domingo, 26 de fevereiro de 2012

A mais romântica das sobremesas: Poire Belle Hélène

Ontem eu estive em uma comemoração de aniversário e em meio a conversas variadas, surgiu um comentário meio engraçado envolvendo peras... e foi pensando naquela conversa que surgiu o post de hoje...
 Uma vez já ouvi alguém dizer que: “todo mundo deveria ter a oportunidade de provar os clássicos da gastronomia mundial”. E eu devo concordar com esta sugestão. Sereia realmente interessante, se todas as pessoas pudessem se deleitar com as maravilhas clássicas da culinária, acho que o mundo seria mais feliz...
E se eu pudesse indicar um clássico para que iniciassem a degustação, eu indicaria um clássico dos clássicos da culinária francesa, Poire Belle Hélène. 




Minha escolha seria fundamentada em um único tópico: esta é uma especialidade da chamada “ cozinha afrodisíaca", bastante cultuada pelos amantes do romantismo, e geralmente preparadas por pessoas que querem impressionar o (a) amado (a).
Com este nome, Poire Belle Hélène, se pode imaginar que seja algo difícil de preparar. Mas é umas das receitas mais tranqüilas para serem reproduzidas em qualquer cozinha. Trata-se de peras cozidas numa calda, onde se adiciona alguma bebida alcoólica (tradicionalmente vinho ou poire), perfumada com especiarias. E para deixar tudo mais irresistível, é servida na companhia de sorvete de baunilha com uma calda de chocolate quente.
Para muitos a pêra é uma fruta muito sensual... Dizem que ela exibe bem a feminilidade: por lembrar as formas femininas e a doçura das mulheres. Na gastronomia, torna-se uma das frutas mais fáceis para se harmonizar com ervas e especiarias, e assim causar frisson nas papilas gustativas do mais exigente gourmet.  A mistura perfumada de pêra cozida ao vinho e recoberta com chocolate, outro famoso ingrediente excitante para o corpo e a alma, revela que a perfeição é quase possível.
Infelizmente não se sabe o nome do inspirado criador  da "Poire Belle Hélène", embora sabemos que a receita foi criada no século XIX, sob a égide do romance e da sensualidade. Àquela época, o auge do movimento romântico que esteve presente em todas as artes, inclusive na gastronomia, a receita confeccionada por ocasião da estréia da opereta La Belle Hélène (17 de dezembro de 1864),  
Composta pelo alemão Jacques Offenbach, La Belle Hélène é uma versão "caliente" da história dos personagens principais da guerra de Tróia (A guerra teria de  sido originada pelo rapto da princesa espartana Helena, futuramente conhecida como Helena de Tróia, esposa do rei lendário Menelau, por Páris (filho do rei Príamo). Isso ocorreu quando o príncipe troiano foi a Esparta, em missão diplomática, e acabou apaixonando-se por Helena.

Hortese  - a musa de Offenbach
As Operetas eram uma novidade daqueles tempos e Offenbach foi um dos precursores do gênero, tipicamente francês. Também chamadas de óperas ligeiras, as operetas eram pequenas óperas que se  caracterizavam por serem mais leves que as óperas tradicionais (chamadas de óperas sérias), tanto pela música, alegre e viva, como pelo enredo descontraído e diálogos falados entre números de música cantada, o que fez com que, rapidamente, caíssem no gosto popular e obtivessem enorme sucesso. A Opereta é considerada a mãe da moderna "Comédia Musical" - peça teatral cantada, que utiliza atores que também são cantores. Graças a Offenbach, a opereta tornou especialmente popular em Paris, e seu nome imortalizou-se ligado a esse gênero musical.

Jacques Offenbach
Naquela ocasião, a opereta teve como a soberba soprano francesa Hortense Schneider (30 de abril de 1833- 6 de maio 1920) como estrela principal. Hortese já era bastante admirada por ter uma potente voz, e por possuir uma presença de palco inigualável, sem falar no seu talento para os diálogos cômicos atados cheios de insinuações sexuais... Assim, era fácil encontrar os jornalistas daquela época escrevendo coisas como esta, a seu respeito: "É impossível ser mais picante, mais bonita e mais original...".


Sucesso sem precedentes, La Belle Hélène teve mais de 500 apresentações sem que o entusiasmo do público se arrefecesse. As Mais que uma simples reconstituição da famosa história Antiguidade grega, La Belle Hélène era uma sátira erótica e mordaz sobre uma sociedade hedonista, referência direta à alta sociedade que gravitava em torno de Napoleão III. A cena do primeiro ato, que narra um absurdo jogo de charadas vencido por Páris, constitui uma transposição dos jogos de salão comumente praticados na corte. O terceiro ato, que se passa no mar, evoca um dos destinos turísticos prediletos do Imperador. Com "La Belle Hélène, Offenbach legou à posteridade uma outra obra truculenta e colorida, fiel à espírito do Segundo Império


Schneider não possuía uma beleza clássica mas era considerada uma mulher muito sensual, principalmente na sua  vida fora do palco. Sua vida amoras, em particular, foi intensa, repleta de tumultos e recheada com a sucessão de amantes nobres, entre os quais se incluíram o Príncipe de Gales, o futuro Edward VII, Napoleão III e do duque de Morny. As más línguas da época a chamavam de “le passage des princes” (passagem dos príncipes) ou “la divine scandaleuse" (a divina escandalosa). Morreu em 1878, em Paris, aos 87 anos, quatro décadas depois de ter se casado e abandonado os palcos.
 Esta foi a voluptuosa grande artista e polêmica mulher que, ao interpretar nos palcos a bela e passional Helena de Tróia, acabou inspirando um cozinheiro que permanece anônimo na história, mas que graças a seu  feito gastronômico, conseguiu incluir nos menus do romantismo a  sensualíssima Poire Belle Hélene, e conservá-la presente nos cardápios da atualidade.




As origens mitológicas da Guerra de Tróia

O julgamento de Páris
Um dos primeiros elos da cadeia de eventos que formaram o prelúdio da guerra de Tróia foi forjado por Prometeu, o grande benfeitor da humanidade. Prometeu, um primo de Zeus, tinha dado o fogo aos homens, um elemento cujos benefícios tinham tão-somente sido desfrutados pelos deuses. Tinha também ensinado os homens para oferecer aos deuses apenas a gordura e os ossos em sacrifícios de animais, mantendo as melhores partes para eles próprios. Para punir Prometeu, Zeus o acorrentou num alto penhasco nas montanhas e diariamente enviava uma águia para comer seu fígado, o qual voltava a crescer à noite.
De acordo com algumas fontes, Prometeu acabou sendo libertado por Hércules, mas outras dizem que foi libertado por Zeus, quando finalmente concordou em contar-lhe um importante segredo. Este segredo relacionava-se à ninfa do mar Tétis, que era tão bela que contava com vários deuses entre seus admiradores, incluindo Posídon e o próprio Zeus; entretanto uma profecia conhecida apenas por Prometeu predisse que o filho de Tétis estava destinado a ser mais importante que seu pai. Ao saber disso, Zeus rapidamente abandonou a idéia de ser o pai de um filho de Tétis, decidindo, ao invés, que deveria se casar com o mortal Peleu; o filho nascido deles seria Aquiles, o maior dos heróis gregos em Tróia.
Tétis inicialmente resistiu aos avanços de Peleu, assumindo a forma de fogo, serpentes, monstros e outras formas, mas ele a segurava fortemente apesar de todas as suas transformações, acabando por se submeter. Todos os deuses e deusas do Olimpo, menos uma, foram convidados para o magnífico casamento de Peleu e Tétis; no meio da festa, Éris, a única deusa que não tinha sido convidada, entrou abruptamente no local e atirou entre os convidados o Pomo da Discórdia, com a inscrição "a mais formosa". 


Esta maça foi requisitada por três deusas, Hera, Atena e Afrodite. Como elas não conseguiram chegar a um acordo, e Zeus estava compreensivelmente relutante em resolver a disputa, enviou as deusas para terem suas belezas julgadas pelo pastor Páris, no Monte Ida, fora da cidade de Tróia, na orla oriental do Mediterrâneo.
Páris era filho de Príamo, rei de Tróia, mas quando a esposa de Príamo, Hécuba, estava grávida de Páris, sonhou que estava dando à luz a uma tocha donde surgiam serpentes sibilantes, assim, quando o bebê nasceu, foi entregue a uma criada com ordens de levá-lo ao Monte Ida e matá-lo. A criada, entretanto, ao invés de matá-lo, simplesmente o deixou na montanha para morrer; ele foi salvo por pastores, sendo criado para também se transformar em um deles. Enquanto Páris estava vigiando seu rebanho, Hermes levou as três deusas para que as julgasse. Cada uma ofereceu uma recompensa se fosse a escolhida; Hera ofereceu riqueza e poder, Atena ofereceu habilidade militar e sabedoria e Afrodite ofereceu o amor da mais bela mulher do mundo. Conferindo a vitória a Afrodite, acabou incorrendo na ira das outras duas, as quais se tornaram daí para a frente inimigas implacáveis de Tróia. Logo depois, Páris retornou por acaso a Tróia, onde sua habilidade nas competições atléticas e sua surpreendente bela aparência causaram interesse nos seus pais, que rapidamente estabeleceram sua identidade e o receberam de volta com entusiasmo.
A mais bela mulher do mundo era Helena, a filha de Zeus e Leda. Muitos reis e nobres desejaram desposá-la, e antes que seu pai mortal, Tíndaro, anunciasse o nome do feliz escolhido, fez todos jurarem respeitar a escolha de Helena e virem em ajuda de seu marido se fosse raptada. 
Helena de Tróia

Helena casou com Menelau, rei de Esparta, e na época que Páris veio visitá-los tinham uma filha, Hermíone. Menelau recebeu Páris muito bem em sua casa, mas Páris pagou esta hospitalidade raptando Helena e fugindo com ela de volta a Tróia. A participação de Helena nesta situação é explicada de diferentes maneiras nas várias fontes: foi raptada contra a sua vontade, ou Afrodite deixou-a louca de desejo por Páris ou, a mais elaborada de todas, nunca foi para Tróia, e foi por causa de um fantasma que os gregos gastaram dez longos anos em guerra. (Para continuar com o desfecho da história, clique aqui)




POIRE BELLE HÉLÈNE

6 peras firmes (mais pra verdes que pra maduras)
suco de 1 limão
1½ xícara de chá de vinho branco seco ou poire
1 xícara de chá de água
1 xícara de chá de açúcar
1/2 favo ou 4 gotas de essência de baunilha
1 pau de canela
3 grãos de pimenta-do-reino branca ou preta
1 boa pitada de noz moscada

Calda de chocolate

300 g de chocolate ao leite (ou amargo ou meio amargo, conforme a sua preferência)
½ xícara de chá da calda de cozimento das peras
150 ml de creme de leite
1 cálice (50 ml) de poire ou licor de cacau (opcional)
Preparo:
Peras - Descasque as peras mantendo o cabinho. Retire o fundo de cada uma como na foto ao lado. Numa panela grande, coloque a água, o açúcar, a fava de baunilha (se usar essência ela deve ser colocada só depois do cozimento das peras), a canela, os grãos de pimenta-do-reino e leve ao fogo deixando ferver até dissolver todo o açúcar e obter uma calda rala. Quando estiver transparente, retire do fogo e  acrescente o vinho, o suco de limão e coloque as peras em pé dentro da panela. Tampe a panela e leve-a novamente ao fogo, por aproximadamente 30 minutos, ou até as peras ficarem macias. Depois de cozidas, acrescente a noz moscada à calda e banhe as peras com ela antes de retirá-las da panela para que esfriem. Reserve. Passe a calda por uma peneira para retirar os resíduos e reserve. Calda de Chocolate Pique o chocolate e pequenos pedaços com uma faca ou outro instrumento apropriado, tomando cuidado para não se cortar. Coloque o chocolate picado em um refratário e derreta-o em banho-maria (quando a água começar a ferver, desligue o fogo e mexa bem o chocolate até que derreta por igual. A seguir, acrescente meia xícara (chá) da calda de reservada e misture bem até obter um molho homogêneo.     Depois, acrescente o creme de leite e a bebida alcoólica e continue a mexer até homogeneizar completamente. Prepare a calda com antecedência, coloque em um recipiente, feche bem e conserve na geladeira. Na hora de servir, é só reaquecer no banho-maria ou no microondas. Montagem Num recipiente individual (um prato, uma cumbuca ou uma taça, por exemplo) coloque uma pêra, uma bola de sorvete de creme e regue com a calda de chocolate quente (o que sobrar é bom ir à mesa, quentinho, numa molheira, afinal, chocolate todo mundo sempre quer mais um pouquinho). Se quiser incrementar um pouco mais, acrescente chantilly e amêndoas fatiadas torradas . Sirva em seguida.
Dica: Existem muitas formas de se servir a Poire Belle Hélène. Inteiras como nessa receita, ou partida ao meio, ou ainda fatiada. Escolha a da sua preferência. O importante é degustá-la com prazer. Para acompanhar, o melhor champagne ou espumante que você puder conseguir é uma boa pedida. Se brut, demi-sec ou doce fica a seu critério - a melhor bebida é aquela que a gente gosta.

Um comentário:

  1. Bom dia. Estava procurando um outro modo de preparo da Pera Belle Helene e acabei deparando com seu blog. Muito bom. Parabéns. Por hoje vou ficar só a ver a Pera Belle Helene mas com certeza me despertou vontade em dar um PASSEIO por mais tempo pelo blog. Mas está de parabéns.

    MAZOLA ( Juiz de Fora , MG )

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