazendo ouro. Gaspar, jovem, de pele clara ou média,
carregando incenso. Baltazar, mais velho ou de pele escura, oferecendo mirra.
Cada detalhe, cada nome, foi acrescentado não por acaso: eram símbolos. Representavam
os três continentes conhecidos na época, as diferentes idades humanas, a
variedade de presentes com sentidos próprios.
É um exemplo clássico de
como a tradição se encarrega de preencher lacunas deixadas pelo texto original,
de como a imaginação humana se debruça sobre o que falta. Um episódio breve,
seco, econômico na Bíblia transformou-se, com o tempo, em história rica,
visual, quase palpável. E é nesse processo — de ausência a forma, de sombra a
rosto — que percebo como as histórias que insistem em atravessar os séculos
carregam não apenas fatos, mas também os desejos, os medos e as necessidades de
quem as conta.
Os presentes, por sua vez,
tornaram-se inseparáveis deles. Ouro, incenso e mirra. O ouro, metal de reis e
impérios, associado à riqueza e à autoridade. O incenso, perfume que sobe,
ligado ao sagrado, ao que atravessa o ar e se oferece ao divino. A mirra,
resina amarga, usada para ungir corpos e preservar a carne diante da morte.
Cada objeto ganhou significado, função, destino. Nada ali foi considerado
aleatório. Tudo passou a falar.
Ao longo dos séculos, esses
personagens foram registrados, representados, celebrados. Pinturas os mostraram
ajoelhados. Manuscritos os fixaram em rotas precisas. Tradições narraram seus
caminhos, seus reinos, seus destinos finais. Foram chamados de reis, vestidos
como reis, lembrados como reis. A história lhes concedeu coroas, mesmo quando o
texto não as menciona. Concedeu-lhes tronos invisíveis, títulos duradouros, uma
permanência que atravessou idiomas e continentes.
Assim, os Três Reis Magos
entraram definitivamente no imaginário ocidental: sábios do Oriente, guiados
por uma estrela, portadores de presentes raros, testemunhas de um nascimento
extraordinário. Personagens completos, reconhecíveis, quase familiares. Fixados
na memória coletiva como parte inseparável da narrativa do Natal, ocupando um
lugar silencioso, porém fundamental, na cena que o mundo aprendeu a repetir ano
após ano.
E está registrado de forma
crua: eram estrangeiros, homens de outro mundo, portadores de saberes que a
maioria chamaria de magia, ocultismo – o alguns simplificam apenas a astrologia
– isso fica conforme a compreensão de cada um. Para muitos, a linha entre bruxo
e sábio era tênue, quase invisível; eles não vinham apenas com ouro, incenso e
mirra, mas com o peso do conhecimento, das estrelas e do invisível. Conheciam
as profecias antigas, percebiam que uma delas finalmente se cumpria, e partiram
para reverenciar algo maior, um poder que transcendia toda medida humana.
Curvaram-se diante dele com uma certeza silenciosa. Não buscavam
reconhecimento, nem narravam sua própria história; existiam apenas para
realizar o gesto que lhes fora destinado. E, mesmo sem palavras, impressionavam
— não pelo que possuíam, mas pela presença que carregavam, intensa e impossível
de ignorar.
Eles estiveram ali.
Chegaram. Trouxeram o que tinham. E, por ora, é tudo o que se diz.
PELAS BORDAS DO PRESÉPIO
Sempre desconfiei do Natal
contado do centro. Do Natal perfeitamente iluminado, sem sombras, sem ruídos,
sem arestas. Há algo de excessivamente comportado nas versões que nos entregam
prontas, como se a história tivesse nascido já enquadrada, domesticada, incapaz
de provocar qualquer desconforto. Talvez por isso prefira olhar para essa
narrativa pelas laterais, pelos cantos menos visitados do presépio, onde o feno
não está tão limpo e as figuras parecem prestes a sair do lugar.
É ali que os magos
incomodam. Porque eles não se encaixam. Não pertencem ao cenário. Não falam a
língua certa, não vêm do território certo, não carregam a credencial correta.
Entram na história como quem atravessa uma sala sem pedir licença, trazendo consigo
um outro vocabulário, um outro modo de compreender o mundo.
Olhar o Natal pelas bordas é
perceber que, antes de ser aconchego, ele foi ruído. Antes de ser consenso, foi
estranhamento. E que talvez a tradição tenha trabalhado duro demais para
transformar em doçura aquilo que, na origem, era profundamente perturbador.
Esse ensaio nasce desse
incômodo. Da suspeita de que aquilo que mais se repete é justamente o que menos
se escuta.
O PRESÉPIO E A INDIGNAÇÃO
DAS COROAS
Comecei a me dar conta da
estranheza dos magos quando, todo ano, montava o presépio lá de casa. Era um
mundo inteiro em miniatura, cheio de figuras de gesso já gastas pelo tempo,
cada uma com sua cor desbotada, cada detalhe marcado pelo uso e pelo cuidado de
anos. E lá estavam eles, os magos: altos, vestidos com mantos que pareciam
tecidos de outro mundo, carregando presentes em caixas que caberiam nos meus
braços, mas cujos os conteúdos não se podia ver – só se sabia pela tradição.
Estranhos e silenciosos, chegavam de fora do presépio, de um Oriente que eu só
podia imaginar, e, mesmo assim, ocupavam o espaço como se fossem parte
essencial da cena.
Nunca eram apenas decoração.
Havia algo neles que me inquietava: o olhar voltado para o menino na
manjedoura, a postura que sugeria saber mais do que qualquer adulto ao meu
redor. Eram estrangeiros que conheciam a magia das estrelas, ou pelo menos algo
tão próximo disso que ninguém ousaria chamar de superstição.
Eu passava horas planejando
o desenho da estrebaria, a posição das pedras, o formato da gruta, ajustando
cada detalhe para que todas as peças se encaixassem com harmonia e sentido.
Cada ano era uma pequena arquitetura sagrada, e cada alteração da paisagem
exigia cuidado para acomodar aquelas imagens que traziam consigo histórias,
símbolos e mistérios.
Até o dia em que, segurando
um camelo que acompanhava um dos magos, percebi algo que me pareceu um ultraje:
eles não usavam coroas – era mais um tipo de turbante, com algo pintado de
dourado, não uma daquelas coroas pontudas que as crianças costumam associar.
“Como ousam?”, pensei, indignado. Era uma provocação silenciosa ao mundo que eu
achava conhecer.
Ainda não havia internet,
mas eu já me sentia um pequeno investigador, e não hesitei: larguei tudo e
corri até a melhor papelaria da cidade, carregando a esperança quase absurda de
encontrar, entre cartões de Natal, algum vestígio das coroas desaparecidas.
Folheei pilhas de papéis brilhantes, observei ilustrações minuciosas, cores que
saltavam aos olhos, e me deparei com a confusão: alguns cartões mostravam os
magos coroados com solenidade; outros, completamente sem ornamento, como se a
tradição tivesse vacilado, indecisa, incapaz de fixar seu próprio gesto. A cada
página, o mistério se multiplicava, e eu percebia que, mesmo em miniatura e em
cores vivas, a história dos magos continuava a escapar da ordem que o mundo
insistia em me dar.
Tentei acalmar meu coração,
larguei os cartões e voltei para casa ainda indignado. Reorganizei o presépio,
terminei cada detalhe, e esperei que a noite caísse para ir à biblioteca
pública. Foi ali, entre livros, enciclopédias e manuscritos, que a verdade
começou a se desenhar. A observação do texto, dos registros históricos e das
imagens antigas me deixou claro que, de fato, eles não precisavam de coroas.
Aquela indignação inicial transformou-se em fascínio: não se tratava de erro,
mas de escolha simbólica, de liberdade que a tradição posterior se esforçou em
controlar, e que, ali, diante de mim, continuava a desafiar o que eu achava que
sabia sobre os magos e seu lugar no Natal.
ELES NUNCA USARAM COROAS
O texto não os chama de
reis. Em nenhum momento. Não há tronos, não há palácios, não há exércitos
acompanhando a cena. O Evangelho segundo Mateus, único a mencioná-los, usa um
termo grego específico e carregado de significado: “μάγοι” (magoi). Magos. A palavra
aparece sem justificativa, sem ressalva, sem pedido de desculpas. Não há
tentativa de suavizar seu peso cultural. Eles são apresentados assim, de forma
direta, quase desconcertante.
Isso muda tudo.
Porque magoi não designa
governantes, mas especialistas de outro tipo de poder. Não o poder da espada,
do imposto ou da herança dinástica, mas o poder da interpretação. Eram homens
ligados a tradições intelectuais antigas, sobretudo da Pérsia e da Babilônia,
associados ao estudo dos astros, à leitura dos ciclos do tempo, à observação
meticulosa do céu como linguagem. A Bíblia, nesse ponto, não se explica. Apenas
registra: foram magos que viram, magos que caminharam, magos que chegaram.
A ausência de reis é
gritante justamente porque, séculos depois, ela foi completamente preenchida. A
tradição cristã, aos poucos, os transformou no que o texto nunca afirmou que
fossem. Coroou-os. Deu-lhes tronos imaginários. Revestiu-os de autoridade política.
Talvez porque reis sejam mais fáceis de administrar simbolicamente do que
magos. Reis pertencem à lógica conhecida do poder. Magos, não.
Ao torná-los reis, a
narrativa posterior suaviza o escândalo. Neutraliza a estranheza. Um rei
ajoelhado ainda é compreensível; um mago estrangeiro, leitor de estrelas,
reconhecendo algo que o poder local não percebeu, é muito mais difícil de
engolir. A coroa funciona quase como um anestésico simbólico. Dá
respeitabilidade ao que, no texto original, era radicalmente deslocado.
E, no entanto, Mateus não
recua. Ele mantém a palavra. Não troca magoi por nada mais palatável. Não
substitui o saber estranho por autoridade familiar. O resultado é uma narrativa
que começa citando magia, ciência antiga, conhecimento estrangeiro — e faz isso
sem constrangimento algum. Como se dissesse, em silêncio, que a verdade nem
sempre nasce dentro das fronteiras corretas.
Talvez por isso essa
história tenha sido tão cuidadosamente adornada ao longo do tempo. Porque o que
ela diz, em sua forma mais simples, continua sendo perigoso: às vezes, quem vê
primeiro não é quem manda. E às vezes, o céu fala antes que o palácio perceba.
MAGIA COMO CONHECIMENTO,
NÃO TRUQUE
Ora, ora… quem diria que um
dos textos fundadores do cristianismo começaria citando especialistas em magia
sem nem pedir desculpas. Aqui é preciso ajustar o vocabulário antes que alguém
imagine capas estreladas e varinhas: a magia daquele mundo não era truque
barato nem superstição de esquina. Era conhecimento sério. Astronomia antes do
telescópio, medicina antes do laboratório, filosofia antes da Universidade.
Os magos pertenciam a uma
elite intelectual e religiosa, especialmente na Pérsia e na Babilônia.
Registravam o movimento dos astros por gerações, cruzavam dados, calculavam
ciclos. O céu, para eles, funcionava como um imenso arquivo histórico do
futuro, cada conjunção, cada alinhamento planetário, cada estrela fugaz um
sinal.
O termo “oculto” engana quem
lê apressadamente: não significava proibido ou demoníaco. Significava apenas
aquilo que ainda não estava completamente explicado. Coisa perigosíssima,
aliás. Nada assusta mais uma autoridade do que alguém dizendo: “ainda não sabemos”.
Enquanto isso, os reis eram
outra categoria. Reis dominam corpos: impõem tributos, comandam exércitos,
mantêm ordens e fronteiras. Sua força é visível, tangível, imediata. Os magos,
por outro lado, governam símbolos, interpretam épocas, percebem ciclos invisíveis
que estruturam o tempo e a história. Eles não mandam em povos, não carregam a
espada, não constroem impérios. Seu poder é delicado, sutil, mas radicalmente
inquietante: revela que o mundo pode ser compreendido de outra maneira, que
sinais no céu podem anunciar mudanças que nenhum palácio poderia impedir.
Talvez por isso, séculos
depois, alguém tenha decidido transformá-los em reis. Coroar magos é uma forma
elegante de neutralizar seu poder. É domesticá-los, torná-los previsíveis,
encaixá-los na lógica do controle humano. A potência subversiva do saber — a
capacidade de ler o invisível, de perceber o inesperado, de questionar o
aparente — desaparece quando se lhes dá coroas e tronos. O que antes era
inquietante, estrangeiro, impossível de ordenar, torna-se ornamentado,
decorativo, aceitável.
Algo mudou no céu, e ninguém
poderia precisar exatamente o quê. Talvez uma conjunção rara de planetas, uma
estrela deslocando-se com um brilho diferente, ou um fenômeno tão sutil que só
os olhos atentos perceberiam. Não é o cálculo que importa, nem a precisão da
astronomia antiga — importa que alguém olhou para cima e sentiu que o mundo
havia mudado. Para os magos, cada movimento do céu era como um texto antigo
gravado em luz e sombra, um código que se revelava apenas a quem sabia
interpretar. O detalhe técnico se perdeu com os séculos, mas o impacto
permanece: a percepção de que algo decisivo acontecia, algo que não poderia ser
ignorado.
Eles, os magos, estrangeiros
de terras distantes, sem Lei, sem Templo, sem títulos formais, não hesitaram.
Caminharam por desertos, atravessaram fronteiras e culturas, guiados por uma
luz que falava em símbolos, não em palavras humanas. Saíram do conforto de suas
tradições, movidos apenas pelo que sentiram no céu, pela convicção silenciosa
de que era tempo de agir. E enquanto eles se levantavam, os especialistas
locais, mestres das escrituras, guardiões da Lei e conhecedores das profecias,
permaneceram imóveis. Sabiam exatamente onde o Messias deveria nascer, qual
cidade o acolheria, qual linhagem ele seguiria. Sabiam tudo e, ainda assim, não
moveram um passo. A erudição e a certeza se mostraram insuficientes diante da
novidade: o saber não garante movimento, e a profecia, por si só, não produz
coragem.
A estrela que guiou os magos
não se limitava a ser um fenômeno físico. Ela era linguagem universal,
atravessando culturas, tradições e fronteiras. Não exigia catequese, linhagem
ou território; exigia apenas olhos atentos, disposição para se inquietar e coragem
para se mover. Ela falava em sinais, e os magos, com suas mãos calejadas de
estudo, interpretação e observação, decifraram o que ninguém mais ousava olhar.
Essa linguagem, silenciosa e simultaneamente radical, transformava o céu em
mapa de possibilidades e o mundo em território aberto à ação daqueles que ousam
perceber o invisível.
E é nesse ponto que a
história se revela como provocação pura, teológica e humana. Os estrangeiros,
sem autoridade formal, tornaram-se atores principais de uma narrativa que o
poder estabelecido não queria enxergar. Os especialistas, cheios de textos, regras
e certezas, ficaram presos ao conforto da sabedoria consolidada. A diferença
entre caminhar e permanecer parado não está no conhecimento acumulado, mas na
coragem de permitir-se perceber, de deixar-se guiar pelo que desafia o
consenso. O gesto dos magos — atravessar distâncias, questionar limites,
interpretar sinais — é, acima de tudo, um convite à atenção, à curiosidade e à
ousadia de olhar para além do que nos dizem que é seguro ou certo.
Neste movimento, céu e terra
se encontram, fenômeno e símbolo se fundem, e a magia dos magos se revela:
ciência antiga, interpretação de ciclos, saber profundo que incomoda o poder,
que não se doma com tronos ou coroas, e que, mesmo séculos depois, continua a
ensinar que a verdade raramente pede licença, mas exige olhos que saibam
enxergar e pés que não tenham medo de caminhar.
E TROUXERAM PRESENTES QUE
FALAM MAIS QUE PALAVRAS
E então vieram os presentes.
Não brinquedos, não panos coloridos, não coisas que uma criança pudesse abraçar
com os dedos pequenos e amolecidos pelo sono. Vieram ouro, incenso e mirra —
três dádivas que, à primeira vista, dariam nó na razão de qualquer um que
quisesse entender aquela cena apenas pelo valor de mercado. Eram objetos cujo
custo ultrapassava tudo o que uma família pobre em uma gruta poderia desejar.
Mas, para os magos, esses presentes falavam em uma linguagem que as palavras
comuns jamais alcançariam.
ouro, metal que brilha
como se guardasse em si a própria luz do céu, não era apenas um símbolo de
riqueza material; era uma declaração de realeza. Trazê-lo a um recém-nascido
era declarar, sem hesitar, aquilo que a carne e o pano não podiam ainda expressar:
reconheciam nele um rei. Naquele ouro pesado repousava uma honra que desafiava
as circunstâncias humildes daquele berço de palha. Ouro fala de tronos e de
autoridade, mas ali, sobre os joelhos calejados de viajantes do Oriente, ele
dizia que aquela criança era digna de um poder que nenhum trono humano poderia
conter.
O incenso simplesmente
emanava perfume, como se os perfumes do mundo inteiro tivessem sido coletados
para subir ao céu em fumaça branca. Na antiguidade, o incenso — líbanos, em
grego — estava associado ao sagrado, ao altar, ao perfume das orações que sobem
como preces ao invisível. Era utilizado nos templos, nos altares, na presença
do divino. Ao oferecer incenso, os magos não ofereciam um adorno olfativo, mas
reconheciam a divindade naquele recém-nascido, marcando-o com aquilo que era
consagrado ao Além — o perfume que toca o divino antes das palavras serem
pronunciadas.
E então veio a mirra, resina
amarga, densa, cujas fragrâncias não celebram a festa, mas sussurram sobre o
fim inevitável. Na antiguidade, a mirra tinha usos medicinais e também era
empregada na preparação dos corpos diante da morte. Oferecê-la a um bebê seria,
a olhos desavisados, absurdo: era como presentear uma criança com o sinal de um
destino que ainda estava por se revelar. Mas os magos, que sabiam ler símbolos,
a traziam como prenúncio da humanidade daquele menino e da sua entrega ao
mistério que atravessaria a vida e a morte. Não era apenas um símbolo de morte
física — era a própria antecipação do destino humano que aquela criança
abraçaria.
Se ouro falava de realeza,
se incenso elevava ao divino, se mirra lembrava da frágil carne humana — então,
ali, aos pés do menino em Belém, estava descrita a totalidade de um mistério
que só o coração ousado poderia suportar. Aquele não era um presente de boas
intenções; era uma oferta que dizia o que as palavras não conseguem dizer: que
ali coexistiam realeza, divindade e destino — luz, sopro e sombra — tudo
entrelaçado no mesmo nó de vida.
E essa simbologia profunda
continuou a ecoar ao longo dos séculos. A própria tradição cristã recorda que
os magos, no presépio, representam a manifestação de Jesus a todas as nações e
povos — desde os mais simples, como pastores, até os mais estudiosos, como os
magos que vêm de longe para reconhecer o extraordinário em um bebê de mãos
pequenas.
Com o tempo, essa narrativa
tão rica deu origem a relíquias e tradições que circulam por séculos: corpos
dos magos venerados na Catedral de Colônia, objetos associados às oferendas
conservados ou imaginados em igrejas e crônicas medievais. Essas relíquias,
verdadeiras ou não, falavam de amor, poder, memória e política; circulavam
entre peregrinos, donas de fé, senhores e camponeses, lembrando que o sagrado
não é estático, mas vivo, circulante, capaz de unir devoção, economia e memória
cultural em um só gesto.
No fundo, os presentes dos
magos nos convidam a olhar além do valor material e a ouvir aquilo que só o
silêncio dos símbolos pode revelar: que a verdadeira dádiva é reconhecer, em um
mundo tão cheio de certezas, aquilo que ainda não pode ser dito com palavras,
mas apenas percebido com o coração atento e a coragem de quem se dispõe a
compreender a profundidade de um gesto que atravessou milênios.
A história dos magos não
termina onde encontraram o menino. Ela continua, séculos depois, em pedra,
metal e ossos — em formas que carregam fé, poder, memória e até estratégia
humana. Uma das mais majestosas manifestações desse legado é o Relicário dos Três
Reis Magos na Catedral de Colônia, na Alemanha — um santuário amplo, dourado,
erguido com a ambição de abrigar aquilo que muitos acreditam ser os restos
mortais de Gaspar, Melchior e Balthazar.
As relíquias teriam tido um
percurso que atravessa impérios e milênios. Segundo tradições antigas, Santa
Helena, mãe do imperador Constantino, teria encontrado os restos dos magos em
terras orientais no século IV e levando-os a Constantinopla. Dali foram
transportados para Milão pelo bispo Eustorgius, e, mais tarde, no século XII, o
arcebispo de Colônia, Rainald von Dassel, os trouxe para o norte da Europa, em
um gesto que misturava devoção, política e prestígio emergente para sua cidade.
Detalhe do relicário dos Três Reis Magos, catedral de Colônia, Alemanha.
O relicário que hoje domina
o altar-mor da Catedral — um enorme sarcófago triplo de ouro e prata, decorado
com cenas bíblicas, figuras e símbolos — é considerado o maior relicário do
Ocidente medieval. Sua construção, obra-prima da ourivesaria entre os anos de
1180 e 1225, não foi apenas religiosa, mas também política: erguido para honrar
e defender aquilo que se acreditava ser santo, ele se tornou um símbolo
coletivamente reverenciado e um ímã para peregrinações de todo o continente.
E aqui está o cerne daquilo
que significa sagrado circulante. Esses ossos, reais ou não, não permanecem no
silêncio de uma tumba escondida. Eles foram expostos, venerados, carregados por
líderes e reis, oferecidos como presente simbólico à própria Catedral que hoje
ostenta suas supostas relíquias. Peregrinos de todos os cantos afluíam para
tocar ou simplesmente contemplar o relicário, acreditando que esse contato
poderia trazer cura, proteção ou graça — uma dimensão muito além de mero
curiosidade histórica. Em certos dias, os crentes seguravam pequenos papéis ou
tecidos que, puxados contra o relicário, adquiririam — na crença popular — uma
santidade de “relíquia de contato”, objetos que também circulavam como
portadores de bênçãos.
O significado dessas
relíquias vai muito além da questão de sua autenticidade — um debate que
permanece aberto, muitas vezes impossível de resolver de maneira definitiva. O
que não se pode ignorar é o valor simbólico e cultural que elas acumulam:
tornam-se loci de memória, pontos onde o humano toca o divino, espaços em que a
fé se cristaliza em pedras, metais e ossos. Moldam cidades, inspiram obras de
arte, motivam peregrinações, sustentam economias inteiras e alimentam tradições
que atravessam séculos.
Para muitos medievalistas, a
chegada das relíquias a Colônia transformou a cidade por completo. Elas não
apenas reforçaram sua importância no mapa cristão da Europa, mas também
influenciaram ritos, festas e até o brasão da cidade — que ostenta três coroas,
lembrança silenciosa da presença que ali se acreditava habitar. Cada detalhe,
cada símbolo, carregava a memória de um gesto antigo, de um poder que se
recusava a permanecer invisível.
E assim, a economia do
sagrado se revela em suas várias faces: não apenas como devoção sincera, mas
como construção de identidade social, espaço político de afirmação de poder e
centro de circulações de fé que não podem ser reduzidas a simples “objetos de
culto”. Esses relicários lembram que o sagrado circula, transita e se
transforma, e que aquilo que começa como gesto de adoração (os presentes que
falavam mais que palavras) pode, ao longo de séculos, tornar-se símbolo,
mercado de devoção e espelho das ambições humanas — espirituais e terrenas.
Mas, também é preciso falar...
DO REI QUE NÃO VIU A ESTRELA
O encontro entre os magos e
Herodes não foi feito de luzes suaves nem de sorrisos serenos; foi um encontro
de mundos que não se reconheciam. Herodes, o rei oficialmente no trono, não
olhou para cima. Não ouviu nada no céu. Não sentiu a palavra branda de uma
estrela estrangeira que anunciava um nascimento. Ele apenas viu uma ameaça. E
sabe-se hoje — e isso atravessa os séculos como um sussurro incômodo — que a
estrutura de poder raramente reconhece novidade como boa notícia. O poder se
fortalece com certeza, com controle, com segurança de que nada vai sair da
ordem prevista.
No texto sagrado, quando os
magos finalmente chegam diante de Herodes em Jerusalém, ele não se alegra. Não
se surpreende. E, diante daqueles homens que vieram de longe guiados por sinais
celestes, ele sente medo. Medo de perder seu lugar, medo de que sua autoridade
seja questionada, medo de que uma criança — uma simples criança, sem espada nem
exército — seja mais potente do que seus exércitos.
O evangelho registra que
ele, inquieto, chama os escribas e mestres da lei, interroga-os sobre a
profecia: “Onde está o recém-nascido rei dos judeus?” Herodes queria
localização precisa, domínio completo sobre informação, sobre território, sobre
destino. Sua reação não é humana diante de um milagre; é burocrática. O poder
sempre quer mapeamento antes de encanto, ordem antes de mistério.
Ao saber onde, ele decide
agir não com paciência nem com esperança, mas com violência calculada. Ordena
que todas as crianças em Belém e arredores com menos de dois anos sejam mortas.
Essa ordem cruel — conhecida como a “matança dos inocentes” — não se circunscreve
apenas a um ato isolado de brutalidade. É expressão de um padrão histórico: o
poder que se sente desafiado pela mudança tenta suprimir a mudança pela força.
Não vê possibilidade além de ameaça. Se a novidade não pode ser controlada,
deve ser erradicada. Para Herodes, aquele nascimento era uma usurpação
silenciosa de sua soberania. Sua resposta foi propor morte, porque o poder
absoluto reconhece apenas uma linguagem: a da eliminação de tudo que possa
desorganizar sua narrativa de controle.
E no meio desse confronto,
enquanto Herodes trama no palácio suas ordens terríveis, os magos — que não
pertenciam a redes de autoridade instituída, nem carregavam a expectativa de um
trono — reagem de maneira profundamente distinta. Avisados em sonho para não
retornarem à presença de Herodes, eles não obedecem às coercitivas ordens do
poder, mas escolhem um outro caminho — não de violência, não de imposição, mas
de fuga cuidadosa. Eles viram, silenciosamente, que a vida ali era mais valiosa
que qualquer decreto real. Haviam obedecido aos sinais do céu; agora obedeciam
ao chamado interior para proteger o sinal que haviam encontrado. Esse gesto,
aparentemente pequeno, reverbera como resistência simbólica: não se curva
diante da violência estatal, mas protege o que foi percebido como verdade mesmo
quando toda ordem poderosa diz o contrário.
A narrativa, então, tece um
contraste que atravessa a história: de um lado, o poder oficial que não
reconhece a novidade como bem, que não recebe boa notícia, que não se comove
nem se desloca para encontrar aquilo que desafia suas certezas; de outro, os estrangeiros,
sem status, sem proteção legal, movidos apenas por fé e percepção, que escolhem
a vida diante da morte decretada. É um lembrete cruel e luminoso ao mesmo
tempo: o saber, sozinho, não produz movimento — mas o olhar atento, a coragem
de se levantar e caminhar, mesmo diante da hostilidade de um poder armado, é o
que torna possível a preservação do que verdadeiramente importa.
Herodes nunca falha — em sua
lógica. Ele sempre vê ameaça onde deveria haver esperança. Sempre responde com
violência ao inesperado. Sempre prefere a ordem rígida à transformação suave,
ainda que profunda. Essa condição não é apenas de um rei antigo. Ela ecoa em
estruturas de poder atemporais que veem em toda novidade um risco existencial.
E é nesse choque entre o poder que mata e a coragem que preserva que a história
dos magos — esses estrangeiros guiados por estrela — encontra sua força mais
inquietante: a vida que surge não pode ser comprada pela espada nem soterrada
pela lei; ela só pode ser reconhecida por aqueles que ousam olhar para além do
próprio trono e seguir um sinal que vem do alto, silencioso, insistente.
Ao longo dos séculos,
pesquisadores e estudiosos têm se debruçado sobre a história dos magos não
apenas como personagem mitológico, mas como figura cultural que carrega
significados profundos e estratificados. O próprio termo magoi, citado no
Evangelho de Mateus, remete a um grupo social real conhecido na Antiguidade:
oriundos de tradições persas, em certa época designavam uma casta de sacerdotes
ligados ao zoroastrismo e à interpretação celeste, mencionados por autores como
Heródoto e outros cronistas antigos. Esses homens eram respeitados por sua
capacidade de interpretar o céu e traduzir sua linguagem em eventos terrestres,
uma prática que, segundo estudiosos, se situava entre o religioso e o
científico daquela época — algo semelhante ao que hoje entenderíamos como
astrólogos e filósofos naturais.
No entanto, os pesquisadores
também nos lembram que precisamos separar o que as fontes históricas realmente
afirmam da tradição que se consolidou depois. O Evangelho de Mateus relata
magos do Oriente que seguem uma estrela, chegando a Jerusalém e depois a Belém,
mas não menciona números, nomes nem coroas, detalhes esses que a tradição
posterior acrescentou ao longo de séculos de interpretação cultural e
artística. A imagem padronizada de três magos chamados Gaspar, Melchior e
Baltasar só começa a surgir nos séculos posteriores, fixada na iconografia
cristã por meio de mosaicos, crônicas e tradições, e não no texto original.
Nas tradições medievais,
essa narrativa foi expandida com riqueza de detalhes que os estudiosos
reconhecem como adições interpretativas e simbólicas, não como testemunhos
históricos verificáveis. Por exemplo, um texto apócrifo chamado Evangelho
Armênio da Infância descreve os magos como três irmãos governantes de
diferentes regiões — o rei da Pérsia, o da Índia e o dos árabes — mas esse
relato aparece apenas em tradições posteriores, refletindo uma tentativa de dar
contexto cultural à narrativa original, sem base nos manuscritos mais antigos.
Quanto à famosa Estrela de
Belém que guiou os magos, o debate continua tão vivo quanto há séculos.
Astrônomos, historiadores e teólogos modernos propuseram explicações variadas —
conjunções planetárias, nascimentos estelares, cometas —, mas nenhuma hipótese
se sustenta com absoluta certeza. Alguns acreditam que uma configuração rara no
céu teria chamado a atenção de observadores treinados do Oriente; outros,
porém, lembram que a estrela, mais do que objeto físico, funciona como símbolo
teológico e narrativo: um sinal de que o extraordinário sempre anuncia algo
além da compreensão comum, um ponto de encontro entre o humano e o mistério,
uma luz que guia sem precisar ser mensurada.
E, finalmente, em termos de historicidade, acadêmicos críticos reconhecem que não há evidências arqueológicas ou registros contemporâneos que comprovem a jornada específica dos magos como indivíduos históricos documentados. A única fonte que os menciona é o Evangelho de Mateus, e isso leva muitos estudiosos a interpretar sua presença como parte de um dispositivo literário e teológico para expressar uma verdade mais profunda: a inclusão dos gentios, a manifestação universal do messias e o reconhecimento de sabedoria fora dos limites da Lei judaica tradicional.
NATAL: ANESTESIA OU
ESPELHO
O Natal, quando olhado de
perto, deixa de ser apenas luzes e canções. Ele se revela, muitas vezes, como
um espelho que reflete nossas próprias resistências. Cresci cercado de
presépios coloridos, figuras de gesso, camelos, palácios improvisados no meu quarto,
e cada detalhe carregava a promessa de magia, de algo que não podia ser
explicado com exatidão. Mas, com o tempo, comecei a perceber algo inquietante:
todo esse aparato ritualístico, toda a repetição anual das histórias, muitas
vezes servia para acalmar perguntas maiores, para que o incômodo da realidade e
do desconhecido não nos alcançasse. O Natal podia anestesiar, suavizar o mundo,
mascarar os vazios, os conflitos, as injustiças. E foi nesse silêncio que
compreendi a importância dos magos: eles nunca se deixaram anestesiar. Eles
olharam para o céu, perceberam algo que não cabia nas categorias prontas do
poder, e se moveram. Não esperaram aprovação, não buscaram conforto.
A coragem dos magos era,
acima de tudo, atenção em ação. Eles se deslocaram porque a vida, quando
anunciada de forma extraordinária, exige movimento. Não é o conforto que guia,
mas o reconhecimento de que algo não fecha mais, que o mundo se alterou mesmo
que ninguém queira admitir. Em contraste, muitos rituais de Natal
contemporâneos repetem gestos, consolidam certezas e protegem da reflexão —
transformam histórias poderosas em cenas decorativas, em imagens seguras. E
aqui, o espelho se torna nítido: o que os magos fizeram era perigoso porque
desafiava a complacência, porque mostrava que fé verdadeira não é assentimento
cego, mas deslocamento do lugar conhecido, disposição para atravessar
fronteiras, física e simbólica.
Fé, então, é movimento, não
conforto. É levantar-se quando a lógica do mundo nos convida a permanecer
sentados. É atravessar desertos interiores, sem mapas precisos, guiado apenas
por sinais que ainda não podem ser explicados. É aceitar que o desconhecido
pode ser profundo, urgente e sublime. Os magos não tinham certezas, apenas
atenção, e essa atenção os tornou radicalmente humanos. Essa é a lição que
permanece viva, atravessando séculos: a fé que não se acomoda, que não busca a
proteção do conhecido, é perigosa e bela, porque nos obriga a olhar, a caminhar
e a reconhecer sinais que muitos preferem ignorar.
O Natal, enfim, pode
anestesiar ou espelhar — depende de quem se atreve a olhar. Para aqueles que
ousam, como os magos, a festa revela não apenas nascimento e celebração, mas a
urgência de prestar atenção, de se mover, de responder à novidade do mundo mesmo
diante do medo, da dúvida e da hostilidade do poder. E é nesse gesto,
silencioso e firme, que a história dos magos se mantém atual, inquietante e
profundamente humana.
QUANDO O DOCE ENCONTRA A
MEMÓRIA
Todo 6 de janeiro eu tento
fazer um bolo de Reis diferente, como se cada forno fosse um altar e cada aroma
fosse uma oferenda silenciosa. Este ano, a inspiração vem diretamente da
Itália, onde o 6 gennaio não celebra apenas a Befana (a bruxa benevolente italiana
tão popular no dia da Epifania; figura popular que traz doces e lembranças às
crianças justamente nessa época – quase uma alusão aos Reis Magos diante do
Menino Jesus — justamente o momento em que eles ofereceram ouro, incenso e
mirra como verniz de significado ao mundo.
Na Itália, embora não exista
um doce tão universal quanto o Roscón de Reyes espanhol, o Bolo Rei de Portugal
ou a Galette des Rois francesa, surgem sobremesas criadas exclusivamente para
marcar a Epifania, que carregam nos sabores e nas formas a lembrança da
presença dos Magi na história cristã. Uma delas é a Torta dei Re Magi, tradição
especialmente forte no norte do país, como na Ligúria. Essa ciambella decorata
— um anel de massa adornado com uvetta, granella di zucchero, mandorle e
canditi — evoca a coroa real e as pedras preciosas dos presentes oferecidos
pelos Reis, transformando cada fatia em gesto simbólico, memória comestível e
pequena celebração do extraordinário.
Essa torta, redonda e
generosa, não é apenas um doce: é memória em massa e açúcar, um alimento que
carrega camadas de sentido. A forma circular lembra a coroa dos Magos; os
ingredientes coloridos espalhados pela superfície — canditi que cintilam como
ouro, frutas secas que evocam a mirra, o perfume doce que lembra o incenso —
transformam cada fatia em narrativa, contada pelo paladar, pelo olhar e pelo
cheiro. É uma história que se come, uma liturgia silenciosa que atravessa
séculos.
E a magia não termina na
decoração. A preparação em si é ritual: em algumas versões antigas, como nas
tradições europeias, guarda-se dentro do bolo uma pequena surpresa, um objeto
simbólico. Quem o encontra na própria fatia é declarado, por um dia, re ou
regina, e participa de uma festa que une brincadeira e memória cultural. Uma
herança que ecoa os banquetes antigos, nos quais um simples fagiolo escondido
tornava alguém senhor por um instante; uma tradição de abundância, partilha e
celebração, que atravessa gerações e lembra que, mesmo nas coisas simples, o
extraordinário pode habitar.
A Epifania, na Itália, se
celebra assim: ao redor de mesas e assadeiras, com aromas que atravessam casas
e gerações. Pelo país, surgem outras especialidades que acompanham essa festa —
como a pinza veneta, no Vêneto, uma massa rica com figos secos e especiarias;
os befanini toscanos, biscoitinhos friáveis e aromáticos; ou a fugassa d’la
Befana, no Piemonte, outro pão doce ligado à festa.
Todos eles, em suas
diferenças regionais, falam da mesma coisa: marcar o fim de um ciclo festivo e
o início de outro, compartilhar doçura e memória em família, transformar a
narrativa dos Magi em gesto concreto de partilha.
O Pan dei Re, mais recente,
carrega essa mesma vibração: uma massa levedada que lembra a coroa, decorada
com frutas e especiarias, celebrando a passagem do Natal para a Epifania.
Ensina, mais uma vez, que a comida pode ser linguagem — onde o sabor é símbolo
e a forma, história.
E assim, enquanto misturo
farina, zucchero e spezie nos meus braços de cozinha, percebo que o bolo dos
Magi não é apenas receita. É testemunha de como os povos italianos, geração
após geração, transformaram uma história antiga em gesto concreto de festa,
esperança e presença. Cada mordida lembra que o sagrado — assim como os
presentes dos Magos — não cabe apenas nas páginas de textos antigos, mas também
nas mesas, nos olhares que se encontram à volta delas e nas histórias que
continuamos a contar: com açúcar, frutas, amor e memória.
EPÍLOGO – OLHAR PARA O CÉU, ATRAVESSAR
DESERTOS, PARTILHAR MEMÓRIAS
Ao final desta jornada,
percebo que os Três Reis Magos não são apenas personagens de presépios ou
histórias infantis, mas guardiões de sinais que desafiam certezas. Comecei pelo
texto bíblico: Mateus, de forma direta e quase subversiva, apresenta magos, não
reis, homens que dominam ciência oculta, leitura do céu e interpretação de
símbolos. Não há coroas, tronos ou poder político — apenas seres capazes de
olhar para cima e perceber que algo decisivo acontecera. É a magia como
conhecimento, não truque barato; a ciência oculta como reconhecimento de que
nem tudo se explica, e que a curiosidade pode desafiar o mundo que insiste em
fechar os olhos.
Eles caminharam,
atravessaram fronteiras e desertos, enquanto muitos especialistas locais
permaneceram imóveis, paralisados pela certeza das profecias. Esse contraste
atravessa séculos: saber sozinho não garante movimento. A estrela que eles
seguiram não é apenas um fenômeno físico, mas uma linguagem universal, um sinal
que atravessa culturas e nos lembra, delicadamente, que a atenção e a
disposição para olhar valem mais do que livros, templos ou leis.
Os presentes que carregaram
— ouro, incenso e mirra — não são objetos banais, mas símbolos excessivos para
um bebê: poder, sacralidade e morte, lembrando que aquela criança não caberia
em categorias confortáveis. Essa simbologia ressoa séculos depois, nos
relicários medievais de Colônia, onde a fé circulava junto à política e à
economia, mostrando que o sagrado nunca é apenas privado: ele é memória,
estratégia e partilha.
O encontro com Herodes me
lembra que o poder raramente celebra novidade: teme, reage, protege o status
quo. E os magos, mais uma vez, seguem firmes na coragem silenciosa de perceber
o mundo em transformação, de reconhecer sinais que outros preferem ignorar.
Quando penso no presente,
percebo que o Natal pode ser anestesia ou espelho. Ritual, memória, festa — ou
confronto com minhas próprias certezas e desconfortos. A fé, como os magos me
mostram, não é conforto imediato, mas movimento: é levantar da cadeira,
atravessar o conhecido, enxergar o que o mundo insiste em ocultar. É atenção
mais que certeza. É coragem de olhar para o céu e perceber, com o coração
inquieto, que algo significativo acaba de acontecer.
Mesmo nas minhas mesas de 6
de janeiro, com a Torta dei Re Magi ou outra produção culinária, sinto que
continuo a tocar essa história. Cada fatia, cada fruta cristalizada, cada aroma
de especiaria, é gesto simbólico e memória viva: ouro, mirra e incenso traduzidos
em sabor, cor e textura. O passado e o presente se encontram diante de mim,
lembrando que o sagrado não está apenas nos livros ou nas relíquias, mas na
experiência, na partilha e na atenção que oferecemos ao mundo.
Assim, os Magos — três ou
mais, reis ou simples viajantes que liam o céu — continuam a caminhar comigo.
Eles atravessam comigo os desertos da história, os labirintos do tempo, os
caminhos silenciosos do cotidiano. Ensinaram-me que fé, curiosidade e coragem
não são ideias abstratas, mas presentes que se carregam no peito: invisíveis,
intocados, mas pulsando com uma realidade intensa, capaz de mover montanhas e
atravessar eras.
Eles me lembram que olhar
para o céu, mesmo quando tudo ao redor insiste em permanecer cego, é um ato de
revolução. Que perceber sinais — pequenos, fugazes, quase imperceptíveis — é
cultivar uma espécie de eternidade dentro de si. Que atravessar o conhecido,
arriscar-se pelo desconhecido, é tocar o sagrado em sua forma mais pura: aquele
que não se explica, mas se sente, se respira e se reconhece em cada gesto de
atenção.
Cada passo dos Magos é
lembrança de que o extraordinário não precisa de palácios nem de ouro; ele se
revela na simplicidade de um gesto atento, no silêncio de uma vigília, na
história que escolhemos contar com alma. Cada estrela que eles seguem é convite:
para caminhar, para ousar, para perceber que o mundo é mais vasto, mais
profundo e mais belo do que os olhos cansados conseguem medir.
E assim eu sigo, com eles
sempre à frente, lembrando que a verdadeira epifania não é apenas observar, mas
ser atravessado pelo que nos transcende. Que cada gesto de amor, cada
curiosidade, cada ato de coragem, mesmo mínimo, é luz que atravessa os tempos e
toca outros corações. Que a história dos Magos continua viva, não nas páginas
antigas, mas em cada olhar desperto, em cada mesa compartilhada, em cada
memória que transformamos em gesto — ouro, mirra e incenso traduzidos em vida.
Porque o extraordinário não
precisa de palco. Ele acontece quando estamos atentos. Ele acontece quando
escolhemos caminhar, sempre, guiados por estrelas invisíveis, pela coragem de
acreditar que o mundo pode ser mais vasto, mais misterioso, mais sagrado do que
qualquer certeza.
E é nessa dança silenciosa
entre história, coragem e atenção que eu encontro a eternidade: nos Magos, nas
estrelas, em mim mesmo, e em tudo aquilo que escolho ver, sentir e guardar com
alma.
TORTA DEI RE MAGI
350 g de farinha de trigo
100 g de açúcar
150 ml de leite morno
1 ovo inteiro
50 g de manteiga em temperatura ambiente
Raspas de 1 laranja e 1 limão
Frutas cristalizadas e frutas secas para
decorar
Amêndoas laminadas e/ou perolas de
açúcar para decorar (opcional)
1 colher de chá de fermento biológico
seco
1 pitada de sal
Modo de preparo: Dissolva o fermento no leite morno com
um pouco de açúcar e deixe ativar por cerca de 15 min. Em uma tigela grande,
misture a farinha, o açúcar, as raspas de cítricos e a pitada de sal. Adicione
o ovo e o leite com fermento e comece a misturar até formar uma massa. Junte a
manteiga aos poucos, sovando até que a massa esteja lisa e elástica. Cubra e
deixe descansar em local morno por cerca de 2–3 horas, até dobrar de tamanho.
Modele em forma de anel (como uma coroa) e coloque em uma forma de bolo com furo
no meio se quiser que ele fique mais alto – ou, se não, pode modelar bolas
menores de massa e formar uma espécie de flor com uma bola maior no centro e
outra menores em volta. Decore com frutas cristalizadas, frutas secas e raspas,
simbolizando as pedras preciosas da coroa. Incluas as amêndoas laminadas e as
pérolas de açúcar. Asse em forno pré-aquecido a 180 °C por cerca de 35–45
minutos, até dourar. Retire do forno e deixe esfriar numa gradinha.
Dica: para melhorar ainda mais, você pode partir, de frio, na horizontal e rechear com o creme de sua preferência (chantilly, creme de confeiteiro, de chocolate, creme de café, creme diplomada.... etc).





























