domingo, 13 de novembro de 2016

Syllabub: uma sobremesa para se comer e beber


Não sei se todos são como eu, mas há momentos em que eu desejo comer sobremesas um pouco alcoólicas. Nessas ocasiões, chocolates recheados com bebidas alcoólicas até servem, mas não são suficientes. Por isso, hoje resolvi trazer uma receitinha rápida e deliciosa para estes momentos docemente etílicos.


Syllabub é uma especialidade da leitaria inglesa que provavelmente surgiu ainda durante o século XVI. Eram feitos de creme de leite e vinho e servidos frios – quando servido quentes recebem o nome de Possets. Quando frios, as syllabubs poderiam ser servidas em vasos de cristal delicados sem nenhum medo do vidro rachar. Por outro lado, os possets – que são quentes – seriam melhor servidos em vasos cerâmicos muito mais resistentes ao calor, como os ilustrados abaixo.




As imagens acima ilustram o tipo de vasos e copos de servir syllabub do século XVII e início do século XVIII. Neste período a parte líquida da syllabub eram sugadas através de um bico e a espuma comida com uma colher. Durante o curso do século XVIII, o bico desapareceu e as syllabubs passaram a ser consumidos em taça para café.




Durante a segunda metade do século XVIII, a quantidade de vinho foi reduzida permitindo que a syllabub ganhasse uma espuma espessa, parecida como creme chantilly – a bebida deixaria sua característica inicial de ter uma parte liquida em baixo e uma espuma cremosa que se acumulava sobre o líquido, e passaria a ser um creme leve e ligeiramente alcoólico.

O sentido do gosto, pintura de por Philip Mercier (1680-1760) que mostra uma bandeja de syllabubs
Seguramente, para a atualidade a syllabub é uma sobremesa desconhecida, mas a partir do século XV ao início do século XX, era uma espécie de ‘pudim básico’, muito popular entre os ingleses, e que passou por algumas modificações ao longo do tempo, mas manteve sua essência: uma mistura de creme de leite batido, adoçado e misturado com algum tipo de vinho – inicialmente era usado o Sack ou a Sidra.

Sack é um termo antiquado que se refere ao vinho branco fortificado importado da Espanha continental ou das Ilhas Canárias. Logo, havia Sack de diferentes origens, tais como: Canary sack das Ilhas Canárias, Malaga sack de Málaga, Palm sack de Palma de Mallorca, e Sherris sack de Jerez de la Fronter. O termo Sherris Sack mais tarde deu lugar ao xerez como o termo Inglês para vinho fortificado de Jerez. Uma vez que o xerez é praticamente o único desses vinhos ainda amplamente exportados e consumidos, no entanto "sack" (por si só, sem qualificação) não é comumente citado, mas trata-se de um velho sinônimo para xerez.

Porém, com o passar dos anos, a sobremesa tornava-se mais 'sólida', se é que se pode assim dizer, e teve diminuição na quantidade de bebida, mas que permaneceria deliciosa e ganharia o título de "syllabub everlasting” (algo como Syllabub Eterno).





O termo syllabub vem já junção de: Sille, uma área na região de Champagne, na França, que faz o vinho eponymous, mais ‘bub’, palavra de calão elisabetano significando ‘bebida borbulhante’, daí Sille bub - vinho misturado com um creme espumoso.

Se você pesquisar um pouco na internet, vai percebem que existem muitas receitas para Syllabub. Uma das mais antigas, e mais curiosas, foi elaborada por Elizabeth Raffald, e aparece em um livro de receita de 1769 com o nome de Hatted Kit, que consistia em fazem a especialidade debaixo de uma vaca, para que o leite retirado na hora desse a espuma desejada na preparação. 

Elizabeth Raffald
A receita original segue descrita abaixo (em inglês) e pede que a mistura de cerveja forte com um litro de sidra, noz moscada ralada e adoçada a gosto fosse colocada numa tigela que seria segurada abaixo das tetas de uma vaca de onde seria retirado o leite necessário que se misturaria aos outros líquidos e formaria a espuma densa, e que precisaria ficar em descanso por uma hora, para então ser servida com algumas passas picadas.

“To make a Syllabub under the cow
Put a bottle of strong beer and a pint of cider into a punch bowl, grate in a small nutmeg and sweeten it to your taste. Then milk as much milk from the cow as will make a strong froth and the ale look clear. Let it stand an hour, then strew over it a few currants well washed, picked, and plumped before the fire. Then send it to the table.”

Charles II, rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda, era um fã deste preparo com o auxílio de vacas, ele realmente apreciava este tipo de syllabub que mantinha vacas no palácio, para o caso de ele ter um desejo súbito por degustar Hatted Kit – e aí, só precisaria de um bom esguicho de leite, embaixo de uma vaca, misturado com vinho, Sack ou sidra.

Até o século XIX, a syllabub era, geralmente, preparada com creme de leite fresco e algum vinho adocicado – e o vinho poderia ainda ser aromatizado com limão e fortificado com um pouco de conhaque. No entanto, e a pesar da existência de muitas receitas inovadoras em sabores, esta não é uma sobremesa fácil de encontrar. Por isso mesmo, segue abaixo algumas receitas fáceis para que você possa experimentar – e quem sabe, surge a inspiração e você desenvolve sua própria receita.
  
Syllabub de Amaretto

1/3 xícara de licor amaretto
2 colheres de açúcar
Suco de limão 1 colher de sopa
1 xícara de creme de leite
Biscoitos de amêndoa a gosto

Preparo: colocar em uma tigela o licor amaretto com o suco de açúcar e limão e bata para dissolver o açúcar. Junte o creme de leite e bata até a mistura engrossar e ficar cremosa.  Para montar quebre alguns biscoitos no fundo de taças, coloque o creme e decore com mais biscoitos. Leve para gelar ou sirva assim mesmo.

Syllabub eterno de Elizabeth David com biscoitos da amêndoa


Esta receita faz entre 4 e 6 porções
Ingredientes para o syllabub
8 colheres de sopa de vinho de sobremesa (vinhos licorosos)
2 colheres de sopa de conhaque
Casca de um limão
60g de açúcar
300ml de creme de leite fresco
Noz-moscada recém-ralada
Para os biscoitos:
100 g de manteiga
50 g de açúcar refinado
150 g de farinha de trigo peneirada
50g de amêndoas moídas

Preparo creme: No dia anterior você quer servir o syllabub, misture o vinho e conhaque em uma tigela, adicione a casca de limão e deixe descansar durante a noite. No dia seguinte, coloque a mistura líquida em uma tigela grande e misture o açúcar até dissolver. Despeje o creme e bata até ficar grosso. Tenha cuidado para não bater muito para não desandar o creme. Colocar colheradas dessa mistura em taças e espalhar alguns a noz-moscada sobre eles. Preparo biscoitos: Faça um creme da manteiga com o açúcar batendo-os juntos e, em seguida, misturar a farinha de trigo, e, finalmente, as amêndoas. Amasse até virar uma massa quebradiça - não seja tentado a adicionar qualquer água ou leite porque resultará em um biscoito que não será ‘crisp’, e você não quer isso. Abrir a massa com um rolo na espessura de uma moeda (cerca de 3 mm) e cortar em círculos. Asse por 8-10 minutos a 200 graus C ou até que fiquem dourados. Retirar do fogo e deixar esfriar em uma gradinha para deixar bem crocantes. Guardar em pote hermético ou bem fechado .

Syllabub Queen (Receita Típica da Inglaterra do Séc. XVIII)

casca de 1 limão
4 colheres de sopa de suco de limão
6 colheres de sopa de vinho branco
2 colheres de sopa de sherry brandy ou um licor de sua preferência
100 gramas de açúcar
2 latas de creme de leite gelado sem o soro
Biscoitos doces para acompanhar


Preparo: Lave o limão e tire a casca tão finamente que a parte da fruta não vá agarrada a menor parcela da polpa branca. Esprema o limão e coe o suco. Coloque a casca do limão e 4 colheres de sopa de suco numa tigela. Adicione o vinho e o sherry brandy. Deixe o preparado dormir durante uma noite. Passe o líquido para outro recipiente, junte o açúcar e mexa para o dissolver. Adicione o creme de leite gelado cuidadosamente ao preparado, mexendo sem parar. Bata a syllabub até espessar um pouco. Divida a mistura por taças individuais e conserve na geladeira até a hora de servir. Acompanhe com biscoitos.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Crème Du Barry – Creme de Couve-Flor


A existência das cortesãs, além de animar e agitar a vida de personalidades ao longa da história, em períodos diversos, rederam algumas das preparações culinárias que se tornaram clássicos. Uma dessas receitas é o tema de hoje, que começaremos a conhecer a partir de agora.
Madame du Barry nasceu em Vaucouleurs em 1743, e foi a última amante do rei Louis XV. Conta a história que tinha grande beleza e a pele muito branca e voluptuosa – motivo pelo qual emprestou seu nome para uma sopa cremosa, aveludada, de couve-flor criada no século XVIII.



Em seu castelo em Louveciennes, na França, onde a Madame du Barry recebia o rei, para jantares com mais discrição, ela fez um arquiteto conhecido por Ledoux instalar uma mesa acionada por um dispositivo que a permita subir e descer diretamente para a cozinha, e que serviu muitas vezes o delicioso creme batizado com o nome da anfitriã. E foi ali também que o cozinheiro Mauconseil inventou outra delícia gastronômica, feita com perdiz que leva o nome de "perdrix en chartreuse à la Du Barry " – onde a perdiz é colocada numa panela para ser refogada com bacon, presunto picado, cenoura e cebola às rodelas. Depois de adiciona-se sal e pimenta, uma dose de vinho branco para fazer caldo. À parte, uma pequena couve frisada (ou repolho) é refogada e servida com algumas salsichas assadas, este será o acompanhamento da perdiz. Como esta última receita, e pelos serviços prestados à Madame du Barry,



Acredita-se que foi também Mauconseil o autor do creme du Barry, na realidade uma adaptação ao modo dele de sopas de couve-flor que já existam à época – que também era comum batizar novos pratos com nomes de personalidades da corte, mas ao que costa certa versão, esta sopa cremosa de couve-flor era realmente a favorita de Madame Du Barry.
Na verdade, seu nome era Jeanne Bécu, (Vaucouleurs, 19 de agosto de 1743 – Paris, 8 de dezembro de 1793) de origem humilde, tornou-se amante de Luís XV. Morreu na guilhotina durante o período do Terror da Revolução Francesa.

Madame du Barry

Madame du Barry
Jeanne Bécu nasceu em Vaucouleurs, na Lorena, filha ilegítima de Anne Bécu – cozinheira ou costureira, consoante as fontes – e de pai desconhecido, provavelmente um frade do convento de Picpus, em Paris, de nome Jean-Baptiste Gormand de Vaubernier.
Graças a um amante de sua mãe, Nicolas Rançon, a pequena Jeanne pôde ser educada num convento, onde recebeu uma educação muito superior à que poderia esperar, em função de sua condição social humilde.
Aos 15 anos de idade abandona o convento, e usando o nome de Jeanne Rançon, ganha a vida em diversas atividades, desde aprendiz de cabeleireira a camareira de uma família de posses, passando por empregada de balcão de uma conhecida e elegante loja, La Toilette. Pôde assim observar – e absorver – o mundo das mais altas esferas da sociedade parisiense.
Em 1763, a sua notória beleza chama a atenção de Jean-Baptiste du Barry, libertino confesso. Torna-se sua amante e instala-se na casa deste em Paris, onde acorriam muitas personagens ligadas à música e às artes. De facto, o conde era um grande apreciador de música e, sobretudo, de pintura, tendo Jeanne bebido muitos dos seus conhecimentos.

Luis XV
Entretanto, Jean du Barry alimentava outros projetos para Jeanne: instado pelo marechal Richelieu, irá usar os bons ofícios da encantadora jovem para que Luís XV demita o Duque de Choiseul, ministro dos Negócios Estrangeiros. É assim que, aos 19 anos, Jeanne Bécu é apresentada ao rei, então com 58 anos, que de imediato se apaixonou. Porém, para fazer dela sua amante oficial, era indispensável conceder-lhe um título nobiliárquico. O casamento de conveniência com o irmão de Jean du Barry, o conde Guillaume du Barry, permitiu-lhe usar com toda a licitude o título de Madame du Barry, o qual já antes indevidamente usava. Assim, em 1769, a Condessa du Barry, amante oficial do rei, foi apresentada à corte com a devida pompa e o incontestável escândalo.
Este episódio foi evocado por Madame Campan, camareira-mor de Maria Antonieta, nas suas memórias: «Mesdames [as irmãs] faziam uma vida muito distante do rei, que vivia sozinho desde a morte de Madame de Pompadour. Os inimigos do Duque de Choiseul não sabiam [...] como preparar e precipitar a queda do homem que se lhes atravessava no caminho. As mulheres com quem o rei se relacionava eram de tão baixa extracção que nenhuma seria capaz de urdir intrigas que exigissem grande subtileza. [...] Havia que arranjar ao rei uma amante capaz de criar um círculo à sua volta e de, na intimidade da alcova, minar a sólida e duradoura relação entre o rei e o seu ministro. De facto, a Condessa do Barry provinha de uma classe social inferior. A sua origem e educação, o seu estilo de vida, tudo nela transpirava vulgaridade e despudor. Ao casá-la com um homem cuja linhagem recuava até 1400, julgaram que poderiam evitar o escândalo».
Sem ter a influência política tão notória quanto a de sua antecessora, Madame de Pompadour, a Condessa du Barry acabou por conseguir a demissão de Choiseul, o qual, através do casamento do futuro Luís XVI com Maria Antonieta, firmara a união dos Bourbons com os Habsburgos da Casa da Áustria. Tal não fez mais que exacerbar o ódio que lhe votava a arquiduquesa austríaca, já à partida indisposta contra "a du Barry" e todo o seu passado.
A situação torna-se insustentável quando Maria Antonieta se recusa dirigir a palavra à maîtresse do rei, pois, de acordo com a inelutável etiqueta da corte de Versalhes esta não podia ser a primeira a entabular conversação com a Delfina. Pressionada por um agastado Luís XV, Maria Antonieta acaba por condescender em pronunciar uma memorável frase, de tão vazia de conteúdo e tão plena de significado: "Hoje está tanta gente em Versalhes". Quanto bastou, porém, para deixar todos satisfeitos.
Durante os anos em que desfrutou do favor real, protegeu muitos intelectuais e artistas, entre os quais François-Hubert Drouais (cujos retratos de Madame du Barry são bem conhecidos), Augustin Pajou, Van Loo, Etienne Falconet e Lemoyne. Grande amiga de Voltaire, incumbe-o de concluir o restauro do castelo de Louveciennes, oferta com que Luís XV a agracia em 1769. Para a decoração do palácio, encomenda a Fragonard quatro painéis dedicados ao Amor, uma obra estilo rococó: O Encontro, A Perseguição, A Recordação e A Coroação, que, de resto, pouco tempo aí ficaram, tendo sido retirados por não se enquadrarem no estilo do palácio.
Apesar do seu apoio às artes e de um sincero esforço para se tornar agradável a todos, acabou, contudo, por tornar-se impopular, devido aos dons e benesses com que o rei a cumulava: uma renda principesca, joias sem preço e propriedades sumptuosas. Para isto também não foram alheias certas atitudes levianas e inconvenientes, desrespeitosas para a dignidade do soberano. Veja-se um episódio relatado por Madame Campan: Um belo dia Madame du Barry teve o capricho de assistir a uma sessão do Conselho de Estado. Luís XV, cuja fraqueza de carácter se acentuara com a idade, acede. Durante a reunião, «ficou ridiculamente pendurada nos braços da cadeira do rei, fazendo todo o tipo de criancices e macacadas.
Ao ver aproximar-se a morte, em 1774, Luís XV bane Madame du Barry da corte, pois a sua ligação pecaminosa aos olhos da Igreja impedi-lo-ia de conseguir a absolvição. Confinada durante alguns meses à abadia de Pont-aux-Dames, instala-se depois na sua propriedade favorita, o magnífico Château de Louveciennes. Aí, rodeia-se de uma corte íntima de amigos e admiradores, entre os quais Henry Seymour e o Duque de Brissac, que viriam a ser seus amantes.

Encarceramento de Du Barry
Em 1789, eclodiu a Revolução Francesa e, durante as convulsões que agitaram o país, Madame du Barry não hesitou em cuidar igualmente de republicanos e monárquicos, pelo que recebeu uma carta de gratidão da sua velha inimiga Maria Antonieta. Suspeita aos olhos dos republicanos pelo seu passado, manifesta-se partidária das mudanças políticas. Sincera ou não, o facto é que ninguém a incomodou.
Em 1791, parte de sua valiosíssima coleção de joias, guardada em Louveciennes, foi roubada. Talvez sem se aperceber do perigo em que incorre, move mundos e fundos para as recuperar, ordena a abertura de um inquérito, promete generosas recompensas, fazendo assim alarde da sua imensa fortuna. Finalmente, as joias aparecem em Londres, para onde empreende diversas viagens. Ora esta cidade era um dos locais de refúgio dos “contrarrevolucionários” e, na sua busca de informações, entra em contato com alguns dos expatriados. Em janeiro de 1793, encontrando-se um Londres, ao receber a notícia da execução de Luís XVI, veste-se de luto, o que não passa despercebido aos espiões franceses. Todas as suas ações, todas as suas relações são agora consideradas suspeitas, e a sua fortuna, a sua antiga condição demaîtresse du roi, o facto de o seu amante, o Duque de Brissac, ter sido brutalmente assassinado nos Massacres de Setembro de 1792, enfim, tudo joga em seu desfavor tornando-a um alvo de eleição para os revolucionários.
Em 1793, é acusada de conspirar contra o novo regime e, após um longo processo – cuja sentença estava decidida à partida - foi declarada inimiga da revolução e condenada à pena de morte.
No dia 8 de dezembro de 1793, aos 50 anos de idade, Madame du Barry foi guilhotinada. O seu comportamento no cadafalso indiciou um carácter fraco e pusilânime. Chegou ao ponto de denunciar várias pessoas, condenando-as assim a uma sorte igual à sua, e tentou comprar o carrasco revelando-lhe os locais onde estavam escondidas as joias que ainda lhe restavam. As suas últimas e pouco dignas palavras foram: «De grâce, monsieur le bourreau, encore un petit moment!» - Por quem sois, senhor carrasco, só mais um momentinho!

CRÈME DU BARRY (simples)
 
1 couve-flor pequena (aprox. 250gr)
3 batatas pequenas (aprox. 100gr)
1 litro de leite
1 cubo de caldo de galinha dissolvido em 500ml de água quente (ou 500ml de um caldo feito com alho poro, cenoura, cebola, salsão e o que mais você quiser)
50gr de manteiga
Sal e pimenta para temperar
Preparo: Corte a couve-flor e as batatas em tamanho médio e cozinhe-as no leite. Coloque-as quando o leite já estiver quente tomando cuidado para o leite não ir derramando ao ferver e deixe cozinhar entre 10 e 15 minutos, até estarem o suficiente macias para serem liquidificadas. Quando estiver quase atingindo o tempo de cozimento (5 min antes), adicione os 500ml de água com o caldo de galinha dissolvido. Dar uma boa mexida, acertar o sal, adicionar a pimenta e a manteiga e esperar cozinhar. Tudo pronto, é só liquidificar aos poucos. Por segurança, não é bom encher mais do que a metade do copo do aparelho com líquidos tão quentes. Pode-se servi-la com parmesão ralado ou salsinha.

CREME DU BARRY COM SARDINHA E LARANJA

Metade de uma bela couve-flor
1 batata média (cerca de 150g)
1 cebola branca
1/2 colher de chá de coentro em pó
300ml de leite + um pouco para ajustar a textura
300ml de água
1 lata de sardinhas em azeite
2 laranjas
Raspas de 1 laranja
1 colher de chá de sementes de coentro
Sal e pimenta

PREPARO: Tire as sardinhas da lata, escorra o óleo, parta-as ao meio e coloque as sardinhas em um prato coberto com papel manteiga e leve ao forno a 150 ° C por aproximadamente 30 minutos. Isto irá secar as sardinhas que vêm como croutons sobre a sopa. Lavar a couve-flor, corte os pequenos buques e leve para cozer 5min em água fervente com sal. Enquanto isso, pique a cebola, descasque batatas e corte-as em fatias finas. Refogue a cebola em um pouco de azeite até dourar, adicione a batata, a couve-flor, sal, pimenta, coentro em pó e as raspas de uma laranja. Despeje a água e leite, deixe ferver e cozinhe em fogo brando por 20 minutos. Bata a mistura no liquidificador com a adição de leite, se necessário. A textura tem que ficar cremosa, mas não deve ser muito fina. Ajuste o tempero se necessário. Descasque as laranjas com cuidado para retirar a peles delas, corte em pedaços pequenos, esmagar as sementes de coentro com a palma da faca. Em tigelas, divida a sopa, polvilhe com pedaços de laranja, sementes de coentro e sardinha assada. Regue com algumas gotas de suco de laranja.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Grand Tour à Mesa


No dia 06 de setembro de 2016 esta confraria completou exatos seis anos de existência. Foi criada, despretensiosamente, para servir de guarda-memória para este barão que vos escreve e que aprendeu, desde cedo, que a memória é algo importante para uma sociedade -  e que ela deve ser preservada. Foi quando resolvi trabalhar a cultura gastronômica por entender que ela é um dos muitos patrimônios que veem caindo no ostracismo, mesmo com algumas atuações de órgãos nacionais e internacionais competentes que lutam pela preservação do patrimônio das sociedades. Assim, eu resolvi contribuir com a minha parcela nessa jornada. Ao longo de seis anos, muita coisa mudou. Principalmente quando, rapidamente, o blog atingiu mais de 160 países, permitindo interações e recebendo feedback de muitas pessoas – umas satisfeitas, outras nem tanto. Mas a experiência é infinitamente prazerosa, pois faço o que gosto, escrevo sobre o que gosto e espero ter fôlego para continuar fazendo isso e, quem sabe, algo mais. Antes de adentrar no texto da postagem de hoje, gostaria de agradecer a todos pelas visitas ao blog, aos comentários deixados ao longo desses seis anos. Vocês, caros (as) amigos (as) leitores (as), animaram este guarda-memória! Muito obrigado, e continuem visitando o blog.
Em virtude da data comemorativa que já passou, mas que celebra a data do surgimento do blog fiquei procurando algo que representasse essa jornada (por isso levei tanto tempo para fazer esta postagem), e somente hoje consegui concluir algo simbólico o suficiente para representar os dias percorridos até aqui. Assim, este post comemorativo (mesmo tendo dias passados desde a data oficial) vem tratar um pouco sobre um tema presente na minha formação em turismo: a Grand Tour, e as experiências advindas dela – neste caso, o foco é a gastronomia e terá a Inglaterra como ponto de partida (esta escolha se deve ao fato de ter sido deste país que se encontra a maior parte dos relatos de viagens que eu encontrei).  Vai ser uma daquelas minhas longas postagens, mas eu espero que enriqueça seus conhecimentos e lhes deixem com vontade de experimentar as receitas e a viagem no tempo. Boa leitura!
Grand Tour é o termo aplicado a uma tradicional viagem pela Europa, feita principalmente por jovens de classe média alta. Alguns estudiosos compreendem que se deve a esse tipo de viagem (conjuntamente com o Petit Tour) a origem histórica do turismo contemporâneo, principalmente da maneira como ele é entendido no Ocidente (TOWNER, 1985, 1984)
O costume surgiu desde 1600 até o surgimento do tráfego ferroviário em grande escala, na década de 1840, e costumava estar sempre associado a um itinerário previamente especificado. A tradição ainda continuou depois que as viagens por trem e navio a vapor facilitaram os deslocamentos, e jovens dos países americanos e de outros locais do mundo também a realizaram.
Inicialmente associado à Grã-Bretanha, especialmente com a gentry e a nobreza britânica, a Grand Tour servia como um rito de passagem educacional (BRODSKY-PORGES, 1981) – posteriormente viagens semelhantes também seriam feitas por jovens endinheirados de nações do Norte da Europa e do restante do Continente. Com o tempo, o apelo da Grand Tour tornou-se grande a ponto de ser praticada pelos filhos das mais ricas famílias das colônias dos países Europeus. Dois bons exemplos disso são Simon Bolívar que segundo consta teve a ideia de liderar o movimento pela independência das colônias da Espanha enquanto viajava pela Itália com seu tutor (LYNCH, 2007), e José de San Martin, que viajou por boa parte da Europa após terminar seus estudos e chegou a instalar-se por um tempo em Roma, um destino fundamental da Grand Tour (ERASMO, 2015; CAVALCANTE, 2001).
O jornal Americano The New York Times descreveu assim a Grand Tour:
Há trezentos anos, ingleses jovens e ricos começaram a realizar uma viagem pós-Oxbridge através da França e da Itália, em busca de arte, cultura, e das raízes da civilização ocidental. Com fundos quase ilimitados, ligações aristocráticas e meses (ou anos) disponíveis, eles comissionavam pinturas, aperfeiçoavam seus dotes linguísticos e se misturavam com a nobreza local (GROSS, 2008).

O valor primário da Grand Tour, acreditava-se, estava na exposição tanto ao legado cultural da Antiguidade Clássica e do Renascimento, quanto à sociedade aristocrática e chique do continente europeu. Além disso, era a única oportunidade existente de se ver certas obras de arte, e, possivelmente, a única chance de se ouvir certas peças musicais. Uma Grand tour podia durar de alguns meses até alguns anos. Era comumente realizada em companhia de algum guia conhecedor, ou de um tutor. A Grand Tour teve mais do que uma importância cultural superficial; nas palavras do historiador inglês E. P. Thompson, "o controle da classe dominante, no século XVII, localizava-se antes de tudo numa hegemonia cultural, e, somente depois, numa expressão de poder econômico ou físico (militar)" (THOMPSON, 1991).
No entanto, e apesar do exposto, em todos os lugares percorridos, a gastronomia era também uma atração à parte e os diários de viagem tornaram-se fontes inestimáveis de informação para se compreender muitas situações e experiências gastronômicas ocorridas durante uma Grand Tour. Muitos viajantes registravam notas sobre as refeições que faziam, em especial os ingleses que se deslocavam para os grandes centros europeus – alguns escreviam tantas negatividades sobre as comidas estrangeiras que resolviam levar suprimentos em abundancia na travessia do canal, a primeira etapa de sua jornada. As estalagens rurais europeias, em particular, eram alvo de críticas, assim como a qualidade de grande parte da carne que encontravam no caminho. Os viajantes ingleses não gostavam muito do uso de alho e azeite e desejavam mais uma boa carne assada e o velho pudim de ameixa. Por sorte, em alguns lugares eles encontravam comida britânica.
Em 1771, Lady Anne Miller ficou encantada quando ela pode comer tortas de carne à inglesa em Florença. Descrevendo outra refeição em Roma, em seu diário, ela disse:
Nossa mesa foi servida no estilo Inglês, pelo menos abunda em três ou quatro pratos ingleses caseiros (graças a algum tipo de antecessores ingleses que lhes ensinaram), tais como bacon com couve, carne de carneiro cozido, pudins de pão, que depois de terem sido cozidos, são cortados em pedaços, assados e servido com um molho de vinho fortemente temperada, etc. então não acho que estamos propensos a morrer de fome aqui. (THE UNIVERSAL MAGAZINE OF KNOWLEDGE AND PLEAFURE, 1776.) [Tradução minha]

Essa passagem lembra a importância da confort food durante as viagens, o que na contemporaneidade devido a profusão de empreendimentos gastronômicos existentes nos destinos turísticos, essa situação está mais fácil para os turistas. No entanto, nos tempos iniciais da Grand Tour, a maioria dos viajantes tinha de sobreviver com comida local (hoje usada como atrativo turístico de maior grandeza). E, sem dúvida, houveram também extraordinárias experiências com a culinária nas grandes cidades.
A partir de agora apresentar-se-á uma explanação a partir do menu abaixo, que representa algumas das preparações mais encontradas por viajantes que praticavam a Grand Tour, a partir da Inglaterra – e que continuavam a saborear preparações dos lugares visitados na volta para seu destino de origem.  O menu escolhido é composto por:
Restaurant (Paris – 1769)
Punch à la romagne (Pan-Europeia – 1820)
Plato de truchas, y yervas (Zaragoza – 1745)
Porchetto ripieno di macharonni (Nápoles – 1776)
Insalata ala reale (Nápoles – 1682)
Spongata and parmesan ice cream (Londres 1789 a 1820)

Restaurant
Este consommé nutritivo trata-se de um bouillon (fervido) elaborado como o intuito de "restaurar" os espíritos enfraquecidos, era também chamado, "quintessência ou restaurante 'era servido em casas de comer especializadas em Paris durante o século XVIII. A sopa deu seu nome a esses estabelecimentos, assim, surgiram os 'Restaurantes'. Os primeiros restaurantes estabelecidos antes da Revolução Francesa, ofereciam muito pouca coisa além de caldos restauradores – sendo, muitas vezes, referidos como "casas de saúde”. Os restaurantes posteriores ofereceriam uma lista mais extensa de preparações e eram muito visitados pelos viajantes que visitavam Paris.


Os caldos ainda acabariam servindo como base para muitas outras sopas e molhos. A receita que segue é de François Marin, Les Dons de Comus, criado na Paris de 1739. Caldos como esse eram muito procurados, especialmente por serem delicados e indicado aos enfermos. Na grande maioria das vezes eram preparados pelos proprietários, que não estavam licenciados a vender uma variedade de pratos, mas que poderiam fugir das normas, oferecendo apenas um tipo de prato especifico, escolhendo para isso os caldos – naquela época, todos os tipos de caldos foram considerados "medicinais".
Na publicação The Cook Modern (1733), de Vincent la Chapelle, há um extenso capítulo sobre ‘sopas quase-medicinais’ – em um dos casos, o autor dá uma receita para um caldo reforçado que fortalece o sangue de pessoas idosas e fracas.
Tão logo deixavam a Inglaterra, a maioria dos viajantes que iam à Paris teriam encontrado muitos desses novos estabelecimentos. Curiosamente, um dos primeiros a oferecer um menu completo, em vez de apenas uma tigela de "restaurante", foi La Taverne Anglaise fundada por Antoine Beauvilliers, que abriu o seu restaurante em 1786 no Palais Royale. O nome foi provavelmente uma tentativa de atrair viajantes ingleses. Depois da Revolução, ele se mudou para a Rue de Richilieu e nomeou seu novo estabelecimento La Grande Taverne de Londres em honra da célebre London Tavern em Bishopsgate. Ele mais tarde (provavelmente sob alguma pressão a partir do novo regime) foi rebatizado de La Grande Taverne de la République. Seus vários estabelecimentos foram restaurantes no sentido moderno, com menus verdadeiramente gigantescos.
O viajante Inglês Francis Blagdon na obra Paris as it Was and As it Is (London: 1805) - my all time favourite guide to Paris - dá uma descrição detalhada do estabelecimento Beauvilliers ', incluindo um projeto de lei de tarifa cheia. Blagdon nos diz, 'Deus do céu! A conta de tarifa é uma folha impressa em fólio duplo, do tamanho de um jornal Inglês. Ele vai exigir meia hora, pelo menos, para se ativer ao catálogo '. La Grande Taverne certamente não era um simples estabelecimento que oferecia sopas para restaurar aqueles de uma constituição delicada. Blagdon cita todo o menu e lista treze sopas diferentes.
Beauvilliers published a recipe in his 1814 cookery book L'art du Cuisinier for croûtes au pot. These delicious croûtons were fortified with bouillon before they were crisped up and served with soups. So our 'restaurant' was garnished with these crunchy, umami flavoured morsels.

Aqui segue umas das receitas mais antigas para este tipo de sopa (Temos receitas em portugues no final do post)
Quintessence or Restaurant


Trecho da  receita de François Marin de 1769 para a sopa Restaurant
Take a well-tinned and very clean pan. Put into it several slices of onion, with a little beef marrow, slices from a round of nice white veal. On top of the veal slices, place several cleaned ham rinds from which the fat has been removed, and also some slices of parsnips and carrots. Take a good healthy freshly killed hen, and clean it well both inside and out. Cut it into pieces and crush the pieces. While still warm, put them into your casserole and then put in a few more slices of veal and small pieces of ham rind. Note that for two pints of this quintessence, you will require only about four or five pounds of veal and four ounces of ham as well as the hen. All being well arranged in your pan, add a glass of your stock, seal your casserole well and put it on a strong heat. If you cook it over a low fire, the meat yields its juices, but does not brown, so the liquid sticks to the meat and hardens during cooking and does not fall to the bottom of the casserole to form the restaurant that is required. When the meat has browned, put your casserole over a moderate fire for the space of three quarters of an hour. Take care that nothing sticks to the pan and from time to time moisten it with some bouillon, just to the point that the restaurant is not bitter or too strong, but sweet, unctuous and proper for a variety of sauces., which are normally made with ingredients that have their own taste and savour. Many cooks may put in this quintessence strongly flavoured things, such as garlic, cloves, basil, mushrooms, but I prefer the simpler fashion as I believe it is best for both taste and for health.

From François Marin, Les Dons de Comus. (Paris: 1739).

Punche a la romaine - Roman punch

Muito popular em Roma, Florença e Veneza entre os viajantes antes de Napoleão invadir a península italiana e interromper o fluxo de turistas, o ponche romano viajou para Paris e tornou-se o refresco mais elegante do período do Império. 



Só foi aparecer na Inglaterra depois da morte da imperatriz Josephine, em 1814, quando um chef chamado Molas começou a trabalhar para o príncipe Lieven na embaixada russa em Londres. O pasteleiro italiano Giugliamo Jarrin, que conhecia Molas, parece ter sido o primeiro a publicar a receita secreta em um apêndice em uma edição posterior de sua obra “Italian Confectionere” ( Confeiteiro Italiano) publicado em Londres em 1820.

Plato de truchas, y yervas - truta com vegetais folhosos


Juan Altamira, o autor desta receita, era o nome de plume de um monge franciscano cujo nome verdadeiro era Frei Raimundo Gómez – ele é, sem dúvida, um dos meus escritores favoritos da culinária espanhola. Gomez nasceu no final do século XVII e morreu em 1769. Ele correu as cozinhas de uma grande escola religiosa na cidade de Zaragoza, no norte da Espanha. Suas receitas são muitas vezes polvilhadas com inteligência e humor seco, pois nestas instruções idiossincráticas para cozinhar truta com bacon e gotejamento de carne. Ele antecipa que alguns de seus leitores mais piedosos veria esse método de cozimento como sendo contra os regulamentos alimentares rigorosos da Igreja Católica, então ele faz uma piada sobre isso. É claro que o prato é projetado para um dia quando a carne era permitida – e o bacon é uma excelente adição. Muitos viajantes protestantes britânicos ficaram irritado com a tradição católica de respeito escrupuloso aos dias de (comer) peixe. Eles não poderiam ter ovos para comer no café da manhã!
O livro de cozinha de Juan Altamira, Nuevo arte de cocina, foi publicado em Madrid em 1745. Os monges para quem ele cozinhava deveriam ter comido muito melhor do que os muitos ingleses que jantavam em Madrid. Eles reclamavam constantemente sobre tudo o que era servido à eles, exceto as soberbas frutas. As receitas da coleção de Altamira são bastante simples e representam a cozinha do dia-a-dia da região de Aragão, dentre elas há uma receita de truta.





A truta, aliás, aparecia em inúmeros relatos de refeições ao ar livre comidos por viajantes britânicos em vários locais das ribeirinhas europeias. Foi durante seu Grand Tour, que James Hume elogiou a truta enorme que ele gostava de comer em Pont l'Eveque em 1714. Receitas frescas como essa raramente faria alguém se queixar.


Plato de truchas, y yervas
Take some large trout, scale them, split them and cut into little pieces. Fry them in lean and fat bacon. Take some white lettuce hearts, which are the best, and cook them in salted water. When the trout are fried, fry some slices of white bread, then add the lettuce to the pan with the remaining fat and fry them so that they do not dry out. Remove them and place them on a layer of bread slices, then another of hearts of cabbage, then pieces of trout, then add pepper and oranges, and in the middle, pieces of the fried bread, and a few pieces of lean bacon among the cabbage, then more trout. Serve hot. To make this dish even tastier, use dripping instead of oil. But I can already hear your qualm of conscience, which goes something like this: Brother Cook, here you are dealing with fish dishes, in which bacon is forbidden, so how can we legitimately use dripping and bacon? This little scruple, which, not being observed, would be a source of great pleasure to you, I wish to overcome as follows: It is true that in this chapter it is my intention to cover fish dishes, and so I am dealing with trout, which by their nature may be eaten on days of abstinence from meat, but the method of preparing them described above is normally used on non-fasting days, and so this is something with which you cannot burden my conscience, for although I am a cook, I cannot allow you this pleasure, although it costs so little, because the pleasure and expense given by this poor cook are very much in conformity with Gospel teaching, as you will observe.

From Juan Altamiras, Nuovo Arte de Cocina. (Barcelona; 1758).


Porchetto ripieno di macharonni - leitão recheado com macarrão

O destino final para a maioria dos viajantes britânicos na Grand Tour erai a cidade de Nápoles, famosa por suas mangiamaccharoni, pelo festival Cuccagna e pelos vendedores ambulantes de sorvete. A paisagem que circundava a cidade era belas vistas com legumes e frutas soberbas – aliás, os napolitanos eram conhecidos por seu enorme entusiasmo com a vegetação. Talvez, possam estar imaginando uma bela salsa di pomodoro como o prato icónico de Nápoles, mas o tomate não era comumente consumido com massas até o final do século XIX. Os viajantes que iam à Nápoles ficavam mais impressionados com as carnes e pratos de caça locais, alguns dos quais as massas eram utilizadas com ingrediente e servidos de maneira pouco comum (para nós, hoje).



O leitão era bastante popular na Itália desde a Antiguidade. No século 1 depois de Cristo, o famoso escritor culinário romano Apicius já oferecia dezessete receitas diferentes para preparar a mais delicada de carnes. No Il cuoco galante (Nápoles: 1776), o monge dominicano autor sobre culinária napolitana, Vincenzo Corrado, também dedicou um capítulo inteiro ao animal, que ele inicia citando uma receita de Apicius, em que o leitão é fervido e servido com um molho aromatizado com vinho, mel, arruda, pimenta-longa e coentro. 



O bom monge, obviamente, preparava esta antiga receita porque ele declara ser "um excelente prato". Outra receita de Corrado bastante conhecida tinha inspiração no fricassê francês, mas era feito com porco no repertório napolitano local.  Em uma receita distinta, o porco era cozido sobre um fogão a carvão e servido com um molho de marmelos, canela e pistaches. Em outra, o leitão é recheado com pedaços de enguia, sementes de erva-doce, alho e folhas de louro.



No entanto, nada poderia representar mais a “quinta essência” napolitana do que a receita acima, onde uma barriga de leitão é preenchida com macarrão, salsicha e queijo.  Era servido com Coli di Prosciuto feito da cozedura de pequenas peças de presunto em um brodo, que depois de reduzido tinha o presunto retirado. Isso demonstra que a tudo permeia prática francesa de aumentar o sabor de pratos com coulis, essa prática invadiu a culinária napolitana nativa.


Porchetto ripieno di macharonni

Stuff the suckling pig with macaroni, first cooked in stock and well seasoned with cheese, pepper, chopped sausage, ham, and minced beef marrow and baste it with really good stock while it is roasting on the spit, or bake it in the oven, and serve it covered with an excellent coulis of ham.

From Vincenzo Corrado, Il Cuoco Galante. (Naples: 1776).


Insalata alla Reale - Royal Salad

Esta é uma receita ancestral do Sul para a famosa Salada de Pão Toscano. Os biscottini, ou "pequenos biscoitos” na receita são biscoito de navio, um biscoito seco e duro feito cortando o pão em fatias e colocando-o no forno para secar. Friselle e taralli são pães em forma de anel rígidos, que são ambos ainda feitos no sul da Itália. Como biscottini eles eram normalmente amolecidos em água. 



Os rabanetes daquele período eram brancos e com longas raizes em vez de forma arredondada e avermelhada da atualidade. Tarantello era um ingrediente comum em receitas italianas do início do período moderno. Era feito por salga da parte do ventre de atuns jovens. 


Receita original de Latini

A cidade de Taranto era o centro de produção, mas esta antiga iguaria não é feita na Itália moderna. A Botarga, no entanto, ainda está prontamente disponível; as mais premiadas sendo feitas por salga de ovas de atum. Já as Cidras eram comumente cultivada no sul da Itália e tanto a casca era preservada como as flores frescas eram ingredientes populares em pratos doces e salgados. Confeitos açucarados eram um enfeite comum para pratos deste tipo - os de erva-doce ou funcho, eram os  mais populares.

Antonio Latini (1642-1692) era mordomo do Cardeal Antonio Barberini , cardeal-sobrinho do Papa Urbano VIII em Roma e, posteriormente, Don Stefano Carillo Salcedo, primeiro ministro ao vice-rei espanhol de Nápoles. Seus dois livros trazem uma coleção notável, não só de receitas, mas também de menus e instruções para escultura de alimentos. É uma das mais  belas obras barrocas sobre alimentos e refeições.

Spongata and parmesan ice cream 

Os turistas que viajam de volta para Londres poderiam continuar a desfrutar de comida francesa e italiana, quando chegasse em casa. Um número de armazéns refrigerados italianos com sede em Londres vendia bens de luxo importados, como azeite, azeitonas, vermicelli, trufas, cogumelos, alcaparras e vinhos finos. Haviam confeitarias geridas pelos nativos italianos em St James, New Bond Street e Westminster, que serviam especificamente para fabricar "macaronis". Um estabelecimento em Berkeley Square, the Pot and Pineapple, fundado por Domenico Negri no final da década de 1750, vendia a alta confeitaria italiana, sorvetes e até mesmo escultura de açúcar para as mesas de sobremesa de aristocratas de Mayfair. Negri, eventualmente, voltou a Turim e vendeu sua parte no negócio, mas continuou a negociar bem para o próximo século. Um dos aprendizes de Negri, Frederick Nutt incluiu uma receita de sorvete de queijo parmesão em uma coleção de receitas que publicou anonimamente em 1789. É possível que ele tenha aprendido a fazer este sorvete com seu mestre Negri. A mais antiga receita Europeia para o sorvete de queijo parmesão foi publicado em Joseph Gilliers, La Cannamaliste Français. Nancy: 1751. Isso mostra que há um equívoco para aqueles que afirmam o este tipo de sorvete é um sabor criado na atualidade – não é, e a receita para este sorvete de parmesão, de Frederick Nutt, é de 1789.


Spongata
Sorvete de Parmesão 
O pasteleiro e feitor de ornamentos, o italiano Gugliamo Jarrin, que tinha trabalhado para Napoleão, chegou a Londres em 1816. Em 1820, ele publicou The Italian Confectioner, o trabalho mais importante que nunca para de aparecer na imprensa sobre a arte extraordinária de produtos de confeitaria, tal como praticada no longo século dezoito. Nada tão detalhado nunca foi publicado em italiano. Spongata ou spongati, era uma especialidade local da cidade natal de Jarrin, a cidade de Colorno, perto de Parma. A tradição local afirma que a iguaria poderia ser rastreada até os tempos romanos. Imaginem o que estas duas sobremesas causavam aos viajantes quando eles as experimentavam... você pode ter esta experiência isso, com as receitas estarão abaixo.
Fine Spongati Italian Cake
One pound six ounces of white bread, dried in the oven and reduced to a coarse powder; one pound four ounces of walnuts, blanched, and chopped very fine with a double handled knife; six. ounces of currants, well washed and cleaned; five ounces of wild pine kernels ; five pounds five ounces of virgin honey, clarified ; three grains of cinnamon in powder, one grain of cloves ; one grain of strong pepper ; and one grain of nutmeg in powder. The above articles must be mixed together, and en¬closed in a crust paste, made of the following materials, viz., two pounds eight ounces of the best wheaten flour ; six ounces of fresh butter ; five ounces of loaf sugar, pounded; one ounce of olive oil, of Aix, in Provence, and half an ounce of salt, with a sufficient quantity of white wine to mix the whole. This paste, being of a moderate consistence, is to be formed into round cases or crusts, into which the first mixture is to be introduced, and a cover of the same paste must be put on, which must be pricked all over with the point of the knife. Let them stand for a whole day, put them in an oven, moderately heated, on plates dusted over with flour : these cakes should be an inch thick ; they may be iced or not, as you please.

From William Jarrin, The Italian Confectioner. (London: 1820).

Parmesan Ice Cream

Take six eggs, half a pint of syrup and a pint of cream put them into stewpan and boil them until it begins to thicken ; then rasp three ounces of parmesan cheese, mix and pass them through a sieve, and freeze it.

From Frederick Nutt, The Complete Confectioner. (London: 1789).

Referências

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CAVALCANTE, B. (2001-01-01). José Bonifácio: razão e sensibilidade : uma história em três tempos FGV Editora [S.l.]ISBN 9788522503506.

ERASMO, M. (2015-04-23). Strolling Through Rome: The Definitive Walking Guide to the Eternal City I.B.Tauris [S.l.]ISBN 9780857738899.

GROSS, M. "Lessons From the Frugal Grand Tour." The New York Times 5 de setembro de 2008. Thompson, The Making of the English Working Class 1991:43.

LYNCH, J. (2007-01-01). Simón Bolívar: A Life Yale University Press [S.l.] p. 16.

THE UNIVERSAL MAGAZINE OF KNOWLEDGE AND PLEAFURE. July, 1776. VOL. LIX. P. 127. Disponível em: < http://migre.me/vaHqN >.

TOWNER, J. (1984-09-01). "The grand tour: Sources and a methodology for an historical study of tourism". Tourism Management 5 (3): 215–222. DOI:10.1016/0261-5177(84)90040-2.

TOWNER, J. (1985-01-01). "The grand tour: A key phase in the history of tourism". Annals of Tourism Research 12 (3): 297–333. DOI:10.1016/0160-7383(85)90002-7.

Spongata
Recheio
1kg de nozes mistas (castanhas, avelãs, amêndoas, ou as que tiver a suas disposição)
1 kg de mel de acácia
200g de farinha de rosca
200g de passas
150g de pinhões, picados grosseiramente
100g de cidra cristalizada, finamente picada
10g de cravo, ou ao gosto
1/3 de uma noz-moscada ralada, ou ao gosto
1 pau de canela
vinho branco seco, o suficiente para cobrir as passas
1 pitada de sal
Massa:
1 kg de farinha de trigo
400g de manteiga sem sal, em temperatura ambiente
400 g de açúcar
200 ml de vinho branco seco
1 pitada de sal
açúcar de confeiteiro para polvilhar

PREPARO: Pré-aqueça o forno a 180 ° C. Começar por fazer o recheio. Organize as migalhas de pão em uma camada uniforme em uma assadeira e leve ao forno até dourar, por cerca de 20 minutos. Reserve – e desligar o forno. Coloque as passas em uma tigela média e adicione o vinho branco seco o suficiente para cobrir. Deixe em temperatura ambiente por algumas horas para hidratar as passas. Se você gostaria de acelerar este processo, você pode aquecer o vinho primeiro e mergulhe as passas por cerca de 1 hora, em vez. Reserve.  Moa o pau de canela e os cravos até virá um pó (pode usar o liquidificador, ou o triturador para facilitar, depois peneirar até ficar um pó fininho) . Depois rale  a noz-moscada. Deixe de lado. Delicadamente aquecer o mel até ele ficar morno em uma panela em fogo baixo. Reserve. Coloque as nozes picadas em uma tigela grande. Adicione a farinha de rosca e misture bem com as nozes, amasse a mistura até que esteja totalmente misturada e uniforme. Escorra as passas e use as mãos para espremer o excesso de umidade, em seguida, adicione a mistura de nozes e migalhas de pão e misture muito bem como antes. Adicione o restante dos ingredientes do recheio, na seguinte ordem, amassar a mistura após cada adição: mel, pinhões, cidras cristalizadas, especiarias e sal. Experimente a mistura e ajuste os temperos a gosto. O ponto deve ser o de uma mistura deve ser pegajosa e espessa. Cubra e deixe descansar em temperatura ambiente por 3-4 dias para permitir que todos os sabores se misturem bem. Para fazer a MASSA, amontoar a farinha em uma pilha em uma superfície de trabalho grande e fazer um poço profundo no meio. Despeje o açúcar, polvilhe o sal e adicione a manteiga amolecida. Comece a amassar a mistura puxando a farinha dos lados para dentro do poço, misture bem. Quando a mistura estiver unida começar a adicionar o vinho, um pouco de cada vez, misturando bem. Continue a amassar até que todos os ingredientes estejam completamente misturados e a massa esteja lisa, brilhante e flexível, por pelo menos 10 minutos.  A massa não precisa descansar. Para montar, divida o recheio em porções de 200g e enrole cada parte em uma bola com as mãos, e reserve. Fatiar um pedaço de massa, como se você estivesse dividindo preparo de pão, cobrir o restante da massa com filme plástico para evitar que seque. Em uma superfície limpa e com farinha polvilhada abra  a massa  até uma espessura de 2 mm , corte círculos de massa de cerca de 25 cm de largura, uma tampa de panela é um bom utencilio para tirar molde (repita essa operação até ter vários círculos de massa, 2 doisculos para cada 1 bola de recheio). Pegue um circulo de massa, coloque uma bola de recheio  no meio e vá espalhando ele deixando uma borda de três centimentos, coloque outro disco de massa por cima e feche o recheio usando os dedos , pressionando para fechar a massa.  Perfurar com um  garfo, algumas vezes, a parte de cima da massa. Coloque a spongata sobre uma folha de papel manteiga (que facilitara a ida ao forno) e cobrir com filme plástico para evitar que seque enquanto termina de preparar as outras. Repita até acabar massa e recheio. Quando terminado tudo, pré-aqueça o forno a 200 ° C. retire o filme plástico de cima das spongata, e leve ela com o papel manteiga para uma assadeira, e asse o spongata por 15-20 minutos, até ficar levemente dourada - por mais tempo e o recheio vai se tornar muito seco. Deixe esfriar sobre uma gradinha. Quando estiverem frias completamente, polvilhe com açúcar de confeiteiro.

Sorvete de  parmesão
200g de leite fresco
250g de creme de leite fresco
200g de leite condensado
200g parmigiano reggiano
130g de claras de ovo
20g em pó leite

PRPARO: Aquecer o leite fresco com o leite condensado, o leite em pó e o creme de leite até 82 °C. Na batedeira bata bem as claras em neve, junte o parmesão, e depois a misturas dos leites. Leve a geladeira para firmar por algumas horas. (Se preferir pode bater novamente a mistura já gelada e depois volta à geladeira para firmar novamente).

Insalata alla Reale

Junte folha de endívias e escarola, cortada em fatias finas  e reserve, até que você tenha preparado uma grande bacia com a seguinte mistura: uma porção de croutons embebidos em um pouco de água e vinagre, com um pouco de sal; juntar as folhas cortadas por cima  e juntar  Nozes picadas, azeitonas sem caroço, alcaparras, os gomos de uma romã, uvas brancas e pretas, doze anchovas picadas, tarantello (barriga salgado do atum), botarga picada, quatro ovos cozidos, pistaches, uvas passas, Caviar, carne picada de peixe branco, pequenos rabanetes,  e tudo deve ser temperado com azeite e vinagre a gosto, enfeite o prato como preferir, tome cuidado para não adicionar sal e outros temperos , até que ela vá à mesa para ser servida.

Punch Romaine
½ xícara  de açúcar de confeiteiro
4 limões sicilianos
Água
2 claras de ovos
¾ de xícara de açúcar
90 ml de água
235 ml de Rum envelhecido
235 ml de Champagne

PREPARO: Gelo de água de limão: Descasque os limões, tirando o mínimo possível da película branca. Adicione essas cascas em uma tigela e as cubra completamente com açúcar, deixando descansar por 1 hora. Adicione uma xícara de suco de limão *4 limões grandes* – e mexa para dissolver o açúcar. Coe as cascas. Adicione água suficiente até completar ¼ de líquido. Congele em um recipiente de sorvete ou em um pote, somente até ficar parcialmente congelado. Merengue Italiano: Bata as claras em neve, até formar picos firmes, reserve. Adicione ¾ de açúcar e os 90 ml de água em uma panela. Ferva a mistura de açúcar até ferver, em fogo médio, mexendo ocasionalmente para dissolver o açúcar. Ferva até atingir o “ponto de bala” (jogando a calda em um copo com água, ela deve fazer um barulho de vidro ao atingir o fundo) ou 113-114C. Retire o xarope da panela e com movimentos lentos, adicione as claras em neve. Mexa até todo o xarope estar incorporado às claras, formando uma mistura homogênea. Montagem: Em uma máquina de sorvete ou uma tigela gelada, adicione o merengue ao gelo de limão, mexendo gentilmente até obter uma mistura. Logo antes de servir, adicione o rum e a champagne lentamente, mexendo constantemente. As misturas devem ser grossas e cremosas o suficiente para serem bebidas sem o auxílio de talher. Sirva imediatamente. (rende 12 porções)

Porchetto ripieno di macharonni
Preparar uma barriga aberta em capa (para fazer o rocambole com a carne) deixa-a temperada com os ingredientes a seu gosto, da noite para ser feita no outro dia. Abra a peça, recheie com macarrão (do tipo pipe doppia rigatura ou o que preferir) cozido al dente, queijo ralado grosso, pimenta, salsicha picada, presunto e mais os temperos que desejar. Enrole a peça de carne como se fosse um rocablole e passe barbante para prender bem, tomando cuidado para fechar também as laterais da carne. Leve a forno para assar coberto com um pouco de manteiga e mel. Servir com coulis de pimentão.

Coulis de Pimentão

2 Pimentões vermelhos (ou amarelo sem preferir o molho de outra cor)
30 ml de Suco de limão
Azeite (a gosto)
Sal (a gosto)
Pimenta-do-reino preta (a gosto)
Preparo: Lave bem os pimentões; Envolva-os em papel alumínio e asse-os em forno pré-aquecido a 200ºC por 45 minutos; Retire os pimentões do forno e deixe-os esfriar por 10 minutos; Retire a pele e as sementes, bata a poupa no liquidificador com o líquido restante do assado; Acerte a consistência do coulis com azeite e suco de limão; Tempere com sal e pimenta. Servir em seguida.