quinta-feira, 19 de julho de 2012

Sabores da Tradição - Entrevista com Claylson Martins


O que é a gastronomia? Com certeza, não é somente um meio para se alimentar e sobreviver. É ao mesmo tempo, cultura, história, religião, educação e, ao mesmo tempo, um sistema de comunicação, um corpo de imagens, um protocolo de usos, de situações e de condutas.
Quando nos dedicamos aos estudos da gastronomia, ou mesmo da alimentação, podemos observar a presença da economia, das tecnologias, dos usos, das  representações culturais da vida social de uma dada população
A comunicação tem um papel importante para a alimentação, pois foi através dela que se conhecem as famosas receitas típicas das sociedades, os utensílios, os moveis e a própria evolução social do homem – que se deu quando ele saiu do nomadismo, descobriu o fogo, aprendeu a preparar os alimentos de outras maneiras e desenvolveu técnicas de caça, pesca e a agricultura.
É justamente através da comunicação que podemos observar como as condições históricas, geográficas, ecológicas, climáticas, sociais, econômicas, técnicas e culturais interferem e condicionam a culinária das sociedades. A partir desta premissa captada na antologia gastronômica expressa pelos cadernos de receitas, por exemplo, podemos traçar fabulosas viagens por infinitos ingredientes, temperos, aromas, cores e sabores, festas e alegrias em tempos de abundância e escassez, mitos e tabus, iguarias como obras de arte, todas assentadas na diversidade material e cultural de uma determinada sociedade.
Por este mesmo motivo, esta Confraria tem o orgulho de trazer até vocês um profissional da comunicação como o primeiro entrevistado do Projeto Sabores da Tradição. O entrevistado de hoje é o Sr. Claylson Ferreira Martins, membro do Departamento de Relações Internacionais da Federação Nacional de Jornalistas FENAJ, e Presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará.


Claylson Martins 
Clayson é um amigo que conheci algum tempo atrás, quando eu ainda morava em Aracati-CE. É defensor da criação de conselhos de comunicação no âmbito regional e que está fazendo um trabalho intenso junto ao Congresso Nacional para que seja aprovada a Proposta de Emenda à Constituição – PEC 33/09, que reza sobre a obrigatoriedade do diploma de Jornalista, cujo relator é senador Inácio Arruda (PCdoB).
A partir de agora vamos conhecer um pouco mais sobre esta personalidade:

Barão de Goumandise (BG): -  Pra quem não lhe conhece, diga quem é você?

Claylson Martins (CM): - Sou Claylson Martins, jornalista, atualmente em Brasília a serviço da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) onde atuo no Departamento de Relações Internacionais. Nascido em Aracati, onde morei até meus 12 anos. Depois, me mudei para Fortaleza.

BG: - Você tem raízes numa das cidades históricas do Ceará, Aracati, terra da internacionalmente famosa Praia de Canoa Quebrada. Assim, me diga: qual sua memória gustativa dos tempos em que viveu naquela cidade?

CM: - A pergunta não é tão fácil. São muitos sabores e cheiros da comida feita ainda no fogão a lenha de uma tia, irmã de minha avó que ajudou na minha criação. O sabor caseiro da carne de sol com macaxeira e do tempero do feijão, além de frutas como a ata (pinha ou fruta do conde, sapoti e graviola). Ou, ainda, duma galinhada com uma saborosa farofa (qual cearense resiste?) e um peixe frito das praias de Majorlândia, Canoa Quebrada e Quixaba. Parecem ter um sabor especial na praia.

BG: - Como é a vida de um profissional da comunicação?

CM: - É uma vida agitada, corrida. Precisa ler muito, escrever muito, conhecer de tudo um pouco. enfim, tem melhorado a formação nos últimos anos mas o mercado cearense é pequeno. Hoje, os grandes empregadores são os órgãos públicos. A maioria faz parte de assessorias de imprensa ou de comunicação. Paga-se melhor e o trabalho não é tão estressante quanto nas redações.

BG: - Como atual presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado do Ceará e membro da Federação Nacional de Jornalistas, me diga como anda o Jornalismo no Brasil e particularmente, no CE?

CM - Tem uma grande diferença de Fortaleza para Brasília, não só pelo clima, pessoas e a cidade em si, mas também no mercado. Aqui, há mais oportunidades de emprego, mas também achei a exploração maior. Trabalha-se até 10 horas por dia, entrando às 10h e saindo entre 19h e 20h. Ganhando o mesmo por 5h de trabalho, seis dias da semana em Fortaleza. Sem contar que aí ainda tem muita carteira assinada e aqui, somente pessoa jurídica, tendo o jornalista que abrir uma empresa e perder vários direitos. Essa precarização das condições de trabalho, baixos salários e carga horária excessiva ocorrem em todo o país e a luta é reverter isso. Não é fácil. O STF derrubou a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão e piorou ainda mais as coisas para quem está começando agora. Mas estamos confiantes nesta mudança para melhor com a aprovação de uma PEC no Senado.

BG: - O que você diria a respeito do jornalismo gastronômico?

MC: - Olha, eu acho esse bem superficial e ainda em guetos. Encontro pouca coisa sobre, a não ser revistas e sites especializados.

BG: - Durante minhas pesquisas, ao longo de vários anos, sempre me deparei com jornalistas falando nas mais variadas mídias de seus hábitos alimentares, mostrando os empreendimentos de restauração (restaurantes, bares, botecos, cafeterias) como locais onde eles recorrem para se alimentar na maior parte das vezes. Pergunto-lhe: você também é adepto da “rua” como o lugar para fazer a maioria de suas refeições?

MC: - Não, sempre que posso eu mesmo preparo minha comida. De vezem quando dou uma espiada de leve em receitas e pratos diferentes, mas não os sigo à risca. Improviso. Faço questão de almoçar comida caseira, feita na hora. Nem que seja um simples frango assado com batatas. Sempre dá para aprimorar com uma manteiga, um molho, um tempero diferente. Além do mais, não como carne vermelha há algum tempo, o que só me trouxe ganhos à saúde. Estava com colesterol ruim alto, ácido úrico idem. E só houve melhoras depois disso e da diminuição a carga de estresse. Na rua, gosto apenas de uma esfirra ou um petisco mais leve, principalmente caldos de peixe e de frango à noite.

BG: - Muita gente tem o habito de comer na frente da televisão. Você é assim?

MC: - Onde moro é inevitável comer sem estar de frente à TV. Mas gosto sim de fazer isso, desde que eu possa apreciar o sabor da comida. Mastigo bem, aprecio muito os sabores.

BG: - Já teve uma ótima refeição interrompida por uma Noticia bombástica? Se sim, pode nos contar como foi?

MC: - Não, não ocorreu ainda. Mas sei qual sria minha reação. Perderia o apetite na hora e deixaria de comer.

BG: - Você cozinha ou é do tipo que só é bom de garfo? (se cozinha, qual sua especialidade)

MC: - Não como muito, curiosamente. Como pouquíssimo na hora do almoço. Adoro preparar comidas, como falei antes mas não tenho muita paciência, nem tempo, pois tem que lavar pratos, panelas e isso me desestimula a fazer mais. Mas adoro também fazer doces, como o de leite e pudim. Também estou observando uma receita de manjá da minha tia que mora aqui em Brasília.

BG: - Qual prato que você identificaria como o sabor da sua tradição, da sua família?

MC: - Peixe. De todos os modos mas principalmente a peixada cearense.

BG: -  Considerando que a mesa é um lugar onde se deve partilhar, além de uma boa conversa, as delicias gastronômicas com as pessoas que se gosta, quem você convidaria para um pequeno encontro gastronômico para que juntos pudessem degustar o sabor da sua tradição?. Justifique sua resposta,

MC: - Depende muito da ocasião. Tem umas em que seria melhor a família presente. Gosto muito de rever parentes que moram distantes e vou logo querendo provar do tempero diferente da comida. Engraçado que só me dei conta disso agora. Provar da comida de cada lugar visitado, seja com amigos, seja com a família. Adoro a culinária mineira e goiana, por exemplo. E também do Rio Grande do Sul. Mas acho que para um pequeno encontro gastronômico, eu convidaria os amigos mais próximos. Assim, eles poderiam ser sinceros nas respostas sobre a comida e também em relação a outros assuntos. Rsrsrs,

BG: - Aperitivo: gostaria de falar mais alguma coisa antes de encerrarmos?

MC: - Falou-se muito em comida mas não poderia deixar de registrar minha predileção pelos vinhos. Num encontro gastronômico, ele não pode faltar, de jeito nenhum. Meu preferido é o português mas gosto muito do chileno também. Aprendi a apreciar em uma viagem ao Chile. Também não posso esquecer da nossa tapioca, agora com vários recheios. Mas aquela molhada ao leite de coco já é suficiente. Não deixo de provar por nada quando vou ao Ceará, além das castanhas de caju torradas, mel de caju e suco de murici.

BG: - Pode nos revelar a receita do seu sabor da tradição?

MC: - O meu sabor da tradição:

Peixada Cearense

1 kg de peixe fresco ( prefiro guaiúba ou pargo)
3 tomates
1 cebola
3 batatas inglesas descascadas
2 cenouras limpas e cortadas em rodelas
2 pimentões cortados em rodela, sem sementes.
3 colheres ( chá) de maizena.
1/2 xícara (café) de colorau
2 ovos inteiros e cozidos
1 xícara (chá) de coentro, salsa e cebolinha picados

Preparo: Limpe e corte o peixe em postas. Tempere com sal, a gosto. Faça, à parte, um refogado com o tomate, a cebola, o colorau e o cheiro verde. Acrescente água ao refogado somente para cobrir o peixe. Quando o refogado estiver fervendo acrescente o peixe em postas e deixe cozinhar. Cozinhe, em uma outra panela, as batatas, a cenoura, os pimentões e 2 tomates cortados em gomos. Reserve. Quando o peixe estiver quase cozido, retire um pouco do caldo para fazer um pirão. Acrescente ao caldo restante na panela do peixe, 3 colheres de maizena dissolvida em água fria e deixe o molho engrossar. Após,
Acrescente os ovos cozidos cortados em gomos, os legumes, os pimentões e os tomates já cozidos. Sirva quente com o pirão.

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