domingo, 6 de fevereiro de 2022

Daiquiri: uma breve história do icônico coquetel cubano

 

Sei você tem vaga noção de coquetelaria ou gosta de umas bebericagens, você já ouviu falar do Daiquiri, um clássico coquetel cubano. Por outro lado, muito provavelmente, você tenha uma visão meio distorcida entre o que tem sido comercializado e uma receita original.

Se sua memória não for boa, usando o Google, você vai ver imagens de Daiquiris como uma bebida clara, de aspecto congelado, muitas vezes aromatizado com frutas decididamente não tropicais, como morangos.

Daí, você se depara livros de receitas de coquetéis cubanos vintage e antigos, como o Manual del Cantinero de 1915, de John B. Escalante (você poderá acessar AQUI), é ele vai te surpreender pois a receita traz sabores e licores inesperados - mas igualmente sem morangos.

Pra um livro que foi publicado logo após a época em que o daiquiri foi supostamente inventado, há que espere encontrar ingredientes como rum, suco de limão e açúcar. Afinal, isso é mais ou menos o que algumas pessoas hoje chamam de daiquiri tradicional ou clássico, basta ver as imagens no Google pra confirmar essa ideia. Em vez disso, a receita pede grenadine, o que não é tão incomum e, o mais interessante, pedia Curaçao.

Alguns tipos de Curaçau

Com isso já percebi as variações do daiquiri desde a primeira metade do século XX em livros de coquetéis cubanos. As receitas variavam tanto, porém os únicos ingredientes constantes eram justamente rum, suco de limão e açúcar. Entretanto, receitas de daiquiri com apenas esses ingredientes são minoria.

Por exemplo, o livreto de 1948 intitulado Ron Daiquiri Coctelera, impresso pela empresa Ron Daiquiri, tem quatro receitas diferentes de daiquiri. O primeiro pede rum, suco de limão e açúcar (ainda não é xarope simples) ou grenadine como adoçante.

As três outras receitas pedem ingredientes como Curaçao, suco de laranja, suco de toranja e Maraschino, além de rum, suco de limão e açúcar(1). Este livreto está em inglês e ainda diferencia entre limão e lima. Outros livros não.

Três das receitas pedem que as misturas sejam agitadas com gelo e coadas. O outro, o daiquiri “Florida Style”, em homenagem ao bar La Florida, manda bater em uma coqueteleira elétrica com gelo picado.

Muitas das mesmas variações estão presentes em um livro anterior de 1939 e outro publicado pelo bar La Florida em 1934. Esses livros incluem várias receitas de daiquiri, duas das quais pedem a mistura em um shaker elétrico, ou “eletricamente”, com gelo finamente raspado ou picado.(2).

Ambos são chamados de “estilo Flórida”, o que significa que esse estilo de daiquiri misturado ou batido com gelo picado era o estilo particular do bar La Florida.

Parece então que, do início a meados da década de 1930, o daiquiri havia assumido sua forma congelada pelo menos parte do tempo. Mas apenas algumas vezes; parece ainda ter sido principalmente um coquetel agitado e coado até a década de 1950, pelo menos.

O Manual de Cocteleria de 1959 tem duas receitas de daiquiri. Uma delas é o Banana Daiquiri, que pede suco de limão, rum e banana (sem açúcar!). O outro pede rum, açúcar, suco de limão e Maraschino (3).

Todos esses ingredientes provavelmente foram adicionados e experimentados com o passar do tempo, com o daiquiri original, que é o primeiro já feito, sendo apenas rum, açúcar e suco de limão.

Uma história em outro livro de 1948, contada por alguém que afirma ter estado presente quando foi inventada, diz que a bebida nasceu por necessidade e escassez. (4)

A história conta que um mineiro chamado Cox na parte oriental de Cuba, em El Cobre mais especificamente, foi convidado a fazer uma bebida para um visitante (o homem que conta a história). Mas o refeitório não tinha vermute. Tudo o que eles tinham era rum, açúcar e suco de limão. Então Cox juntou esses ingredientes, sacudiu com gelo até ficar bem frio, coou e serviu ao convidado. E assim nasceu o Daiquiri (4).

Histórias de origem são sempre difíceis de provar, mas essa é mais ou menos a origem geralmente aceita da icônica bebida cubana. As variações que surgiram ao longo dos anos são exemplos de como as receitas muitas vezes ganham vida própria. Eles evoluem. É por isso que é tão difícil dizer quando ou se algo é ou não “autêntico” ou “tradicional”. Na verdade, eu diria que muito pouco do que consideramos autêntico no reino da comida e bebida realmente é.

O daiquiri, como várias outras bebidas do Caribe, foi alterado. Foi diluído e alterado quase irreconhecível para atender a um público diferente. Mas vale a pena notar que em nenhum momento de sua existência, exceto talvez naquela primeira vez nas minas de El Cobre, houve um acordo sobre uma única receita que é a receita do daiquiri.

A receita abaixo foi publicada em 1915, e retirada de El Manual del Cantinero.5

Daiquiri Cocktail

Ingredientes

suco de um limão

1 colher de sopa de açúcar 

1 colher de sopa de xarope de granadina

1 colher de sopa de Curaçao

50 ml rum light (Bacardí)

Preparo: Coloque vários cubos de gelo em uma coqueteleira. Adicione todos os ingredientes e agite até ficar bem gelado. Coe em uma taça de coquetel ou champanhe e sirva.

Há muito o que explicar nesta receita, da história de Curaçao à história de Grenadine, ao Rum Bacardi e às limas vs. limões!

Mas a granadina de fora por enquanto, mas quero falar brevemente sobre os outros.

Bacardí, embora não seja mais fabricado em Cuba desde logo após a revolução de 1959, ainda é fabricado e disponível.

O Curaçao é um pouco complicado. O Curaçao que muitos conhecem é podem ter em casa é aquele do tipo azul, que é mais ou menos o mais disponível, e mais comercial. Porém, em seu estado natural, Curaçao é claro; a cor é adicionada para a estética. O azul combinado com o grenadine, dá a essa mistura em particular um lindo tom roxo-avermelhado, não tenho certeza de quando o Curaçao ficou azul.

Pelo que pude encontrar, provavelmente não aconteceu até que esta receita fosse publicada. Mas como a cor não dá sabor, imagino que não importaria se não estivesse claro.

E, finalmente, uma nota sobre limas. Quando os cubanos, e de fato a maioria dos latino-americanos, dizem “limón”, que é limão em inglês, eles se referem ao cítrico verde que os americanos chamam de limes (limão Taiti). O limão americano, o amarelo (siciliano), mais escasso na América Latina e raramente solicitado nas receitas.

Há uma história complicada por trás disso. É centrado em quais tipos de cítricos cresceram melhor do que outros nas Américas. No final, foi o tipo verde que assumiu. Então, quando uma pessoa latino-americana diz limón, ela quer dizer o tipo verde (limão taiti). Isso causa todo tipo de confusão quando dizemos que limão significa limão americano(siciliano).

Referência

1. Ron Daiquiri Coctelera: Cocktail Book, Compañia Ron Daiquiri S.A., Habana, Cuba, 1948, 6.

2. Cuna Del Daiquiri Cocktail: La Habana, Cuba (La Habana: Talleres de Artes Graficas, 1939), 25-26. Bar La Florida Cocktails, Habana, Cuba, 1934.

3. Manual de Cocteleria (La Habana: Editorial Excelsior, 1959), recipes 8 and 35.

4. Hilario Alonzo Sanchez, El Arte del Cantinero: Los Vinos y Licores (La Habana: Imprenta Fernandez y Cia, 1948), 264-275.

5. John B. Escalante, Manual del Cantinero (Habana: Imprenta Moderna, 1915), 13. 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

La Chandeleur e a Festa dos crepes na França

 

Hoje é 02 de fevereiro, e aqui no Brasil a data comemora no candomblé o Dia de Iemanjá (Salve Odoyá); enquanto os católicos celebram o Dia de Nossa Senhora da Candelária, a Senhora dos Navegantes; festividades que também envolvem comidas de celebração como o mugunzá branco (canjica branca) adoçado com mel (para Iemanjá) e o pirão de peixe (para a Candelária). Mas você sabia que, na França essa data é chamada de "Fête de la Chandeleur" (Festa da Candeláriia, em francês), uma celebração que relembra a Apresentação de Jesus no Templo? Pois é, mas que na França é também um dia em que se faz festa para comer crepes e galettes (esse é o nome que se dá para os crepes salgados) por todo o país. Agora, você deve estar se perguntado o que tem a ver a religião com os crepes?

Antes que apareça alguém reclamando por eu estar usando “O Crepe’ ao invés de “A Crepe”, eu devo salientar que essa confusão ocorre pelo fato da palavra crepe vem do francês, onde o termo é substantivo feminino. Contudo, no português, o substantivo é masculino. Logo, a maneira correra aqui no Brasil é “O Crepe” – por isso está assim. Dito isso, volto ao que interessa.


Nossa Senhora da Candelária
Iemanjá

A Apresentação de Jesus no Templo é um dia religioso comemorado em vários países. Então, a Festa da Candelária na França, onde também é chamada de Fête des Chandelles (Festa das Velas), embora hoje ela esteja ligada à religião católica, tem origens nas antigas religiões a muitos séculos.

Os Celtas, que também viveram em várias partes da França, tinham uma tradição de fazer uma procissão cheia de tochas para celebrar Brigit, deusa da fecundidade, que abençoava as sementes que seriam plantadas em breve. Os romanos retomaram esse costume e organizavam as Lupercales, que eram procissões com tochas em honra a Lupercus ou Pan, deus da fecundidade. Era uma forma de comemorar o final do inverno e a chegada de dias mais clementes e fecundos para a agricultura.


Lupercalia

Outra interpretação para a origem de La Chandeleur é que a festa seria dedicada à deusa Ceres (Deméter na Mitologia Grega), que representava a colheita e não fertilizava a terra durante três meses, ou seja, no inverno. Uma procissão com tochas era realizada, lembrando a procura da deusa por sua filha, Proserpina (ou Perséfone para os gregos), raptada por Plutão (Hades), o deus dos infernos. A luz das tochas na procissão simbolizava a vitória sobre as sombras da morte. Nos dois casos de origem pagã, a festa era realizada em torno de 15 de fevereiro.

Deusa Deméter

Foi em 472 que o papa Gelásio I decide “cristianizar” a comemoração, tornando-a símbolo da Apresentação de Jesus no Templo. Segundo a tradição hebraica, os bebês primogênitos do sexo masculino deveriam ser levados ao templo, quarenta dias após o nascimento, para serem apresentados a Deus. Quarenta dias após o Natal (nascimento de Jesus) cai em 2 de fevereiro.

De acordo com a Bíblia, um velho homem, Simeão, e a profetisa Ana reconheceram o menino como Deus, a luz de Israel. Por isso, Gelásio associa a antiga festa pagã das velas com a comemoração cristã. Nesse dia, é celebrada também a Purificação da Virgem Maria, outra tradição hebraica que diz que as mulheres deveriam ser purificadas 40 dias após o parto.

Mas, onde os crepes entram nessa história? Ocorre que, o papa Gelásio I apropriou-se a antiga festa pagã dos romanos. Então, no dia 2 de fevereiro, começaram a ser organizadas em Roma procissões, só que em vez de tochas eram velas bentas. No século VII, Festa do Candelarum se tornou tão popular, que antes mesmo da Aurora já havia fiéis chegando à cidade. Aí, para matar a fome dessa multidão, começaram a distribuir os crepes de trigo ‘candial’ (muito branco).

Essa tradição dos crepes com a Chandeleur (Apresentação de Jesus no Templo) continua na França. Na Idade Média, os camponeses iam à Missa pela manhã já com a velas para serem benzidas. Aí eles voltavam para casa, com a vela acesa, e percorriam todos os cômodos da residência, para levar luz e prosperidade ao lar. Durante essa procissão doméstica, a vela deveria ficar acesa. Se ela apagasse, era sinal de azar. Depois, ela era guardada em uma gaveta e só era retirada dali em situações dramáticas, como no caso da morte de alguém da família.


No mesmo dia, à noite, os crepes eram degustados. Pela sua forma redonda, a cor dourada e o fato de ser quente, o crepe lembrava o sol. O que combinava também com a festa religiosa, pois, para os cristãos, Cristo é a luz do Mundo. A tradição mandava que os crepes deveriam ser feitos com o trigo excedente do ano anterior, para trazer prosperidade na colheita do ano que começava. Também era uma forma de aproveitar o que sobrava do cereal.

E não para por aí! Os primeiros crepes deveriam ser feitos no fogo e jogados para o alto várias vezes com a mão direita, enquanto a mão esquerda deveria segurar uma moeda. Isso tudo para atrair a prosperidade. Depois, a moeda era enrolada no crepe, levada em procissão até o quarto para ser jogada em cima do armário, onde deveria ficar até o ano seguinte. Deixar a moeda cair, era azar para o ano todo.

Há historiadores que estabelecem a origem do crepe em 7000 a.C. Naquela época, era uma panqueca bem grossa, feita com uma pasta misturando água e vários cereais triturados. Uma pedra chata, muito quente, permitia o cozimento.

Na Bretanha, região francesa, foi no século XIII que surgiu o crepe. O trigo sarraceno, trazido de volta à França após as cruzadas na Ásia, possibilitou fazer essa fina camada de massa, de forma redonda. Este é o início da tradicional galette bretã! Pois, lá, os crepes salgados são sempre preparados com farinha de trigo sarraceno, também chamada de “farine de blé noir’, a vantagem desta farinha é que não contém glúten.

A galette de trigo mourisco deve ser distinguida do crepe doce, para a qual são utilizados farinha de trigo, leite, ovos e manteiga. Mas em ambos os casos, a preparação ganha em gula com as suas guarnições de recheio – que podem ser os mais variados possíveis.

Graças ao seu percurso histórico, o crepe tem alma viajante e hoje pode ser encontrado em todo o mundo, com pequenas variações: desde a famosa panqueca americana, que é menor e mais grossa; o bonitinho blini do Leste Europeu, ou ainda na tortilla mexicana, preparada com farinha de milho. O crepe francês ainda é primo da piadine italiana ou do baghrir norte-africano, e até da bruaca cearense do nordeste brasileiro. Todos, umas delícias de se perder o rumo.

Hoje não é preciso fazermos tantos rituais. Mas, sem dúvida, crepes e galettes, são excelentes opções para se deliciar.

 

Crepes (Massa Tradicional)

Para a Galette (massa salgada de crepe):

1 xícara de leite

5 colheres (sopa) de manteiga derretida

1 ovo

1 xícara de farinha de trigo

uma pitada de sal

Para a massa doce de crepe:

Adicione 1 colher (sopa) de açúcar.

Preparo: Numa tigela grande, misture o leite, a manteiga e o ovo, batendo com um fouet ou garfo. Vá colocando a farinha de trigo pouco a pouco, misturando bem. Adicione a pitada de sal e/ou, para a versão doce, o açúcar. Misture. Leve à geladeira por uma hora para a massa “descansar”. Para fritar os crepes, esquente bem uma frigideira e coloque uma colher de manteiga. Disponha uma concha da massa e espalhe bem por toda a frigideira. Quando estiver cozido o lado de baixo, vire e deixe cozinhar do outro lado. Retire, reserve num prato e recheie/sirva como quiser! Rende de 6 crepes.

domingo, 9 de janeiro de 2022

A HISTÓRIA OCULTA DO ARROZ ITALIANO: sexo, nazistas e da Vinci.

 

"Riso Amaro" (Arroz Amargo, em português), apresentava mulheres vestindo shorts ousados ​​com meias rasgadas andando na água, luta corpo-a-corpo na lama e o decote amplo de Mangano em tudo, de camisetas justas a lingerie. O filme, um thriller-slash-tragédia neorrealista, mostrava um casal de criminosos se infiltrar nos campos de arroz na região do Piemonte na Itália, e marcou tiroteios e um roubo de arroz (você poderá ter uma ideia melhor assistindo ao trailer AQUI). Foi o filme que adicionou apelo sexual ao período do cinema neorrealista corajoso e fez da atriz Silvana Mangano uma estrela.

Pode-se dizer que confie nos italianos para tornar a agricultura sexy. Mas, apesar de todas as fotos de decote, "Arroz Amargo" lançou os holofotes em um trabalho que tinha sido, até então, ingrato. Todos os verões, de maio a julho, até os anos 1960 (e até 1970 em alguns lugares), milhares de mulheres da classe trabalhadora iam para o vale do Pó, no norte da Itália. Elas estavam lá para trabalhar como "mondine" - capinadoras do campo, abrindo espaço para o crescimento das plantas de arroz. Era um trabalho exaustivo: elas começavam muito cedo e trabalhavam até o meio da tarde, nessa posição inclinada para cima, sempre com água na altura dos joelhos, expostas ao sol, e havia uma alta prevalência de doenças, incluindo malária. Um senador que fez um discurso sobre as condições que essas mulheres vivenciavam [em 1953] as comparou a um dos círculos do inferno de Dante.



Ao aprender a técnica para o filme, Silvana Mangano (que, aliás, era avó da chef da TV norte-americana Giada de Laurentiis) teria exclamado: : “Assim, por oito horas? Eu não faria esse trabalho nem por um milhão de anos dia!"

Mas havia muito mais coisas no mundo do que alimentar a nação. Em grande parte de esquerda, aquelas trabalhadoras reais foram alguns dos únicos trabalhadores a protestar com sucesso contra o governo fascista e realizaram um trabalho importante como parte da resistência anti-nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Elas fizeram muitas coisas como esconder partidários e passar mensagens e materiais.

Mas elas eram frequentemente ignoradas durante os esforços do pós-guerra para reconhecer os guerrilheiros. E às vezes, essa passagem vinha de suas próprias famílias - mesmo quando elas trabalharam na resistência juntos (os homens faziam combates ativos e as mulheres escondiam os lutadores, forneciam comida e passavam mensagens). Houve um caso em que as autoridades vieram dar 'tessere' [cartões de reconhecimento pelo esforço de guerra] a membros de uma família. O marido disse, não, apenas um na família é suficiente - eu terei o meu. A mulher - uma 'mondina' - nunca teve sua tessera.

Então, como um grão humilde chegou a ocupar o centro do palco na resistência antifascista da Itália?


Pensa-se que o arroz foi domesticado pela primeira vez no vale do rio Yangtze, na China, há cerca de 10.000 anos. Antes disso, os habitantes locais haviam colhido arroz selvagem por mais alguns milhares de anos.

Os romanos o importavam para temperar e há registros de que na Idade Média ainda era usado assim - moído, para engrossar molhos e pratos como mange, como aponta Diego Zancani, em seu livro "Como nos apaixonamos pela comida italiana" ("How We Fell in Love with Italian Food).

O cultivo do arroz na Itália veio um pouco mais tarde, aponta Zancani, provavelmente vindo da Índia. E embora a tradição da indústria italiana de arroz tenha começado na Lombardia no século XV - em 1450, Francesco Sforza, o governante de Milão, escreveu uma carta pedindo chapéus de palha feitos de "paglia di riso" (palha de arroz), e há evidências de que já era cultivado em Ferrara, hoje parte da Emilia Romagna.

De qualquer forma, a produção girava em torno do "cinturão de arroz" da Itália - a terra úmida e pantanosa ao redor do rio Pó, que se estende de oeste para leste através do Piemonte, Lombardia, Emilia Romagna e Veneto, no norte da Itália. O país rapidamente se tornou o maior produtor de arroz da Europa. Quase 600 anos depois, ainda é.

Não que isso tenha acontecido sem escândalo. Em 1839, um padre jesuíta, Padre Calleri, voltou do trabalho missionário nas Filipinas carregando as sementes de 43 tipos diferentes de arroz, que ele havia roubado. Ele os trouxe de volta para a área de Vercelli no Piemonte, onde o conde de Cavour, Camillo Benso, promoveu entusiasticamente as novas variedades, construindo um sistema de canais para criar o que se tornaria o moderno setor de arroz da Itália.

Camillo Paolo Filippo Giulio Benso, Conde de Cavour (Turim, 10 de agosto de 1810 — Turim, 6 de junho de 1861)

Benso acabou se tornando o primeiro primeiro-ministro de uma Itália recém-unificada, mas não era o nome mais famoso a se envolver com o comércio de arroz. Leonardo da Vinci foi contratado pela família Sforza para criar o sistema de canais de Milão em 1482, que criaria uma rota de água do Lago Como para a cidade. Mas também trabalhava na irrigação dos arrozais da família?

Para Zacani, essa ideia é mais do que possível: cronologicamente, Leonardo se encaixa nessa ideia pois ele foi para Milão como engenheiro e Francesco Sforza se interessou por arroz 30 anos antes. Em sua 'domanda', ou currículo, ele escreveu que era um especialista em hidráulica e hidrovias e participou de um grande aumento de canais, o que melhorou a produção no Vale do Pó. Portanto, não é um erro dizer que há uma conexão.

Os italianos do norte levaram o arroz a sério, e ele rapidamente se tornou um ingrediente integral na culinária regional. Zacani explica que, a partir dessa dedicação dos italianos do norte, tem-se as primeiras receitas de 'minestra di riso' - sopa de arroz”.

Os tribunais da era renascentista doavam sacos de arroz uns aos outros - há registros da família Sforza de Milão e do Este de Ferrara entregando-se à diplomacia baseada no arroz. Cristoforo di Messisbugo, o chef celebridade renascentista e mestre de cerimônias de Lucrezia Borgia, incluiu pratos de arroz em seu famoso livro de receitas. Mas não era sobre risoto.

Cristoforo Di Messisbugo

Zacari defende que o risoto como o conhecemos provavelmente foi desenvolvido no século XIX. E as pessoas então imediatamente o aceitaram. O prato se tornou sinônimo de norte da Itália, com todas as regiões do cinturão de arroz apresentando suas próprias variações. Os frutos do mar do Veneto recebem uma menção honrosa, mas no final das contas, o mais famoso de todos é o risoto alla milanese, onde o arroz é misturado com parmesão, açafrão, vinho e algo mais- manteiga. Na década de 1960, o romancista Carlo Emilio Gadda escreveu uma famosa homenagem ao prato - parte receita, parte carta de amor - em que especificava suas preferências até a melhor loja de Milão para comprar açafrão e insistia na manteiga de Lodi.



Mas nem mesmo um risoto cremoso alla milanese poderia ajudar o arroz a decolar mais baixo na bota da Itália. A Sicília tem seus bolinhos de arroz, é claro, e também há alguns cultivos na Sardenha. Mas o cinturão de arroz da Itália manteve-se firme em torno do Pó desde 1400. Abaixo de Emilia Romagna, você terá dificuldade em encontrar pratos de arroz no menu. Mais ao sul, tudo gira em torno de massas.

Ainda assim, no Norte, os italianos do cinturão do arroz estão ultrapassando os limites do arroz. No Ristorante Ponterosso, restaurante em Monteveglio, Emilia Romagna, o chef Massimo Ratti é conhecido em toda a região por seus pratos inventivos. Talvez o seu mais famoso seja o Risotto Luigi XII: arroz com cordeiro, amêijoas, batatas, romã, laranja, chicória, noz-moscada e azeitonas esmagadas. Como os pratos de vários sabores da corte renascentista da vizinha Ferrara, não deveria funcionar - mas funciona.

Ratti inclusive tece falas sobre como o arroz faz parte da cultura do norte italiano; garante que ali eles são os melhores produtores da Europa porque têm as melhores condições, mas também porque eles gostam de fazer isso. Além de ser a cozinha das mamma' e das 'nonna' sempre a referência. E dá dicas preciosas: É fácil cozinhar mal o arroz, e é fácil perder o sabor do arroz. Para mantê-lo, é preciso "torrar", ainda cru, em fogo alto, "até que fique um pouco escuro, quase caramelizado". Em seguida, você deve adicionar algumas colheres de caldo, esfriar sobre uma superfície de mármore e, em seguida, começar com o molho. Parece alquimia - e ele diz que preserva o amido do arroz. Depois posso fazer cinco ou seis risotos, porque já tratei o amido. Gorgonzola e banana, pato e pinenuts, vegetais com queijo de cabra, kiwi ... seus outros risotos famosos incluem melão com pecorino defumado e risoto com abóbora, castanhas e romã. Pessoas que gostam de arroz, gostam de arroz", ele diz simplesmente, acrescentando que carnaroli é sua principal escolha de variante de arroz para um bom risoto.

E os italianos certamente gostam de arroz. No século passado, os italianos trabalharam muito para criar seus tipos ideais de grãos. O amado carnaroli de Ratti foi "lançado" em 1945 - um cruzamento de grão médio entre vialone e lencino, em homenagem ao seu inventor, Emiliano Carnaroli, ex-presidente da Ente Nazionale Risi, ou Organização Nacional do Arroz (sim, a Itália tem uma Organização Nacional do Arroz).

O arbóreo com alto teor de amido e o vialone nano (em si um cruzamento de vialone e nano) são os outros arrozes de risoto populares, a grande quantidade de amido deles rende um prato final cremoso. Ambos se originaram no cinturão do arroz italiano.

E enquanto pegamos nosso pacote de carnaroli no supermercado, vale lembrar que as mondine - e suas vidas difíceis - são a razão de estarmos comprando esses tipos de arroz italiano hoje.

Algumas eram mulheres locais; outras eram trabalhadoras sazonais, geralmente do norte da Itália, que iam para os meses de capina. Elas trabalharam na lavoura de arroz até a década de 1960 e até a década de 1970, quando os pesticidas e depois a mecanização entraram em vigor.

As mulheres locais moravam em casa, mas as trabalhadoras sazonais eram alojadas em enormes dormitórios. Na Tenuta Colombara, na região de Vercelli do Piemonte, onde o risoto com rãs é um prato típico, o dormitório dos anos 1920 onde dormiam até 200 mulheres foi transformado em um museu dedicado à vida das mondine.



“Era um trabalho árduo, mas de fundamental importância”, diz Anna Rondalino, dona da fazenda, que hoje produz um dos arrozes mais chiques da Itália, o Acquerello, considerado querido por chefs como Massimo Bottura - um carnaroli envelhecido inventado por seu pai, Piero, em 1991, e que tem um gigantesco processo de produção de 20 etapas, que inclui reconectar o germe repleto de nutrientes ao grão de arroz (tornando-o tão nutritivo quanto o arroz integral); usando um método de "hélice" especialmente delicado para branquear o arroz; e culmina em ser envelhecido por qualquer coisa de um a sete anos.

As mondine da Tenuta Colombara comiam "panissa" - arroz com carne e feijão - diz Rondalino. Elas também eram pagas com arroz (aqui não se está se referindo à Tenuta Colombara, às mondine em geral). Uma cena em "Riso Amaro" mostra as mulheres recebendo uma colher de arroz por cada dia de trabalho. As crianças do sexo feminino também trabalhariam nos campos, e as mulheres teriam seus bebês trazidos para amamentar na hora do almoço.

Um dormitório na  Ternuta Colombara
Ternura colombara

A política de esquerda governou os campos de arroz, talvez por causa das condições difíceis. Muitas mondine eram membros de seus partidos comunistas locais, elas sempre pediam melhores condições, melhor comida. Há ataques documentados sob o domínio fascista e nazista. Elas foram uma das únicas forças de trabalho a protestar contra o fascismo e obter concessões”, incluindo melhores salários, jornadas de trabalho mais curtas e o direito de levar alimentos para os campos durante os intervalos. E quando elas se uniam a protestos mais amplos, as mondine eram colocadas na frente, especialmente durante a ocupação nazista - elas eram menos propensas a serem presas.

Nem sempre funcionava. Uma mulher foi morta em um protesto em 1949. Maria Margotti - ex-membro da resistência - tinha 34 anos quando foi baleada, protestando pelos direitos dos trabalhadores agrícolas em Molinella, Emilia Romagna. Outras trinta pessoas ficaram feridas quando a polícia atirou contra uma multidão de 6.000 pessoas.

Nem tudo era solidariedade feminina, é claro. Havia atritos entre as mulheres locais e os "florestais" ou "estrangeiros", que vinham de fora da área. Se as mulheres locais estivessem em greve por melhores salários, os proprietários de terras trariam pessoas de fora para trabalhar. Isso causava muitos problemas. A famosa cena de luta em "Riso Amaro", em que as mulheres lutam na água lamacenta, é mais do que excitação - elas estão brigando por trabalhadoras "feridas".

Mas, quando as mondines pensam em suas velhas vidas, é com carinho. Há definitivamente uma memória tingida de rosa - elas falam sobre um senso de comunidade, solidariedade, participação na resistência e comunismo. Isso realmente superou a memória de como era difícil. Elas cantariam enquanto trabalhavam e, ainda hoje, existem corais mondine ao redor do norte da Itália - alguns com ex-trabalhadoras ainda neles, mas outros compostos por parentes e mulheres locais, mantendo viva sua história.

Tudo parou quando os pesticidas e a mecanização começaram. A partir da década de 1960, e as mondine começaram a ser empurradas para fora. Foi um processo muito turbulento, porque eram autônomas. Os fazendeiros que haviam mecanizado colocavam cartazes com a figura de uma mondina riscada.

Mas elas não caíram sem lutar. Às vezes, elas revertiam o protesto e iam trabalhar sem serem convidados. Àquela altura, as mondine havia passado da relativa obscuridade nacional, conhecida apenas no cinturão do arroz, ao estrelato internacional, graças ao filme "Riso Amaro".

Mas enquanto seu trabalho de câmera hipersexualizado e o nascimento de uma bomba na forma de Silvana Mangano galvanizaram uma nação, o filme estava fazendo uma observação séria sobre as condições de trabalho na montanha.





Afinal, este era um filme neorrealista - o gênero do pós-guerra italiano enfocando as condições de vida dos membros mais pobres da sociedade - e o diretor Giuseppe de Santis era um membro assalariado do PCI, ou Partido Comunista Italiano. Ele também lutou como partidário contra os nazistas na Segunda Guerra Mundial. Mas eles precisavam de sex appeal para conseguir o financiamento do filme. E, na forma de Mangano, eles conseguiram.

Não há outra força de trabalho feminina além de prostitutas ou modelos que realmente capturou a imaginação no período pós-guerra. Mas acho que isso custou o fato de elas serem altamente sexualizadas. Em uma entrevista, uma mulher disse que depois do filme elas foram consideradas prostitutas, o que não era justo.

As mondine tiraram uma inspiração do filme - moda. Elas trocaram as saias compridas de capina pelos shorts usados ​​por Silvana e suas companheiras no filme. E, graças ao apelo do filme se gerou no mercado de massa um "grande debate no Partido Comunista sobre se foi um sucesso". Mas, no final das contas, o filme colocou o arroz no mapa como um produto nacional italiano e catapultou o arroz na mente de todos.

Então, da próxima vez que você estiver saboreando aquele risoto cremoso, lembre-se de sua ligação com a resistência, Da Vinci e, claro, 10.000 anos além, com a China. Mas pense também nas mondine, cujo trabalho árduo fez o arroz italiano - e pratos como o risoto - dar a volta ao mundo e chegar até você.

Risoto Milanês

1 xícara de arroz arbóreo

1 cebola média picada

1,5 l de caldo de legumes ou caldo de frango (prefira caseiro)

½ xícara de vinho branco seco

4 colheres (sopa) de manteiga

½ colher (chá) de açafrão da terra

100 g de queijo parmesão ralado

Sal

Preparo: Deixe o caldo de vegetais pronto e fervendo para iniciar o risoto. Leve ao fogo uma panela de fundo largo, coloque duas colheres de manteiga e a cebola e refogue até ela ficar transparente. Adicione o arroz arbóreo e em seguida o vinho branco, mexa até evaporar. Em seguida coloque o açafrão e a primeira concha de caldo fervente, misture bem e mexendo sempre, comece a acrescentar o caldo aos poucos, esperando reduzir para acrescentar a concha seguinte. Repita esse processo até que o arroz esteja no ponto, al dente e cremoso. Leva aproximadamente 20 minutos. Assim que o arroz estiver pronto, desligue o fogo, acrescente o restante da manteiga gelada e queijo parmesão. Misture delicadamente, ajuste o sal e sirva.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

A receita original dos Cookies com gotas de chocolate

 

Me peguei aqui observando um pacote de cookies com cobertura de chocolate que eu comprei e tenho demorado para comer. Anteriormente esse pacote de biscoitos seria devorado completamente em instantes. Hoje em dia, entretanto, eu só consigo comer no máximo dois – e guardo o restante para a hora em que o desejo por doce ataca. Ocorre que, com o passar dos anos, eu tenho preferido doces menos doces e chocolate meio amargo, esses biscoitos comprados prontos extrapolam meu paladar na quantidade de açúcares. E, por mais formiga que eu seja, tudo tem limites (risos). Foi aí que percebi que esse assunto renderia um bom post, considerando que os cookies com gotas de chocolate tronaram-se bastante populares no Brasil faz alguns anos, e hoje você pode encontra-los com muitos recheios, todos bem doces – uma característica bastante comum para o paladar dos brasileiros em geral.

Você talvez possa não saber, mas o Cookie com gotas (ou chips) de chocolate comemorou seu 91º aniversário este ano. Ao contrário dos inventores anônimos de produtos básicos americanos como o cachorro-quente, o sanduíche de queijo grelhado e o milkshake, o criador desse biscoito com gotas de chocolate sempre foi conhecido por nós: Ruth Wakefield, que dirigia o popular restaurante Toll House Inn em Whitman, Massachusetts, com seu marido, Kenneth, de 1930 a 1967, criou o Toll House Chocolate Crunch Cookie no final dos anos trinta. A receita, que foi ajustada ao longo das décadas seguintes, fez sua primeira aparição impressa na edição de 1938 do livro de receitas "Tried and True" de Wakefield – e você vai tê-la no final desta postagem, não se preocupe.


Criado inicialmente para acompanhar sorvetes, o cookie com gotas de chocolate rapidamente se tornou tão celebrado que Marjorie Husted – mais conhecida como Betty Crocker – o apresentou em seu programa de rádio.

Em 20 de março de 1939, Wakefield deu à Nestlé o direito de usar sua receita para esse tipo de biscoitos e o nome Toll House. Em uma barganha que rivaliza com a compra de Manhattan por Peter Minuit, o preço foi um dólar - um dólar que Wakefield disse mais tarde que nunca recebeu (embora ela tenha recebido chocolate grátis pelo resto da vida e também foi paga pela Nestlé para trabalhar como consultora).

Embora sempre tenhamos conhecido quem, onde e quando das origens do cookie de chocolate; o como e o porquê permaneceram um tanto obscuros. Um conjunto de mitos da criação frequentemente repetidos cresceu em torno dos produtos assados favoritos do país.

A história reproduzida com mais frequência é que Wakefield inesperadamente ficou sem nozes para uma receita regular de biscoito de sorvete e, em desespero, substituiu-as por pedaços cortados de uma barra de chocolate amargo Nestl & # 233. 

O mito da criação afirma que ela apenas cortou um pouco de chocolate e adicionou à massa de biscoito como um atalho, esperando obter biscoitos de chocolate. Não acho que a Wakefield, Dietista Registrada, se rebaixaria a atalhos. Na década de trinta, o método padrão para tratar o chocolate era derreter o chocolate completamente em banho-maria antes de adicioná-lo às massas. Mas ela não fez isso. Ela já sabia fazer biscoitos de chocolate. Não foi um erro de novato. E não, não "acabou" as nozes e ela as substituiu por chocolate picado. Ruth Graves Wakefield graduou-se no Departamento de Artes Domésticas da Escola Normal do Estado de Framingham em 1924. Ela trabalhava como nutricionista e lecionava sobre comida. A receita em seu livro, Toll House Tried and True Recipes (você pode conferir AQUI), que antecede os Cookies Crunch de Chocolate Toll House ™, é para biscoitos de chocolate feitos da maneira tradicional. Tanto seu livro de receitas quanto o Joy of Cooking daquele período têm cookies de caramelo à base de açúcar mascavo que se parecem com a massa básica da Toll House. A receita básica está bem ali, à vista de todos! A pura verdade não deve ter sido excitante o suficiente para o pessoal da publicidade.

Muitas histórias afirmam que ela estava tentando adicionar chocolate a uma antiga receita colonial chamada de “butter drop do” (algo como gota de manteiga). Isso é fácil de verificar, uma vez que o livro de Amelia Simmons (a primeira obra publicada sobre culinária americana) está disponível em formato online. Mas isso acabou sendo uma invenção completa por parte de algum publicitário que queria vincular o Toll House™ Cookie às tradições da culinária colonial. Essa história tem sido repetida com frequência, sem que muitos questionamentos, sem alguém explicar o motivo de ser verdade ou não verdade. Se dermos uma olhada rápida no texto em questão, podemos ver prontamente que a receita de Amelia Simmons não pode ser a fonte: não existe uma receita de biscoito como uma "Drop Do”. Existe uma variação listada de uma receita de biscoito de gengibre, e a variação número três é a que está em questão. Está claro como o dia na edição fac-símile que NÃO é nem mesmo chamado de "Drop Do". É chamado de Butter Drop e, em seguida, D O com um ponto final. D O com um ponto é uma abreviatura comum dos séculos 18 e 19 para DITTO. Como em “outra dessas receitas de biscoitos de gengibre, novamente, chamada de gota de manteiga, ou gota de manteiga, DITO. Ou outra variação, chamada Butter Drop, Ditto (mesmo procedimento acima). Muita gente simplesmente engoliu essa fantasia (receita colonial antiga modernizada! Receita tradicional tornada moderna!) E pareciam nunca ter verificado com ninguém que tivesse qualquer conhecimento mínimo em história da comida colonial que pudesse contestar essa teoria de origem maluca da Toll House ™. Quase todos os primeiros artigos referem-se preguiçosamente ao primeiro conto de fadas do livro de receitas americano de Amelia Simmons sem nunca olhar para a fonte primária.

Em "American Cookery", de Amelia Simmons, publicado em 1796, página 36: "Butter Drop Do. No. 3. Esfregue um quarto de libra de manteiga, uma libra de açúcar, polvilhe com mace, em uma libra e um quarto de farinha, adicione quatro ovos, um copo de água de rosas, asse como No. 1. [Asse por 15 minutos]”

Ao ler a receita acima, observe que não há açúcar mascavo (como nos biscoitos de gota chocolate) e isso tornaria algo completamente diferente. Um pedaço de manteiga mais meio quilo de açúcar, mace (uma especiaria feita a partir da casca da noz-moscada), quatro ovos e um copo de água de rosas (baunilha não era comumente usada na culinária da era colonial) não chegam perto de um cookie com gotas de chocolate – que usam uma combinação de açúcar mascavo e branco, menos ovos, mais manteiga ... as receitas claramente não estão relacionadas.

Você provavelmente está se perguntando, bem, como você sabe que "Do e um ponto final" é uma abreviatura de Dito? Quando se estuda história da alimentação, nos textos de fonte primária de outras pesquisas, principalmente relativas ao século XIX, essa era uma abreviatura comum. Eles gostavam de escrever "o tempo faz". que significava "Clima idem, ou o mesmo clima de antes". 


Uma variação desse conto mostra Wakefield substituindo as nozes por chips de chocolate depois de acabar o chocolate dos padeiros. Outra história ainda mais improvável postula que as vibrações de uma batedeira industrial fizeram com que o chocolate armazenado em uma prateleira da cozinha da Toll House caísse em um tanque de massa de biscoito enquanto estava sendo misturada.

Nada disso, ao que parece, é verdade. A escritora de culinária Carolyn Wyman oferece uma narrativa mais verossímil em seu livro “Great American Chocolate Chip Cookie Book”, embora um pouco menos encantada. Wyman argumenta, de forma persuasiva, que Wakefield, tinha o seu diploma em Artes Domésticas, trabalhava como nutricionista e lecionava sobre comida; tinha uma reputação de perfeccionismo, e não teria permitido que seu restaurante, que era famoso por suas sobremesas, ficasse sem ingredientes essenciais como chocolate de confeitaria ou nozes.



Em vez disso, a explicação mais plausível é que Wakefield desenvolveu o biscoito de chocolate "por meio de treinamento, talento [e] trabalho duro". Por mais preparada que estivesse, no entanto, é improvável que a diligente proprietária da Toll House pudesse ter previsto que sua combinação de manteiga, farinha, açúcar, nozes e chocolate se tornaria uma comida americana icônica, adorada por adultos e crianças, criando fortunas e gerando inúmeras imitações e variações.

O biscoito de Wakefield foi o antídoto perfeito para a Grande Depressão. Em uma única porção de mão barata, continha a própria riqueza e conforto que milhões de pessoas foram forçadas a viver sem no final dos anos trinta. A ingestão de um biscoito com gotas de chocolate quente oferecia aos comensais uma breve trégua de sua angústia cotidiana.

A entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial apenas aumentou a popularidade da criação de Wakefield. Os biscoitos da Toll House eram um componente comum em embalagens de produtos especiais enviadas para soldados americanos no exterior. Embora o chocolate estivesse em falta no mercado interno por causa do esforço de guerra, as mulheres no front doméstico foram encorajadas a usar o pouco que tinham para assar biscoitos para “aquele seu menino soldado”, como disse um anúncio da Nestlé.

Só a loja de presentes do restaurante Toll House enviava milhares de biscoitos para militares uniformizados no exterior. “Como Spam e Coca-Cola”, escreve Wyman, a fama dos biscoitos de chocolate foi impulsionada pelo consumo de soldados em tempos de guerra. Antes da guerra, eles eram uma moda passageira em grande parte da Costa Leste; depois os cookies de Toll House rivalizaram com a torta de maçã como a receita de sobremesa mais popular do país.

Nos anos do pós-guerra, o cookie com gotas de chocolate seguiu o caminho percorrido por muitas inovações culinárias americanas: do caseiro ao produzido em massa, do balcão da cozinha ao chão da fábrica, do fresco ao franqueado. Na década de 1950, tanto a Nestlé quanto a Pillsbury começaram a vender massa refrigerada de cookies com gotas de chocolate em supermercados.

A Nabisco, por sua vez, lançou Chips Ahoy, sua linha de biscoitos embalados, em 1963. A geração Baby Boom, criada a partir dos biscoitos Toll House, buscou resgatar o sabor original dessas guloseimas caseiras nas lojas que vendiam biscoitos recém-assados. Os famosos Amos, Mrs. Fields e David’s Cookies abriram as primeiras lojas nos anos setenta e prosperaram nos anos oitenta. Em meados daquela década, havia mais de 1.200 barracas de biscoitos em funcionamento nos Estados Unidos.




A história de Wally (Famous) Amos sugere que pode haver algo mais do que uma relação homonímica entre "biscoito" e "excêntrico". Um agente de talentos da William Morris que contratou Simon e Garfunkel e representou as Supremes e Dionne Warwick, Amos decidiu entrar no negócio de alimentos depois que um cliente famoso, Hugh Masekela, o deixou como agente e outro cliente, um ator, fraturou sua perna pouco antes de fazer um filme que prometia lançar sua carreira. Amos montou sua primeira barraca de biscoitos em Sunset Boulevard em 1975 com financiamento de Marvin Gaye, entre outros. Incapaz de desenterrar os fatos concretos das origens do biscoito de chocolate, um sócio de Amos sonhou com algumas informações para imprimir nas sacolas de sua loja: o biscoito nasceu "em uma pequena cozinha de casa de fazenda em Lowell, Massachusetts", e "passou a ser conhecido como quinta-feira marrom.” Amos, que vestiu um chapéu panamá e uma camisa bordada e adotou a saudação “Tenha um dia muito marrom”, admite que foi um crupiê mais bem-sucedido do que um empresário ou confeiteiro. Ele pode ter sido capa da revista Time, mas entre 1985 e 1989 a propriedade da Famous Amos mudou de mãos quatro vezes, deixando Wally Amos com cada vez menos participação na empresa que ele fundou. (Como Amos, Debbie Fields e David Liederman não são mais donos dos negócios que levam seus nomes, embora todos os três continuem ativos no negócio de biscoitos.)

Enquanto isso, o cookie com gotas de chocolate, a tribulação dos produtos de confeitaria americanos, continuava se reproduzindo de maneiras copiosas e inesperadas. Veio o Chipwich, o Taste of Nature Cookie Dough Bite e o Pookie (uma torta coberta com massa de biscoito com gotas de chocolate).

Talvez nenhuma dessas variações tenha sido mais culinariamente ou culturalmente significativa do que o lançamento, em 1984, do sorvete Ben & Jerry's Chocolate Chip Cookie Dough em sua loja em Burlington, Vermont. A ideia surgiu de uma nota anônima deixada por um cliente e logo teve alta demanda nos pontos de venda vizinhos. A Ben & Jerry’s levou cinco anos para encontrar uma maneira de mecanizar o processo de misturar manualmente a massa do biscoito congelada com o sorvete, mas foi lucrativo. Em 1991, o Chocolate Chip Cookie Dough substituiu o Heath Bar Crunch como o produto mais vendido da empresa. Duas décadas depois, ainda está entre os favoritos de Ben & Jerry.

Desnecessário dizer que ler sobre tudo isso me fez ansiar por alguns cookies com gotas de chocolate – mas eu já tinha me prometido que na próxima vez que os fosse comer, eu mesmo os faria para controlar o açúcar - na massa e do chocolate. Mas eu lembro, perfeitamente, da primeira vez que preparei cookies, anos atrás: eu ainda gostava muito de chocolate ao leite, e na época ainda em difíceis de serem encontradas prontas as gostas ou chips de chocolate na cidade onde eu morava, eu comprei uma barra de chocolate de um quilo (risos) eu pretendia cortá-la em pedaços para fazer os biscoitos e o restante, comer... hoje em dia, se não for chocolate meio amargo ou amargo eu já nem consigo comer tanto. Diferentemente dos norte-americanos, eu nunca gostei de comer biscoitos com leite, pelo menos não os biscoitos doces – já os salgados, eu geralmente pego uns crackers pequenos, salteio na manteiga e os como acompanhado de leite gelado.

Outra coisa interessante de preparar cookies, é que dependendo da receita que você tiver eles podem ter textura diferentes depois de assar. Isso, pra mim, é um fator crucial, pois a forma como eles são acomodados depois de retirados do forno vão lhe conferir texturas – nesse ponto, ter um gradinha para esfriar os biscoitos, ou um lugar onde o ar possa circular entre elas faz toda a diferença no resultado final.

Obviamente, existem centenas de receitas para cookies – Wyman, por exemplo, registrou cerca de setenta e cinco em seu livro completo e divertido. A beleza do cookie de chocolate - e grande parte de sua popularidade duradoura - é sua fungibilidade. Você pode fazer com gordura vegetal, margarina ou manteiga; você pode fazer biscoitos grandes ou pequenos; você pode usar nozes, castanhas, avelãs, amendoim, ou manteiga de amendoim; você pode usar mais açúcar mascavo ou menos; você pode trocar em xarope de milho ou melaço; adicione um ovo extra ou substituir o leite por água; você pode usar marcas de luxo de sal marinho e caramelo e chocolate feito à mão extremamente caro ou as marcas genéricas disponíveis no supermercado local. Não importa. O que sai ainda será reconhecível como um cookie com gotas de chocolate e, provavelmente, terá um gosto bom. Vai bem com leite, café e chá e, até, com vinho tinto ou uísque. Infelizmente, parece que a única coisa que você não pode fazer com um cookie, como Malcolm Gladwell descobriu em 2005, é torná-lo saudável sem alterar sabor nem suas características (mas isso logo será resolvido...) Em sua capacidade de absorver uma lista tão heterogênea de ingredientes e ainda manter sua identidade e apelo, o cookie de chocolate é representativo das aspirações do país pelo qual se tornou o deleite preferido.

Nesse mundo espetacularizado de hoje em dia, é difícil crer que a criadora de um pedaço tão icônico da cultura norte-americana publicasse uma autobiografia e fizesse aparições regulares na Food Network, mas Wakefield não se apresentou. Um vizinho de Toll House sugeriu a Wyman que Wakefield havia "mudado", especialmente depois que ela e seu marido venderam o restaurante, em 1967. Wakefield morreu em 1977.

Wyman acha que é possível que Wakefield, uma empresária de sucesso e autora de livros de receitas, não queria que suas outras conquistas fossem ofuscadas por seu famoso biscoito que, afinal, fora inventado apenas como acompanhamento para sorvete. Os rolos de noz-pecã de Wakefield, a torta de creme de Boston e o pudim indiano eram muito populares antes de serem suplantados pelo cookie Toll House. Existem inúmeras outras sobremesas de seu livro de receitas "Tried and True" que provavelmente valem ser apreciadas.

Um fato interessante de marcar, especialmente nesta época do ano, é que o restaurante Toll House queimou espetacularmente na véspera de Ano Novo em 1984 e o local agora é o lar de uma Wendy's. As autoridades em Whitman exigiram que o restaurante fast-food incluísse um pequeno museu para Wakefield e a Toll House em suas instalações. E, se por acaso, você estifer de férias pelos EUA e estiver na estrada entre Boston e New Bedford, dê uma passada e uma olhada no lugar. Mas, faça o que fizer, não peça um cookie. Em vez disso, asse uma boa fornada deles, preparando do zero quando chegar em casa, pois a receita original da criadora está logo aí abaixo.

Receita original de Ruth Wakefield Toll House Cookies

1 xícara de manteiga sem sal e mais para assadeiras

3/4 de xícara de açúcar mascavo

¾ de xícara de açúcar granulado

2 ovos grandes batidos

1 colher de chá de bicarbonato de sódio dissolvido em 1 colher de chá de água quente

2 1/4 xícaras de farinha de trigo peneirada

1 colher de chá de sal de mesa

1 xícara de nozes picadas (opcional)

2 xícaras de gotas de chocolate meio amargo

1 colher de chá de extrato de baunilha

Preparo: Pré-aqueça o forno a 180 °C. Bata a manteiga e os açúcares. Adicione os ovos batidos. Adicione o bicarbonato de sódio dissolvido em água quente. Peneire a farinha e o sal e acrescente à mistura de manteiga. Em seguida, acrescente as nozes, as gotas de chocolate e a baunilha. Refrigere a massa por trinta minutos na geladeira. Depois disso, despeje porções de massa com a ajuda de uma colher de sopa em assadeiras levemente untadas e leve ao forno até dourar nas bordas, por 10 a 12 minutos. Retire do forno, coloque em gradinhas pra esfriar. Servir.