Dia desses — embora não
fosse a primeira vez — fui convidado para um evento elegante, meio íntimo, onde
eu não conhecia o anfitrião e a maioria das presenças permanecia anônima aos
meus olhos. Sempre detestei esses convites: a sensação de entrar num mundo
desconhecido me deixa na defensiva, escondido atrás de mim mesmo, observando
cada detalhe como um arqueólogo da presença alheia. Primeiro, o ambiente.
Depois, as pessoas. Por fim, só então, quando o espaço já me parecia
decifrável, eu me permito soltar.
O problema é que sou
prolixo; gosto de explorar as minúcias, de demorar-me nas cores, nos gestos,
nos tons. E, invariavelmente, quando percebo, tudo já acabou. Mas naquela
noite, tentei acelerar o processo — acelerar o entendimento do espaço, do
silêncio, da música.
O salão não era pequeno;
pelo contrário, parecia expandir-se à medida que meus olhos percorriam cada
detalhe. Pessoas selecionadas, impecáveis, cada presença carregando sua própria
aura de distinção silenciosa.
A comida — meticulosa,
artística, quase como se cada peça tivesse sido moldada à mão por mãos
invisíveis que conheciam o segredo das gerações — ocupava a mesa do buffet com
uma presença quase teatral.
Pães de diversas formas e
cores, alguns crocantes, outros macios, se misturavam a frutas secas, patês
delicados e gravlax de salmão, perfumado com um endro picadinho que parecia uma
pincelada de frescor sobre a superfície do peixe. Tudo disposto com um cuidado
que convidava à contemplação: cores, texturas, brilhos, aromas — cada detalhe
falava de tradição, de viagem, de história.
E ali, só naquele buffet, já
me sentia saciado de descobertas, com o corpo e os sentidos envolvidos. Mas meu
estômago curioso sabia que aquilo era apenas a abertura; que depois viria o
jantar, que ainda se escondia nos bastidores, prometendo outra sequência de
prazer e surpresa, e eu, impaciente, aguardava para me deixar atravessar por
ele.
As bebidas não se limitavam
a vinhos — havia uma infinidade delas, cada uma contando sua própria história
líquida. Tintos profundos e densos, que escorriam nas taças como rios de rubis,
prometendo calor, memórias e um deleite quase sagrado. Brancos frescos e
cintilantes, espumantes que estalavam como pequenos fogos de artifício na boca,
cada bolha um lampejo de festa suspensa. Uísques envelhecidos por décadas, que
pareciam sussurrar segredos de carvalhos antigos e silêncios guardados, e gins
perfumados com botânicos tão delicados que quase poderia borrifar um pouco no
pescoço como perfume.
As taças eram pequenas obras
de arte: cristal reluzente, alguns com bordas douradas, outros com facetas que
refratavam a luz em minúsculos diamantes; detalhes que faziam qualquer gesto de
erguer a taça parecer um ritual. Cada bebida parecia ter sido escolhida não
apenas para beber, mas para ser admirada, sentida, quase venerada. E enquanto
observava tudo isso, era impossível não perceber que cada aroma, cada cor, cada
nuance de sabor, se entrelaçava com a música, com as conversas, com o calor
humano do salão — tornando o simples ato de beber algo próximo do sublime.
A trilha sonora era familiar
o suficiente para que eu pudesse cantarolar baixinho, cada nota despertando
lembranças dispersas como borboletas assustadas — memórias que flutuavam no ar
e se fixavam em cantos inesperados do meu ser. Lentamente, meu corpo cedeu à
festa, àquela dança silenciosa de presença e percepção: sentei, sorri, ouvi,
senti, provei, bebi. Cada gesto parecia calibrado, quase ritual, cada sabor
explorado com a curiosidade de quem decifra mapas secretos.
E, para alguém como eu,
taurino, sensível aos prazeres do mundo material, a combinação de comida e
bebida assim — cuidadosa, generosa, intensa — era quase o paraíso: uma espécie
de êxtase silencioso que se espalhava por todos os sentidos, deixando-me vulnerável
à beleza do instante, e ao encantamento que ele carregava consigo.
Nas rodas de conversa,
embora ainda envolto no meu casulo de análise, alguém me olhou, me perguntou
algo, e eu respondi. Não apenas com palavras, mas com pequenos fragmentos de
mundo que o outro não conhecia, conexões sutis que só meu repertório permitia.
E, aos poucos, algo curioso
aconteceu: Eu, que começara a noite como tímido e observador, virei fio
condutor de pequenas tempestades de ideias. Me puxaram para outras rodas, e
outras, e outras. Até o fim da noite, estive em cada canto, falando de tudo — envolvido
em conversas que flutuavam do trivial ao insólito, debatendo desde a eficácia
poética de cebolas caramelizadas, das invenções esquecidas que outrora animaram
as feiras medievais, aos mistérios do último eclipse que ninguém mais parecia
lembrar, passando pela surpreendente arte de combinar queijos azuis com frutas
secas ou o delicado protocolo de se servir um coquetel de camarão sem parecer
anacrônico.
Cada conversa era um palco
improvisado, e eu, inadvertidamente, o maestro de improvisos: arrancava risos
com observações triviais que, por algum capricho, soavam como epifanias;
lançava comparações absurdas — quem imaginaria que um relógio de parede pudesse
ensinar mais sobre paciência que um livro de filosofia? — e, de repente, toda a
diversidade ao meu redor parecia convergir em uma corrente invisível de atenção
e fascínio.
O improvável se tornava
normal, o antigo se reinventava em cada palavra, e eu, sem perceber,
experimentava a estranha alegria de ser, ao mesmo tempo, observador e
catalisador, minúcia e espetáculo.
E, claro, não lembro de tudo
— foram tantas palavras, tantos risos, tantos detalhes que se entrelaçavam com
cada gole. Entre uma taça e outra, o sutil poder etílico de Baco nos envolvia,
sussurrando promessas de leveza e riso, enquanto o vinho escorria e tingia o
tempo com cores suaves e quentes. Por sorte, mantive-me na tênue linha entre a
indulgência e a consciência; justo o suficiente para absorver cada gesto, cada
história, cada aroma, e perceber a noite em toda a sua plenitude até o último
instante, sem que nada se perdesse no excesso.
Entre risos, comentários e
pequenas epifanias, percebi que minha presença, quase sem esforço, começava a
costurar mundos improváveis com palavras. Cada detalhe — por mais minúsculo,
absurdo ou inesperado que parecesse — ganhava vida própria na mente de quem
ouvia, como se pequenas fagulhas se acendessem em silêncio, iluminando cantos
escondidos da imaginação alheia.
Em uma roda, me apelidaram
de “Pedra Filosofal”; noutra, disseram que eu tinha o dom de “tirar leite de
pedra”. Cada elogio soava como um eco curioso, uma nota fora do lugar que, no
entanto, se harmonizava com o ritmo da noite.
Em uma roda onde o anfitrião
me observava, enquanto meus olhos se perdiam nos detalhes da louça e no
cintilar dos cristais, ele falou:
— Fico feliz que esteja se
sentindo à vontade. Aliás, quero lhe dizer… e agradecer pela ajuda.
Sorri, enigmático, tentando
decifrar por dentro: de que ajuda ele estaria falando? Então completou, com uma
suavidade que atravessava a mesa como um sussurro:
— Seu repertório é tão rico
que conseguiu unir todos aqui. Toda a diversidade, todas as conversas, tornaram
o ambiente mais vivo. Vou chamá-lo mais vezes.
Agradeci, ainda intrigado,
sem saber se aquilo era elogio, ironia ou surpresa — mas, no fundo, percebi o
essencial: minha presença, meus detalhes, minhas referências — por mais
improváveis ou fragmentadas que fossem — haviam encontrado eco. Haviam se entrelaçado
com a curiosidade alheia, despertado sorrisos, risos contidos, pequenas
epifanias. E isso, pensei, era magia suficiente para uma única noite: uma magia
feita de palavras, gestos e atenção, silenciosa e efêmera, mas que deixava
rastros invisíveis de conexão no ar.
Aprendi desde cedo, entre
livros e viagens — e a decisão de me formar em turismo não foi acaso — que
referências são riquezas silenciosas. São tesouros que se acumulam lentamente,
invisíveis aos olhos, mas capazes de abrir mundos inteiros. Uma referência não
se perde; ela permanece, silenciosa, pronta para se tornar ponte, fio condutor,
luzinha no escuro. É a memória que conecta histórias, lugares, sabores e
pessoas — e que nos permite transformar qualquer encontro, por mais simples que
pareça, em algo memorável.
É exatamente sobre isso que escrevo hoje: referências e identidade. Pela minha maneira de perceber o mundo, pelo meu olhar atento, pelo modo como colho fragmentos de vidas, memórias e sabores — e, claro, pelo viés gastronômico. Pois sem essa lente particular, esse corpo de sentidos e curiosidade, eu simplesmente não seria eu.
REPERTÓRIOS QUE CRIAM MUNDOS: REFERÊNCIAS
E A ARTE DE PRESTAR ATENÇÃO
E foi nessa noite, entre
taças cintilantes, risos que se espalhavam como pequenas fagulhas, e detalhes
que dançavam sob a luz dos cristais, quando cheguei em casa me dei conta de
algo fundamental: a atenção, o cuidado com o mundo à nossa volta, os gestos que
carregam história, memória e sensibilidade, têm um poder silencioso. Cada
conversa, cada aroma, cada textura que observei naquela festa era, na verdade,
um pequeno universo de referências esperando para ser reconhecido. E foi
exatamente ali que entendi: prestar atenção não é apenas notar, é absorver,
conectar, permitir que essas pequenas riquezas silenciosas se tornem parte de
nós — e que, quando compartilhadas, transformam o espaço e as pessoas ao redor.
Foi numa aula de cartografia, na faculdade de turismo, que tudo mudou. Nos pediram para analisar a granulometria da areia das praias e dos lugares que visitaríamos numa viagem técnica — para quem não conhece, granulometria é o estudo da textura, do tamanho e da distribuição dos grãos que compõem uma superfície.
Cada tipo de areia diz
algo sobre o lugar: se é firme ou solta, se o mar a moldou com força ou
delicadeza, se suporta construção, se acolhe passos ou escorrega sob eles. Mais
do que isso, cada areia traz um conforto distinto: há grãos que se ajustam ao
corpo, acolhem-no; há outros que picam, deslizam, desafiam. E, considerando uma
praia, é algo a se pensar quando se pretende passar um dia deitado na areia,
entregue ao sol ou ao vento — o tipo de grão transforma a experiência inteira,
mesmo sem percebermos.
Aprendi, naquele instante, a
perceber o mundo não como uma massa uniforme, mas como um mosaico de partículas
únicas, cada uma carregando sua própria história, cada grão sussurrando,
silenciosamente, algo sobre a origem, o tempo e a memória do lugar de onde
veio. Foi ali que meus olhos, antes distraídos, começaram a se abrir para a
riqueza das minúcias, e meu modo de observar o mundo jamais seria o mesmo.
Enquanto examinava a areia,
deslizando os dedos sobre os grãos, senti algo despertar em mim. Foi como se,
pela primeira vez, meus olhos fossem convidados a ver o mundo em detalhes
minúsculos, invisíveis à pressa cotidiana. Cada textura, cada placa, cada bilhete
abandonado, cada sombra e reflexo tornou-se mapa, segredo, convite. E a partir
daquele instante, meu olhar nunca mais foi o mesmo.
Foi assim que nasceu uma
obsessão que me atravessa com a intensidade íntima das coisas que não se
escolhe, mas que simplesmente exigem espaço dentro de nós: referências. Elas se
acumulam silenciosas, discretas, mas poderosas, transformando o ordinário em
extraordinário, permitindo que tudo ao nosso redor — lugares, pessoas, aromas,
sabores — se conecte em uma rede invisível, cheia de significados.
Hoje, para mim, há um quase
êxtase, uma atração suave e inevitável, em observar alguém que carrega
referências no corpo, nos gestos, no olhar — como se cada movimento fosse um
mapa silencioso de histórias e lembranças. São pessoas que estão plenamente ali,
desperta, presentes, respirando com a mesma atenção com que um artesão acaricia
suas ferramentas, conhecendo cada detalhe, cada nuance. Gente que presta
atenção ao mundo: ao sabor do que come, à cadência do que ouve, à delicadeza do
que o outro sente — e reconhece, mesmo no silêncio, o menor tremor de vida ao
redor, como se pudesse sentir o pulso invisível do mundo batendo junto ao seu
próprio.
Minha mãe sempre repetiu que
a pessoa mais interessante numa roda de conversa jamais é aquela que sabe tudo
— essa costuma ser, aliás, a mais entediante. A mais fascinante é a que sabe
conversar, que abre espaço para o desconhecido, que faz de qualquer assunto um
convite. Pode ser um tema que você nunca estudou, nunca viu, nunca tocou… mas
se você tem bagagem, se tem repertório, você encontra uma luzinha ali dentro,
uma memória, um paralelo, um sabor que se conecta e acrescenta algo novo.
E é assim — exatamente assim
— que nasce a criação: desse encontro entre o que vimos e o que ainda estamos
aprendendo a ver.
Isso me lembra do filme A
Substância, lançado em setembro de 2024. Foi um burburinho intenso: uns amando,
outros rejeitando, debates acalorados sobre se falava ou não da “realidade
cruel”. Mas eu, como sempre, me perdi nas referências. Fiquei fascinado pelo
modo como cada escolha carregava ecos de outros mundos, sutilezas que só se
revelam a quem observa com atenção.
Quando estreou, fui
pesquisar, e descobri leituras onde a diretora abriu um pequeno cofre do seu
processo criativo e mostrou o moodboard que havia construído: recortes de
mundos distintos, fragmentos de imagens antigas, trechos de outras artes
entrelaçados com delicadeza quase obsessiva. Cada recorte, cada sobreposição,
cada detalhe parecia sussurrar. E eu entendia: É daqui que nasce a força do
conceito, é daqui que se aprende a dar vida ao imaginário.
Porque qualquer editorial,
qualquer campanha, qualquer filme que se queira vivo, pulsante, antes de
existir como produto acabado, precisa peregrinar por referências. Precisa
atravessar o mundo com os olhos atentos, colher fragmentos de memórias alheias,
sutilezas invisíveis, respiros de culturas e tempos distintos, e só então
começar a esculpir o conceito, como um artesão que molda argila viva, sentindo
sua textura, seu peso, seu potencial de transformação.
Cada referência, pensei, é
uma centelha: não cópia, não repete; transforma, amplia, conecta mundos
distantes em algo que pulsa junto ao presente. E foi nesse sussurro de imagens
e memórias que percebi a alquimia silenciosa que toda criação realmente exige.
Claro que alguns insistem em
dizer que referência é apenas cópia. Mas essa é a fala de quem nunca sentiu a
centelha. Quem nunca percebeu, de repente, um fragmento de algo antigo acender
um fogo novo dentro de si. Quem nunca entendeu que referência não rouba — ela
transforma.
Referência é ponte e espelho
ao mesmo tempo: conecta o que veio antes ao que ainda está por nascer, reflete
camadas escondidas do mundo, e permite que o criador dialogue com tudo o que já
existiu sem jamais se repetir. Cada fragmento ressignificado se torna algo que
pulsa, que respira, que carrega a lembrança e ao mesmo tempo cria espaço para o
inesperado.
É ouvir o canto de um
pássaro que atravessou séculos, e reconhecer nele o mesmo sopro que inspirou
uma melodia humana; é olhar para uma pintura antiga e sentir nos detalhes a
urgência de contar algo inteiramente novo; é percorrer ruas, observar pessoas, texturas,
cores, aromas, e perceber que cada referência é uma semente que, ao tocar sua
imaginação, floresce de maneira única.
Quem diz que referência é
cópia nunca notou o delicado milagre de transformação: o mundo oferecendo
matéria-prima, e o artista — atento, reverente, curioso — devolvendo algo que
nunca existiu antes. Porque, no fundo, a referência verdadeira não se contenta
em repetir; ela liberta.
Falando em criação — e
talvez seja impossível falar de criação sem tocar naquilo que vibra entre o
natural e o humano — você já escutou o som da Matinta Pereira, o pássaro?
Se já escutou, talvez tenha
percebido que o canto da Matinta Pereira — o pássaro verdadeiro, conhecido
cientificamente como Momotus momota, e não a velha bruxa do folclore que se
transforma em coruja e em histórias fantásticas — repete exatamente o mesmo tom
que Tom Jobim transformou em música em Águas de Março.
A mesma nota, o mesmo
chamado, agora transcrito em acordes e melodia humana, como se a natureza
tivesse sussurrado seu segredo ao ouvido de Jobim numa manhã em que o mundo
ainda estava meio adormecido, e ele, atento, captou o pulso desse pequeno
maestro alado.
Eu, sinceramente, já havia
sentido uma pontada de suspeita: aquela melodia de Águas de Março parecia
carregar o eco de alguma nota que eu ouvira nos pássaros, um sussurro da
natureza escondido entre acordes. Mas não tinha certeza. Até o dia em que
decidi observar o mundo com mais atenção — como quem levanta um véu e descobre
que o cotidiano está cheio de pequenos feitiços.
E foi por acaso, vagando sem
rumo pela internet, que encontrei um vídeo de uma mulher comentando exatamente
aquela peculiaridade da música: a mesma nota, o mesmo chamado, repetido pelo
canto real da Matinta Pereira. Fiquei fascinado: não estava sozinho nessa
percepção. Alguém, em algum lugar, também havia notado aquele detalhe sutil, e,
de repente, minha intuição se transformava em certeza, e minhas descobertas
pareciam menos solitárias, mais conectadas ao mundo — como se um fio invisível
unisse observador, pássaro e música em um mesmo instante de atenção.
Como se, por um instante,
nossas percepções tivessem se tocado no ar.
Queria ter salvado o vídeo.
Juro que queria. Mas minha atenção corre como água de rio: a cada minuto, algo
novo surge, me empolga, me leva, me faz imaginar o que poderia se transformar,
o que poderia criar a partir dali… e, quando percebo, o vídeo já se perdeu no
fluxo. Às vezes, faço anotações no celular, capturando pontos que realmente me
cativam — pequenos mapas que depois me guiam em pesquisas, inspirações e até
nas minhas postagens por aqui.
Acontece assim comigo: as
descobertas chegam como fogos de artifício — brilham intensamente, explosivos,
rápidos, quase impossíveis de conter. E é nesse lampejo, nesse instante fugaz,
que sinto a magia de perceber, de conectar, de transformar o mundano em
matéria-prima para o imaginário.
Mas o mais fascinante foi
perceber que Tom Jobim fazia o mesmo. Veja: ele não apenas ouviu o pássaro;
deixou-se atravessar pelo canto, permitiu que a natureza soprasse seu segredo
diretamente em seu ouvido. Transformou aquele chamado selvagem em melodia humana,
capturando o pulso do mundo e transmutando-o em música. Pegou um som que
existia muito antes dele e o reinventou, cheio de delicadeza e sentido — e
isso, convenhamos, é uma referência de primeira ordem. É o mundo oferecendo sua
matéria-prima, e o artista respondendo com atenção, reverência e encantamento,
criando algo que pulsa de vida própria. Eu não poderia deixar vocês na mão, sem
ouvir o que eu ouvi, pelo menos. Então, segue no final do texto o link que vai
ter lá a delicadeza que ele percebeu.
E é importante lembrar que
referência também é potência política — talvez das mais perigosas. Se voltarmos
à Revolução Francesa, por exemplo, veremos isso com clareza quase brutal:
ideias que antes viviam confinadas nos livros, trancadas em bibliotecas e
salões privados, escaparam para as ruas. Tomaram corpo, voz, braços.
Atravessaram classes sociais, misturaram plebe e burguesia, e derrubaram
séculos de privilégios com a força de quem finalmente entende o próprio lugar
no mundo.
A monarquia entrou em pânico
— e com razão. Eles perceberam que gente com bagagem pensa. Compara. Questiona.
Exige. E isso sempre foi perigoso para quem está acostumado a governar pelo
silêncio dos outros.
E até hoje é assim: uma
população com educação assusta. A ignorância é confortável para quem manda; o
repertório, não.
O cantor porto riquenho Bad
Bunny, por exemplo, compreende com clareza essa força viva das referências. No
processo de criação de seu mais recente álbum, Debí Tirar Más Fotos (lançado em
5 de janeiro de 2025), ele tomou uma decisão que poucos artistas têm coragem de
fazer: convocou o historiador Jorell Meléndez Badillo para montar um dossiê
completo sobre sua terra natal, Porto Rico — uma arqueologia afetiva da memória,
da política, da cultura, da identidade.
Não foi só para compor
melodias. Ele quis entender, com profundidade, as camadas políticas, sociais e
culturais de onde vem — porque queria mais do que ritmo: queria significado.
Queria que cada batida, cada letra, cada melodia fosse carregada de raízes,
referindo se a histórias, lutas, raízes vivas.
Bad Bunny percebeu que, sem essa bagagem, sua obra correria o risco de ser um discurso vazio — sem alma, sem corpo, sem origem. Mas ao mergulhar no chão que o formou, ao revisitar o passado da ilha com honestidade e reverência, ele transformou o álbum numa carta aberta: uma homenagem, um grito, uma lembrança.
Não era só ritmo ou melodia:
ele buscava significado, raízes, pertencimento. Queria que cada verso, cada
batida, carregasse um peso ancestral, uma identidade pulsante, viva. Resultado
— DeBÍ TiRAR MáS FOToS foi premiado como Álbum do Ano no Latin GRAMMY 2025.
Isso prova que um trabalho construído com consciência de onde vem pode
transformar sua arte em algo que fala muito além da música — fala de história,
de povo, de memória.
Essa conquista — música
feita com raízes que conquista reconhecimento — reforça a ideia central:
referências não são meras citações, não são cópias vazias. São matéria prima
viva, profunda, que, quando bem manejada, gera significado. O mundo oferece seu
passado; o artista devolve sentido, identidade, resistência — e, quiçá,
eternidade.
E aqui eu preciso lembrar:
referência não é apenas reconstrução do passado. Às vezes ela acontece em
sincronia, como se o mundo inteiro estivesse respirando no mesmo compasso.
Quando todo o planeta
consome as mesmas imagens, músicas e histórias online, duas pessoas podem, sem
nunca terem trocado uma palavra, criar obras que se tocam no espírito, embora
sejam completamente distintas na forma. É o caso de Kelela, com seu álbum Raven
(2023), e Luedji Luna, com Bom Mesmo é Estar Debaixo D’Água (2021). As capas
desses álbuns, diferentes em cores, traços e texturas, revelam mundos
singulares; ainda assim, compartilham uma sensibilidade profunda, um mergulho
na intimidade e na emoção, como se ambas captassem a mesma corrente de
sentimentos que atravessa o tempo e o espaço. Não é cópia. É sintonia
silenciosa — uma reverberação de espírito que se manifesta em formas únicas.
É Zeitgeist — o espírito do
tempo empurrando todos para a mesma direção. É referência coletiva,
convergência criativa, como se a própria época soprasse ideias na orelha de
quem está atento.
O Zeitgeist (se pronuncia em
português tsáit-gáist) palavra alemã que significa, literalmente, “espírito do
tempo”, não trata apenas de moda ou tendência; é o sussurro invisível que
atravessa gerações, a pulsação coletiva que molda pensamentos, sentimentos e
criações antes mesmo de serem conscientes. O Zeitgeist é a corrente que une
mentes dispersas, a atmosfera compartilhada de uma época que todos respiram sem
perceber, o vento que sopra ideias semelhantes em cérebros distintos, mesmo que
nunca tenham se encontrado.
É a referência coletiva em
ação: convergência criativa que não copia, mas reflete o mundo em sua
simultaneidade. É como se o tempo, percebido como entidade viva, respirasse
junto com os artistas atentos, plantando sementes que florescem em músicas,
livros, filmes, objetos, sabores e gestos. Quando uma canção, uma capa de álbum
ou até uma receita parece surgir “ao mesmo tempo” em lugares diferentes, não é
coincidência; é o espírito do tempo se infiltrando nos sentidos, convidando
cada um a traduzir a mesma matéria-prima em cores, sons, palavras ou aromas
únicos.
O Zeitgeist nos lembra que
toda criação está enredada em uma rede invisível de experiências
compartilhadas, que atravessa fronteiras geográficas e culturais. Ele é sopro e
memória, presença e ausência, corrente subterrânea que conecta mundos e
pessoas, mesmo sem que saibamos. É o convite silencioso para estar atento, para
perceber que nada surge isolado — e que, quando conseguimos escutar essa
vibração, nossas próprias referências ganham peso, sentido e vida.
E vale lembrar que a
referência também está na rua — talvez, sobretudo na rua. Viajar, por exemplo,
abre a mente como quem empurra uma janela antiga que sempre esteve emperrada.
Viajar te força a confrontar outras maneiras de existir, outras lógicas, outros
sabores, outras formas de silêncio. E aí você percebe que o preconceito nasce
exatamente disso: da falta de referência, da ignorância confortável de quem
nunca saiu do próprio território emocional.
E vamos combinar… o Brasil
sofre demais com essa falta.
Um país vastíssimo,
exuberante, múltiplo, feito de mil mundos que conversam pouco entre si — e que
raramente se reconhecem. Falta bagagem sobre si mesmo. Falta estrada percorrida
com os próprios pés, falta olhar curioso, falta escuta.
E, no fim, percebi que o
destino em si perde a força. O que verdadeiramente importa não é o lugar onde
chegamos, mas como fomos sendo moldados na travessia. O repertório — esse ouro
íntimo que ninguém nos tira — a gente colhe ao longo do caminho: em cada
parada, cada desvio, cada erro de rota, cada conversa inesperada, cada cidade
que nos atravessa sem pedir licença, revelando suas histórias nos recortes do
cotidiano.
Como disse Ralph Waldo
Emerson, ensaísta e poeta norte-americano, uma das vozes centrais do
Transcendentalismo — aquele movimento do século XIX que celebrava a intuição, a
experiência individual e a profunda conexão do homem com a natureza —: “Life is
a journey, not a destination”. Ou, nas palavras que ressoam com mais doçura em
nosso idioma: “A vida é uma jornada, não um destino.”
Emerson nos lembra, com a
delicadeza de quem observa a vida como um rio que serpenteia, que o verdadeiro
valor da existência não reside apenas em chegar a algum ponto final ou em
conquistar metas específicas. O que realmente importa são os momentos que se
desdobram pelo caminho — as experiências que nos atravessam, os aprendizados
que nos moldam, os encontros que nos transformam e até os pequenos tropeços que
nos fazem sentir vivos.
A vida — com suas curvas e
surpresas — nos convida a viver o agora, a valorizar o trajeto, as pequenas
inquietações, os encontros, os cheiros e sabores que mudam nossos sentidos.
Porque não buscamos apenas
chegar. Buscamos transformar o mundo — e a nós mesmos — no compasso dos passos
vividos. E, se há algo que carrego comigo como certeza, é esta: não é o destino
final que nos define. É a viagem. E todo o ouro de viagens jamais percorridas —
mas já sentidas — está guardado no repertório que construímos, dia após dia.
CUSCUZ: A REFERÊNCIA QUE
ME ALIMENTA
É curioso pensar que, entre
todas as referências que coleciono — entre músicas que sussurram lembranças,
filmes que moldam sonhos, livros que carregam mundos inteiros, pássaros que
atravessam o ar com segredos antigos, revoluções que mudaram o curso da história
e ideias que iluminam pensamentos — uma das que mais me atravessa vem de algo
simples, amarelo e quente: o cuscuz de milho.
Talvez porque, como toda boa
referência, ele não é apenas alimento: ele carrega dentro de si uma viagem
inteira. Cada grão parece guardar ecos de desertos distantes, de mãos que
amassaram a sêmola em pequenas cerâmicas no Magrebe, do sol escaldante da África
do Norte, dos mares que levaram culturas e histórias até chegar à Península
Ibérica, e dali, como quem transporta memórias em navios silenciosos, ao
Brasil.
Aqui, na Terra Brasílis, de
sol largo e abundância vegetal, o cuscuz renasceu. O milho brasileiro, generoso
e dourado, encontrou o toque dos povos indígenas que já o cultivavam, e juntos
reinventaram o prato — que se tornou novo, tropical, vibrante, um território de
sentidos e lembranças. E cada mordida que dou é, de certa forma, uma viagem
pela história e pelas mãos que vieram antes de mim, uma lembrança viva daquilo
que nos atravessa sem pedir permissão.
O cuscuz não é apenas comida
— jamais seria. Ele é uma espécie de alquimia doméstica, uma língua antiga que
dispensa tradução. É memória servida quente, é história que se mastiga, é
cultura que se dissolve na boca antes de se fixar no peito. É pertencimento em
forma de vapor dourado. É referência que pulsa, que se herda como um segredo de
família e que se reconhece antes mesmo de se compreender.
Do milho, um cereal simples
— quase humilde à primeira vista — nascem grãos que, apesar do tamanho,
carregam mundos inteiros. Ali dentro cabe um sol antigo cuidadosamente
aprisionado, uma rota de fuga tecida em silêncio, um mapa invisível de lutas e
resistências que atravessam séculos e geografias sem jamais perder o brilho.
Cada floco amarelo carrega,
silenciosamente, os murmúrios das terras quentes do Nordeste brasileiro —
murmúrios soprados por ventos secos, por roçados antigos, por mãos indígenas
que, muito antes de Portugal sonhar com mapas, já conheciam a alma do milho. O
grão não chegou de fora; já estava aqui, soberano, plantado, colhido, comido. O
que atravessou oceanos não foi o milho — foi a ideia. A técnica. O gesto
ancestral de transformar pequenos grânulos em sustento ao vapor, trazido na
bagagem africana e nos ecos do cuscuz de sêmola que percorreu séculos no
Magrebe e na Península Ibérica.
Assim, quando o mundo se
encontrou nesta terra de luz desmedida, algo extraordinário aconteceu: o milho,
já íntimo e abundante, encontrou uma nova forma de ser. E aquelas mulheres —
indígenas, negras, mestiças — que pilavam o milho demolhado em pilões altos ou
ralavam-no em latas de óleo furadas com pontas de prego, transformadas em
raladores, sob o peso do sol e dos dias árduos, deram aos grãos de milho um
novo destino. No ritmo repetido de seus braços, o Nordeste inteiro parecia
vibrar: o som do pilão batendo era música, era resistência, era prece.
E foi nesse encontro — entre
o milho que já era nosso e a técnica viajante que chegou de longe — que o
cuscuz renasceu. Não apenas se adaptou: renasceu. Renasceu com a teimosia
luminosa das coisas simples que recusam morrer; renasceu como quem recebe um nome
antigo e o molda ao próprio corpo. Renasceu trazido pelas mãos indígenas,
aquecido pela criatividade africana, temperado pela nostalgia portuguesa — até
tornar-se, enfim, aquilo que hoje defendemos com fervor quase religioso nas
mesas de domingo: um alimento que nutre, sim, mas sobretudo desperta memórias.
E como toda coisa viva —
porque referências são vivas, inquietas, indomáveis — o cuscuz não ficou preso
no tempo. Ele se espalhou pelo país como quem cria raízes e asas ao mesmo
tempo, ousando existir em cada canto, em cada mão que o molda. Mudou de cor, de
textura, de intenção; reinventou-se com a confiança insolente dos pratos que
sabem seu próprio valor, que carregam histórias sem precisar se desculpar.
Multiplicou-se: versões de
milho, de arroz, de mandioca, de amendoim, de inhame — cada uma guardando o
sotaque, o cheiro, o toque da terra onde nasceu. Tornou-se doce ao encontro do
leite de coco e do açúcar; flertou com o absurdo delicioso do leite condensado;
experimentou encontros inesperados e provocativos; e até gerou sua cria mais
polêmica, o cuscuz paulista — amado, odiado, defendido com a intensidade de
quem torce por time de futebol, como se cada garfada fosse bandeira e
manifesto.
Porque referência boa, essa
sim, nunca é neutra: ela provoca, ela desafia, ela convida ao debate, à
memória, ao gesto de se inclinar sobre a mesa e prestar atenção. Ela provoca
sorrisos cúmplices e olhares indignados, desenterrando histórias esquecidas e
desejos antigos. E o cuscuz, com sua simplicidade exuberante, me lembra disso:
que a cultura é movimento, que tradição e invenção coexistem como amantes
secretos, e que aquilo que amamos realmente — seja música, seja comida, seja
palavra — carrega sempre mais do que supomos, mais do que cabe no prato, mais
do que nos atrevemos a dizer.
Ele é, afinal, como toda boa
referência: um fio invisível que atravessa o tempo, conectando o que veio antes
de nós, o que criamos hoje e o que ainda ousaremos inventar. Um floco de milho
quente e amarelado, carregado de história, de mãos que trabalharam, de risos e
suor, de sol e vento, capaz de nos ensinar que, no fim das contas, existir é
reinventar, e recordar é criar novamente.
O cuscuz desperta paixões
antigas e discórdias festivas. Rios de debates surgem entre garfadas, e risos
se misturam a olhares cúmplices de quem reconhece ali mais do que sabor:
reconhece memória viva.
E talvez seja exatamente
isso que transforma o cuscuz em algo além de alimento: um gesto ancestral
reencarnado na cozinha moderna, um fragmento de história que se dobra sobre si
mesmo, carregando ecos de mãos que trabalharam ao sol, de mulheres que ralavam
o milho em pilões improvisados, de povos que atravessaram oceanos e desertos
para encontrar novas terras.
Um grão modesto, amarelo e
quente, capaz de lembrar que criação e pertencimento não surgem do nada. Que
tudo o que amamos, tudo o que nos move, é tecido por camadas invisíveis de
histórias, acasos, culturas e coragem — e que, ao saboreá-lo, nos tornamos parte
dessa rede silenciosa. Um fio que liga passado e presente, mãos e bocas,
memória e invenção.
O cuscuz me ensina que
existir é reinventar, que cada gesto na cozinha — cada vapor que sobe, cada
toque de panela — é ritual, memória e celebração. Que a tradição não é prisão,
e que a simplicidade pode carregar universos inteiros. E, ao final, percebemos:
não estamos apenas comendo. Estamos participando de um abraço invisível que
atravessa séculos, continentes e vidas. Somos continuidade, somos testemunhas,
somos cúmplices dessa história em cada floco dourado.
E, sendo brasileiro, não
poderia esquecer das farofas, que também podem nascer do cuscuz. No início, a
farofa era esplendor indígena: nossos ancestrais do Norte do Brasil tostavam a
farinha de mandioca com a gordura de tartaruga no casco do próprio animal —
gesto que era ao mesmo tempo sobrevivência, alquimia e poesia comestível. Uma
técnica que, desde a existência dessa farofa ancestral, gerou milhões de
variações possíveis, todas filhas da mesma inventividade que nos guia há
séculos.
E então, o cuscuz quente
chegou à mesa, dourado e perfumado, e alguém, com a ousadia própria de quem
inventa sem pedir licença, percebeu que poderia virar farofa. Foi nesse
instante que uma nova vida se abriu: possibilidades se multiplicaram, texturas
se entrelaçaram, sabores se cruzaram. O simples floco amarelo, que já carregava
oceanos, mãos, histórias e memórias, encontrou uma nova forma de existir, mais
solta, mais crocante, mais brincalhona.
Assim, o cuscuz-farofa se
tornou ritual e invenção, memória e novidade. Um testemunho silencioso de que
toda criação brasileira nasce do improviso, da coragem de tocar o que já existe
e transformá-lo, sem perder a essência, sem trair a origem. É herança que se
reinventa, uma dança contínua entre passado e presente, entre mãos que moldaram
o mundo antes de nós e bocas que o celebram hoje.
A farofa de cuscuz me lembra
que pertencimento não é apenas um ponto no mapa, mas uma trama de tempo e
memória, uma linha invisível que une quem veio antes de nós ao que nos tornamos
hoje. Cada grão de milho, cada floco de farofa, cada massa amarela e quente
carrega lembranças temperadas — mãos que moeram ou peneiraram o milho,
fogueiras que aqueceram, mesas que acolheram famílias, amigos, vizinhos,
desconhecidos. E, ao tocar esses gestos, sinto que somos parte de algo maior,
respirando na mesma cadência das gerações que nos precederam.
E, de repente, um prato
simples se torna mapa e bússola. Ele me ensina sobre paciência — porque cuscuz
bem feito exige cuidado, atenção ao detalhe, respeito pelo ingrediente. Ensina
sobre adaptação — porque, ao longo dos séculos, encontrou novos sabores, novos
cheiros, novas combinações. Ensina sobre resistência — porque, mesmo diante de
mudanças e desafios, permanece essencial, reconhecível, vivo.
O cuscuz é, portanto, mais
que comida. É referência viva. É história. É cultura. É memória que se mastiga,
se cheira, se sente na boca e no corpo. É repertório comestível, ouro íntimo,
mapa do mundo que carregamos conosco, em cada refeição, em cada lembrança, em
cada gesto que conecta passado, presente e futuro.
E, ao comer cuscuz, sinto
que me alimento da própria história do mundo — e, ao mesmo tempo, deixo um
traço sutil, invisível, mas presente, nessa mesma história. Porque é isso que
as referências fazem: atravessam gerações, transformam sentidos, retornam reinventadas
e continuam a pulsar.
Meu avô paterno, Mário,
chamava cuscuz de “pão de milho”. E isso fazia todo sentido.
No Brasil antigo, o milho —
assim como a mandioca — carregava consigo o ofício do pão, o sustento do campo,
a intimidade da vida rural. Era alimento, mas também era história, memória e
hábito. Ainda não havia farinha de trigo em larga escala, nem padarias a cada
esquina. O que havia eram mãos que sabiam transformar grãos em vida.
Meu avô, meticuloso e
paciente, começava o dia com seu chá de erva-cidreira cedinho, acompanhando a
tapioca sem sal que ele amassava como quem acaricia lembranças. Mas, no final
da tarde, ele desejava seu pão de milho. Às vezes o fazia com as próprias mãos,
como se, naquele gesto simples, mantivesse a continuidade da família, da casa,
da própria terra.
Quando percebi o ritual que
ele seguia, algo que me encantava pela simplicidade quase mágica: ele amanhecia
preparando sua tapioca sem sal e o chá de erva-cidreira, um gesto que era só
dele, seu pequeno território de pertencimento, sua referência íntima de comida
identitária.
E então, alimentado, antes
de ir aos sítios para administrar os trabalhadores, partia para a padaria
trazer o pão de trigo para toda a família — o novo, o “luxo” cotidiano, que
chegava quentinho e silencioso à mesa, com tipos diferentes para agradar a todos,
e deixava na mesa da cozinha sem pedir reconhecimento. Um gesto aparentemente
simples, mas carregado de profundidade: ao mesmo tempo em que permanecia fiel
às suas próprias raízes, oferecia aos outros um presente discreto, uma
indulgência silenciosa, um afeto sem alarde. Antes mesmo de cruzar a soleira da
porta, já havia cumprido seu pequeno rito, erguendo, invisivelmente, uma ponte
delicada entre quem ele era e o que desejava oferecer ao mundo que o cercava.
Mas meu avô tinha um segredo
para o seu cuscuz da tarde. Misturava à massa de milho demolhada um pouco de
farinha de mandioca fininha. Dizia que era para dar mais liga. E, de fato, o
cuscuz ficava coeso, quase grudando nos dedos, com aquela densidade que falava
de histórias invisíveis, de gerações, de sol, vento e suor. Era um pão que
contava, sem palavras, a memória da casa.
Eu, por minha vez, sigo um
caminho diferente. Gosto do cuscuz bem hidratado. Mas, leve e soltinho. Meu
segredo não está na farinha de mandioca, mas no equilíbrio sutil: duas pitadas
de açúcar para cada pitada de sal. Não se assustem — não fica doce. Fica umami,
irresistível, um abraço inesperado que aquece a boca e o coração ao mesmo
tempo.
E é nesse contraste — entre
o pão de milho firme do meu avô e o meu cuscuz leve e umami — que sinto a
travessia do tempo. Entre sabores, texturas e gestos, cada mordida é um diálogo
entre gerações, uma memória compartilhada, um afeto transmitido, invisível, mas
profundo.
Cada mordida é uma pequena
lição de mundo. Cada floco quente, cada aroma que sobe da panela, conecta-me
com aqueles que vieram antes, com o solo que gerou o milho, com o sol que
dourou as lavouras, com a água que molhou a terra. É uma geografia comestível:
cores, cheiros, texturas e memórias que se entrelaçam em cada gesto, em cada
instante, lembrando que o passado e o presente coexistem no mesmo prato.
E, ao mesmo tempo, é
intimamente pessoal. É minha boca reconhecendo história, meu corpo sentindo
pertencimento, minha memória provando que referências não se perdem — elas se
incorporam, se transformam, viram parte de quem somos. Comer cuscuz é lembrar que
a cultura é viva, que atravessa gerações e continentes, que se reinventa sem
perder a essência.
No fim, é isso que me
fascina: o cuscuz de milho é simples, mas nunca simplório. É cotidiano, mas
nunca comum. É alimento, mas também é repertório. Cada ingrediente, cada
técnica, cada escolha — desde o tipo de milho até a intensidade do fogo — é um
gesto de referência. E cada gesto carrega a força de mãos que nos ensinaram,
sem saber, a reconhecer o mundo e a nós mesmos.
O cuscuz me ensina que
identidade se constrói na soma de detalhes, na atenção às raízes, na capacidade
de transformar heranças em experiências vivas. E que, quando feito com cuidado,
mesmo algo tão modesto quanto um grão de milho pode se tornar poesia.
E talvez por isso ele me
comova tanto: porque, assim como eu, ele é feito de caminhos. De travessias. De
camadas que o tempo não apaga.
CONCLUSÃO, OU, O OURO ÍNTIMO DAS PEQUENAS
FOMES
No fim — sempre há um fim,
ainda que ele seja apenas mais uma dobra da travessia — percebo que tudo aquilo
que chamo de mundo talvez não passe de um vasto banquete de referências.
Um banquete que não se
encerra, que não se explica, que não me pede licença para me atravessar. E eu,
humilde conviva, mastigo o que posso: memórias, músicas, grãos de areia, grãos
de milho, o eco de revoluções, o sussurro de pássaros, a centelha de filmes, a
ousadia de discos recém-nascidos, o Zeitgeist que me empurra pelas costas como
uma brisa impaciente.
E é engraçado — quase
irônico — pensar que foi o cuscuz, entre todas as grandezas que persegui como
um arqueólogo de perfumes e rumores, quem se sentou ao meu lado para me revelar
o essencial. Ele, pequeno e dourado, sem alarde, sem etiqueta dourada, sem a
pompa dos cristais daquela festa. Ele, que nunca exigiu entusiasmo, mas sempre
ofereceu pertencimento. Ele, que não precisa ser entendido para ser sentido.
Talvez seja isso o que posso
chamar de verdade: o alimento que se confunde com afeto, que se insinua entre
memória e desejo. E talvez um sorriso discreto — meio sombra, meio confissão —
se formasse ao perceber que, na minha mesa, como em tantas outras, o simples é
sempre um portal disfarçado, um segredo escondido à vista de todos.
Percebo, então, que minhas
referências são como aquele salão da primeira noite: começam intimidando,
depois me observam, e por fim me convidam para dançar. Cada uma traz seu
fragmento de mundo, sua luz, sua sombra, sua música. Cada uma me costura em
silêncio, como quem borda à mão um tecido antigo com fios novos, repaginando
séculos em segundos. No fim da noite — ou da vida, quem sabe — somos todos
feitos dessas costuras.
E talvez seja por isso que o
cuscuz me comove tanto: porque, entre tudo o que encontro e tudo o que me
encontra, ele é a metáfora perfeita daquilo que me tornei. Sou feito de
travessias, de mãos que não conheço, de vozes que atravessaram desertos, florestas,
mares e séculos para pousar, enfim, em mim. Sou feito de grãos herdados, de
histórias que não me pertencem, mas que me reclamam. Sou feito da coragem de
transformar o que recebo — e da delicadeza de não esquecer de onde veio.
No fundo, descobri que viver
é exatamente isso: cozinhar-se aos poucos.
Temperar-se de referências.
Fermentar-se de memórias.
Servir-se ao mundo com
aquilo que se colheu — e torcer para que alguém, em algum canto, prove e
reconheça um sabor familiar, algo que acenda uma luzinha interna, uma lembrança
de infância, um eco de eternidade.
E se há algo inesquecível
nessa jornada — nesse buffet de mundos, nessa travessia de atenções, nessa
poética dos detalhes — é compreender que, no final do dia, não somos a festa,
nem a roda de conversa, nem o uísque envelhecido, nem o gênio acidental de unir
pessoas desconhecidas.
Somos o cuscuz.
Simples, ancestral,
transformado e transformador.
Reinvenção viva, quente,
amarela, resistente.
E que sorte — que bênção,
que privilégio — descobrir que, sendo feitos de grãos tão pequenos, ainda assim
carregamos universos inteiros. É quase cômico, eu admito.
Mas profundamente
verdadeiro.
Porque, no fim, a beleza do
mundo não está nas grandes estruturas, nas teorias vastas, nos salões
iluminados — mas nas minúcias que sabemos amar.
E, se existe alguma moral
nessa epopeia de referências, talvez seja apenas esta: não é o mundo que me
alimenta; são as referências que me cozinham.
E, com elas, eu sigo —
quente, atento, em travessia constante.
Sempre pronto para a próxima
mordida.
Farofa de Cuscuz do Barão de Gourmandise
150g de bacon em cubinhos
1 cebola média fatiada em meias luas
finas
1 cenoura média ralada no ralo grosso
1 xícara de milho verde (pode ser fresco
ou de lata, escorrido)
3 folhas de couve fatiada fininha
2 dentes de alho picadinho
1 cubinho de caldo de galinha
1 xícara de flocão de milho
¾ de xícara de água
Sal e pimenta-do-reino a gosto
Preparo: Eu começo pelo cuscuz: pego uma xícara de flocão de milho e coloco numa tigela, adicionando duas pitadas de açúcar branco — os outros tipos deixam um gosto residual estranho — e uma pitada de sal. Acrescento três quartos de xícara de água, misturo delicadamente e deixo descansar por 15 minutos. Esse tempo é essencial: é ele que garante a textura correta, o corpo macio e solto do cuscuz. Passados os 15 minutos, coloco a mistura para cozinhar no vapor por mais 15 minutos. E então vem a recompensa sensorial: o aroma quente e doce do cuscuz cozido, que invade a cozinha, anunciando que está no ponto perfeito e que é hora de desligar o fogo. Enquanto ele cozinha, preparo os ingredientes da farofa. Numa panela grande, começo pelo bacon, deixando-o dourar até ficar estaladiço; depois, retiro e reservo. Na mesma panela, aproveito o óleo que sobrou do bacon para dourar o alho, adicionando a couve em seguida. Mexo rapidamente por um minuto, até que a couve adquira um verde profundo e vibrante, e então retiro do fogo e reservo. Volto à panela, coloco a manteiga, acrescento a cenoura e tempero com sal e pimenta-do-reino. Refogo por cerca de três minutos antes de adicionar a cebola fatiada, deixando-a suar até ficar translúcida e perfumada. Em seguida, junto todos os ingredientes reservados, incorporando-os ao refogado com cuidado e atenção. Por último, tiro o cuscuz ainda quente da cuscuzeira e o adiciono à mistura, desfazendo-o com um garfo, incorporando cada floco, respeitando sua textura, até que tudo esteja perfeitamente integrado. Finalizo com coentro picado e sirvo. Eu gosto de acompanhar com um ovo de gema mole, mas confesso: sozinho, o cuscuz já é uma maravilha. Cada mordida é quente, terna, e carrega um pouco de história, de cuidado, de sabor que atravessa gerações.

























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