Passei um tempo em silêncio,
desses silêncios que não se anunciam. Quem acompanha de perto percebe quando a
ausência não nasce do abandono, mas da necessidade. Foi um período de leitura
voraz, de escrita obsessiva, de entrega quase solitária, como quem se recolhe
para afiar o pensamento e limpar o olhar. Enquanto isso, a cidade seguia seu
próprio compasso.
Por aqui, o pré-carnaval já
se espalhava pelas ruas de Fortaleza-CE. Todo fim de semana traz uma promessa
de barulho, suor, música alta, corpos em trânsito e alegria exibida sem pudor.
A festa se ensaiava antes dos grandes dias de carnaval, como se precisasse
provar a si mesma sua própria urgência.
Em uma dessas tardes
ruidosas, ouvi alguém zombar das vestimentas dos brincantes. Riso fácil,
comentário raso, seguido da lembrança da ausência de Momo, o rei carnavalesco,
como se sua falta fosse uma falha grave naquele cenário ainda inacabado.
Intervim. Expliquei com calma que o reinado de Momo começa no carnaval, não
antes. Que o chamado pré-carnaval sequer era conhecido em outros tempos.
Acrescentei algo mais incômodo. Se aquela pessoa soubesse quem foi Momo de
verdade, não pediria sua presença com tamanha leviandade. Talvez nem o
evocasse.
Disse ainda que, se a
semelhança bastasse, o julgamento apressado que acabara de fazer carregava
muito mais do espírito do Momo original do que qualquer coroa simbólica ou
fantasia inflada. O deus da zombaria reconheceria ali um espelho.
Como costuma ocorrer quando
se atravessa o caminho de alguém pouco interessado em cultura ou escuta, nada
foi compreendido. Fui chamado de louco. Ele saiu saltando atrás do bloco que
passava, dissolvido na multidão, entregue ao ritmo, sem carregar consigo
nenhuma pergunta.
Fiquei. Ri. Ri daquela
palhaçada inteira, da cena, do equívoco, do contraste entre o barulho e a
ignorância satisfeita.
Agora, porém, chegou a hora de explicar isso a vocês. De contar com vagar quem foi Momo, de onde veio essa figura inquieta e o que ela carrega muito além da caricatura carnavalesca. E quem sabe, se o sujeito tropeçar neste texto, consiga entender um pouco melhor aquilo que já deveria saber, sobretudo se insiste em se dizer tão devoto do carnaval.
MOMO ANTES DA COROA: ENTRE A MASCARA E O RISO INCOMODO ESCÁRNIO
Antes da coroa de papel
dourado, antes do trono improvisado sobre carros alegóricos, antes do riso
largo que hoje se vende como símbolo de alegria popular, Momo já caminhava
entre os deuses. Não como soberano, não como herói, mas como presença incômoda.
Antes de ser rei, foi ruído. Antes de ser festa, foi incisão.
Momo nasceu no Olimpo grego,
mas nunca pertenceu verdadeiramente a ele. Seu nome carrega o peso da burla, da
crítica afiada, da zombaria que não poupa nem o sagrado. Em grego, Mômos ou Momus é essa
força que ri enquanto fere, que aponta enquanto desmonta, que observa com um
olhar incapaz de se satisfazer. Em latim, Momus preserva o mesmo veneno
elegante. Não se trata de riso leve, mas de ironia como exercício constante,
quase um vício do espírito.
Filha de Nyx, a Noite,
gerado sem pai, Momo surge de um território onde as certezas se dissolvem. Essa
origem não é detalhe menor. A noite, na mitologia, não apenas cobre o mundo,
ela revela o que o dia prefere esconder. É desse escuro primordial que Momo
emerge, trazendo consigo a habilidade de enxergar falhas onde todos celebram
perfeição. Por isso nunca foi uma divindade de templos ou devoções. Sua morada
sempre foi a palavra, o comentário, o canto torto no meio do coro.
Diferente do imaginário
moderno, Momo não escondia o rosto por vergonha. Era representado com uma
máscara que se erguia, não que se fixava. A máscara subia para mostrar o rosto
verdadeiro, como se dissesse que toda aparência precisa ser questionada. Na outra
mão, um boneco, símbolo da loucura. Não da loucura criativa apenas, mas daquela
que nasce quando o pensamento não encontra repouso. Esse detalhe iconográfico
diz muito. Momo não brinca com a loucura alheia, ela a carrega como extensão de
si.
Frequentava o cortejo de
Dionísio (Baco, o deus do vinho), caminhava ao lado de Comos, deus das farras, dos excessos e das
celebrações noturnas. Ali, entre vinho, música e corpos em desordem, Momo
observava, comentava, corroía. Enquanto uns se perdiam no êxtase, ela afiava o
olhar. Enquanto outros se entregavam ao abandono, ela permanecia lúcida demais.
Talvez por isso nunca tenha sido bem-vinda por completo.
Momo, no séquito de Dionísio, aparece na forma rechonchuda para representar abundância.
Nas narrativas antigas, Momo
passa a ocupar o lugar de julgador. Não por virtude reconhecida, nem por
sabedoria celebrada, mas pela fama que o precede. Entre os deuses, corria o
comentário de que ninguém enxergava tão bem as falhas quanto ele. E foi por isso
que Zeus, Prometeu e Atena, inflados pelo orgulho de suas obras, decidiram
submetê-las ao seu olhar.
Zeus apresentou primeiro sua
criação. Um touro imenso, musculoso, dotado de força bruta e ímpeto indomável.
Um animal feito para avançar, para rasgar o espaço com os chifres, para impor
respeito pelo peso do corpo e pelo fogo do ataque. Momo observou em silêncio,
contornou a figura com os olhos, e então sorriu. Apontou o defeito com
delicadeza cruel. Os olhos, disse ele, estavam mal colocados. Não se alinhavam
aos chifres. Como poderia uma criatura tão vocacionada para o embate não
enxergar com precisão aquilo que pretendia ferir?
Prometeu, em seguida, trouxe
sua obra. O homem. Um corpo erguido, moldado com intenção, dotado de mãos
capazes de criar, de destruir, de acariciar. Um ser atravessado por desejo,
pensamento e contradição. Momo aproximou-se com curiosidade renovada. Tocou o
peito da criatura e lamentou a ausência de má abertura. Uma janela, sugeriu,
algo que permitisse ver o que se passa por dentro. Pensamentos, intenções,
segredos. Para ele, um ser que oculta o próprio interior já nasce defeituoso.
Por fim, Atena apresentou a
casa. Um abrigo concebido com lógica, proporção e inteligência. Um espaço
pensado para proteger, acolher, organizar a vida. Momo caminhou ao redor da
construção, analisou suas paredes, sua base firme, e então encontrou mais uma
falha. A casa não possuía rodas. Não podia ser movida. Ficava condenada ao
entorno, aos vizinhos, às circunstâncias do lugar. Para Momo, uma morada que
não pode escapar é, desde o início, uma prisão elegante.
Nenhuma dessas críticas
buscava aprimorar o mundo. Nenhuma carregava a intenção de cuidar da criação.
Todas serviam a um único propósito: provar que nada, nem mesmo aquilo que nasce
das mãos divinas, é suficiente. O olhar de Momo não constrói. Ele desvela até
que reste apenas a fratura.
Essa cena guarda uma
violência que não se anuncia. Não é a violência do erro explícito, nem do
fracasso evidente, mas a da exigência infinita, aquela que corrói em silêncio.
Momo não aceita o limite como condição natural da criação. Seu olhar não
repousa. Não concede trégua. Tudo o que toca precisa ser atravessado pelo
juízo, mesmo quando o juízo já não serve a nenhum propósito além de si mesmo.
É por isso que o Olimpo o
rejeita. Não por blasfêmia, não por afronta direta, não por traição aos deuses,
mas por excesso de lucidez. A lucidez que não se curva, que não admite pausa,
torna-se insuportável até entre imortais. A criação, divina ou humana, não
resiste em um território onde a crítica se recusa a cessar. Em algum ponto, até
os deuses precisam aceitar a imperfeição como parte do mundo, como condição
inevitável de tudo o que nasce.
A expulsão de Momo não
carrega fúria teatral. É um gesto quase administrativo, um afastamento
necessário para que o próprio cosmos continue respirando. A presença constante
de Momo ameaça o ato criador, pois transforma todo nascimento em objeto
imediato de corrosão. O Olimpo, para existir, precisa de um intervalo entre o
gesto de criar e o gesto de julgar.
Em uma versão posterior do
mito, registrada na tradição das fábulas atribuídas a Esopo e retomada por
comentadores antigos, a história se amplia e inclui Afrodite, a deusa do amor.
Diante dela, Momo se vê, pela primeira vez, em dificuldade. Observa o corpo, a
forma, a harmonia, a beleza que parece escapar a qualquer reparo. Não encontra
falha nos contornos, nem na presença, nem no encanto que se impõe sem esforço.
Ainda assim, não se cala.
Quando a perfeição se
apresenta de maneira irrecusável, Momo recua para o detalhe mínimo. Escuta o
som das sandálias de Afrodite ao tocar o chão. Um ruído quase imperceptível,
banal, irrelevante para qualquer outro olhar. É ali que finca sua zombaria. Não
por necessidade de correção, mas por incapacidade de aceitar o silêncio diante
do que não pode ser diminuído.
Esse gesto revela sua
essência com clareza desconfortável. Quando não há defeito, Momo inventa.
Quando a beleza se impõe, ele escava o insignificante. Sua crítica não nasce da
justiça, nem do desejo de aperfeiçoar, mas de uma compulsão interna, uma urgência
que não admite repouso. O riso de Momo não celebra. Ele precisa ferir para
continuar existindo.
Sempre achei essa história
profundamente humana. Conheci gente assim. Talvez todos conheçamos. Pessoas
incapazes de celebrar sem desmontar, de admirar sem reduzir, de permanecer em
silêncio diante do que não podem dominar. Em uma ocasião específica, alguém me
disse, com um sorriso de desprezo, que toda festa precisa de rei, que toda
alegria exige um rosto oficial. Sorri de volta. Pensei em Momo. Pensei em como
ele jamais reinou. Foi expulso do Olimpo. Condenado a vagar como alegoria, como
conceito, como espelho desconfortável.
Momo não foi criado para
liderar multidões. Foi feito para incomodar consciências. Não nasceu para ser
coroado, mas para apontar fissuras. Seu lugar sempre foi o da margem, da
palavra atravessada, do riso que não consola. Quando hoje pedem sua presença antes
da hora, quando exigem sua aparição como se fosse garantia de autenticidade,
repetem o gesto que levou à sua queda. Transformam crítica em fantasia, ironia
em decoração, pensamento em adereço.
Talvez seja essa a maior
anedota de todas. Momo, o deus incapaz de pertencer, convertido em símbolo
oficial da festa. A figura que jamais se acomodou, agora acomodada em carros,
discursos e slogans. E ainda assim, se olharmos com atenção, ele continua ali.
Não na coroa, mas no comentário atravessado. Não no trono, mas no julgamento
apressado. Não no centro do bloco, mas naquele riso que desmonta tudo e segue
adiante, satisfeito com o próprio eco.
MOMO: DA QUEDA DO OLIMPO AO TRONO DA
FARSA CARNAVALESCA
Komos (ou Comos), divindade
menor e talvez menos conhecida fora dos círculos eruditos da Grécia e Roma
antigas, era o deus das festas noturnas, dos excessos e da embriaguez jovial.
Seu nome já evocava a dança, a música e a alegria desenfreada, e suas celebrações
eram marcadas por orgias, cantos e marchas improvisadas que transformavam a
cidade em um palco vibrante de risos e rituais invertidos. Diferente de Momo,
que personificava a crítica e a ironia, Komos era a encarnação do prazer e da
liberação das convenções, o espírito que empurrava os mortais para o abandono
do autocontrole e para o êxtase do instante. Nas ruas, em salões e jardins, sua
presença era invisível, mas sentida na música dos tambores, nos passos
desordenados e no tilintar de taças e pratos.
Vasos áticos de figuras negras e vermelhas (sécs. VI–V a.C.) - Komos aparece como jovem bêbado, muitas vezes: nu ou semi-nu, com coroa de hera ou videira, segurando taça (kylix) ou ânfora de vinho, em procissão festiva (kômos) com músicos e dançarinos. Às vezes ele se confunde visualmente com sátiros, mas sem características animalescas.
Foi na confluência desses
dois mundos, o da sátira de Momo e o da folia de Komos, que a tradição romana
encontrou o modelo do que viria a ser o Rei do Carnaval. A fusão das duas
figuras — Momo, com seu sarcasmo afiado e olhar crítico, e Komos, com sua energia
libertária e festiva — criou uma divindade híbrida, masculina, capaz de
governar o tempo da festa sem que ninguém ousasse questionar sua autoridade
temporária. Durante três dias, ao ritmo das celebrações em honra a Saturno, as
saturnálias, o escolhido para representar Momo encarnava essa síntese: seria ao
mesmo tempo crítico e indulgente, mordaz e generoso, mestre das regras e autor
do caos. Era o único capaz de equilibrar a ironia da crítica com a energia da
festa, transformando o espaço urbano em um teatro de exageros e paradoxo.
O rito de coroação desse Rei
Momo, embora efêmero, refletia a profundidade dessa herança mitológica. O mais
belo soldado da cidade, ou posteriormente o homem mais obeso — símbolo da
fartura e do excesso — recebia a coroa, tornando-se a autoridade suprema do
instante, o anfitrião das transgressões, o juiz e o executor do humor e da
crítica. Mas, ao término da celebração, a morte simbólica do rei lembrava a
fragilidade do poder e a necessidade da passagem: toda autoridade, por maior
que pareça, é apenas um gesto temporário diante da marcha inexorável do tempo.
A fusão de Komos e Momo não
se limitou à festa. Ela simbolizava a união de opostos: a indulgência e a
censura, o prazer e a lucidez, a excitação e o juízo. Essa combinação permitiu
que o carnaval emergisse como espaço onde a ironia e a alegria coexistem, onde
o exagero físico e a crítica social se encontram, e onde o riso é tanto
celebração quanto advertência. Não é por acaso que, séculos depois, a imagem do
Rei Momo atravessaria continentes, aparecendo nas ruas de Sevilha, de
Barranquilla e do Rio de Janeiro, sempre portando a mesma função essencial:
coroar a festa e, ao mesmo tempo, recordar que toda alegria consciente precisa
de sombra para existir.
Assim, Momo e Comos deixaram
de ser figuras isoladas para se fundirem em uma divindade masculina,
transformando-se no símbolo supremo das festas, da desordem e do prazer sem
limites. Era a imagem que seduzia os artistas, que povoava pinturas, relevos e
máscaras, e que transformava cada celebração em uma coreografia ritual de
exagero e sátira. Durante os três dias em que o povo se entregava às
festividades dedicadas a Saturno — os ancestrais do que hoje chamamos carnaval
— o mais belo dos soldados era escolhido para representar Momo. Coroado como
rei, tornava-se a autoridade máxima, anfitrião de toda a orgia, senhor da
transgressão, e guardião do caos cuidadosamente permitido. Ao final,
entretanto, a efemeridade de seu poder era lembrada pela morte simbólica do
rei, uma oferenda de passagem que unia a celebração à consciência da finitude
humana.
Com o tempo, os critérios
mudaram. O escolhido passou a ser o homem mais obeso, símbolo da fartura, do
excesso, da extravagância que transbordava o ordinário.
Na Espanha de 1553, quando a
fé ainda ardia em ritos severos e a noite sabia o gosto do sacrifício, o Rei
Momo surgiu sob a forma de um boneco entregue às chamas. Não era apenas fogo:
era um gesto de misericórdia simbólica, uma tentativa de suavizar antigos
costumes de brutalidade explícita. Ao queimar Momo, queimava-se também a dor
crua, substituindo-a por metáfora — a morte de Cristo encenada não como sangue,
mas como cinza, promessa silenciosa de ressurreição.No ventre febril do
carnaval, Momo tornava-se espelho dos excessos humanos. Sua queima não era
punição, mas catarse: o fogo lavava os pecados da carne, dissolvia risos em
fumaça e devolvia a cidade ao compasso austero da Quaresma. O que ardia ali não
era apenas o boneco, mas a embriaguez coletiva, os desejos que precisavam
morrer para que a ordem pudesse renascer.
Em Cádiz, antiga sentinela
do Atlântico, cidade moldada pelo sal, pelo vento e pelo escárnio, Momo ganhou
voz própria. Tornou-se sátira encarnada, riso afiado, crítica travestida de
festa. Sob sua máscara ardente, zombava-se dos poderosos, das autoridades, da
própria condição humana — tudo com a leveza perigosa do deboche que não fere,
mas expõe. Era uma irreverência quase sagrada, um pacto tácito entre o povo e o
fogo.
À meia-noite da Quarta-feira
de Cinzas, quando o carnaval exala seu último suspiro, Momo é entregue às
chamas. O relógio marca não apenas o fim da festa, mas a passagem do excesso
para o silêncio, do delírio para a contenção. As cinzas caem como neve morna
sobre a cidade, e nelas repousa a promessa de retorno à normalidade — austera,
penitente, necessária.
A tradição persiste,
teimosa e viva. Ano após ano, novos Momo são criados, cada qual mais real, mais
humano, como se a cidade desejasse reconhecer-se naquele corpo condenado ao
fogo. Assim, Cádiz continua a queimar seu “Dios Momo”, não por ódio, mas por amor
ao rito: porque algumas verdades só se revelam quando dançam, e algumas
purificações só acontecem quando ardem. Mais tarde, em Barranquilla, na
Colômbia, o Rei Burlesco reinava nos salões de baile, autorizando a desordem
carnavalesca com bumbos, pratos e maracas, em paródia as cerimônias oficiais
dos vice-reis, devolvendo às ruas o espírito irreverente de Momo, agora
traduzido em ritmo, riso e música.
Ilustração do El Dios Momo, 1886, Biblioteca Nacional da Espanha
Em 1910, sob a lona do Circo
Spinelli, uma opereta escrita e encenada por Benjamin de Oliveira marcou a
primeira personificação do Rei Momo no Brasil. Benjamin de Oliveira,
reconhecido como o primeiro palhaço negro do país, fez surgir em cena essa
figura inaugural, ainda embrionária, como um presságio alegre. Mesmo assim,
somente na década de 1930 o Rei Momo ganhou contornos próximos à imagem
carnavalesca que atravessou o tempo e chegou aos nossos dias.
Em 1933, um grupo de jornalistas do periódico A Noite, no Rio de Janeiro, então capital da República, concebeu um boneco de papelão para desfilar pelas ruas da cidade. Ao fim do percurso, o boneco foi colocado em um trono, conduzindo simbolicamente a folia popular. Recebeu o nome de Rei Momo I e Único, denominação que misturava ironia, invenção e desejo de eternidade. No ano seguinte, em 1934, a equipe de A Noite decidiu substituir o boneco por uma figura de carne e presença real. O escolhido foi o cronista Francisco de Moraes Cardoso, que inaugurou a tradição carioca do reinado momesco. Seu domínio sobre a festa se prolongou até 1948, ano de sua morte, encerrando um capítulo fundador.
Do período que se seguiu à
morte de Francisco de Moraes Cardoso até o início da década de 1970, o Rei Momo
passou a ser escolhido por indicação de agremiações carnavalescas e de veículos
de imprensa, num acordo tácito entre a festa e quem a narrava. Em 1972, um
decreto municipal alterou definitivamente esse percurso e determinou que o Rei
Momo fosse definido por meio de concurso público, estabelecendo um novo modelo
de escolha.
Outras cidades do Brasil
também adotaram a coroação do Rei Momo. Santos foi pioneira no estado de São
Paulo, em 1934. O primeiro coroado no município foi Waldemar Esteves da Cunha,
conhecido como o Magnânimo, considerado o mais antigo Rei Momo do país. Seu
nome atravessou décadas e permaneceu ligado à memória do carnaval até sua
morte, em 2013, aos 92 anos.
No Rio de Janeiro, cidade
que deu início à tradição e cultiva o orgulho do título de Rei Momo I e Único,
destacou-se Reynaldo de Carvalho, conhecido como o Bola, que reinou por nove
anos consecutivos, de 1987 a 1995, estabelecendo um recorde que permanece
intacto. Em 2004, um decreto do então prefeito César Maia encerrou a exigência
de peso mínimo como critério para inscrição no concurso de Rei Momo. O
argumento apresentado foi a política de combate à obesidade, redefinindo os
contornos simbólicos do corpo real da festa e abrindo novas possibilidades para
o trono da alegria.
E ainda, se olharmos para as
tradições mitológicas, vemos que Momo jamais se limitou à esfera humana. Sua
presença acompanha até o próprio desenho do destino. Diz-se que, diante do peso
que a Terra suportava devido à multiplicação rápida dos homens, Zeus,
incomodado, pensou em puni-los de diversas maneiras: fulminar ou afogar a
maioria. Mas Momo, com sua sagacidade infalível, sugeriu um caminho mais
engenhoso: casar Tétis com um mortal, de cujo enlace nasceria Aquiles, e ao
mesmo tempo permitiria que Zeus gerasse Helena, cuja presença provocaria
discórdia entre a Ásia e a Europa, culminando na Guerra de Tróia. A ironia de
Momo não era apenas crítica ou farsa: era uma intervenção estratégica, capaz de
reorganizar o mundo por meio do caos calculado, equilibrando vida e morte,
ordem e transgressão.
No vocabulário humano, o
nome “momo” passou, no século XVI, a significar farsa, sátira e paródia,
registrado em crônicas espanholas que descreviam “grandes e suntuosas festas de
momos”. Tornar-se Rei Momo, o rei da folia carnavalesca, não exigia grande adaptação:
o sarcasmo, a sátira e a burla já eram a essência dessa figura. Assim, o
carnaval, com toda a pompa, a música e o exagero, não inventou Momo. Apenas
vestiu de cores e plumas aquilo que ela já carregava como essência: a
celebração do exagero, a crítica ao excesso e a alegria do olhar penetrante.
Poucos conhecem, porém, o
outro lado dessa divindade. Momo possuía uma beleza rara, quase impossível de
ignorar, mas coberta pela máscara da ironia, aquela que transformava o sorriso
em julgamento, e o encanto em comentário mordaz. Filho de Nix, a deusa da
noite, nasceu entre mais ou menos vinte e um irmãos e irmãs, figuras do
mistério, da escuridão e da luz: Orfeu, senhor dos sonhos; Hécate, guardiã da
magia obscura; outros ainda mergulhados em sombras que poucos ousariam nomear;
e dois irmãos de luz, representantes do bem, da clareza e da bondade que
equilibravam o destino familiar. Esse panteão particular de irmãos e irmãs
revela que Momo não era apenas crítica ou riso: era herança da noite, herança
da sombra, mas também portadora de um lampejo de luz, um equilíbrio tênue entre
o encanto e a corrosão, entre a diversão e a consciência do limite, mesmo
quando ninguém mais parecia perceber.
Na trajetória de Momo, da
mitologia grega ao reinado carnavalesco, há sempre essa tensão entre presença e
máscara, entre beleza e ironia, entre juízo e folia. Momo, filha da noite,
senhora do sarcasmo e do excesso, atravessa séculos para ensinar que rir é
também compreender; que satirizar é, muitas vezes, intervir; e que até o mais
belo e perfeito dos seres precisa de uma sombra para existir.
O DOCE CHIACCHIERE: UM TRIBUTO
IRRESISTÍVEL AO ESPÍRITO DE MOMO
Entre máscaras, serpentinas
e o riso que percorre as ruas, surge um deleite que, sem jamais ter sido
concebido para tal, parece carregar a própria essência de Momo: trata-se do
Chiacchiere. Também conhecido por frappe, bugie ou cenci, ele é uma tradição do
carnaval italiano, um fragmento de história transformado em prazer efêmero. Sua
massa fina, delicadamente frita, estala sob os dentes, polvilhada de açúcar ou
mergulhada em mel, oferecendo uma experiência que vai além do sabor: é um gesto
de transgressão, um estalo de alegria que lembra o riso mordaz e ácido do deus
da ironia.
A história do Chiacchiere
remonta ao Renascimento italiano, especialmente nos salões de Veneza, Roma e
Florença, onde o carnaval florescia com pompa e excessos. O nome, que significa
literalmente “conversa fiada” ou “falatório”, sugere um vínculo simbólico
irresistível com a sátira e o espírito crítico: cada mordida é um pequeno
comentário, um sussurro de travessura que evoca a liberdade da língua solta, do
riso irreverente e da crítica sutil. Embora o doce não tenha sido inspirado por
Momo, podemos imaginar que, ao degustá-lo durante a folia, sentimos a presença
da divindade: o estalo, a leveza e o prazer contêm o mesmo humor ácido que ele
personificava.
O Chiacchiere é apenas um
dos muitos doces que pontuam o carnaval italiano, herança viva das celebrações
que acompanharam séculos de tradições politeístas. Assim como as máscaras e os
desfiles evocavam antigos deuses, rituais e festivais de rua, a confeitaria
carnavalesca transformava farinha, açúcar e gordura em símbolos de fartura,
prazer e transgressão temporária. É nessa tradição que o Chiacchiere encontra
seu charme: não como homenagem intencional a Momo, mas como um lembrete
comestível de sua presença invisível, da ironia que atravessa as festas e da
liberdade que o carnaval sempre celebrou.
Experimentar um Chiacchiere,
então, é mais do que um gesto gastronômico: é tocar com os sentidos uma
história que atravessa séculos. É provar a ironia convertida em doçura, a
crítica transformada em riso, e o instante efêmero da festa transformado em memória.
Nesse pequeno pedaço de massa estaladiça, a tradição carnavalesca se mantém
viva, lembrando que, mesmo quando esquecemos os deuses, sua essência pode se
manifestar nos lugares mais inesperados — na conversa fiada, no riso
compartilhado, e no estalo de um doce entre os dentes.
CONCLUSÃO – O ECO DE MOMO NO
CARNAVAL E NO TEMPO
E assim, ao fechar este
percurso, compreendo que Momo nunca foi apenas um rosto mascarado ou um
personagem festivo. Filho da Noite, irmã de deuses sombrios e luminosos,
guardião da ironia e da crítica, ele atravessou a História como um sopro de
lucidez e riso cortante, expondo falhas e imperfeições com a precisão de quem
vê além do véu das aparências. Nos antigos mitos gregos, Momo julgava todos e
tudo com a perspicácia de quem conhece o limite da criação. Sua expulsão do
Olimpo não foi derrota, mas a afirmação de que a crítica absoluta, como o riso
absoluto, precisa de liberdade para existir.
Quando a tradição romana o
uniu a Comos, deus da festa, nasceu o que chamamos de Rei do Carnaval: a
síntese perfeita entre desordem e lucidez, excesso e consciência, riso e
julgamento. O Rei Momo, coroado e exaltado nos salões e ruas, tornou-se a
personificação da celebração, ao mesmo tempo anfitrião e crítico, rei e bufão,
mestre da orgia e do sarcasmo. Cada gesto da folia, cada passo de dança, cada
máscara que se ergue, é herança dessa fusão: a consciência de que a alegria
mais plena carrega sempre uma sombra de lucidez, e que a liberdade total pede o
contraste da crítica, ainda que suave ou disfarçada.
E mesmo na gula das festas,
Momo permanece. Basta olhar para o Chiacchiere, aquele estalo doce e efêmero,
para perceber a presença invisível da ironia. O simples gesto de morder um
pedaço de massa fina, frita, polvilhada de açúcar, é reencontrar o espírito da
conversa fiada, do falatório ácido, do comentário mordaz e leve. O doce não foi
feito para ele, mas carrega a analogia perfeita: a celebração da vida e do
riso, com todos os excessos e sutilezas do carnaval. Cada Chiacchiere é um
fragmento de História, uma lembrança de que o espírito politeísta, a música de
Comos, e a crítica de Momo continuam vivos em nossas mãos, nossas bocas e
nossos olhos atentos à festa.
No final, Momo não é apenas
lenda, crítica ou figura carnavalesca. Ele é o fio que conecta a antiga
mitologia ao presente, a ironia à alegria, a sombra à luz da festa. Ao
percorrer seus passos — da crítica implacável do Olimpo, à fusão com Comos e ao
reinado efêmero e magnífico do carnaval, até o riso crocante de um Chiacchiere
— sentimos a força de uma ideia que atravessa milênios: que a festa, para ser
verdadeira, precisa de consciência; que o riso, para ser profundo, precisa de
lucidez; que a tradição, para sobreviver, precisa transformar mitos em gesto
cotidiano, e ironia em prazer compartilhado.
Momo permanece, invisível e irresistível, entre máscaras, músicas e doces, lembrando que o mundo, por mais sério que pareça, sempre poderá ser visto com olhos de crítica e boca de riso. E que o verdadeiro espírito do carnaval é exatamente isso: o encontro entre a transgressão e a sabedoria, o riso e a reflexão, a máscara e o rosto que se ergue por trás dela, sorrindo, sempre.
Chiacchiere
Ingredientes (rende cerca de 40 unidades)
500 g de farinha de trigo
tipo 00 — a mais fina e ideal para a textura crocante
70 g de açúcar granulado
50 g de manteiga amolecida
(temperatura ambiente)
3 ovos médios
1 gema adicional para
enriquecer a massa
30 ml de grappa, vinho
branco seco ou licor de sua preferência (confere leveza e aroma)
1 pitada de sal fino
Óleo neutro para fritar
Açúcar de confeiteiro para
polvilhar por cima quando estiver pronto ou calda de açúcar ou mel
Modo de Preparo: Em uma
tigela grande, peneire a farinha e o açúcar juntos. Adicione a pitada de sal.
Faça uma cavidade no centro e coloque os ovos inteiros e a gema. Acrescente a
manteiga amolecida e, se desejar, a grappa ou vinho — isso ajuda a massa a
ficar mais leve e perfumada.
Misture todos os ingredientes inicialmente com um garfo e depois comece a sovar com as mãos até obter uma massa lisa e homogênea, levemente firme. Envolva a massa em pano de prato (ou filme plástico) e deixe descansar por cerca de 20 a 30 minutos à temperatura ambiente — isso facilita esticá-la depois. Polvilhe levemente uma superfície limpa com farinha. Abra a massa com um rolo até que fique bem fina — quase translucente. Corte tiras ou formas retangulares com uma faca ou cortador de massa. Espanhole (faça um corte, ou dois, no centro de cada retângulo) se quiser a forma tradicional. Aqueça óleo abundante em uma panela funda — a temperatura ideal é em torno de 170 °C. Frite poucas unidades por vez para que o óleo não esfrie demais. Ao fritar, os doces vão inchar ligeiramente e dourar por igual. Vire para cada lado até ficarem crocantes e dourados. Retire com uma escumadeira e coloque sobre papel absorvente para eliminar excesso de óleo. Polvilhe generosamente com açúcar de confeiteiro enquanto ainda estão mornos — isso cria a aparência branca de inverno e intensifica o sabor doce.
Dicas e Variações – para Aroma extra: adicionar raspas de laranja ou limão na massa intensifica o perfume e é tradicional em muitas regiões italianas. Versão assada: se preferir mais leve, elas podem ser assadas em forno quente até dourar, mantendo parte da crocância e reduzindo a gordura.




















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