sexta-feira, 8 de abril de 2011

Os Pães de Coco Cearense e a Chag HaMatzot (Festa dos Pães Ázimos)

Aqui no  Ceará a Semana Santa tem uma peculiaridade: o Pão de Coco
Misturando religiosidade com um sabor típico do Nordeste, o pão de coco é quase que comparável, em vendas, aos ovos de chocolates. Dizem alguns, que ele tem o significado da repartição, da divisão que os cristãos devem cultivar dentro de cada um e relembrar a Santa Ceia do Cristo.

Mas será realmente este o significado? Talvez haja mais coisa nesta significância de pães na páscoa. E é sobre isso que hoje esta confraria irá tratar.
Na tentativa de achar alguma fundamentação teórica local para a presença do pão de coco nas mesas cearenses, no período da semana santa, percorri muita bibliografia e não achei nada concreto nem decisivo que me permitisse citar uma possível data que serviria de marco para o início desta tradição cearense.
O fato é que ela existe. Mas não se sabe quem, nem quando ou como, ela surgiu nestas terras alencarinas.
Contudo, é bem provável que a religiosidade do povo cearense deva ter buscado em antigos textos  bíblicos a inspiração para a tradição de comer e doar o pão de coco no período pascal.
Sabe-se que antes do Cristo já existia uma data comemorativa antiga que se chamava Chag HaMatzot (Festa dos Ázimos, ou dos  Pães Sem Fermento), e que ela vinha anexada á páscoa daquela época, como veremos a seguir.


A Páscoa é uma festa antiga, surgida no século 12 a.C Sendo originalmente uma celebração judaica onde se comemora, até hoje, a fuga da escravidão do Egito liderada por Moisés. Tornou-se uma celebração também cristã (com sentido diferente: o da ressurreição do Cristo) por conta de um pequeno detalhe: Jesus era judeu e como tal respeitava suas tradições (nem todas, é verdade).
E foi justamente na páscoa, quando Jesus estava à mesa com os apóstolos, repartindo o pão ázimo (sem fermento) que de acordo com a simbologia judaica, Ele introduziu um sentido único para os cristãos: ao repartir o pão e beber o vinho, Ele pediu que lembrassem d’Ele, especialmente dos seus ensinamentos.
"Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim, de modo algum terá fome, e quem crê em mim jamais terá sede." (João 6:32-35)
Foi aí também que Jesus disse para Judas:

"Cara, é hora de você mostrar serviço; Tá no tempo de você  fazer aquilo lá que  você já sabe o que é. Mas liga não, que só vão descobrir isso daqui a 1.940 anos”.

Tendo dito essas coisas, disse Jesus aos seus discípulos: -- Como vocês sabem, estamos a dois dias da Páscoa, e o Filho do homem será entregue para ser crucificado.
No primeiro dia da festa dos pães sem fermento, os discípulos dirigiram-se a Jesus e lhe perguntaram: "Onde queres que preparemos a refeição da Páscoa?"(Mateus 26.1-2, 17)
A pergunta dos discípulos ("Onde queres que preparemos a refeição da Páscoa?" – verso 17) mostra como eram comemoradas as festas judaicas anuais Chag HaMatzot (Festa dos Ázimos, ou dos  Pães Sem Fermento) e da Páscoa. Ambas são celebradas integradamente, embora nem sempre tenha sido assim.
Em certo sentido, a Festa dos Pães Ázimos passou a fazer parte da Festa da Páscoa, mesmo porque seus simbolismos são muito próximos. Ela surge como uma celebração para recordar a saída do povo hebreu do Egito em direção a Canaã. E citações sobre este tema são encontrados por toda  a bíblia; Levítico 23.6-8; Números 9.1-2; Números 28.16-25; Deuteronômio 16.1-8; Êxodo 12.31-32, 50-52; Números 9.4-5, 33.3; Hebreus 11.28; Josué 5 .10-11; 2Crônicas 30.1-27; 2Reis 23.21-22; 2Crônicas 35.1-18; Esdras 6.19-22.

Estas leituras (longas e necessárias) nos mostram claramente o lugar que a Páscoa ocupava na vida religiosa dos hebreus. Pelo que lemos no Antigo Testamento, ficamos sabendo que, junto com as Festas dos Tabernáculos (Cabanas) e do Pentecoste, a Páscoa com a Festa dos Pães Ázimos  era uma das três principais datas festivas dos hebreus.
É para ser celebrada no dia 15 do mês Nisan ou Abib (dia da lua cheia), o primeiro do calendário hebraico. Era compulsório para todo judeu que a morasse a 25km da cidade visitasse Jerusalém. Ao tempo de Jesus, entre 100 mil e 250 mil peregrinos, próximos e distantes, agrupados, se achegavam à cidade, onde se hospedavam sobretudo na casa de parentes ou acampavam nas colinas ao redor.
Não surpreende, portanto, que Jesus tenha participado de várias delas. Durante sua infância, sua família o levava à festa. Numa delas, estava com 12 anos (Lucas 2.41). Em outra, estava no início do seu ministério (João 2.13). Deve ter participado de outra (João 6.4), antes da última.
No tempo de Jesus, a festa dos pães ázimos era parte inseparável da Páscoa , e se iniciava com uma refeição a partir do pôr - do- sol da quinta-feira (já considerada sexta-feira no modo hebreu de marcar o dia).  Era uma festa familiar, em que não podiam faltar os seguintes ingredientes:


·         Ervas amargas (Maror) – para lembrar a amargura do deserto;
·         Ovo (Betsah) – que representa o sacrifício e o renascer de Israel
·         Salsa (Karpas)  - representando a fartura da Terra Prometida;
·         Uma mistura de nozes, vinho, canela, maçã ou tâmaras (Charosset) – representava o barro com o qual os israelitas faziam os tijolos no tempo da escravidão no Egito;
·         Água salgada  - não só representando o mar mas também para molhar o Maror ;
·         E um osso de cordeiro (Zeroah) – que representa o cordeiro sacrificado, cujo sangue foi colocado na soleira da porta, para que o anjo da morte não entre naquela casa, quando passar para matar os primogênitos do Egito;
·         Vinho para lembrar as promessas de Deus (Êxodo 6.6-8).

Tudo isso, foi seguido por Jesus e seus discípulos e já era uma prescrição de muitos séculos anteriores a eles.
A Páscoa era uma cerimônia do Templo, mas também das famílias. Possivelmente, os discípulos prepararam a refeição pascal com estes ingredientes. Pode ter havido algumas diferenças entre este cerimonial e o de Jesus. Pois as narrativas daquela noite não detalham a ingestão de cada um deles, que parece pressuposta, mas estão narrados os momentos da partilha e consagração do pão e do vinho, possivelmente pela relação com a Ceia em memória de Jesus Cristo.
Ao participarmos da celebração da Ceia de Jesus, precisamos ter em mente que, se a Páscoa hebraica é a recordação da travessia do povo do medo para a liberdade, do deserto para a terra fértil, a Páscoa cristã (com seus três elementos: paixão, morte e ressurreição) também recorda a nossa travessia da escravidão ao pecado à liberdade na graça, da insegurança no deserto para a segurança no colo de Deus. A Páscoa judaica é o poder de Deus em ação para libertar um povo. A Páscoa cristã é o poder de Deus em ação para libertar todos os que crêem em Jesus como o Messias que veio para salvar.


O Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha. (1 Coríntios 11.23-26)

Diante deste cenário, não seria difícil de entender como a tradição do  pão do coco cearense pode ser fundamentada na religiosidade local, onde a maioria católica faz suas reverencias a ressurreição do Cristo. O que poderia ter feito a tradição continuar viva ao longo dos anos.
 O fato é que uma tradição antiga chegou ao ocidente e nestas terras cearenses se modificou, juntou ingredientes locais que a partir de uma receita antiga  se transformou em um ícone de confraternização.
O pão de coco cearense merece mais estudos e eu mesmo devo estar continuando minhas pesquisas sobre o tema.

Matzáh de Frigideira

Adicionar legenda
 1 xícara de farinha de trigo
1/2 colher de chá de sal
Água morna

Numa tigela misture a farinha e o sal, adicione a água aos poucos, até obter uma massa elástica que desgrude das mãos. Deixe descansar por 15 minutos
Separe a massa em 4 bolinhas. Espalhe a massa com ajuda de um rolo até a espessura de um papel (polvilhe bastante farinha para a massa ficar sequinha)
Disponha a massa numa frigideira antiaderente, em fogo médio. Deixe dourar de um lado, vire e deixe dourar o outro. Recheie a gosto

Pão Ázimo 

500g de farinha de trigo
Água na temperatura ambiente
1 colher de sopa de açúcar
1 colher de sopa rasa de sal
1 xícara pequena de azeite ou óleo

Misture a farinha com todos os ingredientes. Ponha a água aos poucos e sove até obter uma massa homogênea. Coloque a massa num saco plástico e deixe-a descansar durante 15 minutos.  Retire pequenas porções da massa e estique com um rolo até que ela fique bem fininha, quase transparente. Mantenha a massa restante fechada no saco plástico para não ressecar. Pegue a massa esticada com a almofada que acompanha a forma e, segurando as laterais, estique novamente a massa para que ela fique arredondada. Ainda com a ajuda da almofada, coloque a massa na chapa aquecida. Com um garfo, faça bastante furinhos na massa para que não faça bolha. Use fogo baixo. Vire a massa várias vezes até que ela atinja o ponto desejado. O Pão Ázimo somente gruda na chapa se ela estiver muito quente. Deixe as beiras do pão tão fina quanto o restante da massa para que o pão não encolha e saia com um bom diâmetro. Em pouco tempo você domina e consegue tirar pães de ótima aparência.

Pão de Coco

1 kg de farinha de trigo
1 copo (americano) de óleo
2 ovos
1 xícara de açúcar
1/2 colher (sopa) de sal
3 copos (americanos) de leite morno
50 g de fermento biológico
200 g de coco ralado


Preparo: Dissolva o fermento com o açúcar e deixe descansar por 5 minutos, em seguida acrescente os ovos, e os ingredientes líquidos, junte os ingredientes secos e misture bem até desgrudar das mãos – acrescente mais farinha se necessário. Sove bem a massa para que ela fique lisinha e deixe descansar até dobrar de volume, umas 2-3 horas, amasse novamente, modele o formato do pão como desejar e deixe descansar por mais uma hora.  Assar até ficar dourado. 


Um comentário:

  1. Mr. Le Baron
    Revendo a história e buscando mais informações, percebi que cometi um erro ao afirmar que o João de Barros poderia ter trazido as mudas de coco pra cá,até porque ele não chegou a desembarcar por aqui. Mas, fui olhar mais, e, acredito que tem umas famílias que aqui vieram lá por volta dos anos 70 do século XIX, mas, eu vou pesquisar mais...ahh a amiga Iara, lá da Argentina, me falou da tradição que era distribuir os pães de coco.Isso vem de longe então!!!
    Meu caro, mais uma vez minhas desculpas pela falha histórica!
    saudações pascoais!
    Baronesa do Cratinho de Açucar

    ResponderExcluir